Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O meu verdadeiro presépio


Luis Moreira


Entre Caldas da Rainha e Óbidos, numa casa com quintal, pintada de branco e com fachas azuis escuro, dando para um pinhal, moravam o meu pai, eu e os meus dois irmãos mais novos. O patrão da casa durante o dia era eu, embora nos meus precoces seis anos, isso quisesse dizer uma só coisa. Tinha que defender os meus irmãos. E defendia-os, como o meu pai viu ao chegar a casa à noite e verificar que eu tinha rasgado o vestido da minha irmã para lhe atar a cabeça partida com uma pedra perdida.


Era Natal, e eu na minha casa de família perdida pelos adultos, sempre tivera presépio e árvore de Natal e meti na cabeça que teria presépio, aquele ano e naquela casa.. À entrada das Caldas havia ( e há, embora fechadas) as fábricas de loiça com as criações de Bordalo Pinheiro cujas peças com defeito eram amontoadas no seu exterior. Grande fartura de peças para o presépio, para mim não tinham defeito nenhum, sabia lá porque estavam ali à mão, a única explicação era um milagre do menino Jesus , Ele sabia bem que sem ovelhinhas, moinhos, pontes, homens e mulheres não havia presépio.


E, ali no quintal, ao lado direito da porta de entrada fiz com os meus irmãos o "nosso" presépio, bem me lembro que o Menino deixou para mim o milagre de arranjar "papel de prata" para fazer o rio que passava por debaixo da ponte. Um rapaz mais velho ( tinha uma bengala que usava debaixo do ombro, onde se apoiava) viu o "nosso " presépio e arranjou-me a prata, ele também não tinha amigos para jogar a bola, também teve que fazer o seu próprio presépio."Fazes bem, Luis, é bom!" disse-me ele e para mim bastou, alguém tinha olhado para o nosso presépio e gostara dele. Basta uma palavra, a indiferença é algo de terrível, fazer uma festa na cabeça de uma criança, todos os dias, devia ser
uma das três coisas obrigatórias antes de morrer.


O meu pai, foi ao pinhal e trouxe um ramo de pinheiro e com ele fez a árvore de Natal, a vizinha ao lado fez uma estrela prateada ( depois vim a saber que "era aquela estrela pequenina a tremer de medo por cima do forte de Santa Catarina...), não havia luzes, mas havia o musgo que íamos buscar ao bosque, o azevinho de bolinhas vermelhas , as plantas selvagens, e o nosso presépio cresceu, vinham pessoas do bairro ver e sempre deixavam uma ideia, mais uma estrela, e o menino à noite por causa do frio teve direito às roupas que lhe fez a minha professora da pré-escola (bem a vi a chorar...) e o presépio já era de todos, vieram os bolos e as rabanadas, o bacalhau e o azeite, e o meu presépio já era a minha casa cheia de gente .


Não houve presentes comprados à pressa, não havia dinheiro, mas a lareira estava cercada de mulheres a cantar as canções de Natal, a todos se abria a porta, todos a desejarem "Bom Natal" , bandos de rapazes andavam de porta em porta, levavam uma rabanada ( na região das Caldas são filhós..) o meu pai era um emérito cozinheiro, a aletria da minha terra natal, e a mesa farta cheia de pequenas coisas que todos deixavam e trocavam e saboreavam...


E, naquela noite, sonhei com a minha mãe, estava feita figurinha junto ao "menino"...
publicado por Luis Moreira às 13:00
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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

O Filme - Ondine - Um Irish puro, sem gelo!

1Luis Moreira

Um pescador pesca nas suas redes uma jovem e bela mulher. O seu canto atrai os peixes e a vontade de viver a um homem alcoólico que tem na filha, doente, a única razão de viver.

Só a criança compreende, dá nome às coisas pouco normais, aceita a verdade ainda que inverosímel, antevê um horizonte menos escuro para todos. E persiste, com a clarividência que só os olhos puros de uma criança são capazes.

