Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

António Botto no Brasil - 10 - António Augusto Sales

Os Últimos Anos de Infortúnio(continuação)

O atentado contra Carlos Lacerda (1954), onde morre o major da aeronáutica Rubem Florentino Vaz, confere ao descontentamento político uma dimensão violenta e perigosa. Café Filho não consegue acalmar os protestos contra uma economia em descalabro pela constante desvalorização da moeda. A mediocridade da geração de políticos é evidente como evidente se torna a superioridade dos intelectuais saídos da Geração 45 e do Concretismo que darão às artes e às letras obras de Cândido Portinari, Óscar Niemer, Villa-Lobos, João Cabral de Melo Neto, Bueno de Rivera, Lasa Segall, Péricles da Silva Ramos, Manuel Bandeira e outros. Graciliano Ramos (Vidas Secas, Memórias do Cárcere) morre em 1953 e o curioso poeta Ascenso Ferreira, falecido em 1955 (Catimbó e Outros Poemas), revela-se, sobretudo, na interpretação da sua poesia através de recitais. Augusto Schmidt, escritor modernista (Fonte Invisível), torna-se grande amigo de António Botto assim como José Gerardo Vieira (A Mulher que Fugiu de Sodoma), mas são os murais de Cândido Portinari, na sua força telúrica de cores e formas, que levarão à glória este pintor autodidacta que viria a falecer em 1962.


Do maciço da Tijuca o panorama do Corcovado é de uma beleza esmagadora a esconder a miséria das favelas sob o tecto maravilhoso que a natureza deu e o homem sujou. Não obstante, as eleições de 1955 vão trazer ao poder uma nova direcção, prestígio, desenvolvimento, motivação popular que coloca com o seu voto na presidência da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ganha o futuro do Brasil que conhece a implantação da indústria automobilista, medidas económicas e sociais inovadoras e o sonho antigo de criar de raiz a capital no interior. Voo luminoso, começado em 1956, tem apogeu em Brasília inaugurada em 21 de Abril de 1960. Nunca como então as nossas relações estiveram tão próximas e prometedoras. Foi essa diplomacia de proximidade que levou o embaixador do Brasil a estar presente nas comemorações do 25º aniversário da posse do teu amigo Manuel Gonçalves Cerejeira como cardeal-patriarca de Lisboa.

O António Ferro, após a última exposição de arte no SNI seguiu a diplomacia e andou por essa Europa fora até falecer há pouco tempo. Diz-se que “o velho” mandou-o viajar porque estava farto dele. D’Assumpção, Sá Nogueira, Nikias Skapinakis são os novos provocadores da pintura irritando os conservadores já dispostos a ceder snobmente às obras da Vieira da Silva. O Almada, o nosso do Manifesto Anti Dantas, pintou o retrato do Fernando Pessoa, condenado à celebridade, pelo menos entre nós. O Jorge Brum do Canto filmou Chaimite e o amigo António Lopes Ribeiro foi-se ao Eça com O Primo Basílio. Surrealistas entretêm-se em discussões mesquinhas com o Cesariny à cabeça, sobretudo depois do desaparecimento do António Maria Lisboa. A sensação do grupo é Alexandre O’Neill (gente nova, António, que desconheces), poeta reinventor da palavra e da ironia com Cadernos de Poesia. A Agustina e a Irene Lisboa escreveram duas obras de referência: A Sibila (1954) e Uma mão Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma (1955). Aí vão para tu leres homem, ao menos a ver se deixas esse torpor! Eh!, chegou aqui a Ciranda de Pedra da Lígia Fagundes Teles, mas os grandes escritores brasileiros que se vendem por cá são o Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo e, naturalmente, Josué de Castro e Jorge Amado, estes na candonga. A PIDE apreendeu a edição de Quando os Lobos Uivam, do Aquilino. A peça Alguém terá de Morrer, do Francisco Rebello, é aplaudida no Trindade, mas se queremos vibrar, sentir um cheiro diferente sobre as tábuas do palco temos de aplaudir O Crime de Aldeia Velha do Bernando Santareno. A televisão iniciou as transmissões regulares tornando-se a coqueluche das casas dos ricos e o divertimento nocturno dos cafés dos pobres. O arménio Calouste Gulbekian legou um império a Portugal, salvo seja, deixando em testamento a vontade de criar uma fundação com o seu nome. Sebastião da Gama, jovem poeta de vinte e sete anos, finou-se no início de uma obra prometedora Recordas-te do Alves da Cunha, da Maria Matos, do Nascimento Fernandes? Puseram de luto o teatro.

