Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Sobrevivente da Deportação - Marguerite Duras

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Hoje Falamos de ... a banalidade do mal, mas também do triunfo da vida

Vencedor do Grande Prémio do Concurso Philips Tell it Your Way

 

 

 

 

Marguerite Duras  Sobrevivente da Deportação

O texto que irão ler por Garance tem por título: «Sobrevivente da Deportação».

Encontrei-o num caderno, uma espécie de diário intemporal, que mantinha durante o período final da guerra.

Não se trata de um texto político, é apenas um texto. Sem qualquer qualificação. Creio tê-lo escrito para não mais me esquecer do seu conteúdo. Não esquecer aquilo em que um homem se pode tornar, que é possível infligir-lhe. E o amor que permanentemente é possível dedicar-lhe. Aqui, era o caso. Este texto apareceu há alguns anos, na revista feminina Sorcières, anónimo, sem a minha assinatura. Porque me parecera inconveniente, quase indecente, reclamar-me sobrevivente para testemunhar o horror fundamental do nosso tempo: os campos de concentração alemães. Atrevo-me agora a revelar que fui a autora daquele texto. Creio poder dizê-lo sem retirar absolutamente nada à sua generalidade, à mensagem universal por ele veiculada.

Também me pareceu que, a ser lido e ouvido em público, este texto deveria sê-lo em locais como este, aqui, esta noite. Exactamente aqui. Porque aqui se reúne a milhares e milhares de outros testemunhos idênticos, escritos ou não, que viram ou não a luz do dia.

 

«(...) Se ele tivesse comido desde o regresso do campo, o estômago

ter-se-ia feito em pedaços com o peso da comida, ou então esse peso

ter-se-ia apoiado sobre o coração que, ao contrário, se tornara enorme dentro da caverna que era o seu corpo magro: batia tão depressa que era impossível contar as pulsações, era impossível falar propriamente em bater quando mais parecia que tremia sob o efeito do horror. Não, se comesse morreria. Ora ele não poderia sobreviver se não comesse (...).

A luta com a morte iniciou-se rapidamente. Era necessário lidar com ela com delicadeza, com tacto, com cuidado. Ela cercava-o por todos os lados. Mas, mesmo assim, havia ainda um meio de chegar até ele, nada de especial, essa plataforma que nos permitia comunicar com ele, mas mesmo assim a vida existia nele, como se fosse um espinho. A morte tomava-o de assalto. 39,5 no primeiro dia. Depois 40. Depois 41. A morte esfalfava-se. 41: o coração vibrava como as cordas de um violão. 41, sempre, mas continua a vibrar. O coração vai parar, pensa­mos. Sempre 41. A morte bate à porta, com grandes pancadas, mas o coração permanece surdo. Não é possível, o coração vai parar. Não. (...)

Papas, dissera o médico, dadas com uma colher de café. Davam-lhe papas seis ou sete vezes por dia. Uma colher de café de papas era o suficiente para o sufocar, agarrava-se às nossas mãos, aspirava e recaía no leito. Mas ia engolindo. Do mesmo modo, pedia para ir à casa de banho umas seis ou sete vezes por dia. Soerguiam-no, pegando-lhe por debaixo dos joelhos e pelas axilas.

 

Devia pesar entre trinta e sete e trinta e oito quilos: os ossos, a pele, o fígado, os intestinos, o cérebro, os pulmões, tudo incluído. Trinta e sete quilos repartidos por um corpo de um metro e setenta de altura. Pousavam-no na sanita, em cujo bordo havia uma pequena almofada: a pele estava dilacerada nos sítios em que as articulações a roçavam. (Na pequena judia de dezassete anos da Rua do Templo, os cotovelos romperam-lhe a pele dos braços, sem dúvida devido a sua pouca idade e à fragilidade da pele; a articulação está fora do corpo em vez de estar dentro, mostra-se nua, limpa, e ela não sofre nem das articulações nem do ventre, do qual foram retirando um a um, em intervalos regulares, todos os seus órgãos genitais.) Uma vez sentado na sanita, ele faz de uma só vez, num glu-glu enorme, inespe­rado, desmesurado. Aquilo que o coração se retraía de fazer, o ânus não conseguia reter, soltando todo o seu conteúdo. Tudo ou quase tudo nele soltava o seu conteúdo, mesmo os dedos que já não seguravam as unhas, que as soltavam, por sua vez. Quanto ao coração, esse retinha o seu conteúdo. O coração. E a cabeça. Fluida, mas sublime, solitária, destacava-se daquela pilha de ossos, emergia, recordava-se, contava, reconhecia, reclamava. Falava. Falava. A cabeça comunicava com o resto do corpo através do pescoço, como acontece habitualmente com todas as cabeças, mas nele as dimensões do pescoço eram de tal modo reduzidas — uma mão aberta era suficiente para o envolver — o seu aspecto era a tal ponto ressequido, que nos interrogávamos sobre como seria possível que a vida passasse por ali, se uma simples colher de papas custava a engolir e o sufocava. Através do pescoço, viam-se-lhe as vértebras em relevo, as carótidas, os nervos, a faringe e o pulsar do sangue: a pele transformara-se em mortalha de cigarro. Tudo o que fazia era aquela coisa viscosa, verde escura, que borbulhava, merda, como ninguém vira ainda. Quando acabava de fazer, voltavam a deitá-lo, e ali ficava ele, aniquilado, de olhos semicerrados, durante horas (...).

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 14:53
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