Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

1984. E as mulheres ? - 3

(Ilustração de Adão Cruz)


Augusta Clara de Matos

 

 (Continuação)

CULTURA E INFORMAÇÃO


I. - Eu como não estive em nenhum partido não tive essa experiência mas gostaria de pôr outra questão: quanto a Júlia diz que há mulheres que não tiveram acesso à cultura eu pergunto qual cultura?

Q e A - À informação, não é?


J. - Sim, à informação e mesmo à cultura escolar.

F. - Tenho a impressão que a cultura escolar é tudo menos cultura.

I. - Pois é, aí é que eu queria chegar. Aquilo que nos fornecem na escola não é cultura mas uma série de coisas que nos enfiam na cabeça, muitas delas sem qualquer utilidade e que se arrumam a um cantinho da memória para nunca mais se usarem durante a vida.

F. - Pois claro, aí é que está! Não são cultura só por si!

J. - Mas desenvolvem o raciocínio...

F. - O que só por si não chega.

J. - Pois não porque dá origem às mulheres tradicionais, às que não o são e a muitas outras mulheres e homens todos diferentes. Estou a falar, por exemplo, nas mulheres do campo que não tiveram acesso a esses dados.

I. - Não tiveram acesso a esse tipo de informação, mas o que não podemos é afirmar que elas não têm cultura. Têm a sua própria cultura que embora não coincida exactamente com a cultura dominante é por ela subjugada.

J. - Refiro-me, evidentemente, à possibilidade de estudar que dá, por outro lado também, a capacidade de exercer a crítica sobre essa cultura que é dominante.

Q e A - Como vivemos numa sociedade hierarquizada, aquele que mais for detentor de informação mais próximo poderá estar do poder, dos vários poderes coexistentes. E os outros, os que não tiveram as mesmas hipóteses têm disso consciência: de facto quem «sabe» é quem manda.


J. - Outro aspecto desta questão é que, ainda que tudo o que te digam seja informação, tu tens a capacidade de a filtrar porque estás preparada. Podes dizer «isto para mim não é informação, é zero». Para elas pode ser, estão totalmente desprotegidas.

F. - O que me parece é que as pessoas diferem muito no potencial que têm de se interessar pelos problemas ou de os ultrapassar. Nós fomos capazes de chegar até aqui e de superar determinadas ques-tões porque o nosso potencial é diferente do de muitas outras mulheres.

J. - Está bem, mas donde é que vem esse potencial? Eu não acredito que ele exista!

Q e A - Será potencial ou tem antes a ver com uma certa força e coragem de correr riscos?


J. - Agora é que disseste bem!

F. - E achas que isso não é potencial?

Q e A - Não é que tenha uma grande rejeição à utilização do termo. O que eu não quero é confundi-lo com qualquer capacidade inata, porque não acredito que o seja. Não podemos negar que é sempre difícil tomar decisões que possam vir a implicar solidão e, na luta das mulheres tem sido este um dos maiores medos porque a mulher sozinha continua a ser a mais discriminada.


DEPENDÊNCIA OU DIÁLOGO?

J. - A propósito disso não sei se já repararam que a maior parte dos casais que se separam, se forem sinceros, dirão que só o fizeram quando, pelo menos um dos seus elementos arranjou outro companheiro e não porque acharam que se deviam separar. Porque, precisamente, a solidão é difícil e as pessoas preferem manter um casamento vazio a separarem-se. Há, por outro lado, a conveniência de manter o estatuto social de casado que ainda pesa muito em certos círculos como no emprego, etc. Eu separei-me sem ter outra pessoa porque achava que as coisas estavam mal. Poderia ter aguentado, pois podia, há tanta gente que aguenta...

I.- E claro que, às vezes, também se cria uma amizade que fica para toda a vida e que é, para eles, muito mais importante que as outras relações exteriores.

F. - Ou não acreditam já na hipótese de estabelecerem uma relação melhor do que aquela que têm? Dizia-me, outro dia, alguém que estamos a viver em pleno século XX com um modelo de casamento do século XVIII. Por isso se vê o descalabro que para aí anda.

J. - E mais fácil acreditar que não se encontra do que lutar por encontrar?

Q e A - Volta a pôr-se aqui o problema da dependência: a maior parte dos homens e das mulheres, embora por motivos diferentes, raramente aceita a possibilidade de viver um tempo em função de si próprios.

