Domingo, 12 de Setembro de 2010

Germano Sacarrão

Carlos Loures

Depois de recordar alguns poetas que conheci, famosos uns, ignorados, esquecidos outros, vou agora falar sobre outros amigos que já morreram. Hoje falarei do Professor Germano Sacarrão.

É frequente receber folhetos publicitários sobre aparelhos auditivos e, sempre que os recebo, lembro-me do que me disse um diia Germano Sacarrão, surdo assumido: «Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais». Também sou um pouco surdo. Um audiograma recente registava alguma perda de audição no ouvido direito. Mas ouço bem do lado esquerdo . Tenho o cuidado de, nas reuniões, me sentar estrategicamente com a minha antena parabólica, o ouvido esquerdo, em condições de captar o que se diz. Num almoço semanal em que me reúno com um grupo de amigos (colaboradores do Estrolabio) todos sabem onde me quero sentar e, mesmo que chegue atrasado, o lugar está reservado. Porém, sempre que me falam em usar aparelho auditivo, lembro-me do que dizia Sacarrão e não compro.

Germano da Fonseca Sacarrão (1914-1992), zoólogo e ecologista de renome, amoigo e tradutor de Edgar Morin, foi um grande professor da Faculdade de Ciências de Lisboa. As suas aulas eram tão vivas e participadas que muitos alunos de outras faculdades, de outros cursos, licenciados e pós-graduados, a elas assistiam. Dirigiu cientificamente alguns projectos editoriais a que eu estava ligado e criámos uma amizade sólida, que durou até ao dia em que, fazendo anos de casado, foi comprar um ramo de flores para oferecer à esposa. A meio do caminho caiu fulminado por um ataque cardíaco. Era surdo e usava um aparelho auditivo que tirava quando não queria ser incomodado. Muitas das coisa que aqui vou dizer sobre a surdez, e não só, são da lavra do Professor Germano Sacarrão.

Morava em Campo de Ourique, era, aliás, um entusiasta do bairro, o «quartier latin», com se diz entre os nativos. É um bairro charmoso, projectado nos anos 70 do século XIX, pelo grande engenheiro, Frederico Ressano Garcia (1847-1911), um discípulo da teorias urbanísticas do barão de Haussmann, o arquitecto da Paris imperial, com grandes vias cortadas perpendicularmente por ruas secundárias, como, aliás, já no século anterior, Eugénio dos Santos fizera com a Baixa. Campo de Ourique é uma cidade dentro da cidade, tem tudo, é auto-suficiente. Até tem lugares de culto – o mercado, a Livraria Ler, do Luís Alves, no Jardim da Parada, o café centenário «A Tentadora», «Os Alunos de Apolo», onde desde 1872 milhares de lisboetas aprenderam a dançar, o CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique… Um mundo. Era no café « A Tentadora», na Ferreira Borges, com a sua bela fachada Arte Nova, que Sacarrão contava como uma manhã encontrou dois surdos famosos: António José Saraiva, um morador, e Óscar Lopes que, na altura, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha semanalmente, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva há muito que abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes ainda hoje é militante. As amistosas discussões de natureza ideológica eram prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutava, comentava - «um verdadeiro diálogo de surdos!».

Contava também como muitas vezes chegava a casa ao fim da tarde, fatigado e ansiando por repouso. O neto, que vivia com os avós, estava no quarto com música rock em altos berros a criada, na cozinha, ouvia rádio. A esposa via televisão na sala. Tudo somado, dava um barulho dos demónios. Então, Germano Sacarrão tirava o aparelho e entrava numa deliciosa ilha de silêncio, apenas habitada pelos seu pensamentos.

Um dia estava ele absorto ante um quadro, numa exposição de pintura na Galeria 111, do Campo Grande. Ouviu um tropel de passos e um rumor de sussurros que se aproximava. Uma voz conhecida diz : - Olha, o meu querido professor! Voltou-se. Diante dele estava, nem mais nem menos, do que o presidente da República, Mário Soares que, aliás, reside ali, a poucos metros, na rua que tem o nome de seu pai. Na verdade, Germano Sacarrão fora professor de Mário Soares no Colégio Moderno. Por questões políticas, quando veio da Suíça, onde, após a licenciatura e com bolsas do Instituto de Alta Cultura, estagiou entre 1938 e 1943, não lhe foi dada colocação no ensino oficial – nem na Universidade, nem sequer no Secundário. Generosamente, João Soares deu-lhe guarida no seu Colégio Moderno. Sacarrão nunca esqueceu esse gesto solidário. Agora, a comitiva do presidente ali estava, respeitosa e sorridente, esperando a reacção de Germano. Soares abraçou-o e repetiu: - O meu querido professor! – Então Germano, olhando a comitiva numerosa, esclareceu:

- De Física! Professor de Física! (Não fossem eles pensar que fora ele o mestre de política!) – E, perante os sorrisos da comitiva, correspondeu ao abraço do seu antigo aluno que, segundo parece, era um cábula de primeira. -«Muito esperto e inteligente, mas um cábula», dizia Sacarrão, que mantinha uma grande estima por Soares, embora não apreciasse a sua prática política.

Condenava a antropomorfização dos animais que nos leva a dividi-los em bons e maus, inteligentes e estúpidos: «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver». Como refere a escritora Maria Estela Guedes num excelente trabalho seu sobre Sacarrão, este preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Esta metaforização é abusiva e acientífica, na sua opinião. As metáforas nascem do impulso de manipularmos a sensibilidade alheia, de moldarmos o ponto de vista dos outros pelo nosso. «A realidade é uma invenção do nosso espírito», costumava dizer; o cérebro tem barreiras de conhecimento, está adaptado a um dado mundo e não a outro. Embora também manipuladora, em poesia, a metáfora é aceitável; em ciência não.

O Professor Sacarrão era um homem generoso e bom, ao qual os problemas alheios não eram indiferentes. Um exemplo pessoal – a seguir ao 25 de Abril era considerado «burguês» e, logo, condenável, pagar impostos. Segui a onda. Por volta de 1981/82, apareceu-me um postal das Finanças, ameaçando-me com penhora de bens, pois devia cinco anos de impostos ao Fisco – os impostos em dívida não chegavam a dez contos, mas a coima andava pelos cento e tal – hoje uma pequena importância, mas muito dinheiro na altura. Numa reunião de trabalho com o Professor, que estava a dirigir uma obra da editora, viu-me com ar preocupado, perguntou-me o que tinha e lá lhe confiei o problema. Comentámos a dureza do Estado relativamente aos que trabalham e a sua complacência para com os grandes empresários. Despedimo-nos. À tarde telefonou-me: - «Loures, estive a pensar no seu problema e eu resolvo-lho. Talvez não possa emprestar-lhe tudo, mas arranjo uma boa parte». Fiquei tão comovido que quase não consegui responder e, claro, recusei, mas agradeci muito, com as palavras que na altura considerei mais adequadas. Pensava propor às Finanças um acordo de pagamento faseado. Depois João Paulo II visitou Portugal, fiz um requerimento e fui amnistiado – só paguei a pequena importância dos impostos em dívida. Mas nunca me esqueci da generosíssima oferta de Germano Sacarrão. Que, ainda por cima, e segundo me dizia, não era rico.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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