Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Um Discurso Sobre as Ciências (11) - Boaventura de Sousa Santos

 

Boaventura de Sousa Santos  Um Discurso Sobre as Ciências (11)

 

 

 

(Continuação)

 

A antropologia, entre a descolonização do pós-guerra e a guerra do Vietname, e a sociologia, a partir do final dos anos sessenta, foram levadas a questionar este status quo metodológico e as noções de distância social em que ele assentava. De repente, os selvagens foram vistos dentro de nós, nas nossas sociedades, e a sociologia passou a utilizar com mais intensidade métodos anteriormente quase monopolizados pela antropologia (a observação participante), ao mesmo tempo que nesta última os objectos passavam a ser concidadãos, membros de pleno direito da Organização das Nações Unidas, e tinham de ser estudados segundo métodos sociológicos. As vibrações destes movimentos na distinção sujeito/objecto nas ciências sociais vieram a explodir no período pós-estruturalista.

 

No domínio das ciências físico-naturais, o regresso do sujeito fora já anunciado pela mecânica quântica ao demonstrar que o acto de conhecimento e o produto do conhecimento eram inseparáveis. Os avanços da microfísica, da astrofísica e da biologia das últimas décadas restituíram à natureza as propriedades de que a ciência moderna a expropriara. O aprofundamento do conhecimento conduzido segundo a matriz materialista veio a desembocar num conhecimento idealista. A nova dignidade da natureza mais se consolidou quando se verificou que o desenvolvimento tecnológico desordenado nos tinha separado da natureza em vez de nos unir a ela e que a exploração da natureza tinha sido o veículo da exploração do homem. O desconforto que a distinção sujeito/objecto sempre tinha provocado nas ciências sociais propagava-se assim às ciências naturais. O sujeito regressava na veste do objecto. Aliás, os conceitos de “menteimanente”, “mente mais ampla” e “mente colectiva” de Bateson e outros constituem notícias dispersas de que o outro foragido da ciência moderna, Deus, pode estar em vias de regressar.Regressará transfigurado, sem nada de divino senão o nosso desejo de harmonia e comunhão com tudo o que nos rodeia e que, vemos agora, é o mais íntimo de nós. Uma nova gnose está em gestação.

 

Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios.

 

A consagração da ciência moderna nestes últimos quatrocentos anos naturalizou a explicação do real, a ponto de não o podermos conceber senão nos termos por ela propostos. Sem as categorias de espaço, tempo, matéria e número – as metáforas cardeais da física moderna, segundo RogerJones – sentimo-nos incapazes de pensar, mesmo sendo já hoje capazes de as pensarmos como categorias convencionais, arbitrárias, metafóricas. Este processo de naturalização foi lento e, no início, os protagonistas da revolução científica tiveram a noção clara que a prova íntima das suas convicções pessoais precedia e dava coerência às provas externas que desenvolviam.

 

Descartes    mostra melhor que ninguém o carácter autobiográfico da ciência. Diz, no Discurso do Método: “Gostaria de mostrar, neste Discurso, que caminhos segui; e de nele representar a minha vida como, num quadro, para que cada qual a possa julgar, e para que, sabedor das opiniões que sobre ele foram expendidas, um novo meio de me instruir se venha juntar àqueles de que costumo servir-me. Hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas trajectórias de vida pessoais e colectivas (enquanto comunidades científicas) e os valores, as crenças e os prejuízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento, sem o qual as nossas investigações laboratoriais ou de arquivo, os nossos cálculos ou os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos não-ditos dos nossos trabalhos científicos.

 

No paradigma emergente, o carácter autobiográfico e auto-referenciável da ciência é plenamente assumido. A ciência moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alargou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobrevivência. Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos. A incerteza do conhecimento, que a ciência moderna sempre viu como limitação técnica destinada a sucessivas superações, transforma-se na chave do entendimento de um mundo que mais do que controlado tem de ser contemplado. Não se trata do espanto medieval perante uma realidade hostil possuída do sopro da divindade, mas antes da prudência perante um mundo que, apesar de domesticado, nos mostra cada dia a precaridade do sentido da nossa vida por mais segura que esteja ao nível da sobrevivência. A ciência do paradigma emergente é mais contemplativa do que activa. A qualidade do conhecimento afere-se menos pelo que ele controla ou faz funcionar no mundo exterior do que pela satisfação pessoal que dá a quem a ele acede e o partilha.

 

(Continua)

 

 

publicado por Carlos Loures às 19:00

editado por Augusta Clara em 06/07/2011 às 18:25
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Um Discurso sobre as Ciências (4) - Boaventura de Sousa Santos

 

Boaventura de Sousa Santos  Um Discurso Sobre As Ciências (4)

 

 

 

(Continuação)

 

O rigor científico afere-se pelo rigor das medições. As qualidades intrínsecas do objecto são, por assim dizer,desqualificadas e em seu lugar passam a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que não é quantificável é cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o método científico assenta na redução da complexidade. O mundo é complicado e a mente humana não o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou. Já em Descartes uma dasregras do Método consiste precisamente em “dividir cada uma das dificuldades...em tantas parcelas quanto for possível e requerido para melhor as resolver"(11). A divisão primordial é a que distingue entre “condições iniciais” e “leis da natureza”. As condições iniciais são o reino da complicação, do acidente e onde é necessário seleccionar as que estabelecem as condições relevantes dos factos a observar; as leis da natureza são o reino da simplicidade e da regularidade onde é possível observar e medir com rigor. Esta distinção entre condições iniciais e leis da natureza nada tem de “natural”. Como bem observa Eugene Wigner, é mesmo completamente arbitrária(12). No entanto, é nela que assenta toda a ciência moderna.

