Domingo, 26 de Junho de 2011

LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - XXIII, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Bronislaw Malinowski, Polaco – Austríaco, refunda a Antropologia Britânica, interessa-se pelas formas de troca de povos sem mercado e, antes ainda, pelas formas de organizar a reprodução em grupos sociais não europeus, ao escrever a sua tese doutoral em Antropologia em Londres, em 1913, sobre The Family Among the Australian Aborigines[1], certo de que era uma família monogâmica, nuclear e regida pela lei que governava a Melanésia, a da Coroa Britânica. Em procura de prova certa, compara – o método que cria – estuda um outro, denominado The Natives of Mailu, de 1915[2]; em ambos os livros fala de pais e filhos, rituais de iniciação e, especialmente, a autoridade pater famílias, no seu ver, aí existente. Era a época em que existia a ideia do mundo estar a mudar, assim como as formas diferentes ou semelhantes do acasalamento para a reprodução humana – conceito criado e usado por Malinowski pela primeira vez, e, infelizmente, usado sem citação até hoje. O mundo começou a mudar, o Rei da nova Alemanha, declara a guerra, Malinowski é um inimigo e é transferido para fazer trabalho de campo na Austrália. A sua surpresa é grande ao reparar que a família Australiana -  na época em que nenhuma família escapava à análise feita por Durkheim,  Freud ou pelos alemães como Thurnwald no Estreito de Torres, Boas no Canadá, os Ingleses Haddon e Seligman, mais tarde Gregory Bateson entre os Iatmul da Nova Zelândia, Reo Fortune entre os Dobu Kiriwina, Raymond Firth com os seus parentes maori da Nova Zelândia, Ruth Bennedict entre os Japoneses e entre os índio Pueblo do México, Margareth Mead primeiro entre os Dobu e posteriormente entre os Mundugumor e Arapesh da Polinésia, todo o mundo corre para ver como é que era e como vai deixar de ser – encontra-se de uma forma muito diferente daquilo que se tinha falado. O seu primeiro objectivo, foi tentar entender se era possível funcionar de forma económica sem mercado, ideia retirada do seu Mestre Marcel Maus e do mestre do seu Mestre, Émile Durkheim, que mais tarde tiveram que reconhecer que não existia grupo social sem troca, como refiro no meu livro de 2002 e no de a Mais-valia na Reciprocidade - publicado em 2008 -, esse conceito Freudiano de 1906 que refere a troca de amamentar e de carinho entre a criança e a sua mãe, até à idade dos seis meses, que Melanie Klein analisou, como o afirmo anteriormente. Um conceito emotivo e romântico, que Malinowski retira dos textos de Freud de 1906 e de 1913 e aplica às relações de mercado como um dar para receber e devolver, como a mãe que dá o leite, o bebé recebe e em troca, dá carinho e ternura.[3]  Análise que Malinowski e a sua escola iam fornecer, apesar de ter estudado de forma importante as troca que o Kula permite: objectos, pessoas, aliança para a defesa, ataque em caso de guerra, carinho, acasalamentos, emotividade, ou uma forma especial de carisma, denominada mana. Um mana que existe entre os que mais sabem, sejam homens ou mulheres, adultos ou crianças, jovens ou pessoas de mais idade. Esta troca leva Malinowski a duas grandes descobertas: a primeira e que caracteriza a Antropologia Britânica, é que o estudo dos seres humanos não é feito como o fizeram os seus mestres anteriores, que nunca foram ao terreno, era necessário partilhar o dia-a-dia das pessoas e entrar pela vida dos Massim da forma que eles permitiam: aberta, amiga, fraterna, sem segredos (nem os íntimos). O Diário de Malinowski assim o diz[4], nunca pensou que os seus relatos seriam tornado públicos quase 50 anos após a sua morte.

