Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Reflexões à volta da ideia de Munchau: a Europa em 2013 será igual à de 2011- parte 1

Enviado por Júlio Marques Mota
Um texto feito a partir de um outro texto, de Wolfgang Munchau, “Trabalhar e viver na confusão, na desorientação, não é opção”, Financial Times.

No mundo, nenhuma organização política é tão hábil como a União Europeia quando se trata de viver na confusão, na desordem. Ninguém a bate. Para que 27 Estados-Membros estejam de acordo, a arte do compromisso é fundamental. Viver na confusão serviu muito bem à União Europeia ao longo destes anos.
O acordo alcançado pelos Chefes de Estado e do Governo da União Europeia no princípio da manhã de Sábado (dia 12 de Março) é uma esperteza política no quadro da confusão habitual da União Europeia. Angel Merkel alcançou exactamente o que precisava: um acordo em que limita a responsabilidade financeira da Alemanha. Os outros que aguentem as suas consequências. Alguns detalhes técnicos importantes têm ainda que ser trabalhados, melhor definidos, mas o essencial do acordo está alcançado.

Infelizmente, ninguém pode viver na confusão e na desordem em tempo de crise

Há, essencialmente, duas maneiras de resolver uma crise da dívida: seja com um resgate financeiro, dito também de ajuda financeira, seja alternativamente com uma situação de não pagamento, de incumprimento das suas obrigações contratuais. Ou ainda com uma combinação inteligente das duas vias, se sabe bem o que se está fazer. Neste caso, por exemplo, pode contar-se com o apoio da União Europeia não só para renegociar a respectiva dívida como proteger o país dos ataques e das dificuldades que imediatamente começarão a surgir. Se continua a fazer como a União Europeia, a fazer as coisas na confusão e na perspectiva de mais curto prazo, sem medir as consequências futuras das decisões, bom, então o mais certo é acabar numa situação de incapacidade total em pagar, a situação de incumprimento total que ao escolher as duas vias em conjunto se queria evitar. Cuidado, com o fogo não se brinca.

 

Assim, até onde nos levará este acordo? Para responder à questão, é importante compreender dois ou três aspectos técnicos do mecanismo de estabilidade financeira acordado a 12 de Março. O actual mecanismo de estabilidade financeira (FEEF – Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) é válido até 2013. Com ele concedem-se créditos aos países com problemas da dívida pública e, em breve, poder-se-á comprar títulos da dívida soberana nos mercados primários. Para isso, foram precisos quase três anos durante os quais um punhado de gente se esteve brutalmente a enriquecer, dada a forte diferença entre as taxas de juro obtidas junto do Banco Central Europeu e as taxas que a seguir os Estados soberanos pagavam por esse dinheiro, no seu refinanciamento da dívida soberana. Três anos de confusão para uma coisa que parece tão simples e que continua por alcançar: financiar no espaço da União a dívida soberana e à mesma taxa. Afinal, esta União é apenas a des(União) de um somatório de países que devem concorrer uns contra os outros, mesmo quando à beira do abismo.

 

Na linha do FEEF, todos os créditos têm o mesmo direito relativamente aos seus devedores, todos os credores estão sujeitos às mesmas condições, todos serão atingidos da mesma maneira. Sejamos mais claros, para perceber o grande salto que à senhora Merkle convinha. Imaginemos que a Grécia se declarou, hoje, em situação de incumprimento. Consequências imediatas, do ponto de vista da dívida soberana e que tenha a ver com o mecanismo estabelecido pelo FEEF? Neste caso, seria imediatamente feito uso das garantias financeiras dadas pela Alemanha e pela França a este mecanismo de estabilidade financeira. Estes países substituíam a Grécia no pagamento aos grandes investidores que se lançaram nesta aventura, que colocaram de joelhos a Grécia e embolsaram o mais possível. Imaginemos só, por exemplo, os milhões de CDS sobre títulos que se não tinham, e que aí se cobrariam ao valor facial, imagine-se a vigarice de tudo isto que vigarice não é, é apenas um produto dos mecanismos da concorrência, onde ganha quem sabe entrar e sair no e do mercado na melhor altura. Estaríamos perante um desastre, desastre para a Grécia, desastre para Sarkozy, desastre para a senhora Merkle. Seria um desastre político. Na Alemanha, os conservadores alemães, ainda mais à direita de Merkle, e os Verdes também, estes agora à esquerda, gritariam que se estaria perante uma transferência de rendimentos para a União, proibida pelo Tratado pois o bailout é expressamente proibido, e queixar-se-iam a seguir da senhora Merkle ao Tribunal Constitucional. Conclusão desta pequena história: nenhum país que subscreveu o FEEF está interessado numa situação de incumprimento de ninguém até 2013, em particular a Alemanha.

