Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

Entrevista com Carlos Luna, activista da causa de Olivença

 

Alguns dados biográficos:

 

 

 

Carlos Eduardo da Cruz Luna, nasceu em 1956 em Lisboa, de forma perfeitamente acidental, como faz questão de salientar Oriundo de uma família de Estremoz, é nessa cidade alentejana onde vive e ensina. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é Professor de História, há 32 anos. No período que se seguiu à Revolução de Abril militou no MES.

 

Ao longo da sua vida, tem-se batido por causas que considera justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e entre essas causas privilegia a da restituição de Olivença a Portugal. É de sua autoria o livro "Nos Caminhos de Olivença".

 

Assumindo-se como um regionalista alentejano, visita quase semanalmente Olivença, onde tem muitos amigos e alguns não-amigos., acrescenta. Continua a estudar o território usurpado, apoiando iniciativas que visem a recuperação das antigas História e Língua.

 

 

Estrolabio – Como é possível o caso de Olivença ser tão ignorado em Portugal? Como é possível que os sucessivos governos do País, desde o princípio do século XIX, nunca tenham reivindicado de forma categórica um território que à luz do Direito Internacional, lhe pertence?

 

Carlos Luna: - Muitos portugueses nem conhecem a sua História, mas o mais grave é que Portugal se acha tão mau, tão mau, que nem reivindica o que é seu de direito. Em 20 de Maio de 1801,  Olivença foi  ocupada por Espanha. Curiosamente, foi  em 20 de Maio de 2002, que Timor dia da independência de Timor….

 

 O empenhamento que se pôs na causa de Timor, devia ter sido posto na causa de Olivença?

 

Acho que sim.

 

Como começou esta sua luta?

  

Por volta de 1986 lembrei-me de ir à terra de que muito se falava, gostei do que vi mas detestei a profunda desinformação que reina em Olivença entre a população que não tem culpa nenhuma. As autoridades espanholas mascararam e esconderam a verdadeira realidade histórica ao povo de Olivença, fazendo-os acreditar em mitos absurdos, ofensivos e chauvinistas em relação a Portugal e à sua História.

 

Mesmo depois de 1975, da democratização?

 

É verdade. Acho inacreditável que uma Espanha democrática continue a ensinar a um povo um passado que não é o seu. Embora parte da culpa de não haver uma definição no caso de Olivença também resida no povo português.

 

No povo e sobretudo nos sucessivos governos…

 

 Sou essencialmente um lutador pela positiva e há alguns argumentos que eu detesto, os portugueses têm um desprezo tal por si próprios que é quase impossível de explicar. A luta pelo caso de Olivença tem muitas semelhanças com a contenda sobre Gibraltar. Neste caso, os espanhóis insistem ser uma questão de justiça e tratam-no de maneira muito diferente do que acontece com a localidade próxima de Portugal. Aproveitam todas as oportunidades para resolver, ou pelo menos debater, a questão de Gibraltar. Em contrapartida, o Estado Português não fala em Olivença, é quase uma posição clandestina.

 

publicado por Carlos Loures às 14:00

editado por João Machado em 03/04/2011 às 12:14
link | comentar | ver comentários (140) | favorito
Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

Continuo a querer mudar o mundo



Chamo-me Carlos Eduardo da Cruz Luna e nasci em 16 de Março de 1956. Sou Professor de História no Ensino Secundário, há mais de trinta anos e quase sempre em Estremoz. Sou licenciado em História. A minha família é de Estremoz, e só acidentalmente nasci em Lisboa. Sempre fui um entusiasta de grandes causas... grandes... pelo menos na minha perspectiva. Sou um pouco sonhador, mas sigo o princípio do Poeta Aleixo: "Que importa perder a vida / na luta contra a traição,/ se a razão, mesmo vencida,/não deixa de ser razão". Sou casado e sem razões de queixa, tenho dois filhos (uma e um).

