Por uma deliberação de2000, aUNESCO oficializou o 21 de março como o “Dia Mundial da Poesia”. Desta maneira e anualmente, a data é comemorada através de um Encontro Internacional organizado em diferentes países.
O segundo desses encontros, que com este artigo desejamos recordar dada a importância e significado que o mesmo tomou, teve lugar, de21 a24 de março de 2001, em Santiago de Compostela, com a presença de dezenas de poetas provenientes de todas as partes do mundo. Eugênio de Andrade, Maria Alice Branco e Casimiro de Brito representaram o Portugal. Sílvio Castro foi o convidado para representar o Brasil.
A organização da “Celebración Mundial da Poesia-2001“ esteve ao cargo do P.E.N. Clube da Galícia, presidido pelo poeta Luís G. Tovar. Aos diversos P.E.N. mundiais, em modo geral, a UNESCO consignará o encargo da realização dos próximos Encontros.
Além de dois poetas Prêmios Nobel, o nigeriano Wolé Soyinca e Derek Walcott, de Santa Lúcia, os convidados foram: Bella Akhmandulina (Rússia). Alberto Nessi (Suiça). Lasse Soderberg (Suécia). Charles Tomlinson (Inglaterra), Jean-Clarence Lambert (França), Darie Novanceaun (România), José Hierro, Francisco Brines, Blanca Andreu, Luis Garcia Montero, José Ramon Trujillo (Espanha), Alex Susanna, Carles Duarte, Susana Rafart, Vicenç Llorca (Catalunha), de Portugal: Eugênio de Andrade, Casimiro de Brito, Rosa Alice Branco; do País de Gales, Menna Elfyn; da Provença: Joan Ives Casanova; da Esalovênia: Veno Taufer e Marko Kravos; Knuts Skujnicks (Lituânia), Eva Tóth (Hungria), Sílvio Castro (Brasil), Mario Benedetti (Uruguai), Cecilia Balcazar (Colômbia), Homero Aridjis (México), Nicole Brossard (Canadá-Quebec), Duo Duo (China), Pallav Ranjan (Nepal), Hanan Awwad (Palestina), Orna-Rav-Hon e Shulamit Korianski (Israel), Sujata Bhatt (Índia), Geoffey Haresnape (África do Sul), Sam Mbure (Kênia), Francisco Zamora (Guinéia Equatorial), Wilfrid Miampica (Congo). A esses se juntaram poetas galicianos, numerosos e significativos pela produção poética que apresentaram,em particular XabierScoane, Xesús Rábade Paredes, Luís G. Tosar, Xullio L. Valcárcel, Xela Arias, Xabier Rodriogues Barrio, Alfonso Pexegueiro, Luisa Castro, Olga Novo, Arturo Casas, Antón L. Dobao, Paulino Vasquez, Bieito Iglesias.
O encontro de todos estes muitos e diversos poetas, assim como aquele de suas diversas línguas de expressão e criação, confirmou o quanto de correspondência à realidade continha a composição do grande poeta galego Luís Pimentel, tomada como slogan-epígrafe
para o Encontro da sempre fascinante Santiago:
A poesía é o grand milagre do mundo
La poesía es el gran milagro del mundo
La poèsie est le grand miracle du monde
Poetry is the world’great miracle
O programa do Encontro era e foi múltiplo. O poeta convidado participava de uma jornada especial, na qual debatia o tema em discussão plenária e lia alguns de seus poemas. Além dessa atividade programada, poderia ser chamado para outras participações em contáto com o público, sempre muito numeroso. O representante do Brasil foi incluido no programa da tarde do dia 22, com o colóquio sobre o tema: “Creación e compromisso. A espada na canción“. Juntamente com Sílvio Castro debateram sobre o sempre presente problema das muito possíveis naturezas da poesia os poetas e críticos Felipe Juaristi, Emilio Coco, Diego Jesús Jiménez, Eva Tóth e Vicenç Llorca, tendo como moderador Xesús Alonso Montero, professor titular de Língua e literatura galegas da Universidade de Santiago de Compostela. Recorde-se que na secular Universidade o setor de Português tem como diretora e viva animadora das literaturas portuguesa e brasileira a prof.a Pilar Vásquez Cuesta. Além do seu programa oficial, Sílvio Castro foi incluído e debateu sobre o tema do colóquio “A arte e a palabra“, com a comparticipação dos poetas e críticos Casimiro de Brito, Susana Rafart, Blanca Andreu, Alex Susanna, Xabier Seoane, tendo como moderador Carlos Cesares, bem como teve a incumbência da leitura do texto galego-português, o poema n. 1, de Martin Codax (do qual se deve cf. A “edição crítica dos poemas”, pelo prof. Celso Cunha, Rio de Janeiro, 1956) na solenidade de início das obras de restauração de velhos edifícios e construção de novos que constituirão em breve a sede da “Fundação de Estudos da Poesia Galego-Portuguesa“, na ilha fluvial onde possivelmente nasceu o poeta, em meio à grande e bela foz do Quadalquivir. Depois da leitura do original galego de Martin Codax
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ai Deus, se verra cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ai Deus, se verra cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ai Deus, se verra cedo!
Se vistes meu amado,
por que ei gran coidado?
E ai Deus, se verra cedo!
foram lidas, nas diversas línguas presentes ao Encontro e pela voz dos poetas representantes, as correspondentes traduções da Cantiga de amigo do primeiro grande poeta da Galícia.
