Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

A eterna questão do livro -15 - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Sobre o confronto entre o livro impresso e o livro electrónico, fulcro desta série de reflexões, transcrevo palavras (a que já aludi) de José Afonso  Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris,de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.». Embora recorrente, utilizo a imagem mais uma vez por facilitar a compreensão do que quero expor. Como Victor Hugo explica depois, a frase do arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Num posterior capítulo do romance, explicita essa previsão de que «o livro matará o edifício». Defende que a invenção da imprensa é o maior acontecimento da história da humanidade e que a «bíblia de chumbo» irá substituir a «bíblia de pedra». McLuhan lembra que a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e eixos da cultura da escrita. Temia-se a imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção.

 

Nesse fim do século XV receava-se que a imprensa pusesse em risco a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras. Hoje teme-se que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção.

 

Na defesa do livro impresso não entra o antagonismo contra as novas tecnologias. As muitas modificações por que o negócio irá passar têm de ser assimiladas de montante a jusante. Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Embora o cenário mude – já mudou - e os editores tenham de se adaptar à mudança. Peter Mayer defendeu, como vimos, a prevalência do feeling editorial. Mas o instinto, a que também podemos chamar vocação, existe em todas as profissões. Um professor sem vocação, por melhor que tenha sido o seu percurso académico, será sempre um mau professor. O mesmo se passa com os médicos ou com os agricultores. Mas um analfabeto, por maior que seja a sua vocação, não pode ensinar. Médico autodidactas, por mais cheios de vocação que estivessem, aumentariam exponencialmente a taxa de mortalidade. O editor «sem mestre, mas com jeito», como diria o José Fanha, devia ser colocado na galeria das recordações.

 

A formação especializada aliada ao feeling, ao instinto, à vocação, produzirá melhores editores. A formação específica é indispensável. Em Oxford, em Bolonha ou na Complutense, há cursos na área das Ciências da Edição. Devem existir muitos mais por esse mundo fora. Em Portugal, desde há quase duas décadas existe um curso de especialização (pós-graduação)  em Técnicas Editoriais na Faculdade de Letras de Lisboa. Posteriormente foram criados cursos similares  na Católica e na Nova.

 

Tudo começa no escritor. Mas o problema do sector editorial não tem a ver com falta de originais. Por isso não dediquei muito tempo a este primeiro segmento, principal profissão do livro. O que no escritor tem de mudar relativamente ao novo quadro que se está a criar, é a atitude e a expectativa. O escritor tem de encarar o seu trabalho como um empreendimento, não ficando passivamente à espera de ser descoberto. A auto-edição é uma via interessante e a edição em e-book também. Mayer disse que as chancelas editoriais irão sendo menos – o escritor terá a sua própria marca. Se aquilo que escreve interessar aos editores eles aparecerão fazendo-lhe propostas. Aceitará ou não.

 

(Continua)

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado às 13:52
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Sábado, 4 de Junho de 2011

A eterna questão do livro – 12 - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Quando aqui falei dos editores, referi-me sobretudo aos pequenos editores que se guiam pelo seu instinto, e não têm meios de testar o feeling  pelo

 

qual orientam a produção. Hoje volto aos editores, mas dando a palavra a um grande editor internacional – Peter Mayer, presidente da Overlook Press e ex-presidente da Penguin. Entrevistado por Juan Cruz, do El País, fez, entre muitas outras, uma afirmação desconcertante: «Editar é uma questão de instinto». Na Penguin, onde esteve entre 1978 e 1996, foi a alma desta editora.

 

Prestes a atingir os 75 anos, está agora à frente da Overlook, uma pequena empresa que foi de seu pai e que ele transformou numa editora altamente competitiva. Não vou transcrever a entrevista, mas apenas referir algumas das curiosas opiniões  de Peter Mayer.*

 

Sobre o futuro da edição, opina que não se deu suficiente atenção a pessoas como Marshall McLuhan. Pensámos todos que ao dizer que o meio é a mensagem, fora apenas engenhoso. As transformações da nossa época, nomeadamente a evolução tecnológica, produziu mudanças na cultura em geral o que afecta o universo do livro. O mundo está interligado de forma inimaginável.

 

Porém, esta ligação faz-se mais à informação do que à imaginação e isso entristece-o.  Mergulhados num espesso caldo de informação estamos menos concentrados. O trabalho do editor, embora a função seja a mesma, está a mudar. O público depende menos do editor, tem tanto acesso á informação como ele. A intermediação do editor está a ser democraticamente eliminada. A tecnologia avança a uma tal velocidade que impossibilita a edição de alguns livros. Quando o livro chega ao mercado a informação já está obsoleta. Os jovens de hoje se querem saber o que se passou no Egipto não consultam os jornais, mas a Internet. A ficção e o teatro acabam por ser os géneros menos afectado. A Guerra e paz tem hoje a mesma relevância que tinha há um século.

 

A cultura da livraria terá que mudar – a tendência á para que haja menos livrarias e esta diminuição afectará os centros de  cultura nas nossas cidades.  Cadeias de livrarias como Barnes & Noble, o que mais vendem agora são máquinas para ler livros electrónicos. Os custos de impressão e de publicação aumentaram e o preço terá que subir. Como os livros serão mais caros, as pessoas serão levadas a optar pelos e-books.