F. - Porque há dependências económicas, há filhos. Uma coisa, no entanto, é certa: nós as mulheres, quando atingimos o estado de lucidez quanto ao reconhecimento de quem somos e do que valemos, somos muito mais capazes do que os homens de dar o salto dizendo «esta gaita não interessa, acabou». Aliás, actualmente, a maioria dos divórcios dá-se por iniciativa das mulheres. São seres muito mais autónomos.

Q e A - Talvez porque a relação no casamento tem sido, até agora e em regra geral, mais opressiva para a mulher do que para o homem: A libertação evolui preferencialmente no sentido da mulher, é um facto!


I. - Em todas as iniciativas que tomam as mulheres são muito mais audaciosas, são mais receptias às emoções. Eles, de uma forma geral, em todas as atitudes e comportamentos são muito mais conservadores.

J. - Está bem! Mas olha que infelizmente mesmo na nossa geração eles continuam a ter pelo seu lado a cobertura de muitas mulheres. Chegam a casa e têm a roupa lavada, tudo limpo, a comida a horas...

I. - Tinham!

Q e A - E continuam a ter porque se aceita que o homem ajude e não que assuma igualmente as responsabilidades da casa.

J. - E até porque as mulheres que tenham um pouco mais de dinheiro conseguem ter empregadas que executem essas tarefas.

I. - Mas não é tanto aí que está o problema, percebes? Todos nós conhecemos homens que são bestiais, que ajudam as mulheres, que não têm atitudes nada dominadoras, etc. Até um certo ponto, até onde isso não interfira com a sua esfera e com os seus conceitozinhos! Porque chega a determinado limite e, suponho eu que para aí 99% dos machos lusitanos, têm o mesmo tipo de reacções.

Q e A - Não acham que é altura de começarmos a discutir também com eles toda esta problemática: no fim de contas o que resultará da libertação dos dois sexos? Isto está dito, parece que já toda a gente o afirmou mas creio que não é demais insistir...

I. - Eu não sei se estou muito de acordo com isso. Esta pode não ser uma atitude muito bem aceite mas julgo que as mulheres devem conversar primeiro entre si porque, apesar de serem hoje a maioria da população portuguesa como da população mundial e muito importantes no campo económico - os homens têm o seu papel mas o trabalho de base é muito mais feito por mulheres do que por homens (ainda ontem o telejornal referia que mais de 50% da produção alimentar mundial está nas mãos de mulheres)...

F. - Não lhes dão outras oportunidades, o que é que elas hão-de fazer?

Q e A - E quem está nos lugares de direcção e de decisão dessas coisas todas?


I. - Mas como eu ia a dizer, não sei se estou muito de acordo com isso porque, enquanto nada estiver ainda consolidado nesta luta, o diálogo com os homens - e eu não sou contra ele - pode levá¬los a tentarem, logo de início, apoderar-se da situação e a orientá-la a seu bel-prazer.

Q e A - Mas é que, por outro lado, constatei ultimamente uma coisa interessante: há certas análises a este nível que quando lhes são facultadas os surpreendem bastante porque contêm aspectos e pontos de vista a que, por não procurarem deliberadamente inteirar-se deles, vulgarmente não dão atenção. Por isso é que defendo esta discussão com os homens já que a maioria dos que eu conheço têm uma nítida reacção de não ler os textos de análise sobre a mulher.

F. - Há maneiras de ser, há mentalidades, há indivíduos com quem é perfeitamente possível falar frente a frente. A maioria não é, mas também com a maioria das mulheres não se pode falar assim.

J. - Eu discordo da Isabel porque acho que os problemas das mulheres deviam ser, também. discutidos com os homens e, precisamente, porque há uma grande quantidade de mulheres que fomenta a ridicularização destas conversas. Há muitas mulheres que, por gostarem de estar sempre ao lado dos homens, decidiram manifestar-se contra as que se mobilizam à volta destas questões. Se vissem que há homens interessados em participar no debate sobre um mundo a ser construído em conjunto por todos os seres humanos talvez se decidissem a acompanhar-nos.

