Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

A Itinerante do Limbo - Urbano Tavares Rodrigues

 

Urbano Tavares Rodrigues  A Itinerante do Limbo

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Umas vezes pede esmola, em voz baixa; outras, apenas es­tende a mão, o nervosismo nem a deixa falar. É magríssima, sem idade, mas adivinha-se que teve feições delicadas.

 

Veste sempre uns trapos insólitos, demasiado leves para o tempo frio, que não a caracterizam socialmente.

 

No café-snack onde às vezes a encontro e ela me aborda, quase sempre à porta da rua, há quem lhe conheça a história um pouco confusa e contraditória. Ela, num desabafo, contou-a a uma empregada da casa, embora isso pudesse pô-la em risco.

 

Há com frequência moscas à sua volta e o céu destila sobre ela o líquido sombrio das verdades que se foram desgastando.

 

O marido, cigano, tratava-a como uma cadela. Embebedava-se e batia-lhe, fazia do seu corpo, já então meio deserto, com pouco sangue, um amarelado de manchas, dores, negrume.

 

Numa noite em que ele entrou em casa ainda mais bêbado e brutal do que o costume, a pobre sujeitou-se a tudo. Deixou-o adormecer e asfixiou-o com uma almofada. Ele mal se deba­teu. Só nos primeiros instantes tentou resistir.

 

A partir daí, aquela criatura não parou de fugir - da polícia, dos conhecidos, de algum denunciante. E, contudo, ali, arris­cou-se a fazer confidências.

 

Dorme, consoante a estação, nos bancos de jardim, à boca do metro, nos degraus das escadas, nalguma construção arrui­nada, sob as pontes da insensível desgraça. Terá algures escon­dida a sua cama de cartão? Ouve os bichos do silêncio, aranhas, lacraus, vê desfilar pavores em forma de gente.

 

Nem os ciganos, se ocorre passarem por ela, a reconhecem. O seu rosto de olhos fixos, vazios, parece às vezes falar com os mortos.

 

Mas os filhos vêm vê-la, sabem onde achá-la. E trazem-lhe notícias, algum bolo ou algum agasalho, palavras de outrora.

 

Muitas pessoas tratam-na mal e - diz ela - lembram-lhe pássaros ferozes, capazes de lhe bicarem os olhos.

 

Que a prende à vida? Que força de raízes a sustenta e a habita?

 

Evito observá-la, para ela não desconfiar de mim, mas vejo em certos momentos esta criatura tão sordidamente concreta e tão evanescente a caminhar por um interminável plaino de onde foram varridos até os arbustos e todo o som da vida, o bem e o mal, a consciência de ser. Apenas alguns cacos de vi­dro, que espelham outros vidros. E ela anda, anda, sem expres­são, por esse espaço que parece sem limites, fora do tempo, mas onde, de longe a longe, surgem as vagas cristas cor de li­mão de uma débil aurora, que se reproduz aqui e além.

 

Durante dois ou três dias deixámos de a ver. Disseram-me que os filhos tinham vindo visitá-la e falaram bastante com ela, muito persuasivos. E preocupados. Avisá-la-iam de que a polí­cia dera com o seu rasto? De que devia mudar de poiso? O cer­to é que ela se sumiu.

 

Foram rolando dias, semanas. Quando penso nela, sempre angustiado, revolta-me a injustiça deste mundo, a sina destas mulheres espezinhadas e apavoradas, que nunca apertaram em igualdade outra mão e também a si mesmas se recriminam nas horas, cada vez mais pálidas, de sofrimento.

 

Imagino-a então, com assombro, a sair de dentro de um via­duto, onde só por ironia ainda não foi atropelada (ou terá si­do?) e a corresponder ao sorriso de uma espécie de violinista de Chagall, de rabona preta, entre lírico e burlesco, que lhe dá o braço e a vai levando, elevando-a consigo, ascendendo por entre rendas de nuvens quase azuladas onde até a sola se torna um manjar e deixam de se opor o sim e o não, a beleza e a feal­dade.

 

Não sei bem se ela tenta daí enviar-me uma mensagem, alguma coisa que nunca disse ainda, ou se apenas se esforça por rir como qualquer humano com a sua torpe boca desdentada e feliz.

 

(in A Última Colina, Dom Quixote)

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Lappin e Lapinova - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  Lappin e Lapinova

 

Tinham casado. Rebentara no ar a marcha nupcial. Os pombos esvoaçavam. Alguns rapazes com o uniforme de Eton atiraram-lhes arroz; um fox-terrier corria de um lado para o outro: e Ernest Thorburn conduziu a sua noiva até ao carro através da pequena multidão curiosa de pessoas completamente desconhecidas que se junta sempre nas ruas de Londres para desfrutar da felicidade ou da desgraça dos outros. Sem dúvida, tratava-se de um noivo elegante, e ela tinha um ar intimidado. O arroz foi atirado uma vez mais e o carro partiu.

 

Fora na terça-feira. Era agora sábado. Rosalind precisava ainda de se habituar ao facto de ser agora Mrs. Ernest Thor­burn. Talvez nunca lhe fosse possível, porém, habituar-se ao facto de ser Mrs. Ernest Qualquer Coisa, pensou ela, enquanto se sentava junto da janela larga do hotel, contemplando o lago e as montanhas, e esperava que o marido descesse para o pequeno-almoço. Era difícil uma pessoa habituar-se ao nome de Ernest. Não era de maneira nenhuma o nome que ela teria es­colhido. Teria preferido Timothy, Antony, ou Peter. O nome dele evocava coisas como o Albert Memorial, armários de mog­no, gravuras metálicas do Príncipe Consorte em família — ou, em suma, a sala de jantar da sogra em Porchester Terrace.

