José Pedro Machado, meu amigo e grande filólogo de que já vos tenho falado, legou-nos dois importantes livros sobre a influência do árabe na língua portuguesa «Vocabulário Português de Origem Árabe» (1991) e «Ensaios Arábico-Portugueses» (1997). Por eles, podemo-nos aperceber da grande quantidade de vocábulos que, do árabe, foram emprestados ao português. Muitos são palavras de uso comum e quotidiano: alarido, alarde, albufeira, alcaide, aldrabão, alface, alfândega, algazarra, alicate, alpergata, alvoroço, argola, armazém, arsenal, baldio, bazar, bolota, cabide, chafariz, cifra, debalde, divã, enxaqueca, enxovia, falua, fateixa, fato, forro, fulano, garrafa, gazela, jarra, javali, lacrau, laranja, marfim, matraca, múmia, nora, oxalá, quintal, recife, sucata, tagarela, tarefa, tremoço, xadrez, zagaia… São milhares, incluindo muitas centenas de topónimos
Da arquitectura árabe pouco nos ficou, sabendo-se que os conquistadores destruíam os monumentos dos vencidos e, desse modo, as mesquitas eram transformadas em igrejas (acontecendo também o inverso), pois nem árabes nem cristãos tinham nesse dramáticos tempos o conceito da conservação do património. Consumada a Reconquista, tudo o que era muçulmano foi destruído, reconvertido, porém, apesar dessa destruição, muito se tem avançado no estudo dos vestígios da presença árabe, nomeadamente no Campo Arqueológico de Mértola, superiormente dirigido pelo Professor Cláudio Torres.
Na literatura, existem numerosos legados. O poeta e ensaísta Adalberto Alves, director do Centro de Estudos Luso-Árabes, de Silves, no seu livro «O Meu Coração é Árabe», estuda essa influência da cultura e da literatura árabes no nosso território. Com este livro obteve um prestigiado prémio internacional , o Prémio Sharjah 2008 para a Cultura Árabe, outorgado pela UNESCO. Em 2009 publicou outro magnífico estudo – “As sandálias do Mestre”, sobre a influência do Islão na formação de Portugal.
Não faltam exemplos da forte influência que os árabes, nos séculos que aqui estiveram, nos legaram. Eis um poema de Ibn Ammar (1031- 1084), nascido em Silves, que transcrevo de “O Meu Coração Também é Árabe”:
Este poema é para ti, Como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousar o orvalho da noite
Até que o ataviou de flores.
Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro.
Com o teu louvor derramei o melhor almíscar
Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo
Eu o quereria no fogo do meu génio
Quando as brasas estavam ainda a arder.
O orgulho no amor – temei-o – é a sua vergonha
Mas o prazer – aproveitai-o - é o seu ardor.
Não peças à paixão que te dê domínio
Prefere ser escravo, nas suas mãos é que és livre!
Vós me dissestes: o amor prejudicou-te.
Eu respondi. Quem me dera me tivesse feito mal.
È que o meu coração escolheu doença para o corpo
Como forma própria de o adornar.
Deixai, pois, fazer a sua escolha
E não me critiqueis por estar emagrecido:
Não está a excelência de uma adaga
Precisamente na finura do seu gume?
Troçaste porque me deixou minha amada?
Quanto fim de mês oculta o crescente que vai vir!
Julgais que o fogo do esquecimento me consolara
Ou que um profundo sono chegará depois?
Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais
Quem te acudiria o socorro das lágrimas.
Onde pretendo chegar? A várias conclusões, mas principalmente a uma - depois de vos ter, já por diversas ocasiões, falado da esplendorosa cultura galega, coisa que tenciono continuar a fazer, falo-vos agora da grandeza da cultura árabe – pré-islâmica e islâmica. Nós não somos nem galegos, nem mouros, nem judeus, mas devemos a galegos e a mouros muito do que somos. E também aos judeus. Quanto os filhos de Moisés, que chegaram a constituir uma parte importante da nossa população, enriqueceram a nossa cultura e a nossa ciência e quanto do seu sangue circula nas veias de tantos de nós! E a herança celta, tão visível no Minho e em Trás-os-Montes? Somos um interface de culturas. E não pára.
Não pára, porque o fluxo de emigrantes extra-comunitários: cabo-verdianos, ucranianos, brasileiros, é mais um factor de enriquecimento do nosso património cultural (para não falar do património genético). Compensam, em termos demográficos, o défice que as novas concepções da estrutura familiar impõe.
