Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

Carmina burana

Carlos Loures

Descíamos, conversando, a Rua do Alecrim em direcção ao Cais do Sodré. A ideia era apanharmos um eléctrico que nos levasse a Algés, onde, num quarto andar da Rua dos Combatentes, o Armando tinha um estúdio alugado. Ao fim da tarde dessa sexta-feira encontrara-nos, a mim e ao Nunes, numa mesa do piso inferior do Café Império – o Nunes lia o jornal da tarde e eu olhava fixamente uma folha de papel em branco, na esperança de ver surgir por magia qualquer ideia para um poema, um conto, alguma coisa que, por mais singela que fosse, justificasse aos meus olhos a passagem de mais um dia de uma vadiagem rotineira e desinteressante. Sentando-se e pedindo uma bica, convidara-nos, para à noite, irmos ao estúdio ouvir um disco novo que lhe tinham trazido do estrangeiro:


- Meus filhos, é uma coisa horripilante de tão maravilhosa. É de pôr os cabelos em pé! - disse, para nos despertar a curiosidade e estimular o interesse – Carmina Burana.

O Armando era um diletante, um cultor do bom gosto. Finalista de Engenharia, não tinha, como o Nunes e eu, inclinações artísticas, não pintava, não escrevia. A maneira como vivia, como concebia a vida, é que era, pelo menos na sua opinião, uma forma suprema de arte. «É tudo uma questão de estilo», costumava ele dizer repetidas vezes. E o seu estilo era sublimar as acções quotidianas mais vulgares e cinzentas e promovê-las à categoria de gestos puros e elevados. Por exemplo, o estúdio, ou ateliê, como às vezes também lhe chamava, era simplesmente um quarto alugado, um vulgaríssimo quarto independente ou (usando a expressão mais corrente e vulgar) de «pouca permanência». Porém, ai de nós se designássemos aquilo que não passava de um ninho de amor, para não dizer pior, pelo termo bastardo e aviltante de quarto. O Armando ia aos arames com esse tipo de vulgaridades. Levava ali uma ou outra colega do Técnico e, principalmente, senhoras casadas, divorciadas ou mesmo viúvas, prosaicamente engatadas na esplanada da Suíça, nos chás da Imperium ou mesmo por subtis aproximações de joelho (logo seguidas de reptilíneos jogos de mão) nas matinées do São Jorge ou do Tivoli.

Da Exposição Universal de Bruxelas, onde fora uns anos antes com os pais, trouxera um avultado stoque de maços de cigarros russos, umas coisas esquisitas e aparatosas, com caracteres cirílicos impressos a dourado e uns cilindros ocos de cartolina branca no sítio onde os nossos cigarros costumam ter o filtro. Em ocasiões importantes, isto é, quando queria impressionar algum amigo ou alguma conquista recente, ele, que habitualmente não fumava, ia buscar um desses cigarros, oferecia um à visita e fumava-o com o ar displicente de quem fuma um vulgar português suave. Outro truque era vestir um roupão de seda vermelha («Uma cabaia, como a que o conde de Arnoso ofereceu ao Eça», apressava-se ele a explicar) e umas pantufas marroquinas ou persas, umas babuchas, com as biqueiras reviradas para cima. O cenário fora também cuidadosamente estudado – o quarto era muito espaçoso e a cama estava travestida de sofá, com uma coberta e almofadas coloridas espalhadas por cima. Um biombo que o Nunes, a troco de umas refeições, lhe pintara com duvidosa inspiração nos Namban, camuflava um bidé, um lavatório e um enorme jarro de água. Eram objectos necessários, mas repugnantes na sua essência, e o Armando, embora pactuando com a sua presença, remetia-os para o buraco negro daquele canto onde a luz, filtrada por um abat-jour de vidro cor-de-rosa, não chegava. Durante o dia, uns cortinados quase sempre corridos mantinham uma conveniente claridade difusa. Havia ainda outro candeeiro de pé junto de uma mesa. E uma estante com alguns livros escolhidos, de preferência nos idiomas originais – coisas com peso e substância – Stendhal, Goethe, Shakespeare, William Blake, Baudelaire, Rimbaud, Walt Whitman, James Joyce, Pessoa… Note-se que Pessoa naquele início dos anos sessenta ainda não se transformara em produto de consumo generalizado. Eu era o seu conselheiro literário e por vezes ele arrastava-me consigo até aos alfarrabistas onde fazia aquisições ponderadas em que a qualidade elitista do conteúdo tinha sempre de se aliar à beleza estética da encadernação. Sabia de cor a Ode Marítima e gostava de a recitar deambulando pelo estúdio. Um diletante. A sua boa figura e um golpe das suas longas pestanas, conseguia mais e melhor das mulheres do que o Nunes pintando-lhes o retrato (desfigurador, por certo) ou do que eu dedicando-lhes mil poemas (cada um mais confuso do que o seguinte).