 

A análise do Kula entre os Massim, permite a Malinowski estudar as famílias e a sua forma de serem geridas. Entre nós, o acasalamento tem sido monogâmico, seriado ou não, com adultério ou sem ele, com pedofilia ritual ou emotiva. Entre os Massim, o autor começa por colocar um problema, depois de ter abandonado o estudo da economia – um comércio, como diz na página 204 do texto que uso. O problema aparece já no Prefácio do seu texto de 1926[5]: “Le problème central de la psychanalyse est celui de l'influence que la vie de famille exer­ce sur l'esprit humain. Elle nous montre comment les passions, les chocs et les conflits que l'enfant éprouve et subit dans ses rapports avec son père, sa mère, ses frères et sœurs, aboutissent à la formation de certaines attitudes menta­les ou de certains sentiments perma­nents à leur égard, attitudes et senti­ments qui, tantôt subsistant dans la mémoire, tantôt englobés dans l'inconscient, influent sur toute la vie ultérieure de l'individu, dans ses rapports avec la société. J'emploie le mot « sentiment » dans le sens technique que lui attache M. A. F. Shand, avec toutes les implications importantes qu'il comporte dans sa théorie des émo­tions et des instincts » Começa logo por debruçar-se sobre o primeiro problema, o famoso problema de Édipo e acrescenta : « C'est ainsi que le sociologue estime que le problème du complexe n'est pas purement psy­cho­logique, mais qu'il comporte aussi deux chapitres sociologiques: une introduction faisant ressortir la nature sociologique des influences familiales, et un épilogue contenant l'analyse des conséquences que ce complexe comporte pour la société”[6].

 

 

 

publicado por João Machado às 14:00
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Sábado, 28 de Agosto de 2010

O crescimento das crianças

Raúl Iturra


Capitulo 3


Os nossos ancestrais, amavam? Quando não era

Queira o leitor lembrar, que ando a tentar entender o contexto da produção das crianças via a vida adulta, ou que já têm crescido, e o seu contexto histórico e social e a sua educação. Este conjunto de actividades constitui o processo de produção que em interessa entender. Produção de pessoas, que consiste não apenas na transferência de saber entre adultos e filhos de uma casa. É, como tenho definido em outros textos (1977, 1979,1990,1991) e retirado do que Meyer Fortes define sobre esse processo: o ensino pragmático de uma criança (1938), Jack Goody define como um troca da criança que aprende com os adultos com os que convive (1976) e Maurice Godelier, a formação de ideias a partir do real no tempo (1984), a criança é essa acumulação de memórias no tempo, sobre a sua individualidade. Sem dúvida, podia falar da acumulação do saber costumeiro, da lei, dos mitos, dos rituais, das trocas, da correlação da interacção entre o local e o global de uma sociedade.