As imagens são belas, puras e duras como um wiskie irish, straight, sem água e sem gelo. O mar profundo e cinzento da Irlanda, as suas costas de um verde que se confunde com o mar e com o céu, as sua gentes duras que são capazes de serem felizes neste ambiente hostil e também terrivelmente belo.

Uma história belíssima, pouco habitual, com actores a compor personagens densas e ricas, música e canções trazidas pelas ondas...

Saiam antes da última cena. Até aí tudo é perfeito.

publicado por Luis Moreira às 13:30
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Terreiro da Lusofonia: Narf e Manecas Costa

Temos um grande prazer em trazer aqui ao nosso Terreiro Narf e Manecas Costa, artistas unidos pelo idioma comum - Narf é um cotado cantor galego. Manecas Costa é um dos artistas mais conhecidos da Guiné-Bissau, um exímio cantor e executante na guitarra, um grande, grande artista. Um galego e um guineense cantando... em Moçambique, no Teatro Avenida do Maputo.Um quadro lusófono perfeito. Vamos ouvir com atenção - "Alô, irmão!":

publicado por Carlos Loures às 01:00
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

António Botto no Brasil, por António Augusto Sales - Preâmbulo





Preâmbulo

Em 1999, sob a assinatura de António Augusto Sales, publiquei através de Livros do Brasil o livro “António Botto, real e imaginário”, editado no centenário do nascimento do poeta. Se por um lado tinha por objectivo fornecer aos leitores uma visão global da sua obra (poesia, teatro, prosa, literatura infantil) por outro havia a biografia de um homem que foi contestado, mal amado e esquecido até hoje, sem omitir as contradições da sua personalidade e os exageros do seu carácter.

António Botto, no "Martinho da Arcada", com Raul Leal, Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes.


Procurei trazer ao livro a Lisboa humana e política da época e a intelectual e artística, nomeadamente o período da “Polémica das Canções” que envolveu Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, José Pacheco, Raul Leal, Álvaro Maia, Pedro Theotónio Pereira. Na enxurrada onde surgiam claros sintomas da ditadura a querer sair do ovo, é apanhada também Judith Teixeira e o seu livro “Decadência” que acompanha “Canções” de Botto, na fogueira do pátio do Governo Civil de Lisboa onde os jovens católicos reaccionários exigiram que a justiça fosse feita.

Sendo reais os factos e a obra não deixaram de ser imaginárias algumas situações que permitem ao autor dialogar com o poeta. Quero dizer, de certo modo o narrador participou na vida do biografado sem procurar com isso interferir na sua existência como personagem central da história.

A explicação deste expediente literário torna-se necessária para que se compreenda o clima criado entre o real e o imaginário que irá ter particular incisão nesta parte da vida do poeta no Brasil. Ao tempo da edição do livro um problema de direitos sobre o espólio de Botto, no Brasil, condicionou a pesquisa aos relatos que existam na imprensa portuguesa e outra ocasional documentação que tornou desequilibrado o último capítulo (Epílogo) do livro. Resolvido que foi esse problema e ficando tal espólio à guarda e classificação da Biblioteca Nacional de Lisboa, para consulta, se bem com condicionantes, permiti-me reconstituir todo o período e desenvolver um novo trabalho com vista a uma segunda edição que, até hoje, não consegui concretizar apesar da primeira se encontrar praticamente esgotada. Com o meu amigo Carlos Loures estudámos a hipótese de adaptar este período brasileiro para publicação no “Estrolabio”, que me obrigou a introduzir no texto alguns pedaços do meu citado livro “partindo” em capítulos menores para não tornar fastidiosa a leitura.

São estas as explicações sobre este trabalho em que desejo transmitir aos leitores a última fase da vida de um homem, grande poeta, que viveu o derradeiro acto do seu drama longe da pátria e mesmo depois de morto ainda foi para essa pátria um embaraço.

(Algueirão 10.08.2010)

Para completar este primeiro dia, vamos ouvir Mariza interpretando na Union Chapel, em Lndres, o tema 'Os anéis do meu cabelo', um dos poemas do livro Canções, de António Botto.

publicado por Carlos Loures às 22:00
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