Em 1970, tinha eu 14 anos, quando comecei a duvidar do regime em que se vivia em Portugal. Contribuí com alguma actividade anti-salazarista/marcelista para incomodar o "regime". Corri alguns riscos de prisão, claro. O 25 de Abril apanhou-me com 18 anos e uma vontade imensa de mudar o Mundo. Militei no M.E.S.. licenciei-me História, leccionando já. Continuo a querer mudar o Mundo, e tenho uma perspectiva de esquerda sobre a maioria dos problemas do mesmo Mundo.

Tenho escrito sobre muitas coisas, normalmente batendo-me por causas que considero justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e que não seja feito contra ninguém. Não gosto do pessimismo em que vivemos, não porque ele por vezes não tenha razão para existir, mas porque acredito que só NÓS, Portugueses, nos podemos mudar a nós próprios. Daí que, embora goste da Literatura de Saramago, considero um disparate as suas idéias sobre a integração de Portugal em Espanha ( ou em qualquer outro País ), embora não seja contra a ideia de a Humanidade se federar TODA e de até surgirem uniões de Países, equilibradas, de que Portugal poderá fazer parte.

Escrevi um livro ("Nos Caminhos de Olivença"), em que, para além da documentação que habitualmente acompanha livros sobre este tema, juntei uma descrição completa (com fotografias) da Região, que percorri, aldeia a aldeia, "monte"(herdade) a "monte". Só consegui fazer edições pequenas, "de autor". Sou regionalista alentejano. Vou quase semanalmente a Olivença, onde tenho muitos amigos ( e alguns não-amigos). Procuro continuar a estudar a região, e apoiar iniciativas visando a recuperação das antigas História e Língua.

Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Domino bem o inglês, o francês, o castelhano (com limitações), o alemão (com muitas limitações), o italiano (ainda com mais limitações). Percebo algo de catalão. Mas... o que domino melhor é o português, em especial a variante alentejana. Enfim, vou muito a congressos e colóquios, como interveniente. Até faço poesia, (às vezes). Adoro animais...

Assim de repente, eis o que vos posso dizer sobre a minha pessoa.
publicado por Carlos Loures às 11:00
link | comentar | favorito
Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Com Olivença na lembrança

Carlos Luna

MOTE

Com Olivença na lembrança
Sinto eu que é preciso
Uma história de esperança
Contar com muito siso

I
Nesta Terra Alentejana
Há uma parte separada,
Uma urbe abandonada
Para além do Guadiana.
Nunca foi Castelhana,
Só queria segurança
E ter boa vizinhança.
É um caso de conflito
Pois este poema é dito
COM OLIVENÇA NA LEMBRANÇA.

II
Todos se lembram dela
E está no nosso coração.
Recorda-se com indignação
Embora tendo cautela,
Por isso digo a Castela
Nesta fala de improviso,
Nem que seja como aviso,
Pois a Espanha é finória,
Que lembrar a sua História
SINTO EU QUE É PRECISO!

III
É preciso não esquecer
Que Olivença, Terra Lusa
Por Espanha está reclusa,
Para Portugal a perder;
Ora está bem de ver,
Para haver confiança
Sem desejo de vingança,
Algo se tem que mudar.
Só assim se vai tornar
UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA...

IV
Espanha forte e orgulhosa
Na cidade das oliveiras
Não tem mostrado maneiras
E mantém, desdenhosa,
Uma situação mentirosa!
Permita, sem fazer juízo
Cada um ser conciso,
Sem esconder a verdade
O que se passou na cidade
CONTAR COM MUITO SISO!!!
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Poesia de Carlos Luna lida em voz alta em Olivença em 12 de Junho de 2010

OLIVENÇA É POESIA (ou "A POESIA DE OLIVENÇA")

Olivença, fonte de tanta poesia,
cidade tão cheia de encantos,
de variadas belezas elegia,
de memórias de heróis e santos.

Em tuas casas, em cada frontaria,
se vêem motivos para cantos,
seja em palácios de fidalguia,
seja em mais humildes recantos.


Diante de cada Igreja, um poema!
Olhando as muralhas, uma rima!
Em cada rua, "sente-se" um tema!

Nas aldeias, com o Sol por cima,
e no meio da brancura extrema,
surge inspiração que te sublima!