Explicou-nos por alto o que era Carmina Burana (o Nunes perguntara, levantando os olhos do jornal: «Carminda quê? Quem é essa gaja?»). Paciente e sempre didáctico, o Armando explicou. Significava em latim «Poemas de Beuren», pois o autor, Carl Orff, um compositor alemão contemporâneo, baseara a obra, um conjunto de canções profanas, numa colecção de poemas goliardescos dos séculos XII e XIII. Aqui, abriu um parêntesis, embora nós não tivéssemos manifestado qualquer dúvida: goliardescos quer dizer «feitos pelos goliardos», que eram estudantes e clérigos vagabundos, marginais de vida frívola e licenciosa. A poesia que faziam era escrita em latim ou numa linguagem mista de latim e francês, inglês ou alemão arcaicos. São poemas geralmente anónimos e Carmina Burana é uma das colecções mais importantes. A obra sinfónica fora composta em 1937, mas era ainda pouco conhecida em Portugal. Orff compusera depois, em 1943, outra obra, Catuli Carmina... O Armando deleitava-se a prestar estas informações de erudição pesada que, na maior parte dos casos, lera pouco antes numa enciclopédia ou em qualquer livro de divulgação. No entanto, dizia estas coisas com a fluência de quem sempre as soube, de quem as aprendeu no jardim-escola, tentando fazer-nos sentir culpados pela nossa ignorância. O Nunes, que abominava estas exibições e dissertações, arrotou para chatear o Armando e voltou à leitura do jornal.

Resolvemos comer ali qualquer coisa e fazer horas para irmos até ao estúdio para a tal sessão musical. Mesmo que a música fosse chata, como quase sempre acontecia, o bar bem fornecido ou uma discussão acalorada, ou talvez mesmo ambas as coisas, poderiam salvar uma noite que se adivinhava frouxa, a puxar perigosamente para o monótono. Uma noite outonal e já fria, talvez com chuva, e tão distante do princípio do mês que nos viera apanhar, a mim e ao Nunes – vagamente estudantes, vagamente artistas, muito mais vagamente ainda trabalhadores em modestos biscates de ocasião, numa atroz, ainda que habitual, penúria. Portanto, na falta de melhor programa, os cânticos profanos do tal impressionista alemão, acompanhados por uns cálices de brande ou mesmo (quem sabe?) por um ou outro uísque, seriam bem-vindos. Quando nos preparávamos para sair rumo a Algés, apareceu o Daniel com a Nelinha debaixo do braço.

O Daniel era um garoto muito magro, alto e esguio como um eucalipto, um estudante liceal que nos coubera em herança. O irmão mais velho, o Pereira, na festa de despedida que lhe tínhamos dedicado nas vésperas de embarcar para a Guiné, pedira-nos com a voz embargada pela comoção e pelo álcool (talvez a ordem inversa seja factualmente mais correcta): «Vocês, rapazes, tomem-me conta do puto. Não o deixem andar por maus caminhos.» O Daniel nessa festa – um jantar que começara calmamente na Trindade, prosseguira, já com menos tranquilidade e aprumo, na Cesária de Alcântara e fora morrer, em estrebuchar violento, no Ritz Club, da Rua da Glória – recebera, com requintes de prima tonsura, a sua alternativa como cavaleiro da noite, pois era a sua primeira festa a sério. Ouviu o pedido solene que o irmão nos fez e a nossa pronta e comovida aquiescência. Um militar que embarcava para a guerra era um morto potencial e a um moribundo nada se deve negar. Que fosse tranquilo, dissemos, o rapaz ficava por nossa conta. Esta resposta generosa e enfatizada pela bebida foi tomada muito à letra pelo nosso pupilo: nunca mais nos largou. Passámos a considerá-lo como mais uma fatalidade, algo a que não se pode fugir. Para cúmulo, apaixonara-se pela Nelinha, uma jovem pega com paragem habitual no Ritz Club. Conhecera-a nessa tal festa de despedida do irmão. Dado o ar insignificante da rapariga, nenhum de nós dera atenção às suas canhestras tentativas para nos fazer consumir bebidas e, assim, ficara toda para o Daniel, que, antes de sairmos, já o dia clareava, combinou com ela um encontro para essa tarde. E, deste modo, além do rapaz Daniel, tínhamos também de aturar a Nelinha, dezoito anos, um corpo franzino, um cabelo claro e deslavado, uns olhos tão tristes como a sua história, que era o relato penoso de um percurso rastejante entre uma barraca do Bairro da Boavista, a violação pelo padrasto e o olhar protector e vigilante do senhor Araújo, o gerente do Ritz Club.

