Domingo, 3 de Julho de 2011

4 - José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин)* - por Carlos Loures

(Continuação)

 

Koba o revolucionário

 

Após ter saído do seminário, o jovem Estaline definiu um objectivo – desafiar e destruir o regime czarista. Seria um percurso acidentado. No Primeiro de Maio de 1900 participou na manifestação realizada em Tiflis. Pela primeira vez, falou em público, revelando-se um orador poderoso e incisivo.

 

Em 1901, o seu gabinete no observatório onde trabalha foi passado a pente fino pela polícia. Koba conseguiu escapar. No Dia da Festa do Trabalho, organizou uma manifestação de massas. Houve uma dura repressão – numerosos participantes foram presos e espancados pela polícia e pelos cossacos. Foi por esta altura que começou a escrever no jornal Brdzola (A Luta). Nos seus artigos fez uma defesa aberta da linha marxista ortodoxa.

 

Manifestação em Moscovo no ano de 1905

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém, na sua opinião, de todas as armas revolucionárias as mais eficazes eram as manifestações violentas, pois o derramamento de sangue tornava o povo mais forte e consciente, reforçando a sua militância e proporcionando-lhe mais um motivo para lutar. Animado por estes princípios, mudou-se para Batum, dedicando-se a tempo inteiro à agitação política.

 

Em 1902 foi detido, percorrendo várias prisões. Em 1904 conseguiu evadir-se indo refugiar-se em Tiflis. Foi também neste ano que se casou com Ekaterina Svanidze,  filha de um trabalhador do caminho-de-ferro e
irmã de um ex-seminarista, tal como ele. Ambos, sogro e cunhado, seriam seus companheiros no Partido.

 

Estaline nunca se iria referir a este casamento. No entanto, supõe-se que terá casado pela Igreja ortodoxa, pois Ekaterina era muito devota, nunca tendo aderido aos ideais revolucionários do marido, do pai e do irmão. Em 1910, em plena juventude, uma tuberculose pulmonar ceifou-a. Foi enterrada segundo o rito ortodoxo.

 

Mas voltemos atrás. Em 1905 por toda a Rússia se vivia um clima de tensão política e social. Disso falaremos amanhã.

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado em 01/07/2011 às 14:28
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Sábado, 2 de Julho de 2011

3 - José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин)* - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

(Continuação)


Iosif, o pequeno seminarista

 

Em 21 de Dezembro de 1879, em Gori, pequena povoação a cerca de 50 quilómetros de Tiflis, na Geórgia, nasceu Iosif Djugachvili,  filho do então servo Vissarion e de sua mulher Ekaterina. Vissarion era um sapateiro iletrado, alcoólico e muito violento – existe aliás na tradição georgiana, a expressão “beber como um sapateiro”. O homem dava frequentes tareias na mulher e no filho. Conta-se que Iosif numa dessas cenas recorrentes, saindo em defesa da mãe, arremessou uma faca ao pai. Mais tarde, alguém dirá que terá sido este ambiente de ódio e de violência que modelou o carácter despótico de Estaline.

 

Em 1886, o pequeno Iosif contraiu varíola, enfermidade que o desfigurará para sempre. Quando melhorou, Vissarion não queria que o filho (com sete anos) fosse para a escola, pois pretendia que aprendesse o seu ofício e viesse a ser sapateiro como ele. Porém, desta vez, não levaria a melhor. Ekaterina ambicionava para Iosif a condição de sacerdote da Igreja Ortodoxa e, dando esperança a esse sonho, em 1888 o rapaz seria admitido na escola paroquial de Gori. Em 1890, Vissarion foi morto, esfaqueado numa rixa de bêbedos.

 

 

Em 1894 entrou no seminário de Tiflis. Nesse ano caiu  novamente doente – uma grave intoxicação no sangue 

iria impedir o desenvolvimento normal do ser braço esquerdo. Tinha quinze anos e datam desta época poemas de sua autoria, dos quais publicou alguns – foi, nesta idade, um leitor compulsivo e voraz, lendo, entre outros, Marx e Darwin.  Tornou-se ateu e assumiu um pseudónimo – “Koba o inflexível, inspirado num herói dos romances populares da Geórgia. Em 1898 aderiu a um movimento social-democrático.

 

 

Em 1898 aderiu a um movimento ecologista. Em Maio de 1898 filiou-se num partido social-democrata. Sua mãe, a doce e paciente Ekaterina, que morreria em 1936, quando o pequeno Iosif era já o todo-poderoso José Estaline, não aprecia aquela  grandeza e omnipotência a que o filho se guindou. Quando este lhe fez uma última visita, disse-lhe.  - Que pena não teres sido sacerdote!

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado em 01/07/2011 às 17:03
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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

2 - José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин)* - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

 

A última ceia

 

 

 

Numa tarde sábado, em 28 de Fevereiro de 1953, na sua datcha de Kuntsevo, Estaline convidou Malenkov, Béria, Bulganine e Kruchtchev para jantar. Ao longo de toda a refeição manteve-se de bom humor. Depois, despediu-se dos convidados e recolheu ao seu quarto. Sentia-se muito fatigado. Olhou em redor. Nas paredes havia grandes ampliações de fotos tiradas na Primavera e no Verão de 1929, nos seus anos de felicidade com Nadja.

Viu-se no espelho – uma sombra confusa apareceu-lhe diante dos olhos, iluminada como um ícone por elogios religiosamente fanáticos e distorcida por clamores de indignação e ódio. Um santo, o «pai da pátria socialista», um déspota perverso, o “maior criminoso da história”?

 

Richard Pipes, professor de História Russa da Universidade de Harvard, dirá que Estaline não tem talento de estadista e que a sua principal capacidade terá sido a de “penetrar no pior da natureza humana” e que com essa capacidade negativa terá mesmo induzido Hitler a desencadear a guerra. Muitos historiadores, marxistas inclusive, endeusam Lenine, remetendo para Estaline todo o odioso de algumas décadas em que uma nação vasta como um planeta passou de atrasada e agrícola a potência industrializada e moderna. Uma transformação
destas dificilmente se conseguiria através de métodos democráticos.