I. - O problema é que, muitas vezes, os homens se recusam a discutir connosco.

F. - São produtos duma sociedade que não foram eles - o Zé, o Manel, o Joaquim - que cria-ram.

I. - Mas ajudam a mantê-la e têm perfeita consciência disso! Um «tipo» do mesmo nível intelectual que nós, que recebe o mesmo género de informação, tem perfeita consciência daquilo que está a fazer. Eu até nem sinto a nível pessoal porque sou casada com um homem que não é nada machista...

Q e A - Mas sentes, de certeza, noutros locais.


F. -Eu sinto-os a nível profissional. Aí eu exijo que me tratem, dentro das minhas capacidades, em pé de igualdade com os homens mas o que acontece é que para chegar a determinados lugares tenho que lutar duplamente. Sou obrigada a impor-me pelas minhas qualidades profissionais e tenho que impor-me porque sou mulher. Tenho que provar duplamente que sou capaz.

TRABALHO, O MAIOR PASSO DA LIBERTAÇÃO?


I. - Temos estado aqui a falar de vários aspectos e há um que eu queria abordar: normalmente entende-se que é importante para a libertação da mulher que ela tenha uma actividade fora de casa. Ora, hoje em dia, eu creio que não se pode considerar a mulher dona de casa como diminuída em relação à mulher que trabalha. Por estar em casa não significa que seja menos importante para a socieda-de ou, à partida, mais ignorante porque contacta menos com outras pessoas. Eu própria, se tivesse possibilidades, vinha para casa. Considerar mais libertada a mulher que trabalha fora de casa é, quanto a mim, um conceito reaccionário.

Q e A - A questão que a Isabel levanta coloca o problema de se saber se a realização das pessoas, quer das mulheres quer dos homens, passa exclusivamente pelo mundo do trabalho.


J. - Como já afirmei, eu sou defensora de que toda a gente tenha igualdade de direito à instrução, aos estudos. Isso é fundamental. Mas há outra coisa que acontece a nível do emprego: é a possibilidade da diversificação de contactos, ao contrário do que acontece a quem fica em casa que quase só pode trocar impressões com o marido, os filhos ou com os amigos, regra geral possuidores de pontos de vista muito semelhantes aos seus. O emprego alarga, de facto, a comunicação.

I. - E a carga depreciativa que se lança sobre a mulher doméstica que eu não aprovo.

J. - Ah, isso também eu não!

F. - Ficar em casa, na maioria dos casos, está ligado à imagem convencional da mulher. Ela não faz mais nada para evoluir. Fica em casa para tratar do marido e dos filhos.

Q e A - Corta a ligação ao mundo real.


F. - E fica dependente economicamente do marido o que vai pesar muito numa eventual situação de ruptura. Claro que o emprego só por si não realiza ninguém e que há trabalhos fortemente estúpidos, com colegas que não interessam como relações humanas, e onde, afinal, acabamos por não evoluir nada.

Q e A - Parece-me importante focar aqui, como uma das muitas alienações existentes, o modo como os homens põem à frente de tudo a sua carreira profissional, secundarizando todos os outros aspectos da vida. Não será esta, também, uma das nossas diferenças?

F. - Eu tenho uma carreira à minha frente e dou muito interesse ao aspecto profissional porque não quero ficar economicamente dependente seja de quem for e não abdicava do meu emprego nem para ter meninos, nem para ficar em casa a lavar tachos. Não é porque considere depreciativo, mas não o fazia. Aí coloca-se-me, de facto outro problema: se eu quiser ter um filho como é que vai ser? Por enquanto não sei!

I. - O ideal seria as mulheres terem hipótese de arranjarem empregos em part-time, principalmente quando há muitos miúdos pequenos.

Q e A - Mas não só as mulheres!


J. - Isso era perigoso. Ou as hipóteses existiam par ambos os sexos ou voltava tudo atrás.

Q e A- O risco que a Júlia aponta é real. A insatisfação e sensação de ausência de realização no trabalho fora de casa é comum a homens e a mulheres. O que aconteceria era que a mulher acabaria por ficar em casa da maneira como sempre ficou ou, então, seria uma privilegiada doutra maneira, a viver à custa do dinheiro ganho pelo homem e, nesse caso, a igualdade não teria nada a ver com aquela que nós propomos: repensar o mundo e agir sobre ele em conjunto.

