Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Uma peregrinação a Fátima –II

Carlos Loures

Chegámos a Fátima sem grande dificuldade, pois em Sacavém juntámo-nos a um numeroso grupo de estudantes (genuínos). Eles tinham um grande cartaz a dizer «Peregrinação estudantil a Fátima. Dê-nos boleia, por favor. Que Deus Nosso Senhor lhe pague!» Pouparam-nos o trabalho. Os carros iam parando e nós íamos entrando. Foi uma limpeza. Não conseguimos ir todos juntos, mas sabíamos que, chegados, bastava procurarmos o restaurante Dávi. Não tinha nada que saber.

E assim foi. Antes da uma da tarde já lá estávamos os seis.

Almoçámos principescamente. O «coelho à bruxa» era, de facto, um manjar divino. E foi após a refeição que surgiu o primeiro sinal de alarme. Quando veio a conta, olhámos uns para os outros. Com um ar nostálgico, distraído, o Gargântua, que era sempre o mais endinheirado, puxou de uma nota de cem escudos e nós lá acrescentámos o que faltava. Mas havia ainda o resto do sábado e o domingo pela frente e todos tememos que nos bolsos dos seis não houvesse o suficiente para mandar cantar um cego. Mas ninguém teve o mau gosto de falar no assunto. Pela tarde fora, bebemos mais uns copos. Como era costume, Gargântua dissertou, desta vez sobre a genealogia remota dos Portugueses. Éramos descendentes de Luso, um dos povoadores míticos da Ibéria.

– Já lá dizia o Luís Vaz: «De Luso não perdeis o pensamento.» E quem era o pai de Luso, quem era?

Ninguém sabia. O Gargântua respondeu:

– Baco, quem havia de ser.

Isto vinha a propósito de o Antunes ter lido num jornal que estávamos em segundo lugar entre os maiores consumidores mundiais de bebidas alcoólicas. A França estava em primeiro lugar. «Deve ser desde que os portugas começaram a emigrar para lá», disse um de nós. «Claro», explicou o Gargântua, «é isso mesmo; o que se pode esperar de descendentes de Baco?» E ficámos a saber que a genealogia dos Lusitanos era um dos tais factos inusitados que faziam parte da obra. A dissertação fez-nos alguma sede e bebemos mais uns copos. Depois o Gargântua demorou-se a visitar as lojas da vila e acabou por comprar um rosário e um frasquinho de água de Fátima, a benzer posteriormente, para oferecer à mãe, com a qual vivia. Fomos comendo umas sandes, uns pastéis de bacalhau, umas pataniscas, uns jaquinzinhos, uns rissóis. Eu e o Nunes gastáramos já até ao último tostão. Nenhum dos outros três parecia também muito abonado. Mas o Gargântua continuava a não dar sinais de preocupação. Cansados pela jornada e quebrados pelo excesso de álcool, estávamos com sono. E embora o dia tivesse estado muito quente para a época, com a noite chegara um vento frio e indesejável.

– Vamos arranjar onde dormir – disse o nosso chefe.

Foi então que, deambulando pelo Santuário e imediações em busca de abrigo, deparámos, numa zona já periférica, com uma grande armação em lona, bem iluminada: «Hospedaria de São Francisco», dizia um letreiro sobre a porta central. Como bons satiagrás, entrámos em fila indiana, com o Gargântua à frente. Um franciscano, pequeno e sorridente, aproximou-se. Falava um português com acento italiano. Perguntou-nos o que queríamos. O Gargântua explicou:
– Acomodações para seis, pequenos-almoços e, se nos agradar o serviço, talvez mesmo, quem sabe? o almoço de domingo.

A última parte foi dita num tom severo, retorcendo o bigode e olhando em redor com ar crítico para as paredes e para o tecto de lona que o vento da noite fazia ondular.

O franciscano, sempre sorrindo e fazendo vénias, disse que os pequenos-almoços e o almoço não eram problema. Acomodações para dormir é que já ia ser mais difícil. Ia ver o que podia fazer. E retirou-se. Eu ainda tentei perguntar «Como é que vamos pagar?», mas o Gargântua, adivinhando-me a dúvida, fuzilou-me com um olhar furibundo e impôs-me silêncio.

