Domingo, 13 de Março de 2011

Blogar é escrever? – Carlos Loures

 

Talvez a pergunta pareça não fazer sentido.

 

O que pergunto é se escrever num blogue não será como escrever na areia da praia – escrita varrida e apagada pelas vagas. Neste caso, pelas vagas de posts que rapidamente submergem o que se escreve. Num artigo há tempos publicado no “Le monde des Livres”, Pierre Assouline, um crítico literário e escritor francês de origem marroquina, levantava esta questão. Diga-se que ele tem um blogue de sucesso La Rèpublique des Livres.

 

Segundo dizia Assouline, são mais raros do que se pode julgar os homens de letras que blogam e por duas razões: uma boa parte deles não mantém qualquer convívio com o computador e com o universo que se encontra subjacente, e os que estão ligados à net depressa se apercebem de que a manutenção de um blogue representa um exercício de regularidade e um acréscimo de trabalho que obrigam a sacrificar todos os dias algumas horas do tempo de escrita. Assouline não o diz, mas eu acrescento que, além do tempo que se ocupa a redigir os textos, o vício de consultar o blogue diversas vezes ao dia, ler e responder a comentários, transforma-nos em blogo-dependentes.

 

O espaço virtual do blogue é para nós como um local onde temos de ir com frequência; entre os bloguistas estabelecem-se relações de amizade e de antipatia – o blogue é uma porta que se abre nas nossas vidas e nos permite sair da nossa realidade e entrar num universo paralelo. Permite-nos mesmo assumir uma personalidade diferente da que ostentamos na vida real. Claro que isto só é grave (no caso de um escritor) se o blogue o impede de avançar com os seus trabalhos.

 

Diz o jornalista que o facto de a blogosfera não ser meio a que os escritores se afeiçoem facilmente, constitui ainda mais razão para referir aqueles que não só se aventuram por esses caminhos, como dão também um prolongamento de tinta e papel ao seu diário on line, como era o caso de José Saramago, com quase 90 anos, e do romancista francês Èric Chevillard, de 46 anos. Não vou transcrever as entrevistas, disponíveis na Rede, apenas referir um ou outro aspecto do conteúdo do texto de Assouline.

 

Entre os dois, além de serem escritores e terem um blogue, há uma outra analogia – ambos passam a livro os textos que publicam no blogue L’autofictif,(O Auto fictício), o de Chevillard, O Caderno, o de Saramago. Não sei qual é o volume de vendas dos livros do escritor francês. Quanto ao nosso Nobel, as tiragens são de tal ordem que seria um crime, do ponto de vista do negócio editorial, desperdiçar os pequenos textos que o escritor vai produzindo para o blogue.

 

A edição francesa de O Caderno (Le Cahier), tem prefácio de Umberto Eco, o que, de todos os pontos de vista, é uma mais-valia. Eco classifica Saramago como um bloguer enraivecido. Saramago esclareceu: «Enraivecido é demasiado forte. O que procuro exprimir é a indignação perante o estado do mundo, a miséria, a angústia em que milhões de pessoas vivem. Uma grande parte da humanidade vive num permanente apocalipse desde que nasce até que morre. Isto é que é o progresso? É isto a civilização? Enraivecido, não: indignado».

 

Pergunta Assouline: – «O blogue é para si como que um complemento do seu trabalho de escritor ou corresponde a um prolongamento do estatuto de intelectual ?» Saramago respondeu: – «Não vejo onde esteja a diferença. O blogue é um trabalho de escritor tal como o foram, entre 1993 e 1997, os cinco volumes dos «Cadernos de Lanzarote» nos quais reuni textos de maior ou menor extensão: ensaios, resumos de conferências, notas de viagem e de leitura, comentários sobre a actualidade, evocações diversas, uma espécie de blogue avant la lettre… A bem dizer não sou um verdadeiro bloguer e isso vê-se». Como vemos da relação blogue/literatura extraem-se sinergias».