F. - A verdade é que não podemos dissociar, por enquanto, uma situação que é real doutra que o não é, porque se alguém aceita ficar em casa esse al¬guém é a mulher, não há dúvida! O que se passa com os homens é que, mesmo que não se sintam realizados no emprego, não admitem uma hipótese dessas, porque isso implicaria outro padrão.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 16:30
link | favorito
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

1984. E as mulheres? - 2

(Continuação)

Augusta Clara de Matos

(Ilustração de Adão Cruz)


Q e A - Gostava de colocar aqui, em simultâneo, o problema do aborto porque aquilo que se verifica, e sobre isso gostaria que vocês se pronunciassem. é que há sempre uma enorme hipocrisia à volta deste tema. Quando é aceite a despenalização do aborto ou se concede algum aligeiramento em relação a esta questão, e isso tem-se verificado ao longo dos tempos, e normalmente por imperativo das relações de produção e sociais do momento. Esta despenalização do aborto em Portugal. creio que estamos todas de acordo quanto a isso, não veio favorecer quase nada as mulheres. É uma mascarada que esconde o problema fundamental, isto é. para além do planeamento familiar que não se faz como deve ser, não tem em conta o direito da mulher a ser dona do seu próprio corpo.

F. - Bom, vamos lá a ver. Revolução sexual eu acho que não houve embora me pareça que, na realidade, nestes últimos tempos, começou a haver uma maior informação sexual. Essa informação começou a ser mais divulgada, portanto as pessoas passaram a ter acesso a dados que não tinham antes e que poderão utilizar como entenderem. Quanto à questão do homem não me parece que isso tenha vindo alterar muito a situação porque, no fundo, nesta sociedade, ela já era um privilégio seu.

J. - Mas achas que isso deu maior libertação à mulher?

F. - Não, eu penso que não deu maior liberdade. Deu-lhe possibilidades de ela mais facilmente poder ir para a cama com A ou com B sem ter tanto receio de engravidar. Na realidade, muitas mulheres de fora do nosso círculo (porque nós não somos representantes da maioria), com uma vida mais tradicional, passaram a poder dar-se ao luxo daquilo a que vulgarmente se chama uma aventura, mas em termos de libertação estão perfeitamente na mesma situação em que estavam há uns anos atrás: continuam a viver muito em função do prazer masculino. A sua libertação sexual é, assim, só aparente. Não assumiram que são diferentes e. na maioria dos casos, apenas passaram a fazer aquilo que os homens faziam o que é, na minha perspectiva, negativo.

J. -E qual é a garantia que tu me dás de que essas mulheres tradicionais não gostam mais de ser assim como são?

F. - Isso é considerar-nos a nós diferentes das outras!

Q e A- E tu ouves e lês depoimentos e sabes que não é assim. Júlia! Porque muitas mulheres tradicionais, se assim podem ser chamadas, se manifestam descontentes em relação a uma vida sexual rotineira e sem expressâo na sua vida afectiva. Estou-me a lembrar do número elevadissimo de mulheres que respondeu anonimamente ao relatório elaborado por Shere Hite e onde, dadas as condições de anonimato, se pronunciaram sem preconceitos sobre pormenores muito íntimos, coisas de que as pessoas não falam abertamente e onde ficou bem clara uma grande consonância de insatisfações e desejos. As necessidades de alteração, neste campo, não parecem assim tão diferentes...


J. - Então por que não mudam de comportamento?

F. - Porque há outros valores em jogo e, penso eu, muitas delas ainda não foram capazes de criticá-los!

I. - Penso que o peso da educação aí conta muito!

F. - Por outro lado, todas nós devemos ter tido uma educação tradicional e, apesar disso, conseguimos avançar. Pergunto porque acontecerá isto com umas mulheres e não com outras. Como é que algumas parecem nem sequer, ainda, se terem apercebido da sua situação de inferioridade?

J. - Eu não aceitei determinados padrões e sofro as consequências dessas atitudes sentindo-me, por vezes, perfeitamente sozinha. Mas luto por isso! A maioria das pessoas da minha geração, a geração dos trinta e às vezes outras mais novas, acomodaram-se. São, em muitos casos, gente de esquerda e com certas responsabilidades mas, no fundo, os seus padrões de vida são perfeitamente convencionais. Porque não querem estar sozinhas nem perder determinadas regalias. Para muitas mulheres da minha idade se calhar, é, muito mais cómodo manterem aquela vida, e arranjarem um amante em vez de lutarem por modificá-la. Não têm força para mudar a vida!