(Estremoz, 06 de Outubro de 2008)

TRAINDO PESSOA?(EM DEFESA DO PORTUGUÊS DE OLIVENÇA)


«A minha Pátria é a Língua Portuguesa»,/ disse o imortal Fernando Pessoa./ Esta frase de suprema delicadeza/ tornou-se mote no Brasil e em Lisboa.//


Em Português se exprime uma certeza,
ou uma emoção, no Maputo ou em Lisboa;
na mesma língua se elogia a beleza
de um samba, de um fado na Madragoa!


O Português fala-se com dedicação,
a Língua usa-se até para uma ofensa;
nela se exprime ódio, dúvida, e paixão.
Mas... pouca gente, ao falá-la, pensa
acudir, como seria sua obrigação
ao Português que se fala em Olivença !

(30-Março-2008)
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | ver comentários (3) | favorito
Terça-feira, 27 de Julho de 2010

O tempo em Olivença


Carlos Luna


Em Olivença sinto o peso do tempo,
sinto a sua força onde ela mais dói.
Sinto o seu peso como contratempo
na morte da evocação de cada herói

Em Olivença vejo o efeito do tempo,
vejo-o em cada mentira que ele condtrói,
em cada casa caída, em cada "passatempo"
oco, falso, qu´as páginas do passado destrói.


Em Olivença cala-se do povo a memória
em cada imperativo, diz-se, de mudança,
de cada vez que se oculta uma velha glória.


Em Olivença, só não morreu a esperança
de um dia, em liberdade, se contar a História
do passado, dos teus avós, a qualquer criança!

Estremoz, Março de 2007
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras



Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. publicamos hoje as últimas 12, da 61ª à 72ª , recolhidas porVentura Ledesma Abrantes.

61-
Acabou-se a brincadeira,
não metas mais a colher!
Bate agora à dianteira,
que tu vais ser minha mulher!


62-
Anda cá para os meus braços
se tu vida queres ter,
que os meus braços dão saúde
a quem está para morrer!


63-
Os olhos daquela aquela,
os olhos daquela além,
os olhos daquela flor
são os olhos do meu bem!


64-
O meu amor é um cravo
que ao craveiro fui colher;
para o craveiro dar outro
tem de voltar a nascer.


65-
Não há luar mais formoso
que o da noite de São João,
nem luz que mais ilumine
o meu pobre coração!


66-
Comprei arrecadas de ouro
na feira de São Mateus;
lembranças do meu tesouro
e dos beijos que ele me deu.


67-
António, meu oratório,
meu espelho de vestir;
quem tem amores com António
volta ao céu e torna a ir!


68-
Minha mãe, quando eu casei,
prometeu-me quanto tinha.
Depois que me viu casada
deu-me um saco de farinha!

69-
O coração já está preso,
não cantes mais "soledade"*
Já o virei do avesso
para curar a saudade.


*solidão



70-
Já morreu o vil traidor,
para os infernos muitos anos;
quis vender o nosso povo
ao poder dos castelhanos.(*)


71-
Cosmander foi um vilão
ao serviço dos "mariolas",
mas teve morte de cão
com sepultura de esmola.(**)

72-
Era um diabo, um malvado,
sem honra nem coração;
dorme, filho, descansado,
que já morreu esse cão!(***)

(*), (**), (***)- Referências a João Pascácio Cosmander, ou Jan Ciermans, um flamengo (belga ou holandês) que, estando ao serviço do exército português em 1640, resolveu trair e pôr-se do lado de Castela. Tentou um ataque traiçoeiro a Olivença, mas foi morto pelo oliventino Gaspar Martins)
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras


Carlos Luna


São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 51ª à 60ª (Ventura Ledesma Abrantes).

51-
Eu já não gosto de ti,
tenho o coração sovado.
Tenho agora amores novos
deixei já os teus cuidados.

52-
Adeus, que me vou embora
para a terra das andorinhas;
deita cartas no correio
se quiseres novas minhas

53-
O meu amor é aquele
que não tira o chapéu;
passa por mim, não me fala,
mostra-me cara de réu.

