Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Reflectindo sobre o PS - por António Gomes Marques

 

O mês de Fevereiro tem sido bem interessante para quem queira ter um olhar sobre o PS de José Sócrates (um Partido Socialista será outra coisa). Fiquemo-nos pelo Jornal i e atentemos:

 

No dia 8 de Fevereiro é publicada, naquele jornal, uma entrevista com Henrique Neto, sob o título «Seguro deve avançar contra Sócrates» e, como me parece óbvio, Seguro não avança, está à espera que o poder lhe caia nas mãos, o que significa que, caso isso viesse a acontecer, a democraticidade interna sofreria algumas alterações no início até que o aparelho, essa entidade que não consta nos Estatutos, recuperasse o espaço e tudo voltasse ao mesmo, apenas com a diferença das personalidades António José Seguro/José Sócrates. O mesmo poderia escrever-se sobre António Costa.

 

Voltemos à entrevista. Diz H. Neto: «A partir de António Guterres começou um processo muito forte de centralização e os grupos que tomam conta do partido são cada vez mais pequenos. É sabido que José Sócrates foi escolhido numa reunião entre oito ou nove pessoas.» Temos outras afirmações importantes de HN, como, comparando com os clubes de futebol: «…, há mais reacções populares do que nos partidos políticos».

 

Há, de facto, uma maioria de militantes, como refere HN, que vota pela manutenção do actual Secretário-Geral com receio de perder o poder. Que poder e de quem, pergunto eu? É também por isso que o entrevistado defende eleições primárias dentro do PS, de acordo, aliás, com o que defende a Esquerda Socialista, de que faço parte, assim como HN.

 

Em toda a entrevista houve algo que incomodou sobremaneira Almeida Santos, quando HN diz: «… nas reuniões da comissão nacional, por exemplo, o presidente do partido, Almeida Santos, controla tudo. Só dá a palavra verdadeiramente a quem quer, corta a palavra, diz que não há tempo…» e, mais à frente: «Sim, o Almeida Santos tem culpas enormes na falta de democraticidade interna do partido». HN faz estas afirmações com base, nomeadamente, no que diz um membro da comissão nacional, eleito pela Esquerda Socialista, o qual, na edição do mesmo jornal do dia seguinte, 9 de Fevereiro, sob o título «Dirigente do PS acusa partido de apagar críticos das actas», confirma as afirmações de HN. Pode ler-se naquela edição: «Rómulo Machado escreveu recentemente ao secretariado do PS a queixar-se da forma como são elaboradas as actas e já informou o presidente do partido, Almeida Santos, sobre o mesmo assunto. “Uma coisa é as actas não reflectirem exactamente o que se diz. Outra coisa é verificar que as intervenções críticas estão a ser completamente manipuladas”, diz.»

 

Almeida Santos não resiste e responde com «Carta aberta ao militante do meu partido Henrique Neto», na edição do mesmo jornal de 10 de Fevereiro, onde, e é o mais importante da carta, escreve a dado momento: «Desta vez, porém, o Henrique Neto, para discordar mentiu. E isso é que é grave!»

 

Não resisto a registar que Almeida Santos escreve «Desta vez, …», o que nos pode levar a concluir que Henrique Neto das outras vezes falou verdade e, então, caro leitor, leia a entrevista que, não há muito tempo, HN concedeu ao Jornal de Negócios. Mas a troca de palavras continua, agora com uma carta aberta de resposta de HN, onde mostra claramente quem é o mentiroso, razão por que, é a minha leitura, Almeida Santos não responde aos desafios lançados por Henrique Neto.

 

Isto faz-nos perguntar: que faz correr Almeida Santos? Que interesses está ele a defender? Os do povo português não são, com toda a certeza; os do PS também não. Fica a pergunta.

Ou será que o interesse de Almeida San

tos se limita a ser coerente com o seu Secretário-Geral? Ser número 3 de um partido que tem Mário Soares e Salgado Zenha é algo de prestigiante, ser número 2 de um partido que tem José Sócrates como número 1 é bem pouco de louvar, para alguém como Almeida Santos. Ou será que Almeida Santos, afinal, não é quem eu pensava que era?

 

Então, impõe-se uma outra questão: será que Almeida Santos não pode deixar de ser coerente com José Sócrates? Contrariamente ao que eu pensava, Almeida Santos, profissional da política, faz jus ao que Alfredo Barroso no mesmo Jornal i, apoiando-se em «Robert Michels, um dos maiores autores clássicos especializados no estudo dos partidos políticos em democracia», escreve na edição de 15 de Fevereiro: «Graças ao conhecimento das questões essenciais e à sua experiência política, essa classe profissional acaba por se tornar indispensável. A sua “ciência” dos mecanismos internos (o chamado “aparelho”) e a habilidade para utilizar as regras do jogo (que conhece e manipula como ninguém) preservam-na de ser derrubada por súbitas inversões de maioria.» Ou seja, Almeida Santos é uma outra espécie de José Lello, muito mais inteligente e culto, claro!

 

O carácter de José Sócrates pode avaliar-se pelas palavras que utilizou quando exultou com o défice orçamental de Janeiro próximo passado, claramente demonstrativas do que é o seu conceito de falar verdade ao país. A «boa» notícia de que o défice caiu 100 milhões de euros, esquece que a receita, à custa da maior carga fiscal da Europa, subiu 367 milhões de euros. Leia-se o que escreveu Camilo Lourenço na 4.ª feira, 23 de Fevereiro, na sua habitual coluna no Jornal de Negócios. Ou, então, o que Paulo Trigo Pereira escreve no seu Comentário no Jornal Público do mesmo dia, intitulado “A procissão ainda vai no adro”: «Assim, pode-se concluir que o objectivo da consolidação para 2011 é reduzir o défice em 3135 milhões de euros, que o contributo do subsector Estado para esta redução é de 2732,5 milhões e que 94,2 por cento dela provirá de um aumento das receitas (ou seja, apenas 5,8 por cento deriva de diminuição da despesa). Isto significa que o OE 2011 considerou a incapacidade de o Governo reduzir a despesa do Estado, pelo que a melhoria do seu saldo provém essencialmente do aumento da receita, sobretudo fiscal.», o que confirma que, de facto, como escreve este Professor, «No Estado, o esforço de consolidação está a ser feito, sobretudo, e de forma clara, pela receita fiscal que aumentou 15,1 por cento, mas a despesa do Estado não diminuiu.»

 

Para concluir, diremos que no Partido Socialista é o momento de reflexão para os seus militantes. Aproxima-se o momento de escolher entre um futuro com valores socialistas e, portanto, de esperança e um futuro negro, com a direita liberal, liderada por José Sócrates, a fazer-se passar por socialista e defensor do estado social, com o ultra-liberal PSD a governar por muitos anos, mas não com os dinheiros de que beneficiou Cavaco Silva e com os quais não soube construir um país com futuro.

Praia de Santa Cruz (Boavista), 2011/02/26

 

 

publicado por Carlos Loures às 20:00
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