Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

A Sereiazinha (3) - por Hans Christian Andersen

(Continuação)

 
De manhã, o mau tempo passara. Do navio não havia um único pedaço à vista, o sol subia todo vermelho e brilhante por sobre as águas. Era como se as faces do Príncipe tomassem assim vida, mas os olhos continuavam fechados. A sereia beijou-lhe a bonita testa alta e puxou-lhe o cabelo molhado para trás. Pareceu-lhe que se assemelhava à estátua de mármore lá em baixo no seu jardinzinho, beijou-o outra vez e desejou que viesse a viver.


Então viu diante de si terra firme, altas montanhas azuis, sobre cujos cumes brilhava a neve branca que era como cisnes aí pousados. Em baixo, junto à costa havia lindos bosques ver¬des e diante estava uma igreja ou um mosteiro, não sabia bem, mas um edifício era. Limoeiros e laranjeiras cresciam aí no pomar e diante do portão erguiam-se palmeiras altas. O mar fazia uma pequena baía, calma mas muito funda, até bem às rochas, onde banhava a branca areia fina. Para aqui nadou com o bonito príncipe, pousou-o na areia, mas cuidou especialmente para que a cabeça ficasse alta ao sol quente.


Depois tocaram sinos no grande edifício branco e vieram muitas meninas para o jardim. Então a sereiazinha nadou mais para longe para detrás de umas pedras altas que saíam da água, pôs espuma do mar no cabelo e no peito, de modo a que não lhe pudessem ver o rostozinho e ficou atenta à espera de alguém que ali viesse encontrar o pobre príncipe.


Não tardou muito que uma menina viesse até aí. Pareceu ficar muito assustada, mas só por um momento; depois foi buscar várias pessoas e a sereia viu que o príncipe tomava vida e que sorria a todos à volta dele, mas para ela não sorria, não sabia de modo nenhum que o salva¬ra. Sentiu-se muito triste e, quando ele foi levado para dentro do grande edifício, mergulhou, pesarosa, e regressou ao palácio do pai.


Fora sempre calada e pensativa, mas agora era-o muito mais. As irmãs perguntaram-lhe o que tinha visto lá em cima pela primeira vez, mas ela não contou nada.


Muitas noites e manhãs subia até ali, onde deixara o Príncipe. Viu como os frutos do pomar amadureceram e foram colhidos; viu como a neve se derreteu nos altos montes, mas ao príncipe não o via e assim regressava sempre mais triste a casa. Aí o único consolo era sentar-se no seu jardinzinho e cingir com os braços a bela estátua de mármore que se parecia com o prín¬cipe mas das suas flores não cuidava, cresciam como um ermo, por sobre os caminhos, e entran¬çado os longos troncos e folhas nos ramos das árvores, de modo que ficava tudo sombrio.


Por fim, não pôde aguentar mais e contou o sucedido a uma das irmãs, e assim logo todas as outras vieram a saber, mas nenhumas mais além delas e um par de outras sereias que nada contaram senão às amigas mais íntimas. Uma delas sabia muito bem quem era o príncipe. Vira também a pomposa festa no navio, sabia donde era e onde ficava o seu reino.


- Vem, irmãzinha! - disseram as outras princesas, e com os braços sobre os ombros umas das outras subiram numa longa fila pelo mar adiante, onde sabiam que se encontrava o palácio do príncipe.


Este estava edificado numa espécie de pedra brilhante amarela clara, com grandes escada¬rias de mármore, uma delas dando directamente para baixo, para o mar. Belas cúpulas douradas erguiam-se sobre o telhado e, entre as colunas que circundavam todo o edifício, havia figuras que pareciam vivas. Pelos vidros claros das janelas altas via-se para dentro das salas magníficas, onde cortinas preciosas de seda e tapeçarias se suspendiam e todas as paredes estavam decoradas com grandes pinturas, que era verdadeiramente um prazer vê-las. No meio da sala maior jor¬rava uma grande fonte, os repuxos subiam muito alto na direcção da cúpula de vidro no tecto, através da qual o sol brilhava na água e nas belas plantas que cresciam na bacia ampla.


Sabia agora onde ele morava e aí na água vinha muitas tardes e noites. Nadava até muito mais perto de terra do que qualquer das outras ousara fazê-lo; sim, subia mesmo pelo canal estreito, sob o belo terraço de mármore, que lançava extensa sombra sobre a água. Aí se punha a olhar para o jovem príncipe que se cria completamente só ao claro luar.


Viu-o muitas noites sair com música na barca esplendorosa, as bandeiras a flutuarem ao vento. Olhava-o de entre os caniços verdes e, se o vento pegava no seu véu comprido e prateado e alguém o via, devia pensar que era um cisne que levantava as asas.


Ouviu muitas noites, quando os pescadores andavam com as tochas no mar, que estes falavam muito bem do jovem príncipe e alegrou-se saber que lhe salvara a vida, quando meio-morto fora levado pelas ondas. E pensava como apoiara firmemente a cabeça dele no seu peito e como ternamente o beijara. Ele nada sabia disso, não podia sequer sonhar com ela.


