Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Benjamin - Ethel Feldman

 

Ethel Feldman  Benjamin

 

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago:  alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À  noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar.  “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:


Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso

tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida
fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.



* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach -  também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).
Ethel Feldman



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Sábado, 7 de Maio de 2011
Lappin e Lapinova 1 - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  Lappin e Lapinova

 

 

(conclusão)

 

Foram para a mesa. Rosalind estava meio escondida atrás dos crisântemos, cujas grandes pétalas vermelhas e doiradas se abriam em bola. Tudo era doirado. Uma ementa marginada a ouro referia os pratos, com os nomes escritos com iniciais doira­das, que iam ser servidos. Rosalind mergulhou a colher num re­cipiente cheio de um líquido doirado e claro. O nevoeiro alva­cento lá de fora transformado, graças à iluminação, numa fosforoscência doirada que esbatia os contornos das travessas e da­va aos ananases uma pele de ouro áspero. Só ela no seu vestido de noivado branco, com os olhos salientes abertos e observando, parecia ali, no meio de tanto ouro, um pingente de gelo insolú­vel.

 

À medida que o jantar avançava, contudo, a sala ia ficando cada vez mais quente. Gotas de suor salpicavam as testas dos homens. Rosalind sentia que o seu gelo estava a liquefazer-se. Sentia que estava a ser derretida; dispersa; dissolvida no nada; em breve ia desmaiar. Depois, através do nevoeiro do seu cére­bro e da zoada que lhe afligia os ouvidos, ouviu uma voz de mulher exclamar: «Mas eles multiplicam-se tanto!»

 

Os Thorburn — sim; multiplicavam-se tanto, ecoou ela, olhando à volta da mesa os rostos avermelhados que lhe pare­ciam duplicar-se na atmosfera doirada que os envolvia e na tontura que dela se apoderara. «Multiplicam-se tanto.» Então, John bradou:

 

«São uns diabos pequenos!... Só a tiro! Só pisando-os com botas cardadas! É a única maneira de lidar com eles... os coelhos!»

 

Com esta palavra, a palavra mágica, Rosalind sentiu-se revi­ver. Espreitando por entre os crisântemos, viu o nariz de Ernest a franzir-se. O rosto enrugou-se-lhe e ele franziu-o várias vezes seguidas. E então uma catástrofe misteriosa transformou os Thorburn. A mesa doirada tornou-se uma charneca de giesta em flor; o ruído das vozes, no assobiar feliz de um melro que descia do céu. Era um céu azul — as nuvens passavam lenta­mente. E ei-los, todos os Thorburn, transformados. Rosalind olhou para o sogro, um homenzinho pequeno de bigode caído. O seu passatempo era coleccionar coisas várias — selos, caixas de esmalte, pequenos objectos de enfeitar mesas do século XVIII, que escondia nas gavetas do escritório da vigilância da mulher. Agora ele parecia-lhe um caçador furtivo, escapando-se com a sua bolsa recheada de faisões e perdizes que iria cozinhar na panela da sua casa escondida nos campos e cheia de fumo. Era isso o que o sogro realmente era — um caçador furtivo. E Célia, a filha por casar, que estava sempre a meter o nariz nos segredos das outras pessoas, nas pequenas coisas que os outros gostariam de guardar para si próprios — essa era um furão branco de olhos vermelhos e com o nariz todo sujo de terra por causa das horríveis pesquisas esconderijos em que andava sem­pre. Andar de um lado para o outro pendurada dos ombros dos homens dentro de uma rede e viver numa toca — era uma vida desgraçada, essa vida de Célia; a culpa não era dela, porém. E era assim que Rosalind agora a via. Depois, olhou para a sogra — a quem tinham dado o cognome de Squire. Corada, altanei­ra, cheia de si, era assim que ela se mostrava, agradecendo à direita e à esquerda, mas agora Rosalind — ou melhor, Lapinova — via-a de modo diferente: via-a contra o fundo da casa de família em decadência, com o gesso a desprender-se das pare­des, e ouvia-a, com a voz cortada por um soluço, a agradecer aos filhos (que a detestavam) um mundo que tinha já deixado de existir. Fez-se um silêncio súbito. Levantaram-se todos de copo erguido na mão; a seguir beberam; tudo acabara.

 

«Oh, rei Lappin!», gritou Rosalind, enquanto voltavam os dois através do nevoeiro de Londres, «se o teu nariz não tivesse franzido naquele momento preciso, eu tinha sido apanhada na armadilha!»

 

«Mas estás salva», disse o Rei Lappin, apertando-lhe a pata.

 

«E bem salva!», respondeu ela.

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
editado por Luis Moreira às 19:31
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Rotina - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Rotina

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.

 
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
 
- Aconteceu alguma coisa?
 
- Não - responde-me, sorridente.
 
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
 
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
 
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
 
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
 
- Queres jantar fora, amor?
 
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
 
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
 
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
 
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
 
- O que falta agora?
 
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
 
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sábado, 16 de Abril de 2011
O Beijo 2 - Anton Tchekhov

Anton Tchekhov  O Beijo

 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

 

 

(conclusão)

 

- Aguentáá as bestas! - ouvia-se a ordem sempre que o caminho descia.

 

Riabóvitch também gritava «aguentáá as bestas!» e temia que o grito lhe rasgasse os sonhos e o trouxesse à reali­dade...

 

Ao passarem ao lado de uma grande propriedade, Ria­bóvitch espreitou pelos gradis do parque. Viu uma comprida alameda, direita como uma régua, coberta de saibro amarelo e marginada de bétulas novinhas... Com a ânsia de um homem levado pelos devaneios, imaginou pequeninos pés femininos a pisarem o chão amarelo e, num repente, desenhou-se-lhe diante dos olhos aquela que o beijara, aquela que ontem, à mesa da ceia, só pudera fantasiar. A imagem colou-se a ele e já não o abandonou.