 

Vai para dois anos que comecei a colaborar em blogues e tenho o hábito de arquivar o que vou escrevendo. Posso confirmar que uma parte importante das muitas centenas de páginas que tenho acumulado, constituem material que poderei aproveitar posteriormente. Digamos que blogo, mas nunca me esqueço de que o blogue é um meio, não um fim. Um meio expedito, que possibilita um contacto com leitores. Embora esse contacto não se possa comparar ao que um livro estabelece.

 

Outro aspecto para quem bloga com a preocupação de escrever é o da promiscuidade que existe na blogosfera. Penso ser urgente a criação de um código deontológico do bloguista ou a actividade corre perigo. Não é possível manter uma plataforma comunicacional onde tudo se diz mais ou menos impunemente. Um bloguer é um cidadão com os direitos e os deveres dos demais. Tem de ser responsabilizado pelo que diz. O fenómeno da explosão bloguística, instalou uma promiscuidade inconveniente e poluidora.

 

 

 

 

Refiro-me à invasão da blogosfera por pessoas que nada de importante ou interessante têm a comunicar. A liberdade ilimitada transforma-se em falta de liberdade. O facto de muitos blogues serem como uma parede branca aberta aos grafitistas, onde se escrevem obscenidades gratuitas, se põem tags demarcando territórios de droga e se exibem, por vezes, magníficas pinturas, descredibiliza os blogues. Tal como as belas pinturas nas paredes e muros, os textos de qualidade perdem-se na floresta de irrelevâncias, quando não mesmo de banalidades, por vezes, obscenas.

 

E, muitas vezes, o poder dizer-se tudo equivale a não dizer nada. E não estou a falar de censura - a erradicação automática do anonimato, podia ser um começo.

 

 Não significa isto que a blogosfera deva ser território exclusivo de escritores. Era o que faltava. Um carpinteiro, um cirurgião, uma cozinheira, um arquitecto, seja quem for, pode ter comunicações a fazer, saberes a registar e a compartilhar. Até a função catártica deste meio é respeitável - desde que quem a exerce se respeite e respeite quem o vai ler. Em suma, respondendo à pergunta inicial – blogar pode ser escrever e pode ser muitas outras coisas.

 

Parafraseando o Mário de Carvalho, diria que era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto.

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010

WikiLeaks – A Guerra da Internet

Augusta Clara de Matos

 
Apurem-se ou não os reais objectivos da WikiLeaks ao divulgar informação dos telegramas secretos da diplomacia norte-americana, seja qual for o desfecho que este caso vier a ter, ele já começa a ser conhecido como a Guerra da Internet porque as implicações na Rede não deixarão de se fazer sentir de uma ou de outra forma. Nada ficará como dantes. Entre a extrema liberdade de há vinte anos e a extrema segurança que é um perigo e, certamente, a maioria dos utilizadores não estará disposta a permitir, há toda uma gradação de possibilidades de que ainda não se vislumbram os contornos.

Entretanto, a revolta na Rede prossegue entre activistas do ciberespaço a favor e contra as acções da WikiLeaks dando origem a boicotes e a sabotagens de sites de empresas de seguidores de uma ou de outra posição. Há jornalistas que se manifestam contra esta acção da WikiLeaks a pretexto de não serem profissionais da informação a noticiarem o que tem vindo a lume. É muito estranho que o façam quando a maior parte deles vive presentemente enfeudada às posições ideológicas dos grandes grupos da comunicação social, desprezando o seu dever deontológico de nos dar a conhecer as realidades a que não temos acesso por nós próprios como cidadãos.

As acções de pirataria na Internet são praticamente impossíveis de combater, à semelhança das de pirataria em alto-mar, pelo mesmo motivo: não há legislação adequada para as condenar. A própria concepção da Rede é de molde a poderem tornear-se os obstáculos à passagem da informação. Nesse sentido, contribui igualmente uma grande variedade de sites, individuais ou de outra natureza, os blogs, o facebook, o tweeter, etc., através de cujas malhas é possível, actualmente, escapar.