Somos pessoas, em suma. Nenhuma cultura parte do zero ou se alimenta do vácuo. A nossa resulta de um intrincado tapete, de um mosaico onde se misturam e cruzam influências culturais, heranças, empréstimos linguísticos. Como sociedade aberta que somos e fomos nos momentos cruciais da nossa História, como na época dos Descobrimentos, a nossa cultura é enriquecida com o passado e com o que, no presente, nos trazem os milhares de imigrantes. Não temos que nos envergonhar de nenhuma dessas heranças nem com os contributos actuais. Só temos de nos envergonhar quando somos estúpidos ao ponto de ter vergonha.
Ouvimos aquí uma das «Cantigas de Santa María», do rei Afonso X de Leão e Castela (1252-1284) que, como sabemos utilizou na sua poesia o idioma galego-português. Este rei, embora tenha participado activamente na guerra da Reconquista, conservou na sua corte numerosos artistas, nomeadamente músicos mouros, dando assim um exemplo de tolerância para com os vencidos. Esta cantiga fala dos alarifes mudéjares, ou seja dos arquitectos e artífices mouros. Mudéjares eram os mouros aos quais foi permitido continuar a viver entre nós, mediante o pagamento de um tributo. Muitos deles eram artistas, cientistas, médicos… Afonso X, o Sábio, dedicou esta cantiga a esses artistas e artífices que embelezavam com a sua arte igrejas e palácios dos cristãos vencedores.
Quase oito séculos depois, estaremos mais sábios e tolerantes?
Arranjo: Jorge Varrecoso Gonçalves e Vasco Azevedo
É também uma cantiga de amigo (marinha), de dístico de rima toante (í-o e á-o), com refrão composto de duas partes (uma intercalada entre o 1º e o 2º verso do dístico e a outra no final da estrofe): fala a donzela (namorada) da sua decisão ou desejo de ir ver o barco / navio, que o rei mandou preparar para uma missão e nela deseja partir com o seu amigo. É seu autor João Zorro, o jogral de Lisboa e do Tejo (viveu certamente durante o reinado de D. Dinis), e sobretudo das suas barcas, tão bem evocadas no século XX por Fiama Hasse Pais Brandão. Encontra-se registada nos cancioneiros B (Biblioteca Nacional, nº 1157) e V (Vaticana, nº 759):
En Lixboa, sobre lo mar
Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!
En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!
Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!
Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida!
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Lisboa tem barcas novas
Lisboa tem barcas
agora lavradas de armas
Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens
Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra
São de guerra as barcas novas
ao mar mandadas com homens
Barcas novas são mandadas
sobre o mar
Não lavram terra com armas
os homens
Nelas mandaram meter
os homens com a sua guerra
Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas
Barcas novas são mandadas
sobre o mar
Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas
Nota: Adriano Correia de Oliveira criou uma lindíssima versão musical deste tema. Não o encontrámos, no entanto, disponível.
José Pedro Machado, meu amigo e grande filólogo de que já vos tenho falado, legou-nos dois importantes livros sobre a influência do árabe na língua portuguesa «Vocabulário Português de Origem Árabe» (1991) e «Ensaios Arábico-Portugueses» (1997). Por eles, podemo-nos aperceber da grande quantidade de vocábulos que, do árabe, foram emprestados ao português. Muitos são palavras de uso comum e quotidiano: alarido, alarde, albufeira, alcaide, aldrabão, alface, alfândega, algazarra, alicate, alpergata, alvoroço, argola, armazém, arsenal, baldio, bazar, bolota, cabide, chafariz, cifra, debalde, divã, enxaqueca, enxovia, falua, fateixa, fato, forro, fulano, garrafa, gazela, jarra, javali, lacrau, laranja, marfim, matraca, múmia, nora, oxalá, quintal, recife, sucata, tagarela, tarefa, tremoço, xadrez, zagaia… São milhares, incluindo muitas centenas de topónimos Da arquitectura árabe pouco nos ficou, sabendo-se que os conquistadores destruíam os monumentos dos vencidos e, desse modo, as mesquitas eram transformadas em igrejas (acontecendo também o inverso), pois nem árabes nem cristãos tinham nesse dramáticos tempos o conceito da conservação do património. Consumada a Reconquista, tudo o que era muçulmano foi destruído, reconvertido, porém, apesar dessa destruição, muito se tem avançado no estudo dos vestígios da presença árabe, nomeadamente no Campo Arqueológico de Mértola, superiormente dirigido pelo Professor Cláudio Torres.