 

Pelo meio-dia, vindo da retaguarda, do lado do com­boio, soou um grito:

 

- Atenção! Olhar à esquerda! Senhores oficiais!

 

Num carro puxado por uma parelha de cavalos bran­cos, passava o general da brigada. Parou junto da segunda ba­teria e gritou qualquer coisa que ninguém apanhou. Vários ofi­ciais se aproximaram dele, Riabóvitch também.

 

- Então? Como vai isso? - saudou o general pestane­jando com os olhos vermelhos. - Há doentes?

 

Depois das respostas, o general, pequeno e magro, mas­tigou com os lábios, ficou a pensar e disse, por fim, a um dos oficiais:

 

- O seu boleeiro do cavalo de varal, da terceira peça, tirou a joelheira e pendurou-a, o canalha, no armão dianteiro. Aplique-lhe um castigo.

 

Levantou os olhos para Riabóvitch e continuou:

 

- Os tirantes dos seus cavalos parecem-me compridos demais...

 

Depois de mais algumas observações aborrecidas, o ha­bitual, o general, com um risinho, pôs os olhos em Lobitko.

 

- O tenente Lobitko está hoje com um ar muito triste -disse. - Tem saudades da Lopukhova, eh? Eh, meus  senhores, o tenente Lobitko está com saudades da Lopukhova!

 

Lopukhova era uma senhora muito alta, assaz corpu­lenta, passante há muito dos quarenta. O general, que tinha um fraquinho pelas senhoras corpulentas, fossem de que idade fossem, suspeitava desse fraquinho também nos seus oficiais. Os oficiais sorriram respeitosamente. O general, satisfeito com pilhéria tão venenosa, desatou à gargalhada, deu uma palmada nas costas do cocheiro e fez a continência. O coche seguiu para diante...

 

«Tudo o que sonho agora e se me afigura tão impos­sível e extraterreno é, no fundo, bastante vulgar - pensava Riabóvitch, olhando as nuvens de poeira que corriam atrás do coche do general. - Sim, vulgaríssimo e vivido por todos... Este gene­ral, por exemplo, em tempos também amou, e agora está casado e tem filhos. O capitão Wachter também está casado e é amado, embora tenha uma nuca vermelhusca bem feia e não tenha praticamente cintura... O Salmánov é bruto e demasiado tártaro, mas já teve um romance que culminou em casamento... Eu sou igual a todos eles e hei-de passar pelo mesmo, mais cedo ou mais tarde...»

 

A ideia de ser um homem vulgar e ter uma vida vulgar alegrou-o e animou-o. Já a desenhava sem receios, a essa vida e às suas felicidades, não restringindo em nada o voo da imaginação...

 

Quando, pelo anoitecer, a brigada chegou ao destino e os oficiais já descansavam nos abarracamentos, Riabóvitch, Merzliakov e Lobitko sentavam-se em volta de uma arca e jan­tavam. Merzliakov comia sem pressas e, mastigando vagarosa­mente, lia a Véstnik Evrópi que equilibrava nos joelhos. Lobitko falava sem parar, sempre a encher o copo de cerveja, e Riabóvitch, com uma neblina na cabeça por um dia inteiro de devaneios, só se calava e bebia. Ao fim de três copos sentiu-se embriagado e mole, com uma vontade insuperável de partilhar com os companheiros a sensação em que vivia.

 

- Aconteceu-me uma coisa estranha em casa desses Rabbeck... - começou, tentando dar à voz um tom
indiferente e irónico. - Fui até à sala de bilhar...

 

Contou, em muito pormenor, a história do beijo e, um minuto passado, já se calava... Num minuto pôde contar tudo, e ficou terrivelmente espantado por ter precisado de tão pouco tempo. Parecia-lhe que podia falar daquele beijo até ao ama­nhecer. Ouvindo a história, Lobitko, que mentia muito e como tal não acreditava em ninguém, olhou para ele com desconfiança e soltou uma risadinha. Merzliakov ergueu as sobrancelhas e, sem desviar os olhos da VéstnikEvrópi, sentenciou:

 

- Só Deus sabe o que isso é!... Atirar-se ao pescoço de alguém sem lhe chamar primeiro pelo nome... Uma psicopata qualquer.

 

- Sim, deve ser psicopata... - concordou Riabóvitch.

 

- A mim aconteceu-me uma vez o raio de um caso se­melhante... - disse Lobitko, fazendo olhos de susto. - Foi no ano passado, eu ia para Kovno... Compro bilhete de segunda clas­se... A carruagem está cheia como um ovo, é impossível dormir. Dou cinquenta copeques ao hospedeiro... Ele pega-me na ba­gagem e leva-me para um compartimento... Deito-me, cubro-me com um cobertor... Escuro como breu, estão a ver? Então, faço
um movimento com a mão e sinto um cotovelo... Abro os olhos e, imaginem só, é uma mulher! Olhos negros, lábios vermelhos como salmão, do bom, as narinas a arfarem com paixão, os seios ali, como uns...

 

- Desculpe lá - interrompeu-o com calma Merzliakov - quanto aos peitos, muito bem, eu compreendo, mas como podia ver-lhe os lábios se estava escuro?

 

Lobitko esquivou-se rindo desdenhosamente da falta de esperteza de Merzliakov. Riabóvitch sentiu-se melindrado. Afastou-se da arca, deitou-se e deu-se a palavra de honra de nunca mais entrar em confidências.

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Quinta-feira, 14 de Abril de 2011
A Gaveta dos Tesouros, por Clara Castilho


 

 

 

O Carlos tem uma gaveta onde guarda os seus tesouros. Quem lá for bisbilhotar ficará decepcionado. Não há ouro, nem prata, não há telemóveis, nem MP3.

 

Vou contar-vos algumas das histórias dos pedaços da sua vida que ele ali conserva.