F. - Mas muitas sentem-se tão mal que me ponho a pensar se será apenas porque não querem ou porque algo lhes falta que as ajude a dar o salto. Porque é que não têm força?

J. - Pode ser porque nunca foram motivadas mas, também, diga-se em abono da verdade, provavelmente nem criaram essa motivação. Eu, ainda muito nova, disse não a um casamento em que tudo me era favorável porque não queria ter filhos naquela altura e fui contra tudo porque entendi que devia actuar de acordo com a minha maneira de pensar. Tem que se opor uma certa barreira e eu penso que a maior parte das mulheres não quer fazer isso. Agora era capaz de ser mãe de 5 ou 6 filhos e viver de uma maneira terrível, ou de já estar separada! E claro que é mais fácil cumprir os papéis que a sociedade distribui!

Por mim, sempre senti, desde o liceu à escola de arquitectura que a mulher tinha que ter tanta importância como o homem e sempre lutei por isso através daquilo que lia, do que via, das lutas dos estudantes, mesmo sem estar ligada a nenhum partido.



A MULHER E (N)OS PARTIDOS POLÍTICOS


Q e A - Essa tua última frase suscitou-me aqui, agora, a maneira como todos os partidos, mesmo
os intitulados revolucionários, contribuíram bastante para levar as mulheres a pensar que o seu estatuto social só se alteraria depois de ter havido uma profunda transformação económica. Não sei se estão de acordo.

Parece-me, contudo, que se esboça cada vez mais a convicção de que todas estas mudanças se terão que dar com uma certa simultaneidade e que o papel das mulheres ou seja do realce de certos valores femininos será muito importante.

J. - Já agora que falaste em partidos gostava de dizer que uma das coisas que me chocou quando estive ligada a um partido, e chocou-me profundamente porque eu vinha já com estas ideias de muito antes do 25 de Abril, foi verificar que grande parte dos homens, com obrigação de terem uma mentalidade diferente, tinha atitudes perfeitamente machistas. E volto a afirmar: isso chocou-me tanto mais quanto entendo que as pessoas que têm responsabilidades políticas devem ter uma certa coerência, e ali não tinham. Isso também em relação às mulheres que aceitaram o seu papel secundário. Mas as que mais me preocupam são as que não tiveram acesso à cultura e que pensam da mesma maneira que eu, dizendo as coisas por outras palavras. A essas ainda é muito mais difícil libertarem-se. Agora às mulheres tradicionais dentro da nossa geração e do nosso nível intelectual, deve dar-se-lhes, sim senhor, toda a informação possível mas elas até se recusam a ler! Por essas eu já quase não tenho consideração.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 16:30
link | favorito
Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

1984. E as mulheres? 1

Augusta Clara de Matos



                                                           (Ilustração de Adão Cruz)
 Em Junho de 1984 fiz, para a revista Questões e Alternativas, uma entrevista sobre a situação da mulher em Portugal. Viviam-se no país tempos conturbados semelhantes aos tempos difíceis que hoje vivemos. Passaram-se, entretanto, 26 anos. É, por isso, curioso relembrar aqui essa entrevista para que cada um possa fazer um exercício mental de comparação entre uma e outra época no que a este tema diz respeito. Terá mudado assim tanto o panorama? É um jogo curioso. Entrem nele e vão encontrar, para além das questões sérias, momentos divertidos.



A nossa revista tentou avaliar o estado do equilíbrio entre a energia posta na sua luta e as forças obscuras que, dentro dos estreitos limites de visão do mundo real, jamais conseguirão aceitar a igualdade na diferença. As entrevistadas foram três mulheres inteligentes "na casa dos 30", ou seja, eu e elas, éramos todas balzaquianas - Fernanda, programadora de informática; Isabel, funcionária pública; e Júlia, arquitecta - sobre esta problemática e registámos as suas opiniões.
 «Mas tu não ousas. Nem só os meninos choram à noite presos no medo dos olhos do avô... Grandes gigantes têm por vezes grandes medos nos corpos de aço. Grandes gigantes temem por vezes os pequenos gestos que nascem na ponta dos dedos...».
Maria Lisete, íntimo Limite

INFLUÊNCIA DA SITUAÇÃO ECONÓMICA


Q e A - Como todas sabemos, a crise profunda que se está a viver actualmente em Portugal tem implicações não só nas suas estruturas económicas e políticas mas, também, e com grande acuidade nas próprias relações interpessoais. No vosso entender, estará a situação da mulher a evoluir num sentido directamente proporcional aos outros sintomas da crise ou, por razões específicas inerentes a essa própria situação e à abertura ocorrida com o 25 de Abril de 1974, ela se processa dum modo particular, diferente?

