Quinta-feira, 24 de Março de 2011

A República nos livros de ontem nos livros de hoje - XXXIV, por José Brandão

O Ditador e a Afrontosa Ditadura

 

 

 

Joaquim P. Pimenta de Castro

 

Weimar, 1915

 

O primeiro presidente da república portuguesa foi o meu amigo, Dr. Manuel de Arriaga. Depois de eleito, convocou ele alguns indivíduos no Paço de Belém, para os ouvir sobre a orientação a dar aos negócios púbicos. Estando já em Lisboa o nosso ministro em Paris, sr. João Pinheiro Chagas, houve outra reunião, mais reduzida, para se assentar na constituição do ministério. Parece-me que estiveram somente os seguintes indivíduos: João Pinheiro Chagas, Eduardo de Abreu, Augusto de Vasconcelos, João de Menezes, Aresta Branco e eu. No segundo dia, a seguir ao dessa reunião, foi a minha casa o sr. Chagas, encarregado de organizar ministério, convidar-me para ministro da guerra. Recusei-me com o fundamento de não estar filiado em partido algum e não ser a minha nomeação bem recebida pelos seus dirigentes. Não se conformou. Pouco depois era eu chamado ao Paço de Belém, á presença do sr. presidente da republica, a cujas instâncias tive de ceder.

 

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publicado por João Machado às 17:00
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Terça-feira, 1 de Março de 2011

Apelo à rebelião das massas contra a ditadura dos aeroportos - por Carla Romualdo

 

Haverá alguma razão aceitável, compreensível, razoável para que o cidadão comum seja tão maltratado nas suas viagens aéreas? Para que lhe dêem ordens com maus modos, para que o obriguem a despir peças de roupa ou a descalçar-se, para que o mandem parar ou avançar como se fosse um recruta em plena inspecção? Haverá, pergunto, algum outro prestador de serviços que cobrando, e frequentemente não pouco, por esses serviços que presta, possa dar-se ao luxo de tratar os clientes com semelhante desrespeito e sobranceria?


Em que outro lugar, que não um aeroporto, há semelhante aglutinação de funcionários mal-encarados? Em que outro lugar nos é imposto que caminhemos por corredores semelhantes aos que são destinados ao exercício físico dos hamsters, percorrendo a fila em ziguezague, enquanto somos vigiados por seguranças de cara fechada prontos a gritar-nos se não fazemos o circuito com a rapidez e correcção que se espera de nós? Onde mais somos obrigados a despir casacos e camisolas, a remover cintos, anéis, óculos, sapatos, a ser revistados em frente a dezenas de pessoas, só porque algum obscuro componente das roupas que nos sobram insiste em fazer o detector de metais disparar? Haverá no mundo criaturas mais antipáticas, mais prepotentes, do que aquelas que revistam os passageiros nos aeroportos? E para quê tanto escrúpulo? Por acaso algum terrorista da Al-Queda se lembrou de esconder explosivos na fivela do cinto? Já ouviram algum caso em que um avião tivesse sido desviado com recurso a um par de sapatos, como os que me fez descalçar uma insolente inspectora com tom de voz e gestos de quem passa as noites a cantar o “Deutschland über alles”?


Quem mais se atreveria a chamar um passageiro com maus modos por ter descoberto uma garrafinha de água na sua bagagem de mão?


- TEM RECEITA MÉDICA PARA ESTA GARRAFA?


- nã… não, é só para matar a sede…


- NÃO PODE!


 


publicado por CRomualdo às 18:00

editado por Luis Moreira em 28/02/2011 às 18:08
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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Luta armada contra a ditadura (10) – por Carlos Loures

Logo no dia 16 de Fevereiro, Raul Proença e Jaime Cortesão, ligados à «Seara Nova» e à estrutura política e militar do movimento, foram demitidos, respectivamente, dos cargos de Director Geral e de Director dos Serviços Técnicos da Biblioteca Nacional. O mesmo aconteceu a muitos outros intelectuais. Em 26 de Março foi criado em Lisboa uma polícia política - a Polícia Especial de Informações, embrião da polícia política do Estado Novo sendo recrutados agentes da extinta Polícia a Preventiva de Segurança do Estado. Em 11 de Abril é criada uma Polícia Especial de Informações no Porto. Em 27 de Maio, o Governo  decretou a dissolução da Confederação Geral dos Trabalhadores. O órgão oficial da CGT, A Batalha, fora assaltado por manifestantes no dia 6 de Maio.

