Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

José Mattoso no baptizado de Beatriz - a biografia e uma leitura de João Cabral de Melo Neto

 


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José Mattoso, Historiador - considerado o mais reputado medievalista português -  professor catedrático  da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nasceu em Leiria no ano  de 1933. Após se ter licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entrou  na vida religiosa, sendo durante vinte anos monge beneditino,  sob o nome de Frei  José de Santa  Escolástica Mattoso e recolhido na Abadia de Singeverga.

 

 

Em 1966 doutorou-se em História Medieval, pela Universidade Católica de Lovaina defendendo a  dissertação “Le Monachisme ibérique et Cluny: les monastères du diocèse de Porto de l'an mille à 1200”.

Em 1970, voltou à vida laica, empreendendo uma carreira universitária, como professor e como  investigador. Recebeu diversos prémios portugueses e estrangeiros, entre eles o Prémio  Pessoa de 1987. E, 1992 foi agraciado como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, em  1992.

 

Entre 1988 a 1990 ocupou o cargo de presidente do Instituto Português de Arquivos. De 19961998 dirigiu a  Torre do Tombo. Em Timor-Leste, após a independência, colaborou na recuperação do  Arquivo Nacional e no Arquivo da Resistência.

 

É autor de uma vasta bibliografia.

 

 

 

 

BAPTIZADO DA BEATRIZ

 

Há pouco tempo pediram-me para dizer umas palavras no baptizado do meu primeiro neto, o Sebastião. Lembrei-me logo do poema de João Cabral de Melo Neto intitulado «Morte e vida severina». Gostava de ler também aqui algumas passagens do mesmo poema que me parece muito apropriado no baptizado da minha afilhada Beatriz. Conta a história de um emigrante do nordeste brasileiro que vem para a cidade para fugir à fome. Depois de várias aventuras chega ao seu destino, mas não encontra trabalho, e a sua vida corre de mal a pior. Desesperado, pensa deitar-se da ponte abaixo. Um companheiro de desgraça diz-lhe:

 

— Seu José, mestre carpina,  
que diferença faria  
se em vez de continuar  
tomasse a melhor saída:  
a de saltar, numa noite,  
fora da ponte e da vida?  

Mas a mulher estava grávida. O menino nasce nessa mesma madrugada. Uma vizinha vem-lhe dizer:   

 

— Compadre José, compadre,  
que na relva estais deitado:  
conversais e não sabeis  
que vosso filho é chegado?  
Estais aí conversando  
em vossa prosa entretida:  
não sabeis que vosso filho  
saltou para dentro da vida?  
Saltou para dento da vida  
ao dar o primeiro grito  
e estais aí conversando.  
Pois sabei que ele é nascido.

 

Aparecem umas ciganas que fazem os seus vaticínios; os vizinhos trazem presentes e cantam:

 

— Todo o céu e a terra  
lhe cantam louvor.  
Foi por ele que a maré  
esta noite não baixou.

 

— E este rio de água, cega,  
ou baça, de comer terra,  
que jamais espelha o céu,  
hoje enfeitou-se de estrelas.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é uma criança pálida,  
é uma criança franzina,  
mas tem a marca de homem,  
marca de humana oficina.

 

—  Sua formosura  
deixai-me que cante:  
é um menino guenzo  
como todos os desses mangues,  
mas a máquina de homem  
já bate nele, incessante.

 

—  Sua formosura  
eis aqui descrita:  
é uma criança pequena,  
enclenque e setemesinha,  
mas as mãos que criam coisas  
nas suas já se adivinha.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é belo como o coqueiro  
que vence a areia marinha.

 

—  De sua formosura  
deixai-me que diga:  
é tão belo como um sim  
numa sala negativa.  

—  Belo porque é uma porta  
abrindo-se em mais saídas.

 

—  Belo como a última onda  
que o fim do mar sempre adia.

 

—  é tão belo como as ondas  
em sua adição infinita.

 

—  Belo porque tem do novo  
a surpresa e a alegria.

 

—  Belo como a coisa nova  
na prateleira até então vazia.

 

—  Como qualquer coisa nova  
inaugurando o seu dia.

—  Ou como o caderno novo  
quando a gente o principia.

 

—  E belo porque o novo  
todo o velho contagia.

 

—  Com oásis, o deserto,  
com ventos, a calmaria.

 

Finalmente um dos presentes conclui:


—  Severino, retirante,  
deixe agora que lhe diga:  
eu não sei bem a resposta  
da pergunta que fazia,  
se não vale mais saltar  
fora da ponte e da vida,  
nem conheço essa resposta,  
se quer mesmo que lhe diga.  
É difícil defender,  
só com palavras, a vida,  
ainda mais quando ela é  
esta que vê, severina.  
Mas se responder não pude  
à pergunta que fazia,  
ela, a vida, a respondeu  
com sua presença viva.

E não há melhor resposta  
que o espetáculo da vida:  
vê-la desfiar seu fio,  
que também se chama vida;  
ver a fábrica que ela mesma,  
teimosamente, se fabrica;  
vê-la brotar como há pouco  
em nova vida explodida;  
mesmo quando é assim pequena  
a explosão, como a ocorrida,  
como a de há pouco, franzina,
mesmo quando é a explosão  
de uma vida severina.

 

Na época em que estamos, preocupados e desanimados com a «crise», cheios de incertezas acerca do que o futuro nos reserva, esta menina que agora recebemos no meio de nós, a Beatriz, vem, para os seus pais, para toda a sua família e para os seus amigos, como uma coisinha frágil e indefesa, bela e inocente, como sinal de que a vida não para nunca de se renovar, e de que o começo de uma vida nova é o que há neste mundo de mais belo, mais autêntico e mais cheio de esperança. É, mesmo, a única coisa que nos defende contra a morte. É aquilo que nos desarma quando acumulamos defesas, seguranças e cuidados que, afinal, só nos paralisam ou endurecem e nos impedem de ver o que há de bom e de belo na vida. A Beatriz aparece no meio de nós como convite a protegermos e cultivarmos o que é bom e belo. No seu silêncio, a primeira coisa que nos diz é: não tenhais medo, a vida vence a morte. A beleza vence a força e o poder. Não precisamos de ter nada, só precisamos de ser. O baptismo é um acto de fé na vida e na beleza que a própria vida nos oferece.

publicado por João Machado às 16:00

editado por Luis Moreira às 13:57
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