Mas, perante a hipótese de todos os recantos da política suja dos Estados poderem ser vasculhados, muita cibernética se porá em acção para o evitar. É mais do que certo, a criatividade neste campo vai ser posta à prova já que seria dramático, à escala mundial e, por isso, não espectável, os Estados Unidos da América virem a fazer uso da sua capacidade de desligar a Rede em qualquer lugar do planeta quando muito bem lhes aprover.

Uma coisa é certa: este assunto não deixará de ser tema do dia durante muito tempo.

Nada do que se tem sido divulgado é coisa que nos espante, nem mesmo a vigilância dos EUA sobre a ONU. O que acontece é que, como dizia alguém num debate televisivo, “nos estão a esfregar com isso na cara”. E é verdade.

Que dúvidas temos nós sobre as acções do Big Brother actualmente mais activo, esteja Bush ou Obama na presidência? Continuo a não duvidar da boa vontade deste presidente dos Estados Unidos, mas não sou ingénua a ponto de acreditar que o poder, naquela superlativa máquina de negócios e de guerra, está integralmente nas mãos do presidente.

Consta que, do material divulgado pela WikiLeaks, não faz parte nenhum documento crítico às grandes linhas da política internacional de Barak Obama como o entendimento com a Rússia, a questão do Irão ou as negociações da paz no Médio-Oriente, apesar do malogro de que estas se revestiram até agora. No entanto, muitas outras acções condenam, sem apelo nem agravo, a chamada maior democracia do mundo.

Por princípio, e porque a experiência do tempo vivido assim mo ensinou, há muito tempo que não dou o meu apoio incondicional, logo à partida, a acontecimentos cuja virtude política parece óbvia. Lembro-me bem que bastantes houve transformados mais tarde em verdadeiros crimes contra milhares de seres humanos como, por exemplo, a política dos khmeres vermelhos no Camboja. Aqui navegamos em águas diferentes mas, pelo sim pelo não, é melhor acautelarmos a objectividade e ir seguindo sem emoções o decorrer dos acontecimentos.

E, para além da liberdade de informação na Internet correr riscos, temos perante nós a questão de saber que mais perigos vai, também, correr a democracia já tão adulterada em que nos querem convencer que vivemos. A justiça, o tão apregoado pilar dos chamados Estados de Direito, vai ser igualmente testada nos julgamentos quer do militar que passou as informações secretas ao editor da WikiLeaks, quer no deste próprio, cuja imediata prisão sob a acusação de crimes sexuais praticados na Suécia nos faz interrogar sobre a sua oportunidade. Conhecemos este tipo de processos ao longo da História.

A informação que tem chegado faseadamente aos jornais irá moldando a nossa opinião. Necessitamos de estar bem atentos porque este não é um assunto de somenos importância.

A divulgação das informações secretas sobre a ingerência dos serviços da inteligência norte-americana nos interesses de outros países e no interior das próprias organizações internacionais, com todas as conivências que venham a ser reveladas, tem, sem dúvida, foros duma crise mundial que, no entanto, como sabemos, o sistema capitalista tão bem tem sabido ultrapassar.

Como não se, nesse tabuleiro, a rede não é menos intrincada do que a do mundo virtual? Muitas malhas, muitos nós dão segurança aos ameaçadores e aos ameaçados em simultâneo, se é que a distinção entre uns e outros é assim tão grande. Os povos que eles governam são outra coisa, uma realidade bem distinta. Passam ao lado destas maquinações.

Muitas ligações se irão fazer e desfazer para se anularem ressentimentos e, na paz dos deuses do capital, grandes potências e os seus capatazes instalados no poder dos países pobres passarem o apagador no quadro do que parecia uma ameaça para uns e outros.

Mas a Guerra da Internet está para durar. Por enquanto é guerra civil. Passará ou não a outra escala? Creio que não. Só se for contra todos nós, os cibernautas e a liberdade de informação.