Mas, é a emotividade e na memória social, que está centrado o meu interesse pela formação das crianças. O crescimento das crianças, é o resultado das conjunturas acumuladas no tempo guardado no grupo, como memória normativa. O formador de ideias etnográficas, o polaco - austríaco radicado na Grã-bretanha aos começos do Século XX, Bronislaw Malinowski, também falou. Esse professor que formou a tantos de nos, em pessoa ou a traves dos seus discípulos ingleses, tinha já escrito em 1926 e 1929, de que não há um imperativo da normatividade sobre as pessoas, mas sim um respeito pelo costume, que oferece a garantia do comportamento interactivo social, derivado das gerações e herdado pelo indivíduo. Pelo qual, o que temos em frente de nos, não é só a pessoa, bem como toda a experiência que essa pessoa traz consigo, ou na sua lembrança, ou do bom nome da sua casa. Bom nome da sua casa, definido pelas memórias das gerações presentes, que vão guardando a classificação de todos eles, a traves do tempo. Malinowski é bem claro, quando analisa a reciprocidade que herda, como conceito, de Durkheim (1912) e aprofunda no seu estudo dos ilhéus da Kiriwina, denominados por ele Argonautas (1922), título retirado da mitologia grega, Argonautas eram tripulantes da nau Argo que, segundo a lenda grega, foi até à Cólquida (actual Geórgia) em busca do Velo de Ouro. No caso dos Kiriwina, os Massim da Nove Guiné trocam objectos entre as pessoas, o símbolo do nome ao qual a pessoa pertence. Entre os factos observados na sua investigação com observação participante entre os Massim, e a lenda grega, Malinowski teve a ideias de denominar Argonautas a esta etnia que andava sempre a navegar para trocar objectos que no possuíam por outros que os seus vizinhos faziam. A sua ideia define que a pessoa com que eu troco, não é sempre a pessoa que tenho em frente: representa um conjunto de antepassados, criadores de uma reputação que lhe permite se inserir no social e ter um estatuto perante todos. Bem como é sabido, de que o comportamento do indivíduo, é produto dessa interacção íntima sob o mesmo teto. Como diz Fortes (1987) e Freud (1920), na sua complexa análise da formação da mente. Bem estudado depois por vários outros (Jung, 1911; Lacan, 1958; Ausloos 1996). Paul Connerton (1989) define que as imagens do passado são transmitidas através das cerimónias comemorativas e das práticas quotidianas. Fentress e Wickham (1992) definem a memória como fonte da história, Gellner (1992) observa como a cultura modela a razão, e Giddens (1991) argumenta de que há um aprofundamento da reflexividade, uma auto construção a partir do contexto institucional. Hobsbawm falou da invenção da tradição em 1983, como fonte necessária para criar a orientação da vida social e orienta-la. Bem como eu próprio, durante anos, tenho vindo falar das estratégias usadas pelas pessoas para manipular a realidade que interpretam com a lei costumeira, a memória social, e a conjuntura que se vive. Ideias que os factos me têm ensinado, em conjunto com a teoria dos mestres e colegas, lidos ou ouvidos.

Estes raciocínios todos, levam-me a formular o título do capítulo como una hipóteses, como uma realidade derivada do passado não conhecido por Victoria, Pilar e Anabela. Raciocínio derivado do conjunto das hipóteses citadas, bem como dos factos do seu comportamento por mim observados, são parte integral do saber do que a pessoa é. Por relação directa com os contemporâneos, por herança que os contemporâneos transmitem desde o passado remoto. A estrutura do social, como processo organizador do comportamento, o ser de cada indivíduo. Ser que guarda em si, saiba ou não, toda a memória ancestral. No consciente pessoal, no consciente social. No consciente social, na memória social. No inconsciente social, como os nossos ancestrais académicos dizem. (Durkheim, 1912; Mauss, 1924; Levy- Bruhl, 1927; Levi-Strauss, 1962ª; Malinowski, 1927; Freud, 1913 e 1930, Devereux, 1985). Processos, para mim, inseridos nas três pessoas individuais, que são o elo processual de ligação que me permite relacionar o comportamento pessoal, o crescimento individual das crianças, a estrutura na qual esse processo reprodutivo social, acontece. Victoria, Pilar e Anabela, constituem neste texto esse elo. Victoria, Pilar e Anabela, que vieram descobrir comigo, como têm sido o seu passado, o que era o seu passado, na medida que trabalhamos genealogias no tempo, essa cronologia acumulada nas suas pessoas. Consciente ou não. Socialmente ou historicamente. Etnográfica e etnologicamente. Quando não era a pessoa, mas era o contexto o que faz á pessoa, como a todo o grupo. Um como era do qual deriva o como sou. Um tempo que era, porque o sou não existia, enquanto o era existe em elas, no individual e no social. Na memória do observado durante o processo de crescimento. Como Victoria, Pilar e Anabela, aprenderam.

A- Victoria.