Ao aperceber-se de que o Daniel e a Nelinha, que estava na sua noite de folga semanal, não nos iriam largar, o Armando quis dar o sarau sem efeito. Foi nessa altura que o Nunes deve ter tido a ideia de um programa alternativo, pois ele, que até aí se mostrara desinteressado, desatou a insistir em que fôssemos todos para o estúdio, que queria ouvir a tal peça musical. Tomámos o metro, descemos no Rossio e, subindo a Rua do Carmo e a Rua Garrett, fomo-nos encaminhando para o Cais do Sodré. Durante todo o percurso o Nunes foi a tentar convencer o Armando. A relutância do Armando em deixar que a Nelinha fosse ao seu estúdio tinha a ver sobretudo com o facto de os donos da casa serem um casal de velhotes, com uma sobrinha solteirona, gente muito conservadora e preconceituosa que já por duas ou três vezes lhe tinha feito observações veladas e subtis sobre algumas das suas visitas femininas. Para maior azar, o quarto da sobrinha ficava paredes-meias com o estúdio. E essa circunstância tinha graves repercussões na vida sexual do Armando, pois o acto do amor devia ser sempre ali praticado em silêncio, sem suspiros, sem gritos, sem rangidos da cama – o que o obrigava muitas vezes a tapar violentamente a boca à companheira. As mais fogosas e renitentes em aceitar esta disciplina, eram imediatamente riscadas da sua agenda. A mim e ao Nunes divertia-nos muito ouvir as suas descrições, em tom compungido e infeliz, destas odisseias. Descíamos, portanto, a Rua do Alecrim e eu deixara-me ficar para trás com o Daniel e a Nelinha, um pouco incomodado com a perspectiva de uma cena à porta do estúdio, em que o Armando se negasse a deixar entrar a rapariga. Ela era insípida e maçadora, sempre disposta a contar histórias sopeirais, mas de humilhação já tinha a sua conta, no passado e no presente. Nem ela nem o Daniel se tinham ainda apercebido das negras nuvens que se formavam no horizonte e vinham profundamente entretidos num jogo que consistia em a Nelinha dizer frases que deviam servir de temas a futuros poemas do rapaz (sabe-se lá porquê, ele decidira dias antes que iria ser poeta. E veio mesmo a ser poeta e dramaturgo. Hoje, decorridos todos estes anos, é o único de nós que é medianamente conhecido, com muitos livros publicados, algumas peças representadas, figurando mesmo em antologias). Quando, a instâncias do moço, dei finalmente atenção à Nelinha, ela repetiu a frase que dissera antes: «Ninguém ama ninguém.»

O Daniel estava entusiasmado: – Bestial, não achas? – perguntou-me, pois na sua opinião, eu era uma grande autoridade na matéria.