 

 

______________________________________________

[1] Aqui uma interrogação: o que é vai acontecer ao sistema financeiro, dado a enorme presença de CDS nestes mercados e dada a alteração qualitativa que os títulos actuais virão a ter? Será uma situação de acontecimento de crédito? Se o for, não haverá bancos que irão à falência? Não terão, de novo, necessidade de serem recapitalizados? Relembramos aqui que no mundo opaco dos CDS muitas vezes a definição do que é um acontecimento de crédito não é fácil, dá origem a mega-processos jurídicos. Confusões que a este nível já aconteceram e relembramos que, com títulos soberanos, está nas nossas memórias o que aconteceu com a Rússia em 1998 e com a Argentina em 2001.

publicado por Luis Moreira às 20:00

editado por siuljeronimo às 19:06
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011

Crise da zona Euro - 1 - por Henri Sterdyniak

Enviado por Júlio Marques Mota

Traduzido por António Gomes Marques

 

Crise da zona euro

 

O jogo dos mercados financeiros e a cegueira das instituições europeias conduzem à catástrofe. É urgente mudar de Europa.
Henri Sterdyniak
sterdyniak@sciences-po.fr.
Dezembro de 2010
www.atterres.org.

 

Depois da crise financeira, depois da crise económica, a zona euro conhece desde há nove meses até agora uma crise específica: os mercados financeiros especulam contra as dívidas de certos países da zona. Estes mercados imaginam uma cenário catástrofe de desaparecimento da zona e exigem fortes prémios de risco para deterem os títulos das dívidas públicas dos países que consideram à beira da falência. Os mercados jogam assim sobre as falhas da organização da zona euro onde os Estados deixam de estar seguros de se poderem financiar. A Europa foi incapaz de reagir: o Banco Central Europeu (BCE) e os Estados-Membros não levaram a efeito e com a energia necessária as políticas requeridas para evitar uma maior diferenciação nas condições de financiamento entre os países; os Estados-Membros deram apenas prova de uma solidariedade tímida e condicional que confortou os mercados no seu sentimento de fragilidade da zona; a Comissão e os Estados Membros obrigaram os países ameaçados a levar a efeito políticas insustentáveis de redução rápida dos seus défices públicos.

A crise pode ter três saídas. Seja a continuação da política actual que provoca um crescimento duravelmente fraco na Europa, particularmente nos países do Sul; os mercados não são tranquilizados; o cenário de rompimento da zona não é afastado. Seja os países do Sul deixam a zona euro, o que provocaria um novo choque financeiro na Europa e seria o toque de finados para as ambições da construção europeia. Com efeito, a única estratégia duradoura é a da mudança do funcionamento da zona pela fixação de uma solidariedade financeira sem falhas, a luta contra a especulação financeira com a colocação de novos circuitos de financiamento, e com a criação de uma estratégia macroeconómica coordenada.

Os jogos dos mercados financeiros

A fase actual do capitalismo, o capitalismo financeiro, caracteriza-se pelo desenvolvimento prodigioso dos mercados financeiros onde massas enormes de capitais estão perpetuamente à procura de colocações mais rentáveis, mais líquidas e o menos arriscadas possíveis, enquanto os fundos especulativos (hedge funds) e os especuladores (traders) tiram partido da volatilidade dos mercados para organizar operações fortemente rentáveis.

Mas como encontrar a contrapartida: emprestadores sem risco e créditos a serem pagos a taxas de juro importantes? É necessário obrigatoriamente um montante enorme de dívidas face a um montante enorme de activos financeiros. Os prestamistas, os mutuantes, querem investir somas importantes, mas preocupam-se seguidamente com o facto de que os emprestadores, os mutuários, estarem demasiado endividados; procuram rentabilidades elevadas, mas estas fragilizam os emprestadores; é a maldição do devedor, do mutuário.
Os países, as empresas ou as famílias que beneficiam de contributos importantes de fundos externos estão fragilizados, dado que se tornam fortemente endividados e dependentes dos mercados de capitais: é a maldição do mutuário, do devedor.

