Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

Neoliberalismo ou Democracia: O Debate Está Aberto – por Júlio Marques Mota -4

(Continuação)

3) A desregulação e a maquilhagem das contas

Wall Street ajudou a disfarçar o défice que alimenta a crise na Europa

Por LOUISE STORY, LANDON THOMAS Jr. e NELSON D. SCHWARTZ

As tácticas de Wall Street são da mesma natureza das que geraram a crise do “subprime” na América, que levaram ao aprofundamento da crise financeira que abala a Grécia, pondo em causa o euro, ao ajudar os governos europeus a esconder os seus crescentes défices.

 

No momento em que as preocupações sobre a Grécia ressoam nos mercados mundiais, há registos e entrevistas que mostram que, com a ajuda de Wall Street, a Grécia se dedicou, ao longo de uma década, a tornear os limites europeus do défice. Um esquema criado pelo banco Goldman Sachs ajudou a esconder da supervisão orçamental de Bruxelas milhares de milhões de euros do défice.

Mesmo quando a crise se aproximava já do ponto crítico, os bancos ainda procuravam ajudar a Grécia a protelar o dia final do acerto de contas. Em Novembro - três meses antes de Atenas se ter tornado no epicentro do nervosismo financeiro global - uma equipa do banco Goldman Sachs chegou àquela velha cidade com uma proposta anunciada como muito moderna para governos em grandes dificuldades de pagar as suas dívidas, tal como relatado por duas das pessoas que participaram na reunião.

A equipa do banco, liderada pelo próprio Presidente do Goldman Sachs, Gary D. Cohn, apresentaram um esquema financeiro que permitiria remeter para um futuro longínquo o défice do sistema de saúde da Grécia, um esquema muito parecido com o que consistiu em levar os proprietários de casas a fazer uma segunda hipoteca para pagar dívidas correntes feitas com os cartões de crédito.

 

Este esquema já tinha funcionado antes. Em 2001, logo após a Grécia ter entrado para a União Monetária Europeia, o banco Goldman Sachs ajudou o governo grego a obter discretamente empréstimos de milhares de milhões de dólares, disseram pessoas ligadas a esta transacção. Este negócio, sem visibilidade pública porque foi tratado como transacção de divisas e não como empréstimo, ajudou a Grécia a cumprir as regras europeias relativas ao défice, ao mesmo tempo que continuava a gastar para além das suas posses.

Atenas não deu sequência a esta última proposta do banco Goldman Sachs, mas agora, vendo-se a Grécia a sufocar sob o peso da dívida e dado que os seus vizinhos mais ricos manifestam vontade em socorrê-la, as operações financeiras feitas na última década estão a levantar algumas questões sobre o papel que Wall Street desempenhou neste mais recente drama financeiro mundial.

Tal como na crise americana do “subprime” e da implosão da AIG (American International Group), os derivados financeiros desempenharam o seu papel no avolumar dos défices na Grécia. Instrumentos financeiros desenvolvidos pelo banco Goldman Sachs, pelo JPMorgan Chase e por uma série de outros bancos permitiram aos governantes disfarçarem empréstimos adicionais na Grécia, Itália e, possivelmente, noutros países.

Em dezenas de grandes operações financeiras montadas em vários países do continente europeu, os bancos adiantaram dinheiro em contrapartida de pagamentos futuros dos governos, permitindo deixar fora do balanço estes compromissos financeiros.

 

Os críticos dizem que tais operações, por não serem registadas como empréstimos, enganam os investidores e os reguladores quanto ao volume das responsabilidades financeiras assumidas por um país.

Algumas destas operações financeiras eram designadas com nomes de figuras da mitologia grega. Uma delas, por exemplo, foi designada Aeolos, o deus dos ventos.

A crise na Grécia coloca o maior desafio alguma vez feito à própria moeda comum europeia, o Euro, e ao objectivo de unidade económica do Continente. O país é demasiado grande para poder falir, como se diz nos meios financeiros. A Grécia deve a nível internacional 300 milhares de milhões de dólares, sendo os principais bancos os grandes credores desta dívida. Um eventual incumprimento da dívida teria efeitos de repercussão em todo o mundo.

Um porta-voz do Ministério das Finanças grego declarou que o governo tinha tido contactos com muitos desses bancos nos últimos meses, mas não se tinha comprometido com nenhuma das suas propostas. Todos os financiamentos da dívida “são conduzidos num esforço de transparência,” declarou. Os bancos Goldman Sachs e JPMorgan recusaram comentar.

 

Embora a acção manobradora de Wall Street na Europa tenha despertado pouco interesse na América, foi objecto de fortes críticas na Grécia e em jornais como o Der Spiegel na Alemanha.

“Os políticos querem é chutar a bola para a frente e, se um banqueiro lhes mostrar uma maneira de transferirem um problema do presente para o futuro, embarcam nisso,” diz Gikas A. Hardouvelis, economista, ex-funcionário governamental que colaborou recentemente na redacção de um relatório sobre as políticas e práticas contabilísticas na Grécia.

