Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Annabel Lee, por Edgar Allan Poe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

It was many and many a year ago,
   In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
   By the name of ANNABEL LEE;--
And this maiden she lived with no other thought
   Than to love and be loved by me.
She was a child and I was a child,
   In this kingdom by the sea,
But we loved with a love that was more than love--
   I and my Annabel Lee--
With a love that the winged seraphs of heaven
   Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
   In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud by night
   Chilling my Annabel Lee;
So that her high-born kinsman came
   And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
   In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in Heaven,
   Went envying her and me:--
Yes! that was the reason (as all men know,
   In this kingdom by the sea)
That the wind came out of a cloud, chilling
   And killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
   Of those who were older than we--
   Of many far wiser than we-
And neither the angels in Heaven above,
   Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
   Of the beautiful Annabel Lee:--

For the moon never beams without bringing me dreams
   Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I see the bright eyes
   Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling, my darling, my life and my bride,
   In her sepulchre there by the sea--
   In her tomb by the side of the sea.


publicado por João Machado às 10:00
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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

VerbArte - os gatos que nos escolhem




Os Gatos que nos escolhem - VI


Clara Castilho

a) Literatura

Picasso








Gato que brinca na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.


Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

b) Informações


Durante muito tempo julgou-se que o gato via tudo a preto e branco, mas sabe-se que pode distinguir as cores, tendo uma visão nocturna que lhe permite orientar-se.

Tem um sentido de olfacto muito desenvolvido. Para além do nariz possuiu no eu da boca o órgão de Jacobson. Com os seus bigodes ele pode medir a deslocação do ar, de forma a saber a posição e o contorno de tudo o que o rodeia. Reage a estímulos que somos incapazes de captar. Por isso dá conta, muito antes de nós, de algum perigo iminente – terramoto, erupção vulcânica – demonstrando-o pelo eriçar dos pelos, dilatar das pupilas, arquear das costas., etc.

Isto fez que na Idade Média lhe tenham sido atribuídos praticas de magia negra e bruxaria.

O seu ronronar transmite contentamento. Respondem a quem fala com eles, numa relação directa com a quantidade de fala que lhe é dirigida.

Diz-se que o gato tem sete vidas e noutros que tem nove (números místicos, apelando aos mistérios e fenómenos invulgares).

Em 1961 centenas de gatos foram capturados nos becos e vielas do porto de Singapura e lançados nos campos de arroz infestados de ratos, salvando a colheita em perigo…

O gato preto – Edgar Alan Poe


publicado por Carlos Loures às 23:55
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Edgar Allan Poe (1809 - 1849)

João Machado

Introdução

Passou no dia 7 de Outubro mais um aniversário da morte de Edgar Allan Poe. Ocorrida em circunstâncias que não estão completamente estabelecidas, pôs fim a uma vida difícil, recheada de dramas e dificuldades de toda a espécie. Entre elas, o do reconhecimento no seu próprio país, que só aconteceu bastantes anos depois.

Poe é hoje reconhecido como um dos vultos mais interessantes da literatura norte americana. E mesmo da literatura mundial. Contudo é famoso em primeiro lugar pelas histórias de terror e mistério que escreveu. Já o é menos pelo seu talento como poeta. E ainda menos por ter sido o criador da chamada detective story, que nós vulgarmente chamamos história policial, ou romance policial, e ser assim o precursor de Conan Doyle, Agatha Christie e tantos outros escritores famosos. E é muito pouco conhecido por ter sido um teorizador da literatura, à qual pretendeu mesmo dar um carácter científico.

Uma personalidade controversa

Helena Barbas, na introdução ao seu livro Poética (Textos Teóricos)[1], que inclui a tradução de quatro textos teóricos de Poe, começa por recordar que não existe nenhuma biografia fidedigna deste. Jean Royère (1871-1956), no seu livro Clartés sur la Poésie[2], refere que o primeiro biógrafo oficial de Poe,  Rufus Wilmot Griswold, introduziu no seu trabalho graves calúnias, que terão sido reproduzidas por outros autores. Mesmo a causa da sua morte é muito discutida. Uns atribuem-na ao alcoolismo, outros a doença, e ainda há outros que aventam a hipótese de ter sido vítima de uma agressão.

A maioria dos biógrafos concorda em que o escritor teve uma existência infeliz, com numerosos episódios de desastres afectivos. O primeiro foi sem dúvida a morte do pai e da mãe quando ainda era uma criança pequena, o que fez com que tivesse de ser recolhido por outra família, de onde lhe vem o apelido Allan. Desde novo que teve grandes desgostos amorosos, que culminaram com a morte de Virgínia, a sua jovem esposa, vítima de tuberculose, em 1847, portanto dois anos antes da morte do próprio Poe. Entretanto frequenta a Universidade da Virgínia, e mais tarde, a Academia Militar de West Point. Em ambos os casos,  não terá concluído os estudos.