ão governável.

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Terça-feira, 22 de Março de 2011

Reforma do Tratado : uma Europa mais solidária …com os mercados? - por Economistas Aterrados

Enviado por Júlio Marques Mota

 

Reforma do Tratado : uma Europa mais solidária …com os mercados?
Um texto dos Economistas Aterrados
 Março 2011.

 

Entrado em vigor desde há pouco mais de um ano, o Tratado de Lisboa vai já ter que ser urgentemente modificado. Este proíbe, de facto, aos países da zona euro ajudarem um ou outro país membro da zona. Ora, na Primavera de 2010, foi mesmo necessário ter de improvisar em situação de catástrofe um “Fundo Europeu de Estabilidade Financeira” para permitir à Grécia, depois, imediatamente a seguir, à Irlanda continuarem a honrar o serviço da sua dívida pública. Esta violação manifesta do Tratado foi criticada pelo Tribunal Constitucional alemão, que exigiu a sua reforma para que este esteja em conformidade com a realidade. Mas as reformas anunciadas não vão somente perpetuar o Fundo, rebaptizado Mecanismo Europeu de Estabilidade. Vão também - e sobretudo - perpetuar a tutela dos interesses financeiros sobre as políticas económicas dos Estados europeus.
A “ disciplina dos mercados” abriu falência…

 

A estranha cláusula “de não salvamento” (No bail-out), introduzida desde o tratado de Maastricht que fundou o euro, parece incompreensível ao cidadão comum. Porquê proibir aos Estados que unem as suas moedas de se ajudarem mutuamente? Com efeito, a cláusula reflectia a obsessão neoliberal de impor aos Estados a disciplina dos mercados financeiros. Com a proibição feita (pelo mesmo tratado de Maastricht) de se poder recorrer ao Banco Central Europeu para financiar os seus défices, os Estados foram obrigados a contrair empréstimos nos mercados. É-lhes necessário por conseguinte satisfazer os critérios e exigências da indústria financeira e das agências de notação, de rating. Proibir a ajuda entre Estados, é obrigar cada um a apresentar-se sozinho na frente do tribunal dos mercados. Cada Estado deve, por conseguinte, respeitar rigorosamente a sua lei: reformas fiscais favoráveis aos rendimentos do capital, redução das despesas públicas, flexibilidade, privatizações… Os mercados punirão qualquer Estado “ laxista” com taxas de juro elevadas (os chamados prémio de risco) que os obrigarão a entrar no bom caminho.

 

Este brilhante dispositivo desmoronou-se com a crise financeira. Esta demonstrou-o mais uma vez: os mercados financeiros não são nem eficientes nem racionais, é pois aberrante confiar-lhes a tutela das políticas económicas dos Estados. Como esperar dos mercados especulativos, instáveis, de comportamento como o dos carneiros de Panurge, erráticos, variando entre fortes situações de expansão, os booms, e fortes períodos de recessão, que disciplinem seja o que for? No entanto, nenhuma lição foi tirada deste falhanço previsível e anunciado. Antes de 2008, os défices orçamentais estavam contidos, ainda que as reformas fiscais favoráveis às classes de mais elevados rendimentos tenham corroído as receitas dos Estados. É a crise financeira que dramaticamente aumentou a dívida e os défices. E é ainda à finança desregulada que se pede para financiar os défices que provocou! Um caso particularmente delirante é o caso da Irlanda: o seu brutal plano de austeridade visa financiar em capitais os bancos irlandeses de modo que os seus erros e vigarices não custem um cêntimo de euro aos seus credores e, principalmente, aos bancos europeus. Mas o caso grego também não é muito diferente, onde o FMI e a Comissão Europeia impõem privatizações, baixas dos salários e das pensões, simplificação dos despedimentos… ainda e sempre para garantir aos credores um reembolso a pronto e na totalidade sobre o valor da dívida pública.

 

 

ra a implosão.

