Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
A Historia e a história de um jantar – por Júlio Marques Mota

 

Com a série de textos sobre France Télécom  quase a terminar e agora a  percebermos  bem que tudo o que nesta empresa se passou  faz parte e é consequência  lógica de um modelo de sociedade que aos cidadãos tem estado a ser imposto, podemos bem perceber que a sequência não menos lógica das mesmas políticas   será transformar a Europa num enorme espaço de pobres ou mesmo de  párias, se com o nosso silêncio o consentirmos, se com o nosso voto o permitirmos. Afirmação crua e dura esta,  mas  não creio haver  outra leitura possível,  por exemplo, com o documento da Troika pelo Governo assinado e que pelos Durão Barroso desta Europa foi  bem carimbado com a garantia terrível de que são os pobres que a crise produzida pelos ricos  terão que liquidar e em que a estes a Troika, ah!  a esses,  tudo fez , tudo faz e tudo fará  para os salvaguardar.

 

É pois todo o tecido social da  Europa  que se está a romper e é esta mesma Europa,  como um todo, que passa a estar em perigo  de se desfazer como sucessivamente o temos vindo a demonstrar. Por tudo isto, lembrámo-nos então de um jantar que ocorreu a 20 de Junho de 1790 em Nova  Iorque, bem perto de Wall Street.

 

Gostaríamos de conseguir realizar um jantar equivalente e de sentir que os mesmos resultados foram conseguidos. Aceitam-se três candidatos para  jantar no melhor restaurante português, com garrafas de vinho português, por causa da balança comercial,  à descrição e com uma só restrição :  não poderem ultrapassar  os 500 euros por garrafa.

 

Vejamos então a história do outro jantar, do jantar que se comeu nas vizinhanças de Wall Street em 20 de Junho de 1790. Aceitam-se como vencedores o trio  que conseguir repetir para a Europa de agora o que três homens de têmpera de ferro de então conseguiram para os Estados Unidos  de então. Verificada a proeza, a melhor mesa possível à disposição de quem a ganhou.

 

Para já,  a história desse famoso jantar, depois a realização do projecto equivalente para a Europa e a seguir,  talheres na mesa e garrafas à temperatura escolhida. Para terminar, bom apetite, então.

 

PS. Há automaticamente figuras não admissíveis como candidatos para este jantar e são todos os políticos  europeus que estão no poder. Excluem-se, imediatamente:  José Sócrates, Passos Coelho, Durão Barroso, Herman Achille Van Rompuy, José Luís Zapatero, Silvio Berlusconi, Sarkozy, Tony Balir, Merkle, e muitas outros da mesma extirpe.

 

Razões para esta exclusão ? Excluem-se uns, por incapacidades mentais, para a história poderem sequer compreender quanto mais para a poderem refazer, e são muitos deles, e os outros, mais inteligentes, mais cínicos também, excluem-se por falta de garantias de idoneidade intelectual e moral, por serem capazes de nos inventar uma realidade de tal modo credível que nela seriamente venhamos a acreditar tal o poder de mistificação de que são capazes e disso já deram provas, criando uma realidade virtual portanto, e de que só daremos conta  de enganados podermos  ficar quando o jantar formos a pagar. E, desses, na lista, há alguns.

 

Júlio Marques Mota

 

 

Assim nasceu uma moeda, assim   se  construiu uma Nação - por Jacques Gravereau e Jacques Truman

 

Thomas Jefferson mora no 57 Maiden Lane em Nova Iorque, a dois passos de Wall Street .Ao passear pela rua  encontrou o seu colega Alexander Hamilton, sombrio, de má cara, vestido de forma um pouco descuidada, ele que andava sempre bem vestido. O problema de tudo isto é o problema que ele tem em mãos para resolver e que lhe faz insónias. Para falarem , Jefferson convida-o para jantar na sua casa, para um domingo, o domingo
seguinte, a  20 de Junho de 1790. Convida igualmente um outro  colega, James Madison.