Mais e mais veio a gostar dos homens, mais e mais desejava poder subir até eles. O mundo deles parecia-lhe muito maior do que o dela. Bem sabiam fazer flutuar navios sobre o mar, subir a altas montanhas lá alto, acima das nuvens, e as terras que possuíam estendiam-se com bosques e campos, mais longe do que era possível ver. Havia tanto que gostava de saber, mas as irmãs não eram capazes de dar-lhe resposta a tudo. Por isso perguntava à velha avó e ela conhecia bem o mundo superior, a que muito correctamente chamava as terras de sobre o mar.


- Quando os seres humanos não se afogam - perguntou a sereiazinha -, podem viver sempre, não morrem, como nós aqui em baixo no mar?


- Claro! - disse a velha. - Também têm de morrer e o seu tempo de vida é mesmo mais curto que o nosso. Nós podemos durar trezentos anos, mas quando deixamos de existir, transformamo-nos apenas em espuma na água, não temos mesmo uma campa aqui em baixo entre os entes queridos. Não temos nenhuma alma imortal, não temos mais vida, somos como os caniços verdes, que, uma vez cortados, não podem reverdecer. Os homens, ao contrário, têm uma alma que vive sempre, vive mesmo depois de o corpo se tornar pó. Sobe através do céu claro, até todas as estrelas brilhantes. Assim como emergimos do mar e vemos as terras dos homens, assim sobem até belos lugares desconhecidos, que nunca nos é permitido ver.


- Porque é que não temos uma alma imortal? — perguntou a sereiazinha, triste. – Daria todos os meus trezentos anos que tenho a viver para ser apenas por um dia um ser humano e depois participar do mundo celestial.


- Não deves andar a pensar nisso! - disse a velha. — Somos muito mais felizes e vivemos melhor que os homens lá em cima,


- Tenho pois de morrer e depois flutuar como espuma no mar, não ouvir a música das ondas, ver as lindas flores e o sol vermelho! Nada posso fazer para alcançar uma alma eterna?


- Não - disse a velha. - Só se um ser humano viesse a gostar tanto de ti que fosses para ele mais do que pai ou mãe. Se ele, com todo o seu pensamento e amor, se ligasse a ti e pedisse que um sacerdote pusesse a mão direita na tua com a promessa de fidelidade aqui e em toda a eternidade, então passaria a sua alma para o teu corpo e tu participarias da felicidade dos seres humanos. Dava-te a alma e conservava a sua própria. Mas isso nunca pode acontecer! O que é precisamente bonito aqui no mar, a tua cauda de peixe, acham-na feia lá em cima na terra. Não conseguem perceber isso, há que ter dois apoios grosseiros a que chamam pernas, para se ser bonito.


Então, a sereiazinha suspirou, olhando para a sua cauda de peixe.


- Sejamos alegres! - disse a velha. - Saltemos e pulemos nos trezentos anos que temos a viver! É, sem dúvida, bem tempo suficiente, e depois pode-se repousar ainda mais agradavel¬mente na sepultura. Esta noite vamos ter um baile na corte!

(Cointinua)

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arial,="" font-family:="" helvetica,="" sans-serif;?="">A partir de 3 de Janeiro, neste horário das 14:00, poderemos entrar no Jardim das Delícias pela mão da Augusta Clara de Matos. Foi ela que nos ofereceu os contos de Natal e prossegue a sua selecção com esta maravilhosa história de Hans Christian Andersen.


publicado por Carlos Loures às 14:00
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

Romance da Gata Preta , conto por Maria-Cecília Correia

(Colocado por Clara Castilho)


Antigamente era uso cantar-se de terra em terra – às vezes pelas feiras – romances que todos ouviam com muita atenção. Eram histórias já muito conhecidas, mas que agradavam sempre: a “Nau Catrineta”, a “Santa Iria”, a “Alcininha” e mais, muitas mais.

Se ainda se usasse cantar assim, poderiam também cantar o “Romance da Gata Preta”, como se de uma princesa se tratasse e estas aventuras fossem coisa de muita monta.

De seus primeiros dias não falaria este romance. Nada sabemos deles, como também não sabemos como foi raptada e posta no rochedo mais alto da praia, numa grutinha funda.

Nesse buraco se passaram as horas mais negras desta negra gatinha: sua mãe, não recebendo notícias dos raptores a pedir resgate, deu-a por morta, pensando talvez nalguma cobra mais atrevida. Há, no entanto, quem diga que talvez a própria mãe a tivesse escondido em momento de aflição, fugindo de rapazes dados ao desporto ruim de “aventa pedras” e que, de tão desorientada, se esqueceu onde pusera a filha.

De sua infância propriamente começa o relato quando umas mãos pequeninas entraram na gruta e, às apalpadelas, procuraram quem tão alto miava, que por toda a praia fazia sentir sua aflição.