Sempre preocupado com o resultado do misterioso conciliábulo entre o Nunes e o Armando, respondi que a ideia não era má de todo, embora me fizesse lembrar o tema de uma cançãozeca brasileira. Além de não ser verdade. O amor existe. Ou não? O entusiasmo do Daniel esmoreceu perante o meu abalizado veredicto e a Nelinha avançou logo com outra frase igualmente péssima. Pareceu-me que lá para a frente as coisas se compunham. No entanto, ao ouvir o tom excitado com que o Nunes falava, rindo e gesticulando em demasia para o seu feitio sisudo, bisonho, comecei desde logo a temer mais a emenda do que o soneto. Da última vez em que ele decidira pregar uma partida ao garoto fora terrível. Foi durante um lanche que, numa tarde de sábado, no Verão, o Armando resolvera servir, não me lembro a que propósito. A ementa compunha-se de ostras, caviar e espumante e convidara alguns colegas do Técnico. Aliás, o lanche era dado em intenção desses seus amigos. Eu e o Nunes, tal como o biombo e as encadernações dos clássicos, fazíamos parte do cenário. Ou, talvez esta apreciação seja injusta, e nós fôssemos antes a pièce de résistance do repasto – os artistas. Devo dizer que às vezes até me comovia a sólida convicção com que o Armando acreditava no nosso valor artístico, nas pinturas gestualistas (para lhes dar alguma designação) do Nunes e nos meus escritos que, se bem me lembro, nessa altura eram confusamente inspirados por Lautréamont, Jarry e Rimbaud, com Marx e Sartre a intrometerem-se de esguelha e a contribuir para compor uma «filosofia lírica» que mais se assemelhava a uma zona de catástrofe. Do mesmo modo que o quarto independente era promovido a estúdio ou a ateliê, um pobre pinta-monos e um poetastro como os que então havia às manadas, pastando tédio e vadiagem, pelos cafés das cidades, eram elevados à categoria de génios. Voltando ao lanche, já com um grão na asa, deambulando pelo estúdio, o Nunes descobrira dentro de um pequeno estojo um alfinete de gravata com uma pérola de cultura. Desenroscando o espigão metálico, meteu a pérola dentro de uma das ostras que colocou depois no centro da travessa. E foi avisando todos, menos o Daniel, de que não deveríamos tirar aquela ostra. Claro que ela acabou por ser escolhida pelo rapaz. Ao abri-la, deu um grito:

– Ena, pá! Uma pérola!

Ninguém lhe ligou, fingimo-nos todos muito absorvidos pela conversa. A sua excitação ia subindo de tom à medida que, com a ostra na mão, a metia debaixo dos nossos olhos, ora de um ora de outro, sem conseguir abalar a nossa indiferença. Por fim, sem olhar para a ostra, o Nunes perguntou-lhe, com ar severo e distraído, porque é que estava a fazer tanta algazarra. Mandou-o calar. O rapaz esganiçava-se e exibia a sua descoberta, sem resultado. Todos o afastavam sem lhe dar resposta. Já desesperado, veio ter comigo. Não tive coragem de continuar com a brincadeira, chamei-lhe tanso, peguei na pérola e mostrei-lhe o buraco do alfinete. Segurou, por sua vez, na pequena esfera, examinou-a e quando ergueu os olhos vi que os tinha cheios de lágrimas. Todos, o Nunes, o Armando e os colegas, que estavam com uma atenção rapace na explicação que eu dera ao miúdo, deram uma gargalhada em coro. Não achei muita graça, mas depressa me esqueci do incidente. Amargurado com o que considerou ser uma traição nossa, os seus amigos, os seus tutores, sentou-se na cama e bebeu sozinho uma garrafa de espumante enquanto conversávamos. Foi a sua primeira bebedeira e ia tendo consequências trágicas, pois, de súbito, atravessou a sala direito à varanda, de onde se teria atirado sem hesitar se o Armando não tivesse chegado a tempo de o agarrar. No eléctrico, o Armando foi sempre sorumbático, respondendo por monossílabos a um Nunes estranhamente palavroso e entusiasmado. O Daniel e a Nelinha continuavam o seu jogo idiota e quando chegámos eu pensei se não seria melhor arranjar uma desculpa e voltar para trás. Porém, motivado pela inércia, pelo comodismo e por alguma fome, acabei por me meter no elevador.

À entrada do estúdio, quando o anfitrião acendeu as luzes, a Nelinha marcou vários pontos positivos a seu favor quando, de mãos postas, extasiada, exclamou:

– Que lindo!

