Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
Evento da Literatura Angolana – 1977: Agostinho Neto, Sagrada Esperança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sílvio Castro

 

A 1ª. edição do livro de Agostinho Neto, Sagrada Esperança, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1977 tem a força de inauguração dos novos tempos derivados dos grandes fatos de 1974 e que abria igualmente novos horizontes para a gente angolana, mesmo dentro dos horrendos fantasmas trazidos pela guerra civil que tão longamente a atormentará ainda. Nos poemas de Agostinho Neto, impregnados de grande humanidade e de ampla participação com a vida de sua gente e de seu país, corria todo um frêmito de denúncias, mas igualmente de esperanças.

 

 

 

 

 

 

Os poemas de Sagrada Esperança, de certo modo, tivera um aparecimento anterior à histórica edição de Luanda-77, isso com a tradução italiana de Joyce Lussu, Con occhi asciutti, Il Saggiatore, Milão, 1963. Porém, apesar da importância da operação da grande ativista cultural que foi Joyce Lussu, a sua operação não deve ser considerada como o primeiro aparecimento da poesia do poeta angolano. Tudo isso porque, a intelectual italiana tem um conceito de tradução que pode ser considerado discutível, e mais ainda porque trabalhou os textos de Agostinho Neto partindo de uma experiência pouco comum: devido às prisões do lider angolano, a tradutora italiana tem possibilidade de receber os poemas somente por via indireta, isto é, pelas mãos da mulher de Agostinho Neto que recolhia e copiava os poemas ditado a memória pelo poeta condicionado pela violência de seu isolamento nos cárceres salazarista.

 

À edição de 1977, logo sucede uma 2ª. edição de Sagrada Esperança, a da Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1979. Alguns anos depois, com a plena ação de Agostinho Neto como lider de seu país, aparece a edição brasileira da Editora Ática, São Paulo, 1985.

 

Agostinho Neto considerava que poesia e política constituiam um corpo único, com plena compatibilidade entre os dois termos. Tudo numa clara consciência da força da História. Certamente como Marx se referiu à filosofia, Agostinho Neto, parafrasendo o seu mestre em política, poderia ter afirmado, como de certa forma o fez, que “a poesia tende a tornar-se realidade”.

 

A possível interrelação entre poesia e política deve afirmar-se em maneira objetiva, sendo o poeta consciente do valor da tomada de posição e explicitação da consciência política. Principalmente se a sua afirmação é obrigada a ser tal num processo de luta, de revolução. A partir de então, poesia e política, com a vigilância por parte do poeta em relação à natureza estética de sua obra, continua a ser sempre assim, mesmo quando exalta valores retóricos não inteiramente compatíveis com a criação poética. Podemos afirmar que isto é quanto acontece com Agostinho Neto. Desde os seus primeiros poemas, ele os criou consciente que não podia ser uma voz intimamente lírica, mas que desde sempre se sentia comprometido. Comprometido com seu país, comprometido com Angola, com sua gente, sua cultura, suas tradições, seus sentimentos mais profundos.

 

 

 

Tais valores se encontram na maioria dos poemas de Sagrada Esperança, como podemos verificar com a exemplificação da beleza dramática do poema “Noite”:

 

 

Eu vivo

nos bairros escuros do mundo

sem luz nem vida.

 

Vou pelas ruas

às apalpadelas

encostado aos meus informes sonhos

tropeçando na escravidão

ao meu desejo de ser.

 

 

São bairros de escravos

mundos de misérias

bairros escuros.

 

Onde as vontades se diluiram

e os homens se confundiram

com as coisas.

Ando aos trambolhões

pelas ruas sem luz

desconhecidas

pejadas de mística e terror

de braços dados com fantasmas.

Também a noite é escura.

 

Com os seus poemas Agostinho Neto estabeleceu um coerente discurso entre poesia e história, apresentando um visível sistema da realidade, ao mesmo tempo que fazia do canto um processo de tensão, dialético e revolucionário. Por essas grandes razões, fazemos votos que a atuação do lider angolano na sua presidência encontre o melhor e mais breve esclarecimento da crítica histórica, removendo todas as obscuridades de presumíveis violências e injustiças verificadas no longo período da sua liderança política. O grande poeta de Sagrada Esperança deixa presupor e esperar que todas as dúvidas serão certamente esclarecidas.

 



publicado por João Machado às 21:00
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010
Mário Pinto de Andrade, por Fernando Correia da Silva

CAFÉ CHIADO - Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.


À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.
Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:


- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.


- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...


- A ver vamos se é mania ou intuição...

NEGROS CALÇADOS - Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão...
- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.
Fico atordoado com a resposta.
- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?


- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

PRAÇA DAS FLORES - Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço...). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?


Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português...

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO - Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.


Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser...

CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS - Em 1950 um grupo de estudantes oriundos das colónias portuguesas funda um Centro de Estudos Africanos (CEA). Entre eles estão Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, os poetas são-tomenses Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro, e a poeta moçambicana Noémia de Sousa. Diz o Mário:

- Os objectivos do Centro de Estudos Africanos são os de racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente.

O mesmo grupo, com os mesmos objectivos, profere idênticas palestras no Clube Marítimo.

CADERNO DE POESIA NEGRA - Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia negra de Expressão Portuguesa.
Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa...

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
- Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé

PRÉSENCE AFRICAINE - Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a mão, dou o salto para o Brasil. E tu, Mário, dois ou três meses depois, suponho que pelos mesmos motivos, dás o salto para Paris.

Perco o contacto directo contigo mas, por vias terceiras, vou sabendo da tua vida.

Em 1955, sei que és redactor da revista Présence Africaine, e também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Também sei que estás a estudar e te vais formar em Sociologia, na Sorbonne.


TASCHKENT - Ó Mário: em 1958, juntamente com Viriato da Cruz, tu representas Angola na I Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, em Taschkent, na URSS.

MPLA - Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.

Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.

Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário...

MAIS TRABALHOS - Mário: entre 1965 e 69 coordenas a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); e de 1971 a 72 integras o Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA na Frente Leste. Em 1973 és mandatado pelo mesmo Comité para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.

REVOLTA ACTIVA - Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.

- Batatada, mania ou intuição? - hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Mário: acabas por te exilar na Guiné-Bissau, onde assumes as funções de coordenador do Conselho Nacional de Cultura. Mais tarde serás até o próprio Ministro da Informação e Cultura, com a aprovação do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

REENCONTRO - Depois do 25 de Abril, já em 1975, sou incumbido de ir a Cabo Verde e Guiné-Bissau para tentar armar um esquema de cooperação com o meu condiscípulo e velho amigo Vasco Cabral, o homem da Economia da nova República.

O Vasco está provisoriamente instalado numa vivenda na marginal entre a cidade da Praia e a Prainha. Diz-me que ali também está instalado o Mário Pinto de Andrade. Ele a dizer-me isto e o Mário a aparecer. Olha para mim, hesita, sabe que me conhece mas não é capaz de me reconhecer. Compreende-se, já se passaram mais de 20 anos e as nossas feições, até o físico, mudaram, eu engordei e ele emagreceu. Ajudo, assopro:

- Um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela rua Garrett...

Desmanchas-te a rir, corres para mim, dás-me um grande e apertado abraço.

NINO VIEIRA - Na Guiné-Bissau, em 1980, João Bernardo “Nino” Vieira dá um golpe que depõe o presidente Luís Cabral (irmão de Amílcar). Consequências: Luís Cabral segue para Lisboa e o PAIGC cinde-se em dois, o PAICV (cabo-verdeano) e o PAIG (guineense). Tu, Mário, tal como muitos outros companheiros de luta, deixas a Guiné e aderes ao PAICV.


HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA - Durante toda a década de 80 tu, Mário, circulas entre Paris (a tua base), Lisboa, Moçambique e Cabo Verde. Trabalhas na pesquisa e elaboração de artigos e capítulos para a História Geral de África, obra em oito grossos volumes, projecto editorial de UNESCO. Trabalho colectivo a contribuir para uma melhor compreensão das sociedades e culturas africanas. Obra realizada por 350 autores sob a direcção de um comité científico integrado por 39 especialistas, dos quais 2/3 são africanos. Dada a sua importância para a humanidade, a obra é editada em inglês, em francês, em árabe e também em algumas línguas africanas.

NATIVISMO E ERRÂNCIAS - Dentro do espírito unitário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) também pesquisas o nativismo e o proto-nacionalismo na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A tua pesquisa não é concluída mas será postumamente editada com revisão do texto por José Eduardo Agualusa.

Um, dois, três apartes: a convite do Governo de Moçambique ali permaneces entre fins de 83 e princípios de 84. Voltas ao Maputo em Abril de 85 para, juntamente com a socióloga Maria do Céu Carmo Reis, dares um curso de 3 meses na Universidade Mondlane sobre Ideologias da Libertação Nacional. Entre 87 e 89 permaneces em Moçambique por períodos intermitentes.

DOENÇA E MORTE - Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.

Ó Mário, saudades já tenho da tua forma de ser e estar!