 

O botão era de um vestido da avó, muito importante na vida dele. Quando se encostava ao seu peito volumoso e fofo, e o seu cheiro o invadia, ele podia fingir que ainda era bebé e era acarinhado sem lhe pedirem nada em troca. A avó já morreu mas ele fecha o botão na mão e consegue esquecer as coisas más que lhe aconteceram durante o dia.

 

O cromo de futebol foi o pai que lho comprou. Gosta de olhar para ele e pensar que é um recado que ele lhe dá, que poderá vir a ser forte e triunfar na vida.

 

O livro, deu-lho aquele professor que soube esperar que a sua agitação passasse, o olhou nos olhos, afagou o seu cabelo e lhe deu espaço para transmitir o seu sofrimento.

 

O anel era da Rita, a menina da escola com quem gostaria de namorar. Ela deixou-o cair e ele apanhou-o às escondidas. Já que não tem coragem de a abordar, já que teme que ela ache que ele não presta para nada, gosta de sonhar e pensar que foi ela que lho deu.

 

Todas as noites o Carlos vai à sua gavetinha, remexe nos seus tesouros, organiza os seus pensamentos e sentimentos. Olha a lua e as estrelas e pensa que há pontes a passarem por cima dos rios. E adormece sorrindo, pronto para os sonhos bons, adormece pronto para aguentar os pesadelos, pronto para procurar mais tesouros.

 



publicado por João Machado às 21:00
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Terça-feira, 12 de Abril de 2011
Sempre Galiza! – Uma rua num porto distante, por Daniel Castelão

publica-se às 3ªs e 6ªs

coordenação Pedro Godinho


 

Daniel Castelão foi o nome escolhido para o 2º Dia das Letras Galegas (1964).

 

Artista, escritor e político é considerado um dos fundadores do nacionalismo galego.

 

De entre os contos, sobre cousas da vida, incluídos nos dois livros de Cousas (1926 e 1929), escolhemos para hoje, com desenhos também de Castelão:

 

 

 

UNHA RÚA NUN PORTO LONXANO

 

 

Unha rúa nun porto lonxano do norte. As tabernas están acuguladas de mariñeiros e botan polas súas portas o bafo quente dos borrachos. Xentes de tódalas castes do mundo, cantigas a gorxa rachada, música de pianolas chocas, moito fedor a sebo...

 

Un mariñeiro que fala francés tropeza cun mariñeiro que fala inglés. Os dous fanse promesas de gran amistade, cada un no seu falar. E sen entenderse, camiñan xuntos, collidos do brazo, servíndose mutuamente de puntales.

 

0 mariñeiro que fala francés e maiío mariñeiro que fala inglés entran minha taberna servida por un home gordo. Queren perde-lo sentido xuntos para seren máis amigos. Quen sabe se despois de ben borrachos poderán entenderse!

 

E cando o mariñeiro que fala inglés xa non rexe co seu corpo, comenza a cantar:

 

Lanchiña que vas en vela,

levas panos e refaixos

para a miña Manoela.

 

0 mariñeiro que fala francés arregala os ollos, abrázase ó compañeiro e comenza tamén a cantar:

 

Lanchiña que vas en vela,

levas panos e refaixos

para a miña Manoela.

 

A-iu-jú-jú!! Os dous mariñeiros eran galegos.

 

0 taberneiro, gordo coma una ilamengo de caste, veu saí-los dous mariñeiros da taberna e pola súa faciana vermella escorregaron as hágoas. E dispois dixo para si nun laído saudoso:

 

Lanchiña que vas en vela,

 

Tamén o taberneiro era galego.

 

 

 




publicado por Pedro Godinho às 11:00
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
Augusto - Ethel Feldman

Quem conta um conto...

 

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

Ethel Feldman  Augusto

 

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

 

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

 

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.

 

Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado. O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.

 




publicado por Augusta Clara às 19:00
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Terça-feira, 15 de Março de 2011
Sempre Galiza! - O Assento, de Jenaro Marinhas del Valle

coordenação Pedro Godinho

 

 

 

O ASSENTO

 

Recanto dum jardim público. Dous bancos, próprios do sítio, um dando frente ao público, em direcçom horizontal à embocadura, o outro em posiçom vertical a ela e num lateral.

 

  

Atrás do primeiro, quando menos, umha árvore em cujas pólas podam pousar as duas aves exóticas que aparecerám imediatamente.

 

Ave 1:

Onde é que nos encontramos?

Ave 2:

Pois nom o sei. Nunca é fácil sabê-lo com certeza, tudo se vai uniformando tanto no mundo que todas as cidades parecem a mesma. Iguais avenidas, «scalestrix», «buildings». Que nojo!

Ave 1:

Vamos dar outra revoada a ver se pesquisamos algo orientador.

Ave 2:

Se déssemos coa Oficina de Turismo.

Ave 1:

Impossível, nom podemos rasear o voo com tantas espingardas de ar comprimido em maos dos escolares.

 

Partem as aves. Entram polo lateral vazio dona Claustófila e dona Reverenciana, ambas andam por umha idade mais que madura, ambas som atesadas, enxoitas e desluzidas como folha de bacalhau. Sentam-se no banco que dá frente ao público, tiram dos bolsos o novelo de lá e as longas agulhas de calcetar para continuar o labor encetado, parecem simular um jogo de esgrima a florete. Entra por onde antes elas o figérom o HOME, tamém maduro, roupas e chapeu amarfanhados, mal barbeado, tudo nel tem aspecto, se nom precisamente sujo, si desajeitado, esbaldragado. Porta um grande pára-águas sem enrolar e uns diários. Tenta sentar-se no sítio livre que deixam no extremo do banco as senhoras; mas para llo impedir correm-se elas rapidamente ocupando-o. Deixam, pois, livre o extremo oposto e ali dirige-se o HOME; mas novamente umha das mulheres apressura-se a ocupá-lo escorrendo o cu ao longo do assento. Fica agora livre o centro do banco. O HOME olha-o dubitativo e quando decide sentar-se as mulheres colocam as agulhas de ponta no sítio.