 

A natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras  metodológicas já referidas. É um conhecimento causal que aspira a formulação de leis, à luz de regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenómenos. A descoberta das leis da natureza assenta, por um lado, e como já se referiu, no isolamento das condições iniciais relevantes (por exemplo, no caso da queda dos corpos, a posição inicial e a velocidade do corpo em queda) e, por outro lado, no pressuposto de que o resultado se produzirá independentemente do lugar e do tempo em que se realizarem as condições iniciais. Por outras palavras, a descoberta das leis da natureza assenta no princípio de que a posição absoluta e o tempo absoluto nunca são condições iniciais relevantes. Este princípio é, segundo Wigner, o mais importante teorema da invariância na física clássica(13).

 

As leis, enquanto categorias de inteligibilidade, repousam num conceito de causalidade escolhido, não arbitrariamente, entre os oferecidos pela física aristotélica. Aristóteles distingue quatro tipos de causa: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. As leis da ciência moderna são um tipo de causa formal que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas. É por esta via que o conhecimento científico rompe com o conhecimento do senso comum que, enquanto no senso comum, e portanto no conhecimento prático em que ele se traduz, a causa e a intenção convivem sem problemas, na ciência a determinação da causa formal obtém-se com a expulsão da intenção. É este tipo de causa formal que permite prever e, portanto, intervir no real e que, em última instância, permite à ciência moderna responder à pergunta sobre os fundamentos do seu rigor e da sua verdade com o elenco dos seus êxitos na manipulação e na transformação do real.

 

Um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a ideia de ordem e de estabilidade do mundo, a ideia de que o passado se repete no futuro. Segundo a mecânica newtoniana, o
mundo da matéria é uma  máquina cujas operações se podem determinar exactamente por meio de leis físicas e atemáticas, um mundo estático e eterno a flutuar num espaço vazio, um mundo que o racionalismo cartesiano torna cognoscível por via da sua decomposição nos elementos que o constituem. Esta ideia do mundo-máquina é de tal modo poderosa que se vai transformar na grande hipótese universal da época moderna, o  mecanicismo. Pode parecer surpreendente e até paradoxal que uma forma de conhecimento, assente numa tal visão do mundo, tenha vindo a constituir um dos pilares da ideia de progresso que ganha corpo no pensamento europeu a partir do século XVIII e que é o grande sinal intelectual da ascensão da burguesia(14). Mas a verdade é que a ordem e a estabilidade do mundo são a pré-condição da transformação tecnológica do real.

 

11 Descartes, ob. cit..
p. 17.

12 E. Wigner, Symmetries and
Reflections. Scientific Essays. Cambridge, Cambridge University Press,
1970, p. 3.

13 E. Wigner, ob. cit.. p. 226.

14 Cfr., entre muitos, S. Pollard, The
Idea of Progress. Londres, Penguin,
1971, p. 39.


  
 (Continua) 

publicado por Carlos Loures às 19:00

editado por Augusta Clara em 29/06/2011 às 17:39
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM PORTUGAL, de Joaquim Pintassilgo, Maria João Mogarro e Raquel Pereira Henriques

No âmbito do Colóquio “A Profissão e a Formação: entre a Ciência e a Arte de Ensinar” Local: Anfiteatro do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (Alameda da Universidade) Data e hora: 21 Janeiro de 2011 (sexta-feira), cerca das 19h00

 

publicado por Carlos Loures às 17:00

editado por Luis Moreira às 17:26
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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

A minha amiga da onça - ll - Adão cruz



 

 


 

Coordenação de Augusta Clara de Matos

 


 

 

continuação...

 

Tenho conversado muito com os meus amigos Jean-Pierre Changeux, Thomas Insel e António Damásio grandes cientistas das novas interrogações. Também Jean-Pierre se apaixonou pela arte, também ele caiu nas suas mãos traiçoeiras. Mas não se meteu propriamente com ela, foi mais esperto. Não se deixou levar pela tentação do seu corpo nem pelo calor das suas tintas, não tentou penetrá-la e possuí-la de forma séria, profunda e infinita, agarrando-a pelo sexo numa cumplicidade de tragédia. Deixou-se embevecer e atrair pela sua beleza, é certo, mas dentro de uma espécie de amor platónico, não ousando tocá-la, talvez por imposição profissional, talvez por medo, talvez por pudor. Daí o ter-se preocupado, essencialmente, com a razão estética e com a força ontológica da criação. Provavelmente, por isso, nunca lhe fora apresentada a amiga frustração, tendo-se livrado, assim, quem sabe, do valente frete que constitui a obscura consciência da inferioridade e da falsamente compensadora necessidade de uma indignada afirmação de si próprio.

 

Conhecendo o enigma do artista, sabendo que a criação artística permanecera sempre um mistério dentro de uma atmosfera de magia, bom observador das duas perspectivas, psicológica e sociológica da arte, apercebeu-se que as neurociências e a psicologia cognitiva há muito começaram a contribuir para a reequacionamento desse mesmo mistério. Aventurou-se pelo complexo mundo do processo criativo, tentando responder às questões simples que a minha amiga da onça desconhece, mas que logo usaria se as conhecesse, como jóias e enfeites para as suas maliciosas conquistas e para satisfação da sua insaciável vaidade:

- O que se passa no cérebro do artista quando cria?

- Que mecanismos regem a actividade cerebral no momento em que se contempla uma pintura?

- De onde surge a estranha e poderosa emoção que é o prazer estético?

 

 

publicado por Luis Moreira às 14:00
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