 

Estas três personagens, não são simples desconhecidos, pertencem ao pequeno grupo dos pais fundadores dos

Estados Unidos. Jefferson é um dos signatários  da Declaração de Independência. Os outros dois  assinaram a Constituição americana.

 

Estamos  a 20 de Junho de 1790. Os Estados Unidos só desde há três anos é que têm uma Constituição. O primeiro Presidente, George Washington tinha tomado posse apenas no ano anterior. Nova Iorque é o centro de gravidade do poder, na  ausência de uma capital definida. As instituições estão ainda como a terra virgem, não criadas ou ainda  não rodadas, sem moeda bem clara, sem sistema federal bem preciso. A imensa confusão criada com a guerra da Independência - que tinha acabado apenas sete anos antes - continua a perturbar toda a gente, entre os desmobilizados completamente arruinados, os interesses contraditórios e um Estado que está a dar os seus primeiros passos.

 

O jantar informal dos três homens  terá grandes consequências, muito grandes mesmo, ainda hoje bem presentes na vida americana. Exactamente porque foi nesse jantar de 20 de Junho de 1790 que se fizeram  as grandes escolhas  para o funcionamento da América.

 

O problema do Ministro das Finanças   Hamilton é um terrível problema. Os oito anos de Guerra   da independência contra a Inglaterra( 1775-1783) uma sangria dramática a todos os níveis. Os  13 Estados  que compõem a Federação Americana  da época estão endividados até à ponta dos cabelos. Além do mais, ciosos da sua especificidade, cada um tem as suas próprias leis, o seu orçamento, os seus impostos, a sua moeda.

 

Neste país de agricultores, as explorações agrícolas estão todas endividadas junto dos banqueiros, em geral, filiais dos bancos ingleses em Nova Iorque. Os plantadores da Costa Leste, a única que conta, do Massuchetts à Geórgia, passando pela Carolina ou pela Virgínia, , estão ex sangues. E foram eles que levaram à independência.

 

George Washington, James Maddison, Thomas Jefferson, são todos eles grandes plantadores de Virgínia, perto do lago Potomac. São eles que estão à frente da Nação.  Para o cidadão comum, é ainda pior. Os desmobilizados da guerra da Independência foram pagos em moeda que não tinha qualquer valor. Em forma de pré, os Estados emitiram certificados, uma forma de reconhecimento de dívida  a que se chamou IOU (I owe you, deve-lhe).

 

Que devia fazer Hamilton? Retomar a dívida dos Estados ao nível federal e reembolsar pelo seu verdadeiro valor? Gerir de maneira central a assustadora complexidade de treze moedas diferentes? Mas aqui seria necessário que o Estado pudesse contrair empréstimos e levantar impostos. O Estado da federação e o establishment dos plantadores opunham-se ferozmente  a toda e qualquer perda de autonomia  e era por esta razão que a reforma necessária não avançava, semana após  semana, enquanto que o conjunto do sistema vacilava. Era por isto que Hamilton já não sabia o que devia fazer.

 

A única solução que  perspectivou  o hábil Jefferson era negociação de igual para igual. Jefferson e Maddison não pertenciam ao mesmo círculo que Hamilton, que não era um plantador de Virgínia. O seu interesse político era de regular para vantagem deles a difícil questão da capital,  o que ainda estava por decidir. Nova Iorque era a capital, mas provisória. A Constituição de 1887 diz claramente   que é necessário encontrar um local mais
neutro. Dez cidades se batem para serem a escolhida. Esta questão da residência  envenena os debates políticos da muito jovem república .  Os plantadores da Virgínia não querem co-habitar com os financeiros de Nova  Iorque que os tinham na mão  dadas as suas dívidas  e de quem desconfiavam como se da peste se tratasse. Nova Iorque era o Anti-Cristo; um centro  de especuladores corruptos! Eles veriam com bons olhos que a capital fosse mais próxima deles, que eles poderiam, pensavam eles, controlar.