 

Em conclusão: a Revolução de Fevereiro de 1927 foi talvez de uma grande útiidade para o regime que, saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926, se ia consolidando, pois lhe permitiu dar vários passos no sentido de instaurar um regime autoritário  que correspondia aos desejos de amplos sectores da sociedade, nomeadamente da Igreja Católica, e das classes possidentes, comerciantes e industriais. Havia também gente que, perfilhando o ideal republicano e democrático, entendia que era tempo de fazer uma pausa e arrumar a casa.

 

O movimento de Fevereiro de 1927 permitiu à Ditadura, como dizia, começar a criar um aparelho repressivo a todos os níveis, aparelho que iria constituir a pedra angular do Estado Novo. Considerando a Ditadura a única alternativa aos caos da Democracia, até alguns republicanos entenderam que este punho firme era a solução para os problemas nacionais. Os que apoiavam a Ditadura, a criação de um Estado autoritário e despótico, não perderam tempo - em a 9 de Fevereiro, ainda se trocava tiros em Lisboa, foi criada a Confederação Académica da União Nacional, o primeiro movimento civil de apoio à ditadura, criado por Vicente de Freitas. Embrião da União Nacional, o partido único que iria durar até 1969, quando Marcelo Caetano o crismou de Acção Nacional Popular, teve desde logo o apoio da imprensa de direita e, claro, da Igreja Católica.

 

No entanto, a Oposição teve também algumas vantagens. Em 12 de Março de 1927 foi criada em Paris a Liga de Defesa da República, integrando exilados políticos de diversas tendências – António Sérgio, Afonso Costa, Jaime Cortesão, entre muitos outros. Mas o chamado «Reviralhismo» não parou – logo em Junho de 1927, com o desacordo dos «liguistas», um grupo de oficiais exilados na Galiza, enviava clandestinamente a Portugal o capitão Jaime de Morais, para tentar chegar a um acordo com a União dos Oficiais Republicanos, dirigida pelo tenente-coronel Ribeiro de Carvalho e pelo comandante Cunha Aragão. Liderado pelo general Norton de Matos, foi criado um comité para uma novo movimento revolucionário.

 

E até à madrugada libertadora de 25 de Abril de 1974, nunca mais se deixou de conspirar e de tentar sacudir a opressão que se abateu sobre o País, suprimindo praticamente a República e instituindo um regime corporativista ao serviço das correntes políticas, sociais, económicas e religiosas mais reaccionárias.

Foi um árduo caminho por uma longa noite que terminou com a Revolução de Abril.

 

Terminou?

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 01:46
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

Luta armada contra a ditadura (8) – por Carlos Loures

(Continuação)

No Porto, permaneceram fiéis à Ditadura, elementos do Regimento de Infantaria 18, do Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5 , instalado em Gaia, na Serra do Pilar. A GNR declarou-se neutral, declarando-se disposta a garantir o policiamento das ruas da cidade. Informadas do que se passava, as forças fiéis ao Governo, mais numerosas e dispondo de mais meios, iam, mesmo antes de receber reforços, preparando o cerco. Logo às primeiras horas de sedição, houve esporádicas trocas de tiros nas Ruas de Barros Lima e Montebelo (actual Avenida de Fernão de Magalhães); no Marquês de Pombal; na Praça dos Poveiros e no Largo do Padrão. Porém, os 12 feridos do primeiro dia de revolta atestam a brandura dos primeiros confrontos. Na madrugada do dia 3, a artilharia da Serra do Pilar entrou em acção. Dois obuses atingiram, na Rua de Gonçalo Cristóvão o quartel de Sapadores Bombeiros.

