Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 4 - por Sílvio Castro

Bem, agora posso de novo contar tudo com clareza a Vossa Senhoria. Já não me sinto na grande confusão de antes. A viagem continua, o medo do naufrágio continua. Vossa Senhoria acredita possível o naufrágio para um que está na terra e não no mar? Quero confessar um coisa muito absurda, eu me sinto como um náufrago na terra. Me debato com as coisas e não consigo tocar a praia. Meu corpo exausto se consome e eu não sei onde chegar. Mas de certa maneira desde aquele primeiro dia de contacto com a gente nova e a terra, me sinto mais sereno, não que o tremor me haja abandonado ou o medo do desconhecido, desaparecido. Mas‚ como se tudo se tivesse transformado em um sonho, medo e tremor, esperanças e inseguranças, desconcertos e encontros.

O nobre Pedro Álvares Cabral nos levou, no dia seguinte, numa grande procissão pela nova terra achada. Éramos uma multidão, com o grande Comandante à frente, nas mãos a Cruz de Cristo. O Comandante, os doze capitães, os sacerdotes, os nobres do séguito, a gente toda, caminhávamos por aquelas praias.


Chegado a um ponto saliente da terra, Pedro Álvares parou e fincou ali o marco da conquista de Portugal. A nova terra encontrada era consagrada ao nosso Soberano. A grande procissão retomou a marcha na direção de uma ilhota, onde foi dita missa solene. A tudo isso assistiam aqueles da terra, homens e mulheres. Muito curiosos e por nada temerosos, eles acompanhavam todos os nossos passos e gestos. Não demonstravam senão curiosidade. Por tudo.

Depois da missa, que muitos deles assistiram de longe, a grande comitiva se espalhou pela praia, criando-se grupos dispersos dos nossos e de muitos deles. Alguns marinheiros se apartaram além do rio com jovens nativos e entre eles muitas moças. Os grupos festejavam e se tocava música com gaitas e tambores, chocalhos e pandeiros. Ao longo da praia a nossa gente cantava e bailava com os nativos, como se se conhecessem desde sempre e fossem amigos desde há muito. Eu me apartava vendo tudo isso. Pero Vaz se aproximou de mim e me perguntou por que te apartas, Afonso? não vês que eles são nossos amigos? ou temes de não seres da mesma maneira deles?

Assim foi por muitos dias. Todas as manhãs descíamos em grupos, grandes e pequenos, à terra para conhecê-la mais e fazer amizade com os nativos. Os capitães e os principais da armada guiavam os encontros, cada qual endereçado ao seu maior interesse. Começaram, alguns deles, com a ajuda dos nativos a derrubar e carregar grande quantidade de uma madeira de que se fazia uma tinta vermelha. Eu já notara que alguns dos nativos, principalmente os mais fortes, se mostravam com a pele nua pintada com a tinta vermelha tirada dessa madeira. Pero Vaz me disse que era a madeira brasil, boa para a tintura das vestes dos fidalgos e nobres. Desta árvore se encontrava por todo o lado da costa e parecia que não tinha fim dela. Os nativos ajudavam os nossos a carregar os troncos para bordo e o fazia como sempre com grande gratuidade.

O nosso grande almirante Pedro Álvares não descia sempre à terra; somente o fez três ou quatro vezes, em momentos solenes, pois queríamos que os nativos vissem nele a majestade do nosso Soberano, que ali ele representava. Mas me parecia que não davam particular atenção e importância a isso. Mais sucesso fazia Bartolomeu Dias que estava sempre com eles e que os maravilhou desde aquele segundo dia quando, descidos na terra, vimos que em grupo nativos entravam e fugiam do mar, como que caçando alguma coisa. Era um tubarão. Bartolomeu Dias entrou na água e matou a besta-fera, carregou-a para a praia e a regalou àqueles que antes procuravam caçá-la.