E como quem percorre uma galeria ou a sala de um museu, deu uma respeitosa volta ao quarto, admirando tudo, com uma curiosidade simplória e infantil. Foi já com uma voz suave, amansada pelos elogios da rapariga, que o Armando fez a habitual recomendação para que não fizéssemos muito barulho.

Depois sentámo-nos, distribuindo-nos pela cama e por cadeiras. O Daniel e a Nelinha preferiram sentar-se em almofadas no chão, encostados à cama. O Armando serviu as bebidas e foi buscar o disco. Limpou-o lentamente numa liturgia estudada e colocou-o no gira-discos. Antes de o pôr a funcionar, apagou todas as luzes menos a do candeeiro de pé. A Nelinha seguia fascinada todo este ritual.

Durante cerca de uma hora ouvimos, intercaladas com as inevitáveis explicações do Armando, as vinte e tal canções que compõem a obra. A música, de uma estrutura rítmica muito repetitiva, transmitiu-nos a sensação de uma grande vitalidade, coincidindo com o que o Armando nos ia dizendo acerca do suporte poético – cânticos sobre o amor, o vinho, a natureza. Quando se extinguiram os últimos sons do coro O Fortuna, velut Luna, o dono da casa foi acender as luzes. O Nunes beberricava o seu brande, meditativo, ausente. O Daniel e a Nelinha tinham adormecido, ele com a cabeça no regaço dela, a rapariga com a cabeça para trás, apoiando a nuca na cama. O Armando perguntou:

– É terrível, não é?

O Nunes emitiu um grunhido, indeciso entre o arroto e o sinal de assentimento. Eu disse que sim, que era uma obra impressionante. Estava longe de saber que, no futuro, a iria ouvir centenas de vezes. O Armando, feliz por, desta vez, nós estarmos de acordo com ele, aproveitou para, no seu tom didáctico de sempre, nos dar mais algumas achegas sobre Carl Orff. Quando começou a abusar e se preparava para nos ler, em tradução livre do alemão, o longo texto da capa do disco, o Nunes saiu do seu mutismo e perguntou se não havia nada que se comesse. A verdade é que os efeitos paliativos dos bitoques e das imperiais que tínhamos ingerido no café começavam a desaparecer e aí estávamos nós à mercê de uma fome e de uma sede que os acordes violentos dos Carmina Burana, apelando ao sensualismo e à gula, só tinham feito aumentar. Ou fosse por as luzes terem sido acendidas ou por terem ouvido falar em comida, os dois jovens acordaram.

O anfitrião olhou o relógio. Eram já cerca de dez horas. Podíamos ir à rua e comprar comida e vinho ou cerveja, sugeriu. Ficámos calados. A mim, ao Nunes e ao Daniel, a ideia de comprarmos fosse o que fosse era extremamente antipática. A Nelinha foi a única que se manifestou, apoiando a sugestão. Percebendo logo o que se passava, o Armando disse que então íamos fazer compras, mas que ele é que pagava, éramos seus convidados. E voltou a recomendar que não fizéssemos barulho. Depois dos ribombos, dos chocalhos, dos coros gritados dos Carmina que, num volume de som apreciável, se devem ter derramado por todo o prédio, aquela recomendação era, no mínimo, bizarra. Perguntei o porquê daquela aparente contradição. Era muito simples, explicou: no seu acordo com os velhotes ficara estabelecido que até à meia-noite, ou mesmo até um pouco mais tarde, poderia organizar sessões musicais ou de poesia, debates sobre temas culturais, coisas assim. Por barulho, portanto, entendia-se o vozear avulso, as gargalhadas alarves resultantes de anedotas grosseiras e sem nível ou da influência do excesso de vinho e, sobretudo, o ranger suspeito da cama. Os ruídos dionisíacos, por assim dizer.

Esclarecida a pertinente dúvida e, principalmente, tendo em conta a louvável gentileza do Armando em nos oferecer uma ceia, procurámos atender escrupulosamente à recomendação do príncipe e foi com diáfanos pés de algodão, quase em absoluto silêncio, que saímos, fechámos a porta e nos metemos no elevador.

Numa leitaria prestes a encerrar, encontrámos tudo o que era preciso: pão, queijo, fiambre, vinho, cerveja. Espicaçado pelas tentativas que a Nelinha fazia para pagar toda a despesa ou, pelo menos, metade, o Armando foi comprando de tudo com uma abundância que os nossos estômagos iam agradecendo por antecipado. Azeitonas, paio, bolachas... Até um boião com fruta cristalizada ele comprou, vá lá saber-se com que ideia.