 

 

O jantar de  20 de Junho de  1790  termina com a realização de um acordo. Uma capital contra uma centralização financeira.  Uma separação de poderes políticos e financeiros contra um poder federal forte.  A partir do dia   seguinte os pais fundadores ligam um a um os eleitos do Congresso exactamente como ainda o farão os futuros Presidentes dos Estados Unidos  na véspera das grandes reformas. A 9 de Julho a questão da capital federal é resolvida pela maioria parlamentar. Será  Filadélfia por dez anos antes de se mudar definitivamente para um território ainda virgem à beira do lago Potomac a que se dará o nome de Washington depois da morte do pai da Independência. A 26 de Julho Hamilton obtém o apoio dos membros do Congresso para fazer aprovar o seu plano.

 

Tratou-se de uma revolução. As moedas dispersas dos diversos Estados serão abolidas e é criada uma moeda federal, o dólar. O Estado Federal vê-se autorizado a emitir dívida e a levantar impostos nacionais. Pode então proceder à compra dos certificados de pré pelo seu justo valor e assim de imediato bloqueia uma revolução que já estava a fermentar . Para fechar o processo  cria nessa dinâmica um Banco Central, the First Bank of United States. O debate entre centralismo e  federalismo ficou assim resolvido pelo menos quanto a esta matéria crucial que é o nervo da guerra e a garantia da prosperidade futura.   

 

As negociações do jantar de Junho de 1790 não envelheceram, não ganharam uma ruga sequer com o andar do tempo, dos séculos, perderam em actualidade, ainda hoje mesmo. A mesma questão se coloca na Europa: poder-nos-emos nós satisfazer  de ter uma moeda única, o euro, sem controlar a dívida dos países  e sem dispor ao nível europeu  das alavancas do imposto, da dívida, de um orçamento digno deste nome? Nos Estados Unidos,  a separação entre o poder político - em Washington- e económico - em Nova Iorque continua a  dirigir dois mundos um contra o outro mas também a corrigir os excessos de um ou do outro. 

 

Jacques Gravereau, Jacques Truman, L’Histoire incroyable de Wall Street, Albin Michel, 2011.

 

Depois disto mãos à obra e bom apetite, depois.

 

Júlio
Marques Mota



publicado por Carlos Loures às 16:00
editado por João Machado em 02/07/2011 às 23:12
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My home sweet home - por Carlos Loures

 

Passam hoje 235 anos sobre  a publicação da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América.  Em 4 de Julho de 1776 foi publicada o texto da Declaração, ao que se sabe da autoria de  Thomas Jefferson, e a nova nação foi, naquele último quarto  do século das luzes, um farol de liberdade e de esperança para os povos oprimidos, ofuscando as candeiazinhas do pensamento iluminista. Diz a Declaração em certo passo - «a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros.» (…) «Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança».  O que ainda hoje é pertinente.

 


 

Porém, em pouco mais de dois séculos, esse capital de esperança foi dissipado, a luz radiosa do american dream transformou-se no american nightmare, no buraco negro onde a liberdade e a democracia se precipitam e desaparecem, sorvidas para uma realidade paralela – «a realidade americana». É assim desde a Segunda Guerra
Mundial, quando após a grande depressão de 1929 e que se prolongou pelos anos 30, os Estados Unidos emergiram como grande potência. O colapso da União Soviética com a qual os americanos dividiam a tarefa de gerir o pesadelo, dirigindo e policiando o planeta, deixou-os sozinhos e entregues ao seu grande poder . Os parceiros europeus são meros mandatários de Washington. As esperanças que tivemos em que um Barak Obama inteligente procedesse de forma diferente de um George W, Bush imbecil, esfumaram-se É a nave que conduz o timoneiro.

 

O realizador cinematográfico francês Alain Resnais, o director de Nuit et Brouillard (1955), de Hiroshima, mon amour (1959), e de Mon oncle d’Amérique (1980), disse numa entrevista que era doloroso «viver na era americana e não ser americano». Isto foi dito há quarenta anos, talvez, quando ainda nós, europeus, não nos tínhamos apercebido totalmente da carga de perversa prepotência existente na democracia americana, embora tivéssemos já elementos históricos para tal (o lançamento de duas bombas nucleares sobre o Japão, por exemplo). Hoje em dia, o inglês impôs-se como língua franca e não foi por mérito ou pressão da Grã-Bretanha que isso aconteceu, pois enquanto a Grã-Bretanha, no século XIX, foi a principal potência mundial, o francês era a língua internacional por excelência.