 

A sensação de fadiga aumenta.

 

Estende-se vestido sobre um tapete. À memória ocorrem-lhe imagens dispersas da sua vida que devotou inteiramente a duas causas – ao engrandecimento da sua pátria adoptiva, a Rússia, e ao marxismo-leninismo.

 

(Continua)



 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado às 17:03
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

1 - José Estaline (Иосиф Виссарионович Сталин)* - por Carlos Loures

 

Subitamente na rádio Moscovo

 

Às primeiras horas da manhã de sexta-feira, 6 de março de 1953, a

Rádio Moscovo anunciou subitamente a morte de Estaline.

Uma enorme multidão começou a concentrar-se na Praça Vermelha. Chorando silenciosamente, comprimindo-se umas contra as outras, suportando o frio que subia da mistura de lama e neve que cobria o pavimento, as pessoas esperavam que o corpo fosse colocado na Sala das Colunas do Kremlin. A turba não cessou de aumentar e, ao fim da tarde dessa sexta-feira, a bicha ultrapassava já os quinze quilómetros. Dezenas de milhares de cidadãos soviéticos, de Moscovo e de regiões distantes, passaram perante a urna. Para arranjar lugar nesta fila imensa, atropelavam-se, espezinhavam-se. Diz-se que mais de mil e quinhentas pessoas morreram esmagadas.

 

 

De Vladivostoque, no remoto leste, até Leninegrado; de Arcangel a Astracã, portas e janelas exibiam bandeiras vermelhas com tarjas negras. Mesmo nos campos de trabalho, cheios de homens e mulheres que sofriam na carne uma dura repressão, há desolação e dor. Um estado com duzentos milhões de pessoas parecia sofrer de um sentimento colectivo de orfandade.

 

Em 1936, Louis Aragon, o grande poeta francês, considerou a Constituição estalinista que criara a União Soviética, uma obra acima das de Shakespeare, Rimbaud, Goethe e Puchkine, e Estaline um génio, um filósofo na acepção marxista do termo. Dele disse Milovan Djilas, o político e escritor montenegrino: “No caso de Estaline qualquer crime era possível, pois não existe nem um só que ele não tenha cometido. Seja qual for a medida que usarmos para o medir, merecerá sempre a glória – esperemos que eterna – de ser o maior criminoso da história.”

 

Foi Estaline um génio, como afirmou o autor de Os Sinos de Basileia ou um criminoso como disse o entrevistador de Conversations with Stalin:. Se foi um génio, que ecos restam dessa genialidade e que possam ser comparados a Romeu e Julieta, por exemplo? Se foi um criminoso, como explicar que o povo que oprimiu o chorasse, preferindo morrer espezinhado a deixar de lhe prestar uma última homenagem?

 

 

Numa série de pequenos artigos vamos tentar aprofundar um pouco o mistério de José Estaline.

 

 

(Continua)

 

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*Este texto é, com algumas alterações, o que foi publicado em 1997 no livro Oitenta Vidas que a Morte não Apaga, antologia de biografias ficcionadas dirigida por Fernando Correia da Silva.

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado em 01/07/2011 às 14:18
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Domingo, 10 de Abril de 2011

Biografia de Dominique Plihon - professor at the Department of Economics of Paris-Nord University

 enviado por Julio Marques Mota

 

 

BIOGRAPHY

 

 

Dominique Plihon is Professor at the Department of Economics of Paris-Nord University (France). He is in charge of a Master Program in Banking and Finance. He has been Dean of the Department of Economics from 1995 to 1997.

Dominique Plihon graduated from Paris University ( M.A. in economics in 1969) and from the State University of New York at Albany (United States) (Ph. D. in economics in 1974).

Dominique Plihon worked at the Banque de France (central bank) (1974 – 1983) and at the Commissariat du Plan (national planning agency) (1983 – 1988). He became full time Professor in 1988. He had consulting activities at the Banque de France (1992 – 1995) and at the Banking Commission (Bank Supervision Agency) (1996 – 1998). He was member of the Counsel of Economic Advisers attached to the Prime Minister from november 2001 to december 2004. Dominique Plihon is also chairman of the scientific committee of Attac France since 2002.

 

Dominique Plihon has published widely in the fields of banking, international finance, european economics. Among his publications : « Risk management by credit institutions : macroeconomic modelling attempts », in « Economic modelling at the Banque de France », Routledge, 1996. « The banks , new strategies », a book published (in French) in 1998 by the Documentation Française. « Exchange rates », a book published (in French) by La Découverte in 1999. And the « New Capitalism » published (in French), Flammarion, Paris, 2001. More recent publications edited with other economists are : « Financial crisis » , (Documentation Française, 2004), « The new banking economics » (Edward Elgar, 2007), and “Knowledge and finance – ambivalent relationships at the core of modern capitalism” (La Découverte, 2009). In January 2011, he completed a Report for the Counsel of Economic Advisers on “Central Banking in the aftermath of the financial crisis”. He has a forthcoming publication in collaboration with Robert Guttmann (Hofstra University) “Whither the Euro ? History and Crisis in Europe’s Single-Currency Project” to be edited in a Handbook on Crisis at the Cambridge University Press.

 

PS: na semana que vem vamos ter textos do Professor Dominique Plihon

publicado por Luis Moreira às 23:00
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Sábado, 5 de Março de 2011

Fialho de Almeida - biografia - 3

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Loures

 

(Conclusão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

O FIM - «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO»


Fialho de Almeida «Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim! enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou... As suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as ele para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de bronze aqueles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!... – Fuja. – Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às oliveiras que plantei, à vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»

 

Entretanto a República é proclamada e Fialho, que, exceptuando o curto período da sua sectária e fútil adesão ao franquismo, outrora tanto e tão acerbamente criticara a moribunda instituição monárquica, não se dá melhor com o novo regime. As suas aceradas e felinas garras continuam a arranhar - agora a sensível pele da jovem República, a republiqueta, no seu peculiar dizer: «Dada a ignorância e o desmazelo relaxado, que foi o que a Monarquia legou às classes médias, dadas as tendências vaziamente exibicionistas, que foi o que o partido republicano deu às multidões, a República, como forma de governo, há-de reproduzir todos os fracassos da Monarquia... Na essência, o País ficará o mesmo. Que digo eu? Ficará pior.» Não é por isso de estranhar que fanáticos paladinos do barrete frígio, juntamente com alguns «republicanos de 11 de Outubro», lhe caiam furiosamente em cima.