Voltámos para cima.

O Armando abriu a porta que comunicava com o resto da casa e meteu por

um comprido corredor mergulhado na escuridão, ao fundo do qual se

situava a casa de banho que, além do estúdio, era a única divisão da casa

que, nós os visitantes, conhecíamos. Ia ver se estava alguém acordado que

lhe emprestasse uma faca ou, caso tivessem saído, iria à cozinha e tiraria

uma, pedindo desculpa pelo abuso no dia seguinte.

Voltou pouco depois com a faca, com uma grande travessa e com um

pacote de manteiga. Os velhos e a sobrinha estavam na sala a ver televisão

e, ao saberem que o senhor engenheiro tinha visitas e que queria fazer

umas sandes, insistiram em que trouxesse tudo aquilo de que necessitasse,

a manteiga inclusive. E tinham acrescentado que a música não tinha

incomodado nada, até tinham gostado. Que estivesse à vontade, mesmo

que fosse até mais tarde. Tudo a correr sobre esferas, portanto.

Comemos com o apetite devorador do costume. Bebemos bem, mas havia vinho e cerveja suficientes para não nos sentirmos frustrados nesse aspecto. O único momento embaraçoso foi quando a Nelinha teve vontade de fazer chichi e o Armando se mostrou relutante em que ela fosse à casa de banho. Algum dos ocupantes da casa a podia ver e, enfim, não seria muito conveniente. O Armando não queria explicar qual era o verdadeiro problema, mas todos nós, a própria Nelinha, menos o Daniel, percebemos. O visual da nossa amiga, desde a mini-saia reduzida às botas altas e à pintura excessiva, indicava claramente a natureza da sua antiquíssima profissão. Naqueles anos era assim. Tomaram-se precauções. A Nelinha foi atrás do biombo lavar a cara e dar um toque ao penteado. Vestiu a

minha gabardina e todos demos a nossa aprovação – estava discreta,

não havia dúvidas. O Armando foi à frente acender-lhe as luzes e não

houve problemas.

Os problemas vieram depois.

Por esta altura, eu esquecera-me já das maquinações do Nunes no caminho entre o Império e o estúdio. Foi só quando, bebidas as garrafas de vinho e as cervejas compradas na leitaria, consumida a ceia, regressáramos já aos cálices e às bebidas do pequeno bar instalado num globo terrestre de aspecto coperniciano, ele arvorou o seu sorriso de Maquiavel em formato de bolso que voltei a ficar assustado. Quando disse «Tenho uma ideia», percebi que já não havia nada a fazer. A ideia era pôr a Nelinha a dançar ao som dos Carmina Burana. Soubéramos, porque ela nos dissera, que a sua maior ambição era um dia subir ao palco do «Ritz» nem que fosse para acompanhar um contorcionista ou para servir de partenaire a um dos prestidigitadores (ela dizia «mágico») que por ali passavam. Jogando com esse sonho espúrio, o Nunes depressa venceu a timidez da rapariga. O Armando dizia que sim, desde que o som do gira-discos não subisse tão alto como na primeira audição, pois agora já era mais tarde. O Nunes, com uma diligente actividade, como nunca lhe vira, tratou de tudo: arranjou um espaço no centro do quarto, enquanto a Nelinha foi novamente atrás do biombo para se voltar a maquilhar a preceito. Quando ela disse estar pronta, as luzes foram apagadas e só o centro ficou iluminado pelo foco do candeeiro de pé.