 

Mas ali estava ele. Graças a Deus não tinha cara de Ernest — nada mesmo. Mas teria ar de quê? Relanceou-o obliquamente por várias vezes. Bom, enquanto estava a comer aquela torra­da parecia um coelho. Não que qualquer outra pessoa fosse ca­paz de descobrir a mínima semelhança com um animal tão pe­queno e tímido naquele jovem aprumado e com bons músculos, nariz direito, olhos azuis, boca de traço firme. Mas era ainda mais engraçado por causa disso. O nariz dele franziu-se leve­mente ao trincar a torrada. Era assim que o coelho de estima­ção dela também costumava fazer noutro tempo. Ficou a olhar aquele nariz que se franzia; e depois teve de explicar, quando ele a surpreendeu a observá-lo, porque é que estava a rir.

 

«É que tu és como um coelho, Ernest», disse ela. «Como um coelho bravo», acrescentou, olhando-o de novo. «Um coelho de caça; um Rei Coelho; um coelho que faz a lei dos outros coelhos.»

 

Ernest não tinha qualquer objecção a ser um coelho de tal espécie, e como a divertia vê-lo franzir o nariz — embora ele nunca tivesse dado por que fazia semelhante coisa —, franziu-o de propósito. Ela riu uma e outra vez e ele ria também, de tal modo que as duas senhoras solteironas e o pescador e o criado suíço com o seu lustroso casaco preto, todos eles adivinharam certo: ele e ela eram muito felizes. Mas quanto tempo dura uma felicidade assim? — perguntaram-se as pessoas para consi­go: e cada uma delas respondeu de acordo com o que as suas experiências lhe lembravam.

 

À hora do almoço, sentados junto de uma moita de urze perto do lago: «Alface, coelho?» perguntou Rosalind, pegando numa folha de alface que acompanhava os ovos cozidos. «Vem cá, comer à minha mão», acrescentou ela, e ele mordiscou e provou a alface, franzindo o nariz.

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

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Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

A Marca na Parede 1 - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  A Marca na Parede

 

 

 

(conclusão)

 

Olhada de certo ângulo, a marca na parede parece tornar-se uma saliência. Também não é perfeitamente circular. Não pos­so ter a certeza, mas parece projectar uma sombra, sugerindo que se eu percorresse a parede com o dedo, este subiria e desce­ria, num dado ponto, um pequeno túmulo, como essas eleva­ções dos South Downs que não sabemos se são tumbas ou aci­dentes do terreno. A minha preferência vai para os túmulos, são eles a minha alternativa, porque gosto da melancolia como a maioria dos ingleses, e acho natural evocar no fim de um passeio os ossos enterrados por baixo da vegetação rasteira... Deve existir algum livro a esse respeito. Algum arqueólogo deve já ter desenterrado os ossos e ter-lhes-á também posto nome...                                                                                                                                                                                         

 

Que género de homem serão esses arqueólogos, pergunto-me. Coronéis aposentados, na sua maioria, tenho a certeza, conduzindo lavradores idosos, examinando punhados de terra e algumas pedras e trocando correspondência com os padres da vizinhan­ça, cujas cartas de resposta, abertas ao pequeno-almoço, fazem os coronéis reformados sentir-se importantes, além de que as pesquisas têm ainda a vantagem de exigirem deslocações pelo condado até à cidade local, necessidade tão agradável para eles como para as suas esposas envelhecidas, que gostam de fazer doce de ameixa ou tencionam limpar o escritório e que por isso alimentam a incerteza acerca da alternativa entre campas e aci­dentes de terreno que faz sair os seus maridos, enquanto estes se sentem cheios de um prazer filosófico à medida que acumu­lam provas nos dois sentidos do debate. É verdade que o coro­nel acaba por se inclinar para a hipótese dos acidentes de terre­no; e ao deparar com alguma oposição, edita um folheto que será lido numa sessão da assembleia local, altura em que uma apoplexia o deita por terra, e os seus últimos pensamentos cons­cientes não são para a mulher ou para os filhos, mas para o campo que estava a ser discutido e para a ponta de flecha que lá se encontrou e que aparece em seguida no museu da cidade, juntamente com o sapato de uma assassina chinesa, um punha­do de pregos isabelinos, uma profusão de cachimbos de porcela­na Tudor, um vaso de cerâmica romana e o copo por onde Nel­son bebeu — tudo isto provando que nunca será realmente possível saber que histórias.

 

Não, não, nada se encontra provado, nada se sabe. E se eu me levantasse neste preciso momento e me certificasse de que a marca na parede é realmente — o quê, por exemplo? — a ca­beça de um gigantesco prego, ali colocado há duzentos anos e que, graças à erosão pacientemente provocada por várias gera­ções de criadas, deita de fora a cabeça, rompendo a camada de pintura da parede e observando as primeiras imagens da vida moderna nesta sala branca e com um fogão aceso, que ganharia com isso? — Conhecimento? Tema para posteriores especulações?