(Excerto do trabalho publicado pelo autor em "Vidas Lusófonas")



publicado por Carlos Loures às 22:00
editado por João Machado em 31/01/2011 às 13:38
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Domingo, 21 de Novembro de 2010
Evento da Literatura Angolana – 1977: Agostinho Neto, Sagrada Esperança
Sílvio Castro

A 1ª. edição do livro de Agostinho Neto, Sagrada Esperança, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1977 tem a força de inauguração dos novos tempos derivados dos grandes fatos de 1974 e que abria igualmente novos horizontes para a gente angolana, mesmo dentro dos horrendos fantasmas trazidos pela guerra civil que tão longamente a atormentará ainda. Nos poemas de Agostinho Neto, impregnados de grande humanidade e de ampla participação com a vida de sua gente e de seu país, corria todo um frêmito de denúncias, mas igualmente de esperanças.

Os poemas de Sagrada Esperança, de certo modo, tivera um aparecimento anterior à histórica edição de Luanda-77, isso com a tradução italiana de Joyce Lussu, Con occhi asciutti, Il Saggiatore, Milão, 1963. Porém, apesar da importância da operação da grande ativista cultural que foi Joyce Lussu, a sua operação não deve ser considerada como o primeiro aparecimento da poesia do poeta angolano. Tudo isso porque, a intelectual italiana tem um conceito de tradução que pode ser considerado discutível, e mais ainda porque trabalhou os textos de Agostinho Neto partindo de uma experiência pouco comum: devido às prisões do lider angolano, a tradutora italiana tem possibilidade de receber os poemas somente por via indireta, isto é, pelas mãos da mulher de Agostinho Neto que recolhia e copiava os poemas ditado a memória pelo poeta condicionado pela violência de seu isolamento nos cárceres salazarista.

À edição de 1977, logo sucede uma 2ª. edição de Sagrada Esperança, a da Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1979. Alguns anos depois, com a plena ação de Agostinho Neto como lider de seu país, aparece a edição brasileira da Editora Ática, São Paulo, 1985.

Agostinho Neto considerava que poesia e política constituiam um corpo único, com plena compatibilidade entre os dois termos. Tudo numa clara consciência da força da História. Certamente como Marx se referiu à filosofia, Agostinho Neto, parafrasendo o seu mestre em política, poderia ter afirmado, como de certa forma o fez, que “a poesia tende a tornar-se realidade”.

A possível interrelação entre poesia e política deve afirmar-se em maneira objetiva, sendo o poeta consciente do valor da tomada de posição e explicitação da consciência política. Principalmente se a sua afirmação é obrigada a ser tal num processo de luta, de revolução. A partir de então, poesia e política, com a vigilância por parte do poeta em relação à natureza estética de sua obra, continua a ser sempre assim, mesmo quando exalta valores retóricos não inteiramente compatíveis com a criação poética. Podemos afirmar que isto é quanto acontece com Agostinho Neto. Desde os seus primeiros poemas, ele os criou consciente que não podia ser uma voz intimamente lírica, mas que desde sempre se sentia comprometido. Comprometido com seu país, comprometido com Angola, com sua gente, sua cultura, suas tradições, seus sentimentos mais profundos.



Tais valores se encontram na maioria dos poemas de Sagrada Esperança, como podemos verificar com a exemplificação da beleza dramática do poema “Noite”:


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.


São bairros de escravos
mundos de misérias
bairros escuros.

Onde as vontades se diluiram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braços dados com fantasmas.
Também a noite é escura.

Com os seus poemas Agostinho Neto estabeleceu um coerente discurso entre poesia e história, apresentando um visível sistema da realidade, ao mesmo tempo que fazia do canto um processo de tensão, dialético e revolucionário. Por essas grandes razões, fazemos votos que a atuação do lider angolano na sua presidência encontre o melhor e mais breve esclarecimento da crítica histórica, removendo todas as obscuridades de presumíveis violências e injustiças verificadas no longo período da sua liderança política. O grande poeta de Sagrada Esperança deixa presupor e esperar que todas as dúvidas serão certamente esclarecidas.


publicado por Carlos Loures às 16:30
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010
Apresentando Fernando Correia da Silva

Fernando Correia da Silva, escritor, nasceu em Lisboa no ano de 1931. Frequentou o curso Ciências Económicas e Financeiras e, ainda estudante, foi apoiante do general Norton de Matos nas eleições presidenciais de 1949. Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política. Foi amigo de outros escritores, tais como António José Saraiva, Mário Henrique Leiria, Alexandre O’Neill, Orlando Costa (seu padrinho de casamento) e muitos outros. Conviveu com políticos como Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral.

Em 1954, perseguido pela PIDE foi para o Brasil como exilado político. Ali colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, fundou em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Durante dois anos, viveu o Nordeste, onde a ostentação e a miséria viviam paredes meias.. Regressou a Portugal em 1974.

Tem uma obra essencialmente constituída por romances. Referimos os mais importantes: Mata-Cães (1986),, Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença, o mais autobiográfico dos seus romances, foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 20 milhões de visitas.


publicado por Carlos Loures às 21:15
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