O Armando colocou o braço do gira-discos sobre a faixa de Tanz, «Dança», como se apressou solicitamente a informar. Aos primeiros acordes, a Nelinha emergiu do biombo arvorando um sorriso envergonhado no rosto horrivelmente pintado, quase sublime na sua desgraciosidade, como uma máscara de Rouault, acusando-nos de toda a miséria e degradação do mundo. Descalça, tentou equilibrar-se na ponta do pé esquerdo, elevando a perna direita e abrindo os braços numa patética imitação de um arabesque. O Daniel, que não parara ainda de beber, parecia gostar, sorrindo enlevado. O Nunes aplaudiu dizendo: «Foi um momento de rara beleza!» E o Armando comentou: «Uma autêntica Ulanova!» Sorriu na minha direcção, mas ao ver o meu ar desolado desviou os olhos e fingiu concentrar-se na actuação da bailarina. Esforçando-se por seguir o ritmo acelerado e agressivo da composição, a rapariga parecia agora uma galinha que, ameaçada por um gato, tentasse, em vão, levantar voo. Meti a cabeça entre as mãos, procurando poupar-me à crueldade grotesca da cena. Felizmente, o trecho era pequeno e quando chegou ao fim e escutei os aplausos do Nunes, sofreados pelos pedidos de moderação do Armando, julguei terminado o suplício.

Estava enganado.

O sadismo do Nunes tomara já o freio nos dentes. Depois de ter acendido todas as luzes levou a Nelinha para os bastidores, para detrás do biombo. Ouvimo-los discutir em voz segredada. A rapariga, que também já bebera demasiado para os seus hábitos (o senhor Araújo, nas noites de trabalho, fazia-a beber chá, que os clientes pagavam depois ao preço do uísque), ria-se muito e dizia que não às propostas. Ele insistia. Por fim, saiu sozinho e com um sorriso que pretendia ser diabólico foi à estante escolher um disco. Tirou um single que foi pôr no prato do gira-discos. Apagou todas as luzes e, colocando-se junto do aparelho e do candeeiro de pé, tentou dar à voz já toldada pelo álcool o tom triunfal de um régisseur de circo e disse num francês macarrónico: «Et maintenant, mesdames et messieurs, directement venue de l’Olympia de Paris, j’ai le plaisir et le privilège de vous présenter Mademoiselle Nelinha!» E, acendendo o foco do candeeiro, estendeu o braço na direcção do biombo. Com um salto, a rapariga entrou no reduzido círculo de luz onde estava, como único adereço, uma cadeira. O som rouco do saxofone do Fausto Papetti irrompeu com a Petite fleur. Procurando imitar os gestos ritmadamente sensuais das stripteasers do Ritz, a moça começou a bambolear-se ao som da música, estendendo os braços, agarrando as costas da cadeira, agitando as ancas. Despiu a blusa, depois a saia e sentando-se na cadeira esticou as pernas e tirou lentamente as meias. Pôs-se em pé e foi a vez de o sutiã voar para trás do biombo, deixando à vista dois seios quase infantis. Vindo dos lados do Daniel, ouvi um soluço de mau augúrio. Apesar dos protestos do Armando, o Nunes, que já nada o podia deter, subiu o volume do som para acompanhar a parte culminante do número – a queda das cuequinhas.

Parecendo tão ansiosa como eu por pôr fim à sessão, a rapariga despiu atabalhoadamente a última peça de roupa, quase tropeçando e caindo. Por momentos, o seu corpo pequeno e ossudo, com a mancha escura dos cabelos do púbis a surgir como uma ilha perdida no oceano de uma pele muito branca, apareceu sob a luz crua da lâmpada. Depois, no seu primeiro gesto piedoso da noite, o Nunes deixou a sala na escuridão. Ele bateu palmas e o Armando, fazendo-lhe sinal para não fazer barulho, disse em voz abafada e com pronúncia francesa: «Bravô!»