Wall Street não criou o problema do défice na Europa. Mas, os banqueiros permitiram que a Grécia e outros países pudessem obter empréstimos e gastar para além dos seus meios através de operações financeiras perfeitamente legais. Há poucas regras que regulem como é que os países podem obter os empréstimos de que precisam para financiar as suas despesas, tal como as despesas militares ou da saúde. O mercado da dívida soberana - o termo de Wall Street para os empréstimos feitos aos governos - é tão desregulado como vasto.

“Se um governo quer fazer batota, pode fazer batota,” diz Garry Schinasi, um veterano do serviço do Fundo Monetário Internacional de supervisão dos mercados de capitais que monitoriza a vulnerabilidade dos mercados de capitais internacionais.

Os bancos exploravam avidamente o que era, para eles, uma simbiose altamente lucrativa com governos gastadores.

Embora a Grécia não tenha posto em marcha a proposta do banco Goldman Sachs, de Novembro 2009, já tinha pago ao banco cerca de 300 milhões de dólares pelos serviços de montagem da operação financeira de 2001, de acordo com diversas pessoas da banca conhecedoras do negócio.

 

Tais derivados, que não são claramente documentados ou facilmente desvelados, aumentam a incerteza quanto à profundidade dos problemas da Grécia e quanto a que outros países poderiam ter usado este tipo de contabilidade fora do balanço.

A maré de medo está agora a estender-se a outros países com dificuldades económicas na periferia de Europa, tornando o crédito mais caro para países como a Itália, Espanha e Portugal.

Para conseguir todos os benefícios de unir a Europa através de uma moeda única, o nascimento do euro veio com um pecado original: países como a Itália e a Grécia entraram na união monetária com défices mais elevados do que era permitido pelo Tratado que criou esta moeda. Em vez de aumentarem impostos ou reduzirem despesas, estes governos, pelo contrário, reduziram artificialmente os seus défices com produtos derivados.

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 11:23
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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 4 - por Júlio Marques Mota

(Continuação)

O tsunami está inserido na economia global e nas suas Instituições

 

Senhor Presidente, para se chegar à situação presente como expressão lógica do modelo seguido foram décadas de trabalho intelectual dos altos-quadros da Comissão Europeia e dos seus organismos a cavarem o vazio teórico de que todos nós nos ressentimos hoje, e a ficarem dele prisioneiros, sem percepção da realidade que lhes cabe prevenir ou, em suma, lhes cabe assumir. E ao cavá-lo fazem-nos com uma linguagem formalmente elegante, conceptualmente falsa ou vazia. Verdadeiro e eficaz tsunami, mas silencioso para mais duradoiro e eficaz ser ainda. Vale a pena retomar aqui um excerto da entrevista dada recentemente por Helmut Schmidt:

 

P. A Grécia e Portugal integraram a união monetária com uma balança externa mais ou menos equilibrada: os seus activos externos e as suas dívidas externas eram mais ou menos equivalentes. Seguidamente, registaram anualmente, durante uma dezena de anos, défices da balança corrente que equivalem a 10% do seu PIB. Não é necessário ser grande perito para compreender que a sua dívida externa líquida atinge hoje cerca de 100% do seu PIB.

 

R. A questão que é necessário colocar é a seguinte: como é possível que ninguém tenha visto nada — nem em Basileia [sede do Banco Internacional de Pagamentos], nem em Bruxelas, nem em qualquer Instituto de Estatística? Ninguém parece ter compreendido.

Deixe-me dizer, de passagem, que durante um longo período, a elite política alemã não compreendeu que registávamos excedentes na nossa balança corrente. Nós, os alemães, fazemos a mesma coisa que os chineses — com a grande diferença que os chineses têm a sua própria moeda, o que não é o nosso caso. Se tivéssemos a nossa própria moeda, esta já teria sido reavaliada há muito.

 

 

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 20:33
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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 2 - por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

O Tsunami silencioso

 

Senhor Presidente, percebida de vez a questão que não se trata de desconstruir a Europa, mas sim de a reconstruir, então isto reenvia-nos para algo que antecede a situação presente, reenvia-nos para o conjunto das políticas neoliberais que antecederam a crise e a criaram, o tsunami silencioso que lentamente invadiu as nossas instituições, minando-as, que desarticulou as nossas economias, globalizando-as selvaticamente, que invadiu as nossas mentalidades, roubando-nos a capacidade de criticar, que queimou a nossa capacidade de imaginar mundos melhores, tirando-lhes a visão de futuro, É sobre esse tsunami silencioso e sobre a responsabilidade da sua existência que falarei. Mas, uma coisa é certa, senhor Presidente, sabemo-lo com o general de Gaulle quando em Pnom Penh afirmava, e cito de memória, que a democracia para se afirmar verdadeiramente como tal tem que ser capaz de reconhecer os seus erros e crescer com esse reconhecimento. Bela lição que terá perto de meio século, bela lição que é agora tempo de retomarmos em mãos, é agora tempo de os nossos dirigentes nos mostrarem que assim é ou de lhes exigirmos que no-lo mostrem. Reconhecer os seus erros, foi disso que falava o general de Gaule, corrigi-los é agora o desejo que nos vai na alma, na alma de milhões de europeus também face à catástrofe que lhes estão a impor e que têm medo, medo, medo de uma catástrofe ainda maior. Não é querer muito, é apenas querer para a Europa a democracia real.

Numa nossa carta ao Presidente da República de Portugal escrevi:

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 18:56
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