Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 5 - por Júlio Marques Mota

(Continua)

 

O tsunami silencioso e os direitos dos trabalhadores na Europa

 

Senhor Presidente, enquanto se dá esta desindustrialização, o tsunami silencioso avança, invade a vida daqueles que pouco mais têm que isso, daqueles que não têm meios próprios para viver, daqueles que vivem da riqueza por eles e para outros criada e, muitas vezes, daqueles cuja própria dignidade profissional, por anos de lutas conquistada e pela pressão de agora começam a sentir esmagada. Que o digam trabalhadores da Fiat quando afirmam: “é garantido que votarei sim, que querem que eu faça, tenho uma família”, é garantido que aceitaremos as condições impostas por Sergio Marchionne, patrão da Fiat, é garantido que perderemos os nossos direitos para salvar o emprego. Esta foi a chantagem da Fiat, ao ameaçar não investir na Itália, mas na Polónia; com isto, e mais uma vez, se descobre que a concorrência da União Europeia, do seu Presidente, que os seus mecanismos, preenchem os invernos do nosso descontentamento; esta é a concorrência pelo custo salarial mínimo, assente no mínimo de direitos possíveis em que se pode trabalhar. Mudarmos de produção e de multinacional e tomemos, por exemplo, o que se passou com a General Motors em Estrasburgo. Também aqui os trabalhadores aceitaram perder parte dos seus direitos para conservarem os seus postos de trabalho. Estes disseram sim à compra da unidade fabril pertença da General Motors Corporation, a antiga General Motors, pela General Motors Company, a nova General Motors, disseram sim numa maioria de mais de dois terços. Mas, a General Motors Company apenas compraria esta unidade fabril, especializada na produção de caixas de velocidades automáticas, à General Motors Corporation, se e só se os custos de mão-de-obra baixassem cerca de 10%, de modo a reduzir a diferença de competitividade com uma unidade fabril do mesmo grupo que produz as mesmas caixas no México. Foi a estas condições que a maioria dos trabalhadores disse sim! Tristeza bem amarga de um trabalhador desta unidade fabril que recusava que se tivessem de comparar aos trabalhadores que se exploram no México ou na China, mas na verdade era o que estava a ser feito, era o que estava a ser feito e a um passo, portanto, de se tomar como referência os custos de produção na China. Será, pelos vistos, uma questão de resistência ou de não resistência, uma vez que o mercado é global, regido pela lei do custo mais baixo, do custo de produção mínimo e independentemente da forma como esse custo é obtido.

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 12:01
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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Carta aberta a Durão Barroso - 4 - por Júlio Marques Mota

(Continuação)

O tsunami está inserido na economia global e nas suas Instituições

 

Senhor Presidente, para se chegar à situação presente como expressão lógica do modelo seguido foram décadas de trabalho intelectual dos altos-quadros da Comissão Europeia e dos seus organismos a cavarem o vazio teórico de que todos nós nos ressentimos hoje, e a ficarem dele prisioneiros, sem percepção da realidade que lhes cabe prevenir ou, em suma, lhes cabe assumir. E ao cavá-lo fazem-nos com uma linguagem formalmente elegante, conceptualmente falsa ou vazia. Verdadeiro e eficaz tsunami, mas silencioso para mais duradoiro e eficaz ser ainda. Vale a pena retomar aqui um excerto da entrevista dada recentemente por Helmut Schmidt:

 

P. A Grécia e Portugal integraram a união monetária com uma balança externa mais ou menos equilibrada: os seus activos externos e as suas dívidas externas eram mais ou menos equivalentes. Seguidamente, registaram anualmente, durante uma dezena de anos, défices da balança corrente que equivalem a 10% do seu PIB. Não é necessário ser grande perito para compreender que a sua dívida externa líquida atinge hoje cerca de 100% do seu PIB.

 

R. A questão que é necessário colocar é a seguinte: como é possível que ninguém tenha visto nada — nem em Basileia [sede do Banco Internacional de Pagamentos], nem em Bruxelas, nem em qualquer Instituto de Estatística? Ninguém parece ter compreendido.