Ouvimos um grito e eu, que estava mais próximo do interruptor do candeeiro central, acendi a luz. Com um ar desvairado de animal perseguido, o Daniel estava de pé. Detrás do biombo, ainda completamente nua, reapareceu a Nelinha. O rapaz olhou na direcção da janela e eu gritei: «Cuidado com a varanda!» O Armando compreendeu a minha preocupação, deu um salto para a janela, abrindo os braços, como numa placagem do râguebi, para impedir, como da outra vez, a passagem do rapaz. Vendo a saída cortada por ali, o Daniel precipitou-se para a porta que dava para o interior da casa e, abrindo-a, mergulhou no corredor. Fomos todos no seu encalço. Numa sala, à esquerda, onde havia luz, ouvimos um grande rebuliço, gritos, exclamações de surpresa. Entrámos de roldão: a Nelinha, o Armando, eu e o Nunes. Deparou-se-nos uma cena diabólica: derrubando cadeiras à sua passagem, o Daniel entrara na sala onde os velhotes e a sobrinha viam o programa de televisão e fora abraçar-se, chorando convulsivamente, a um cão empalhado que estava sobre um aparador. Atónitos, os velhotes e a solteirona rodeavam o jovem. Quando aparecemos à porta, o foco da acção transferiu-se do Daniel e da múmia do cachorro para o nosso grupo, onde a nudez da Nelinha sobressaía gritantemente. Tentando salvar a situação, pus-me à frente da rapariga e disse-lhe entre dentes: «Desanda, pisga-te!» No grande silêncio, apenas interrompido pelos soluços espasmódicos do Daniel, ouvi os pés descalços da moça correndo pelo corredor de regresso ao estúdio. O Nunes, encostado à parede da entrada, olhava abismado, como um pirómano amador que, querendo apenas acender uma bicha-de-rabear, tivesse provocado uma explosão atómica: «C’um camandro!», disse em tom apreciativo, mas ninguém pareceu ouvi-lo. A solteirona caiu sobre o sofá com um princípio de desmaio. Acudindo-lhe, a velhota gemia, repetindo como num exorcismo: «Que vergonha! Que vergonha!» O velho, sentindo ameaçada a respeitabilidade do lar, fora buscar ao fundo dos tempos a atávica agressividade de um macho defendendo o território. Vermelho, à beira da apoplexia, tentando tornar imponente a sua fraca figura, desatou a berrar de forma descontrolada e incoerente. O Armando, em voz sumida, dizia frases entrecortadas, qualquer coisa como «Por amor de Deus, não é nada do que estão a pensar, foi apenas uma sessão de dança, a música de um compositor alemão, os meus amigos são artistas...»

Eu e o Nunes batemos em retirada.

No estúdio, sentados na cama, enquanto a Nelinha se vestia, o Nunes tentou justificar-se. Com vontade de o estrangular, mandei-o calar. Com os olhos lacrimejantes a rapariga veio sentar-se junto de nós. Lá dentro a berraria do velho continuava. Só ao fim de alguns minutos se fez silêncio. Pouco depois, amparando um Daniel quase desfalecido, apareceu o Armando. Fechou a porta, ajudou-nos e estender o rapaz sobre a cama e, prostrado, atirou-se para cima de um cadeirão. Disse:

– Fui posto na rua. Nunca, em toda a minha vida, tinha passado por uma vergonha tão grande.

– É para aprenderes a não te deixares levar por este Yago de pacotilha, por este filho de puta!

Assentiu com um ar acabrunhado. O arguido teve o bom senso de não dizer nada. Desolada e carinhosa, a Nelinha chorava abraçada à cabeça do jovem. O Nunes foi aos bastidores vomitar no bidé.

Pondo provisoriamente de parte os meus escrúpulos, aceitei que a Nelinha pagasse o táxi em que fomos levar o Daniel a casa, perto do Príncipe Real. Ela ficou cá em baixo e eu subi amparando o rapaz. Enfrentar os rostos acusatórios da mãe e do pai foi o último passo do calvário daquela noite. Tentei tranquilizá-los, dizendo que o rapaz não tinha nada de grave, só tinha bebido um pouco a mais. A mãe ainda disse entre dentes: «São as más companhias.» E o pai, rosnando um «obrigado» que mais pareceu um murro, fechou-me a porta na cara. Cá em baixo, vestindo a minha gabardina, a Nelinha esperava-me encolhida sob a entrada da porta, tentando furtar-se à chuva que começara a cair.

Acompanhei-a pelas ruas estreitas do breve percurso, até à porta da pensão em que morava, na Praça da Alegria. Falámos pouco pelo caminho. À porta, devolveu-me a gabardina. Por gentileza, perguntou-me se eu queria passar o resto da noite com ela. Agradeci e recusei, dizendo que estava muito cansado e que ia dormir a casa. Não insistiu.

Atravessando a Avenida da Liberdade e subindo a Rua do Telhal, fui atalhando caminho até ao meu quarto, na Almirante Reis. A chuva começou a cair com maior intensidade. «Ninguém ama ninguém», pensei, sentindo a água entrar-me pela gola erguida da gabardina.
publicado por Carlos Loures às 23:55
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