 

Conta Raul Brandão: «Morreu anteontem, em Cuba, o Fialho de Almeida. Diz-se por aí que se suicidou. Duvido. Sei que sofria do coração e que ultimamente vivia num sobressalto porque todos os dias recebia cartas anónimas por causa dos artigos que escrevia para o Brasil. Queixava-se amargamente «desta republiqueta». Quando vinha a Lisboa, passava as noites no Coliseu, acompanhado pelo padre Sena Freitas, ambos entusiasmados com os palhaços. Previu talvez a morte. “Ao contrário do que se pensa sou um perpétuo enfermo de neurastenia e males crónicos. Agora mesmo eu atravesso uma crise tão difícil que chego a pensar se resistirei a ela ainda algum tempo. Aos meus antigos males junta-se agora o coração, que não funciona bem, e a angina pectoris, que ronda à espreita da primeira ocasião” (Carta de Fialho a Coelho Neto): Apressaram-lhe a morte? Há quem diga, peremptoriamente, que sim, com a intimação de que se calasse, senão que o punham na fronteira...9

 

Numa carta enviada por esta altura por Fialho e publicada pelo Correio da Manhã, do Rio de Janeiro (também transcrita por Brandão nas suas Memórias), confirma-se que o autor de Os Gatos vivia intensamente este problema: «Foi acordado que, se as minhas correspondências para o Correio da Manhã continuarem a referir-se desagradavelmente para a República, eu serei convidado a ausentar-me por algum tempo. “Isto é categoricamente oficial.” Agora devo convidar também V.Ex.a a ler o bilhete que incluso remeto, e me foi remetido de Lisboa por um amigo íntimo que priva quotidianamente com membros da colónia brasileira de Lisboa e da colónia de portugueses, antigos negociantes no Brasil. Por esse bilhete e pela feição grave que a intolerância jornalística está tomando em Lisboa (e no resto do país seguir-se-á) eu delibero por agora, até à reunião das Cortes, ou ao estabelecimento da normalidade, abster-me de me ocupar completamente da política portuguesa. Tenho uma pequena casa agrícola de que viver; e que não marcha (pelo reduzida e modesta que é) sem a minha administração directa. Tenho aqui, no Alentejo, um irmão meio louco e profundamente enfermo de que não posso separar-me.[...] Resolvo escrever cartas sobre todas as matérias que não contendam com a política da República, e ignorar esta, até que um dia em que a minha desforra chegue, e mui pela certa chegará. V.Ex.a exporá o conteúdo desta redacção do Correio da Manhã, e ela responderá se está de acordo com a minha forçada resolução:»

 

Fialho de Almeida, no dizer de Óscar Lopes, principal documento da formação do estilo decadente na nossa literatura e o mais importante prosador na transição entre os séculos XIX e XX, morre em 1911 na sua Vila de Frades natal e vinte anos depois os seus restos mortais são trasladados para um jazigo próprio no cemitério da alentejana vila de Cuba.


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Bibliografia


1 - Os Gatos, Fialho de Almeida, vol.2, Lisboa. 1889-1893.


2 - À Esquina, capítulo Eu, Fialho de Almeida, Coimbra, 1903.


3 - Os Gatos, vol.2.


4 - Memórias, vol.2, Raul Brandão, Lisboa,1925.


5 - Memórias de Eduardo Brasão (que seu filho compilou e Henrique Lopes de Mendonça prefacia) - Lisboa, 1925.


6 - Raul Brandão - op. cit., vol. 1, Lisboa, 1919.


7 - Raul Brandão, op. cit. vol. 1.


8 - Saibam Quantos, Fialho de Almeida, Lisboa, 1912.


9 - Raul Brandão, Op. cit., vol. 2.






 

publicado por João Machado às 15:00
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Sexta-feira, 4 de Março de 2011

Fialho de Almeida - biografia - 2

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Loures

 

(Continuação)

  

 

 

 

FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA

 

Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).

 

Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?

 

 



Eça de Queirós

 

Em jovem é um profundo admirador de Eça. Diz da grande, da profunda impressão que lhe causou, aos 16 anos, a leitura da primeira edição de O Crime do Padre Amaro. Mais tarde faz também uma defesa de O Primo Basílio, face aos que acusam a obra de imoralismo. É relativamente a Os Maias que a sua veia de «prosador colérico» abafará a admiração antes sentida. Numa crítica publicada em O Repórter em 20 de Julho de 1888 (mais tarde incluída no volume Pasquinadas) considerará o romance um «trabalho torturante, desconexo e difícil de um homem de génio que se perdeu num assunto, e leva 900 páginas a encontrar-lhe saída.» Na sua opinião, Os Maias não passa de «um livro estrangeiro, que não conhecendo da vida portuguesa senão exterioridades, cenas de hotel, artigos e jornais, e compte-rendus de reporters palavrosos, desatasse a apreciar-nos através de três ou quatro observações mal respigadas, e a inferir por intermédio da fantasia satírica, tudo o mais.»

 

Eça, em carta ao jornalista Mariano Pina, datada de 27 de Agosto de 1888, desvaloriza a crítica: «O artigo do Fialho – est tout à coté. Quero dizer, dá grandes golpes, mas caem ao lado do livro e fora do livro – nenhum sobre o livro. Criticar o livro, como ele faz, não pelo que é, mas pelo que devia ser – é ridículo.» Noutra carta, datada de 8 de Agosto do mesmo ano, esta endereçada ao próprio Fialho e respondendo à acusação de, naquele romance, ter utilizado personagens caricaturais, estereotipadas, decalcadas de outras suas, afirma:

 

«Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.»