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Domingo, 6 de Março de 2011

Manifesto de economistas alemães sobre a crise na Europa

Apresentação de Júlio Marques Mota

Com este texto apresentamos mais um documento de economistas de raiz  tecnocrata, documento sério à procura de soluções  mas dentro do sistema . Documento  que nada tem a ver com os silêncios sepulcrais da Comissão Europeia sobre o drama que a Europa atravessa. Referimo-nos  a este documento como de profunda raíz tecnocrata, porque  procura a solução dentro do sistema e nesta solução vejamos a  resposta que dá para o delicado problema da competitividade que urgentemente no quadro da crise terá que ser resolvido:
“Depois  de um procedimento de reescalonamento da sua dívida, como é que um Estado sobreendividado  pode reencontrar a sua competitividade? É uma importante questão. Dado que a pertença à zona euro não permite desvalorizações nominais, a competitividade internacional dos Estados atingidos  pode ser restaurada através  de reformas estruturais. O FMI tem uma vasta experiência neste domínio e pode fornecer uma assistência técnica e administrativa, por exemplo no domínio da administração fiscal. No entanto, as reacções derivadas da recessão provocada pelo  ajustamento estrutural não serão completamente evitáveis.”
Aos leitores do Estrolábio desejo boa leitura dos três documentos.

Júlio Marques Mota




Zona Euro

Manifesto de economistas  alemães sobre a  crise da dívida soberana na Europa
Andreas Haufler   Bernd Lucke   Monika Merz   Wolfram F Richter

 

 Em Maio de 2010, a UE criou um fundo de salvação, de uma duração de três anos, para os membros sobreendividados  da zona euro. Alguns propõem hoje aumentar as reservas deste fundo e dar-lhe um carácter permanente para ajudar os países confrontados com crises de liquidez. Infelizmente, procura-se em vão uma justificação convincente para  estas duas propostas. Não é evidente que os riscos já presentes foram avaliados realisticamente e que disposições adequadas estiveram previstas no caso o fundo de salvamento falhar.

 

O volume actual do fundo de salvamento, com o rating AAA, excede em  quase 80% as necessidades de refinanciamento acumuladas da Irlanda, Portugal e a Espanha até em 2013. Nestas condições vê-se mal porque seria necessário aumentar as reservas deste fundo. Para apoiar os Estados sujeitos  a crises de liquidez, o fundo de salvamento não é necessário porque eles estão em condições de se entenderem  com os seus credores para reestruturar a sua dívida pública sem necessariamente estar a alterar o valor actualizado. Se em contrapartida os seus credores não estiverem  convencidos que estão a enfrentar uma simples rarefacção de liquidez,  então estes Estados devem ser considerados como insolventes. Se a UE garantisse a solvabilidade de Estados realmente insolventes, isto teria consequências fortemente  negativas.

 

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 5 - por Júlio Marques Mota

(Continua)

 

O tsunami silencioso e os direitos dos trabalhadores na Europa

 

Senhor Presidente, enquanto se dá esta desindustrialização, o tsunami silencioso avança, invade a vida daqueles que pouco mais têm que isso, daqueles que não têm meios próprios para viver, daqueles que vivem da riqueza por eles e para outros criada e, muitas vezes, daqueles cuja própria dignidade profissional, por anos de lutas conquistada e pela pressão de agora começam a sentir esmagada. Que o digam trabalhadores da Fiat quando afirmam: “é garantido que votarei sim, que querem que eu faça, tenho uma família”, é garantido que aceitaremos as condições impostas por Sergio Marchionne, patrão da Fiat, é garantido que perderemos os nossos direitos para salvar o emprego. Esta foi a chantagem da Fiat, ao ameaçar não investir na Itália, mas na Polónia; com isto, e mais uma vez, se descobre que a concorrência da União Europeia, do seu Presidente, que os seus mecanismos, preenchem os invernos do nosso descontentamento; esta é a concorrência pelo custo salarial mínimo, assente no mínimo de direitos possíveis em que se pode trabalhar. Mudarmos de produção e de multinacional e tomemos, por exemplo, o que se passou com a General Motors em Estrasburgo. Também aqui os trabalhadores aceitaram perder parte dos seus direitos para conservarem os seus postos de trabalho. Estes disseram sim à compra da unidade fabril pertença da General Motors Corporation, a antiga General Motors, pela General Motors Company, a nova General Motors, disseram sim numa maioria de mais de dois terços. Mas, a General Motors Company apenas compraria esta unidade fabril, especializada na produção de caixas de velocidades automáticas, à General Motors Corporation, se e só se os custos de mão-de-obra baixassem cerca de 10%, de modo a reduzir a diferença de competitividade com uma unidade fabril do mesmo grupo que produz as mesmas caixas no México. Foi a estas condições que a maioria dos trabalhadores disse sim! Tristeza bem amarga de um trabalhador desta unidade fabril que recusava que se tivessem de comparar aos trabalhadores que se exploram no México ou na China, mas na verdade era o que estava a ser feito, era o que estava a ser feito e a um passo, portanto, de se tomar como referência os custos de produção na China. Será, pelos vistos, uma questão de resistência ou de não resistência, uma vez que o mercado é global, regido pela lei do custo mais baixo, do custo de produção mínimo e independentemente da forma como esse custo é obtido.