Deixe-me dizer, de passagem, que durante um longo período, a elite política alemã não compreendeu que registávamos excedentes na nossa balança corrente. Nós, os alemães, fazemos a mesma coisa que os chineses — com a grande diferença que os chineses têm a sua própria moeda, o que não é o nosso caso. Se tivéssemos a nossa própria moeda, esta já teria sido reavaliada há muito.

 

 

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 20:33
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Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

Cuba - um milhão e trezentos mil despedimentos

O estado em Cuba dá emprego a 90% dos trabalhadores, prepara-se para reduzir a sua intervenção na economia para 50%, despedindo um milhão e trezentos mil funcionários.

 

Isto devia obrigar-nos a pensar e a tirar conclusões, até porque já vimos o que aconteceu nos países de Leste. O grande problema foi a incapacidade da economia corresponder às necessidades mais primárias da população e, digo eu, ao esmagar da iniciativa  dos cidadãos. A iniciativa privada, desde que funcionando segundo o interesse geral, é um factor decisivo para a criação de riqueza. Como, aliás, se está a ver aqui em Portugal, desde os últimos vinte anos que o Estado tem uma intervenção acrescida na economia, mas chegado o momento da crise é para as empresas exportadoras que todos nos voltamos como tábua de salvação.

 

Na China,  dois sistemas - o político, comunista e, o económico, de mercado -   a palavra de ordem é "matar a fome a milhões de seres humanos" como ouvi repetidamente e, por isso, a iniciativa privada está a ser alavancada, mas no quadro do interesse nacional. O que quer isto dizer? Se um empreendedor quiser avançar com um negócio pode fazê-lo, desde que a sua actividade seja reconhecida como de interesse para a economia do país. Ajuda-se e facilita-se a iniciativa privada que cria riqueza; impede-se as actividades especuladoras e ou que pela sua dimensão e valor estratégio possam pôr em causa o interesse nacional.

 

A questão está, pois centrada, não na dicotomia estatal versus privada, mas na dicotomia interesse geral versus interesse privado. Se uma actividade é boa para o interesse geral também é boa para o cidadão, bem ao contrário da máxima capitalista americana :  "o que é bom para a Crysler também é bom para a América."

 

A crise no Mundo Ocidental, com a perda de milhões de postos de trabalho e a transferência de biliões do bolso da maioria para o bolso de meia dúzia, também indica que nem o Estado pode fazer tudo ( falhou, vergonhosa, cumplice e flagrantemente na regulação e no controlo das actividades financeiras ) como o indivíduo não pode colocar em perigo toda a economia e o interesse geral, para satisfazer a sua ganância.

 

O diagnóstico está há muito feito, com experiências bem e mal sucedidas de sistemas muito diferentes entre si, e temos também, a experiência do sistema dos países do Norte da Europa onde a crise não entrou e onde se vive muito melhor do que em qualquer outro lado. Não vale a pena inventar!

 

Os dados estão lançados!

publicado por Luis Moreira às 22:30
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Sábado, 1 de Janeiro de 2011

O que se vai passar na economia americana em 2011

Robert Reich

(Enviado por Júlio Marques Mota)


Um texto importante - Robert Reich, ex-ministro do Trabalho na Administração Clinton escreve sobre a América. A ler com atenção e com atenção descobre-se que escreve também sobre o que está para além da América.
E sobre a América cada vez mais dividida entre a América dos ricos e a América dos pobres, deixa-nos uma sugestão, uma sugestão a pensar numa regime democrático. Diz-nos Reich: «Haverá, certamente, um momento em que a diferença entre as duas economias será tão grande e tão evidente que ninguém mais a poderá ignorar. Progressistas, gentes esclarecidas do Tea Party, Independentes, organizações de trabalhadores, minorias e os jovens formarão um novo movimento progressista com a missão de voltar a unir a América.» E é tudo. Parece pouco mas é muito. Júlio Mota






O que é que se vai passar na economia americana em 2011? Se nos estamos a referir aos benefícios das grandes empresas e a Wall Street, o próximo ano será provavelmente um bom ano. Mas se falamos da média dos trabalhadores americanos, estamos muito longe de pensar que será um bom ano .