Porém, um entardecer, como de costume, nos preparávamos para voltar às nossas naves, Bartolomeu Dias, a mando do Comandante, ordenou que eu ficasse ali e acompanhasse os nativos na aldeia deles. Eu antes já lá estivera um desses dias, com Pero Vaz. Agora eu estava ali, em meio a eles, enquanto os meus se dirigiam para bordo. Me senti como perdido, abandonado. Os nativos lentamente tomaram o caminho da aldeia e eu fui com eles. Não me trataram, todavia, da mesma maneira como faziam sempre, mas me olhavam um pouco desconfiados. Eu, com muito medo, os seguia. Chegamos à aldeia, eles entraram na grande cabana central e eu também. Então, enquanto eu procurava me alojar, vi que confabulavam e logo depois dois deles vieram até junto de mim e me pegaram sem violência pelos braços e me conduziram assim até a praia, como me dizendo que não queriam que eu dormisse nas suas cabanas. Me deixaram sozinho ali. Bartolomeu Dias, com um pequeno grupo de marinheiros, ainda estava em terra. Quando me viu na praia, veio até a mim e me comandou que voltasse para a aldeia e depois partiu definitivamente para bordo. Eu fiquei sozinho. Não sabia o que fazer, mas não podia desrespeitar as ordens de Bartolomeu Dias. Voltei para a aldeia e fui novamente expulso. Desesperado passei aquela noite no alto de uma árvore. De vez em quando, um nativo vinha e me olhava. Eu não sabia o que eles pensavam, mas sentia um grande medo. Desde aquela noite compreendi que Pedro Álvares me teria deixado para sempre naquela terra.

Chorei silenciosamente e por muito tempo, até que o cansaço me dominou e dormi.

Eu gostaria de poder dizer a Vossa Senhoria, que é de muita compreensão, o que eu sentia então. Mas me faltam as palavras boas para isso, gostaria de ser menos ignorante e poder dizer-vos da minha angústia de então. Tinha a lembrança do que me dissera Pero Vaz: eu devia aprender a língua deles para poder servir assim o meu Rei. Mas eu me sentia muito fraco, incapaz de aprender o que fosse, mesmo a menor coisa. Sentia a minha impotência, mas ao mesmo tempo sabia que esse era o meu destino. Eu nunca pensara, mesmo quando servia ao meu senhor, o nobre Sebastião Telo, nas suas viagens na Espanha e tinha de falar com os castelhanos, e em verdade aprendi bastante da língua deles então, que fosse importante aprender uma língua desconhecida. Eu digo a Vossa Senhoria que sabe falar muitas línguas quanto me era ignorada esta importância. Eu falava a língua de minha mãe e com ela eu me satisfazia em tudo que o mundo me pudesse oferecer. Mas logo depois daquela noite de angústia compreendi como me enganava. Ah! Vossa Senhoria se ri da minha simplicidade, mas é assim.

Depois chegou o dia triste da repartida da nossa armada. Foi um alvoroço já na véspera, naquele primeiro de maio. A bordo das doze naves era toda uma grande azáfama. Um dos nossos barcos, o menor, que servira antes para depósito do abastecimento de toda a armada, retornava a Lisboa por ordem do Almirante para comunicar ao Rei, nosso Senhor, da grande novidade que era aquele encontro. Pero Vaz acabou nesse dia a sua longa carta ao Rei.

No entardecer daquele dia eu fui levado por Bartolomeu Dias diante do nosso Almirante. Pedro Álvares me comandou de ficar a partir do dia seguinte naquela terra, que aprendesse a língua dos indígenas, me fizesse amigo deles, visse se eles sabiam da existência de ouro naquela terra, que fizesse tudo para a maior glória do nosso Soberano. Pedro Álvares me disse tudo isso com grande voz de comando, como ele sempre fazia. Mas como era um grande Senhor, na sua voz eu sentia também alguma coisa de diverso, de mais perto de mim, quando falou para incutir-me esperanças no futuro. Eu o escutava, temeroso e respeitoso, sabendo dentro de mim que todas as esperanças eram impossíveis.

No dia seguinte, apenas pouco depois do amanhecer, eu me encontrava sozinho naquela praia do porto seguro, vendo as nossas caravelas que se moviam lentamente, que se encaminhavam mar adentro e depois se perdiam no horizonte. Eu sozinho diante de tudo. Foi então que senti mais uma vez o abraço amigo e protetor de Coaracy.
publicado por Carlos Loures às 22:30
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 3 - por Sílvio Castro

