Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

A televisão, D. Afonso Henriques e o fado, por Carlos Loures


 

 

 


 

Não me recordo precisamente de quando foi – há 15, talvez há 20 anos – num dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, na entrada sobre D. Afonso Henriques, dava-o como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Numa obra com diversos volumes, mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras – e com prazos rigorosos a cumprir – quem coordena não pode ler tudo e, aquele pormenor tinha-me passado. E, mesmo que tivesse lido, talvez tivesse estranhado, mas teria de aceitar, pois quase todas as entradas tinham sido entregues a especialistas. Era o caso.

 

O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães - nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. A administração apertava comigo – e lá estava este vosso amigo entalado entre o ardor do regionalismo vimaranense e a justificada teimosia da ciência histórica. Não vou fazer do episódio um romance policial. Vou já revelar como é que o imbróglio se resolveu porque o que quero contar é outra história.

 

Um historiador com grande êxito televisivo e editorial, colaborador da editora, foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Um avultado grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o co-responsável pelo furto do fundador à Cidade-Berço, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Teve de sair escoltado pela polícia.

 

A sociedade encheu-se para o ouvir e o conceituado historiador, depois de ter explicado que não tinha dirigido o tal dicionário, tranquilizou as belicosa hostes - «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes. E a zanga de Guimarães desvaneceu-se: o que eram um dicionário e um texto de um professor desconhecido comparados com a opinião de um homem tão famoso e que falava na televisão? No regresso de Guimarães, o historiador almoçou comigo e quando lhe perguntei que elementos tinha ele para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Fiquei um bocado desconcertado. Mas ele consolidou a sua tese - «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data?» – e completou - «Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!». Dei-lhe razão, até porque me convinha: assunto arrumado.

 

O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora detentora dos direitos da obra, mas isso não tem importância. E não esclarece de forma peremptória onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores. Não sei como reagiu desta vez a «cidade-berço»… Mas voltemos à questão.

 

Estava já a esquecer o caso, quando me telefonam da RTP, pedindo-me para ir a um programa da tarde, dirigido pelo Raul Durão, falar no assunto do D. Afonso Henriques. E disseram-me o dia e a hora. Procurei escusar-me, mas um administrador, com o qual estava reunido quando do telefonema, insistiu para que fosse. Era uma boa oportunidade, disse-me, para esclarecer a posição da editora. Quando me prontifiquei a ir, disse que levaria comigo o professor, o medievalista: eu falaria sobre a prática comum da editora em matéria de escrúpulo científico e ele esclareceria a questão histórica.

 

Da RTP concordaram. Foi numa segunda-feira. Passei pela Nova, encontrei-me com o professor e fomos até ali perto, à 5 de Outubro, de onde era emitido o programa. Eu tinha estudado alguma coisa sobre o tema, porque embora não fosse essa a área sobre a qual iria falar, não queria estar «às escuras». Lembro-me que estive no domingo de manhã no Limo Verde da Parede, onde na altura morava, lendo e anotando, nas fotocópias de que me munira, o que me parecia interessante. Pelo meio, para descansar do tema afonsino, li num suplemento do DN um pequeno texto do Jorge Luis Borges, onde o genial escritor argentino, analisava com mestria as similitudes entre duas canções urbanas – o tango e o fado.

 

Lá marchámos, o professor e eu, para os estúdios, combinando estratégias pelo caminho. Fomos, como é hábito, recebidos por uma secretária que nos levou à maquilhagem e, enfim, lá chegou o momento de entráramos no estúdio e de nos sentarmos em frente das câmaras, enquanto passavam um bloco de publicidade. Primeira surpresa: não era o Raul Durão que nos ia entrevistar, mas sim Luís de Castro. O Durão estava de férias, esclareceu Castro. Por nós não fazia diferença. Diferença fez, quando a entrevista começou a ser dada em directo e vimos no teleponto aparecer a primeira pergunta, mais ou menos isto: «No vosso dicionário, na entrada Fado, diz-se que a chamada canção nacional teve origem no Brasil. É verdade?» Olhar de pânico entre mim e o professor. Fado? Resolvi avançar e conceder tempo ao ilustre académico para rebobinar o cérebro. Às vezes nem sei como continuo a ser um ateu empedernido: então não é que o tetxtozinho do cego prodigioso, que li nos intervalos da consulta às fotocópias, estava quase todo na minha memória?