 

Posso pensar tão bem continuando sentada como se me levantasse. E o que é o conhecimento? O que são os nossos ho­mens instruídos senão os descendentes das feiticeiras e eremitas das grutas e florestas, que apanhavam plantas, interrogavam o voo do morcego e transcreviam a linguagem das estrelas? E quanto menos os honrarmos, quanto menos crédito lhes der a nossa superstição, mais o nosso respeito pela saúde e pela bele­za hão-de crescer... Sim, é-nos possível imaginar um mundo muito mais agradável. Um mundo tranquilo, espaçoso, com um sem fim de flores vermelhas e azuis nos campos sem muros. Um mundo sem professores nem especialistas nem donas de ca­sa com perfil de polícias, um mundo por onde se poderá desli­zar na companhia dos próprios pensamentos, tal como um pei­xe desliza na água que passa, tocando de leve o manto de nenú­fares da superfície, enquanto os ninhos entre as ramagens da vegetação que cobre as águas guardam os seus ovos de pássaros aquáticos... Como se está em paz aqui, ao abrigo, no centro do mundo e olhando para cima através das águas cinzentas, com os seus lampejos súbitos de luz e os seus reflexos — se não fosse o Whitaker's Almanack — se não fosse a Mesa da Presidência!

 

Preciso de me levantar daqui e de me inteirar do que será realmente aquela marca na parede — um prego, uma folha de roseira, uma racha na madeira?

 

Lá está a natureza, uma vez mais, no seu velho jogo de au­todefesa. Esta corrente de pensamento, ela deu por isso já, é ameaçadora para mim, arrasta-me para um gasto inútil de energia, talvez mesmo para algum choque com o mundo real, como é de esperar que aconteça a quem se mostra capaz de le­vantar um dedo contra a Mesa da Presidência de Whitaker. O Arcebispo de Cantuária traz atrás de si o Lorde Chanceler: o Lorde Chanceler é seguido pelo Arcebispo de York. Toda a gente vem a seguir a alguém, eis a filosofia de Whitaker; e é uma grande coisa saber-se quem segue quem. Whitaker sabe e deixemos, como a natureza recomenda, que isso nos conforte, em vez de nos enfurecer; e se não pudermos ser confortados, se temos que estragar esta hora de harmonia, pensemos então na marca na parede.

 

Compreendi o jogo da Natureza — a sua rápida exigência de actividade que ponha fim a qualquer pensamento que amea­ce de excitação ou de dor. Daí, suponho eu, a nossa pouca esti­ma pelos homens de acção — homens que, de acordo com as nossas ideias, não pensam. No entanto, não há mal em uma pessoa deter decididamente os seus pensamentos desagradáveis contemplando uma marca na parede.

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

A Marca na Parede - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  A Marca na Parede

 

 

Foi talvez por meados de Janeiro deste ano que vi pela pri­meira vez, ao olhar para cima, a marca na parede. Quando queremos fixar uma data precisamos de nos lembrar do que vi­mos. Assim, lembro-me de o lume estar aceso, de uma faixa de luz amarela na página do meu livro, dos três crisântemos na jarra de vidro redonda na chaminé. Sim, tenho a certeza de que foi no Inverno, e tínhamos acabado de tomar chá, porque me recordo de estar a fumar um cigarro quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez. Olhei para cima atra­vés do fumo do cigarro e o meu olhar demorou-se por um mo­mento nos carvões em brasa do fogão e veio-me à ideia a velha fantasia da bandeira escarlate tremulando no alto da torre do castelo, e pensei na cavalgada dos cavaleiros vermelhos subindo a encosta do rochedo negro. Foi com certo alívio que a imagem da marca na parede interrompeu esta fantasia, porque se trata de uma velha fantasia, de uma fantasia automática, vinda tal­vez dos meus tempos de criança. A marca era uma pequena mancha redonda, negra contra a parede branca, a cerca de seis ou sete polegadas do rebordo da chaminé.

 

Ê surpreendente a rapidez com que os nossos pensamentos se precipitam sobre um novo objecto, o transportam por um instante, do mesmo modo que as formigas se atiram febrilmente a um pedaço de palha, que em seguida abandonam sem mais...Se a marca tivesse sido feita por um prego, não podia ser para prender um quadro, apenas uma miniatura — a miniatura tal­vez de uma senhora com os anéis do cabelo empoados, rosto co­berto de pó-de-arroz e lábios vermelhos como cravos. Uma falsi­ficação, é evidente, porque as pessoas que foram donas desta casa antes de nós deviam gostar de ter pinturas desse género — um quadro velho para uma sala velha. Eram pessoas assim, pessoas muito interessantes, e penso nelas muitas vezes, quando me vejo numa situação fora do vulgar, porque nunca voltarei a vê-las, nunca saberei o que lhes aconteceu a seguir. Queriam deixar a casa porque queriam mudar de estilo de mobília, foi o que ele disse, numa altura em que estava a explicar que a arte devia ter sempre uma ideia por trás, e era como se fossemos de comboio e víssemos de passagem uma senhora de idade a servir chá e o jovem que bate a sua bola de ténis no jardim das trasei­ras da sua vivenda nos arredores.

 