Os Picunche eram denominados Promaucaes pelos conquistadores, no século XVI, nome aprendido das etnias conquistadas. Promaucas o Purumaucas (quechua > purum awqa); nome dado por os incas a la o las etnias que habitaram el actual território de Chile, entre el río Maipo (Cuenca de Santiago), y el río Maule Na altura que os Castelhanos foram ao país frio, o Chile dos Quechua. Promaucaes para os Quechua, esse habitantes do hoje Peru, esse inimigos imbatíveis, impossíveis de conquistar nas guerras indígenas ( Villalobos, 1974; Lizana,1909; Ovalle, 1646 Pedro de Valdivia, 1545-1542). Os purum auca, os inimigos imbatíveis para os habitantes do norte do sul do hoje Continente americano. Os que dançam, para os Castelhanos, os que se divertem, para quem fez uma enganada tradução mapudungun das palavras. Puru, feliz para os Mapuche e para os que Mapuche têm querido entender. Para os Mapuche, Picunche, as pessoas do Norte, donde che é pessoa, e Picun, Norte. Habitantes do Norte. Do Norte do rio Choapa, que separa os lugares nos quais viviam (ver mapa das etnias). Até Valdivia entregar as terras dos nativos, aos invasores, às sessenta famílias invasoras como relata ao Imperador Carlos V, nas suas cartas citadas. Terras lutadas, beliscadas de volta, com raiva, com lanças, com flecha e arco, perdidas e tornadas a recuperar pela compra, séculos mais tarde. Picunche que teciam, teciam a lã dos guanacos locais da Cordilheira de Los Andes, das llamas e vicunãs importadas pelos prévios invasores Inca. Tinham uma horta em cada grupo consanguíneo de lares contíguos, ou rucas, feitas de madeira e barro. Madeira não elaborada, fibra de madeira, ramas de uma árvore, plantas de junco ou coligue entretecido e enchido com lama ou barro, a quincha, como o material é ainda denominado e usado por grande parte da população do país. Antigamente, pelos Pehuenche, os Huilliche, os Picunche, os Mapuche, as várias famílias dos nativos Rauco.

Os habitantes não parentes, e até inimigos ou aliados, conforme for, denominados Araucanos pelos Castelhanos (Silva Pereira, 1998; Bengoa, 1985; Villalobos,1974). Viviam do que cultivavam e que ainda hoje continuam a produzir, a maneira tradicional: milho, feijão verde, cabaços ou pencas, origem da palavra da comuna Pencahue, palavra mapudungun. Também ají, a quente guinda ou piri-piri; a batata foi uma surpresa para os espanhóis pelas sua qualidades alimentares e que exportada em imensas quantidades, salvou a Europa e a fez crescer demograficamente e em proteínas, como também o e mani ou amendoim. E outras plantas não conhecidas entre nos, nos verdes vales regados pelos canais de aguas tiradas aos rios circundantes, o branco rio Claro, e o navegável Maule. Espantados os Castelhanos de ver um homem com tanta mulher, até seis ou sete, e tanto filho. Varias Crónicas sobre o Chile relata a fertilidade das terras, a fertilidade das pessoas, a fertilidade do imaginário que adjudica um deus ou espírito a cada fenómeno natural, a cada animal, a cada pessoa. Até hoje, com nomes mortos na memória, mas vivos na dos Mapuche (ver Silva Pereira, 1998). Mapuche e Picunche compartiam os mesmos deuses, a mesma cosmogonia, divindades que os Castelhanos tentaram apagar rapidamente nas Doutrinas ou reduções para as quais transferiram esses habitantes, sem sucesso. Habitantes que, em breve, se misturaram com os Castelhanos e outros habitantes de Espanha, que aí chegaram. Desde 1666 em frente, é possível ver nos arquivos da Paróquia de Pencahue, esse arquivo que tive a sorte de encontrar, os nascimentos de Yndios, espanhóis, escravos, mulatos e mestiços, muito mestiço, uma percentagem crescente de mestiços ao longo do tempo, filhos de mãe índia e sem pai conhecido, ou casado com a mãe. È no século XVIII, a Encomenda (Eyzaguirre, 1963) ou entrega de índios a custódia espanhola, de esses ignorantes que nem sabem nem podem cultivar por serem preguiçosos, dizem os espanhóis. A Encomenda acabada e os nativos, já inquilinos, no arquivo de matrimónios começam a aparecer combinações reprodutivas de espanhol com mestiço, índio com mestiço e eventual espanhol. Apenas a partir de 1829, como referir antes, que aparece o primeiro chileno, até serem todos chilenos a partir da assinatura em Talca, do Decreto que definia esta condição de nacionalidade, por Bernardo O’Higgins, excepto, os não nascidos no Chile. Ou os que mantêm o jus sanguinis ou direito à nacionalidade pelo lugar original de nascimento da ascendência.

