Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

Natal e marketing - Natal é marketing

Carlos Loures

Natal e marketing - Natal é marketing – um simples acento agudo colocado sobre o e, transforma a conjunção em tempo verbal e converte dois conceitos que desde há muitos anos andam juntos numa afirmação que, não sendo toda a verdade, consubstancia toda uma verdade.


Não vou aqui repetir a consabida história da Coca Cola que pegou no São Nicolau lhe vestiu um traje vermelho e o transformou numa «tradição». Foi em 1929, no Natal, dois meses após a quinta-feira negra de 24 de Outubro, do crash da bolsa novaiorquina. As vendas haviam caído vertiginosamente, era preciso um golpe de asa e… voilá! - sai um Pai Natal. As tradições agora são assim – os touros de morte em Barrancos começaram em 1928 e também já são «uma tradição». Não há paciência para deixar passar os séculos – queremos uma tradição, já!

Mas estávamos a falar do Pai Natal, da Coca-Cola, do marketing…Acredito que para muita gente o Natal seja algo mais do que as iluminações, os centros comerciais, as prendas, mas...

O dia da Mãe, o dia do Pai. O dia dos Namorados, o dia das Bruxas... maneiras de animar as vendas, marketing, numa palavra. O Natal é o dia da Família – como se nos outros dias todos não houvesse família, amor fraterno, paz… Coisas que vão para o contentor do lixo com os papéis coloridos, as fitas, as embalagens e algum pseudo sentimento de solidariedade, de amor familiar, essas coisas.

Não tenho o hábito de me auto-citar, mas desta vez parece-me oportuno repetir o que há meses atrás aqui disse sobre a incontinência consumista que, neste período, se torna particularmente aguda. Trancrevo parcialmente o texto  "O Consumo consome o amor".


Consumir. - gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição.


Recorri ao dicionário do meu saudoso amigo José Pedro Machado e, mais uma vez, não me deixou ficar mal. A consulta foi à palavra Consumir. A entrada diz: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns - «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar» e outras menos comuns «Matar, assassinar. Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica: «Desfazer a hóstia na boca. Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.» Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais importante - «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Corroer até à completa destruição - uma boa definição do que é o consumo elevado à categoria de projecto de vida. (...)Na facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.


Há relativamente poucos anos, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.


Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» - contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões, desilusões e a estas seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra. A geração dos anos 60, a minha, tem responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Uma educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.

O consumo também consome o amor.
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Bom Natal para todos os amigos do Estrolabio. Não gosto do Natal mas, como dizia um conhecido homem do futebol, «vocês sabem o que eu quero dizer».
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

O consumo consome o amor

Carlos Loures


Numa arrumação de livros que tive de fazer recentemente, descobri um livro que tinha lido quando da sua publicação que me impressionou e depois esqueci. É uma edição de 1995, mas (segundo a anotação que fiz na página de rosto) foi comprado em 1997 – “Las reglas del caos”, de Santiago Alba Rico. Santiago Alba Rico é um ensaísta e filósofo nascido em Madrid em 1960. Licenciado em Filosofia pela Universidade Complutense de Madrid, é um homem de esquerda, de formação marxista, tem publicado vários ensaios abordando temas de disciplinas como a filosofia, a antropologia e a política. Editor de diversas revistas de carácter político e cultural é, participante activo em meios de comunicação alternativos.

Solidário com a causa islâmica e vivendo actualmente na Tunísia, traduziu para castelhano autores árabes, como o poeta egípcio Naguib Surur ou o escritor iraquiano Judayr Mohamed. Não vos vou falar senão num pormenor deste longo ensaio, cuja leitura aconselho vivamente. Dedicar-lhe-ei proximamente um artigo, pois as questões que levanta, nomeadamente a das regras que regem o caos, são muito interessantes. Vou hoje apenas referir-me à diferença que Santiago Alba Rico estabeelce entre utilizadores e consumidores.