 

O HOME brinca ao sentir a punçada e esfrega as nádegas olhando em volta, repara no outro banco vazio, dirige-se a el, acomoda o guarda-chuva pendurado no espaldar e some-se na leitura dos diários. As mulheres, agora ajuntadas de novo, intercambiam gestos e olhadas como dizendo-se: «apanhou o merecido».


Começa a chover. O HOME abre o pára-águas. As senhoras guardam apressadas as calcetas nos bolsos. Hesitam em que fazer e correm a sentar-se umha a cada lado do HOME a coberto do grande guarda-chuva. O HOME olha umha e outra entre estranhado e burlom, depois vai fechando lentamente o pára-águas até que nom protege mais que a sua própria cabeça. As mulheres, vendo-se sem agarimo, erguem-se e fogem fora da cena em procura de refúgio, e vam dizendo: «Nom hai cortesia».


Retornam as aves a pousar no mesmo ramo.

 

Ave 1:

Averiguaste por onde é que voamos?

Ave 2:

Parece ser que estamos sobre umha terra que chamam Noroeste, lim muitas alusons a esse ponto.

Ave 1:

E onde vem caindo isso mais ou menos.

Ave 2:

Polo Suroeste da Europa.

Ave 1:

Como pode ser isso de que o Noroeste seja o Suroeste? 

Ave 2:

É segundo desde onde se olhar.

Ave 1:

Parece contra-senso.

Ave 2:

Pois tem o seu senso e como mandam os noroestistas nom permitem outro ponto de mira que o seu.

Ave 1:

Hai ditadura

Ave 2:

Nisso, si. E os suroestistas, os que contemplam o país desde a Europa, som postos fora da Lei. Parece que hai muito enguedelho.

Ave 1:

Pois estamos boas! Se começam a tiros nom o vamos passar muito bem que digamos.

Ave 2:

Antes nos imos embora, que já vai acalmando o chuveiro.

     

O HOME fecha o pára-águas que volvera a abrir de todo em se indo as madamas que agora retornam em direcçom para o seu banco.


Dona Claustófila:

(Apalpando o assento). Está molhado.

Dona Reverenciana:

(Apalpando igualmente). Está molhado.

     

Permanecem em pé indecisas. O HOME oferece-lhes os diários, elas tomam-nos com vénia e sorriso de agradecimento. Cada umha lê em voz alta o título do que tomou: «A Liberdade», «A Democracia». Umha entrega-lho à outra apressadamente, como se lhe queimasse a mao. Repetem o intercámbio de mao a mao sempre como se de tiçom aceso ou ferro ardente se tratasse. Afinal, dona Claustófila em poder dos dous diários, vai-nos colocando estendidos no assento do banco.


Dona Reverenciana:

Para que fai isso dona Claustófila? Em riba disso nom me sento.

Dona Claustófila:

(Cessando na tarefa). Nom lhe falta razom, dona Reverenciana. Desculpe. Nom resulta bom assento para senhoras da nossa casta.

Dona Reverenciana:

Dos nossos princípios.

Dona Claustófila:

Diga que nom é bom assento para ninguém.

Dona Reverenciana:

(Heróica, lançando umha olhada desafiante para o HOME). Digo, claro que digo! Digo mui alto para que todos podam ouvir.

    

Marcham a encostar-se no tronco da árvore e reanudam os seu labor de calceta. Entra um rapaz e umha rapaza colhidos da cintura. Vestimenta unissex. Sentam-se no banco coberto polos diários e começam a acarinhar-se: abraços, beijos. O HOME desentendido do entorno vai preparando o seu cachimbo. As mulheres, entre volta e volta de agulha, esguelham olhadas de indignaçom para os amantes.


Dona Claustófila:

Está vendo, dona Reverenciana?

Dona Reverenciana:

Nom há vergonha, dona Claustófila. De onde virá tanta despudícia?

Dona Claustófila:

Nom o pergunte,que está claro: vem-lhes do assento. Nom deveríamos ter deixado esses papéis ali.

Dona Reverenciana:

Certamente que nom é assento apropriado para a mocidade.

Dona Claustófila:

Umha mocidade sã há de assentar sobre a obediência, sobre a disciplina.

Dona Reverenciana:

Diga que si.

Dona Claustófila:

Digo.

Dona Reverenciana:

Em certo modo somos responsáveis. Sem intençom, claro é, mas proporcionamos-lhes assento para o escándalo.

Dona Claustófila:

Por que deixaria eu ali estendidos esses diários? Que imprevisom! (Batendo no peito). Mea culpa! Mea culpa!

Dona Reveranciana:

Ainda podemos fazer algo para impedir tanta perdiçom.

Dona Claustófila:

Vamos sentar a rente deles que a nossa presença há de coibi-los.

    

Venhem sentar umha em cada extremo do banco. Os rapazes, no centro, entregues a beijos e alouminhos, nem se inteiram. Dona Reverenciana carraspeia para se fazer notar. Sem resultado. Dona Claustófila carraspeia mais forte. Sem resultado. Ambas intercambiam gestos de estranheza, de escándalo, de indignaçom. A rapaza monta a cavalo no regaço do moço e joga-lhe cos cabelos, depois tira do peto um maço de cigarros e pede-lhe lume. El apalpa-se buscando e nom encontra. A rapaza descavalga e vai sentar-se ao lado do HOME em petiçom de lume. Fumam.
    

O rapaz estende os braços por trás das cabeças das senhoras e atraí-nas para si colhidas dos ombros. Deixam levar-se. O moço umha após outra beija-as nos beiços. Gargalhada da rapariga. As senhoras arroubadas, fecham os olhos de mao pousada nos joelhos do moço e vam-nas subindo pola coxa acima. O rapaz agita-se sentindo as cóxegas com um riso contido. As maos das senhoras esploram a barriga, o peito. Mais cóxegas e risos estremecidos. As maos descem corpo abaixo, chegam às virilhas. Grito do moço que se ergue dum brinco, colhe a moça por umha mao e sai correndo com ela.
    