Em uma terra, onde prima o jus solis ou nascimento dentro das fronteiras do novo Estado ou nova República, simbolicamente desde 1810, formalmente desde 1818. Legalmente, desde 1833, data da Constituição denominada primeira. É desta combinação de sangues, que os ancestrais de Victoria, aparecem. Como a sua genealogia diz. Em uma época que os matrimónios eram rituais celebrados conforme o estatuto social das pessoas. Quando os pais só eram pais, se forem da mesma raça ou etnia. Entre os Picunche, a união é patriarcal, o longo ou chefe da família, mora com as suas mulheres de idades diversas, na mesma ruca ou rucas perto umas das outras, onde vão morando os filhos mais crescidos, que tomam mulher e têm filhos. E todos em conjunto, vão trabalhando a terras férteis, no sistema de mingaco, ou reciprocidade consanguínea sistemática, para trabalhos pesados que precisavam muitas pessoas. Trabalho e festa combinada, com comida e chicha ou álcool de milho ou maíz fermentado. As rucas, todas juntas dentro da mesma área ou lov em mapudungum, facilitava o trabalho da família extensa que eles constituíam, patriarcal e de filiação patrilinear: as mulheres saíam dos seus sítios e famílias para passarem ao sítio de rucas ou casario do cacique ou chefe do grupo doméstico alargado. É assim que começa a família de Victoria, até onde foi possível traçar a sua origem nos ditos arquivos paroquiais. Originais da Doutrina de Rauquen, paróquia já em 1699. Em consequência, Doutrina encomendada, para custódia de índios e terras, a uma família espanhola, os Parot. Rauquen, casario Picunche onde morou a última Cacique da denominada monarquia Picunche, essa Doña Ana, que em 1665 organiza um malon ou ataque por surpresa, á Vila de San Agustin de Talca ou Tralca, truvões. A derradeira Cacique ou chefe política Picunche. A derradeira, porque o casario Picunche, de propriedade nativa, passa a Doutrina, a Paroquia depois e a Encomenda e Hacienda dos espanhóis. E é pelos anos de 1700 que o espanhol encomendado de Rauquen, casado com Pascuala Allende, faz o primeiro filho que faz o primeiro mestiço, na pessoa de Tránsito Cerpa, inquilina de Rauquen, filho fora do matrimónio, criado por ela, que casa como Fortunato Arredondo Cerpa, com Juana Maria González Zapata, filha, neta e bisneta de nativos do dito Rauquen, inquilinos todos já da dita hacienda de espanhóis (ver Genealogia 1). É das novas Haciendas de Rauquen, Libún e outras como Quepo, Las 200, Toconay, Corinto, Carrizal, sítios desconhecidos pelo leitor e que é possível ver em mapa Net.