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publicado por Carlos Loures às 11:00
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

O Estrolabio faz hoje seis meses

No primeiro dia do nosso blogue, em 8 de Maio de 2010, dizíamos no editorial de abertura: «Neste preciso momento estão a ser criados cinco mil blogues por esse mundo fora – o Estrolabio é apenas um deles. Esta é a realidade - todos os dias nascem aproximadamente 120 mil blogues. Calcula-se que, actualmente, existam cerca de 200 milhões. A blogosfera é um universo em permanente expansão e temos total consciência da nossa insignificância» (…) O Estrolabio não vem para competir a não ser consigo mesmo. A única coisa que quem começa pode fazer é lutar pela qualidade dos posts que edita. Quem somos e, sobretudo, o que queremos? (…)

«Queremos expor e defender aquilo em que acreditamos de uma maneira frontal, mesmo quando sabemos não serem consensuais as ideias que defendemos. Porque aquilo em que cada um acredita e aquilo que cada um defende, não reflecte a linha de orientação do nosso blogue. Essa linha é constituída por valores tais como o amor pela verdade, pela honra e, sobretudo, pela Liberdade». (…) «Estrolabio é um espaço plural, uma praça pública e livre onde é proibido proibir ideias políticas, teses científicas, tendências filosóficas, crenças religiosas, convicções agnosticistas ou ateístas, preferências clubísticas, orientações sexuais… Aqui, todos podem montar a sua banca desde que não incomodem os vizinhos. (…)« ao Estrolabio são bem-vindos todos os que defenderem a Liberdade.» (…)»para defender a Liberdade, é preciso vedar a passagem às «liberdades»». (…)

«Em matéria de política portuguesa e internacional, Estrolabio está aberto a todas as tendências (como já se disse, menos às que neguem a Liberdade como valor primacial). Tentaremos não enveredar pela análise feita «em cima do acontecimento». Críticas à orientação do Governo ou às posições assumidas pelas oposições, preferimos que sejam feitas numa perspectiva verdadeiramente crítica (no sentido nobre da palavra). Fugiremos à chicana, ao humor político fácil, ao ataque gratuito, ao aproveitamento de gaffes… » (…)Tentaremos a crítica construtiva, consistente, portadora de alternativas. O que não significa que não aceitemos a colaboração de quem ataque o Governo ou de quem o defenda. A única coisa que pretendemos é que as posições partidárias não se baseiem em boatos ou em picardias gratuitas». (…)«não somos um jornal ou um serviço noticioso de uma estação televisiva ou radiofónica, o imediatismo não entra na nossa massa genética.» (…) Estaremos muito atentos ao mundo da cultura – livros, filmes, peças de teatro, exposições de arte – sem a preocupação de uma cobertura exaustiva - merecerão a nossa especial atenção. (…) «desejando-se a maior liberdade, há princípios a respeitar, pelo que algumas «liberdades» - as tais que afrontam a Liberdade - não serão aceites».

Seis meses depois, fazendo um balanço, talvez nem sempre tenhamos cumprido o programa a que nos propusemos, mas temos feito um grande esforço nesse sentido. Os colaboradores têm sido exemplares e nunca foi necessário impedir a publicação fosse do que fosse.

Em seis meses publicámos cerca de 2400 posts. O Estrolabio que hoje completa seis meses, mesmo sem a irrupção dos primeiros dentes é um devorador implacável. A sua alimentação  à base de posts originais, consiste em cerca de 14 artigos por dia. O número de visitas, bem como o de leituras  tem vindo a aumentar, sendo notável o tempo médio por leitura. Os que nos visitam, estão espalhados por todos os continentes.