Entra um vendedor de globos. O HOME compra um e prende-o no olho da lapela. Encosta-se no espaldar para o contemplar boiar no alto. As mulheres, encostadas umha à outra, em êxtase. Acordam e olham em torno.


Dona Claustófila:

Ai, dona Reverenciana! Sei que tivem um sonho!  

Dona Reverenciana:

Nom me diga. Tamém eu, dona Claustófila.

Dona Claustófila:

Estávamos aqui nós as duas e vinha aquel home de em frente e assentava-se entre nós...

Dona Reverenciana:

Si, si, era el; mas parecia mais novo.

Dona Claustófila:

O diabo costuma fazer essas transformaçons.

Dona Reverenciana:

E veja-o agora a fazer-se o inocente co seu globo igual que um meninho, como aquel que nunca rompeu um prato.

Dona Çlaustófila:

Assi som as astúcias de Satanás. 

Dona Reverenciana:

Abraçava às duas e...

Dona Claustófila:

(Espantada). Nom o diga, por favor, nom o diga!

Dona Reverenciana:

Nunca tal me tinha acontecido.

Dona Claustófila:

Fomos violadas sem a devida resistência.

Dona Reverenciana:

Abandonou-nos o Anjo Custódio.

Dona Claustófila:

(Pondo-se bruscamente em pé e assinalando acusadora os diários do assento). Olhe! Eis a causa. Veja onde estamos sentadas.

Dona Reverenciana:

(Pom-se tamém rápida em pé). Esses diários! Eles fôrom a nossa perdiçom! Bem diziamos que nom fam assento conveniente.

Dona Claustófila:

Estamos em pecado, dona Reverenciana.

Dona Reveranciana:

Abrenúncio! Abrenúncio!

Dona Claustófila:

Eu corro para casa a esfregar os lábios com água de Lourdes.

Dona Reverenciana:

Se nom foi mais que um sonho!

Dona Claustófila:

Ainda assi.

Dona Reverenciana:

Pois eu nom sei se tenho água de Lourdes na casa; mas tratando-se dum sonho bastará com xabom comum.

Dona Claustófila:

Há de bastar. Hai-nos agora com alto poder desinfectante.

    

Vam-se, apressadas e cotorronas as senhoras. O HOME ceiva o globo que sobe e se perde no alto. Fim da anedota.

 


 

 

Vejam também a primeira parte dum vídeo-roteiro da AGAL sobre a Corunha galeguista de Jenaro Marinhas:

 



publicado por Pedro Godinho às 11:00
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011
A Vida Não É Muito Séria Nas Suas Coisas - Juan Rulfo

Quem conta um conto...

 

 

Juan Rulfo  A Vida Não É Muito Séria Nas Suas Coisas

 (tradução do castelhano de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu)

 

Juan Rulfo (1918-1986) impôs-se, no século XX, como

um nome grande da literatura mexicana. Tem obras

traduzidas em mais de 10 línguas, sendo Pedro Páramo o

seu romance mais conhecido. A maior parte dos textos deste

volume era inédita aquando da sua morte e muitos

deles foram escritos para guiões de filmes.  

 

 

 

 

 

Aquele berço onde Crispín dormia nessa época, era mais do que grande para o seu pequeno corpinho. Sem ainda conhecer a luz, visto que ainda não tinha nascido, ele dedicava-se apenas a viver no meio daquela escuridão e, sem o saber, a tornar cada vez mais lentos os passos que a sua mãe dava, ao caminhar pelos corredores, pela galeria e, às vezes, em algumas manhãs limpas, indo visitar o curral, onde ela se confortava, irritando as galinhas ao roubar-lhes os franguinhos e escondendo dois ou três debaixo do seio, talvez na esperança de que a vida do seu filho se tornasse menos aborrecida ao ouvir alguns dos ruí­dos do mundo.

 

Por outro lado, Crispín, apesar de já estar há oito meses lá dentro, não abrira os olhos nem por uma só vez . Até se adivi­nhava que, sempre acocorado, não tentara esticar um braço ou alguma das suas perninhas. Não, por esse lado não dava sinais de vida. E não fora o seu coração bater com umas pancadinhas suaves através da parede que o separava dos olhos da mãe, ela ter-se-ia julgado enganada por Deus e não faltaria senão um bocadinho para que fosse reclamar com ele, ainda que apenas em segredo.

 

— Que o Senhor me perdoe — dizia para si mesma — mas eu teria que o fazer se ele não estivesse vivo.

 

No entanto, ele estava bem vivo. É certo que se sentia um pouco incomodado por estar enrolado como um caracol, mas, no entanto, vivia-se bem ali, dormindo sem parar e sobretudo, cheio de confiança; com a confiança que dá o embalar-se den­tro daquele berço grande e seguro que era a sua mãe.

 

A mãe considerou a existência de Crispín como um consolo para si. Ainda não descansava das suas lágrimas; ainda havia longos períodos nos quais se agarrava à recordação do Crispín que lhe tinha morrido. Ainda, e isto era o pior para ela, não se atrevia a cantar uma canção que sabia para adormecer as crianças. Contudo, em certas ocasiões, ela cantava-lhe em voz baixa, como que para si mesma; mas, logo a seguir, via-se cer­cada por uma vontade louca de chorar e chorava como só a ausência «daquele» podia merecê-lo.

 

Depois, acariciava o seu ventre e pedia perdão ao seu filho.

 

Noutras ocasiões, esquecia-se por completo de que o seu filho existia. Qualquer coisa vinha pôr diante dos seus olhos a figura do Crispín mais velho. Então, semicerrava os olhos, sol­tava o pensamento e, desse modo, as horas passavam, correndo atrás das suas boas recordações. E era naqueles momentos sem consciência que Crispín batia com mais força no ventre dela e a acordava. E logo a ela ocorria que os batimentos do coração do seu filho não eram batimentos mas sim uma chamada de atenção que ele lhe fazia como se lhe ralhasse por ela o deixar sozinho e por se afastar tanto. E começava imediatamente a arranjar um monte de reprimendas que dava a si própria, não parando de o fazer até se sentir tranquila e sem medo.