 

A american way of life constitui um modelo implantado à escala global, desde os cereais do pequeno-almoço até às séries televisivas e aos programas com que preenchemos os serões. Sentimo-nos como se deviam sentir os nossos ancestrais depois da ocupação romana da Península - obrigados a arranhar o latim e a adoptar hábitos e leis impostos desde Roma. Viviam na era romana e não eram romanos – dissolveram-se no decurso do processo de romanização.

 

God Bless America , é uma canção com música e letra do compositor Irving Berlin, em 1938., quando do outro lado do Atlântico a guerra em Espanha servia de banco de ensaio para uma tragédia de proporções ainda mais vastas. A melodia do judeu - russo é bonitinha, a letra é uma chachada mas faz vir as lágrimas aos olhos dos americanos. Talvez lhes evoque aquela América que um dia Thomas Jefferson e os seus companheiros de sedição sonharam. Que seria a de Walt Whitman, mas não é de certeza a dos seres abjectos que dirigem os Estados Unidos e os arredores – o Mundo.

 

Deus abençoe a América. Mas, só um Deus alienígena pode cometer tal disparate.

 

 

 

 

While the storm clouds gather far across the sea,\Let us swear allegiance to a land that's free, \Let us all be grateful for a land so fair, \As we raise our voices in a solemn prayer. " \God Bless America, Land that I love. \Stand beside her, and guide her \Thru the night with a light from above. \From the mountains, to the prairies, \To the oceans, white with foam \God bless America, My home sweet home. “

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Espanha ainda não assumiu independência de Portugal” disse Josep-Lluís Carod-Rovira
Recuperamos, por nos parecer de uma grande actualidade, uma entrevista dada por Josep-Lluís Carod-Rovira, o dirigente da Esquerda Catalã Republicana (ERC), na altura número dois do executivo catalão e responsável pelas relações externas da Generalitat e de que há dias publicámos um curioso vídeo em que respondia a perguntas sobre a eventual separação da Catalunha.  Nas suas declarações, este destacado político de um país com 7,5 milhões de habitantes, afirma que pretende conseguir o apoio de Portugal para o projecto de independência que defende para a Catalunha, cujo decisivo referendo propõe que se realize em 2014. "O que menos interessa a Portugal é uma Espanha unitária", afirmou, sublinhando que "uma Catalunha independente na fachada mediterrânea poderia ser o contrapeso lógico ao centralismo espanhol".



O vice-presidente do Governo da Catalunha recorre à História, designadamente aos acontecimentos de 1640, para afirmar que "se as coisas tivessem sido ao contrário, hoje Portugal seria uma região espanhola e a Catalunha um estado independente". No século XVII, durante o reinado de Filipe III, Madrid foi confrontada com revoltas em Portugal e na Catalunha mas o Império, apoiado pela França, reprimiu as sublevações catalãs e da Biscaia.

Josep-Lluis Carod-Rovira, que fala e entende perfeitamente o português, garantiu ter "muitos aliados internacionais" para o que designa "projecto de independência para a Catalunha" mas recusou-se a aprofundar o assunto para não dar "pistas desnecessárias". Para Carod-Rovira a situação da Catalunha é específica e não é comparável a nenhuma autonomia ou a qualquer processo de independência. "A Catalunha não é o Kosovo, nem é o País Basco, nem a Madeira", disse, considerando que "os processos de independência passam por três fases: ridicularização, hostilidade e aceitação. Neste momento, estamos entre a primeira e a segunda".



Relativamente à participação activa dos imigrantes na construção de uma futura "República da Catalunha", Carod-Rovira afirma que "todos podem vir a colaborar numa nação que é permeável à contribuição exterior". Trata-se de um "projecto integrador", sublinha. "Quero ser independente e quero que Catalunha seja mais um Estado da União Europeia", salientou.