Mas quanto à marca, não tinha a certeza do que pudesse ser: afinal de contas, não me parecia feita por um prego; é grande de mais, redonda de mais, para isso. Posso levantar-me, mas se me levantar para a ver melhor, aposto dez contra um que continuarei a não saber o que é; porque, uma vez feita cer­ta coisa ninguém sabe nunca como é que tudo o que se segue aconteceu. Oh, meu Deus, o mistério da vida — a fraqueza do pensamento! A ignorância da humanidade! Vou contar algumas das coisas que tenho perdido, o que basta para mostrar como controlamos poucos o que possuímos — como é precária a nos­sa vida após todos estes séculos de civilização; dessas coisas perdidas misteriosamente — que gato as teria levado, que rato as terá roído? —. começarei por referir, por exemplo, três caixinhas azuis para guardar ferros de encadernar, cujo desaparecimento é a perda mais misteriosa da minha vida. Depois há as gaiolas de pássaros, as argolas de ferro, os patins, a alcofa de carvão Queen Anne. a caixa de jogos de cartão, o realejo — tudo isto desaparecido, além de algumas jóias também. Opalas e esmeraldas, que devem estar para aí enterradas entre as raízes de um quintal. Uma complicação como não se pode imaginar, não haja dúvida! O que é de espantar, no fim de contas, é que eu esteja ainda vestida e rodeada de móveis sólidos neste mo­mento. Porque se quiséssemos um termo de comparação para a vida, o melhor seria o de um metropolitano, atravessando o tú­nel a cinquenta milhas à hora — e deixando-nos do outro lado sem um gancho sequer no cabelo! Cuspidos aos pés de Deus, inteiramente nus! Rolando por campos de tojo como embrulhos de papel pardo atirados para dentro de um marco de correio! E os cabelos puxados para trás pelo vento como a cauda de um cavalo nas corridas. Sim, são coisas destas que podem dar uma ideia da rapidez da vida, a destruição e reconstrução perpétuas; tudo tão contingente, tão apenas por acaso...

 

Mas a vida. A lenta derrocada dos grandes caules verdes de tal modo que a flor acaba por se virar, ao cair, inundando-nos com uma luz de púrpura e vermelho. Porque é que, bem vistas as coisas, não nascemos ali em vez de aqui, desamparados, in­capazes de ajustarmos como deve ser a luz do olhar, rastejando na erva entre as raízes, entre os calcanhares dos Gigantes? Por­que dizer o que são as árvores, e o que são homens e o que são mulheres, ou sequer o que é haver coisas como árvores, homens e mulheres, não será algo que estejamos em condições de fazer nos próximos cinquenta anos. Não há nada por vezes senão es­paços de luz e de escuridão, intersectados por grandes hastes densas e talvez bastante mais acima manchas em forma de rosa — rosa-pálido ou azul-pálido — de cor indecisa, e tudo isso, à medida que o tempo passa, se vai tornando mais definido e se transforma — em não se pode saber o quê.

 

Mas a marca na parede não é, de maneira nenhuma, um buraco. Poderá ter sido o resultado de qualquer substância es­cura e arredondada, uma pequena folha de rosa, por exemplo, deixada ali pelo Verão, uma vez que não sou uma dona de casa lá muito atenta a essas coisas — basta ver o pó que há na chamine, o pó que dizem ter soterrado Tróia por três vezes, des­truindo tudo excepto os fragmentos de vasos que chegaram até nós.

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

editado por Luis Moreira às 20:04
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

O Beijo 1 - Anton Tchehkov

Anton Tchehkov O Beijo

 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

 

 

(continuação)

 

 

- Adoro a sua casa! - disse Riabóvitch ajeitando os óculos.

 

A generala sorriu, contou que a casa já fora do pai dela, depois quis saber dos paizinhos dele, se ainda eram vivos, há quanto tempo prestava serviço, por que estava tão magro... Elucidada, seguiu o seu caminho, e Riabóvitch ficou-se a sorrir, ainda mais carinhosamente depois desta conversa, a pensar que estava rodeado de excelentes pessoas...

 

Durante o jantar, Riabóvitch comia automaticamente tudo o que lhe serviam, bebia e, sem ouvir nada nem ninguém, tentava explicar a si mesmo a aventura ainda fresca... Uma aven­tura misteriosa e romanesca, mas, afinal, facilmente explicável. Pelos vistos, uma menina ou uma senhora marcara encontro com alguém no quarto escuro, estaria há muito tempo à espera e, de excitação nervosa, tomou Riabóvitch pelo seu herói, situação tanto mais provável quanto Riabóvitch, ao atravessar o quarto, parou pensativo, com ar de quem também estava à espera... Assim explicava Riabóvitch, para si, o beijo recebido.

 

«Quem será ela? - pensava, observando os rostos femi­ninos. - Tem de ser jovem, porque as velhas não vão a encontros destes. E intelectual, sentia-se pelo roçagar do vestido, pelo cheiro, pela voz...»

 

Parou o olhar na menina lilás e gostou dela; tinha om­bros e braços bonitos, um rosto inteligente, excelente voz. Ria­bóvitch, olhando-a, gostaria que fosse ela a do beijo, e nenhuma outra... Mas ela riu-se, e a risada saiu-lhe falsa, e franziu o nariz comprido que lhe pareceu, a ele, como de velha; transferiu então o olhar para a loira do vestido preto. Era mais nova, mais simples e mais sincera, tinha têmporas encantadoras e bebericava do cálice num jeito muito bonito. Agora, Riabóvitch gostava que fosse aquela. Mas não tardou a achar-lhe o rosto achatado e passou os olhos para a vizinha dela...

 

«É difícil adivinhar - devaneava. - Se for buscar à de lilás apenas os ombros e os braços, acrescentar as têmporas e a testa da loira, os olhos da que está à esquerda do Lobitko, então...»

 

Fez a adição mental e obteve a imagem da menina que o tinha beijado, a imagem desejada, mas que não encontrava ali naquela mesa...

 

Findo o jantar, os convidados, satisfeitos e um tanto ébrios, começaram a agradecer e a despedir-se. Os donos da casa mais uma vez se desculparam por não poderem alojá-los nessa noite.

 

- Meus senhores, estou muito, mas muito feliz por terem estado esta noite em minha casa! - dizia o general, desta vez com toda a sinceridade (na verdade, as pessoas costumam ser infini­tamente mais sinceras e bondosas na despedida das visitas do que quando as recebem). - Muitíssimo feliz! E serão bem-vindos no caminho de volta! Estejam à vontade, nada de cerimónias! Para onde vão? E querem ir pelo caminho de cima? Não, não, atravessem o parque, vão pelo de baixo: é mais perto.