54-
Estreei minha saia nova,
minha blusa, meu vestido.
Levarei tudo para a cova
se não queres ser meu marido.


55-
Não posso ser teu marido
ainda que tu digas "sim";
vê lá tu, meu querido,
como as coisas são assim.


56-
Se tu souberas bem ler
nos meus olhos o feitiço,
verias como se quer
a paixão ao seu derriço*.

*namorado

57-
Baila, não cantes tanto,
que o bailar é espavento;
as cantigas que eu canto
não são cantigas ao vento.


58-
Porque esperas, meu bom moço,
que eu viva tão requeimada?
Só se fores como o poço:
muita água... e não tem nada!


59-
Alto lá, meu bem formoso,
não digas isso a cantar!
És um pau carunchoso,
e não te posso aguentar!*

*suportar


60-
Olha bem para o meu peito,
onde está o coração;
vê lá se disto há direito,
diz-me agora: sim ou não!
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras


Carlos Luna
São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 41ª à 50ª (Ventura Ledesma Abrantes).

41-
Quando eu era pequenino

que jogava o "repião"*
davam-ma as moças beijinhos;
agora já não me dão!
*pião

42-
O meu amor ontem à noite
a sua vida me contou,
e que se ia deitar a um poço.
Se ele vai, eu também vou!


43-
Meu amor quer que tenha
juízo e capacidade.
Tenha ele que é mais velho,
já vai caindo na idade.

44-
Homem alto e delgadinho
é a minha inclinação,
que aqueles que são baixinhos
nem para ver a Deus são.

45-
Fita verde no chapéu,
ao longe mete aparência.
Quantos amores se perdem
pela pouca "diligência"*

*cuidado na aparência

46-
És branca como o leite,
corada como a cebola;
amores, quantos quiseres,
casar contigo,... xó rola!

47-
Minha mãe ouviu lá fora
tu jurares devagarinho,
dizer-me que me querias
e roubares-me um beijinho!

48-
Eu prometo voltar breve,
ir de joelhos à cidade,
se me sares da doença,
Nosso Senhor da Piedade.

49-
Eu também já fui à festa
e fiz promessas a Deus
de voltar no Ano Novo
a dançar no São Mateus.

50-
Tenho o coração negrinho
deitado neste teu peito;
não fales alto-baixinho
assim é que me dás jeitinho.



publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Sábado, 10 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras

Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: hoje, da 21ª à 30ª (Ventura Ldesma Abrantes).

21-
Eu sou guarda no Freixial,

lá nas bandas do Guadiana.
Já matei um pato real
com uma espingarda de cana.


22-
Quando eu era pequenino,
ainda não sabia andar,
já minha mãe me dizia
"que fino é para namorar".


23-
Fui à Serra colher trevo,
ancontrei o trevo colhido.
Estou se sim ou não me atrevo
a arranjar amores contigo.


24-
Quem me dera, dera, dera,
quem me dera, dera, dar,
beijinhos até morrer,
abraços até cansar.


25-
Quando eu principiei a amar
de amores não entendia;
agora já fiquei mestre
daquilo que não sabia.


26-
Cantigas são pataratas,
às vezes leva-as o vento.
Quem se fia de cantigas
é falto de entendimento.


27-
Já lá vai Abril e Maio,
já lá vão esses dois meses,
já lá vai a liberdade
que eu tinha contigo às vezes

28-
Eu quero bem, mas não me queres
dizer a quem quer(es) bem.
Eu quero bem a uma ingrata,
dizê-lo não me convém.


29-
Eu quero contigo passas,
eu quero contigo figos,
eu quero que tu me faças
o que eu fizer contigo.

30-
Margarida, a tua vida
não a contes a ninguém,
que uma amiga tem amigos,
e outra amiga, amigos tem.



(Continua)
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras

Carlos Luna


São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras:  hoje, da 11ª à 20ª (Ventura Ldesma Abrantes)

11-
Tenho corrido mil terras,
cidades mais de quarenta,
tenho visto caras lindas,
só a tua me contenta.


