Sábado, 3 de Julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra - 37

Manuela Degerine

Capítulo XXXVII

Décima etapa: de Condeixa a Coimbra

Atravesso Soure, passo os hipermercados, sigo em frente. Não gosto de caminhar à beira da estrada mas hoje é domingo, está na hora do almoço, há por isso pouco trânsito, os carros não me agridem – começa porém a doer-me um dedo do pé direito. Primeira bolha?

Chego por fim a Condeixa, encontro setas amarelas: as velhas amigas. O percurso do dia é confuso, com ziguezagues, subidas e descidas. Sinalização inconstante e, uma ou outra vez, até enganadora. Por exemplo, no caminho para Orelhudo, uma seta inclinada parece sugerir uma viragem à esquerda e o roteiro também é neste troço pouco explícito. Dois quilómetros e meio mais adiante, deixei de ver setas amarelas e a paisagem não coincide com o roteiro. Enganei-me, portanto, saí do Caminho. Pergunto a dois moradores, que me indicam a estrada para Cernache, teimo que prefiro a outra, menos frequentada, primeiro não percebem, depois admiram-se, acabam por indicar a direcção de onde venho. Volto atrás. Por acaso este percurso é agradável, atravesso pela segunda vez uma zona de produção agrícola, milho, couves, alfaces, favas, ervilhas, tudo verde e tenro. Vejo levadas de água transparente. É domingo, passo por muita gente sentada à porta de casa, a trabalhar, a ir e vir – alguns olham para mim, surpreendidos e desconfiados. Para onde vai aquela? De onde vem? O que quer? Para que serve a mochila? Porém, se pergunto o caminho, respondem amavelmente.



Chego ao ponto onde virei à esquerda, sigo desta vez em frente, encontro outras setas amarelas. Desconfio de uma segunda bolha: no pé esquerdo. E a mochila parece-me cada vez mais pesada. Doem-me os pés. Doem-me as costas. Sinto calor.

Pergunto a um homem, sentado à porta de casa, se me pode encher a garrafa de água. Ele levanta-se. Noto que sofreu um AVC e se equilibra com grande dificuldade, apoiado na bengala, agarrado à porta, desculpo-me pelo incómodo, ele responde que precisa de se mexer, faz o esforço de caminhar, abrir a porta, encher a garrafa. Agradeço, comovida.

E medito sobre as dificuldades. Para tantas pessoas o simples movimento de se levantarem da cadeira da exige mais força de vontade do que para mim este alegre caminhar durante trinta quilómetros. Cumpre-me aproveitar agora a felicidade – efémera, sempre – de ter saúde. (Com esta liberdade, este ar, esta temperatura, este campo florido, não é necessário um desmesurado esforço de imaginação para eu notar que viver sabe bem.)

Passo por moinhos e cascatas. Avisto manchas de papoulas a pairar no verde e, em todos os quintais, uma profusão de flores, arbustos e trepadeiras. Parece-me ver rosas de todas as variedades. As hortas têm couves, favas e ervilhas. Os limoeiros e laranjeiras estão carregados de frutos. Sinto, quando passo, perfumes intensos ou delicados: o campo, como as aldeias, cheira bem.

Entre Pousada e Assafarge o caminho passa por mais uma zona de campo colorido e perfumado, com rosmaninho, pascoinha, madressilva, cisto, diversas orquídeas e inúmeras flores para mim desconhecidas. Por exemplo estas manchas de azul... Serão miosótis? Delicio-me também com a toponímia: entro (por exemplo) na freguesia de Antanhol.

Entre Assafarge e Cruz de Morouços multiplicam-se as subidas, descidas, viragens, devia atravessar a auto-estrada por cima, atravesso por baixo, seguindo as setas amarelas, que não concordam com o roteiro, entro numa zona caótica, sigo por uma estrada paralela ao caminho descrito, que não sei como é nem onde está, eu vejo-me mal nesta berma estreita, com carros demasiado frequentes a passar demasiado perto e demasiado depressa – o que demasiadas vezes me assusta. Não é agradável nem bonito nem seguro. De repente: até as setas eu perco. Tenho sede, tenho calor, doem-me os pés, doem-me as costas. E agora perdi-me.

Vou e venho. Houve obras, que decerto alteraram o traçado das estradas, falta sinalização ou então não a vi; o que também é provável. Como as setas tanto podem estar à esquerda como à direita, com ritmo irregular, num poste, na beira do passeio, no alcatrão da estrada, numa pedra, é possível falhar alguma – às vezes, essencial. Por isso trago o roteiro, que completa a sinalização. Quando o roteiro não coincide com a sinalização, sigo contudo a sinalização, pois o roteiro é de 2006 e os caminhos podem entretanto ter sido modificados. No entanto a sinalização também é quase sempre insuficiente e, quando há alterações recentes no traçado das estradas ou caminhos, não foi actualizada. Por consequência: várias vezes me tenho visto nesta aflição.

Chego a tocar à campainha de uma casa. Pergunto pela Cruz de Morouços de que o roteiro fala. Fica daquele lado, lá para cima. Subir era voltar atrás: continuo pela beira da estrada. Viadutos em construção, poeira e máquinas. Felizmente é domingo... Durante a semana caminhar por aqui equivale a um suicídio. Claro que continua a não haver sinalização, nem de Santiago nem aliás de nada, uma única referência me orienta quanto à direcção: avisto Coimbra lá em baixo. Mas... como é que, a pé, consigo lá chegar? Por cima ou por baixo, à esquerda ou à direita? Vou, mesmo assim, por acaso ou intuição, fazendo opções correctas.