Vossa Senhoria me deve consentir: eu sei que o vosso desejo agora é que eu conte todo o resto do encontro, mas creio que preciso visitar todas as minhas lembranças dos eventos, pois de repente já não sei se cheguei ou se estou ainda na viagem. Parece que estou ainda na navegação; é noite e na tolda da capitânea se representa um auto, com tochas e belos movimentos de cena. Como em geral acontecia com as festas do nosso Comandante, essa era muito bela. O auto‚ muito bem representado, com todos os aparatos, como se fosse num teatro de Lisboa. Vejo tudo como se ainda estivesse ali. Contando, é como se o tempo fosse um só e eu me sinto sempre em viagem. Pero Vaz acaba de me dizer que amanhã logo cedo baixaremos à terra, e em quanto o escuto, como fiz por muitas vezes na navegação, é como se navegasse junto com Pero Vaz. Ele, como eu, não é prático de navegação, mas é um homem sábio e logo o mar não lhe tem mais mistérios. Eu temo tudo, o abandonar da minha terra, o encontro com novas. Estou sempre por naufragar, mas sinto que nenhuma praia me poderá recolher das águas. Pero Vaz diz que devo ter esperança, pois tudo se acerta. Iremos até as Índias, lá criaremos uma vida, para maior glória do Rei nosso senhor. Tudo se acerta. Mas sinto que o meu naufrágio é certo, ainda que as palavras de Pero Vaz sejam boas. O mar é longo e estou preso nele. Olhe as estrelas, me diz Pero Vaz, como são belas e como nos indicam os caminhos. Preciso falar todas as noites com as estrelas, me diz Pero Escobar, pois as estrelas são ruas dentro do mar. O piloto maior fala muito assim com Pero Vaz.

Agora estou de novo no dia 22 de abril. Amanhã iremos encontrar a terra pela primeira vez. O que está por detrás dessa penumbra e do meu constante tremor?

O esquife comandado por Nicolau Coelho, outro grande capitão como Bartolomeu Dias, estava pronto. Nele estávamos também Pero Vaz, que desde então devia, por ordem do nosso Almirante, recolher todas as notícias para mandá-las a El-Rei; o Mestre João que devia fixar os acidentes da terra; o piloto Afonso Lopes, homem vivo e competente nas suas artes, além de dez marinheiros muito armados. Quanto mais o esquife se aproximava da praia, mais crescia o meu tremor. Já distinguíamos a praia e a floresta que lhe estava por detrás.

A distância de menos de cinquenta metros, com as ondas mais baixas, podíamos ver bem a terra. Na praia estavam muitos homens nativos. O esquife avançava e nós víamos os homens que seriam mais de trinta, armados de arcos e flechas. Nicolau Coelho gritava do escaler e lhes comandava de deitar as armas por terra. Os homens nos fixavam curiosos e o capitão continuava a gritar. Alguns deles, depois de pouco tempo, deitaram arcos e flechas. Logo em seguida a maioria deles fez o mesmo. Alguns mantinham as armas nas mãos, incrédulos dos gritos de Nicolau Coelho. O esquife agora já está a poucos metros da praia. O capitão ordena ainda e com voz mais forte. Os últimos desses nativos deitam as armas por terra. Descemos. Logo alguns deles vieram nos ajudar a arrastar o esquife. Nicolau Coelho procurou falar com eles, mas não nos compreendíamos senão por gestos. Eles falavam uma língua desconhecida para todos nós e por isso tivemos muito pouca possibilidade de nos compreender. O nosso capitão falou então com um deles que parecia o chefe. Não é que este se distinguisse muito dos outros, pois todos estavam completamente nus, e se misturavam nos movimentos de encontros e desencontros que tínhamos. Porém, este para o qual Nicolau Coelho se dirigia mais diretamente era mais ativo e tinha uma fisionomia forte e clara. O nosso capitão ofereceu-lhe prendas, pequenas quinquilharias, que ele muito apreciou. Os outros logo se aproximaram para ver aquilo e em seguida demonstraram que também queriam receber daqueles presentes. O primeiro tirou da cabeça uma espécie de chapéu de penas de aves, muito coloridas, e com muita dignidade as ofereceu a Nicolau Coelho. Desta maneira começaram os nossos encontros.

A gente da terra logo demonstrou um espírito afável e cordial, recebendo-nos com demonstrações de grande hospitalidade. Logo nos deram a impressão de ser gente mansa e gentil, sem temores de desconhecidos, ao contrário de nós que, mesmo muito armados, sempre temíamos por tudo.

O primeiro encontro foi demorado, passeamos pela praia ao longo e ao largo, tocamos os primeiros espaços do bosque, caminhamos pela terra de muitas palmeiras e frutas por muito tempo até junto a um rio não muito grande que desaguava naquela parte do mar. Nas margens desse rio encontramos outras gentes, homens e mulheres, todos eles igualmente nus como aqueles que nos acompanhavam. Porém estes últimos não se aproximaram de nós. Voltamos para onde estava o nosso esquife e Nicolau Coelho ordenou o regresso às naves. Enquanto o esquife se encaminhava na direção das caravelas ancoradas ao largo, da praia os nativos nos acenavam festivamente, como que nos convidando a ficar.