As duas economias da América - a da Grande Finança e a da economia da família média de trabalhadores - vão continuar a divergir. Os lucros das empresas vão continuar a aumentar, como o dos mercados bolsistas. Mas os salários típicos não irão em nenhum lado aumentar , o desemprego continuará a ser elevado, as longas filas dos desempregados vai continuar a aumentar, a retoma do alojamento permanecerá no ponto morto e a confiança dos consumidores continuará em baixa.


A separação entre os lucros das empresas e o emprego deverá continuar até porque as grandes empresas americanas dependem cada vez menos das vendas que efectuam nos Estados Unidos e dos trabalhadores dos Estados Unidos. Os seus enormes lucros vêm de duas fontes: (1) do crescimento das vendas na China, na Índia e noutros países de crescimento rápido, e (2) da redução da massa salarial nos Estados Unidos.


Numa retoma clássica , o aumento dos lucros conduz a uma maior contratação. E é assim porque numa retoma clássica, os consumidores americanos retornam aos centros comerciais - e as suas compras justificam mais contratação. Não é assim, desta vez. Todo o discurso mediático sobre as vendas de Natal nas últimas semanas mascaram o facto de que os consumidores americanos procuravam os produtos a preços de saldo . E a baixa dos preços reduziu consideravelmente as margens dos vendedores. Resumidamente, os lucros não têm como origem os consumidores americanos - e os lucros também não virão dos consumidores americanos em 2011.


A maior parte dos Americanos não tem dinheiro. Estão ainda profundamente endividados, não podem contrair empréstimos com hipotecas sobre as suas casas, e devem começar a poupar para a reforma.


O Índice da indústria Dow- Jones tem estado a aumentar devido às vendas para o estrangeiro. A General Motors está a fazer mais automóveis na China do que nos Estados Unidos, e os dois terços do total das suas vendas são para o estrangeiro . Quando esta realidade se tornou pública no mês passado fizeram-se rasgados elogios ao facto de que perto da metade dos seus automóveis serão feitos à volta do mundo e em zonas onde a remuneração do trabalho é inferior à 15 $ por hora.


Walmart não faz bem particularmente à América, mas Wal-Mart Internacional está em franco desenvolvimento. E Walmart contrata como loucos mas fora dos Estados Unidos.


General Electric está a reduzir a sua folha de salários nos Estados Unidos, mas prevê investir 500 milhões de dólares no Brasil e pretende contratar 1.000 Brasileiros, e investir 2 mil milhões de dólares na China.


A América das grandes empresas ( a Corporate América) encontra-se face a uma retoma em forma de V. Isto representa boas notícias para os investidores e para todos aqueles cujas poupanças estão aplicadas principalmente em acções e obrigações. Isto também representa boas notícias para os altos quadros e para os traders de Wall Street, cujas remunerações estão ligadas às cotações das acções. Todos esperam fazer de 2011 a sua bandeira.


Mas a maior parte dos trabalhadores americanos é apanhada na armadilha de uma retoma na forma de L. Que más notícias para a Main Street, para a gente da rua, para a população que vive de modestos rendimentos e para as pequenas empresas em 2011. É também mau presságio relativamente aos preços das casas e para o volume de vendas, e para todos aqueles em que tudo o que têm está principalmente nos seus lares.


Os preços das casas nas principais zonas metropolitanas caíram durante o mês passado, a terceira baixa consecutiva mensal. Eu penso que os preços das casas continuam a cair no próximo ano. Estamos num mercado do alojamento que assume a forma de W , em grande parte porque o desemprego continua a ser tão mau que milhões de americanos não podem pagar a sua hipoteca .


Nada disto é de bom augúrio para o emprego dos Estados Unidos no ano próximo. Penso que a taxa de desemprego oficial manter-se-á em cerca de 9 por cento.