 

Os oficiais saíram para o parque. Depois das luzes ofuscantes e do barulho, o jardim pareceu-lhes muito silencioso escuro. Caminharam calados até ao portão. Iam meio embriagados, alegres, satisfeitos, mas o choque da escuridão e do silêncio tornou-os por um minuto melancólicos. A cada um deles terá passado pela mente, como a Riabóvitch, o mesmo pen­samento: chegará também o tempo de eles, quais Rabbeck, terem uma casa grande, uma família, um parque? Poderão também eles, um dia, mesmo sem serem sinceros, amimar as pessoas, saciá-las, emborrachá-las, alegrá-las?

 

Mal passaram o portão desataram a falar todos ao mesmo tempo, a rir alto e sem motivo. Seguiam agora por uma vereda que descia para o rio e depois corria juntinho à água, contornando arbustos ribeirinhos, regos de água, salgueiros pendentes sobre o rio. Quase se não via o carreiro nem a margem, e na outra banda tudo mergulhava em trevas. Aqui e ali reflectiam-se estrelas na água escura; tremeluziam, alastravam - único sinal de que o rio ia veloz. Tudo era calma. Na outra margem gemiam, sonolentas, as galinholas; deste lado, num dos arbustos, sem medo da chusma de oficiais, um rouxinol trilava desenfreadamente. Os homens pararam ao pé do arbusto, abanaram-no, mas o rouxinol cantava perdidamente.

 

 

 

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Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

O Beijo - Anton Tchekhov

Anton Tchekhov  O Beijo

 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

 

 

                                               Anton Tchekhov nasceu em 1860, na cidade de Taganrog, no Sul da Rússia.

                                                Morreu aos quarenta e quatro anos, no fim de catorze anos de tuberculose.

                                        Formou-se em Medicina em Moscovo, sustentando ao mesmo tempo a família - pais e

                                                cinco irmãos - com a publicação de numerosos contos humorísticos para jornais

                                                    e revistas. Logo em 1887 ganhou o Prémio Pushkhin da Academia Russa

                                                          e grande popularidade com a sua segunda antologia de contos.

                                                    Hoje mais conhecido como autor de peças de teatro tão marcantes como

                                                    "As Três Irmãs "ou o Tio Vânia", obras da última parte da sua vida breve,

                                                  Anton Tchekhov foi um dos contistas mais inovadores e influentes de sempre.

                                       Algumas das suas reflexões sobre o conto, dispersas por cartas e comentários, antecipam de

                                             várias décadas o que é hoje relativamente do domínio comum neste género literário.

                                                           "O beijo", publicado em 1887, é um dos seus primeiros contos.

 

 

 

 

Às oito da noite do dia vinte de Maio, as seis baterias da brigada de artilharia de reserva N., em marcha para o acam­pamento, fizeram alto para pernoitar na aldeia de Mestétchki. No auge da barafunda, enquanto uns oficiais se atarefavam em volta dos canhões e outros, na praça, num magote encostado à cerca da igreja, se entendiam com o quartel-mestre sobre o aboletamento, surgiu por trás da igreja um cavaleiro à civil montado num cavalo invulgar. Era um baio malhado, pequeno e raboto, de pescoço lindo, que não andava a direito, mas ladeava em passinhos curtos de dança como se estivessem a chicotear-lhe as pernas. Chegado ao pé dos oficiais, o cavaleiro ergueu o chapéu e disse:

 

- Sua Senhoria o tenente-general e proprietário von Rabbeck manda convidar os senhores oficiais para tomarem chá lá em casa, agora mesmo...

 

O cavalo fez uma vénia, dançou e recuou ladeando; o cavaleiro voltou a erguer o chapéu e, num instante, desapareceu mais o cavalo por trás da igreja.

 

- Raios o partam - resmungava-se entre os oficiais, que se puseram a caminho dos alojamentos. - Apetece é dormir, e vem este von Rabbeck com o chá dele! Já se sabe que rico chá vai ser!

 

Todos os oficiais das seis baterias recordavam nitida­mente um caso do ano passado, durante as manobras, em que eles, juntamente com os oficiais de um regimento de cossacos, tinham sido convidados da mesma maneira para o chá, por um conde, também proprietário rural e militar na reserva; o conde fora hospitaleiro e simpático, serviu-lhes o jantar e bebidas e não os deixou ir para onde estavam aboletados, fê-los dormir em sua casa. Tudo bem, até óptimo, não fora o homem ter-se, infelizmente, alegrado de mais com a visita dos jovens. Toda a noite falou, até ao amanhecer contou à rapaziada os episódios do seu belo passado, passeou-os pelos aposentos, mostrou-lhes telas caras, gravuras antigas, armas raras, leu-lhes cartas que personalidades altamente colocadas lhe tinham endereçado, e os oficiais extenuados ouviam, olhavam e, na ânsia de uma cama, bocejavam à socapa nas mangas; quando, finalmente, o anfitrião os largou já não eram horas de dormir.

 

Não será igual, este Rabbeck? Seja ou não seja, nada a fazer. Os oficiais mudaram de roupa, aprontaram-se e foram em bando à procura do solar do Rabbeck. Na praça, perto da igreja, tinham-lhes dito que se podia chegar à propriedade por dois caminhos: o de baixo - descer, por trás da igreja, até ao rio, marginá-lo até ao parque e, do parque, qualquer alameda os levava ao destino; o de cima - a partir da igreja, seguir a direito pelo caminho que, uns quinhentos metros mais à frente, dava para os celeiros da propriedade. Escolheram o de cima.