Porque, isso sim, tinha um medo muito grande de que alguma coisa acontecesse ao seu filho enquanto ela passava o tempo, de sonho em sonho, com o outro. E nada mais lhe pas­sava pela cabeça senão desesperar-se por nada poder saber. «Talvez sofra», dizia a si mesma. «Talvez esteja a sufocar cá dentro, sem ar; ou talvez tenha medo da escuridão. Todas as crianças se assustam quando estão às escuras. Todas. E ele também. Porque é que não se assustaria ele? Ah, se estivesse cá fora eu saberia defendê-lo; ou, pelo menos, veria se a sua carinha ficava pálida ou se os seus olhos se entristeciam. Então, eu saberia o que fazer. Mas agora não; não onde ele está. Ali, não.» Era isto que dizia a si própria.




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Domingo, 13 de Março de 2011
O Largo - Manuel da Fonseca

 

 

Manuel da Fonseca  O Largo

 

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.

 

O comboio matou o Largo. Sob o rumor do rodado de ferro morreram homens que eu supunha eternos. O senhor Palma Branco, alto, seco, rodeado de respeito. Os três irmãos Montenegro, espadaúdos e graves. Badina fraco e repontão. O Estróina, bêbado, trocando as pernas, de navalha em

punho. O Má Raça, rangendo os den­tes, sempre enraivecido contra tudo e todos. O lavra­dor de Alba Grande, plantado ao meio do Largo com a sua serena valentia. Mestre Sobral. Ui Cotovio, rufião, de caracol sobre a testa. O Acácio, o bebedola do Acácio, tirando retratos, curvado debaixo do grande pano preto. E, lá ao cimo da rua, esgalgado, um homem que eu nunca soube quem era e que aparecia subitamente à esquina, olhando cheio de espanto para o Largo.

 

Nesse tempo, as faias agitavam-se, viçosas. Ace­navam rudemente os braços e eram parte de todos os grandes acontecimentos. À sua sombra, os palhaços faziam habilidades e dançavam ursos selvagens. À sua sombra, batiam-se os valentes; junto do tronco de uma faia caiu morto António Valmorim, temido pelos ho­mens e amado pelas mulheres.

 

Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à fal­ta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

 

Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vonta­de. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, esta­vam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber — cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

 

Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e ar­rogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.

 

Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhan­do os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que apren­desse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida — a grande e misteriosa vida do Largo.

 

A casa era para as mulheres.

 

No fundo das casas, escondidas da rua, elas pen­teavam as tranças, compridas como caudas de cavalos. Trabalhavam na sombra dos quintais, sob as parreiras. Faziam a comida e as camas — viviam apenas para os homens. E esperavam-nos, submissas.

 

Não podiam sair sozinhas à rua porque eram mu­lheres. Um homem da família acompanhava-as sem­pre. Iam visitar as amigas, e os homens deixavam-nas à porta e entravam numa loja que ficasse perto, à espe­ra que saíssem para as levarem para casa. Iam à missa, e os homens não passavam do adro. Eles não entravam em casas onde fossem obrigados a tirar o chapéu. Eram homens que, de qualquer modo, dominavam no Largo.

 

Veio o comboio e mudou a Vila. As lojas enche­ram-se de utensílios que, antes, apenas se vendiam nos ferreiros e nos carpinteiros. O comércio desenvol­veu-se, construiu-se uma fábrica. As oficinas faliram, os mestres-ferreiros desceram a operários, os alvanéis passaram a chamar-se

pedreiros e também se transfor­maram em operários. Apareceu a Guarda, substituiu os pachorrentos cabos de paz, e prendeu os valentes. As mulheres cortaram os cabelos, pintaram a boca e saem sozinhas. Os senhores tiram agora os chapéus uns aos outros, fazem grandes vénias e apertam-se as mãos a toda a hora. Vão à missa com as mulheres, passam as tardes no Clube, e já não descem ao Largo. Apenas os bêbados e os malteses se demoram por lá nas tardes de domingo.

 

Hoje, as notícias chegam no mesmo dia, vindas de todas as partes do mundo. Ouvem-se em todas as vendas e nos numerosos cafés que abriram na Vila. As telefonias gritam tudo que acontece à superfície da terra e das águas, no ar, no fundo das minas e dos oceanos. O mun­do está em toda a parte, tornou-se pequeno e íntimo para todos. Alguma coisa que aconteça em qualquer região todos a sabem imediatamente, e pensam sobre ela e to­mam partido. Ninguém já desconhece o que vai pelo mundo. E alguma coisa está acontecendo na terra, algu­ma coisa terrível e desejada está acontecendo em toda a parte. Ninguém fica de fora, todos estão interessados.

 

A Vila dividiu-se. Cada café tem a sua clientela própria, segundo a condição de vida. O Largo que era de todos, e onde apenas se sabia aquilo que a alguns interessava que se soubesse, morreu. Os homens sepa­raram-se de acordo com os interesses e as necessida­des. Ouvem as telefonias, lêem os jornais e discutem. E, cada dia mais, sentem que alguma coisa está acon­tecendo.

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Terça-feira, 8 de Março de 2011
Minsk - Graciliano Ramos + Beatles

 

 I

Quem conta um conto...

 

 

(homenagem ao periquito dum amigo meu)

 

 

Graciliano Ramos  Minsk

 

 

Quando tio Severino voltou da fazenda, trouxe para Luciana um periquito. Não era um cara-suja ordinário, de uma cor só, pequenino e mudo. Era um periquito grande, com manchas amarelas, andava torto, inchado, e fazia: - "Eh! eh!".