Por outras palavras, se 2011 é um grande ano isso vai depender, em termos económicos, de se saber em que economia é que se está - se naquela em que os lucros continuam fortemente a crescer, na das grandes empresas e de Wall Street, ou se está naquela em que se vai continuar a lutar com pouco empregos e salários miseráveis.


Infelizmente, com o próximo Congresso é pouco provável que se venha a fazer muito para inverter tudo isto. A maior parte dos republicanos e também muitos democratas são tributários da América das grandes empresas e de Wall Street. A sua versão da reforma fiscal é a de reduzir os impostos sobre os mais ricos e sobre as grandes sociedades, e então fazer subir outros impostos (as taxas de IVA e sobre os bens imobiliários estão já a subir) ou reduzir as despesas sobre os programas destinados a apoiar as famílias de trabalhadores economicamente dependentes.
Haverá, certamente, um momento em que a diferença entre as duas economias será tão grande e tão evidente que ninguém mais a poderá ignorar. Progressistas, gentes esclarecidas do Tea Party, Independentes, organizações de trabalhadores, minorias e os jovens formarão um novo movimento progressista com a missão de voltar a unir a América.




Robert Reich, New Year's Prediction, 29 de Dezembro de 2010
Disponível em http://robertreich.org/
Robert Reich, Fmr. Secretary of Labor; Professor at Berkeley; Author, Aftershock: 'The Next Economy and America's Future'

publicado por Carlos Loures às 20:00
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Será necessário enquadrar e endurecer as políticas orçamentais na zona euro?

(Enviado por Júlio Marques Mota)


Não o esqueçamos, a crise financeira de 2007 a 2009 não foi provocada por políticas orçamentais descabidas dos países da zona euro. A crise deve-se à cegueira e à avidez dos mercados financeiros assim como às estratégias macroeconómicas insustentáveis dos países anglo-saxónicos e dos países muito competitivos (Alemanha, China). Antes da crise, os países da zona euro não praticavam políticas extravagantes quanto a aumentos das despesas públicas. Pelo contrário, a parte das despesas públicas no PIB tinha diminuído de 2,5 pontos de 1997 a 2007; em 2007, o saldo público global dos países da zona apresentava apenas um défice de 0,6% do PIB, inferior ao nível requerido para estabilizar a dívida. No entanto desde a criação da zona euro, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), mal concebido, foi uma fonte permanente de tensões entre a Comissão e os Estados-Membros. As instâncias europeias, polarizadas sobre normas arbitrárias em termos de défice público, foram incapazes de levar a cabo uma coordenação satisfatória das políticas económicas que apoiasse um crescimento satisfatório na Europa e que evitasse o crescimento das disparidades entre os Estados-Membros.

Em 2010, o défice público global da zona euro é inferior ao dos Estados Unidos ou do Reino Unido. Porque é que então todos os países da zona Euro estão praticamente sob a ameaça de um procedimento de défice excessivo (PDE)? Porque é que os mercados continuam a especular contra certos países da zona, impondo-lhes taxas de juro insustentáveis, apesar da garantia do Fundo de Estabilidade Europeu e do Banco Central Europeu (BCE)?
A organização económica da zona euro não é satisfatória dado que a solidariedade dos países-membros não é automática, dado que o financiamento do défice público de um Estado-Membro não é assegurado, contrariamente à situação doutros dos países desenvolvidos. Isto permite aos mercados especular sobre a ruptura da zona, sobre a expulsão ou sobre a falência de um país membro. Assim, os mercados impõem a certos países taxas de juro exorbitantes que reforçam o risco de ruptura. Ameaçados de ver a sua dívida degradada pelas agências de notação, as agências de rating, todos os países da zona se sentem obrigados a praticar políticas restritivas, num período onde a procura é já insuficiente. Pode-se aceitar que as políticas económicas na Europa estejam permanentemente sujeitas aos diktats dos mercados? Estes até agora não demonstraram nenhum sinal de clarividência, como antes da crise.