À entrada de Coimbra, toco a outra porta, dou com uma disléxica, em vez de direita, diz esquerda, felizmente duzentos metros mais adiante, encontro uma rapariga, a qual, com rigor e simpatia, me explica o trajecto até à travessia do Mondego – aliás pouco antes do observatório astronómico volto a encontrar a sinalização de Santiago. Uf! Por fim.

Chego ao Convento de Santa Clara-a-Nova depois das oito horas: o sol poente doura a cidade. Uma vista magnífica. Paro para admirar.

Desço a calçada, passo por um edifício de estilo Arte Nova, sigo até à ponte. Sinto-me exausta: não me sentei desde que saí da estação de Soure. E, com as idas e vindas, não terei caminhado muito menos de quarenta quilómetros.

Atravesso o Mondego.

Fim de etapa.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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Sábado, 19 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine


Capítulo XXIV

No Caminho de Santiago

O leitor terá sem dúvida inquirido por que carga de água teimo em pernoitar nos bombeiros voluntários. Bem... Chegou o momento de reflectirmos sobre o assunto. Para além de os quartéis de bombeiros voluntários serem os lugares mais aprazíveis deste país, pela energia e humanidade que lá encontramos, eu quero fazer esta viagem, o mais possível, na pele do peregrino de base. Isto é: do peregrino que vem da França ou da Alemanha ou da Inglaterra para fazer a pé o Caminho entre Lisboa e Santiago de Compostela. (Por que razões, pouco importa, são subtilezas sobre as quais o próprio peregrino, mesmo com boa vontade, não saberá sempre responder; em cada caminhante há um caminho interior distinto de todos os outros.) Por enquanto poucos portugueses se interessam por esta aventura, haverá porém cada vez mais, não por a fé crescer, mas porque no futuro caminharemos mais: a caminhada equilibra a nossa vida citadina. Os portugueses, que o regime manteve até 1974 separados do mundo, situam-se ainda na fase que os outros europeus viveram entre a segunda guerra mundial e os anos setenta: a adoração, não do vitelo de ouro, mas do automóvel. Isto mudará aqui como tem mudado nos outros países. Lenta mas seguramente. Haverá, mesmo em Portugal, por incrível que pareça, mais passeios, mais zonas pedonais e mais percursos pedestres. A vida que os citadinos aguentam na região de Lisboa não é tolerável – cumpre mudá-la.

Por conseguinte é urgente todos os lugares situados neste percurso de Santiago perceberem o que isto representa do ponto de vista económico – não só, claro, mas também. Pode parecer à primeira vista que um peregrino não gasta nada: caminha e pede albergue, não é? No entanto, quando eu preparava esta aventura, li vários blogs sobre o assunto e dei-me conta de que, em média, cada peregrino prevê um orçamento à volta dos trinta e cinco euros por dia, que há-de ser gasto em refeições, farmácia e imprevistos. Mil euros por mês. Consoante as circunstâncias, os dias e os lugares, gastará mais ou menos, dentro deste orçamento. Vai à mercearia, vai ao café, vai ao restaurante, vai à farmácia, vai ao médico, vai aos bancos... Multiplicado por muitos milhares, como nos percursos francês e espanhol, que perceberam há decénios as vantagens desta situação, torna-se um importante factor de desenvolvimento para aquelas regiões. E, depois de ter passado a pé, o caminhante volta de carro com a família ou os amigos, para visitar o que não teve o tempo ou a força de ver a pé, recomenda os cafés e restaurantes a outros compatriotas, que farão ou não a viagem a pé... A Espanha compreendeu isto há mais de 20 anos e investiu em refúgios onde um certo número de peregrinos pode pernoitar gratuitamente. Resultado: tem agora tantos milhares de caminhantes, uns modestos, os outros menos, estes dinamizam o turismo rural, são acompanhados por carrinhas, que lhes transportam as bagagens, frequentam os restaurantes gastronómicos, criam empregos em zonas que, sem esta actividade, não os teriam. Eu, em Portugal, de Lisboa a Condeixa, passei por uma única terra que compreendeu o interesse desta posição estratégica e investiu de maneira inteligente no Caminho de Santiago: em sinalização, em placas, no aspecto atractivo da terra. Uma autarquia inteligente – parece haver tão poucas. Situa-se entre o Rabaçal e Condeixa; chama-se Fonte Coberta.

Claro que os bombeiros, em algumas terras, por caridade e humanidade, acolhem os peregrinos; mas os bombeiros têm mais que fazer. Já se lhes pede tanto do que, em tantas circunstâncias, devia ser garantido pelo Estado...

No Caminho português há cidades como Santarém ou Condeixa que ainda não perceberam nada disto. O caso de Santarém é distinto; porém Condeixa que, pela proximidade de Coimbra, não consegue beneficiar do turismo que Conímbriga atrai, podia aproveitar esta passagem dos caminhantes, que não seguem no mesmo dia para Coimbra: já caminharam trinta quilómetros, reservam os vinte que faltam para o dia seguinte. A existência de um refúgio com capacidade para acolher gratuitamente alguns peregrinos não custa uma fortuna e pode revelar-se, como em Espanha, um factor de crescimento; há muitas terras espanholas que vivem quase exclusivamente do Caminho de Santiago.

Em Portugal, com um percurso potencialmente tão atraente, pela beleza das paisagens, pelo simples facto de haver menos gente e menos confusão do que no Caminho Francês, é pena faltar a vontade de o valorizar – estabelecendo percursos acessíveis e bem sinalizados, criando também, como em Espanha, refúgios onde são alojados os primeiros peregrinos que cada tarde chegam; os outros vão para as pensões. Um investimento modesto.

Importa fazê-lo.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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