 

Luciana recebeu-o, abriu muito os olhos espantados, estranhou que aquela maravilha viesse dos dedos curtos e nodosos de tio Severino, deu um grito selvagem, mistura de admiração e triunfo. Esqueceu os agradeci­mentos, meteu-se no corredor, atravessou a sala de jantar, chegou à cozinha, expôs à cozinheira e a Maria Júlia as penas verdes e amarelas que enfeitavam uma vida trémula. A cozinheira não lhe prestou atenção, Maria Júlia franziu os beiços pálidos num sorriso desenxabido. Luciana. desorientou-se, bateu o pé, mas receou estragar o contentamento, desdenhou incompreensões, afastou-se com a ideia de baptizar o animalzinho. Acomodou-o no fura-bolo e entrou a passear pela casa, contemplando-o, ciciando beijos, combinando sílabas, tentando formar uma palavra sonora. Nada conseguindo, sentou-se à mesa de jantar, abriu um atlas. O periquito saltou-lhe da mão, escorregou na folha de papel, moveu-se desajeitado, percorreu lento vários países, transpôs rios e mares, deteve-se numa terra de cinco letras.

 

- Como se chama este lugar, Maria Júlia?

 

Maria Júlia veio da cozinha, soletrou e decidiu:

 

- Minsk.

 

- Esquisito. Minsk?

 

- É.

 

Não confiando na ciência da irmã, Luciana pegou o livro, avizinhou-se de mamãe, apontou o nome que negrejava na carta, junto aos pés do periquito:

 

- Diga isto aqui, mamãe.

 

- Minsk.

 

- Engraçado. Pois fica sendo Minsk, sim senhora. Caminhou muito e parou em Minsk. É Minsk.

 

Nomeado o periquito, Luciana dedicou-se inteira­mente a ele: mostrou-lhe os quartos, os móveis, as árvores do quintal, apresentou-o ao gato, recomendando-lhes que fossem amigos. Explicou miudamente que Minsk não era um rato e, portanto, não devia ser comido. Advertência desnecessária: o bichano, obeso, tinha degenerado, perdido o faro, e queria viver em paz com todas as criaturas. Aceitou a nova camaradagem e, dias depois, estirado numa faixa de sol, cerrava os olhos e aguentava paciente bicoradas na cabeça. Essa estranha associação lisonjeou Luciana, que supôs ter vencido o instinto carniceiro da pequena fera e a mimoseou com as sobras da afeição dispensada ao periquito.

 

O instinto de mamãe é que não se modificava: de quando em quando lá vinham arrelias, censuras, cocorotes e puxões de orelhas, porque Luciana era espevitada, fugia regularmente de casa, desprezava as bonecas da irmã e estimava a companhia de seu Adão carroceiro.

 

- Luciana!

 

Luciana estava no mundo da lua, monologando, imaginando casos romanescos, viagens para lá da esquina, com figuras misteriosas que às vezes se uniam, outras vezes se multiplicavam.

 

A chegada de Minsk alterou os hábitos da garota, mas isto no começo passou despercebido e mamãe continuou a fiscalizar o ferrolho alto da porta, a afastar as cadeiras da janela, excelente para fugas. Pouco a pouco cessaram as precauções - as amigas invisíveis de D. Henriqueta da Boa-Vista deixaram de visitá-la. D. Henriqueta da Boa-Vista era a personalidade que Luciana adoptava quando se erguia nas pontas dos pés, a boca pintada, as unhas pintadas, bancando moça. Perdeu o costume de andar assim, ganhar cinco centímetros apoiando os calcanhares nos tacões inexistentes de D. Henriqueta da Boa-Vista, esqueceu as escapada, as aventuras na carroça de seu Adão.

 

- Luciana!

 

Agora Luciana se encolhia pelos cantos, vagarosa, Minsk empoleirado no ombro. Sentia-se novamente miúda, quase uma ave, e tagarelava, dizia as complicações que lhe fervilhavam no interior, coisas a que de ordinário ninguém ligava importância, repelidas com aspereza. Mamãe saía dos trilhos sem motivo. A criada negra, rabugenta, estúpida, grunhia: — "Hum! hum!" Maria Júlia era aquela preguiça, aquela carne bamba, dessorada, e comportava-se direito em cima de revistas e bruxas de pano, triste. Papai sumia-se de manhã, voltava à noite, lia o jornal. E tio Severino, idoso, considerado, sentava-se na cadeira de braços e falava difícil. Nenhum desses viventes percebia as conversas de Luciana. Seu Adão carroceiro é que procurava decifrá-las, em vão: arredondava os bugalhos brancos, estirava o beiço grosso, coçava o pixaim, desanimado. Por isso Luciana inventava interlocutores, fazia confidências às árvores do quintal e às paredes. Esse exercício, agradável durante minutos, acabava sempre fatigando-a. As sombras misturavam-se, esvaíam-se. Afinal desapareceram, substituídas pelo periquito, colorido e ruidoso, de espírito dócil e compreensivo.

 

-  Minsk!

 

Minsk arregalava o olho, engrossava o pescoço, crescia para receber a carícia:

 

-  Eh! eh!

 

Antes de amanhecer estalava na casa o grito agudo que aperreava mamãe. Uma ponta da coberta descia da cama da menina. O periquito se chegava banzeiro, arrastando os pés apalhetados, segurava-se ao pano com as unhas e com o bico, subia. Os braços magros de Luciana curvavam-se sobre o peito chato, formavam um ninho. E os dois cochilavam um ligeiro sonho doce.

 

Minsk era também um ser disposto às aventuras e à liberdade. Agitavam-no caprichos, confusas recordações do mato, e batia as asas, alcançava a copa da mangueira, voava daí, passava algumas horas vadiando pela vizinhança. Satisfeitos esses ímpetos de selvagem, regressava, pulava dos galhos, pisunhava no chão, doméstico e trôpego. Se se demorava na pândega, Luciana, inquieta, subia à janela da cozinha, sondava os arredores, bradava com desespero, até que ouvia duas notas estridentes, localizava o fugitivo, saía de casa como um redemoinho, empurrava as portas, estabanada:

 

- Quero o meu periquito.