Em suma -  o balanço que fazemos da nossa actividade durante estes primeiros seis meses de existência é francamente positivo.  
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Catarse e Catar-se

Carlos Loures

Catarse, substantivo feminino, é a expulsão daquilo que, sendo estranho à essência ou à natureza de um ser, o corrompe. É um processo de purificação. Embora não pareça, catar, o verbo transitivo, na sua forma reflexiva catar-se, tem um significado muito semelhante, embora mais popular. Enquanto catarse nos remete para o classicismo grego, para o orfismo, o pitagorismo, o platonismo ou para acepções mais técnicas, do foro da psiquiatria, o verbo catar, menos clássico, mais democrático, lembra-nos mães, às portas de suas casas em bairros pobres espiolhando os filhos ou, numa versão mais National Geographic, chimpanzés catando-se mutuamente (porque os sais que extraem das pelagens fazem falta à sua dieta - não sei se isto é verdade. A Dra. Jane Goodall, grande especialista no estudo da espécie, não o confirma).

O blogue é uma forma moderna de catarse. Moderna e barata, pois os psiquiatras não cobram pouco… É também uma forma de cada bloguista se catar, limpando-se de obsessões, ou de os bloguistas se catarem mutuamente, extraindo uns dos outros os sais necessários ao seu equilíbrio emocional. Catarse = catar-se. O português não é uma língua traiçoeira – é como um cão fiel e bonacheirão - desde que tratada com respeito, não nos morde. Mas voltemos aos blogues, esquecendo a sua função catártica e voltando-nos agora para a sua vocação comunicacional.

Numa entrevista dada no Brasil em 2009, um entrevistador perguntou a José Saramago se acreditava que a organização das pessoas em rede, permitida pela explosão dos blogues, poderia ser um motor para a mudança social no futuro. Ao que o escritor respondeu: «Eu tenho umas quantas dúvidas. Quando aparece um caso como o da Internet, com a potencialidade que apresenta de comunicação, de troca de ideias, as pessoas falam de revolução pela Internet, mas no fundo somos ingénuos e vamos continuar a ser, aconteça o que acontecer. Não sei como essa revolução se daria. A Internet daqui a dez anos talvez não seja o que é. Nós estamos livremente na rede, não sei se em dez anos essa liberdade será permitida. E mesmo que isso não aconteça, há uma questão central: quem é que está no poder? Estamos nas mãos do poder e, portanto, é-nos praticamente impossível propor uma alternativa económica, sem uma alternativa política e social. Podemos organizar-nos em rede e fazer uma manifestação nas ruas, mas no dia seguinte acaba. Porque os meios de comunicação podem simplesmente decidir não falar dela. E se não falam dela, a manifestação não existiu e acabou». Grande verdade – hoje em dia, o que não é relatado pela comunicação social, é como se não existisse.

Bem, a liberdade da blogosfera ameaçada pelo poder, é um cenário verosímil. Mas há outras ameaças. Quando se abriram as primeiras estradas, depressa nelas apareceram salteadores. Quando se iniciaram as rotas marítimas, a pirataria não se fez esperar. As rotas aéreas também não são imunes à pirataria. A blogosfera, rede de caminhos entre milhões de pessoas, é também apetecível para flibusteiros especializados. Quem é que vai impedir a catarse? Quem é que vai impedir os bloguistas de catar-se mutuamente? O poder? Os piratas? Há um terceiro cenário plausível – a ilimitada liberdade da blogosfera pode transformar-se num elemento de auto dissolvência, desencadeando uma implosão.

O mais provável ainda é uma catadupa de novas tecnologias tornar esta obsoleta e daqui por umas dezenas de anos esta catarse, terapia ocupacional, actividade dos tempos livres, ser objecto da ironia dos nossos sucessores. Porque a natureza humana não muda, a tontice que hoje nos faz rir das modas de há cem ou cinquenta anos, levará qualquer idiota a ridicularizar os blogues, com a mesma desfaçatez com que hoje nos rimos quando vemos dançar o charlston. Ora vejam.

Passaram só noventa anos.

publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sábado, 4 de Setembro de 2010

A comunicação social e a democracia

João Machado


É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.



A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.
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Ouçam e vejam, de novo, esta troca de insultos, em directo, na TVI:
O bastonário da ordem dos advogados Marinho Pinto acusa Manuela Moura Guedes de ser uma péssima jornalista.


publicado por Carlos Loures às 03:00
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Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

Acompanhantes de luxo - o baile de Pinto da Costa - a tacanhez de Salazar.