 

BALANÇO DE UMA CARREIRA


Se existem autores de difícil rotulação, Fialho de Almeida é um deles. Geralmente definido como um decadentista, mercê das múltiplas contradições que foi exibindo, percorreu toda uma paleta de estilos, situando-se, no que à sua obra mais válida diz respeito (os seus contos), numa plataforma realista-naturalista, subsidiária das correntes francesas do seu tempo, mas também de alguns dos próceres da chamada Geração de 70, incluindo o seu «odiado» Eça. Devendo muito, sem dúvida, a Camilo. Fazendo um balanço do seu percurso, ouçamos novamente Fialho na Autobiografia: «tendo escrito cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui, na opinião dos meus contemporâneos, “arranjado” a reputação de um desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a de prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras. Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério, e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram pelo meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade.» Quando se refere aos escritores sem obra, está por certo a lembrar-se do seu amigo, e inimigo de estimação, Gualdino Gomes. Sobre este último diz Raul Brandão: «A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. [...] só escreveu três folhetos e por aí ficou o seu talento. Espremido, não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã, dispersando com ele o oiro da sua esplêndida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras.» E conta depois Brandão como uma noite, à mesa do café, Gualdino aludiu à sua obra, ao que Fialho terá ironizado: «– A tua obra bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.»

 

Gargalhada geral, Gualdino Gomes embatucou e calou-se. Porém, pouco depois, aproveitando uma pausa na conversa, desferiu a sua estocada, aludindo ao casamento de conveniência que, tempos antes, Fialho fizera com uma parente rica: –« Ó Fialho, fazes o favor de me dizer que horas são... no relógio do teu sogro?.»6 Na realidade, em 1893, Fialho casa com uma senhora abastada, ainda sua parente que morre vítima de tuberculose menos de um ano após o casamento legando-lhe uma apreciável fortuna. O escritor converte-se então num pequeno proprietário rural. É um Fialho aburguesado, distante do iconoclasta, do anarquista que verberara todos os poderes, que se deixa mesmo seduzir pelas lisonjas do ditador João Franco e se torna num defensor da política franquista que, mercê dos seus erros de governação, vai motivar o Regicídio e abrir de par em par as portas à República.

 

O escritor dedica-se à lavoura, viaja um pouco pelo estrangeiro. Desprezado, vê-se obrigado a refugiar-se na vila de Cuba. Mas nem aí irá ter paz.

 

(continua)

 

Hoje é o centenário da morte de Fialho. Manuel da Fonseca organizou um antologia da sua obra (1984), para a qual escreveu um interessantíssimo prefácio. Dele transcrevo uma passagem: "A vida dos grandes escritores, com o tempo, transforma-se modelada pela obra que realizaram . Assim aconteceu com Fialho. Ergueu o sortilégio da arte de escrever a tamanha altura, que essa mesma arte sortílega para sempre elevou ao drama os seus passos na vida. Esta imita aquela, no dizer do poeta."

publicado por João Machado às 15:00
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Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Fialho de Almeida - biografia - 1

 

 

 

 

 

Amanhã, dia 4 de Março de 2011, completam-se cem anos sobre a data da morte de Fialho de Almeida. Para relembrar este notável escritor português, voltamos a apresentar a excelente biografia da autoria do Carlos Loures, que primeiro saiu no site Vidas Lusófonas. Ao Carlos Loures e ao Fernando Correia da Silva, director do Vidas Lusófonas, um cumprimento especial do VerbArte.

 

Carlos Loures

 

 

ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS

 


Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»

 

Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, consegue concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura - os livros são como que uma fuga à pobre realidade que lhe é dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»

FIALHO, BOÉMIO E «PONTÍFICE DE CAFÉ»

Café A Brasileira 

 

publicado por João Machado às 15:00

editado por Luis Moreira às 20:56
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

Mis Camélias – 4 – por Raúl Iturra

(Continuação)

MEMÓRIAS DE PADRES INTERESADOS - ENSAIO DE ETNOPSICOLOGIA DE LA INFANCIA

El día del juicio final de Eugenia, se aproximaba. Ella jugaba a los papás con Panchito. Mariana llegó un día para decirnos que encontraba poco simpático este juego, que era darse besos y tocarse el poto y, a veces, bajarse los calzones. Por casualidad, llegué a esa conversación y  sin casualidad, lacé una homilía a las tres -porque quejosas eran tres, Mariana, nuestra vecina y amiga Jimena Barrientos y Gloria, las dos amigas a contar las historias de que Eugenia jugaba de forma erótica con los niños. Mis palabras fueron serenas y directas y comenté de inmediato que los niños eran sexuados desde antes de nacer- un saber precoz de las ideas de Sigmund Freud,[6] Wilfred Bion[7] e de Mélanie Klein[8], que más tarde me llevaran a escribir el libro presentado en el día que nació nuestro primer nieto, Tomas van Emden, por título: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo[9], publicado a tiempo y horas, por mi Editora Afrontamento, en la ciudad de La Guarda, en Portugal, a 20 de Junio de 2000, el día del nacimiento de mi primer nieto.

 

La conversación de las Señoras quedó interrumpida por mi entrada y alocución en defensa de los niños. Les dije de inmediato si a ellas no les gustaba hacer el amor. Quedaron con la cara colorada. Les dije que a los niños también y que lo peor que se podía hacer, era estimular la sexualidad, que ya estaba en ellos, pero peor aún era ocultar que los adultos hacen el amor solos y en su cama, que no era juego. Y por ahí fuimos hablando, hasta que Jimena, la más virgen de las mamás presentes, salió y se fue, toda cortada. Nosotros tomamos onces y hablamos de otras cosas. Mariana me dijo que había sido un encuentro genial y que salía con nuevas ideas en la cabeza.