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Um buraco na rede - Adão Cruz

Quem conta um conto...

 

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

(Dedico este conto à amiga Andreia Dias, em homenagem ao seu trabalho e como libelo contra os caçadores)

 

 

Adão Cruz  Um buraco na rede 

 

 

 

Acordei a meio da noite e não fechei mais os olhos. A insónia levou-me onde bem lhe apeteceu.Gemi ao estalar do coração de uma mãe, senti o amargo do choro convulso de um pai, reabsorvi a minha dolorosa resignação…um barco e as amarras que o prendem aos olhos esbugalhados do cais, amarras que se despedaçam, pois ninguém lhes sabe desfazer os nós.

 

A madrugada de hoje começa a clarear. Quem olha através da rede da janela sem vidros julga que vai nascer uma amena manhã de primavera, mas em breve ela parecerá vomitada do ventre de uma fogueira.

Passarinhos coloridos salpicam de gorgeios o silêncio morno do amanhecer. Um grande insecto marra nervosamente de encontro à rede, numa volúpia incontida de liberdade. Eu e aquele moscardo, à procura de um buraco na rede! De um salto, corri da cama até ao chuveiro improvisado que borrifava sobre mim os mais deliciosos minutos do dia. Enquanto a água escorria em fios esganados, eu ia antevendo o prazer de uma caçada matinal às rolas. Iria pedir a carabina ao libanês Senhor Heyle, o qual, àquela hora, ensonado, não se lembrava que não gostava de a emprestar. De qualquer forma, a mim nunca a recusaria, pois precisava de mim como médico.

Postar-me-ia a cem metros do arame farpado, por detrás do poço do jagudi, bem perto do canavial. Vindas das árvores que se encontram no baixio junto à bolanha, as rolas atingem, sem qualquer desconfiança, o mangueiro que está mesmo por cima da minha cabeça. Será só apontar. Mas…nem apontar foi preciso, pois as rolas não vieram, e as que vieram fugiram, sem hesitações de pouso, como se alguém as tivesse avisado do lado de lá do canavial.

Quando se vive no isolamento, sobretudo na solidão da guerra sem sentido, o tempo jamais passa, mas as fracções de tempo parecem voar como estas rolas que escarnecem de mim. Não sei se adormeci, penso que sim, movido pelo zumbido melífluo e hipnotizante de um desses enxames de abelhas selvagens que, à volta de um galho de cajueiro, ordenam a sua inquietante anarquia.

Quando acordei e olhei para cima, uma rolita inocente, vestida ainda com o castanho torrado da primeira penugem, esticava o pescoço curioso para ver quem eu era. Estava tão perto que eu lhe enxergava os olhitos faiscantes e quase ouvia as primeiras falas que as cordas vocais começavam a ensaiar. Instintivamente, colei-me à arma e só vi a cabecita inquieta estremecendo na ranhura do ponto de mira. Se ao menos ela fugisse! Se ao menos ela fugisse!

Apertei o gatilho, e como estava tão perto, nem dei pala queda do seu minúsculo corpo.

 

Caiu o meio-dia sob a forma de um sol escaldante que só as árvores mais frondosas conseguiam coar. Espetei os olhos na avesita moribunda e vi que um fio de sangue lhe pintava o bico. Senti profundamente o gosto acre daquele sangue. Soube-me a guerra, a roubo, a crime, a futuro sem vida e vida sem futuro, a terra calcinada, a chacina. Torci-lhe três vezes o pescoço e atirei-a ao regato mais próximo. Puxei de um cigarro e tentei, com ele, acabar a tristeza e a amargura desta manhã

publicado por Augusta Clara às 19:00
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Terça-feira, 5 de Abril de 2011

O Mistério da Árvore - Raul Brandão

 

Quem conta um conto...

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Raul Brandão  O Mistério da Árvore

 

 

Esgalhada e seca, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava que tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: ninguém se deitava à sua sombra, e até o sol fu­gia da árvore estarrecida e hirta que havia séculos servia de forca.

 

Em frente ficava o Palácio real, construído num bloco de pedra escura, e só o Rei, de alma igual à sua alma, nua e trágica, se pusera a amá-la, a árvore triste que havia séculos servia de forca.

 

Que doença estranha, lenta mas tenaz, matava o Rei?... Só amava os crepúsculos, as agonias da luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao fim da tarde, de cabe­ça encostada aos vidros das janelas, fixo o olhar nas águas verdes e limosas e no espectro da árvore levantada dian­te do Palácio. Tudo que era vivo fugira de ao pé dele, porque o Rei mandava punir a mocidade e o amor, e dez léguas à roda o país tinha sido assolado pelos seus guerreiros brutais. Mandara queimar tudo, devastar tudo no seu reino. Nem uma folha nem uma ave — nem um sinal de vida. De pé unicamente a árvore, desde séculos estarrecida e hirta, a árvore maldita que no seu reino servia de forca.

 

No silêncio tumular do Palácio os passos do Rei ecoavam pelos corredores desertos, lentos ou precipita­dos, conforme o pensamento tenaz que o devorava, gastando pouco a pouco as lajes duras do chão. Não podia amar. Nem a voluptuosidade, nem o ideal, nem o amor, nem a carne láctea das mulheres: tudo lhe era vedado. Horas atrás de horas se ouviam no Palácio os passos do Rei doente, toda a noite, toda a noite a rondar...

