Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XXIII

Etapa 9: De Alvorge a Condeixa a Nova

Alvorge situa-se no cimo de uma colina. Entre a Granja e Alvorge o caminho de Santiago estava sinalizado. Desço. Chego a uma estrada. Como não há indicações de mudança de direcção, deduzo: sigo em frente. Atravesso a estrada. Vejo uma placa assinalando Vila Nova, um lugar no cimo de outra colina, em frente de Alvorge. Imagino que Vale Florido será a seguir. Subo a Vila Nova. Ando no mínimo outro quilómetro. Está calor. Dói-me a perna. Continua a não haver sinalização. Quero perguntar o caminho, não avisto ninguém, decido tocar à campainha de uma vivenda onde oiço gente. Vem uma senhora ao portão. Explica que não há por ali trilhos para o Rabaçal. E Vale Florido fica na outra colina. Para o Rabaçal o caminho mais certo e seguro é a estrada. Lá em baixo.

Volto a descer. Desanimada. Não há tráfego excessivo àquela hora; desisto de procurar o carreiro que me haveria de conduzir ao Rabaçal – para me voltar a perder e, em vez de sete, andar mais quinze quilómetros?... Caminho portanto pela beira da estrada. Sentindo a tentação de desistir. Peço boleia para a primeira terra com transportes públicos? Basta estica o braço. Teimo em continuar. No Rabaçal talvez haja uma pensão. Posso ficar lá esta noite e continuar amanhã para Condeixa. Terei caminhado hoje uns vinte quilómetros. Amanhã caminho mais quinze.

Chego por fim ao Rabaçal. Encontro um restaurante aberto. Almoço. Quando saio do restaurante, dói-me menos a perna, sinto-me mais animada: prossigo.

O caminho, entre muros baixos, atravessa um olival com muitas pedras. Beleza agreste. Chego ao Zambujal. Converso com dois habitantes que vão, num tractor, apanhar azeitona. Evidentemente, a primeira pergunta:

- A menina não tem medo?

- Tenho, muito: dos cães.

Pensam que é uma piada.

- Por aqui também passam estrangeiros mas esses vão para Santiago de Compostela.

Deduziram que, sendo portuguesa, só posso regressar de Fátima. A mulher suspira:

- É assim... Quando nos vemos em apertos, prometemos tudo e mais alguma coisa. Depois temos de cumprir... Eu também fiz uma promessa...

Passa ao inventário completo das paixões que a atormentam: as artroses, os bicos de papagaio, a coluna vertebral, o fígado, o coração, os intestinos, os afrontamentos, a falta de ar... E o medo do Inferno. Mas como é que há-de cumprir a promessa? Não é capaz. Explico que vou a Santiago de Compostela e posso rezar por ela. Contudo a promessa era em Fátima. De onde eu venho. Escrevo o meu nome e o número de telemóvel num papel, que lhe deixo, aponto o dela, prometo que a recomendo ao apóstolo, que lá se deve entender com a Virgem, aconselho que fale com o padre para saber se a minha peregrinação pode cumprir a promessa dela. O marido acaba por reparar que a apanha da azeitona não progride com a conversa. Despedimo-nos.

Passo em Fonte Coberta, uma aldeia muito cuidada, onde compreenderam a importância de se encontrarem no Caminho de Santiago: ruas arranjadas, placas de azulejo explicando os lugares, uma Rua do Caminho de Santiago... E uma sinalização correcta do trajecto.

A partir de Fonte Coberta o percurso volta a ser singularmente bonito, entre vinhas até Poço, à beira de um rio largo que, quando eu passo, se encontra seco. Vou acompanhando este rio até Conímbriga. A vegetação é muito variada: serpão, hortelã brava, salsaparrilha...

Perto de Conímbriga atravesso uma ponte transformada em charco profundo: enterro as botas até ao cimo. Chego a recear que a lama entre por cima – afinal: não! Foi por pouco.

O trajecto de hoje confirmou que vale a pena trazer estas botas pesadas mas impermeáveis e com uma sola antiderrapante. Se não as trouxesse teria, durante quase todo o dia, escorregado. Nunca tem graça partir ossos porém, por estes caminhos, longe de tudo, ainda muito menos.

O museu estava fechado; continuei para Condeixa. Procurei os bombeiros. Os quais não recebem peregrinos. Pois: não é uma obrigação. Indicaram-me uma pensão malcheirosa. Não me senti com ânimo para lá dormir. Nem para procurar a outra que me garantiram ser melhor. (Na verdade: não me apetece pernoitar nesta terra.) Inquiro onde é a rodoviária. Riem-se: não há rodoviária. Posso apanhar uma camioneta para Coimbra.

Vou então para Coimbra. E, como me parece estúpido voltar amanhã em sentido inverso na mesma camioneta para depois fazer a pé o trajecto para Coimbra, apanho o comboio. Regresso a Tomar. Mais vale resolver, por agora, as mazelas que me atormentam. (Desolei-me durante todo o dia por sofrer tanto numa paisagem tão bonita.)

Terei que retornar na próxima ocasião a Condeixa para prosseguir – a pé – na direcção de Coimbra. Será a décima etapa desta viagem.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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