As forças governamentais, depois de algumas horas de desorganização, passaram a ser constituídas por uma parte reduzida do Regimento de Infantaria 18,, que tinha como comandante o coronel Raul Peres, o Regimento de Cavalaria 8 e o Regimento de Artilharia 5, este aquartelado na  Serra do Pilar. Na tarde do dia 3 de Fevereiro, sob o comando do coronel  João Carlos Craveiro Lopes, chefe do estado-maior da Região Militar e governador militar da cidade,  concentraram-se no quartel da Serra do Pilar e abriram fogo de artilharia contra os revoltosos. Na própria manhã de 3 de Fevereiro, o Ministro da Guerra, coronel Passos e Sousa, saiu de Lisboa num comboio com destino a Vila Nova de Gaia, onde chegou ao fim da tarde. Assumiu o comando das forças governamentais até então comandadas pelo coronel Craveiro Lopes.

Durante essa primeira manhã da sedição, chegaram aos revoltosos reforços vindos de Valença. Desembarcaram na estação da Boavista, na Avenida da França, e marchando pela Carvalhosa, Cedofeita, Clérigos, Praça da Liberdade,  Rua de 31 de Janeiro, atingiram a Batalha, onde se juntaram às forças rebeldes. O cerco ia-se apertando, no entanto. O navio "Infante de Sagres" aportou a Leixões com reforços. Em Valbom, tropas governamentais tinham atravessado o rio e dirigiam-se a marcha forçada para o centro do Porto. Os combates tornavam-se, de hora para hora, mais renhidos. Violentos tiroteios ouviam-se perto da Batalha, no Bonfim, em Santo André (Poveiros), Padrão, Campo de 24 de Agosto, Rua do Duque de Loulé, Fontainhas, S. Lázaro… No dia 4 de Fevereiro, e nos dias imediatos, juntaram-se aos revoltosos do Porto forças vindas de Penafiel, Póvoa do Varzim, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Régua e Lamego. Vinda de Amarante chegou mais artilharia, a qual foi posicionada perto de Monte Pedral. A artilharia da Figueira da Foz foi detida na Pampilhosa quando se dirigia para o Porto. Começaram a chegar notícias de adesão de diversas unidades: Viana do Castelo, Figueira da Foz e Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. No entanto, a notícia mais esperada, a da adesão da guarnição de Lisboa não chegava e esses levantamentos locais foram jugulados rapidamente.

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 12:26
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Sábado, 22 de Janeiro de 2011

A luta armada contra a ditadura (6) -Os 50 anos da “Operação Dulcineia” – 22 de Janeiro de 1961 – por Carlos Loures

1961 foi, como referi num outro texto, um «annus horribilis» para o regime de Salazar. Na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, começava a longa sucessão de acontecimentos que iria culminar, no último dia do ano, com o ataque ao quartel de Infantaria 3, em Beja. Pelo meio, ficava o desencadear da guerra colonial, o golpe de Estado do general Botelho Moniz, a perda do Forte de São João Baptista de Ajudá, encravado no território do Daomé, o desvio de um avião da TAP, realizado por Palma Inácio, que lançou depois panfletos sobre diversos pontos do País, a União Indiana invadiu Goa, Damão e Diu, pondo fim á secular presença portuguesa no subcontinente …

 

O que se passou no dia 22 de Janeiro de há 49 anos? Um comando do DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação), composto por portugueses e por galegos ex-combatentes da Guerra Civil, dirigido por Henrique Galvão e Jorge Sottomayor, pôs em marcha a «Operação Dulcineia», tomando de assalto o paquete Santa Maria, ao  largo do mar das Caraíbas e crismando-o de «Santa Liberdade». Antes de vos falar da «Operação Dulcineia», vou apresentar o seu comandante: Henrique Galvão.

 

Militar de carreira, Henrique Galvão (1895-1970) foi um dos apoiantes de Sidónio Pais e participou no golpe  militar de 28 de Maio de 1926. Salazarista convicto, foi, em 1934, o primeiro director da Emissora Nacional. Esteve em África, onde organizou acções de propaganda do regime. Nomeado governador de Huíla. Angola, escreveu uma livros brilhantes sobre a antropologia e a zoologia vida das colónias de África.

