Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

Mário Dionísio – Um Livro Desconhecido - por António Gomes Marques

 

 

 

Foi ontem, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio o lançamento de

 um livro desconhecido para mim e para a generalidade dos leitores de Mário Dionísio, com o título «[Érico Veríssimo] Um Romancista Brasileiro», numa edição comemorativa do Centenário da Faculdade de Letras e da responsabilidade do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias daquela Faculdade da Universidade de Lisboa.

A edição tem uma introdução de um dos estudiosos da obra de Mário Dionísio, João Marques Lopes, e apresentação, fixação de texto, notas e bibliografia de Vania Pinheiro Chaves.

 

Trata-se da dissertação que permitiu a Mário Dionísio, em 1939, concluir

a sua Licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e que, graças àqueles dois investigadores, se torna agora acessível a todos os leitores de Mário Dionísio e do público em geral, existindo dois exemplares datilografados e encadernados arquivados na Biblioteca daquela Faculdade, estando o original datiloscrito na biblioteca de MD na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, como informa Vania Pinheiro Chaves na apresentação, tendo sido com base neste último exemplar que os investigadores trabalharam a publicação.

 

Tendo sido Mário Dionísio um dos grandes autores do chamado movimento neo-realista e, na minha opinião, o seu principal teorizador com a sua envolvência na designada «polémica interna do neo-realismo», esta dissertação mostra a importância do romance nordestino brasileiro nos criadores do Movimento Neo-Realista em Portugal.

 

Para que se conheça melhor o pensamento de Mário Dionísio, chamemos a atenção para a sua pequena «Autobiografia», edição de «O Jornal», em Dezembro de 1987:

 

«Entretanto, valerá a pena ao menos insistir em que: primeiro, nunca concordei com a designação de neo-realismo, que se deve a uma infeliz inspiração de momento do Joaquim Namorado, meu grande amigo até à morte; segundo, para mim, «neo-realismo» não era nem poderia ser uma outra maneira de, por razões de censura, dizer «realismo socialista»; terceiro, para mim ainda, o neo-realismo deveria ser a expressão estética duma visão marxista do mundo e, sendo esta tão complexa como se sabe (quem o sabe), aquele movimento – nunca «escola» - teria de desdobrar-se em diversas maneiras, gostos, soluções imprevisíveis – o que efectivamente aconteceu. O seu domínio seria o do «extremamente complexo conhecimento dialéctico do homem» (Lénine). Complexo e dialéctico, façam favor de tomar nota. Seria a voz de uma classe em ascensão, de um mundo (um homem) necessariamente novo, que, como tal, teria de integrar toda a herança do passado, incluindo o da classe a que se opunha. Aí estava a utopia.» E, mais à frente: «O problema principal, para mim, seria nunca escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio, (…) Mas não havia só camponeses e operários. Havia a sociedade inteira: tudo dependia do «ponto de vista» (…) Havia, nomeadamente, a pequena-burguesia a que todos pertencíamos, que conhecíamos de dentro e que tinha (teria), quanto a mim, um papel importante, na situação política portuguesa. Não inventada, mas observada e pessoalmente vivida, a pequena-burguesia permitiria trazer a nossa ficção para a cidade. E foi o que fiz em quase todo O Dia Cinzento

 

 

 

 

 

 

Valerá a pena chamar a atenção para outros escritos de Mário Dionísio, como «Ficha 14», ou para a sua entrevista ao jornal Primeiro de Janeiro, de 3 de Janeiro de 1945, intitulada «O QUE É O NEO-REALISMO?», onde, a dado passo, diz: «A verdadeira explicação do neo-realismo não se pode pois procurar com êxito na sua hipotética técnica particular mas em campos que a excedem, isto é: na concretização estética do pensamento do grupo social antagónico daquele que as outras correntes literárias e artísticas representaram e representam. Em princípio e em resumo, poderemos dizer que a tarefa imediata que se põe ao neo-realismo é a do reenquadramento do homem no seu plano social.» E, mais à frente: «Para o neo-realista, não se trata de copiar a natureza, como o naturalismo pretendeu, nem de interpretá-la, como tem feito com tanto êxito o modernismo, mas de transformá-la.» (V. Mário Dionísio, Entrevistas 1945-1991. Colecção Mário Dionísio 3, edição da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, Lisboa, Setembro de 2010).

 

Voltemos à sua tese, agora publicada.

 

Esta dissertação era a segunda que Mário Dionísio apresentava, com a qual obteve, por fim, a sua licenciatura. Dizemos por fim pela simples razão de, no ano anterior, ter tentado a conclusão do seu curso com um outro trabalho – Introdução à leitura da «Ode Marítima» - tendo sido reprovado, o que lhe merece o seguinte comentário, na já citada «Autobiografia»: «Dum desaire importante e bastante inesperado ficou-me só a pobre consolação de ter sido o primeiro a pronunciar em sessão pública naquela velha Casa, o nome de Pessoa.» Foi isto em 1938 e um dos arguentes, Agostinho de Campos, «… lhe teceu, ao contrário do que eu esperava, tão desmedidos elogios, e perante tanta gente, só pude e posso atribuí-lo à audácia do tema, que era ali, também para ele, completa novidade.»

 

Terminamos este escrito com um voto: que ele tenha despertado o interesse nos seus possíveis leitores pela obra de Mário Dionísio, a começar pela dissertação que lhe valeu a licenciatura em Filologia Românica, ontem publicamente apresentada.

publicado por Carlos Loures às 18:00
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