A relação entre valor de uso e valor de troca, outrora base de negócios importantes, quase deixou de funcionar, pois o valor de uso. foi substancialmente depreciado. O que é usado, o que não está em moda, o que funcionando perfeitamente foi ultrapassado por um modelo mais recente, quase não tem o valor. Quando há tempos me quis desfazer de uma mobília, quem aceitou ficar com ela fez-me o favor de vir a minha casa e levá-la. Vendê-la estava fora de questão. Na zona onde moro, vejo com frequência junto dos contentores, móveis, objectos, que há anos teriam valor comercial. Um colaborador nosso, há tempos quis oferecer umas centenas de livros a uma biblioteca municipal – resposta do bibliotecário: «Traga cá os livros e nós escolhemos os que nos interessarem».

Lembra-nos como em certos países do chamado Terceiro Mundo, as pessoas vestem roupas cerzidas, sapatos remendados e deslocam-se em automóveis que na nossa sociedade há muito teriam sido considerados sucata. Todos os anos deitamos fora roupas em bom estado, porque já não se usam. O hábito de trocar de carro, leva-nos a vendermos por tuta e meia carros que funcionam perfeitamente. Isto é, o modelo de sociedade em que vivemos, alimenta-se do consumo supérfluo. Os jovens vendem a alma ao diabo por umas sapatilhas da Nike. O choque consumista nas famílias pobres é de efeitos devastadores. Incapazes de compreender por que razão os pais insistem em os vestir na loja do chinês, jovens enfurecidos vão ao ponto de assaltar estabelecimentos. Trazem as sapatilhas, as t-shirts, as jeans, das almejadas marcas (muitas vezes de qualidade semelhante à da loja do chinês e confeccionadas também em países do Terceiro Mundo em regime de quase trabalho escravo). Mas ostentam a marca o que, para eles, faz toda a diferença.

Publiquei há tempos um texto em que partia da transcrição da entrada “Consumir” no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro machado, para a considerações sobre o caos consumístico em que todos os valores da nossa sociedade estão a mergulhar. Dizia: Consumir: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns - «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar ||» e outras menos comuns «Matar, assassinar. || Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica: «Desfazer a hóstia na boca. || Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.»

Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais importante - «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Em épocas de penúria, ansiávamos por poder comprar, consumir. Mas estou desapontado com a abundância da oferta que veio desembocar no consumo.

Corroer até à completa destruição, eis uma boa definição do que é o consumo, quando elevado à categoria de projecto de vida. Vou contar-vos uma história. Um homem, cujo nome é relativamente, conhecido e com o qual privei profissionalmente durante algum tempo, perseguido pela polícia política na sequência do 18 de Janeiro de 1934, a chamada Revolta da Marinha Grande, fugiu para Espanha em cuja Guerra Civil combateu integrado no Exército Republicano (pois casara com uma valenciana). Derrotada a República, esteve num campo de refugiados em França de onde foi evacuado para a União Soviética. Aí viveu e trabalhou até quase ao fim dos anos 60, altura em que foi para Cuba. Por volta de 1970, com mais de cinquenta anos, tendo garantido que não se envolveria em movimentos políticos, foi autorizado a voltar a Portugal com a família. O barco de onde veio de Havana aportou a Valência. Habituado ao rígido racionamento que vigorava, quer na URSS, quer em Cuba, quando entrou pela primeira vez num supermercado, foi por diversas vezes perguntar a uma empregada se podia comprar duas pastas de dentes, depois se podia levar duas ou três latas de feijão, quatro pacotes de lâminas de barbear… até que agastada a empregada lhe disse: - Desde que pague, pode levar o supermercado inteiro - O meu amigo chorou de emoção. Não lhe era fácil conceber tanta abundância à sua disposição. Nesta facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.

Ainda há relativamente poucos anos, éramos utilizadores, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que os produtos apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era, de facto, uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias ditas «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas que são incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.

Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» - contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões e verdadeiros desapontamentos. E aos desapontamentos, seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra.

A geração dos famosos anos 60, a minha, tem graves responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Essa educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.

Em suma, o consumo também consome o amor.
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Para desdramatizar recordemos esta canção de Luís Portugal «O Dinis dos botões»:
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

A China rica e os chineses pobres!