 

O ter vivido o regime por dentro levou-o à desilusão. Esteve envolvido numa conspiração em 1952. Foi preso e expulso das Forças Armadas. Em 1959, durante uma consulta médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fugiu e refugiou-se na embaixada da Argentina, vindo a conseguir, tal como o general Humberto Delgado, exílio político na Venezuela.

 

Foi durante o exílio que começou a preparar uma acção mais espectacular, mediática: o desvio do paquete de luxo “Santa Maria” cheio de passageiros. A operação que parecia megalómana, de difícil concretização, preparou-a de colaboração com Delgado, exilado no Brasil.

O “Santa Maria", com mais de seis centenas de passageiros e 350 tripulantes a bordo, largara em 9 de Janeiro de La Guaira, Venezuela, numa viagem para Miami. Galvão embarcou clandestinamente em Curaçao, nas Antilhas Holandesas. A bordo já se encontravam os 20 elementos do DRIL, encarregados de executar a operação.

 

Cumprindo uma ordem de operações cuidadosamente elaborada por Galvão, a acção foi desencadeada na madrugada de 22 de Janeiro - a ponte de comando foi tomada. Um dos oficiais, um ex-graduado da Mocidade Portuguesa, ofereceu resistência e foi morto a tiro. Os restantes, segundo Galvão, apressaram-se a render-se. Vergonhosa e cobardemente, comentaria depois Galvão.

 

O navio mudou o seu rumo e dirigiu-se a África. Galvão pretendia atingir a de Fernando Pó, no golfo da Guiné,  na época, colónia espanhola,  partindo daí para atacar Luanda: Este seria o início de uma operação mais vasta destinada a derrubar as duas ditaduras peninsulares.

No entanto o paquete, do qual nada se sabia, com natural apreensão dos familiares de passageiros e tripulantes, foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que imediatamente avisou a guarda costeira americana. Começaram a chegar navios de guerra, inclusivamente uma fragata britânica.

Não sendo possível prosseguir com o plano traçado, que exigia o factor surpresa, Galvão e Sottomayor decidiram dirigir-se ao Brasil e render-se às autoridades brasileiras. O novo presidente,  Jânio Quadros (19171992) , um homem de esquerda, foi empossado em 31 de Janeiro de 1961, vindo a renunciar em 25 de Agosto desse mesmo ano (declarando que "forças terríveis" o obrigavam a esse acto).

 

Rumaram então ao Recife onde pediram asilo político, o qual foi prontamente concedido. Desembarcaram no Rio de Janeiro os passageiros. O presidente Jânio Quadros recusou-se a entregar os revoltosos às autoridades portuguesas. O navio esteve em poder dos revolucionários até 2 de Fevereiro, dia em que uma força de fuzileiros da Marinha Brasileira assumiu o seu controlo.

 

O assalto ao Santa Maria, que forneceu tema para um filme de Joaquim Manso, foi naquele Janeiro de 1961 um assunto de grande exposição mediática internacional – jornais de actualidades, canais de televisão, jornais, magazines, dedicaram-lhe grande atenção. Foi o primeiro golpe daquele ano que Salazar iria abominar, o ano de todos os prodígios em que os oposicionistas tiveram motivos para ter esperança na queda da (aparentemente inabalável) ditadura a qual, no entanto, ainda se aguentaria por treze anos mais.

 

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publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

A luta armada contra a ditadura (5) - por Carlos Loures

 

 

 

(Continuação)

Já aqui contei esta história, mas acho que faz sentido incluir uma nota de humor nesta série de textos em que, mais do que historiar, sumarizei os movimentos de luta armada contra a ditadura. A história da «Operação Papagaio» é muito curiosa, pois para além dos seus contornos anedóticos, mostra-nos que grande maioria dos intelectuais portugueses, mesmo os surrealistas dos quais não se esperavam grandes atitudes de resistência, estavam contra o regime, odiavam a ditadura e aspiravam pela liberdade.