Luís Moreira

Salazar era tacanho , comparado com as vedetas de hoje


Esteve 47 anos a viver entre a D. Maria e o galinheiro de S. Bento, cheio de medo, não ía para lado nenhum, era o "sr. esteve" porque nunca se anunciava que ía, anunciava-se que tinha ido, manteve todo um povo na miséria, nenhum governante estrangeiro o recebia, meteu-se em guerras onde sempre perdeu, todo um país exposto ao rídiculo.Poderia ter feito tudo "democraticamente",
à luz do dia, com viagens por todo o mundo . Se eu não tivesse um ódio profundo "ao sr. professor" ainda acreditava que o melhor mesmo é uma ditadurazinha, não se gasta dinheiro em eleições, pode sempre dizer-se que a ditadura é "a bem da nação". Só vejo um mal, são aqueles discursos de três horas do "querido líder", mas alguma coisa se havia de arranjar, nem que fosse entrar na clandestinidade...

PS: agora me lembro que Manuela Ferreira Leite já teve esta ideia, mas era só por seis meses...

O baile de Pinto da Costa

Um verdadeiro baile que Pinto da Costa deu para as câmaras televisivas. Um baile a quem o fez passar por coisas menos boas, por notícias sobre a sua vida e o seu património, mas um baile, no caso, uma valsa, ao governo na pessoa do secretário de estado do desporto.

É uma boa maneira de andarmos duas semanas sem falar no Freeport, nem no Face Oculta, foi por isso que o Laurentino veio a correr dizer que era grave, muito grave, tão grave que mandou instaurar um inquérito, sem ouvir o interessado, diz Pinto da Costa

Eu já estive num almoço, mais uma vintena de pessoas, com o Pintinho que é um poço de humor, de capacidade oratória, capaz de entreter uma plateia durante duas horas com o pessoal rendido à sua erudição . Conta histórias, que se percebe serem verdadeiras, sem nunca pisar o risco, nessa tarde o "bombo da festa" foi o major,(presente) toda a gente percebia, mas o sr Pinto da Costa, fazia de conta que não era com ninguem, jogadores vendidos duas vezes com a massa e entrar outras tantas, mas ninguem se queixa, segundo o velho principio "zangam-se as comadres..."

Um tratado , deu-se ao luxo de aconselhar o governo sobre o limite do rídiculo, já chamou "filho da puta" aos maiores amigos, e não é só no Porto, é em todo o lado, é até uma prova de amizade, "meu cabrão por onde andas..." tudo amizade e é a maneira de se estar no futebol, linguagem universal, "ó maricas passa aí a bola..." só quem não percebe nada de bola é que acha que isto são ofensas, nada, é tudo carinho, ferramentas, ambiente dos balneários...


Acompanhantes e visitas na blogosfera

Um dia um colega de blogue revelou-me que eu tinha um texto intitulado "Acompanhantes a 6,49 Euros" que já tinha sido visitado por milhares de pessoas. Eu, francamente,achei grotesco, é um texto simples que tenta fazer humor com as acompanhantes de mão cheia, que custam dinheiro, mas são companhia em qualquer parte. Com glamour, inteligência, saber estar...

Incomodado com a revelação, perguntei a outra colega do mesmo blogue como se explicava aquilo, tantas visitas e um ano depois ainda com visitas.A resposta foi lúcida e sagaz, "pois, Luis, sempre que no Google alguem escreve a palavra "acompanhante", o teu texto é um dos seleccionados"!

Lá se foi o prémio da literatura blogueira!
publicado por Carlos Loures às 13:30
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

Entrámos hoje no terceiro mês

O nosso blogue inicia hoje o terceiro mês de vida. Nos seus primeiros sessenta e um dias de existência, publicou cerca de seis centenas e meia de posts. Porque alguns desses textos terão passado despercebidos, vamos reeditá-los à razão de um por dia. Será numa rubrica dedicada a quem está acordado até tarde .