Luís Moreira

A China tornou-se a segunda maior potência económica mundial, ultrapassando o Japão e só ficando atrás dos US.No entanto, o PIB por habitante, é ainda muito baixo, continua a ser vista como um país em vias de desenvolvimento, pois o valor por habitante é menos de 1/10 dos 39,7 mil dólares do Japão e dos 56,4 dos US. Em Portugal o PIB por habitante foi de 21.400 dólares.

E o que é que vai fazer a China? Vai continuar a exportar assente em salários de miséria ou vai abrir as suas fronteiras aos produtos e bens Ocidentais, incitando a procura interna, para o que tem que favorecer os trabalhadores com melhores salários e direitos sociais ?

Boa parte da economia vai passar pela China, no futuro, não só como exportadora mas tambem como importadora e consumidora. O Japão, que passou por decisão semelhante quando se apoiava, fundamentalmente, na exportação viu-se, de um momento para o outro, confrontado com uma Europa e uns US em declínio, o que teve como resultado uma recessão que é o pior que pode acontecer a um país. Parece que a lição a tirar é a da dona de casa. Equilibra primeiro a tua casa e, só depois, aventura-te no "shoping".Produzir e consumir o que é da casa e, só depois, exportar e importar.

Se a China seguir o caminho de aumentar o poder de compra dos seus cidadãos, o número de consumidores é de tal forma impressionante que resolve os problemas da procura com que estamos confrontados no Ocidente.

Com a capacidade de acesso ao bem estar e ao consumo ( tambem de informação e cultura) vem a reinvindicação de mais direitos e melhores salários, e as primeiras greves já estão a acontecer no gigante adormecido que não que entrar em recessão como o seu vizinho Japão.

PS: neste momento, tal como nos US, a China debate-se com um horrível desastre, por explosão de "pipe-lines" que transportam combustíveis. Lá, como deste lado, o preço do desenvolvimento.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

Consumir. - gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição.

Carlos Loures

Recorri ao dicionário do meu saudoso amigo José Pedro Machado e, mais uma vez, não me deixou ficar mal. A consulta foi à palavra Consumir. A entrada diz: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns - «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar» e outras menos comuns «Matar, assassinar. Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica: «Desfazer a hóstia na boca. Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.» Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais relevante - «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Corroer até à completa destruição - uma boa definição do que é o consumo quando elevado à categoria de projecto de vida.

Vou contar-vos uma história. Um homem, cujo nome é relativamente, conhecido e com o qual privei profissionalmente durante algum tempo, perseguido pela polícia política na sequência do 18 de Janeiro de 1934, a chamada Revolta da Marinha Grande, fugiu para Espanha em cuja Guerra Civil combateu integrado no Exército Republicano (pois casara com uma valenciana). Derrotada a República, esteve num campo de refugiados em França de onde foi evacuado para a União Soviética. Aí viveu e trabalhou até quase ao fim dos anos 60, altura em que foi para Cuba. Por volta de 1970, com mais de cinquenta anos, tendo garantido que não se envolveria em movimentos políticos, foi autorizado a voltar a Portugal com a família.

O barco de onde veio de Havana aportou a Valência. Habituado ao rígido racionamento que vigorava, quer na URSS, quer em Cuba, quando entrou pela primeira vez num supermercado, foi por diversas vezes perguntar a uma empregada se podia comprar duas pastas de dentes, depois se podia levar duas ou três latas de feijão, quatro pacotes de lâminas de barbear… até que agastada a rapariga lhe disse: - Desde que pague, pode levar o supermercado inteiro - O meu amigo chorou de emoção. Não lhe era fácil conceber tanta abundância à sua disposição. Nesta facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.

Há relativamente poucos anos, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.

Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» - contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões, desilusões e a estas seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra. A geração dos anos 60, a minha, tem responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Uma educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.