12-
Adeus largo do Calvário,
por cima, por baixo não.
Por cima vão os meus olhos,
por baixo, meu coração.


13-
O Monte de Santa Maria
tem vinte e quatro janelas.
Quem me dera ser pombinho
para pousar numa delas.


14-
Esta noite choveu neve
no gargalo do meu poço;
todas as rosas abriram
menos o meu cravo roxo.


15-
Abalei da minha terra,
olhei para trás chorando.
Adeus terra da minha alma,
que longe me vais ficando.


16-
Eu sou ganhão da ribeira,
da ribeira sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
que fazem tremer o chão.


17-
Ó minha mãe, minha mãe,
companheira de meu pai!
Eu também sou companheira
Daquele cravo que ali vai!


18-
Eu tenho uma silva em casa
que me chega à cantareira.
Busque meu pai quem o sirva/
que eu não tenho quem me queira.*


19-
O Sol, quando nasce, inclina
nas barrancas do Guadiana.
Eu também ando inclinado
nesses teus olhos, Mariana!


20-
Eu já vi um valentão
à briga com uma cidade;
logo ao primeiro encontrão
derrubou mais de metade!
_______________

*Mais lógico: que eu já tenho quem me queira.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras -

Carlos Luna

São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes  (décadas de 1930 e 1940)), duas de dois habitantes de São Jorge de Alor na década de 1990, as últimas 20 recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade, na década de 1950 e 1960. Iremos publicando todos os dias uma dezena de quadras: Eis as primeiras 10 (Ventura Ldesma Abrantes)

1-
Ó Vila Real dos coxos,
São Bento dos aleijados,
São Domingos dos bons moços,
São Jorge dos mal talhados.
2-
A fonte do Val de Gral
está no alto da Serra d´Olor.
É água que a ninguém faz mal,
e dali bebe o meu amor.
3-
O meu coração é teu,
o teu é de quem tu queres.
Uma troca faria eu,
lindo amor, se tu quiseres.
4-
Se eu tivesse não pedia
coisa nenhuma a ninguém.
Mas, como não tenho, peço
uma filha a quem a tem.
5-
Daqui para a minha terra
tudo é caminho e chão!
Tudo são cravos e rosas
postos pela minha mão.
6-
Silva verde não me prendas
que eu não tenho quem me solte;
não queiras tu, silva verde,
ser causa da minha morte.
7-
Azeitona pequenina
também vai ao lagar;
eu também sou pequenina
mas sou firme no amar.
8-
Saudades, tenho saudades,
saudades das feiticeiras.
Lembrança das amizades
da "Terra das Oliveiras".
9-
A laranja quando nasce
logo nasceu redondinha;
tu também quando nasceste,
nasceste para ser minha.
10-
Na vila de Olivença
não se pode namorar!
As velhas saem ao Sol
e põem-se a criticar!

publicado por Carlos Loures às 09:05
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Os irmãos Marçal: três alentejanos de Olivença com Napoleão



Carlos Luna

É um assunto pouco referido, mas portugueses houve que integraram as forças de Napoleão. Nem sempre voluntariamente, diga-se. De qualquer forma, não é justo que sejam hoje tão esquecidos que muita gente desconhece o facto.

Vamos recordar três deles, três irmãos alentejanos que estiveram entre os soldados de Napoleão que morreram nos campos de batalha da Rússia.

Em 1807, a Primeira Invasão Francesa ocupara Portugal. Logo se organizara uma Legião Portuguesa, sob o comando do Marquês de Alorna, para servir Napoleão. Era este, aliás, um procedimento comum nos países ocupados por ordem do Imperador nascido na Córsega.


A Legião Portuguesa partiu para Espanha em 1808, concentrando-se em Salamanca em princípios de Maio, e seguindo depois para França, salvo um pequeno regimento que ficou em Saragoça, procurando, em vão, ao lado de tropas francesas, conquistar a cidade, rebelada contra os invasores napoleónicos.