Referendo em 2014

O governante propõe um referendo para 2014 por três razões: a primeira porque em 2014 "assinalam-se os 300 anos sobre a data em que Catalunha perdeu a condição de Estado"; a segunda porque termina o investimento previsto pelo Estatuto de Autonomia da Catalunha, em matéria de infra-estruturas, por parte do executivo espanhol; e em terceiro lugar porque em 2014 acabam as ajudas do Fundo de Coesão Europeu. "O ano de 2014 não é a data para a soberania mas sim para a democracia", afirmou.

Instado sobre se o seu projecto político tem o apoio popular, Carod-Rovira diz-se convencido que sim, porque "todos estamos conscientes que a Catalunha não pode esperar mais. O défice com Espanha é insustentável. No ano passado, arrecadámos 140 milhões de euros para instituições sociais e Madrid ficou com 127. Isto é incomportável". Inquirido se o seu projecto de independência pode vir a perder força, tendo em conta que vai deixar de ser presidente da Esquerda Republicana da Catalunha, Carod-Rovira responde que há "milhares de pessoas que querem construir um Estado diferente de uma Espanha plural que não existe".

"Só quem espera verá o inesperado"

Sobre o futuro da União Europeia, Carod-Rovira defende que "todos os europeus querem construir uma Europa mas todos eles a partir do seu Estado. Nunca a Europa esteve tão unida como actualmente, mas também é verdade que nunca houve na Europa tantos estados independentes". O dirigente assumiu que uma visita a Portugal é um "tema pendente porque, afirma, "Lisboa é uma das cidades que mais estimo".

No gabinete oficial, no Palau de la Generalitat, Carod-Rovira tem uma fotografia com o ex-presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, mas esta não é a única referência a Portugal já que utiliza o menu do telemóvel em português e um cartão de visita bilingue: em catalão e em português. No seu último livro "2014 - Que fale o povo catalão", cita uma passagem de um poema de Manuel Alegre: "Só quem espera verá o inesperado"

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publicado por Carlos Loures às 09:00
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Domingo, 4 de Julho de 2010
God bless America


Carlos Loures

Em 4 de Julho de 1776 foi publicada a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América. Foi há 234 anos. Pela límpida voz dos próceres da sua independência, nomeadamente a de Thomas Jefferson, principal autor do texto, a nova nação foi, naquele último quarto do século das luzes, um farol de liberdade que ofuscou as candeiazinhas do pensamento iluminista. Diz a Declaração em certo passo - «a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros.» (…) «Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança».

Palavras que os revolucionários franceses beberam, seguindo o exemplo americano treze anos depois. Porém, em pouco mais de dois séculos, esse capital de esperança foi dissipado, a luz radiosa do american dream transformou-se num pesadelo, no buraco negro onde a liberdade e a democracia se precipitam e desaparecem, sorvidas para uma realidade paralela – «a realidade americana».


É inquestionável que nos Estados Unidos existe uma quase ilimitada liberdade de expressão. Centrais de inteligência, como a CIA e o FBI, são em livros, em filmes, em séries televisivas, acusados das mais torpes felonias de uma forma que não sei se a PJ ou o CIS aguentariam. Não se pode deixar de apreciar aquilo que aparece como uma transbordante capacidade de autocrítica. Porém, essa facilidade de denunciar ficcionando, banaliza o crime e as prepotências dessas centrais. Até porque, geralmente, não são as centrais ou as instituições propriamente ditas que são acusadas, mas indivíduos, traidores ou corruptos ao seu serviço. Nesta ânsia de efabular a perversão, nem o Presidente escapa. Estou a lembrar-me de um filme, Poder Absoluto (Absolute Power, 1997), realizado por Clint Eastwood, em que o criminoso é precisamente o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Gene Hackman. É a teoria da conspiração em todo o seu esplendor.