De novo a bordo, eu pensava sobre aquela grande experiência e já não sentia o mesmo tremor da manhã. O alvoroço nas doze caravelas era grande, mas eu me sentia mais tranquilo, ainda que um dito de Pero Vaz me haja deixado sem saber ou compreender. O escrivão, quando de novo subíamos a bordo da nossa nave, me disse Afonso, para nós deverás ser a voz desta gente. Depois eu pude entender o que Pero Vaz me queria dizer com aquelas palavras. Porém foi preciso que se passassem muitos dias, daquele 22 de abril da chegada, até o 2 de maio da partida. Da partida sem mim.
publicado por Carlos Loures às 22:30
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Terça-feira, 10 de Agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 10

27 de abril

Espero de não estar te aborrecendo, minha querida filha, com tantas notícias e novidades. Mas são tantas as descobertas que faço nesses dias de maravilhas que não sei como me limitar. Gostaria porém de poder transmitir à minha querida Maria, que tanto me falta nesta longa viagem, a felicidade que agora sinto nesta terra nova, depois de tantos dias difíceis passados por mim desde que deixei a nossa casa. Sei, Maria, que a tua bondade compreenderá os meus arroubos e a tua doçura mitigará os meus excessos. Por isso te conto tudo. Como se contasse a mim mesmo para assim viver duas vezes os mesmos sucessos dessa experiência que arrebata o meu coração.
Nesta segunda-feira, logo depois de comer, saímos todos para o abastecimento de água. É um belo espetáculo, minha querida Maria, ver tantos batéis que se destacam das naus e partem para a praia. Ali vieram ao nosso encontro muitos dos naturais da terra, mas não tantos como das outras vezes. Uma coisa que logo me chamou a atenção é que dentre eles poucos traziam arcos e setas. Inicialmente mantiveram-se um pouco afastados, para depois, pouco a pouco, misturarem-se conosco. Tudo isso com grandes demonstrações de simpatia. Abraçavam-nos e folgavam. Mas alguns logo depois se esquivavam. E logo retornavam ao maior prazer deles, as trocas. Davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer outra coisa. Era tanta a simpatia recíproca nesses encontros que bem vinte ou trinta dos nossos se foram com eles em direção de um lugar onde muitos outros deles estavam em companhia de moças e mulheres. Tudo isso acontecia, minha Maria, com muita tranqüilidade e simplicidade. Quando de lá voltaram esses nossos trouxeram muitos arcos e barretes de penas de aves, de tantas cores, verde, amarelo, vermelho. Via-se nos olhos deles e de seus contos quanto estavam contentes de lá terem ido.
Já agora, minha adorada filha, estando mais perto deles e com mais continuidade, podia observar melhor muitos de seus usos. Naturalmente o que logo chamava a atenção era a maneira como se pintavam por todo o corpo. Esses enfeites tinham sempre um sentido e eram sempre feitos com grande perfeição, seja nos homens como nas mulheres. Dentre as cores que usam para a ornamentação do corpo a mais habitual é o vermelho. Eles trazem sempre à mão pequenos grãos que quando esmagados entre os dedos fazem um rutilante vermelho. Com ele, quanto mais se molham mais este vermelho se aviva. São tantas e brilhantes as cores dessas decorações que chegam a recordar-me a riqueza dos panos de Arras.
Todos trazem os lábios furados, sendo que muitos traziam ossos neles e outros sem ossos. Todos andavam com os cabelos raspados até por cima das orelhas. Na testa, de lado a lado, estavam sempre pintados de uma tintura preta, conseguindo com isso dar a impressão de um fita preta da largura de dois dedos. Além dos cabelos da cabeça raspavam, mas então completamente, as sombracelhas e as pestanas.
Então, o Comandante mandou Afonso Ribeiro e outros dois degredados que se fossem misturar com eles. E o mesmo disse a Diogo Dias que depois da festa de ontem tornara-se íntimo de muitos deles. Aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite. Assim eles fizeram e, como depois contaram, caminharam por mais de uma légua e meia até uma povoação formada de nove ou dez casas, as quais eram tão compridas como a nossa nau-capitânea. Eram de boa altura, boas madeiras formavam as suas ilhargas e cobertas de palhas. Todas elas se compunham de um só espaço, sem qualquer repartição de cômodos, com muitos esteios internos. De esteio a esteio ficava colocada uma rede, atada com cabos aos esteios. Eram altas e nelas eles dormiam e praticamente viviam os diversos momentos de lazer. Debaixo da rede faziam seus fogos para se aquentarem. Cada casa tinha duas portas pequenas, uma em cada extremidade. E diziam que em casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, numa grande família. Assim eles os viram. E que lhes deram de comer os alimentos que tinham no momento, muito inhame e outros tipos de raízes encontráveis na terra e que eles comem com grande satisfação. Como já anoitecia fizeram com que eles voltassem, demonstrando depois de tanta hospitalidade que não queriam que eles lá passassem a noite. Não permitiram que ninguém ali pernoitasse, mas alguns quiseram acompanhá-los no retorno. Lá trocaram por quinquilharias que tinham levado papagaios vermelhos, grandes e formosos, e ainda mais dois de outro tipo, verdes e pequeninos. Igualmente obtiveram carapuças de penas verdes e mais uma espécie de pano de penas de muitas cores, um tecido tão belo que o Comandante o recolheu para presentear a D. Manuel, nosso Senhor.

