Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Catarse e Catar-se

Carlos Loures

Catarse, substantivo feminino, é a expulsão daquilo que, sendo estranho à essência ou à natureza de um ser, o corrompe. É um processo de purificação. Embora não pareça, catar, o verbo transitivo, na sua forma reflexiva catar-se, tem um significado muito semelhante, embora mais popular. Enquanto catarse nos remete para o classicismo grego, para o orfismo, o pitagorismo, o platonismo ou para acepções mais técnicas, do foro da psiquiatria, o verbo catar, menos clássico, mais democrático, lembra-nos mães, às portas de suas casas em bairros pobres espiolhando os filhos ou, numa versão mais National Geographic, chimpanzés catando-se mutuamente (porque os sais que extraem das pelagens fazem falta à sua dieta - não sei se isto é verdade. A Dra. Jane Goodall, grande especialista no estudo da espécie, não o confirma).

O blogue é uma forma moderna de catarse. Moderna e barata, pois os psiquiatras não cobram pouco… É também uma forma de cada bloguista se catar, limpando-se de obsessões, ou de os bloguistas se catarem mutuamente, extraindo uns dos outros os sais necessários ao seu equilíbrio emocional. Catarse = catar-se. O português não é uma língua traiçoeira – é como um cão fiel e bonacheirão - desde que tratada com respeito, não nos morde. Mas voltemos aos blogues, esquecendo a sua função catártica e voltando-nos agora para a sua vocação comunicacional.

Numa entrevista dada no Brasil em 2009, um entrevistador perguntou a José Saramago se acreditava que a organização das pessoas em rede, permitida pela explosão dos blogues, poderia ser um motor para a mudança social no futuro. Ao que o escritor respondeu: «Eu tenho umas quantas dúvidas. Quando aparece um caso como o da Internet, com a potencialidade que apresenta de comunicação, de troca de ideias, as pessoas falam de revolução pela Internet, mas no fundo somos ingénuos e vamos continuar a ser, aconteça o que acontecer. Não sei como essa revolução se daria. A Internet daqui a dez anos talvez não seja o que é. Nós estamos livremente na rede, não sei se em dez anos essa liberdade será permitida. E mesmo que isso não aconteça, há uma questão central: quem é que está no poder? Estamos nas mãos do poder e, portanto, é-nos praticamente impossível propor uma alternativa económica, sem uma alternativa política e social. Podemos organizar-nos em rede e fazer uma manifestação nas ruas, mas no dia seguinte acaba. Porque os meios de comunicação podem simplesmente decidir não falar dela. E se não falam dela, a manifestação não existiu e acabou». Grande verdade – hoje em dia, o que não é relatado pela comunicação social, é como se não existisse.

Bem, a liberdade da blogosfera ameaçada pelo poder, é um cenário verosímil. Mas há outras ameaças. Quando se abriram as primeiras estradas, depressa nelas apareceram salteadores. Quando se iniciaram as rotas marítimas, a pirataria não se fez esperar. As rotas aéreas também não são imunes à pirataria. A blogosfera, rede de caminhos entre milhões de pessoas, é também apetecível para flibusteiros especializados. Quem é que vai impedir a catarse? Quem é que vai impedir os bloguistas de catar-se mutuamente? O poder? Os piratas? Há um terceiro cenário plausível – a ilimitada liberdade da blogosfera pode transformar-se num elemento de auto dissolvência, desencadeando uma implosão.

O mais provável ainda é uma catadupa de novas tecnologias tornar esta obsoleta e daqui por umas dezenas de anos esta catarse, terapia ocupacional, actividade dos tempos livres, ser objecto da ironia dos nossos sucessores. Porque a natureza humana não muda, a tontice que hoje nos faz rir das modas de há cem ou cinquenta anos, levará qualquer idiota a ridicularizar os blogues, com a mesma desfaçatez com que hoje nos rimos quando vemos dançar o charlston. Ora vejam.

Passaram só noventa anos.

publicado por Carlos Loures às 12:00
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