 

Entrava sem cerimónia, dava buscas, voltava triunfante, com o vagabundo no ombro. Virava o rosto, enviava-lhe beijos. Minsk se equilibrava agarrando-se à alça da camisa dela, metia a cabeça no cabelo revolto, bicava delicadamente as orelhas e o couro cabeludo. Ora, Luciana, estouvada, nunca via os lugares onde pisava. Mexia-se aos repelões, deixava em pontas e arestas fragmentos da roupa e da pele. Tinha além disso o mau vezo de andar com os olhos fechados e de costas. Sabia que essa maneira de locomover-se irritava as pessoas conhecidas, indivíduos ranzinzas, exigentes. Mas a tentação era forte. E se conseguia, de olhos fechados e de costas, atravessar o corredor e a sala de jantar, descer os degraus de cimento, chegar ao banheiro, considerava-se atilada e rejeitava as opiniões comuns. Optimismo curto. Urna pisada em falso, um choque na mesa, um trambolhão, e o orgulho se desmanchava. Um calombo aparecia no quengo, engrossava, justificava as impertinências caseiras. Luciana baixava a crista, humilhada. Necessário recomeçar as experiências até acertar.

Um dia em que marchava assim pisou num objecto mole, ouviu um grito. Levantou o pé, sentindo pouco mais ou menos o que sentira ao ferir-se num caco de vidro. Virou-se, alarmada, sem perceber o que estava acontecendo. Havia uma desgraça, com certeza havia uma desgraça. Ficou um minuto perplexa, e quando a confusão se dissipou, sacudiu a cabeça, não querendo entender.

 

-  Minsk!

 

A aflição repercutiu na casa, ofendeu os ouvidos de mamãe, de Maria Júlia, da cozinheira, chegou ao quintal e à rua.

 

-  Minsk! gritou mais baixo.

 

Parecia que era ela que estava ali estendida no tijolo, verde e amarela, tingindo-se de vermelho. Era ela que se tinha pisado e morria, trouxa de penas ensanguentadas. Minsk. Devia ser um sonho ruim, com lobisomens e bichos perversos. Os lobisomens iam surgir. Porque não acordava logo, Deus do céu? Saltar a janela, andar em ruas distantes, entrar na carroça de seu Adão.

 

-  Minsk!

 

Ele ia exibir-se, fofo, importante, banzeiro, arrastando os pés, todo trocado: — "Eh! eh!"

 

-  Não morra, Minsk.

 

Pobrezinho. Como aquilo doía! Um bolo na garganta, um peso imenso por dentro, qualquer coisa a rasgar-se, a estalar.

 

-  Minsk!

 

Ele estava sentindo também aquilo. Horrível semelhante enormidade arrumar-se no coração da gente. Porque não lhe tinham dito que o desastre ia suceder? Não tinham. Ameaças de pancadas, quedas, esfola-duras, coisas simples, sofrimentos ligeiros que logo se sumiam sob tiras de esparadrapo. O que agora havia se diferençava das outras dores.

 

Os movimentos de Minsk eram quase imperceptíveis; as penas amarelas, verdes, vermelhas, esmoreciam por detrás de um nevoeiro branco.

 

- Minsk!

 

A mancha pequena agitava-se de leve, tentava exprimir-se num beijo:

 

-Ehleh!

 

II

 

Como não concordo com nenhuma comemoração do tipo "Dia de..." que contemple só metade da Humanidade, até porque é mais discriminatória do que elogiosa, lancei um desafio aos estrolabicos, e não só, pedindo-lhes que propusessem canções que entoassem a harmonia de um mundo construído pelos dois géneros, masculino e feminino, em coro.

 

Houve participações exteriores ao Estrolabio mas, cá de dentro, só responderam ao desafio a Carla Romualdo e o Pedro Godinho, cada um deles com várias canções.

 

Reunido, o júri, exclusivamente composto pela Augusta Clara, decidiu, por unanimidade, escolher como vencedora a canção dos Beatles, proposta pela Carla Romualdo, "When I'm sixty-four" que se apresenta a seguir.

    

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 


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publicado por Augusta Clara às 19:00
editado por Luis Moreira às 02:16
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
TARECO - por Fernando Correia da Silva

 

                                                                                           

De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

 

                                   Lei que songe senteportas do sedejo

                                   aganha salgadada rogadece

                                   ameia que temolve e tamortece.

                                   Reti. E mavetido mavetejo

                                   ana veturna a corbicar avexo

                                   vatico sena toncha toda texo.

 

É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco, o meu robot. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

 

            - Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?

            - Desejo.

            - E a palavra texo?

            - Sexo.

            - Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.

            - Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado.

            - Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.

 

            - Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

 

            Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

 

            - Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?

            - Podemos dizer que sim.

            - Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.

            - És muito profundo, Tareco.

            - Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?

            - É capaz de ser.

            - Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.

            - Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?

            - Paralogismo!

            - Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?

            - Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.

            - Diz lá, Tareco.

            - Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.

            - Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?

            - No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.

            - Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

 

            Zanzou.

 

            - Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.

            - Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.

            - Eu nunca durmo.

            - Nunca dormes?

            - Nunca durmo e nunca sonho.

            - Mas que grande insónia, deves viver cansado.

            - Eu nunca me canso.

            - Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?

            - Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

 

            Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

 

            Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

 

            - Acabei por decifrar os teus versos.

            - Não posso acreditar... Como é, como são?

            - São assim: 

           

                                   Sei que longe, entre portas do desejo

                                   a aranha da saudade agora tece

                                   a teia que te envolve e te adormece.

                                   Parti. E repartido me revejo

                                   ave nocturna a debicar o nexo

                                   cativo nessa concha do teu sexo.

 Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

 

            - Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

 

Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?



publicado por Carlos Loures às 22:00
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