Nas quais as mulheres, de oficio cortadoras de folha, tecedoras e cultivadoras de terra dos proprietários. Vivem ou com o seu grupo, ou com o homem com o qual fazem filhos e deles esses homens, preocupam-se. Vivem, ou casam, ora com outros nativos ora com os depois inquilinos, ora com espanhóis que fazem crianças com elas e cujos nomes dão aos pequenos, enquanto as pequenas só guardam o nome de baptismo. A ancestralidade de Victoria, pelo lado materno, é de origem Picunche, como é possível apreciar em tipos corpóreos, em costumes e crenças. A avó, mãe da mãe de Victoria, é neta de nativa e espanhol não casados, como é possível apreciar na sua genealogia. Porque no século XVIII, os nativos são seres não pessoas. Entidades desconhecidas ainda a acreditarem no deus Pillán, que traz malefício aos que fazem mal a eles próprios. Um roga pragas Pillán, usado até o dia de hoje, para as pessoas se defenderem de pragas rogadas a eles. Que, no caso dos Picunche, eram os invasores que tinham tirado terras e hierarquias. A hierarquia Picunche é muito simples: o cacique ou pater famílias de um grupo consanguíneo extenso; e shamanes ou gestores das divindades heterogéneas que governavam pessoas, as suas condições, e as sua pertenças. Mais do que chefias ou estratos, são estatutos sociais adquiridos pela capacidade ou poder de lidar na coordenação de actividades e habilidades. O cacique, coordena actividades reprodutivas; o shaman, habilidades existentes ou restauradas, caso houver incapacidade temporal, e orientadores de espíritos. Até o dia de hoje. Uma cosmogonia que permeia os ditados das crenças católicas, pregadas em homilias e catequeses pouco entendidas a causa da língua, da experiência histórica, e dos símbolos, como tão directa e simplesmente, é dito por Gomes da Silva (1989). Eu acrescentava, pela luta de memórias acumuladas cronologicamente, sincretisadas na aceitação do Outro no Eu. Como a Historia Colonial demonstra.

As paróquias eram lugares de subordinação política dos nativos, inquilinos depois; e de rituais europeus, a linguagem dos proprietários. A incomunicação para Yndios e inquilinos. Para os proprietários, acabarem por ter as sua próprias capelas familiares nas casas da Hacienda. O que colocava mais um símbolo de afastamento com os seus trabalhadores. Com bulas papais, fáceis de adquirir nesses tempos. Capelães e Doutrinários, que reproduziam aos seus próprios futuros Capelães e Curas Doutrinários, incansáveis missionários das varias Paróquias e Vice - Paróquias, entre as quais, Pencahue até o século XIX. Como o caso do infatigável Jacinto Rojas, Cura Mestiço, ainda bem lembrado, filho de Padre Espanhol e de índia da Doutrina de Rauquen. Estrutura social, que tem a sua ordem, organizada processualmente pelas pertenças a países e estatutos adquiridos em esses países. Porque o estatuto de cacique, ainda que inquilino mais tarde na Historia, é de uma filiação misturada, mas reconhecida a linhagem do estatuto, pelas pessoas do lugar. O estatuto não tem uma identidade roubada. Tem uma identidade fechada, silenciosa e longínqua, para manter o seu ego firme e construído, identificado consigo próprio, os seus e os seus símbolos. Ate que a realidade das armas, o cativeiro e a tecnologia, roubam o Eu, que se faz Outro para poder ser um Eu social. No entanto, a memória armazenada na cultura, na memória social e no inconsciente, no superego, criam um comportamento distante e diferente dos outros não mestiços. É assim que fica o cacique, quando inquilino. O Picunche, quando inquilino. Eis porque, o inquilinato só teve direito a se sindicalizar pelos anos 1960: era um sindicato perigoso, agressivo, e que podia tirar terras e dinheiro á oligarquia terra tenente. O estatuto de shaman, é diferente: cura, é procurado por todos. Aceite pelas pessoas naturais das Paróquias e usadas pelas pessoas de além-mar, proprietárias de terras e tratadas pelas machis e ervanários, os shaman locais, em caso de doença Em sítios tão afastados, que nem médico havia nem há. E com tanta praga não rogada, que a abundância de doenças é atribuída as rogas feitas por inimigos. O papel do shaman, é adivinhar quem é quem quer mal a quem. Victoria tem esta estrutura no seu pensamento, da mesma forma que no seu pensamento vai-se organizando o estatuto da filha abandonada pelo pai. Á europeia, não á Picunche. E, no entanto, a sua ancestralidade Picunche faz que ela não queira mal ao pai. Resultado da distancia solidária com a mãe, que assim defende os seus direitos de unicidade monogâmica, aprendida na doutrina, e da escolha amorosa do homem, aprendida na memória social da poliginia, e da prática cultural da mesma, hoje em dia. Esse é pai rejeitado em casa pela mulher à qual o homem não queria já ter acesso. E passa a ser uma mulher com filhos só, uma mulher impossibilitada de ter um outro homem como a ética europeia e Picunche, dizem. Uma mulher que perde marido e a possibilidade de ter outra companhia para apoio.