Ah!, e para que essas mãos pequenas ali chegassem, como foi difícil a trepada, em risco de queda grande! Porque duas pessoas tiveram de se ajudar uma à outra para chegarem à gruta pequena no cimo do rochedo mais alto de Galapos, tal como os cavaleiros dos romances, atravessando montes e vales, enfrentando perigos sem fim para libertarem suas damas.

E assim a gata foi salva. E assim começa a sua história entre os homens.

Ela sentiu o calor de outro corpo; talvez que até tivesse percebido que havia carinho. Mas onde estava o outro corpo de pêlos tufadinhos que era sua mãe? Onde estava a língua húmida que a alisava e lhe dizia coisas assim “bom dia, bom dia, minha querida”? Os seus olhos, ainda fechados nada viam. Não sabia portanto que outros olhos a olhavam amigos e que já não estava sozinha no mundo.

Fechada entre os dedos quentes seguiu viagem para seu destino diferente.

Começou então a sua nova vida e também sua nova comida. Dantes era mais fácil. Sua mãe tratava de tudo: chegava-se a ela, aconchegava-a bem entre a barriga e as patas e o leite corria pela sua boca abaixo. Depois dormia e tudo era o melhor dos mundos.

Agora tinha de aguentar essa coisa rija que lhe metiam entre os dentes e que deitava uma comida ruim e mal saborosa.

- “Não e não”, diziam os miados da Gata Preta.

Mas a fome foi sua mestra. Primeiro mal e depois já melhor, aprendeu a comer apertada entre a mão quente que passou a ser a sua nova mãe.

A outra mãe, a verdadeira, foi ficando esquecida.

Só uma vez a recordou bem, ao encontrar uma pantufa de pêlos altos. Enroscou-se nela e fez rom-rom, sua satisfação em voz alta.

E rom-rom fez depois quando se sentia quente, quando começou a comer sozinha, quando se aninhava junto da mão-mãe. E corria já pela casa toda, conhecendo cantos e pessoas.

E acaba aqui o primeiro capítulo deste romance, onde se conta como a Gata Preta aprendeu as “Regras de Bem Viver entre os Homens”.

No segundo se diz como a Gata Preta encontrou um amigo e, mais do que um amigo, um amor.

Se fosse romance de princesa, esses cantores das feiras explicariam primeiro aos ouvintes mais atentos: “E agora um cavaleiro, sabendo da sua beleza e virtudes da princesa, chegou de um reino distante para pedir sua mão em casamento”.

Como soube da Gata Preta o Cambuta? (Era este o nome do gato vindo de longe).

Como passam as notícias no reino dos gatos? Nós não sabemos, mas deve haver uma maneira...

Encontrou-a a brincar com um berlinde. Como mandam as suas leis de cortesia, cheirou-lhe primeiro o nariz. E, nesse mesmo instante, soube que a Gata Preta não tinha mãe. Então, em vez de a pedir em casamento, como teria feito o príncipe, pensou: “Primeiro tenho de lhe ensinar como são os gatos; ela só conhece os homens e não chega”.

Bom gatinho, esse Cambuta, e esperto, pois era isso mesmo o que a Gata Preta precisava: viver essas leis de gato que ela trazia fechadas em si, desconhecendo-as – ou não as praticando – sem saber ainda que eram as suas.

E Cambuta, como uma mãe, ou como um avô paciente que senta ao colo um neto para que aprenda as letras, ensinou à Gata Preta como falam, brincam, bulham – como vivem – os gatos. E assim a Gata Preta soube que, neste mundo de tantos bichos, ela era uma gata. Aprendeu até a caçar as moscas que passeavam descuidadas nas vidraças.

Para começar, nada mau.

E foi crescendo um pouco mais até que ficou gata casadoura.

Vieram cavaleiros de outros castelos, perdão, gatos de outros jardins, gordos e bonitos; vieram gatos vadios, sem dono, contando suas aventuras; vieram gatos de cor lisa, outros de lindas riscas, velhos e novos. E a Gata Preta, de pêlo sedoso e mancha branca no nariz, escutava uns e outros, sempre fingindo desinteresse, sempre ouvindo serenamente com ar distante. Para si dizia: “Nenhum é tão bonito como o Cambuta”. E até que Cambuta nem sequer era bonito, mas ela tinha-lhe amor.

E foi assim que todos os gatos partiram de orelha murcha para os seus quintais, seus jardins, suas novas aventuras, sem que nenhum comovesse o coração da Gata Preta.

Nos romances de princesas, os músicos e cantores diriam: “Gostou do seu príncipe, casaram e tiveram muitos filhos”.

O mesmo foi com a Gata Preta: ela escolheu o seu príncipe – Cambuta – casaram e estão à espera de muitos filhos, muitos de uma só vez, coisa que só raras vezes acontece às princesas.


(publicado no Diário Popular – 8.01.1977)
publicado por Carlos Loures às 10:00
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