 

A questão do fado arrumei-a com uma frase – É verdade. Terá nascido de uma música popular que existia no Brasil no início do século XIX, proveniente de danças trazidas de Angola pelos escravos e que podiam ser acompanhadas por canto, conjunto a que se chamava fado; música que a corte de D. João Vi trouxe do Brasil, quando regressou a Lisboa. E depois acrescentei: «Segundo Jorge Luis Borges… e, zás, debitei o sumo do texto lido na véspera. Entretanto o professor teve tempo para recuperar do susto e fez uma intervenção muito interessante sobre as eventuais raízes árabes da canção, que teria passado a sua influência às famosas endechas e daí vindo até aos nossos dias ligado à tal dança chegada dos trópicos. Foi canja!

 

A entrevista acabou e a secretária veio dizer-nos que tinha ficado fascinada com o tínhamos dito sobre o fado. A senhora foi tão simpática que nem tivemos coragem para protestar muito pelo qui pro quo. Apesar de tudo, enquanto nos acompanhava até à saída, queixámo-nos – «então convidam-nos para falar sobre o D. Afonso Henriques e entrevistam-nos sobre o fado? A senhora desvalorizou. «- Ah sim? O Raul foi de férias e se calhar esqueceram-se de dar as notas que ele deixou ao Luís. São coisas que acontecem. E os senhores saíram-se tão bem…» - fiquei com a ideia, talvez injusta, de que fora ela quem se esquecera de dar os tais apontamentos ao Luís de Castro.

 

*

 

Nunca mais pensei no assunto das eventuais raízes árabes do fado. No entanto, ao escutar esta interpretação de «Meu Fado», por Mariza e Miguel Poveda, os requebros de flamenco do cantor catalão levaram a eu me lembrasse da hipótese levantada pelo Professor – origens mouras, herança da cultura do Al-Andalus? Não é tão improvável como á primeira vista parece.

 

Moral das histórias – nunca se pode dar nada por adquirido: O “Fundador” nasceu em Guimarães, Coimbra ou Viseu? O fado veio de África (via Brasil) ou os muçulmanos deixaram-no cá ficar? Para complicar, há quem fale na hipótese da origem celta… É rebuscado, mas quem sabe?

 

Enquanto meditamos, ouçamos a Mariza e o Miguel Poveda - «Meu Fado»:

 

 

 

 

 


publicado por João Machado às 15:00

editado por Carlos Loures em 24/05/2011 às 11:00
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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Coimbra , cidade real

José Hermano Saraiva






Mudou de mãos várias vezes e só em 10… foi definitivamente incorporada no domínio cristão, sob o governo prudente do moçárabe Sesnando.


O fundador da monarquia habitou muitas vezes a alcáçova da cidade e quis ter sua última morada na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, cuja fundação promoveu em 1132. E fizeram-lhe essa vontade. A modesta sepultura foi transformada, no século XVI, por este esplendoroso monumento. Os documentos, e quando eles faltam a tradição dá como nascidos em Coimbra, o filho de D. Afonso Henriques, Sancho I; o neto, Afonso II; o bisneto, Sancho II; o outro bisneto que destronou o irmão, Afonso III; o trineto, D. Dinis; o tetraneto, Afonso IV; o tetraneto, Pedro o Cru, e o filho deste D. Fernando, todos nasceram em Coimbra. O irmão bastardo de D. Fernando, Mestre de Avis, não se sabe onde nasceu, mas é certo que quando a revolução lhe entregou o trono, escolheu para lugar de eleição a cidade de Coimbra. E desse modo nasceu aqui a segunda dinastia real portuguesa.

Não pode falar-se em capital, porque nos séculos medievais a corte era ambulante. Mas existia uma cidade cabeça do reino de Portugal. E essa cidade era Coimbra.


(in Histórias de Cidades)


Ouçamos uma composição de um ilustre filho de Coimbra, um dos grande poetas medievais portugueses  - Dinis, assim se chamava.


-Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?


Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?


Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pos comigo?
Ai Deus, e u é?


Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?


 -Vós me perguntades polo voss' amigo,
e eu bem vos digo que é sã e vivo.
- Ai Deus, e u é?


-Vós me perguntades polo voss' amado,
e eu bem vos digo que é viv' e são.
-Ai Deus, e u é?


-E eu bem vos digo que é sã e vivo,
e seerá vosc’ ant' o prazo saido.
-Ai Deus, e u é?


-E eu bem vos digo que é viv' e são,
E será vosc'ant' o prazo passado.
-Ai Deus , e u é!