 

Es el Chile que Eugenia conocía y que Camila nunca llegó a conocer ni a saber, excepto de la historia del país, ¡si por acaso sabe alguna cosa! Lo que nuestras hijas ni sueñan, es la inspiración que me dieran para desarrollar, mas tarde, las ideas de la sexualidad de le infancia, que me llevara a crear los doctorados y maestrados en Antropología de la Educación y en Etnopsicologia de la Infancia, que hasta el día de hoy, enseño y escribo.

Quién era más recatada en su sexualidad infantil, era Eugenia, siempre preocupada si tenía amigos o no, ahí donde Camila gustaba, en sus tres años de edad, jugar con sus genitales, lo que nunca fue prohibido por nosotros. Lo que normalmente hacíamos Gloria y yo, era distraerla para otras actividades, que la hacia olvidar del deseo ya instalado en su cuerpo, como en todo ser humano acontece.

 

No fue por acaso que en esta novelada biografía sobre nuestras, haya introducido citaciones de tres autores. Freud, en su texto, analiza lo que él denomina aberraciones sexuales, como homosexualidad, masturbación, pedofilia, y el análisis que hace en las páginas 127 a 155, del texto en inglés, en el cual resume las, en su tiempo y creencias, aberraciones sexuales, como una interrupción hecha por otros, a la libido de la infancia. Hoy en día, excepto la pedofilia, no son ni delito ni pecado, como está definido por la ley en varios países y como reformuló Karol Wojtila o Juan Pablo II en su Catecismo de 1991. Así como Klein define envidia (inveja en portugués), como la defensa que hacen los niños de su fuente de alimentación, después de analizar el caso de su sobrino Richard, referido en el volumen tres de las obras completas de Klein, ya citada, y que en síntesis dice: el ego de la criatura es  muy inmaduro e el  superego muyo débil para establecer un proceso psicoanalítico, y que, en consecuencia, el analista debería adoptar el papel de apoyar al ego y fortalecer el superego, en consecuencia, el analista debería adoptar el papel de guía para sustentar o ego e fortalecer el superego. Melanie Klein sostenía que el superego de la infancia es mas perseguidor y rudo de lo que es en fases posteriores de desarrollo, e así, el papel del analista debería ser disminuir la severidad do superego, permitiendo, con eso, que el ego se desenvuelva mas libremente. Esta incumbencia, así como otros aspectos teóricos de la obra de Melanie Klein, levantaran contra ella una fuerte oposición en los medios psicoanalíticos, habiendo así la propuesta, en 1945, de excluir a los kleinianos de la Sociedad Británica de Psicoanalice[10], lo que no llegó a acontecer. Su discípulo Wilfred Bion fue más lejos, pare decir que el problema de la alimentación de bebé comienza ya en el útero materno, bien como su estado erótico, desde el tercer mes de embarazo de la madre[11]. Bion prueba esta hipótesis a lo largo de toda su obra, que es creíble y usada en estos días, ideas retiradas de su profesora, la Psicoanalista Húngara ya citada, Mélanie Klein.

 

¿Por qué estas citaciones, al hablar de nuestras hijas? Es apenas para recordar a las personas de que la educación de ellas está muy basada en teorías que, en el tiempo del nacimiento de ellas, era un rayo de luz, para entender como criarlas. Para ser padres, parece que nada es importante, excepto colocar hijos en el mundo, resultado de una pasión. Como educador, no puedo admitir esa ilusión, los niños deben tener no un analista, como no estoy de acuerdo con Klein, cuya teoría nos clasifica a los papás y mamás, como seres ignorantes, incapaces de educar a sus hijos. Lo que es muy importante en el pensamiento de Klein y Bion, eso sí, es que los padres  puedan ser orientados por ellos talvez, para criar a sus hijos y dejar de pensar que lo que está en el útero materno sea apenas el fruto del amor. ¿Qué estas ideas rompen la ilusión del bebé que se espera? Recuerdo la voracidad nuestra en busca de libros para saber criar a nuestros hijos. Estaba en la moda, en el tiempo del nacimiento de Eugenia y Camila, el libro del Dr. Benjamín Spock[12], era, prácticamente nuestro libro de cabecera, especialmente si los niños se enfermaban. Pero lo que más buscábamos era la referencia de cómo curarlos, no de cómo cuidarlos de forma afectiva y amorosa. Parecía que estaba dentro de nosotros el hecho de saber ser padres cariñosos, pero no, éramos padres con miedo, sin orientación, que nos cansaban en noches sin sueños o días enteros con el bebé a llorar.

 

 

publicado por Carlos Loures às 15:00

editado por Luis Moreira às 17:49
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

António Botto no Brasil, - 1 - por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preâmbulo

 

 

Em 1999, sob a assinatura de António Augusto Sales, publiquei através de Livros do Brasil o livro “António Botto, real e imaginário”, editado no centenário do nascimento do poeta. Se por um lado tinha por objectivo fornecer aos leitores uma visão global da sua obra (poesia, teatro, prosa, literatura infantil) por outro havia a biografia de um homem que foi contestado, mal amado e esquecido até hoje, sem omitir as contradições da sua personalidade e os exageros do seu carácter.

 

 

 

 

 

 

 

António Botto no "Martinho da Arcada", com Raul Leal, Fernando Pessoa

e Augusto Ferreira Gomes.

 

 

Procurei trazer ao livro a Lisboa humana e política da época e a intelectual e artística, nomeadamente o período da “Polémica das Canções” que envolveu Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, José Pacheco, Raul Leal, Álvaro Maia, Pedro Theotónio Pereira. Na enxurrada onde surgiam claros sintomas da ditadura a querer sair do ovo, é apanhada também Judith Teixeira e o seu livro “Decadência” que acompanha “Canções” de Botto, na fogueira do pátio do Governo Civil de Lisboa onde os jovens católicos reaccionários exigiram que a justiça fosse feita.

