Este vídeo retrata uma das mais perigosas situações em que um país pode cair. É tudo normal!
O bastonário da Ordem dos Advogados, diz, perante o Presidente da República, do PGR, do PSTJ, ministro da Justiça, magistrados, deputados que neste país há gente que enriqueceu à sombra do estado, que se serviram dos lugares que ocuparam para fazer negócios espúrios com amigos e empresas do regime; participações público-privadas onde todo o risco é acometido ao estado e todo o lucro dirigido aos privados; e nada acontece!
Pior, andamos todos a discutir quem é que tem a culpa da crise política mas ninguém está preocupado em saber porque há mais ricos e mais pobres, que 20% dos portugueses continuam mergulhados na pobreza, que se cortam ou congelam os vencimentos e as pensões de miséria...
É tudo normal! Como nos cemitérios, é tudo normal quando nada mexe!
Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Por que ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se põe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.
Andava a choramingar, a sair de uma paixão da terra à cova, jurava a mim mesmo que nunca mais, os livros estavam à minha espera, ia voltar ao desporto, às viagens, ver museus, conhecer aquelas mulheres em terras distantes que são substituídas na paragem seguinte. Uma estação de um comboio é um lugar mágico, dá para sonhar, chegou e partiu e, quem tiver talento deixa-se levar para um caminho desconhecido que se larga na estação seguinte.
Mas, naquela altura não era assim, era uma moínha, uma dor a contradizer a certeza que nunca mais, era tudo o que não queria, não fazia parte da minha vida, não era o que queria, repetia mil vezes nos passeios solitários que fazia, "não, nem sequer aguentava viver naquele equilíbrio que lhe servia, mas para o qual eu não tenho o mínimo de aptidões" convencia-me a mim próprio.
Uma angústia que repartia com um psiquiatra e com uma psicóloga, que me diziam vezes sem conta " não evite nada, não fuja, enfrente, de outra forma é para toda a vida" e, eu, com a minha certeza que nada me faria voltar, nada.
Fechei-me para o mundo embora não o percebesse, andei anos a evitar, tudo me parecia não valer a pena, num processo autofágico de emoções e sentimentos, agarrado à vida profissional como se esta me protegesse do mundo. Não protegeu, foi mesmo ela que me levou ao encontro do que andava a fugir, e continuei a fugir, mesmo depois de tudo poder dar certo, fugir, fugir sempre, como dizem os médicos, "processo de evitamento", é como um tapete voador, transporta-nos sem barulho, cumpre a sua função mas quando poisamos percebemos que estamos no mesmo sítio, com a "moínha" que nos angustia.
Hoje só penso nela, foi a que não tive, tornei a cair no alçapão, tenho um nó permanente na garganta, não tanto pela cobardia que ela reconheceu em mim, mas porque lhe desejo os "cantinhos" da boca quando se ria, as rugas dos olhos lindos por olharem de frente, perdi a frescura das manhãs amando cedo, as brisas do mar, tardes com o sol a morrer, madrugadas acordado a ouvir a chuva a bater sem piedade , perdi o calor enroscado no seu corpo generoso ...
Já a encontrei, sei onde vive, mas tudo pode voltar a ser como podia ter sido, posso recuperar a vida que não vivi ? Vou levar para o seio da terra mãe esta interrogação.
A cobardia mata mais que a coragem, mata mil vezes, sempre que temos medo de viver mata, da maneira mais lancinante, morremos aos bocadinhos, primeiro a alegria, depois cimentamos uma nostalgia dolorosa que nunca mais nos abandona...
Há tanta coisa boa na minha vida, repito todos os dias, tentando convencer-me.
Uma maravilhosa exaltação do homem corajoso e íntegro que foi José Luis Saldanha Santos.Prestamos a nossa homenagem a um homem que sempre admiramos, muitas vezes, embora, em barreiras diferentes, mas comuns no essecial. São palavras de Maria José Morgado, no elogio fúnebre a seu marido:
"Zé Luis: começámos esta tua última viagem (tu gostavas de viagens) na cama 56 dos serviços de cirurgia 1 do Hospital de Santa Maria. Lia-te poesia e um dia parámos neste poema da Sophia de Mello Breyner:
”Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A Força dos teus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”.
Assim foi.
No teu visionário e intenso mundo, a voracidade de um cancro traiçoeiro não te consumiu a alegria, a coragem, a liberdade. Entraste pela morte dentro de olhos abertos. O mundo que habitavas era rico de ideias, de sonhos, de projectos, de honradez e carinho. Percebemos o que ia acontecer quando no fundo do teu olhar sorridente brilhava uma estrela de tristeza. Quando te deixava ao fim do dia na cama 56 e te trazia no coração enquanto descia a Alameda da Cidade Universitária a respirar o teu ar da Universidade, das aulas e dos alunos que adoravas, do futuro em que acreditavas sempre.
Foste intolerável com a corrupção, com os cobardes e oportunistas. Não suportavas facilidades. Resististe à sordidez, à subserviência, à canalhice disfarçada de respeitabilidade e morreste como sempre viveste - livre.
Uma palavra para aqueles que te acompanharam nesta última viagem: para os melhores médicos do mundo, para as melhores equipas de enfermagem e de apoio, num exemplo de inexcedível dedicação ao serviço médico público. Vivi com emoção diária o carinho com que te cuidaram.
Uma palavra de gratidão sentida para o Professor Luis Costa e para o Paulo Costa. E para um velho amigo de sempre o Miguel.
Também para Laura e para o Jorge e para a minha mãe e toda a família que nunca te deixou. Por fim uma palavra para aqueles amigos que inventaram uma barricada contra a morte no serviço de cirurgia 1, cama 56, e te ajudaram a escrever, a pensar, a continuar a trabalhar: o João Gama, o João Pereira e senhor Albuquerque, cada um à sua maneira.
Suspiraste nos meus braços pela última vez cerca da 1,15 da madrugada do dia 14 de Maio. Vai faltar-me a tua mão a agarrar na minha enquanto passeávamos e conversávamos.
Provavelmente uma saudade ridícula, perante a força do exemplo e da obra que nos deixaste e me foi trazido por todos aqueles que te homenagearam – a quem deixo a tua eterna gratidão.