Quando as coisas acontecem fora dos ecrãs ou das páginas dos romances de aeroporto, em Guantánamo, no Iraque ou no Afeganistão, a maioria dos cidadãos norte-americanos acha normal. Em suma, tudo o que de negativo existe na sociedade norte-americana pode ser denunciado e criticado - do racismo à tortura. As maiores atrocidades e as mais sinistras conspirações são antecipadas. O efeito é perverso. Uma espécie de vacina contra os sentimentos humanos. Se amanhã os Estados Unidos decidirem lançar bombas nucleares sobre o Irão, muitos americanos (talvez a maioria) acharão normal – encolherão os ombros e dirão - já vi este filme.

Naturalmente que esta acefalia colectiva não traça um retrato de corpo inteiro da sociedade norte-americana – há uma percentagem elevada de americanos inteligentes, cultos, bem formados, informados e preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar. Porém, na sua maioria, os norte-americanos confundem o seu mundo com o Mundo. É vulgar o vencedor da final de qualquer desporto que só ali se pratica ser designado por «campeão do mundo». Para a maioria dos norte-americanos, o «mundo» são eles; os outros continentes e países, arredores insignificantes.

É assim desde a Segunda Guerra Mundial, quando após a grande depressão de 1929 e que se prolongou pelos anos 30, os Estados Unidos emergiram como grande potência. O colapso da União Soviética que dividia com eles a tarefa de dirigir e policiar o planeta, deixou-os sozinhos e entregues ao seu grande poder que é, também a sua maior fraqueza – a invasão do Iraque, para falar numa das mais recentes demonstrações da sua «omnipotência», foi, pode dizer-se, decidida unilateralmente pelo gabinete de George W. Bush. A União Europeia foi um mero figurante (com a Grã-Bretanha a assumir o papel de embaixadora de «deus» aqui na terra…).

O realizador cinematográfico francês Alain Resnais, o director de «Hiroshima, mon amour» (1959) e de «Mon oncle d’Amérique» (1980), disse numa entrevista que era doloroso «viver na era americana e não ser americano». Isto foi dito há quarenta anos, talvez, quando ainda nós, europeus, não nos tínhamos apercebido totalmente da carga de perversa prepotência existente na democracia americana, embora tivéssemos já elementos históricos para tal (o lançamento de duas bombas nucleares sobre o Japão, por exemplo). Hoje em dia, o inglês impôs-se como língua franca e não foi por mérito ou pressão da Grã-Bretanha que isso aconteceu, pois enquanto a Grã-Bretanha, no século XIX, foi a principal potência mundial, o francês era a língua internacional por excelência.

A american way of life constitui um modelo implantado à escala global, desde os cereais do pequeno-almoço até às séries televisivas e aos programas com que preenchemos os serões. Sentimo-nos como se deviam sentir os nossos ancestrais depois da ocupação romana da Península - obrigados a arranhar o latim e a adoptar hábitos e leis impostos desde Roma. Viviam na era romana e não eram romanos – dissolveram-se no decurso do processo de romanização.

Mas o Império Romano também não durou eternamente, dissolvendo-se na corrosão do tempo, da sua degenerescência, do seu próprio poder. Não há impérios eternos. Porém, sempre duram mais do que aqueles que lhes profetizam o fim. Duram sempre demais.

God Bless America* , é uma canção com música e letra do compositor Irving Berlin, criada em 1938, quando do outro lado do Atlântico a guerra em Espanha servia de banco de ensaio para uma tragédia de proporções ainda mais vastas. A melodia do judeu - russo é bonitinha, a letra é uma chachada,* mas faz vir as lágrimas aos olhos dos americanos. Talvez lhes evoque aquela América que um dia Thomas Jefferson e os seus companheiros de sedição sonharam…

Deus abençoe a América, pois não faltará por aí quem a amaldiçoe.

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*"While the storm clouds gather far across the sea,\Let us swear allegiance to a land that's free, \Let us all be grateful for a land so fair, \As we raise our voices in a solemn prayer. " \God Bless America, Land that I love. \Stand beside her, and guide her \Thru the night with a light from above. \From the mountains, to the prairies, \To the oceans, white with foam \God bless America, \My home sweet home. “


publicado por Carlos Loures às 12:00
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