A ideia da virgindade não é obstáculo á união da juventude, mas a ideia de castidade pós matrimonial, é sagrada: a mulher é feita para criar os filhos. Donde, a mãe não tem homem, só crianças; e o pai não tem filhos, só mulheres ou homens, alhures e temporais. A solidão dos dois, a guerra pelos filhos, por uma ternura ternurenta própria. Qualquer homem que aí aparecer, não teria comunicação com um grupo que aprendeu a comunicação afectiva e emotiva com os progenitores originais. Eis que os homens vão buscar depois, mulheres novas sem filhos, para companhia. Como a genealogia dos trezentos e pico de anos Picunche, inquilino, chileno, diz. Diz que o pai de Victoria faz a sua própria família paralela e mais nova. E diz da sua mestiçagem entre os séculos XVII e XVIII. Forma normal de prover pela força de trabalho para a reprodução social. As famílias espanholas encomenderas, bem como proprietárias depois, fecham-se no rito sacramental do matrimónio e na descendência claramente estabelecida, o sangue limpo. Sangue limpo coordenado a herança das terras recentemente adquiridas. Que nenhum mestiço ia herdar, mesmo que filho com nome do pai, o que raramente acontecia: a mulher nativa, ficava com os filhos pelos anos 1600 e 1700. Só quando fica mais estruturada a interacção de raças e grupos sociais, nos séculos XIX e XX e quando há outra vez possibilidade do inquilino ser proprietário, que os filhos mestiços ditos naturais, são mais raros. A relação civil e ritual católica vão também sendo adquiridas pelo inquilino. As vezes, já proprietário de alguma terra ou herdada ou doada ou comprada. A sociedade do Estado Espanhol é reproduzida no Chile, excepto entre indígenas hoje, com identidade exclusiva e excludente activa, como os Mapuche. Mapuche que têm uma lei própria para o seu governo. Da qual carecem os Picunche, pouco habituados a serem, hoje, outra etnia que chilena. Mas com hábitos Picunche. Porque Promaucaes ou Picunche, apesar de terem lutado contra a invasão nos séculos XVI e XVII, rapidamente são ganhos para a Coroa Hispânica, resolvido o Tratado de Tordesilhas que expulsa de Toconay, na Cordilheira perto de Pencahue, aos jesuítas que lutavam pela memória nativa, como defini antes. Ficam os que ficam, especialmente os torturadores Teatinos, cujas cadeias subterrâneas, com indígenas atados e mortos no tormento inquisitório, são guardados hoje como museus, que poucos desejam ver. A lembrança dos mortos da ditadura dos anos setenta a noventa, está muito perto, como longe estão Teatinos, Agostinianos, Dominicanos, Franciscanos, na memória batida dos chilenos. Entre os quais, Picunche. Herança de Victoria e a sua geração. Uma Victoria que não repara que a mãe perde o marido por querer sair da poliginia herdada pelo costume e reproduzida entre o estrato criollo e a espanholada lá ficara a serem os proprietários ricos que na Ibéria nunca seriam. E que ciúme, guardam para si. Essa Victoria não repara que a mãe fica só, apoiada apenas pelos germanos (irmãos, jerga antropológica) e filhos. Até morrer de exaustão. Apoiada por irmãos e irmãs, a reproduzirem os hábitos nativos. Que Reneria rejeitou. E fez rejeitar as suas filhas, por carinho. O caciquismo patriarcal morre com elas, quanto aceitação do facto. O que não desaparece é o sistema patrilinear, porque a lei manda.