 

Sucedeu que veio a Primavera e todas as árvores, para lá do território assolado, estremeceram e se cobriram de flor. Borboletas nascidas do seu hálito noivavam no azul, e dois mendigos amorosos, de países lendários, entraram e perderam-se naquela terra praguenta, ela en­volta na poalha dos cabelos louros, ele feliz e esbelto, preso ao seu olhar. Eram pobres. E assim, apenas vesti­dos, vieram enlaçados com a Primavera, cobrindo a ter­ra erma, que calcavam de vida e de amor. Eram pobres e felizes. Flores esvoaçavam pela sua nudez, e as ma­cieiras dos quintais deitavam galhos fora dos muros, de propósito para os ver passar.

 

Azul, sonho, entontecimento, toda a atmosfera estre­mecia. Só o Rei no Palácio deserto vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores enojavam-no. Que­ria todo o país negro, deserto e escalvado; e o amor que trespassava a terra e os bichos, a própria morte que tudo transforma, lhe pareciam abominação e afronta. Odiava a vida. Mas deitava-se e sentia palpitar as fra­gas: os montes eram seios duros, as árvores cabelos ao vento. Para não ver, encerrava-se no Palácio construído dum bloco de pedra, e sozinho ficava então de olhos postos na árvore. Contemplava-a. Como o Rei, ela era seca e hirta — fora-o sempre — e os seus frutos cadá­veres ou corvos. À passagem de Abril e dos mendigos, tudo à volta se transformava: só ela quedava inerte diante da vida e do amor, a árvore trágica que havia sé­culos que servia de forca.

 

Um dia o Rei soube que dois seres felizes haviam transposto as fronteiras e mandou-os logo prender. Nas últimas noites sentira-os nos espinheiros túmidos, nos sapos dos caminhos que pareciam extáticos, nas coisas que estremeciam, na noite magnética cheia de murmú­rios, no vento que atirava para o castelo ramos de árvo­res luminosos. Punha-se de ouvido à escuta, e a terra, a noite e o mar sufocados iam talvez falar, iam enfim falar...

 

Quando os soldados os trouxeram ao Palácio, com eles entrou um bafo novo: cheiravam a sol e à lama dos caminhos e pegava-se-lhes húmus aos pés descalços. A vida rompeu por aquele túmulo dentro e, pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em lugar da foice simbólica, pela primeira vez trazia nas mãos um ramo de árvore.

 

Dois mendigos e amavam-se! Nem sequer eram ex­traordinariamente belos, mas deles irradiava uma for­ça imensa — daquela moça sardenta, com resquícios de palha pegados aos cabelos, daquele homem cuja carne aparecia entre os farrapos. Não davam pelo Rei, não davam pela Morte. Amavam-se. Atreviam-se num país que ele mandara assolar para que nunca mais dian­te de seus olhos pudesse aparecer a imagem da vida e do amor!

 

Olhou-os o Rei durante alguns minutos em silêncio, e depois fez um gesto aos carrascos, que logo se apode­raram deles e os levaram. Sorriam-se os mendigos cheios de terra e ervas, e, enlevados, olharam um para o outro, ignorando o que se passava em volta — olhos nos olhos, mãos nas mãos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Qual é a cor do mar de agora? - Ethel Feldman

Quem conta um conto...

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

Ethel Feldman  Qual é a cor do mar de agora?

 

 

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000


Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:

Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo


Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?

 
Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:

- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.

Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:
 
- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

editado por João Machado em 15/04/2011 às 12:55
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

A Velha Carlota - José Luís Peixoto e O Médico e a Arte - Adão Cruz

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Quem Conta um Conto...e Sopra um Poema

(a propósito da mulher que esteve morta nove anos em casa)

 

 

(Ilustrações de Adão Cruz)

 

José Luís Peixoto  A Velha Carlota

 

Ontem, a velha Carlota dos moinhos d'água saiu da mercearia com dois sacos de compras, chegou a casa e pensou em matar-se. Porque chora vossemecê, Ti Carlota? Sentou-se num banco que tem sempre encostado ao lume. No verão, o lume está apagado e ontem o lume estava apagado. A velha Carlota dos moinhos d'água sentou-se no banco e nem guardou a embalagem de Planta no frigorífico, nem guardou no armário de rede os pacotes de bolacha maria, que comprou para os cachopos que a vêm visitar. Sentou-se num banco que tem sem­pre encostado ao lume. Já não presto para nada. Os seus olhos eram grandes. As lágrimas desciam-lhe pelas pregas da pele do rosto. Os lábios da velha Carlota dos moinhos d'água não são beijados há cinquenta anos. Ninguém olha para eles. São finos e secos. Já não presto para nada. A velha Carlota dos moinhos d'água levantou-se do banco. As suas mãos são muito magras: a pele solta, as veias, os ossos, as unhas cortadas com a tesoura da costura. As suas mãos começaram a desabotoar a bata negra. Depois de cada botão, um pouco mais da combinação branca de flanela. Porque chora vossemecê, Ti Carlota? As suas mãos soltaram as alças da combinação. A velha Carlota dos moinhos d'água, no meio da cozinha, despiu-se toda nua. Uma lágri­ma caiu-lhe sobre o peito, desceu-lhe pela barriga, pela perna e secou antes de lhe chegar ao joelho. Tirou os ganchos, des­prendeu a poupa e os cabelos brancos estenderam-se-lhe pelas costas ligeiramente curvadas. A porta da velha Carlota dos moi­nhos d'água nunca está fechada ao trinco. Entrei. Um silêncio. Olhou para mim, toda nua, a chorar. O mesmo silêncio. A casa era escura e fresca. Os dois sacos de compras estavam no chão. junto à roupa caída. Porque chora vossemecê, Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gosta­mos muito de si.