FESTA PARA O PR¡NCIPE VENTUROSO.
ATO 7º



(A cena se passa numa praia iluminada pelo sol da primeira manhã. A luz filtra por entre palmas e árvores ricas de frutas, fazendo mais branca a areia fina e azul a água do mar que a banha. Nas ondas próximas da praia flutuam batéis. Aqui e ali, nas areias muito brancas, debaixo das arvores e próximos de um rio que deságua no mar, está muita gente, em grupos. São portugueses em trajes variados - marinheiros, soldados, gente comum - e índios e índias, esses nus. A gente fala, gesticula, encontra-se, canta e dança.
O grupo dos capitães, com Pedro Álvares Cabral vestido ricamente, está à parte, num ângulo da cena.
Por detrás deste grupo aparece o Mensageiro.)



Príncipe,
poderá existir glória maior para um Soberano que saber o seu Império alargado por encontros de paz e amor, ao invés de fruto da violência e do ódio?
É isto que eu quero representar agora, numa magnífica festa dígna do Príncipe, diante de Vossos augustos olhos. Para isso precisamos de muita música e bailes. Porque essa será a representação do Paraíso recuperado, a visão de encantamento de um encontro paradisíaco entre homens, seres e coisas.
É a Vossa festa, Príncipe.
Eu serei como uma sombra que caminha por aqui e ali recolhendo vozes, gestos e movimentos, para que os Vossos olhos e ouvidos tudo saibam e gozem.
Comecemos porque a manhã deste dia maravilhoso já procede acelerada nas horas e, ai de mim, até mesmo a noite chegará para encobrir tanta glória que eu estou por revelar.


(A cena se aclara definitivamente, mostrando homens, seres e coisas em todos os seus contornos. Sons de cantos ecoam por toda parte e movimentos de bailes e danças agitam a cena. Retorna o Mensageiro.)
Príncipe,

ali estão os Vossos novos súditos. Vêde como são belos e gentis! Muitos estão perto dos batéis que recolhem água, a muito boa água desta terra, e lenho brasil, este pau rutilante como fogo. O bravo Bartolomeu Dias comanda a faina nos batéis. Eles correm e ajudam os nossos na faina alegre. Vêm do rio, entram no mar e lançam a carga aos nossos, em pé nos batéis. E assim vão e vêm, num jogo de alegrias. Logo muitos outros se acrescentam ao grupo de carregadores, e vão e vêm com as cargas preciosas.
Então começa o grande prazer das trocas e dos regalos. Das nossas mãos partem tantas quinquilharias - que eles comem com os olhos! - e deles, em troca, tantos objetos de penas de variadas cores, muitas cores, tantas como a gama infinita desta paisagem de maravilhas. São penas desses mesmos pássaros que cantam indormidos nas árvores e passam sem cansaços por esses ares finos e de pura luz.

Príncipe,
os nossos confraternizam com eles sem nenhum temor, mas é deles que vêm as efusões maiores.
Vêde, ali estão eles, todos nus, de belos corpos altos, fortes, rijos; de gestos e movimentos amáveis. São bons e dóceis como os pássaros da terra. Belos como eles. A nudez do corpo não lhes cria problemas. Vejo que não são circuncisos e que também nisso se parecem conosco. Sim, são pardos, de um vermelho vivo, vibrante. Como o sol daqui. Olhai, Príncipe, para esses jovens. Vê-se que sempre desejam mostrar-se belos, porque são limpos, frescos, gordos, formosos a não mais poder. Corpo musculoso está sempre coberto de tinturas versicolores. O vermelho ‚ a predileta, mas também o preto, o amarelo. Alguns se tingem em forma de xadrez, deixando porém o ventre e a barriga descobertos, coloridos com cor natural da pele. Os cabelos são lisos e grossos. Em geral eles os besuntam e os trazem tosqueados até por detrás das orelhas. Muitos deles enfeitam as cabeleiras com uma espécie de chapéu de penas de variegados matizes. Outros recobrem as fontes até a nuca com uma quase fita preta, só que desenhada com uma tinta muito viva. Trazem os beiços furados, onde muitos colocam adornos, quem de pedra, quem de pau, para maior realce.