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 12:01
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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 4 - por Júlio Marques Mota

(Continuação)

O tsunami está inserido na economia global e nas suas Instituições

 

Senhor Presidente, para se chegar à situação presente como expressão lógica do modelo seguido foram décadas de trabalho intelectual dos altos-quadros da Comissão Europeia e dos seus organismos a cavarem o vazio teórico de que todos nós nos ressentimos hoje, e a ficarem dele prisioneiros, sem percepção da realidade que lhes cabe prevenir ou, em suma, lhes cabe assumir. E ao cavá-lo fazem-nos com uma linguagem formalmente elegante, conceptualmente falsa ou vazia. Verdadeiro e eficaz tsunami, mas silencioso para mais duradoiro e eficaz ser ainda. Vale a pena retomar aqui um excerto da entrevista dada recentemente por Helmut Schmidt:

 

P. A Grécia e Portugal integraram a união monetária com uma balança externa mais ou menos equilibrada: os seus activos externos e as suas dívidas externas eram mais ou menos equivalentes. Seguidamente, registaram anualmente, durante uma dezena de anos, défices da balança corrente que equivalem a 10% do seu PIB. Não é necessário ser grande perito para compreender que a sua dívida externa líquida atinge hoje cerca de 100% do seu PIB.

 

R. A questão que é necessário colocar é a seguinte: como é possível que ninguém tenha visto nada — nem em Basileia [sede do Banco Internacional de Pagamentos], nem em Bruxelas, nem em qualquer Instituto de Estatística? Ninguém parece ter compreendido.

Deixe-me dizer, de passagem, que durante um longo período, a elite política alemã não compreendeu que registávamos excedentes na nossa balança corrente. Nós, os alemães, fazemos a mesma coisa que os chineses — com a grande diferença que os chineses têm a sua própria moeda, o que não é o nosso caso. Se tivéssemos a nossa própria moeda, esta já teria sido reavaliada há muito.

 

 

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 20:33
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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 2 - por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

O Tsunami silencioso

 

Senhor Presidente, percebida de vez a questão que não se trata de desconstruir a Europa, mas sim de a reconstruir, então isto reenvia-nos para algo que antecede a situação presente, reenvia-nos para o conjunto das políticas neoliberais que antecederam a crise e a criaram, o tsunami silencioso que lentamente invadiu as nossas instituições, minando-as, que desarticulou as nossas economias, globalizando-as selvaticamente, que invadiu as nossas mentalidades, roubando-nos a capacidade de criticar, que queimou a nossa capacidade de imaginar mundos melhores, tirando-lhes a visão de futuro, É sobre esse tsunami silencioso e sobre a responsabilidade da sua existência que falarei. Mas, uma coisa é certa, senhor Presidente, sabemo-lo com o general de Gaulle quando em Pnom Penh afirmava, e cito de memória, que a democracia para se afirmar verdadeiramente como tal tem que ser capaz de reconhecer os seus erros e crescer com esse reconhecimento. Bela lição que terá perto de meio século, bela lição que é agora tempo de retomarmos em mãos, é agora tempo de os nossos dirigentes nos mostrarem que assim é ou de lhes exigirmos que no-lo mostrem. Reconhecer os seus erros, foi disso que falava o general de Gaule, corrigi-los é agora o desejo que nos vai na alma, na alma de milhões de europeus também face à catástrofe que lhes estão a impor e que têm medo, medo, medo de uma catástrofe ainda maior. Não é querer muito, é apenas querer para a Europa a democracia real.