D. DINIS > (1261- 1325)






Cappella Bracarensis - "Ai flores do verde pino" - D.Dinis/M.Carneiro












publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

A Pronúncia do Norte

Fernando Moreira de Sá

Nestes tempos estranhos de crise leio muito blogger a culpar o D. Afonso Henriques desta nossa desdita. Eu, ignorante, atribuía a culpa a outras personagens, assim de raspão: José Sócrates, Teixeira dos Santos ou Pedro Silva Pereira. Afinal estava equivocado. Ou não.

Na verdade, nunca percebi a estratégia de D. Afonso Henriques. Ele preferiu rumar a Sul em vez de tomar o Norte. Reparem, o Sul é como um galanteador, uma espécie de vida paralela de visita esporádica. Nunca um compromisso eterno. No caso, um local de rara beleza – Lisboa é uma donzela de caracóis loiros e tentadora de tão bela e o Alentejo é estonteante de tão sedutor – mas não pode ser levado a sério nem devemos com ele assumir compromissos de longo prazo fruto de ser estouvado, gastador e com a mania das grandezas. Independentemente dos sopapos que o nosso Primeiro terá dado a sua Mãe (uma mentira pois um verdadeiro Homem do Norte jamais seria capaz de bater numa mulher, bem pelo contrário) o seu verdadeiro primeiro erro foi geográfico.

O problema de D. Afonso Henriques foi a falta de um estrolabio e não ter tido um consultor de comunicação. Nem, tão pouco, ter escutado os Deuses. Caso contrário, a tomada das terras galaicas, da actual Galiza, teria sido a estratégia seguida. O estrolabio indicaria, com precisão, o caminho a seguir (Tuy, Vigo, Pontevedra, Ourense, Lugo, Santiago, Corunha, Ferrol, em suma, o Alto Minho); o consultor de comunicação preparava toda a estratégia justificativa da opção tomada e os Deuses saberiam inspirar e convencer o jovem guerreiro da importância da empreitada. Foi uma tolice.

Por isso, neste primeiro semestre do Estrolabio, só espero que este instrumento de elevada precisão me possa ajudar a manter-me atento ao horizonte e perceber que a Sul está a beleza mas é a Norte que encontro a inspiração.

Por Toutatis, Pinto da Costa e Hulk, F.C.Porto, Celta de Vigo e Depor. Pelo Douro e Minho, sem esquecer, Abadín, Baxoi, Arnoi e Asma. Uma mesma Língua e Geografia, um mesmo Povo. Um grande abraço a todos os companheiros de blogue e aos nossos leitores neste primeiro semestre de existência!
publicado por Carlos Loures às 16:30
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Sábado, 23 de Outubro de 2010

A televisão, D. Afonso Henriques e o fado

Carlos Loures

Não me recordo precisamente de quando foi – há 15, talvez há 20 anos – num dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, na entrada sobre D. Afonso Henriques, dava-o como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Numa obra com diversos volumes, mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras – e com prazos rigorosos a cumprir – quem coordena não pode ler tudo e, aquele pormenor tinha-me passado. E, mesmo que tivesse lido, talvez tivesse estranhado, mas teria de aceitar, pois quase todas as entradas tinham sido entregues a especialistas. Era o caso.

O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães - nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. A administração apertava comigo – e lá estava este vosso amigo entalado entre o ardor do regionalismo vimaranense e a justificada teimosia da ciência histórica. Não vou fazer do episódio um romance policial. Vou já revelar como é que o imbróglio se resolveu porque o que quero contar é outra história.

Um historiador com grande êxito televisivo e editorial, colaborador da editora, foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Um avultado grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o co-responsável pelo furto do fundador à Cidade-Berço, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Teve de sair escoltado pela polícia.

A sociedade encheu-se para o ouvir e o conceituado historiador, depois de ter explicado que não tinha dirigido o tal dicionário, tranquilizou as belicosa hostes - «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes. E a zanga de Guimarães desvaneceu-se: o que eram um dicionário e um texto de um professor desconhecido comparados com a opinião de um homem tão famoso e que falava na televisão? No regresso de Guimarães, o historiador almoçou comigo e quando lhe perguntei que elementos tinha ele para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Fiquei um bocado desconcertado. Mas ele consolidou a sua tese - «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data?» – e completou - «Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!». Dei-lhe razão, até porque me convinha: assunto arrumado.

O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora detentora dos direitos da obra, mas isso não tem importância. E não esclarece de forma peremptória onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores. Não sei como reagiu desta vez a «cidade-berço»… Mas voltemos à questão.