Na literatura, existem numerosos legados. O poeta e ensaísta Adalberto Alves, director do Centro de Estudos Luso-Árabes, de Silves, no seu livro «O Meu Coração é Árabe», estuda essa influência da cultura e da literatura árabes no nosso território. Com este livro obteve um prestigiado prémio internacional , o Prémio Sharjah 2008 para a Cultura Árabe, outorgado pela UNESCO. Em 2009 publicou outro magnífico estudo – “As sandálias do Mestre”, sobre a influência do Islão na formação de Portugal.
Não faltam exemplos da forte influência que os árabes, nos séculos que aqui estiveram, nos legaram. Eis um poema de Ibn Ammar (1031- 1084), nascido em Silves, que transcrevo de “O Meu Coração Também é Árabe”:
Este poema é para ti, Como um jardim que a brisa visitou
Sobre o qual repousar o orvalho da noite Até que o ataviou de flores. Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro. Com o teu louvor derramei o melhor almíscar Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo Eu o quereria no fogo do meu génio Quando as brasas estavam ainda a arder. O orgulho no amor – temei-o – é a sua vergonha Mas o prazer – aproveitai-o - é o seu ardor. Não peças à paixão que te dê domínio Prefere ser escravo, nas suas mãos é que és livre! Vós me dissestes: o amor prejudicou-te. Eu respondi. Quem me dera me tivesse feito mal. È que o meu coração escolheu doença para o corpo Como forma própria de o adornar. Deixai, pois, fazer a sua escolha E não me critiqueis por estar emagrecido: Não está a excelência de uma adaga Precisamente na finura do seu gume? Troçaste porque me deixou minha amada? Quanto fim de mês oculta o crescente que vai vir! Julgais que o fogo do esquecimento me consolara Ou que um profundo sono chegará depois? Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais Quem te acudiria o socorro das lágrimas.
Onde pretendo chegar? A várias conclusões, mas principalmente a uma - depois de vos ter, já por diversas ocasiões, falado da esplendorosa cultura galega, coisa que tenciono continuar a fazer, falo-vos agora da grandeza da cultura árabe – pré-islâmica e islâmica. Nós não somos nem galegos, nem mouros, nem judeus, mas devemos a galegos e a mouros muito do que somos. E também aos judeus. Quanto os filhos de Moisés, que chegaram a constituir uma parte importante da nossa população, enriqueceram a nossa cultura e a nossa ciência e quanto do seu sangue circula nas veias de tantos de nós! E a herança celta, tão visível no Minho e em Trás-os-Montes? Somos um interface de culturas. E não pára.
Não pára, porque o fluxo de emigrantes extra-comunitários: cabo-verdianos, ucranianos, brasileiros, é mais um factor de enriquecimento do nosso património cultural (para não falar do património genético). Compensam, em termos demográficos, o défice que as novas concepções da estrutura familiar impõe.
Somos pessoas, em suma. Nenhuma cultura parte do zero ou se alimenta do vácuo. A nossa resulta de um intrincado tapete, de um mosaico onde se misturam e cruzam influências culturais, heranças, empréstimos linguísticos. Como sociedade aberta que somos e fomos nos momentos cruciais da nossa História, como na época dos Descobrimentos, a nossa cultura é enriquecida com o passado e com o que, no presente, nos trazem os milhares de imigrantes. Não temos que nos envergonhar de nenhuma dessas heranças nem com os contributos actuais. Só temos de nos envergonhar quando somos estúpidos ao ponto de ter vergonha.
Ouvimos aquí uma das «Cantigas de Santa María», do rei Afonso X de Leão e Castela (1252-1284) que, como sabemos utilizou na sua poesia o idioma galego-português. Este rei, embora tenha participado activamente na guerra da Reconquista, conservou na sua corte numerosos artistas, nomeadamente músicos mouros, dando assim um exemplo de tolerância para com os vencidos. Esta cantiga fala dos alarifes mudéjares, ou seja dos arquitectos e artífices mouros. Mudéjares eram os mouros aos quais foi permitido continuar a viver entre nós, mediante o pagamento de um tributo. Muitos deles eram artistas, cientistas, médicos… Afonso X, o Sábio, dedicou esta cantiga a esses artistas e artífices que embelezavam com a sua arte igrejas e palácios dos cristãos vencedores.
Quase oito séculos depois, estaremos mais sábios e tolerantes?