As tropas portuguesas estavam no Sul de França em princípios de 1809. Nela havia soldados de todos os cantos de Portugal. Chamavam a atenção três irmãos, de apelido Marçal, capitães de Cavalaria de Olivença, nascidos na década de 1770: António, Vicente Luís, e Francisco. A sua história já tinha tido muito de rocambolesco, pois a sua terra natal fôra ocupada pela Espanha em 1801, por instigação francesa, e o seu regimento, denominado "Dragões de Olivença", tinha sido obrigado a abandonar a localidade ocupada, andando em bolandas durante seis ou sete anos... razão por que um ou outro autor pretenderam que a terra natal dos três irmãos seria outra que não a Terra das Oliveiras...

Agora, o mesmo Napoleão, que estivera por detrás da conquista de Olivença, considerava-os portugueses, oriundos dum regimento exilado há seis ou sete anos, como já foi salientado. Ironias da História.

Foi-lhes dado o posto de alferes. Em Março de 1809, organizou-se um corpo de elite sob o comando do General Carcome, incorporado no exército do General Oudinot, que invadiu o Império Austríaco. Tal corpo participou nos preliminares da Batalha de Wagram, bem como na batalha em si. Os três irmãos Marçal distinguiram-se pela sua bravura, e um deles, Francisco, foi condecorado com a Legião de Honra.

Em 1811, Napoleão organizou de novo o corpo português, que em 1812 integrou o exército que invadiu a Rússia. Os três irmãos integraram o 1º e o 2º Regimentos de Infantaria.

O exército napoleónico foi avançando sem grandes dificuldade até Moscovo. Todavia, num dos poucos combates travados então, em Smolensk, a 16 de Agosto de 1812, caía para sempre António Marçal.

Ocupar a Capital antiga da Rússia czarista ( que era então São

Petersburgo) não foi também muito difícil. Desgraçadamente, foi então que, a 7 de Setembro de 1812, numa escaramuça, tombou Vicente Luís Marçal, pelo que ficou apenas vivo um dos três irmãos, Francisco.

Os russos incendiaram parcialmente a sua antiga capital. Napoleão, desesperado, teve de retirar-se, em pleno Outono e Inverno rigorosos.

Ao alcançar, com o seu semi-gelado e fatigado exército, os arredores da cidade de Viazma, as tropas russas, que até então apenas o haviam perseguido, atacaram de surpresa. O Exército francês escapou-se, mas com pesadíssimas baixas. Na retaguarda, destacamentos isolados, sob o comando do Marechal Ney, tentavam minorar o desastre e castigar os atacantes, para depois se tentarem reintegrar no grosso da coluna. Um destes destacamentos bateu-se desesperadamente, comandado pelo alferes Francisco Marçal. Este lutou até terem caído todos os soldados que o acompanhavam. Moribundo, com o corpo crivado de balas, foi trazido ao Comando Militar gaulês, falecendo quase de seguida (6 de Novembro de 1812 ).

Refira-se que, dos 600 000 homens que participaram nessa invasão, só sobreviveram cerca de 10 000, que em 10 de Dezembro de 1812 alcançaram a fronteira da Polónia ( Rio Niémen ). As loucuras dos ditadores custam, geralmente, muito caro aos seus próprios povos... bem como aos povos vizinhos e estrangeiros em geral !

Embora a "saga" destes três irmãos seja referida por vários autores, não há, nem mesmo na sua terra natal, uma simples placa a recordá-los, como se um anátema os perseguisse. Justificar-se-á este esquecimento ?









________________________________________________________________________________
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Sábado, 3 de Julho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 8

Carlos Luna

Soneto a um fidalgo morto por um touro (este vai repetido)

Dos golpes no confuso labirinto
morre ao mais duro o touro mais atento,
pois sendo igual em todos o instrumento
em tudo o braço heróico o fez distinto.

Em cólera abrasado, em sangue tinto,
conhece o bruto o alto régio alento,
e ilustrando na morte o nascimento
obrou como a razão o que era instinto.


Para acabar elege uma ferida,
mas na eleição a rápida braveza
passa de irracional, fica estendida.


E em régia adoração de tanta alteza,
chega hoje a ser o estrago de uma vida
mais que injúria, lisonja à natureza.