Destes sessenta e um dias de actividade, só podemos fazer um balanço positivo. Não somos um blogue com índices de audiência muito elevados, mas temos leitores fiéis e atentos. Com os meios que temos para monitorizar a leitura, podemos afirmar que, em média cada pessoa que nos visita, lê 3,3 posts demorando 7:26 minutos na visita. Quem conhece a generalidade dos blogues, saberá apreciar estes números.
Surpreende-nos, nessa monitorização, a proveniência dos leitores. Sendo que um pouco mais de 40% nos lêem do exterior, verificamos que o Brasil está à cabeça, com numerosos leitores espalhados por todo aquele imenso país. Mas há quem nos siga dos Estados Unidos, da Venezuela, do México, da Argentina, do Chile, do Equador. África, sobretudo os países de língua oficial portuguesa, também estão bem representados. Da Europa chegam-nos leitores de quase todos os países. Na Galiza concentra-se uma grande parte. Mas temos leitores na Austrália e, grande surpresa nossa, na Mongólia!

Como se sabe não temos uma causa central – somos uma federação de causas: a restituição de Olivença a Portugal, a ligação à Galiza e a defesa do idioma comum, a independência das nações oprimidas pelo estado espanhol, a contestação do modelo de democracia pelo qual somos governados, são algumas delas…

Somos 23 colaboradores, mas há perspectivas de mais algumas adesões. Não nos preocupa sermos poucos. Convidamos as pessoas em função da sua qualidade e julgamos que isso transparece na qualidade global do blogue. E recordamos o que dissemos no editorial de abertura: « o Estrolabio é um espaço plural, uma praça pública e livre onde é proibido proibir ideias políticas, teses científicas, tendências filosóficas, crenças religiosas, convicções agnosticistas ou ateístas, preferências clubísticas, orientações sexuais… » (...) «ao Estrolabio são bem-vindos todos os que defenderem a Liberdade. Por isso, para defender a Liberdade, é preciso vedar a passagem às «liberdades». (...) «Sem pretensões a ficar à frente seja de quem for, queremos, no entanto, ganhar o nosso espaço. Como? Lutando pela liberdade de expressão e pela qualidade, pela isenção e pela originalidade. »(...) «não existe uma linha editorial orientada ideologicamente ou segundo qualquer ditame religioso, filosófico ou de outra ordem. Muito menos, futebolístico. Mas não fugiremos a abordar a temática, do futebol. Tentaremos não entrar na casuística de conflitos, polémicas, do dia a dia – há muito quem se ocupe desses problemas. Digamos que não sendo um tema que nos esteja vedado, de modo algum o privilegiaremos. Em matéria de política portuguesa e internacional, Estrolabio está aberto a todas as tendências (como já se disse, menos às que neguem a Liberdade como valor primacial). Tentaremos não enveredar pela análise feita «em cima do acontecimento». Críticas à orientação do Governo ou às posições assumidas pelas oposições, preferimos que sejam feitas numa perspectiva verdadeiramente crítica (no sentido nobre da palavra). Fugiremos à chicana, ao humor político fácil, ao ataque gratuito, ao aproveitamento de gaffes… » «Tentaremos a crítica construtiva, consistente, portadora de alternativas. O que não significa que não aceitemos a colaboração de quem ataque o Governo ou de quem o defenda. A única coisa que pretendemos é que as posições partidárias não se baseiem em boatos ou em picardias gratuitas.» Mantemos todas estas posições anunciadas no início.

Fazemos um apelo a quem nos lê: por favor, comentem os posts – elogiando ou contestando, concordando, discordando… Os comentários são ideias em movimento e, aí na falta de feed back, reside a nossa maior limitação. As críticas, favoráveis ou desfavoráveis, são essenciais. Inclusivamente aceitamos sugestões sobre o que gostariam de ver no Estrolabio e aceitamos posts desde que os autores se identifiquem; caso se integrem na nossa ampla linha editorial, publicá-los-emos. Desafiamos quem nos lê a partir de países estrangeiros a, além de nos darem a sua opinião sobre o que fazemos, a descreverem-nos realidades sociais, culturais, políticas, dos países em que estão.