Numa nossa carta ao Presidente da República de Portugal escrevi:

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 18:56
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

As citações de Saramago - 4


Luis Moreira


Depois dos livros as citações para melhor compreensão do homem e do escritor.

Abandono de Portugal

Pago todos os impostos em Portugal e é lá que voto.Se não vivo em Portugal é porque fui maltratado, publicamente ofendido pelo governo de Cavaco Silva, de que era secretário de Estado Santana Lopes e subsecretário Sousa Lara. E no governo, a que pertencia Durão Barroso não se levantou uma única voz dizento "isto é um disparate, isto não se faz"

Balanço

A única coisa que ainda quero ter é vida.Vida para viver, vida para viver com quem vivo, se possível trabalhando. Se eu faço um balanço, operação bastante inútil, enfim, pois balanço feito pelo próprio é sempre suspeito...Se eu olhar para trás, independentemente dos triunfos, das glórias, aquilo de que eu gosto mais é de encontrar um sujeito consciente, coerente. Coerente. Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda.

Espanha

Viajar por Espanha é surpreendente porque se está, permanentemente, a passar de um mundo a outro e isso, sim, é fascinante. Estão hoje, em virtude dessa diversidade, perfeitamente justificadas as autonomias, com aquela enorme diferença de caracteres. E isto não é um lugar comum: as pessoas são realmente diferentes, um andaluz é completamente diferente de um galego, um galego de um catalão, um castelhano de outro qualquer.

Ibéria

Em primeiro lugar sou português.depois sou ibérico.Eu digo isso há muitos anos.Não é por estar casado com uma espanhola que estou a dizer isso. E, depois, se me apetecer, serei europeu.Portanto acontece que eu continuo a ser português. Não posso ser outra coisa senão português. Não posso escrever em outra língua senão portuguesa. Mas digamos que o meu sentido de pertencer a algo se ampliou.Passou a ser a Península ibérica. Eu sou tão estimado em Espanha como sou estimado em Portugal.
publicado por Luis Moreira às 19:30
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Domingo, 6 de Junho de 2010

Os Problemas de Portugal. Mudar de Rumo.Um livro de Vitorino Magalhães Godinho

Pedro Godinho

Na Colibri, a primeira edição saiu em Dezembro 2009, a segunda em Fevereiro 2010. As 128 páginas de Os Problemas de Portugal. Mudar de Rumo de Vitorino Magalhães Godinho lêem-se duma assentada e sem nunca perder o interesse.

Como noutros ensaios de intervenção cívica, VMG insiste em pensar pela própria cabeça, expondo a sua análise e ideias de modo livre e sem servilismos.

Pretendendo contribuir para o debate nacional, que continua por realizar, recusando o espírito de pensamento único, VMG avança as suas propostas para concorrer para a resolução dos estrangulamentos da economia e sociedade portuguesa.

Os capítulos “1 – Relações internacionais”, “2 – A Europa”, “3 – A economia”, “4 -Reestruturação do Estado”, “5 – Sistema educacional”, “6 – Sistema do Património Cultural”, “7 – Justiça e Segurança”, “8 – Ordenamento do território, população e migrações”, “9 – Alguns problemas cruciais”, “A Grande Ilusão”, “Complementos” indicam a amplidão do ensaio.

Incrível como nem meios de comunicação social, nem académicos, nem políticos mostraram qualquer interesse na sua discussão – nem uma entrevista, nem um debate. O que não encaixa no discurso dos ‘maiorais’ é tratado como inexistente.

Não é necessário concordar com todas as afirmações e particularidades deste ensaio para lhe reconhecer a importância e valia.

“Nestas circunstâncias adversas, será bom que ressurjam as inquietações, e não se desista de reflectir na pergunta inevitável: que rumo para Portugal?”

Para ler, reflectir e discutir.
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Eça de Queiroz - Era mesmo bruxo!



Eça de Queirós, em 1872, escreveu nas Farpas:



"Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá ...vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par , a Grécia e Portugal". prefix = o />


Parece que era bruxo!

publicado por Luis Moreira às 11:00
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