Júlia - Bem, eu acho que a mulher, como membro da sociedade, está a sofrer as consequências da crise como toda a gente sofre. Quero dizer, portanto, que as próprias relações com os outros são influenciadas pelo seu estado económico. Por exemplo, o facto de não se poder reunir muita gente em casa ao mesmo tempo sem se ter que fazer contas primeiro torna-se limitativo da convivência e faz por vezes, desmembrar os pequenos grupos.

No entanto, gostava de assinalar dois pontos distintos. Por um lado há a evolução no seu próprio emprego, quando o tem, que não tem nada a ver com a crise porque se ela se consegue impor, se consegue demonstrar que é capaz em determinados ramos, capaz de resolver problemas sem estar dependente do homem - e eu falo concretamente em relação à minha profissão - essa evolução é efectiva. Eu penso que mesmo num trabalho banal, através do seu próprio esforço, uma pessoa se pode valorizar e sentir bem. Por outro lado é preciso deixar bem claro que a diminuição das distinções que se têm vindo a fazer entre o homem e a mulher no trabalho tem sido por mérito das próprias mulheres.

Fernanda - Tenho a sensação que aquelas pessoas que já tinham atingido um determinado nível de despertar estão a aproveitar esta fase de crise para uma certa interiorização, uma certa análise que é, neste momento, uma forma de nos situarmos. O que me parece, também, é que depois dum período em que tudo foi posto em causa se está a entrar numa fase de retrocesso, de reabsorção duma série de valores tradicionais, uma fase, portanto, de involução. Daí que eu pense que, para as mulheres que nessa altura não conseguiram romper com os padrões estabelecidos, esta crise está a ter aspectos profundamente negativos.

OS FACTORES CULTURAIS

Isabel - Tu tocas aí a chamada crise de valores e era por ai que eu ia começar. Mais do que a crise económica, neste momento, seja a nível mundial, seja ao nosso nível local, acho que o problema principal é mesmo o dos valores estarem postos em causa. Esta crise já vinha desde antes do 25 de Abril. Então, claro, explodiu tudo. Havia uma série de coisas em que as pessoas deixaram de acreditar, porque lhes foi provado por a mais b que realmente não era bem assim, mas, entretanto, não foram criados valores novos. Acho que, mais do que numa involução, as pessoas se sentem completamente perdidas.

Q e A - Pois, senão, como é que se compreende que mulheres que pensam como nós se desinteressem dum tipo de discussão destas?

J. - Aí a crise económica continua a ter muito que se lhe diga porque mesmo essas mulheres, não tendo condições financeiras para pagar a quem as auxilie nas tarefas domésticas, têm que se desdobrar entre a casa e o emprego.

I. - Isso é verdade mas, neste momento, já há muitas mulheres que conseguem dividir essas tarefas com o marido o que, com uma certa coordenação, permite deixar tempo livre para outras coisas. O pior é quando se tem que levar o mês inteiro a pensar como conseguir esticar o dinheiro. isso ocupa muito tempo e tira a disponibilidade para pensar no que quer que seja para além dessa preocupação.

Q e A - Mas serão só os problemas económicos que condicionam ou, também, uma certa acomodação que sofremos, mesmo sem darmos por isso? Muitas vezes ao nível daquelas coisas de que se diz «não vale a pena», aquelas coisas com que nós condescendemos, não é? Não será que a mulher abdica com frequência, perante o homem, de se informar, de se assumir como um ser com iguais potencialidades, mesmo quando em igualdade de circunstâncias com ele?

F. - Claro que o aspecto económico é importante mas o factor de desmotivação pesa muito porque se poderiam aproveitar sessões de cinema e até concertos gratuitos...

J. - Mas aí tens que incluir, também, o homem!

I. - Teremos que considerar essa condescendên¬cia, essa dependência em relação ao homem como um factor adquirido quase geneticamente? Há não sei quantos séculos que se vem incutindo essa ideia na cabeça de todas as mulheres. Será que já herdá¬mos essa predisposição? Eu recuso-me a aceitar que isto seja verdade. Acredito fortemente que é um de¬feito de educação contra o qual é preciso lutar com garra.