 

 

 

 

 

Sendo reais os factos e a obra não deixaram de ser imaginárias algumas situações que permitem ao autor dialogar com o poeta. Quero dizer, de certo modo o narrador participou na vida do biografado sem procurar com isso interferir na sua existência como personagem central da história.

A explicação deste expediente literário torna-se necessária para que se compreenda o clima criado entre o real e o imaginário que irá ter particular incisão nesta parte da vida do poeta no Brasil. Ao tempo da edição do livro um problema de direitos sobre o espólio de Botto, no Brasil, condicionou a pesquisa aos relatos que existam na imprensa portuguesa e outra ocasional documentação que tornou desequilibrado o último capítulo (Epílogo) do livro. Resolvido que foi esse problema e ficando tal espólio à guarda e classificação da Biblioteca Nacional de Lisboa, para consulta, se bem com condicionantes, permiti-me reconstituir todo o período e desenvolver um novo trabalho com vista a uma segunda edição que, até hoje, não consegui concretizar apesar da primeira se encontrar praticamente esgotada. Com o meu amigo Carlos Loures estudámos a hipótese de adaptar este período brasileiro para publicação no “Estrolabio”, que me obrigou a introduzir no texto alguns pedaços do meu citado livro “partindo” em capítulos menores para não tornar fastidiosa a leitura.

 

 

 

 

 

 

 

São estas as explicações sobre este trabalho em que desejo transmitir aos leitores a última fase da vida de um homem, grande poeta, que viveu o derradeiro acto do seu drama longe da pátria e mesmo depois de morto ainda foi para essa pátria um embaraço.

 

(Algueirão 10.08.2010)

publicado por João Machado às 23:55

editado por Luis Moreira em 18/01/2011 às 00:56
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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

José Mattoso no baptizado de Beatriz - a biografia e uma leitura de João Cabral de Melo Neto

 


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José Mattoso, Historiador - considerado o mais reputado medievalista português -  professor catedrático  da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nasceu em Leiria no ano  de 1933. Após se ter licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entrou  na vida religiosa, sendo durante vinte anos monge beneditino,  sob o nome de Frei  José de Santa  Escolástica Mattoso e recolhido na Abadia de Singeverga.

 

 

Em 1966 doutorou-se em História Medieval, pela Universidade Católica de Lovaina defendendo a  dissertação “Le Monachisme ibérique et Cluny: les monastères du diocèse de Porto de l'an mille à 1200”.

Em 1970, voltou à vida laica, empreendendo uma carreira universitária, como professor e como  investigador. Recebeu diversos prémios portugueses e estrangeiros, entre eles o Prémio  Pessoa de 1987. E, 1992 foi agraciado como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, em  1992.

 

Entre 1988 a 1990 ocupou o cargo de presidente do Instituto Português de Arquivos. De 19961998 dirigiu a  Torre do Tombo. Em Timor-Leste, após a independência, colaborou na recuperação do  Arquivo Nacional e no Arquivo da Resistência.

 

É autor de uma vasta bibliografia.

 

 

 

 

BAPTIZADO DA BEATRIZ

 

Há pouco tempo pediram-me para dizer umas palavras no baptizado do meu primeiro neto, o Sebastião. Lembrei-me logo do poema de João Cabral de Melo Neto intitulado «Morte e vida severina». Gostava de ler também aqui algumas passagens do mesmo poema que me parece muito apropriado no baptizado da minha afilhada Beatriz. Conta a história de um emigrante do nordeste brasileiro que vem para a cidade para fugir à fome. Depois de várias aventuras chega ao seu destino, mas não encontra trabalho, e a sua vida corre de mal a pior. Desesperado, pensa deitar-se da ponte abaixo. Um companheiro de desgraça diz-lhe:

 

— Seu José, mestre carpina,  
que diferença faria  
se em vez de continuar  
tomasse a melhor saída:  
a de saltar, numa noite,  
fora da ponte e da vida?  

Mas a mulher estava grávida. O menino nasce nessa mesma madrugada. Uma vizinha vem-lhe dizer:   

 

— Compadre José, compadre,  
que na relva estais deitado:  
conversais e não sabeis  
que vosso filho é chegado?  
Estais aí conversando  
em vossa prosa entretida:  
não sabeis que vosso filho  
saltou para dentro da vida?  
Saltou para dento da vida  
ao dar o primeiro grito  
e estais aí conversando.  
Pois sabei que ele é nascido.

 

Aparecem umas ciganas que fazem os seus vaticínios; os vizinhos trazem presentes e cantam:

 

— Todo o céu e a terra  
lhe cantam louvor.  
Foi por ele que a maré  
esta noite não baixou.

 

— E este rio de água, cega,  
ou baça, de comer terra,  
que jamais espelha o céu,  
hoje enfeitou-se de estrelas.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é uma criança pálida,  
é uma criança franzina,  
mas tem a marca de homem,  
marca de humana oficina.

 

—  Sua formosura  
deixai-me que cante:  
é um menino guenzo  
como todos os desses mangues,  
mas a máquina de homem  
já bate nele, incessante.

 

—  Sua formosura  
eis aqui descrita:  
é uma criança pequena,  
enclenque e setemesinha,  
mas as mãos que criam coisas  
nas suas já se adivinha.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é belo como o coqueiro  
que vence a areia marinha.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é tão belo como um sim  
numa sala negativa.  

—  Belo porque é uma porta  
abrindo-se em mais saídas.

 

—  Belo como a última onda  
que o fim do mar sempre adia.

 

—  é tão belo como as ondas  
em sua adição infinita.

 

—  Belo porque tem do novo  
a surpresa e a alegria.

 

—  Belo como a coisa nova  
na prateleira até então vazia.

 

—  Como qualquer coisa nova  
inaugurando o seu dia.

—  Ou como o caderno novo  
quando a gente o principia.

 

—  E belo porque o novo  
todo o velho contagia.

 

—  Com oásis, o deserto,  
com ventos, a calmaria.