O franciscano reapareceu. Podia arranjar um quarto para os seis, ficávamos um pouco apertados mas era o único espaço livre. Percorrendo um corredor com chão de terra batida e paredes de lona amparadas por armações de madeira, lá chegámos ao nosso «quarto», um pequeno rectângulo de quatro metros quadrados, com uma cama de campanha a um canto, um lavatório de ferro e pouco mais.

– Isto ma-ma-mal dá para um – comentou o Cortês.
– Eu trago mantas para todos – disse o franciscano no seu português arrevesado.

– Serve perfeitamente, irmão – Gargântua assumira um ar respeitoso como nunca lhe víramos. E foi experimentar se a cama de campanha aguentava o seu peso, pelo que todos percebemos imediatamente que íamos dormir no chão. Pareceu satisfeito. Perguntou quanto custava a dormida. «Vinte escudos cada um», informou o frade. Nós íamos a protestar, era um roubo! O Gargântua fez um gesto imperioso:

– Não é nada caro.
E fez questão de pagar adiantado. De um bolso das calças retirou algumas verdes notas de vinte escudos, «Aqui tem os seis dólares, irmão.» O franciscano riu-se muito, «sei dollari, che spiritoso!» E não queria receber adiantado, confiava em nós, pagávamos tudo no fim. Mas o Gargântua insistiu e o frade lá meteu as seis notas numa algibeira do hábito.

Eram umas onze da noite. Fomos ainda dar uma volta, mas havia pouca animação, o cansaço cada vez era maior e estivemos na hospedaria antes da meia-noite, como nos tinha sido recomendado pelo untuoso fradeco. O Gargântua deitou-se na cama de campanha e nós estendemo-nos no chão, embrulhados em mantas que um outro franciscano nos viera trazer. Estávamos fatigados e nem o ressonar ininterrupto do Gargântua nem a dureza da terra batida nos conseguiram tirar o sono.

De manhã cedo, a tenda gigante encheu-se de ruídos. Vozes sussurrantes, águas a ser despejadas em bacias. O Gargântua sentou-se na cama de campanha, espreguiçou-se e berrou-nos: «Vamos a levantar, madraços!» Lá nos lavámos sumariamente. Parte do vestuário servira-nos de pijama e de agasalho. O Gargântua foi mais requintado. De um bolso da batina retirou um pincel e uma gilete. Barbeou-se a preceito, despejou água sobre a cabeça e chafurdou como uma morsa. Penteou com cuidado os cabelos e os bigodes. Depois, rapidamente, fez uns movimentos de ginástica. Vestiu a batina, pôs a gravata e a capa. Saímos do nosso quarto. No corredor havia outros peregrinos, gente rústica, na sua maior parte. Vimos também alguns dos estudantes com quem tínhamos viajado na véspera. A maioria das pessoas encaminhava-se para uma outra tenda, onde, tudo indicava, era servido o pequeno-almoço – «cinco escudos – um pão com manteiga e uma chávena de café com leite», informava um cartaz. Entrámos. Mesas compridas e toscas e bancos corridos. Dezenas de comensais. Os frades e seus acólitos azafamavam-se com bandejas e cafeteiras. Fomos servidos. Quando comíamos, apareceu-nos o frade da véspera, que pelos vistos era o responsável pela hospedaria, perguntando-nos se tínhamos dormido bem e se tudo estava conforme os nossos desejos. O Gargântua respondeu por todos. Estávamos verdadeiramente impressionados com a excelente qualidade do serviço, disse ele:

– Uma autêntica maravilha, irmão – concluiu – fitando-nos severamente, não fosse algum rir-se.
Com ar dubitativo, o frade olhou à procura de alguma recôndita intenção irónica, mas a expressão do nosso amigo era inocente como a de um serafim. Quando acabámos de comer, vimos que se pagava à saída. Havia uma bicha para o efeito. Um frade recebia o dinheiro e só depois se podia transpor a porta de saída. Começávamos já, mesmo os mais cépticos, a acreditar em milagres, pois o Gargântua, do bolso superior da batina, retirou uma nota de vinte e mais dez escudos em moedas.

(Continua)

Excerto do livro inédito A Vida é um Desporto Violento.



publicado por Carlos Loures às 23:55
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