J. - Estou-me a lembrar do espanto dum arqui¬tecto holandês, uma vez em que fui à Holanda inte¬grada numa comissão constituída por duas mulheres e três homens. O próprio facto de aparecerem mulheres numa comissão era para ele tão curioso quanto na Holanda isso raramente acontecia. Num outro encontro a que também fui, nos Estados Uni¬dos, não havia uma única mulher. Isto dá que pen-sar... Portanto não é só o aspecto económico que interessa para uma certa libertação de ideias e da autoconfiança da mulher.

Q e A - Dá que pensar efectivamente. E dá que pensar sobretudo em relação a certas mulheres que perante a palavra feminismo têm uma atitude de rejeição na maior parte dos casos sem que fique muito claro a que corresponde essa atitude. Não se chega bem a compreender se não será uma desculpa para não levarem à prática o que tanto defendem em teoria. O que é que vocês pensam disso?

J. - O problema do feminismo está muito liga¬do a manifestações que, na minha opinião, acho um bocado estúpidas como, por exemplo, as manifestações contra o uso de soutien e outras em que se defende que é a mulher que deve passar a mandar, etc. Eu acho que deve haver igualdade em equilíbrio porque o homem e a mulher têm características genéticas completamente diferentes. Há coisas que eu vejo pelo meu filho que é rapaz e a quem eu, no entanto, não dou nenhuma educação discriminatória

Q e A - E estás convencida que isso é genético ou que há influências que as crianças sofrem logo no berço no sentido duma educação para serem mulheres ou homens?

J. - Ah, sim! A escola, por exemplo. Os pais não conseguem lutar contra a educação da escola!

I. - Não consegues, sequer, lutar contra a educação dos meios de comunicação como a televisão que lhes provoca um verdadeiro fascínio.

J. - Mas aí ainda podes estar perto e explicar-lhes. Agora na escola, há certas idiotices que não se conseguem evitar.

Q e A - E mesmo antes da escola...

I.- Dão carrinhos aos meninos e bonecas às meninas...

INATO OU ADQUIRIDO?


F. - Em relação a isso tem-se-me posto, ultimamente, uma dúvida: até que ponto não estamos a rejeitar que haja outras diferenças entre o homem e a mulher, para além das sexuais e físicas, que se transmitem geneticamente, quando creio que hoje se começa a provar que uma determinada característica acaba por ser assimilada ao longo das gerações? O facto de, logo desde a Pré-História, se terem distribuído as tarefas entre os sexos de forma distinta não terá levado. a própria espécie a assimilar essa diferença de papéis e a transmiti-la hoje geneticamente?

Q e A - Foi assimilada culturalmente e como tal tem sido transmitida. Geneticamente sabe-se que esses comportamentos não se assimilam. Assimilam-se culturalmente e são transmitidos pela sociedade, não é? E é evidente que a partir do momento em que são transmitidos pela sociedade todo o ser humano vai educar a sua descendência nessa linha.

F. - Eu penso que o problema é cultural mas admito que haja mais qualquer coisa para além disso. Basta comparar-me com os meus irmãos para verificar como somos diferentes apesar de termos sofrido as influências do mesmo meio.

Q e A - Mas tu tiveste a tua aventura de vida com interacções necessariamente diferente das deles. Neste momento, e apesar dos grandes avanços da Genética, só se podem dar como provadas as interacções em que se verifica que um só gene está ligado a uma só característica orgânica e isso não é o que acontece na maioria dos casos. As restantes interacções envolvem mecanismos tão complexos - como, por exemplo, um só gene determinar vários caracteres, um carácter ser determinado por vários genes, e outras -, que nada se pode afirmar, a este nível, com certezas inabaláveis. E isto no que diz respeito a manifestações bem concretas no organismo, manifestações físicas e fisiológicas. Quanto a uma entidade com componentes tão subjectivas como o comportamento humano nada está mesmo provado.

Actualmente são as correntes da nova direita que se têm servido destes conceitos sem fundamento científico para manterem discriminações várias entre as quais o racismo e a própria marginalização da mulher.


QUE EVOLUÇÃO SEXUAL?