Soneto a um coronel, tido como cruel para os seus subordinados, e... zarolho! Este soneto ainda era considerado desrespeitoso em 1855.

Coronel satanás, Fernão zarolho,
cruel hárpia das que o abismo encerra,
na empresa de afligires esta terra
de que serve o bastão, se tens esse olho?


Vai-te deitar na granja de remolho
onde o vilão, porque o escorchas, berra;
pois não é para o ilustre ardor da guerra
Abóbora com feitio de repolho.


Se soubeste juntar com força rara,
sendo em ti o prender genealogia,
de galinha o louvor, de mono a cara,


anda, prende, e "ateima" na porfia,
pois em Aldegavinha tens a vara
e n´Ásia, em Cananor, a feitoria.


Soneto a um pregador, a um "cura", da Ordem dos Grilos, célebre pelo seu amor à bebida. Este soneto é o  último que chegou até nós de Caetano José da Silva Souto-Maior:

Tal sermão, e tão grande, e sem parelha
do nosso reverendo Frei Palrilha,
será d´asnos oitava maravilha
por somente constar de muita orelha.

Eu quando o vi com cara tão vermelha,
dizendo as asnidades em quadrilha,
sem reparar nos calos da servilha
julguei tudo fumaças da botelha.

Se o sermão se pregasse na Pampulha,
de toda a marotice a vil canalha,
metera muito embora o frade a bulha.


Mas eu venho a inferir nesta baralha
que ou o tal frade a todos nos empulha,
ou ele certamente come palha.


OS 22 sonetos sobreviventes de Caetano José da Silva Souto-Maior foram  "salvos" por José Maria da Costa e Siva, e publicados em 1855. Há outros poemas "sobreviventes".
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Caetano José da Silva Souto-Maior, um alentejano na corte de D.João V e uma figura popular de Lisboa - 6

Carlos Luna



Soneto a uma dama que enviou, zangada, ao poeta, uns escritos que deste recebera... e que ele queimou.















Morrei, doces despojos, que algum dia
fostes de Clori(*) persuasão gloriosa,
que a chama, ainda que triste, venturosa,
vai conservar no fogo a idolatria.


Para desprezo ser de Clori ímpia
basta arder nessa luz pouco formosa,
porque da chama, que é menos preciosa,
não fica sendo a cinza menos fria.


Não fostes cridos, viestes desprezados,
e das iras de Clori como objectos
sereis sempre uma injúria aos meus cuidados.


Eu só posso mostrar nestes afectos,
fazendo-vos agora desgraçados,
que sois constantes, e que sois discretos.

______

(*) Clóri: deusa grega das flores; a "Mulher".


Poema a uma dama que o poeta não quis ver, depois dela ler alguns versos.


Para venceres basta um só portento,
pois não foram em tudo sempre claras
as vitórias, se acaso acompanharas
com outro encanto o numeroso acento.


Se a minha vida, e o meu entendimento
já dos teus versos são vítimas raras,
serias, se o resplendor não retiraras
menos avara, e eu menos atento.


Outro espírito influi reverente
se hás-de mostrar teu rosto esclarecido,
que um, que tinha, está preso felizmente.


Ou cesse o agrado harmónoco do ouvido,
que hei-de expor a teus olhos indecente
sem mais uma alma, ou menos um sentido.


Soneto dedicado a Francisco Dionísio de Almeida, morto na juventude.

Reduzir esta vida à ombra escura,
na mais discreta, e mais florida idade,
é da morte fatal temeridade
com que infama os decretos da Ventura.


Que avisos, ou que exemplos nos procura,
se ofendido o discurso da impiedade,
toda a ira, a que a perda nos persuade,
faz esquecer o horror da sepultura?


Inveja a Parca o raro entendimento
que agora nos roubou, e ao golpe astuto
sirva de injúria o mesmo monumento.


Porque ´inda que o morrer seja estatuto,
da saudade consegue o sentimento
que pareça vingança o que é tributo.

Soneto dedicado à morte do jovem fidalgo Marquês de Gouveia.