Desde 1853. Antes, a mulher que ia embora, levava a filharada com ela e tirava o nome. Não havia mais registos dos que os do ritual católico para baptizados. Desde 1879, muda, há Código Civil, há Registo Civil, há matrimónio civil. Há a chegada do liberalismo radical francês, com Francisco Bilbao e Santiago Arcos (1850). Victoria sabe que os ancestrais amavam quando ela não era. É possível vê-lo nas relações heterogéneas das pessoas, dentro, fora, ao lado, do matrimónio. O matrimónio tem servido só para assegurar heranças, e para assegurar trabalhos e, bem entendido, companhia, afectividade e reprodução para a produção. Não é fácil ser admitido como inquilino, se não há mais trabalho que só o trabalho aportado por um homem só. Homem só que não tem quem o liberte da sua pessoal reprodução nem tem reprodução humana que assegure a sua continuidade. Eis que para um homem só, não há trabalho. Só podem ficar sós os ricos, não os pobres: os ricos, enquanto menos, melhor; os pobres, enquanto mais, melhor. Menos herdeiros, mais trabalho, em cada caso. Esses que têm que ter um grupo doméstico para ser força de trabalho. Esse que têm que ter herdeiros não viciados na riqueza. Não é que Victoria não entenda e adquira na sua epistemologia, é que etnocentricamente, não o tinha relatividade, o não o tinha adquirido. Como não tinha adquirido de forma consciente, de que todo homem para ela, deve ser um primo, essa consanguinidade Picunche do passado, conveniência proprietária de hoje. O matrimónio é importante, para obter trabalho e complementar a sua divisão. Como Durkheim nos habituara a dizer (1893).

Os ancestrais, amem ou não, estavam obrigados a viver juntos, a aguentar, a amar, em fim. Como diz Esperanza de Pedro Martinez, a magnifica história de vida de Oscar Lewis (1964): “ tive que casar com Pedro, porque era assim que a família era, os hábitos eram. Assim tínhamos terra junta. Assim, as famílias ficavam ligadas para trabalharem as terras contíguas. E ele esperou uma semana, foi a minha maca noite trás noite, e eu sofri, deixei de sofrer, e um dia senti e amei. Até agora. Aos nossos setenta anos” Como falam os Maya do México, com Salvador de Madariaga (1946), falam os inquilinos, antigos Picunche, vozes registadas nos costumes de hoje e no arquivo. Os ancestrais de Victoria estavam obrigados a amar. Até pela honra da mulher. Que, ou faz a comida e serve, ou não é mulher digna. É pela dignidade do homem, que a sua mulher nem fala nem vê nua, assunto que não é de homem. Como, permita o leitor esta lembrança pessoal, da minha vida entre Picunche, Mapuche, Huilliche, Pehuenche, lembrança do dia que entre Mapuche, a minha mulher e eu, a saber que nas rucas não há duche, de manha cedo, ela e eu estávamos nus a tomar banho no frio canal. E passam os homens e disem! Don Raulito, nu com a sua mulher! E a minha categoria não desceu, porque o estatuto familiar permitia excentricidades. Excentricidades que depois os mais novos falaram comigo, porque queriam também fazer. E eu ensinei. O que Victoria não pode aprender, pelo pudor obrigatório costumeiro, de um Concilio de Trento introduzido no amar das Doutrinas. Que, de certeza, era a forma que o poder político mandava amar, a alma, não o corpo. Como é reflectido no brilhante filme El rei pasmado (1991). Como pasmados ficavam aborígenes impedidos de brincar que faziam nos mingacos, à beira rio, entre milhos, nas eiras. Um erotismo castrado ao público pelo pudor ético das doutrinas Castelhano - Bascas a dominar a livre circulação da afectividade que as crónicas e as genealogias do meu sagrado arquivo descoberto em Pencahue, ensinaram a Victoria. E a mim. Como foi com os ancestrais de Pilar em Vilatuxe.
publicado por Carlos Loures às 15:00
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