A rua Almirante Alexandrino, nº 154, no bairro popular de Santa Teresa, onde o casal se instala em Outubro de 1955, irá ser o palco de mais uma situação conflituosa e amarga no curto futuro do poeta. Por cima do apartamento viviam uma brasileira e um galego, «pessoas de xadrez», como Botto as classificava, cujo sujeito odiava portugueses. Provavelmente, alguém da família Martinez, ou ele próprio, sofrera em Lisboa humilhações que ficaram gravadas para a vida inteira. Há rancores de estimação que nos consomem pelo que portugueses por perto eram veneno pela certa. Botto está, assim, em má vizinhança. A dupla desafia a paciência de um oriental quanto mais a de um poeta doente. Arrastam móveis, divertem-se com música alta, esmeram-se em actividades ruidosas fora de horas, mantendo a estratégia do permanente desassossego. O dia a dia torna-se um inferno pelo que António queixa-se ao senhorio Manuel Vitorino de Almeida que não só faz ouvidos de mercador como lhe aumenta a renda dos 1.700 cruzeiros para 2.500. Uma exorbitância! Proclama o poeta, comprando um litígio com a “caridosa alma” do senhor Manuel. Os Martinez atacam-no com o barulho e o Manuel com a renda, fazendo a tormenta do português. Desde há muito, sabemos Botto portador de uma inflamação auditiva grave a piorar porque o stress domina-o, a tensão arterial eleva-se e na manhã de domingo 23 de Outubro de 1955, pelas onze horas, António Botto adoece de modo a gerar inquietação: «Quando o médico chegou eu já estava surdo e quase no outro mundo», lamenta-se. No dia 26 de Outubro é internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, começando com estes acontecimentos a sua descida ao purgatório.

A imprensa dá notícia chamando-lhe “o grande poeta universal”. «Está ali a tratar-se de uma doença que os médicos não declaram, mas não vítima de um derrame cerebral» como chegou a ser noticiado. Mas a maleita é grave e o poeta reage com lentidão. Visitam-no colegas de letras e jornalistas. D. Carminda mantém-se a seu lado. Os dois únicos semanários da colónia portuguesa pouco escrevem ou noticiam enquanto a imprensa brasileira manifesta-se sobre o acontecimento com «todo o louvor e mágoa».

(continua)
________________________

Hoje vamos ouvir "O Mais Importante Na Vida", de António Botto, dito por Manuela de Freitas:

publicado por Carlos Loures às 22:30
link | favorito
Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Os anos de chumbo e a Frente Ampla ( Aquarela do Brasil)

Carlos Loures

Nesta série de crónicas sobre a história recente do Brasil, de que há dias publiquei o primeiro, cobrindo o período que vai desde o fenómeno getulista até à chamada «redemocratização», não contem com relatos muito bem ordenados – são textos escritos ao sabor da memória (e dos apontamentos). Embora, tendo muito gosto em que os brasileiros me leiam, é sobretudo aos outros leitores de língua portuguesa que dirijo estas reflexões – os brasileiros, de uma forma geral, saberão tudo isto muito melhor do que eu. Muitos deles, os mais velhos, viveram estes dolorosos, difíceis,  "anos de chumbo" de que falo. Que lhes posso eu dizer de novo?