Não extingue da morte o atrevimento
em Múcio(*) excelso a ilustre heroicidade,
muda-lhe só na iníqua austeridade
os cultos do palácio ao monumento.


Rendeu-lhe aclamações o orbe atento,
e hoje o busca no túmulo a saudade,
mas tão distinto o excesso na vontade
quanto vai da lisonja ao sentimento.

Mas intenta triunfar a morte dura,
que o afecto triste do sepulcro fia
na saudosa atenção à fé mais pura.


A memória consagra a tirania,
porque entregue a lembrança à sepultura
faz sempre religiosa a idolatria.
________

(*) Múcio: herói da Antiga Roma.

Soneto dedicado à espada de Pedro Mascarenhas, nobre guerreiro, enfim 

Pendurêa(*) entre louros infinitos
Mascarenhas, o grande, a heróica espada:
porque em ara imortal seja adorada,
troque o mundo os assombros pelos ritos.


Se inveja foi dos Césares invictos,
deixe hoje na razão imaginada
a série dos prodígios, que admirada
não pode ser no ardente dos conflitos.


Cause respeito, se causou desmaio,
que admirado, e rendido eu já contemplo
Pisuerga, Pirinéu, Ebro, e Moncaio.


Descanse a espada, e a Fama no seu templo
em ídolo converta o que foi raio,
chegue a fazer deidade o que era exemplo.
_________

(*) arcaísmo.



Soneto a Afonso de Albuquerque, conquistador português na Índia, numa

ocasião em que, para salvar uma jovem indiana, deixou que se perdesse,

num naufrágio, a carga preciosa.



Não me alteras, oh mar, sempre violento

na fúria destas ondas repetida,

se estou, sendo remédio de uma vida,

contra todo o furor deste elemento.



Nos estragos me adquires novo alento,

pois ficamos com glória esclarecida,

eu assunto da fama encarecida,

tu da riqueza avaro monumento.



Pereça a oriental preciosidade,

e exista a honra da feliz violência,

que foi maior que a dita a adversidade.



Porque fica, apesar desta inclemência,

superado o interesse da piedade,

e a desgraça vencida da inocência.
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Apresentando Carlos Luna



Carlos Eduardo da Cruz Luna, nasceu em 1956 em Lisboa, de forma perfeitamente acidental, como faz questão de salientar Oriundo de uma família de Estremoz, é nessa cidade alentejana onde vive e ensina. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é Professor de História, há 32 anos. No período que se seguiu à Revolução de Abril militou no MES. Ao longo da sua vida, tem-se batido por causas que considera justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal... e entre essas causas privilegia a da restituição de Olivença a Portugal. É de sua autoria o livro "Nos Caminhos de Olivença". Assumindo-se como um regionalista alentejano, visita quase semanalmente Olivença, onde tem muitos amigos e alguns não-amigos., acrescenta. Continua a estudar o território usurpado, apoiando iniciativas que visem a recuperação das antigas História e Língua.

A sua opinião sobre a questão de Olivença é de que esta tem muitas semelhanças com o diferendo que o estado espanhol mantém com o Reino Unido acerca de Gibraltar. Porém enquanto os espanhóis aproveitam todas as oportunidades para debater a questão de Gibraltar, "o Estado Português não fala em Olivença, é quase uma posição clandestina". É, por isso, uma luta difícil. Mas lutar por uma causa que considerou sempre justa é uma questão de princípio.
publicado por Carlos Loures às 09:00
link | comentar | ver comentários (1) | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Hola a todos, Vi comentarios de personas que ya ha...
Informamos que oferecemos todos os tipos de Emprés...
Informamos que oferecemos todos os tipos de Emprés...
eu preciso de um empréstimo urgente em fredlarrylo...
eu preciso de um empréstimo urgente em fredlarrylo...
Do you need a genuine Loan to settle your bills an...
Eu moro nos EUA Flórida e sou uma mulher feliz hoj...
Firma de empréstimo Sky Wealth, nós concedemos emp...
Oferta de empréstimo muito confiávelVocê está pres...
Sky Wealth empréstimo Firm, nós fazemos empréstimo...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links