Q e A - Nas últimas décadas tem-se falado muito em revolução sexual. Porém, começa a pôr-se a questão de ler ela libertado realmente a sexualidade feminina ou de a ter desenvolvido sobre o modelo da sexualidade masculina, do prazer do homem.

I. - Não acho que tenha havido revolução sexual.

F. - Exacto! O que é isso de revolução sexual?

J. - Eu, por acaso, acho que o homem pode ter beneficiado mais, mas a mulher também benefi-ciou. Eu falo pela minha própria experiência que quando tinha 18 anos arriscava ficar grávida porque a pílula era uma coisa em que nem sequer se falava. Os contraceptivos deram uma certa libertação sexual à mulher. Claro que o homem, por tabela, também tem vantagens.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 16:30
link | favorito
Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Mulheres que fizeram a diferença -(Centenário da República)

Clara Castilho


III – A IMPULSIONADORA DAS MATERNIDADES – ADELAIDE CABETE (1867-1935)

Em Elvas, famílias humildes apanhavam as célebres ameixas e trabalhavam noutros árduos trabalhos. Foi assim que cresceu Adelaide, que casou aos 18 anos, analfabeta.

Incentivada pelo marido, começou a estudar aos 20 anos. Aos 23 fez o exame de instrução primária. Com 27 anos terminou o curso dos liceus, já a viver em Lisboa. Na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, para onde entrou aos 29 anos, teve como professores Miguel Bombarda, Curry Cabral, Ricardo Jorge e Alfredo da Costa.



Em 1900, defendeu a tese “A protecção às mulheres grávidas pobres, como meio de promover o desenvolvimento físico de novas gerações”, tornando-se a terceira mulher a concluir Medicina no país.


Em 1901, o seu primeiro artigo, publicado no Jornal Elvense, tinha como título: “Instrua-se a mulher”.

Em 1907, foi iniciada na maçonaria onde atingiu o grau de “Venerável”.

Em 1909, foi co-fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, onde defendeu a emancipação feminina.

Em 1910, participou activamente na aventura da implantação da República. Com duas companheiras, coseu e bordou a bandeira nacional hasteada a 5 de Outubro na Rotunda, em Lisboa.

Em 1912 reivindicou o voto das mulheres.

A mulher pobre, as doenças infecto-contagiosas, o alcoolismo, a educação das crianças, a melhoria da situação legal da mulher na sociedade e na família, a erradicação da prostituição, a melhoria da saúde pública, a criação de gabinetes de consulta para profissões, educação e protecção a emigrantes, a protecção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e abusos sexuais, o tratamento da saúde da mulher e da jovem grávida, foram assuntos que sempre a preocuparam.

Lutou pela introdução do ensino da puericultura nas escolas, sendo durante 17 anos, professora de Higiene e Puericultura no Instituto Feminino de Odivelas. Também na Universidade Popular Portuguesa, instituição criada na 1.ª República, dirigiu um curso sobre esta matéria, destinado a mães. Pretendia que adquirissem conhecimentos que proporcionassem um saudável desenvolvimento das crianças.

Foi com este mesmo objectivo que reivindicou a construção de uma maternidade, vindo a construir-se, em resultado dessa sua acção, a Maternidade Alfredo da Costa.

Foi presidente e principal organizadora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Esteve presente, em representação das mulheres portuguesas em vários congressos internacionais – em Maio de 1913, no Congresso de Gant, em Maio de 1923 no Congresso Feminista de Roma, em 1925 no Congresso de Washington.

Aplaudiu o encerramento de tabernas e manifestou-se contra a violência nas touradas, o uso de brinquedos bélicos, abordando temas que mantêm a sua actualidade. De ideias progressistas e muito avançadas para a época, reivindicou para as mulheres o direito a um mês de descanso antes do parto.

Colaborou com várias revistas (Alma Feminina, Pensamento, Ciência, Educação, Almanaque Democrático, Portugal Feminino) e escreveu para jornais, como A Batalha, O Rebate, A Pátria, República, Tribuna, A Fronteira, Jornal de Elvas, República Social, O Protesto, Diário de Lisboa.

De 1929 a 1934 viveu em Angola, afastando-se do caminho político que se desenrolava em Lisboa e com o qual não concordava. Lá, continuou defendendo os seus ideais, acrescentando o dos direitos dos indígenas.

Faleceu em Lisboa em 1935.
publicado por Carlos Loures às 23:55
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links