Sábado, 20 de Novembro de 2010
Mário Viegas declama o "Manifesto Anti-Dantas" de Almada Negreiros


publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Dia de Lisboa - LIa Gama, Fernando Correia da Silva e Almada Negreiros, falam dos cáfés de Lisboa
Fernando Correia da Silva diz-nos como era no Café Chiado



Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

Era mesmo intuição. Anos depois, durante a guerra pela independência de Angola, o Mário e o Agostinho entraram num tal confronto que o Mário teve que emigrar para a Guiné-Bissau.


Almada Negreiros na sua tertúlia da Brasileira do Chiado



Para terminar, Lia Gama canta.nos os cafés de Lisboa. Ora aqui estão três versões coincidentes.




publicado por Carlos Loures às 22:00
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Sábado, 9 de Outubro de 2010
A praxe saiu à rua num dia assim
Pedro Godinho

Ei-los de volta, na rua. É o regresso das praxes.

Grupos de estudantes, rua abaixo rua acima, ululantes, gritam e uivam frases sem nexo ou, simplesmente, obscenidades. Muitos com cartazes, que os apoucam, pendurados ao pescoço, como na revolução cultural da china maoísta.

Comandados por trajados de doutores, de megafone e peito cheio a ditar ordens, tanto mais excitados quando aquelas mais alcoolizam e humilham as bestas, nome dado aos caloiros pelosauto-intitulados veteranos.

As comissões de praxe atraem os pequenos ditadores, primatas, ansiosos por usarem e abusarem do poder que aquelas lhes dão. Não raro são veteranos do chumbo e notas baixas.

Sem inteligência nem criatividade, repetem de ano para ano uma praxe baseada em acções de humilhação e violência, frequentemente resultando em acidentes graves (inclusive mortes, paraplegias) sem que apesar disso se abstenham de reincidirem.

Não é aceitável o argumento que só participa quem quer e quem não quer pode recusar a praxe. Primeiro, pela manipulação dos jovens estudantes que se querem integrar na nova instituição – e a quem chega a ser dito que quem não é praxado não pode depois participar nas actividades promovidas pela academia. Segundo, ninguém tem que ter de se declarar anti-praxe ou o que quer que seja para não ser alvo e vítima de acções indesejadas. Terceiro, porque o argumento é falso, a coacção, violência e brutalidade imperam nas praxes, também dentro das instalações universitárias.

Perante a omissãoe indiferença, complacente e conivente, de reitores da universidade e directores de faculdade, de sindicatos e de professores, de associações de estudantes, das jotinhas dos partidos, de polícias, do ministério da educação e do ministério público. Todo, convenientemente, alheados como se não fosse nada com eles, reagindo apenas, quantas vezes com enfado e procurando desculpas, se obrigados por queixa judicial.

A violência e humilhação não podem ser desculpadas a pretexto de se tratar apenas duma brincadeira etradição.

As tradições não valem por o ser. Até porque antes de o ser não eram. Não é, simplesmente, por ser tradição que algo tem valor e deve continuar. Há-as boas e infames. Há tradições a extinguir, logo.

Parafraseando o Almada, a praxe cheira mal da boca, morra a praxe, morra, Pim!


publicado por Carlos Loures às 11:00
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