Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Agatha Christie (1890-1976) - por Carlos Loures

 

Carlos Loures

 

Agatha Christie morreu em 12 de janeiro de 1976, aos 85 anos de idade. Faz hoje 35 anos. A propósito de efeméride semelhante, há dois dias falei aqui de Dashiel Hammett e dizia que ele veio impor um novo paradigma de detective privado. Referia o exemplo de Agatha Christie com o seu Hércule Poirot e a sua Miss Marple – detectives perspicazes, que vão registando pequenos pormenores (que a autora sempre facultou aos leitores) e, geralmente no último capítulo, tudo desvendam deixando-nos de boca aberta, pois o assassino é sempre a menos suspeita das personagens. Quem leu esse texto que aqui publiquei, sabe que a minha preferência vai para os detectives como Sam Spade, Philip Marlowe, Pepe Carvalho … Vão acumulando equívocos e é de equívoco em equívoco que chegam à conclusão final. São homens comuns, sem as celulazinhas cinzentas de Poirot…

Aliás, Hammett, Chandler ou Vázquez Montalbán, não construíam os seus livros com base na engenhosidade do mistério – podemos logo na primeira página saber quem é o criminoso, sem que isso retire um grama de  interesse ao romance. São dois tipos de romance policial diferentes – o de Agatha Christie arquitectado de forma clássica, na linha de Conan Doyle – Hércule Poirot é um Sherlock Holmes do século XX com um toque de exotismo – por ser um belga – o Dr, Watson, o palhaço pobre da dupla, é substituído pelo capitão Arthur Hastings.

De notar que, comparando datas, Agatha Christie foi contemporânea de Dashiel Hammett e de Raymond Chandler, tendo-lhes sobrevivido. Não se pode falar de épocas diferentes, mas de opções diferentes – a escritora inglesa optou por seguir a linha sherlockiana. Fê-lo de uma forma magistral e com um êxito fabuloso – nas diferentes línguas em que os seus 80 livros foram publicados, o número de cópias atinge os quatro mil milhões de exemplares. Este número apenas é ultrapassado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Quando digo que prefiro Sam Spade, Marlowe ou Pepe Carvalho a Hércule Poirot, não significa tal preferência que não leia e releia os livros de Christie. Anos atrás, no El Corte Inglés de Badajoz, onde parei vindo de Madrid, comprei uma edição encadernada das obras completas – os 80 romances em 27 volumes compactos, volumosos, digamos. E não descansei enquanto não os li de enfiada, embora quase todos os tivesse já lido na Colecção Vampiro.

Tinha trinta anos quando conseguiu publicar seu livro de estreia, O Misterioso caso de Styles ( The Mysterious Affair at Styles,1921). 55 anos depois escreveu o último Cai o pano (Curtain). Pelo meio ficam dezenas de obras-primas. Entre esses 78 romances do meio,  há dois que prefiro – Morte no Nilo (Death on the Nile ,1937) e O Crime no Expresso Oriente. ( Murder on the Orient Express, 1934) Numa viagem ao Egipto fiz um cruzeiro tendo oportunidade de percorrer os cenários do livro e do filme que em 1978 - Morte no Nilo, realizado por John Guillermin com Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow e Bette Davis. Recordemos esse filme e, sobretudo, o livro.

 

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira em 11/01/2011 às 21:24
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Domingo, 26 de Setembro de 2010

A Marlowe, entre espirros

Carla Romualdo

Confesso-vos esta fraqueza. Ao primeiro arrepio, quando se sente o corpo subitamente exausto e dolorido, no momento em que começamos a sentir-nos tomados pela auto-comiseração, eu afundo no sofá e deito mão a Chandler. Ou a Hammet, embora prefira o primeiro.

No isolamento da gripe gosto particularmente da
companhia do detective Philip Marlowe. Solitário, endurecido pelo muito que viu mas não o suficiente para não se condoer da condição humana, Marlowe acompanha as minhas convalescenças com o seu sarcasmo. Quando me preparo para tomar o paracetamol, não me atrevo a esboçar uma expressão de sofrimento. Marlowe passa-me o comprimido e lança-me à cara, sem me dar tempo a gaguejar uma resposta:

- Escute, vou dar-lhe aquilo de que precisa. Não sou uma pessoa crédula, que acredite em qualquer história. De maneira que aceite o que lhe é oferecido e porte-se bem. Quero ver-me livre de si porque tenho um mau pressentimento.

Estremeço, tomo o comprimido sem pestanejar, sorvo mais um gole de chá e aconchego a mantinha. Na doença, ainda que banal como esta, encontro um inexplicável conforto nos cenários decadentes do policial negro. Mulheres fatais, homens destruídos pelo álcool, ricaças ninfómanas, corpos que aparecem a boiar numa piscina… este cocktail insólito funciona melhor do que qualquer panaceia de farmácia.

Se falta o livro, um filme pode fazer um efeito semelhante, embora com resultados mais lentos. O “film noir” dos anos quarenta e cinquenta, com os insuperáveis Bogart e Bacall, ajuda sempre, mas quando os sintomas da gripe se intensificam dificilmente consigo acompanhar um filme. Prefiro ler um livro num estado febril, ir caindo no interior de uma história meio lida e meio delirada, adormecer sobre as páginas e sonhar que, num bar esconso, não muito longe de Sunset Boulevard, à hora do crepúsculo, quando as sombras se adensam, sento-me ao lado de Marlowe e começo a ouvir a sua história.

- A primeira vez que vi Terry Lennox ele estava bebêdo, dentro de um Rolls-Royce Silver Wraith, à porta da esplanada do The Dancers…

Espirro, deliciada, encolho-me um pouco mais, aproximo a caixa dos lenços, e bendigo a sorte que me constipou.

Digam lá se não ficaram com saudades de um desses filmes negros, que há muito foram empurrados para fora da programação dos canais generalistas de televisão em Portugal?
Então espreitemos "The Maltese Falcon" (1941), de John Huston, adaptação do romance homónimo de Dashiell Hammett, que em Portugal se chamou "Relíquia Macabra".
É um só um pedacinho, o que vamos ver, mas tem todos os ingredientes: o duro, mas nem por isso desprovido de romantismo, detective Sam Spade (Bogart, claro, quem havia de ser?), a "femme fatale" Mary Astor, e o tortuoso Peter Lorre, para mim um dos maiores actores secundários que Hollywood conheceu. Dizem os entendidos que este filme inaugurou a categoria de "film noir".



(Uma primeira versão deste texto foi publicada no blog Aventar)
publicado por CRomualdo às 19:30
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