O Estrolabio agradece a todos a atenção que lhe dispensam. Faremos o possível para não vos desiludir.
publicado por Carlos Loures às 13:30
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Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Blogosfera - universo em expansão

Carlos Loures

O que é um blogue? Uma feira de vaidades onde se exibem habilidades ou um espaço plural onde se expõem opiniões, sujeitas depois, a críticas, favoráveis ou desfavoráveis? Será também um meio de aliviar tensões, deitando cá para fora o que nos aflige ou preocupa. A esta função catártica há mesmo quem chame blogoterapia. Um blogue parece ser um pouco de tudo isto. Fonte dinâmica de informação e de entretenimento, os blogues possuem também o tal poder catártico, pois dizem-se coisas que doutro modo ficariam sepultadas e, quem sabe, a remoer dúvidas, a adensar angústias dentro das cabeças dos bloguistas. Aliviando tensões, os blogues terão salvo vidas, evitando suicídios, embora quem viaje um pouco pela blogosfera encontre comentários, disputas, susceptíveis de provocar suicídios. Porque é preciso cuidado com as pulsões que se libertam - podem transformar-se em rottweilers à solta e sem açaimo.

Dizia-me há semanas um amigo que os blogues, mais tarde ou mais cedo, implodem devido às quezílias que se levantam entre os colaboradores. Lutas ideológicas, religiosas, clubísticas, regionalistas, quando não mesmo a luta pelo poder dentro do blogue, vão criando rancores, os comentários azedam e o blogue extingue-se. Porém, neste momento estão a ser criados mais de 80 blogues, pois é o que acontece em cada segundo que passa; cinco mil por minuto, 120 mil por dia... Em todo o mundo, devem existir cerca de 200 milhões. Nesta perspectiva, acabar um blogue, não é grave, pois a blogosfera é um universo em permanente expansão. Agora, vejam esta definição:


“A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente». Clara Ferreira Alves teria supostamente escrito estas linhas no Diário Digital, texto que levantou a ira de muitos bloguistas. Soube-se depois que era apócrifo. Porém, sendo apócrifo, não é totalmente destituído de razão – os blogues transformaram-se em receptáculos de prosas absolutamente impensáveis – a iliteracia, a ignorância, ao fanatismo desbragado (político, religioso, futebolístico…), tudo é acolhido nos blogues.

Há blogues onde se dá vazão aos sentimentos mais primários, à obscenidade sem limites, à mais ordinária incontinência verbal, pois na blogosfera, liberdade é igual a impunidade. Nestas condições, de facto, separar o óptimo do rasca, não é fácil. Embora esse seja um problema que não afecta somente os colaboradores dos blogues, reconhece-se que neste meio ele assume uma maior acuidade. A blogosfera é livre e isso é bom enquanto todos se comportarem de forma civilizada. Oxalá a irresponsabilidade não obrigue a criar regras sem as quais até agora se tem vivido perfeitamente.

No Estrolabio não existe uma linha, uma identidade ideológica ou de qualquer outra natureza. Não havendo ortodoxia não pode haver fugas a qualquer linha. Aqui, cada um defende aquilo em que acredita. Sem lançar anátemas sobre aquilo em que os companheiros acreditam, embora possamos discordar, debater. O blogger não tem de respeitar as ideias dos outros (as ideias fizeram-se para ser debatidas, rebatidas e, se necessário, abatidas); mas deve respeitar sempre quem expende essas ideias com que não concorda.

Porque, na nossa opinião, o código deontológico de quem colabora em blogues permite rebater ideias com que se não concorda, por mais sagradas que sejam para outros. Mas obriga a respeitar sempre os outros, mesmo que sejam os defensores de ideias que nos parecem absurdas. É tão simples, não é?
publicado por Carlos Loures às 12:00
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