Se quisermos fixar o momento em que a galopada da direita começou, teríamos de recuar até 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao mandato no próprio ano em que foi empossado, O Vice-presidente, João Goulart assumiu a Presidência, de acordo com o quadro constitucional em vigor. No momento da renúncia de Jânio Quadros, Goulart encontrava-se em visita de Estado à China, o que levou os adversários a impedir a sua nomeação automática como presidente da República, acusando-o de ser comunista. Se estava de visita a um estado comunista é porque era comunista. Não vos parece óbvio? Não? A mim também não. Mas para os adversários de Jango era-o. Conclusão muito conveniente, pois a Constituição brasileira, aprovada em 1946, impedia o acesso de comunistas ao cargo presidencial.

Seguiu-se uma demorada ronda de negociações, em que Leonel Brizola (cunhado de Jango) teve um papel preponderante. Essas diligências possibilitaram que Goulart acabasse por ser aceite como presidente.
 Em 1963, um plebiscito determinou o regresso ao regime presidencialista e, mercê dessa nova moldura jurídico-institucional, Jango pôde enfim assumir o cargo com amplos poderes. Tudo parecia estar resolvido.

Porém, as coisas voltaram a complicaram-se quando militares de baixa patente, sobretudo da Marinha e da Aeronáutica, manifestaram publicamente o seu apoio ao Presidente. A direita logo  considerou que esse apoio era feito devido ao resvalamento de João Goulart para posições e medidas esquerdistas ou esquerdizantes.

Dizia-se mesmo que estaria prestes a desencadear um golpe antidemocrático para impor um governo radical de esquerda; outros falavam na perspectiva de uma ditadura inspirada no justicialismo ou peronismo da Argentina, levando a que as classes possidentes e os políticos mais conservadores se sentissem ameaçados.

Com estes fantasmas agitados ante os sectores conservadores, a Igreja Católica e os militares de alta patente criaram um cenário perfeito e o clima propício para aquilo que a Direita, pondo as tropas nas ruas, considerou não um golpe, mas o impedimento de um golpe. Um daqueles malabarismos semânticos, tão disparatados  e risíveis que só a força das armas consegue sustentar. O governo militar autodesignou-se «Revolução de 31 de Março de 1964», com o objectivo «revolucionário» de acabar com a subversão e a corrupção «marxistas», mantendo, a princípio as eleições presidenciais marcadas para 3 de Outubro de 1965, porém sem a presença de candidatos da extrema esquerda.



Assim, no dia 2 de Abril de 1964, o presidente do Congresso Nacional, declarou vagos os cargos de Presidente e de Vice-presidente. João Goulart, ante as movimentações militares de 31 de Março, apoiadas por governadores estaduais, refugiara-se no Uruguai. O general Mourão Filho, líder do golpe militar, afirmou que João Goulart fora afastado por abuso do poder. Os militares iriam defender a Constituição, disse. E, a princípio, mantiveram os 13 partidos políticos existentes, bem como o Congresso Nacional em funcionamento. Cassaram os direitos políticos dos políticos de esquerda, mas tentaram encostar-se aos partidos políticos sobreviventes para garantir apoio no Congresso e manter pelo menos a aparência de um Estado de Direito. O general Costa e Silva, que aderira à última hora ao golpe, assumiu o ministério da Guerra. A sua influência foi aumentando até se tornar o rosto da linha dura do Exército. Foi o segundo presidente da República do regime, seguindo-se a João Baptista Figueiredo.

 As diferentes oposições organizadas movimentaram-se.
Estou a escrever estas palavras em 25 de Agosto de 2010, e faz hoje precisamente 44 anos que, em 25 de Agosto de 1966, foi criada a Frente Ampla, plataforma política onde se reuniam homens como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, cobrindo um leque que ia da direita conservadora de Lacerda, ideologicamente próximo dos golpistas, até um João Goulart, mais esquerdista. Todos contra o Regime Militar.