 

Finalmente um dos presentes conclui:


—  Severino, retirante,  
deixe agora que lhe diga:  
eu não sei bem a resposta  
da pergunta que fazia,  
se não vale mais saltar  
fora da ponte e da vida,  
nem conheço essa resposta,  
se quer mesmo que lhe diga.  
É difícil defender,  
só com palavras, a vida,  
ainda mais quando ela é  
esta que vê, severina.  
Mas se responder não pude  
à pergunta que fazia,  
ela, a vida, a respondeu  
com sua presença viva.

E não há melhor resposta  
que o espetáculo da vida:  
vê-la desfiar seu fio,  
que também se chama vida;  
ver a fábrica que ela mesma,  
teimosamente, se fabrica;  
vê-la brotar como há pouco  
em nova vida explodida;  
mesmo quando é assim pequena  
a explosão, como a ocorrida,  
como a de há pouco, franzina,
mesmo quando é a explosão  
de uma vida severina.

 

Na época em que estamos, preocupados e desanimados com a «crise», cheios de incertezas acerca do que o futuro nos reserva, esta menina que agora recebemos no meio de nós, a Beatriz, vem, para os seus pais, para toda a sua família e para os seus amigos, como uma coisinha frágil e indefesa, bela e inocente, como sinal de que a vida não para nunca de se renovar, e de que o começo de uma vida nova é o que há neste mundo de mais belo, mais autêntico e mais cheio de esperança. É, mesmo, a única coisa que nos defende contra a morte. É aquilo que nos desarma quando acumulamos defesas, seguranças e cuidados que, afinal, só nos paralisam ou endurecem e nos impedem de ver o que há de bom e de belo na vida. A Beatriz aparece no meio de nós como convite a protegermos e cultivarmos o que é bom e belo. No seu silêncio, a primeira coisa que nos diz é: não tenhais medo, a vida vence a morte. A beleza vence a força e o poder. Não precisamos de ter nada, só precisamos de ser. O baptismo é um acto de fé na vida e na beleza que a própria vida nos oferece.

publicado por João Machado às 16:00

editado por Luis Moreira às 13:57
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Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

Apresentando Alexandra Pinheiro

 Alexandra Costa Pinheiro nasceu em Lisboa no ano de 1966. Licenciada em Direito pela
 Universidade de Lisboa, tentou  a carreira da advocacia, mas depressa se apercebeu de que uma certa falta de formalismo e adversidade aos requerimentos, colidiam com o espírito da profissão. A partir daqui ouçamos a sua história contada na primeira pessoa:

« Passei a trabalhar num banco Holandês – ABN AMRO – na área de consultoria financeira. Foi uma época de aprendizagem intensa porque trabalhava numa organização mundial integrada, diariamente contactava com colegas de vários países do mundo que me traziam perspectivas de trabalho e formas de vida muito diferentes (ainda não se falava em globalização). Estar numa organização Holandesa, formou-me na franqueza (que nós Portugueses apelidamos de antipatia), na objectividade, no planeamento e no cumprimento de prazos, na avaliação sistemática pelo chefe e na imperiosa concretização do que nos proponhamos desenvolver. Paradoxalmente, uma organização exigente, movimentava-se num dos melhores sistemas sociais do mundo, onde os nórdicos levavam os seus direitos “à risca”.
Mas os filhos chamavam por mim e ser mãe não se compatibilizava com as viagens e permanências no estrangeiro. Ao mesmo tempo, a maternidade despertou novas emoções que me levaram a perder o entusiasmo pelos números e pelas análises financeiras. No engano, que teria mais disponibilidade, fundei uma empresa de actividade culturais para crianças “Pequenos Vagabundos”. Ser empresária não é nada fácil: tudo o que ganhava só tapava os gastos com a contabilista e impostos, e não valia para as minhas insónias com a preocupação das despesas ao fim do mês. Dediquei-me, então, a uns trabalhos de free lancer em diversas áreas. No tempo livre, comecei a fazer uns voluntariados e, foi assim, que fui parar ao FLE e me apaixonei pela educação. O que gosto de fazer: estar com a família e com eles ver os filmes de sempre – A Música no Coração, A Vida é Bela e tantos outros clássicos, passear na praia ou ir ao teatro. Música e Livros – sou inconstante, ora oiço e leio muito, ora nada. Estou numa fase de música clássica e de pouca leitura – o último foi O SARI VERMELHO – Javier Moro, uma preparação para a minha viagem à índia. Neste momento, leio devagar, LIVRO de José Luís Peixoto.»

Bem-vinda ao Estrolabio, Alexandra Pinheiro.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 2

(Continuação)

FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA

Embora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).

Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias?



Eça de Queirós
 Em jovem é um profundo admirador de Eça. Diz da grande, da profunda impressão que lhe causou, aos 16 anos, a leitura da primeira edição de O Crime do Padre Amaro. Mais tarde faz também uma defesa de O Primo Basílio, face aos que acusam a obra de imoralismo. É relativamente a Os Maias que a sua veia de «prosador colérico» abafará a admiração antes sentida. Numa crítica publicada em O Repórter em 20 de Julho de 1888 (mais tarde incluída no volume Pasquinadas) considerará o romance um «trabalho torturante, desconexo e difícil de um homem de génio que se perdeu num assunto, e leva 900 páginas a encontrar-lhe saída.» Na sua opinião, Os Maias não passa de «um livro estrangeiro, que não conhecendo da vida portuguesa senão exterioridades, cenas de hotel, artigos e jornais, e compte-rendus de reporters palavrosos, desatasse a apreciar-nos através de três ou quatro observações mal respigadas, e a inferir por intermédio da fantasia satírica, tudo o mais.»

Eça, em carta ao jornalista Mariano Pina, datada de 27 de Agosto de 1888, desvaloriza a crítica: «O artigo do Fialho – est tout à coté. Quero dizer, dá grandes golpes, mas caem ao lado do livro e fora do livro – nenhum sobre o livro. Criticar o livro, como ele faz, não pelo que é, mas pelo que devia ser – é ridículo.» Noutra carta, datada de 8 de Agosto do mesmo ano, esta endereçada ao próprio Fialho e respondendo à acusação de, naquele romance, ter utilizado personagens caricaturais, estereotipadas, decalcadas de outras suas, afirma:

«Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.»