 

Sobre os escritores, Mayer opina que enquanto houver livros tal como os conhecemos, os escritores famosos continuarão a vender livros impressos e e-books. A maioria dos escritores, sobretudo os ficcionistas, continuará a escrever, aconteça o que acontecer na indústria editorial. São escritores. Precisam de escrever. Talvez se torne mais difícil ainda viver da escrita. Herman Meville, continuou a escrever apesar de os seus livros não se venderem. E criou  Moby Dick e Billy Budd porque tinha de escrever. Do ponto de vista de um escritor sério, a literatura continuará viva. No entanto, actualmente o editor corre riscos excessivos protegendo e apoiando o escritor. Daí o crescimento da auto-edição.

 

Sobre o papel dos blogues no marketing editorial, diz «Não creio que os blogues tenham muita  credibilidade, acredito mais no boca a boca, e isso cada vez terá mais importância. As redes sociais multiplicar-se-ão e este será o tipo de marketing que se fará».  Continuamos amanhã com Peter Mayer.

 

(Continuação)

 

*Lembram-se da iniciativa lançada pelo Sílvio Castro que levou alguns da nós a dizer quais os dez livros que mais nos impressionaram ao longo da vida?. Peter Mayer deu-nos a sua lista. foram-lhe pedidos dez, mas ele fez uma lista de quinze: O Castelo, de Franz Kafka,  A  Montanha Mágica, de Thomas Mann, Don Quijote de la Mancha, de Miguel Cervantes, Call It Sleep, de Henry Roth, Middlemarch, de George Eliot; O Grande Gatsby de Fitzgerald; Cem Anos de Solidão, de García Márquez; Os quatro romances de Thomas Wolfe; : É isso um homem? de Primo Levi; O Som e a Fúria, de William Faulkner; Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Huckleberry Finn de Mark Twain; Guerra e Paz de Tolstoi; Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, e Herzog, de Saul Bellow. Sei que é uma lista longa e que é tudo ficção. Quando pensei nos livros que tiveram algum significado para mim, recordei um ou dois romances e a partir daí só me veio à cabeça ficção. Fui sobretudo um leitor de ficção até ter feito 35 anos. E as memórias da juventude são as mais poderosas do que as que se produzem na meia idade e na minha actual maturidade”.


 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado em 03/06/2011 às 23:14
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

Ceci tuera cela? (as novas tecnologias significarão a morte do livro? )

 

 

 

 

 Carlos Loures

Para encerrar, por agora, esta questão da ameaça do livro electrónico ao livro impresso, começo por transcrever palavras de José Afonso Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.».

Embora como José Afonso Furtado diz, este imagem seja recorrente, utilizo-a mais uma vez porque facilita a compreensão do que quero expor. Segundo o próprio Victor Hugo explica depois, a frase dita pelo arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o espanto e o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Victor Hugo explicita depois num capítulo do romance a sua previsão de que «o livro matará o edifício». Segundo ele a invenção da imprensa é o maior acontecimento da história da humanidade. A «bíblia de chumbo» irá substituir a «bíblia de pedra». Como disse McLuhan, a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e o eixo da cultura da escrita. Temia-se que o advento da imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção. 



Tal como nesse fim do século XV se temia que um avanço como o que a imprensa significava, pusesse em risco a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras, teme-se agora que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção. 

Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. Embora, indubitavelmente, o cenário mude – já mudou - e os editores tenham de se adaptar a ele. E esse é um dos problemas – o mundo da edição está ainda povoado por muitos editores que actuam por emoção, por «fezada», por feeling. O feeling que têm usado como sistema, vai deixar (se é que não deixou já) de ser suficiente – vão ser necessários investimentos, nomeadamente na área da formação. 

As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Mas isto, se os editores estiverem apetrechados, inclusive com formação específica que desde há dezasseis anos existe, tendo começado com um curso de especialização na Faculdade de Letras de Lisboa e existindo agora outros cursos na Católica e na Nova. Na realidade, do mesmo modo que é impensável um médico ou um engenheiro autodidactas, deveria pôr-se na gaveta das recordações o editor «sem mestre, mas com jeito», como diria o José Fanha. 

Os editores continuam a publicar por feeling. E não nego que existem pessoas no mundo da edição com uma espécie de sexto sentido. Mas até esses sobredotados às vezes se enganam. A edição é uma ciência. Existem técnicas que podem ser postas ao seu serviço. A vocação é necessária, mas a formação é indispensável. Na ponderação dos factores que contribuem para a crise do livro, a impreparação dos editores (de alguns editores, diga-se) pesa mais do que a ameaça das novas tecnologias. Essa ameaça perfila-se no horizonte e poderá não passar de uma profecia falhada. A falta de formação de muitos intervenientes na edição, é um mal enquistado desde sempre. E perante esse cenário, não é preciso que o livro electrónico triunfe sobre o impresso em papel – há cavalos de Tróia dentro do mundo da edição.

E assim introduzo a questão que tenciono abordar em seguida – Crise do livro (os editores, parte da solução ou parte do problema?)

publicado por João Machado às 16:00

editado por Carlos Loures às 15:28
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