O moderado Juscelino Kubitschek estava exilado em Lisboa e foi Renato Archer, deputado do Movimento Democrático Brasileiro (que não fora posto fora da lei pelos militares) quem mediou as conversações entre o ex-presidente e os outro dois elementos da Frente.

No dia 19 de Novembro de 1966, Lacerda e Juscelino emitiram a Declaração de Lisboa, onde afirmavam a intenção de trabalhar juntos numa frente ampla de oposição. A nota mais saliente desta declaração era o apelo aos cidadãos brasileiros no sentido de apoiarem a formção de um grande partido de base popular.Carlos Lacerda procurou em seguida chegar a um acordo com Jango e com as franjas mais esquerdistas do MDB, a chamada "corrente ideológica". Tentou mesmo contactos com o Partido Comunista Brasileiro, na clandestinidade. Os militantes comunistas dividiram-se. Uns aprovavam o acordo outros recusavam-no liminarmente. A leitura que faziam era lógica - com Juscelino e Jango exilados,  Lacerda seria o único a ganhar com o acordo. Em 1967, Carlos Lacerda foi fortemente pressionado a abandonar a Frente e a colaborar com o Regime Militar. No entanto, Lacerda recusou essas propostas, revelando uma insuspeitada coerência democrática.

 E, como jornalista e tribuno, prosseguiu com as suas aceradas críticas ao governo,. Assim, em Agosto de 1967, o então ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva proibiu a sua ida à televisão.

Em 1 de Setembro desse mesmo ano, foi determinado que a Frente Ampla seria dirigida apenas por parlamentares e por gente com ligações à Igreja Católica. Decidiu-se também  que seriam enviados emissários para mobilizar a opinião pública em torno dos ideais frentistas. No dia 2, porém, um golpe de teatro - 120 dos 133 parlamentares oposicionistas,  recusaram-se a participar. Tal como acontecera com os comunistas, estes políticos suspeitavam que  Carlos Laceda pretendia servir-se da Frente  como alavanca pessoal - teria a intenção de se candidatar à presidência da República. Apesar das suspeições, Lacerda prosseguiu com as suas diligências e, em 24 de Setembro, foi a Montevideu ao encontro de Jango. No dia seguinte foi emitido um comunicado conjunto em que a Frente Ampla era defendida. Leonel Brizola, também exilado no Uruguai, condenou com violência a aceitação do acordo por parte de Jango. Por seu lado, Lacerda também teve problemas, pois o comunicado  anunciando o seu acordo com Goulart foi a gota de água que fez transbordar a taça da paciência dos militares da chamada  "linha dura". Os militares retiraram o apoio  que até então tinham concedido a Lacerda.

A Frente, apesar deste parto tão difícil, ganhou pontos ao conseguir implantação entre os estudantes e também entre o operariado. Organizou numerosos comícios e sessões de esclarecimento. Num deles, realizado em Santo André, em Dezembro de 1967 reuniu muitos milhares de manifestantes e em Abril do ano seguinte, em Maringá, concentrou mais de cento e cinquenta mil oposicionistas, sobretudo operários e estudantes. As coisas pareciam correr bem. Mas...

Em face destes desenvolvimentos, atravé de uma portaria do Ministério da Justiça, Costa e Silva proibiu todas equaisquer actividades da Frente Ampla A  Polícia Federal recebeu ordens para prender todos os que, de algum modo, desrespeitassem esta determinação.  A Frente Ampla estava fora da lei.

Vamos parar por hoje. Continuamos um destes dias.

E para nem tudo ser triste, ouçamos de novo a belíssima composição de Ary Barroso "Aquarela do Brasil", agora intepretada pela Banda Pink Martini.
Pink Martini é uma banda de doze membros formada em Portland, Oregon. Foi criada pelo pianista Thomas M. Lauderdale em 1994. Eles misturam diversos géneros musicais como a música latina, lounge, música clássica europeia e jazz.  Ei-lo executando "Aquarela do Brasil" - que na versão americana se chama simplesmente "Brazil".

publicado por Carlos Loures às 23:55
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links