Poe era sem dúvida dotado de uma inteligência excepcional e de uma cultura vastíssima, e interessava-se pelos mais variados assuntos. Amante de História Natural, chegou a publicar um manual de conquiliologia. Também escreveu sobre criptografia. Ganhava a vida escrevendo para jornais e revistas, chegando a vender por quantias módicas alguns dos seus melhores trabalhos. A sua actividade como crítico literário granjeou-lhe muitas polémicas e mesmo inimizades. As críticas a Longfellow, a Emerson e a outros contemporâneos produziram um grande impacto, muitas vezes desfavorável, sendo sem dúvida uma das razões porque, durante muito tempo, não foi tido em grande conta no seu próprio país. Foi sobretudo em França que começou a ser grandemente valorizado.

Sob o signo de Edgar Poe

Fui buscar o subtítulo acima a La Littérature Fantastique, de Jean-Luc Steinmetz[3]. Este assinala que Poe teve muitos imitadores, mas que poucos conseguiram captar o humor, a distinção e a inteligência com que ele tratou o que o legado do romantismo lhe tinha trazido em estado de terror em bruto.

Poe foi obviamente influenciado por Ann Radcliffe (1764-1823)[4], e por outros seguidores do chamado romance gótico. The Fall of the House of Usher (1839) é o seu conto que mais claramente mostra essa influência. A propósito, é de referir que enunciou a ideia de que o conto (“the Tale”) proporciona “a melhor oportunidade de prosa para exibir o talento mais elevado”, numa crítica à obra de Hawthorne[5].

No que respeita a influências poéticas, há que assinalar a de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), cujas ideias Poe chegou mesmo a ser acusado de usurpar. É preciso dizer neste campo que Poe se apresentava como um cultor da forma, defendendo que a música, como a forma de arte mais perfeita, deveria ser o principal padrão de referência para a poesia, até por ser a melhor maneira de produzir efeito no ouvinte ou no leitor. Defendeu também que o poema deve ser breve, para poder ser lido de uma só vez, e assim tornar mais intenso o efeito poético. Estas e outras ideias que apresenta nos seus textos teóricos foram contestadas pelos seus contemporâneos americanos, mas o seu interesse foi posteriormente reconhecido, não só em França, mas pelos meios literários em geral.

Na verdade, a fama de Poe em França (e também em Inglaterra), na segunda metade do século XIX, foi enorme. Baudelaire e Mallarmé traduzem Poe para francês, Júlio Verne escreve uma sequência ao romance The Narrative of Arthur Gordon Pym, intitulada Sphinx des Glaces, Villiers  de l’Isle-Adam e até Maupassant denotam a sua influência. A norte do canal, Tennyson presta-lhe tributo. E quem negará que The Happy Prince e The Portrait of Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de Stevenson, têm a influência de Poe?

Já falei acima da detective story, ou romance policial, para todos nós. Género muito menosprezado pelo snobismo intelectual, só há pouco tempo começa a ser compreendido todo o seu potencial. A sua criação deve-se sem dúvida a Poe. Até o sistema narrativo, de um escriba a relatar os trabalhos de um decifrador de mistérios, foi retomado pelos seus seguidores. O Dr. Watson, narrador das aventuras de Sherlock Holmes, é inspirado no narrador das brilhantes deduções de Auguste Dupin. The Murders in the Rue Morgue (1841), são a abertura para um novo género literário.

Edgar Allan Poe foi um poeta extraordinário, contista fenomenal, teórico e crítico literário. Mas foi também um desbravador de novos caminhos para a literatura em geral. Permitam-me que termine este breve trecho com a tradução de O Corvo, por Fernando Pessoa (que, ao que parece, não apreciava muito o resto da obra de Poe):

  
FERNANDO PESSOA

(1888-1935)

O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
            É só isso e nada mais.»
 
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
            Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
            É só isso e nada mais».
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
            Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
            Isto só e nada mais.
Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
            «É o vento, e nada mais.»
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
            Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Diz-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
            Disse-me o corvo, «Nunca mais».
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
            Com o nome «Nunca mais».
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais. Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
            Disse o corvo, «Nunca mais».
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
            Era este «Nunca mais».
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
            Com aquele «Nunca mais».
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
            Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
            Disse o corvo, «Nunca mais».
«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Diz a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
            Disse o corvo, «Nunca mais».
«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
            Disse o corvo, «Nunca mais».
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
            Libertar-se-á... nunca mais!
 
