Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XIV

Etapa 5: De Arneiro das Milhariças à nascente do Alviela

Pernoito no ginásio dos bombeiros voluntários de Pernes, onde vinte colchões servem ocasionalmente para este fim. Escolho, por razões de higiene, dois com revestimento de napa, desdobro-lhes por cima o saco-cama e, depois de lavar a minha camisola, ponho-a a secar na rede de uma baliza. Mais uma vez, sou acolhida com respeito, discrição e muita simpatia. Gosto da generosidade e do profissionalismo que sempre encontro nestes quartéis.
Em Lisboa, hesitei entre dois sacos-cama, um mais quente, para uma temperatura de cinco graus, o outro menos, para uma de vinte. Ora neste momento, mesmo durante a noite, as temperaturas exteriores não devem descer abaixo dos dez graus – e eu não durmo na rua. Trouxe portanto o saco menos quente. Afinal... deve haver algures janelas abertas, talvez no próprio ginásio onde durmo – a verdade é que acordo às quatro horas com frio. E não volto a adormecer.
Saio às sete horas dos bombeiros. Ainda é de noite. Tomo o pequeno almoço no primeiro café e prossigo na direcção de Arneiro das Milhariças por uma estrada muito bonita com, diante de mim, as serras a nascerem da neblina.
Ontem à noite, quando cheguei a Arneiro, não encontrei alojamento mas um rapaz, canalizador, passava por Pernes com a carrinha e deixou-me nos bombeiros voluntários; trabalha catorze horas por dia mas não se queixa da crise. Esta manhã também converso em Arneiro com um trabalhador da construção: conta-me que era barman, mudou de trabalho por aquele ser bem pago, porém agora o patrão baixa os salários, aproveitando-se da crise para aumentar o lucro.
Previ caminhar dezanove quilómetros de Arneiro das Milhariças a Minde. Subo uma encosta quase de saltos altos por a terra molhada se agarrar às botas. No cimo há dois moinhos abandonados e um habitado, o moinho dos Silvas. A bruma deixa adivinhar lá em baixo um casario branco: Arneiro das Milhariças. Logo à entrada de Chã de Cima, num sítio muito sujo, sou atacada por quatro cães e, mesmo com o bordão, tenho dificuldade em escapar. Esta ocorrência ajuda-me a formular uma lei social: quanto mais lixo, mais cães e mais ferozes. Sigo em frente e, como não encontro nenhum café e já bebi um litro de água, prevendo a travessia de oito quilómetros até Monsanto sem avistar vivalma, peço a um habitante que me encha a garrafa; o que ele faz sem adiantar conversa. Desconfiado. Mais uma vez. Não imaginava os portugueses capazes de tamanha xenofobia. O sentimento de insegurança acabou com a franca hospitalidade: todos os estranhos lhes parecem agressores potenciais.
Atravesso uma vegetação muito variada, oliveiras, sobreiros, carvalhos, pinheiros. E tojo, cisto, urze, torga, murta, carqueja, que eu conheço, mas também numerosos arbustos cujos nomes ignoro. Avisto um rebanho de ovelhas. De súbito vejo entulho vazado no meio do caminho: pedaços de tijolo, azulejo e cimento. Dali a pouco chego à beira de uma estrada. Há medronheiros com frutos maduros. Noto porém cada vez mais lixo, montes de embalagens de plástico, como se tivessem despejado algum contentor, lixo e mais lixo, papéis e vidros... De repente sou atacada por dois cães – já estava à espera disto. (Cá diz o refrão: não há lixo sem cães.)
publicado por Carlos Loures às 10:00
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