 

(in Cal, Bertrand Editora)

 

 

 

Adão Cruz  O Médico e a Arte

 

 

Não sou feira das máscaras

Não quero telas nem tintas

Meus tons são d’água a correr.

Vou à festa do amanhecer

Pintar a face dorida

Dos ensombrados da vida

Com cores de sol a nascer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sol-a-nascer

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

De Onde Vem a Voz? - Eudora Welty

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

Quem Conta Um Conto...

"Distinguida com inúmeros prémios ao longo da sua carreira, Eudora Welty (Mississipi, 1909-2001) é hoje considerada uma das autoras mais proeminentes da literatura norte-americana do sécuo XX. (...) A escrita weltiana é caracterizada por uma visão humanista, por um sentido de irmandade para com homens e mundo, no modo como descreve situações do quotidiano, conferindo-lhes uma ressonância poética, próxima do realismo mágico. À visão amorosa distintiva do seu universo ficcional acresce uma marcada consciência política, espelhada num humor inteligente que nunca toca o sarcasmo, e sobretudo centrada nas problemáticas da identidade do género e da questão racial"

Eudora Welty  De Onde Vem a Voz?

(1963)

Digo à minha mulher:

- Podes apagar isso. Não temos de ficar pr'aqui sen­tados a olhar prà cara de um preto se não quisermos, nem de ouvir aquilo que não queremos ouvir. Ainda estamos num país livre.

Acho que foi assim que me veio a ideia.

Disse, eu podia descobrir exactamente onde vive aqui em Thermopylae aquele preto que está a pedir direitos iguais. E sem qualquer problema.

E não estou a dizer que não é por ser muito perto de onde eu vivo. Por outro lado, uma pessoa pode ter razões para saber como ir até lá no escuro. É lá que todos vamos procurar aquilo que queremos quando mais queremos. Não é verdade?

A tabuleta da sucursal do banco tem umas luzes que dizem, pela noite dentro, a temperatura e as horas. Quando eram quatro menos um quarto, e faziam 34°, fui eu que passei na camioneta do meu cunhado. Ele não entrega nada àquela hora da madrugada.

Então é assim, sai-se dos Quatro Recantos para oeste, na Estrada Nathan B. Forrest, passa-se o Poupança Extra e um bocado depois o Acampamento de Rulotes Volta Sempre, antes de aparecerem as tabuletas a dizer «Isco Vivo», «Carros Usados», «Foguetes», «Pêssegos» e «Irmã Rocha: Leituras e Conselhos». Vira-se mesmo antes de sair da cidade e passa-se pelos caminhos-de-ferro. A rua dele está alcatroada.

 

Ele tinha a luz acesa, à minha espera. A luz da gara­gem dele, vejam bem. O carro não está lá. Ele deve con­tinuar por aí a inventar maneiras de fazer aquilo que nós já estamos fartos de dizer que eles não podem fazer. Eu sabia que ia chegar a casa antes dele. Só tive de esco­lher uma árvore e esconder-me atrás dela.

Quando me meti nisto, já sabia que ia ficar à espera. Mas estava tanto calor que eu só rezava para nenhum de nós derreter antes de isto acabar.

Olhem, só sei que não me tinha propriamente calhado a sorte grande.

Eu ouvi o mesmo que vocês sobre o Goat Dyke-man, no Mississipi. Claro que toda a gente conhece o Goat Dykeman. O Goat mandou dizer ao governador que limpava o sebo àquele preto, ao Meredith1, se o dei­xassem sair da choldra para fazer isso. O velho Ross ainda deu umas voltas à cabeça antes de dizer não... dá p'ra entender.

Eu cá não sou nenhum Goat Dykeman, não estou na choldra, nem vou pedir nada de nada ao governador Barnett. A não ser que ele me queira dar uma palmada nas costas pelas chatices desta manhã. Mas não tem de fazer nada disso, se não quiser. Fiz o que fiz, porque me deu na real gana.

Mal ouvi pneus, percebi logo quem estava a che­gar. Era ele, só podia ser ele. Era mesmo aquele preto, a subir pelo quintal acima num carro branco novinho em folha, até à garagem com a luz acesa, mas parou antes de chegar lá, talvez para não os acordar. Era ele. Conheci-o quando apagou as luzes do carro e pôs o pé de fora, eu sabia que era ele que ali estava, escuro contra a luz. Conheci-o naquela altura como me conheço a mim agora. Conheci-o até pelas costas paradas, à escuta.

Nunca o vi antes, nunca o vi depois, nunca vi a cara preta dele, só em fotografia, nunca vi a cara dele ao vivo, em nenhuma altura, em nenhum sítio, e não quero, nem preciso, nem espero ver aquela cara e nunca vou ver. Bastava não ter dúvidas nenhumas.

Tinha de ser ele. Ficou completamente parado, à espera contra a luz, as costas fixas, fixas em mim como os olhos de um padre a gritar «E tu, estás salvo?». É ele.

Já tinha levantado a caçadeira. Já tinha apontado. E já o tinha apanhado, porque já era tarde de mais para se mudarem as coisas, tanto para ele como para mim.

Uma coisa mais escura do que ele, como as asas de um pássaro, cresceu-lhe nas costas e empurrou-o para baixo. Ele levantou-se uma vez, como um homem caído nas garras do mal e, como se o sangue dos justos pesasse uma tonelada, caminhou com aquilo às costas até um sítio com mais luz. Não passou da porta. E caiu de vez.

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 17:14
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