Príncipe,
aos Vossos augustos olhos trago as belezas de algumas moças que caminham em meio a todos com uma extrema naturalidade, nuas também elas, como os homens. São belas e gentis nos passos lentos e dosados que aderem à terra. Redondas, belamente redondas, são as suas formas nuas. Olhai. É uma nudez de mulher que não leva ao pecado, tanta é a ingenuidade e simplicidade dos gestos. Eu as olho nuas e mais que vergonha sinto uma comoção benéfica. Eu as olho mais e as vejo inteiras na nudez que nelas é sempre beleza pura. Até mesmo as suas vergonhas - altas, limpas, fechadinhas - não as envergonham e nem a mim. Por isso, meu Senhor, fixo esta cena.
Lá vão os grupos, homens e mulheres, eles e muitos dos nossos, para aquele monte mais distante ou para o rio. Diogo Dias, junto a muitos outros, sempre alegre e festoso, se aparta com seus amigos novos.
Ali está também o degredado, Afonso Ribeiro, que o Capitão-mor mandou ficar entre eles, para com eles aprender tantas coisas. Afonso Ribeiro desceu a medo entre eles. Num primeiro momento, sozinho, titubeou, não sabendo como e o que fazer. Estava sozinho diante de alguma coisa nova para ele. E atônito. Então um homem de idade madura se destacou do grupo, caminhou até onde estava Afonso Ribeiro, abraçou-o e o conduziu amoravelmente de encontro aos seus.
A festa de trocas continua. E as danças, músicas e bailes.
Do outro lado do rio, ali estão dançando muitos deles, um diante do outro, sem se tomarem pelas mãos. E o fazem muito bem.
Agora para lá passou-se Diogo Dias, com um gaiteiro e sua gaita. Logo mete-se como eles nas danças, tomando-os pelas mãos. Eles folgam e muito riem com isso, acompanhando muito bem ao tom da gaita. Agora Diogo Dias começa a fazer volteios muito velozes que os enchem de admiração. Um grito de surpresa maior corre os ares iluminados de pura luz quando Diogo Dias volteia velozmente e se exibe num insuspeitado salto-mortal. Logo depois, pelos muitos afagos e abraços de Diogo Dias em seus bailes, muitos deles se retiram para o monte isolado.
Príncipe,
a mim parece que assim o são: muito gentis e conviviais, mas logo e por um nonada eles se retiram. São como pássaros assustados. Mais vale, me parece, deixar-lhes as decisões, para assim conquistar-lhes maiormente as simpatias.
Agora retornam. Bartolomeu Dias mandara o degredado de novo entre eles e que lhes desse todos os presentes que trazia consigo. Assim fez Afonso Ribeiro, entregando todos os regalos àquele homem maduro que antes o agasalhara, quando o sol era mais quente e seu coração pulsava atônito.
Os pássaros assustados voltaram. Agora recolhem um tubarão que Bartolomeu Dias matara, e logo levam a fera até a praia.

Príncipe,


grande tem sido a festa neste dia e grande a alegria nos corações de todos nós. A luz já vai escoando e uma tênue penumbra começa a cobrir tantas maravilhas. Ali está o nosso Capitão-mor. Um homem velho se aproxima de Pedro Álvares Cabral. Tem os beiços furados, como todos em geral, e no buraco traz uma mísera pedra verde. Ele fala desconexamente com o Capitão-mor. Muitos dos nossos indagam daquela pedra verde e tentam tocá-la. O velho tira-a do buraco e a aproxima à boca de Pedro Álvares Cabral, tentando metê-la boca adentro. Todos riem, e o Capitão-mor se amofina. Então, por ordem sua, acompanhando-o, todos começam a deixar a praia.

Príncipe,
que dia longo e glorioso!

Ao longe caminha a sombra de Afonso Ribeiro, sozinho na praia.
publicado por Carlos Loures às 16:30
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