Quando se fala de luta armada de civis contra o salazarismo, recorda-se a ARA e a sua espectacular ofensiva contra o aeródromo militar de Tancos, destruindo 28 aeronaves, aviões e helicópteros, ou as acções das Brigadas Revolucionárias contra as instalações da NATO ou ainda a LUAR, de Palma Inácio, com o seu audacioso plano de tomada da cidade da Covilhã. A  «Operação Papagaio», inconsequente, com o seu quê de chaplinesca, mal organizada, foi, no entanto, um espelho cruel de toda a resistência, a militar incluída até que as referidas organizações entraram em cena. Esta conspiração de poetas correu mal - outras organizadas por generais, com meticulosas "ordens de operações" e com unidades militares envolvidas, não correram melhor. Porém, quem queira levar um pouco mais longe a investigação sobre esta operação, deparará com uma enorme carência de fontes. E, as poucas que existem, apresentam algumas contradições entre si.

Luiz Pacheco em “Prazo de Validade” (Contraponto, 1998) dedica um capítulo à "Operação Papagaio". Tem muitas falhas, a começar pela data. Logo no começo do texto, diz que tudo aconteceu quinze anos antes da Revolução de Abril, o que situaria os acontecimentos em 1959. E isto não pode ser verdade. Em 1959,  ninguém daquele grupo foi preso  e nos dois anos seguintes também não. Segundo os meus dados, inclinar-me-ia para 1962 ou mesmo em 1963. Em Dezembro de 1961 saí de Lisboa e, à cidade onde trabalhava, chegou-me a notícia (salvo erro, através do jornalista Adriano de Carvalho) da prisão de alguns amigos escritores do café Gelo na sua maior parte.

Em Agosto tive as habituais férias. Passava-as com a família numa casita perto da Caparica. Não tinha carro (nem havia ainda a ponte) e uma manhã em que fui a Lisboa tratar de qualquer assunto, no regresso à Costa encontrei o Virgílio Martinho (1928-1994), o autor de «O Grande Cidadão», que morava em Almada ou nos subúrbios. Fizemos juntos a travessia no «cacilheiro» , onde apanhávamos os respectivos autocarros.

Foi o Virgílio que pela primeira vez me descreveu no que consistira a «Operação Papagaio», nome de código para uma tentativa de derrube da ditadura, feita por gente do chamado grupo do Gelo e do Royal – o António José Forte (1931-1988), o Renato Ribeiro, o Manuel de Castro (1935-1971) e o Mário Henrique-Leiria (1923-1980), que não pertencia ao grupo, mas era grande amigo de alguns dos seus elementos, como era o caso do Forte. Aliás, o Pacheco esqueceu o Mário-Henrique Leiria que, tanto quanto julgo saber, foi o elemento principal. Porque há uma outra fonte - a do nosso Fernando Correia da Silva, amigo íntimo do Mário Henrique-Leiria e que dele terá escutado a narração dos acontecimentos. O Fernando dá a operação como realizada o que comprovadamente é um equívoco (talvez da sua memória) – a operação abortou – aí o que o Martinho me contou e o que Pacheco diz no seu livro coincide totalmente. Quanto ao Forte, tendo sido seu colega na Fundação Gulbenkian, de onde saí em 1971, demo-nos até à sua morte, em 1988, almoçando juntos em regra uma vez por mês, além de vários passeios de fins-de-semana que demos juntos, eu, ele, a minha mulher e a sua, a artista plástica Aldina. Mas, tal como o Mário, o Forte não gostava de falar neste assunto. Se alguém aludia ao caso, ria-se e não adiantava a conversa.

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 15:24
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

ISABEL ALLENDE - por Raúl Iturra

 

 

-

Isabel Allende Llona (Lima, 2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena (apesar de ter nascido em Lima, sua família logo voltou para o Chile, sua terra natal) actualmente radicada nos Estados Unidos da América.

 

Filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo irmão de Salvador Allende, e de Francisca Llona. Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973).