Agradecimentos

Para além dos autores citados, Helena Barbas (que magnífico trabalho!), Jean Royère (falecido há tanto tempo, mas nunca é demais frisar o entusiasmo que tinha por Poe), Jean-Luc Steinmetz, e outros, cumpre lembrar o estupendo trabalho da The Edgar Allan Poe Society of Baltimore, a quem peço que continue a investigação sobre a vida e obra deste grande autor. E peço aos proprietários legítimos da fotografia que juntei a este trabalho, que desculpem o abuso, se for caso disso.


[1] Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2004. As traduções são de Helena Barbas.
[2] Edição de Albert Messein, Paris, 1925.
[3] Colecção Que sais-je?, Presses Universitaires de France, Paris, 1990.
[4] O mais famoso dos seus romances foi The Mysteries of Udolpho. O primeiro romance gótico a tornar-se conhecido foi The Castle of Otranto (1765), de Horace Walpole.
[5] Ver o livro de Helena Barbas, acima referido, pág. XXIV da introdução.
publicado por João Machado às 16:30
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - O gato preto

Edgar Allan Poe

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o do terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão-somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me em explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.
Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiros disfarçados. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical – envergonho-me de o confessar – para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência.


 Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o meu cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.

Mas a doença tomava conta de mim – pois que doença se assemelha à do álcool? – e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso.

Certa noite ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.

Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do acto.

Entretanto o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito de PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto de que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem não se surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que não a devia cometer? Não temos nós uma inclinação perpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio pelo pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha dado afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.

Na noite do próprio dia em que este acto cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa, Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.

Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se seguiram ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à excepção de uma, tinham abatido por completo. Esta excepção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à acção do fogo, facto que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.

Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo relevo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.

Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror forma imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, o dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.
Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão – que não totalmente a minha consciência – sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que não o era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.
Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objecto preto que repousava no topo de um dos enormes tonéis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objecto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco em todo o corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.

Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.
Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher.
Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exactamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior acto de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me durante semanas de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.

O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus ódios. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.

Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com a suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.

Este medo não era exactamente o receio de um mal físico; no entanto, é-me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir – sim, mesmo aqui nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir – que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era originariamente bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente um rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objecto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte.

Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem feito à imagem do Altíssimo – oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento, de noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, incarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.

Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios de bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares – os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente da súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.

Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabolicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.
Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projectos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.

A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes de modo que ninguém pudesse qualquer sinal suspeito.

Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.

Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que não se distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta triunfante e disse para comigo: «Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho.»
A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; si, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência. Passaram-se o segundo e terceiro dia e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre. Nunca mais voltaria a vê-lo!
Suprema felicidade a minha! A culpa da acção tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas , naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procedeu a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.

- Senhores – disse por fim, quando iam a subir os degraus. – Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde a todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes… vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. – E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.

Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemónio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido a princípio abafado e entrecortado como o choro de uma criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação.

Seria insensato falar dos meus sentimentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de postas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!

(Tradução de Tomé Santos Júnior, © Editorial Verbo, Lisboa, s/d).

(Extraído do livro «Histórias de Mistério e Imaginação», de Edgar Allan Poe, tradução de Tomé Santos Júnior, © Editorial Verbo, Lisboa, s/d).
publicado por Carlos Loures às 01:00
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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Insones, noctívagos & afins



Numa homenagem a Edgar Alan Poe, apresentamos o seu «Gato Preto». Mesmo que já tenha lido, volte a ler – achamos que merece a pena. Edgar Allan Poe nasceu em Boston em 1809 e faleceu em Baltimore em 1849. Nos escassos 40 anos em que a sua vida decorreu, legou-nos uma obra não muito extensa, mas de uma qualidade extraordinária. O seu famoso poema «The Raven» («O Corvo»), vertido para português por Fernando Pessoa, seria uma escolha também óbvia. Embora muito falado, por estar menos divulgado, preferimos

O GATO PRETO,

Um conto insólito no melhor sentido do termo. Como nota de curiosidade, acrescentamos que, em 1952, se publicou em Lisboa uma revista de que saíram apenas seis números e que se chamava «O gato preto» (antologia de mistério e fantasia) em explícita homenagem ao conto de Poe. Era dirigida, entre outros, por Victor Palla e tinha uma qualidade excelente. Vejamos então o vídeo como aperitivo para a leitura do conto, logo, mais tarde, à uma da manhã.

publicado por Carlos Loures às 22:30
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