BALANÇO DE UMA CARREIRA


Se existem autores de difícil rotulação, Fialho de Almeida é um deles. Geralmente definido como um decadentista, mercê das múltiplas contradições que foi exibindo, percorreu toda uma paleta de estilos, situando-se, no que à sua obra mais válida diz respeito (os seus contos), numa plataforma realista-naturalista, subsidiária das correntes francesas do seu tempo, mas também de alguns dos próceres da chamada Geração de 70, incluindo o seu «odiado» Eça. Devendo muito, sem dúvida, a Camilo. Fazendo um balanço do seu percurso, ouçamos novamente Fialho na Autobiografia: «tendo escrito cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui, na opinião dos meus contemporâneos, “arranjado” a reputação de um desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a de prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras. Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério, e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram pelo meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade.» Quando se refere aos escritores sem obra, está por certo a lembrar-se do seu amigo, e inimigo de estimação, Gualdino Gomes. Sobre este último diz Raul Brandão: «A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. [...] só escreveu três folhetos e por aí ficou o seu talento. Espremido, não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã, dispersando com ele o oiro da sua esplêndida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras.» E conta depois Brandão como uma noite, à mesa do café, Gualdino aludiu à sua obra, ao que Fialho terá ironizado: «– A tua obra bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.»

Gargalhada geral, Gualdino Gomes embatucou e calou-se. Porém, pouco depois, aproveitando uma pausa na conversa, desferiu a sua estocada, aludindo ao casamento de conveniência que, tempos antes, Fialho fizera com uma parente rica: –« Ó Fialho, fazes o favor de me dizer que horas são... no relógio do teu sogro?.»6 Na realidade, em 1893, Fialho casa com uma senhora abastada, ainda sua parente que morre vítima de tuberculose menos de um ano após o casamento legando-lhe uma apreciável fortuna. O escritor converte-se então num pequeno proprietário rural. É um Fialho aburguesado, distante do iconoclasta, do anarquista que verberara todos os poderes, que se deixa mesmo seduzir pelas lisonjas do ditador João Franco e se torna num defensor da política franquista que, mercê dos seus erros de governação, vai motivar o Regicídio e abrir de par em par as portas à República.

O escritor dedica-se à lavoura, viaja um pouco pelo estrangeiro. Desprezado, vê-se obrigado a refugiar-se na vila de Cuba. Mas nem aí irá ter paz.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Fialho de Almeida - 1

Carlos Loures


ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS



Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim Fialho de Almeida ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.»

Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, consegue concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura - os livros são como que uma fuga à pobre realidade que lhe é dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»


FIALHO, BOÉMIO E «PONTÍFICE DE CAFÉ»

Café A Brasileira


Enquanto prossegue, lenta mas porfiosamente, os seus estudos (irá concluir o curso de Medicina aos 38 anos!...) Fialho torna-se conhecido nos meios boémios, jornalísticos e literários colabora em jornais e revistas, escreve folhetins, crónicas, críticas literárias e teatrais, faz traduções. Escreve os Contos e, depois, a Cidade do Vício, onde estão os seus melhores trabalhos de ficção. O seu habitat é a mesa do café - O Martinho, a Brasileira, são as suas paragens dilectas. Num livro editado postumamente em 1922, Figuras de Destaque, confidencia-nos: «Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as quatro da alva.»


O jovem aldeão de Vilar de Frades converte-se numa figura temida da vida literária, teatral e jornalística da capital. Os seus pareceres são aguardados com algum temor, pois a sua língua e a sua pena são tudo menos benévolos. Na História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes, aventa-se a possibilidade de a agressividade das críticas de Fialho, bem como certos aspectos realistas e «progressistas» da sua obra se relacionarem com «as pretensões a mentor do bom gosto diletante e da boémia artística, que se revelam já nos seus artigos de adolescente e que se observam na sua crítica de arte, de teatro, de literatura, nas suas notas impressionistas de música, e viagem, de boémia nocturna, de cenas espectaculares, no seu trajo, e no seu pontificado de café em emulação com Gualdino Gomes.» Por seu turno, nas suas Memórias, Raul Brandão descreve um Fialho boémio, sarcástico: «um príncipe de gabinardo que fazia cair as peças do alto do galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso». Diz também que era seguido por uma «malta atónita de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de fantasia e atascou em sonho. [...] Esses aplaudiram-no e amaram-no. Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos daquele sonho desconforme.»4 Porém, apesar da severidade com que sempre julga actores e autores, Eduardo Brasão, naqueles anos finais do século XIX, o actor por antonomásia, nas Memórias compiladas por seu filho e publicadas em 1925, transcreve uma crítica (globalmente desfavorável) - Brasão o Olímpico - («Figura de actor francês, índole ardente, braços descomunais, e uma voz sem flexibilidade com tendência a enriquecer o som pelos rugidos.»), sentindo-se honrado pela atenção que despertou no crítico feroz -«E, demolindo-nos, Fialho alteia-nos, ou pelo menos, se preciso fosse tornava-nos conhecidos.5


OS GATOS


Entretanto, Ramalho Ortigão publicara as suas Farpas e o editor Alcino Aranha, aliciado pelo grande êxito que aquelas crónicas tinham obtido junto do público, convida Fialho a escrever um texto mensal de análise à vida portuguesa. Fialho aceita e, em Agosto de 1889, é publicado o primeiro panfleto. A reacção dos leitores é de tal modo positiva que depressa a publicação de Os Gatos passa de mensal a semanal. Até Janeiro de 1894, quando sai o derradeiro panfleto, reúne material que é depois publicado em seis volumes. Porquê este título – Os Gatos? Fialho explica-o no pórtico do primeiro panfleto: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»


(Continua)

(Excerto de uma biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
publicado por Carlos Loures às 12:00
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