 

Não é por ser Allende que refiro esta escritora, nem por ser chilena, essas nacionalidades de ser ou não ser. Como a minha: tenho acumulado tantas, como os países que tenho vivido. Como é evidente, não há ponto de comparação. Eu sou escritor, mas escrevo livros científicos, que vou amenizando com histórias de vida dos meus analisados. Isabel faz ao contrário: organiza a trama do seu romance e, a seguir, procura as provas. Como fez com o seu primeiro livro. Foi escrito en terras estrangeiras, no Peru. Em nesse livro, ou no meu imaginário, narra esta ideia: ao partir para o exílio, com malas e família organizada, tornou a entrar a casa, duas mãos cheias de terra chilena entraram num saco que levou com ela. Em Lima colocou a terra em um vaso e plantou a flor que tem por nome No Me Olvides. La pequeña y modesta flor "no me olvides" tiene cinco pétalos y su centro pareciera un pentagrama resplandeciente de colores blanco y amarillo; generalmente es azul claro o blanco y crece en grupos, dado que sus semillas pequeñitas son dispersadas por el viento en los terrenos grandes. En el significado de las flores, la flor No Me Olvides, simboliza a la amistad y al amante eterno. É em verdade, uma flor para não esquecer nem permitir o esquecimento da sua origem.

 

Tenho guardado a citação em Castelhano, por me ter sido relatada em Castelhano. É a flor que Isabel Allende usa para ornamentar, com palavras, os seus livros. Especialmente esse primeiro, que a catapultou à realidade, a uma realidade desconhecida, por não ter morado no Peru, mas desta vez de forma diferente: não era a filha de um diplomata, era uma exilada como centenas de nós. Exilados com médios de subsistência, mas exilados, com todo, proibidos de pisar a nossa terra e ver a nossa família, que eram do bando do nosso Presidente, seu tio, Salvador Allende.

 

Isabel Allende, como muitos de nós, teve que confrontar uma vida cheia de surpresas, formas diferentes de falar com histórias comuns nos países de América Latina, antigas colónias da monarquia espanhola, histórias tão semelhantes, que era-nos impossível morar no Novo Continente: todo igual, mas, ai mesmo tempo, todo diferente, como relata no seu livro de 2006, editado por Difel, Barcelona, livro intitulado Inés del Alma Mia. Folga dizer que há uma versão portuguesa, também da Difel, mesmo ano, diferente título por causa das traduções: Inês da Minha Alma. Livro que narra as formas brutais e selvagens como o Chile foi conquistado, exterminados os seus nativos, encarcerados, feitos escravos dos pouco espanhóis que colonizaram à, hoje, República do Chile.

É impossível negar que os livros de Isabel Allende não sejam livros de história. De história documentada e provada com documentos de historiadores que ela costuma ler e consultar, como em Inés del Alma Mia, um curta mais eloquente forma de agradecer aos especialistas que lhe ajudaram a saber histórias, nesse tempo, pouco conhecidas por ela, como é o caso da História dos Mapuche, muito nomeados mas jamais pesquisados, excepto por poucos. É Malú Sierra quem ajuda à Historia da Nação Mapuche, mal conhecida por Isabel Allende. Acrescenta que para escrever este livro, foi-lhe preciso quatro anos de investigação e de leituras. Com os dados na mão, urde a trama do romance, que acaba por ser um livro que, ainda de imensas páginas, quase 400, uma pessoa não consegue parar de ler com um entusiasmo que, após dois dias, sentimos tristeza pela narrativa ter sido acabada. Especialmente, por se tratar da história de uma mulher aguerrida que aprende a ler e escrever e aprende com o seu marido, o assistente de Pedro de Valdivia, Francisco Rodrigo de Quiroga. Se não fosse pela colaboração do seu aristocrata marido, estas crónicas não teriam sido escritas. Para o seu exercício, escrevia todos os dias num diário de vida, que é a fonte de muitos historiadores e da escritora, para saber dias e datas certa da colonização do Chile. Manuscrito guardado na Biblioteca Nacional do Chile.

 

publicado por Carlos Loures às 15:00

editado por Luis Moreira às 14:39
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