Estava já a esquecer o caso, quando me telefonam da RTP, pedindo-me para ir a um programa da tarde, dirigido pelo Raul Durão, falar no assunto do D. Afonso Henriques. E disseram-me o dia e a hora. Procurei escusar-me, mas um administrador, com o qual estava reunido quando do telefonema, insistiu para que fosse. Era uma boa oportunidade, disse-me, para esclarecer a posição da editora. Quando me prontifiquei a ir, disse que levaria comigo o professor, o medievalista: eu falaria sobre a prática comum da editora em matéria de escrúpulo científico e ele esclareceria a questão histórica.

Da RTP concordaram. Foi numa segunda-feira. Passei pela Nova, encontrei-me com o professor e fomos até ali perto, à 5 de Outubro, de onde era emitido o programa. Eu tinha estudado alguma coisa sobre o tema, porque embora não fosse essa a área sobre a qual iria falar, não queria estar «às escuras». Lembro-me que estive no domingo de manhã no Limo Verde da Parede, onde na altura morava, lendo e anotando, nas fotocópias de que me munira, o que me parecia interessante. Pelo meio, para descansar do tema afonsino, li num suplemento do DN um pequeno texto do Jorge Luis Borges, onde o genial escritor argentino, analisava com mestria as similitudes entre duas canções urbanas – o tango e o fado.

Lá marchámos, o professor e eu, para os estúdios, combinando estratégias pelo caminho. Fomos, como é hábito, recebidos por uma secretária que nos levou à maquilhagem e, enfim, lá chegou o momento de entráramos no estúdio e de nos sentarmos em frente das câmaras, enquanto passavam um bloco de publicidade. Primeira surpresa: não era o Raul Durão que nos ia entrevistar, mas sim Luís de Castro. O Durão estava de férias, esclareceu Castro. Por nós não fazia diferença. Diferença fez, quando a entrevista começou a ser dada em directo e vimos no teleponto aparecer a primeira pergunta, mais ou menos isto: «No vosso dicionário, na entrada Fado, diz-se que a chamada canção nacional teve origem no Brasil. É verdade?» Olhar de pânico entre mim e o professor. Fado? Resolvi avançar e conceder tempo ao ilustre académico para rebobinar o cérebro. Às vezes nem sei como continuo a ser um ateu empedernido: então não é que o tetxtozinho do cego prodigioso, que li nos intervalos da consulta às fotocópias, estava quase todo na minha memória?

A questão do fado arrumei-a com uma frase – É verdade. Terá nascido de uma música popular que existia no Brasil no início do século XIX, proveniente de danças trazidas de Angola pelos escravos e que podiam ser acompanhadas por canto, conjunto a que se chamava fado; música que a corte de D. João Vi trouxe do Brasil, quando regressou a Lisboa. E depois acrescentei: «Segundo Jorge Luis Borges… e, zás, debitei o sumo do texto lido na véspera. Entretanto o professor teve tempo para recuperar do susto e fez uma intervenção muito interessante sobre as eventuais raízes árabes da canção, que teria passado a sua influência às famosas endechas e daí vindo até aos nossos dias ligado à tal dança chegada dos trópicos. Foi canja!

A entrevista acabou e a secretária veio dizer-nos que tinha ficado fascinada com o tínhamos dito sobre o fado. A senhora foi tão simpática que nem tivemos coragem para protestar muito pelo qui pro quo. Apesar de tudo, enquanto nos acompanhava até à saída, queixámo-nos – «então convidam-nos para falar sobre o D. Afonso Henriques e entrevistam-nos sobre o fado? A senhora desvalorizou. «- Ah sim? O Raul foi de férias e se calhar esqueceram-se de dar as notas que ele deixou ao Luís. São coisas que acontecem. E os senhores saíram-se tão bem…» - fiquei com a ideia, talvez injusta, de que fora ela quem se esquecera de dar os tais apontamentos ao Luís de Castro.

*

Nunca mais pensei no assunto das eventuais raízes árabes do fado. No entanto, ao escutar esta interpretação de «Meu Fado», por Mariza e Miguel Poveda, os requebros de flamenco do cantor catalão levaram a eu me lembrasse da hipótese levantada pelo Professor – origens mouras, herança da cultura do Al-Andalus? Não é tão improvável como á primeira vista parece.

Moral das histórias – nunca se pode dar nada por adquirido: O “Fundador” nasceu em Guimarães, Coimbra ou Viseu? O fado veio de África (via Brasil) ou os muçulmanos deixaram-no cá ficar? Para complicar, há quem fale na hipótese da origem celta… É rebuscado, mas quem sabe?

Enquanto meditamos, ouçamos a Mariza e o Miguel Poveda - «Meu Fado»:

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