A outro grande poeta galego, Rosalía de Castro, foi dedicada uma jornada do Encontro, a de 23 de março. O evento, “Ofrenda dos poetas do mundo a Rosalía de Castro“, se realizou em Padrón, onde sea encontra a Casa-Museo de Rosalía.
O Encontro de Santiago, integrado na majestosa beleza da cidade medieval, além dos eventos já citados, se estruturou em muitos outros: 21 de março – Inauguração na Capela Real; Concerto do “Grupo Malandança“ (Cantigas de Santa Maria de Alfonso XI) / Poesia na noite: “Abrindo milenio” – Recitais de poetas novos nos pubs da cidade monumental; 22: “Coloquio – Século XXI, a palabra do poeta” – Recital de poetas convidados – Recital a cargo dos Prêmios Nobel Derek Walcott e Wole Soyinka – “Poesía na noite”; 23: no Pazo do Hórreo “Recepción no Parlamento de Galicia“ – “Poesía na noite“; 24: Coloquio – Novas tecnoloxia para o poeta / Coloquio – Editar poesía / Recital / Poesía na noite, no Pazo de Bendana, Fundación Granell: “Compostela de lúa e pedra – Festival músico-poético de despedida“.
O “World poetry day“, criado pela UNESCO e no 2001 concretizado em Santiago de Compostela numa particular, mas viva atmosfera de afirmação das identidades regionais internas àquelas nacionais, demonstrou como a poesia pode ser um produto em todos os sentidos, mesmo num tempo como o atual em que se tende a afirmar o predomínio globalizante de valores caracteristicamente venais.
Já o tenho dito várias vezes. E volto a dizê-lo neste dia, chamado Dia Mundial da Poesia que em nada mexe comigo. Eu não sei o que é a poesia, penso que ninguém sabe verdadeiramente o que é a poesia e duvido muito de quem diz que sabe. No entanto, penso que a poesia é um sentimento, mas não um sentimento banal. Parece-me um sentimento muito subtil, quase mágico, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, uma essencialidade rítmica e harmoniosa que pode existir dentro de nós e nos permite, quando permite, a mais nobre e sublime expressão da realidade das coisas e da vida.
Gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, julgo ter a sorte de sentir a poesia mas não me sinto poeta nem “letrado”em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco. Muitas vezes digo para comigo, mas que chachada esta, que valor tem eu estar aqui a perder tempo com este jogo de palavras, quando há tantas coisas úteis para fazer! E sinto que é a altura de beber um copo de bom tinto, a minha droga sublime. Porque cada vez mais me enjoa a poesia, a poesia que por aí nasce e por aí se cria. Cada vez mais gosto muito de poucas coisas.
Penso que, muitas vezes, o que andamos para aqui a fazer não tem nada a ver com poesia, com verdadeira poesia. O sentimento poético e o sentimento artístico são sentimentos que, como todos os sentimentos nobres, enriquecem os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação com a verdade, afinam todas as emoções e sentimentos, ajudam-nos no caminho do equilíbrio e da harmonia, mas são sentimentos de rara e difícil conquista.
A poesia e a beleza são sentimentos gémeos, e esta identidade gemelar, sendo uma realidade, poucas vezes se encontra. E para que exista, elas não podem viver separadas. Se estamos frente a uma realidade concreta, e nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, então convivemos com ela, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade, sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se pode passar ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja, e muito mais ao lado da poesia, se não formos capazes de sentir o seu perfume.
Se o que temos na frente, ainda que representativo de uma natureza real, passa além da realidade concreta, levada pela mão da poesia, isto é, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas contemplámo-la e vivêmo-la como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza.
A poesia e a beleza, quer queiramos quer não, residem na maior ou menor capacidade que o homem tem de se projectar para fora dos horizontes da sua vida banal, rompendo a órbita para além da qual emerge o profundo valor estético da poesia, poesia que tem de percorrer transversalmente qualquer forma de expressão artística, seja o poema, sua matriz natural, seja a pintura, seja a música, seja a própria vida, porque qualquer forma de expressão artística só é arte, se contiver dentro de si a essência poética.
Salvé a tutti!
Ar Integrata convida-vos:
- a participar nas comemorações do Dia Mundial da Poesia que ocorrerão no Museu da República e Resistência
ver programa e mais informações em: http://arsintegrata.blogspot.com/
- A ouvir J.S. Bach em Ars Musica 2U, in: http://arsmusica2u.blogspot.com/
- A ler o poema-hino da "geração à rasca", em Ars Poetica 2U (post n.º 83) (e ver-ouvir o respectivo vídeo) em: http://www.arspoetica2u.blogspot.com/
E divulga outros importantes eventos:
- Concerto de abertura do FIOL - Festival Internacional de órgão de Lisboa, que ocorrerá no Mosteiro dos Jerónimos, hoje à noite, pelas 21 h (entrada livre), com um programa coral-organistico que assenta em Liszt, Rheinberger e Victoria
- Sábado, dia 19, pelas 21h30, a 9.ª Sinfonia de Beethoven, pela O.S.J., na Aula Magna da Universidade de Lisboa (entrada livre, mediante levantamento de convites disponíveis em distribuição no local a partir das 19h)
- No mesmo dia e hora - Recital de Poesia no Centro Cultural de Cascais com os Jograis do Atlântico
- 4.ª feira, dia 23 de Março, às 19h - Recital de Poesia e viola (guitarra clássica) com Júlia Lello e João Roque na Casa da América-Latina (junto ao Museu Nacional de Arte Antiga)
Saudações artísticas
A equipa de Ars Integrata
http://arsintegrata.blogspot.com/

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