O consumo também consome o amor.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Ter ou não ser – eis a questão…

Carlos Loures
Talvez Shakespeare devesse ter reformulado a famosa frase de Hamlet deste modo – To have or not to be – that is the question. Para que assim tivesse sido, teria de conhecer a sociedade actual onde, para se ser, para se existir, é preciso ter. Nos nossos dias, introspecções sobre o ser ou o estar? Perda de tempo – uma olhadela ao património e à conta bancária resolve a questão. Se tem, é e está. Não tem? Não existe, é como se não estivesse. E, no entanto, o William viveu a época em que os dados estavam a ser lançados. O protestantismo vinha impor o dever da riqueza, o pecado de ser pobre e de um homem não poder prover todas as necessidades da sua família, por oposição ao catolicismo que defendeu sempre (e persiste) na pobreza como virtude.

Não me querendo desviar do essencial, diria que para que o ser se sobrepusesse ao ter era preciso criar pessoas com uma nova mentalidade – educadas em casa, ensinadas na escola, a colocar os valores morais acima dos materiais. Na formação dessa nova mentalidade, a escola teria de assumir um papel central. Quando se fala tanto no magno problema do Ensino, pareceu-me oportuno lembrar Ètre et avoir (Ser e Ter) um filme realizado por Nicholas Philibert em 2002 e interpretado por George López. Vi-o em DVD, não me recordo, mas penso que não foi exibido comercialmente. Conta a história de um ano lectivo numa pequena escola de aldeia, em França. Um jovem professor candidata-se ao lugar e é aceite. O seu objectivo é ensinar, mas há um problema – tem de ministrar o ensino numa sala onde há crianças de várias idades (entre os quatro e os onze anos), graus de conhecimento e de educação diferentes, e de etnias distintas, pois há filhos de emigrantes.

A forma engenhosa, metódica, profissional, como resolve o problema (os problemas), constitui uma lição magnífica sobre a arte de ensinar. Há outros filmes como o «Clube dos Poetas Mortos» que nos chamam a atenção para essa necessidade que todas as espécies enfrentam – transmitir os conhecimentos adquiridos ás crias. É uma imposição do sentido da sobrevivência. Só sobrevivem as espécies que transmitem o saber acumulado às novas gerações. Por isso, o perigo não é a extinção do homo sapiens, é o risco de a sua transformação em homo ignarus ou em homo nescius.

No filme de Philibert, narra-se exemplarmente a forma como este professor programa as aulas e as prepara, sempre sem esquecer as capacidades de cada um dos alunos, fixando objectivos, prazos. Sabe que os mais velhos o deixarão no Verá para acederem ao segundo ciclo, ao liceu e, por isso, conversa com cada um deles, ajuda-os a vencer a angústia de enfrentar o grupo nas idas ao quadro e as risadas que cada erro desperta nos que sabem, com os mais pequenos fazendo eco. O pânico de enfrentar multidões, de falar em público, acompanha-nos muitas vezes até à idade adulta.

O professor dispõe de autoridade, não está perante um grupo disposto a incinerá-lo. Esta sociedade transpira ódio à cultura. É uma atitude da imbecilidade perante a inteligência, um confronto em que a estupidez procura vencer o saber, tornando-o ridículo e risível. É um sentimento que passa de pais para filhos. O professor enfrenta pequenos energúmenos arrogantes, crianças que podiam ser normais, mas que a falta de educação em casa, substituída pela função deletéria da televisão, transforma em aberrações.

Em «O Clube dos Poetas Mortos», outro exemplo de como ensinar, o professor John Keating, ensaia a sua pedagogia pouco ortodoxa ante um grupo de alunos com características pessoais diferentes. Em todo o caso, não existem exemplares como os que os professores dos bairros periféricos de Lisboa, Porto ou Setúbal, enfrentam. A exortação do verso de Horácio, carpe diem quam minimum credula postero (Colhe o instante, sem confiar no amanhã), teria nessas colmeias suburbanas, uma leitura diferente e de efeitos imprevisíveis, pois os conceitos de fruição são completamente diferentes. Porque estamos a falar de duas concepções do mundo diferentes – uma em que os valores humanos, o ser, se sobrepõem ao consumo, ao ter. Outra, em que se não tens não és.

Não tens um carro topo de gama – não existes!

s
publicado por Carlos Loures às 12:00
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