A prioridade deveria ser a de repensar a organização da zona euro para garantir as dívidas públicas, para as subtrair aos humores dos mercados e para permitir aos países levar a efeito as políticas orçamentais adequadas em período de recessão.
O facto é de que a Comissão não tirou todas as lições da crise financeira. Antes pelo contrário, esta parece querer utilizar a crise grega para fazer esquecer a crise financeira e o período em que ela teve que aceitar colocar o Pacto de Estabilidade e Crescimento debaixo do tapete. Agora quer utilizar a ameaça das agências de rating para impor o seu primado: controlar as políticas , subtraí-las aos governos que estão sob mandato de voto democrático, obrigar os países a reduzir as suas despesas públicas e em particular as suas despesas sociais.


A 12 de Maio último, a Comissão tinha publicado uma primeira comunicação intitulada “reforçar a coordenação das políticas económicas “: A Comissão defendia contra toda a evidência que “as regras e os princípios do PEC são pertinentes e válidas” é somente necessário obrigar os países a respeitá-las.


A 30 de Junho, a Comissão propôs introduzir um primeiro “semestre europeu”, onde todos os Estados-Membros apresentariam as suas políticas orçamentais, de curto e de médio prazo, e os seus projectos de reformas estruturais à Comissão e ao Conselho Europeu, que dariam o seu parecer antes do voto dos Parlamentos nacionais no segundo semestre. Os Parlamentos nacionais por conseguinte estarão mais ou menos condicionados pelas decisões tomadas a nível europeu. Certamente, tal processo poderia ser útil se se tratasse de definir uma estratégia económica concertada, mas há o risco que este “semestre” seja para aumentar as pressões a favor de políticas de austeridade orçamental e de reformas liberais. Vê-se hoje: a Comissão lança PDEs, mas não pede aos países que têm margens de manobra em matéria de política orçamental ou salarial de empreenderem políticas expansionistas para compensar os esforços que fazem a Grécia, a Irlanda ou a Espanha. Esta proposta foi aceite pelo Conselho a 7 de Setembro de 2010.


A 29 de Setembro , a Comissão apresentou um conjunto de proposições que visam reforçar a governança económica que, de facto, irá diminuir a autonomia dos Estados membros obrigando-os a respeito rigoroso de regras sem significado económico e diminuiria a sua capacidade de estabilizar a sua economia.


OFCE, Paris, 26 de Outubro de 2010
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Apresentando Júlio Marques Mota


Júlio Marques Mota, nasceu em 1943 na freguesia do Fratel, concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco. Faz parte do corpo docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Por sua iniciativa foram traduzidos e publicados títulos significativos no meio editorial português dos últimos cinco anos, tais como, O Futuro do Sucesso: Viver e Trabalhar na Nova Economia, de Robert Reich (Lisboa, Terramar, 2004); A Democracia e o Mercado, de Jean Paul Fitoussi, (Lisboa, Terramar, 2005); As Deslocalizações de Empresas: Ainda Teremos Empregos Amanhã?, de Philippe Villemus, (Lisboa, Edições Asa, 2007),; Tornar Eficaz a Globalização, de Joseph Stiglitz, (Lisboa, Edições Asa, 2007). Algumas destas obras foram ou são utilizadas nas unidades curriculares a que está afecto.

Com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, organiza os Ciclos Integrados de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC desde 2005-2006. No âmbito destes Ciclos, organizaram-se também sessões de projecção e debate de documentários e filmes temáticos, com a presença de variadíssimos professores e investigadores, de várias áreas científicas e de vários institutos e universidades portuguesas e estrangeiras.

É autor dos seguintes ensaios: Caderno de Exercícios Práticos de Finanças Internacionais, Coimbra, FEUC, 2004; Mercado Cambial e Integração Financeira: Mercado Cambial, Produtos Derivados e Globalização Financeira, Vol. 1, Coimbra, FEUC, edição revista 2004; Comércio Internacional, Crescimento Económico e Termos de Troca: A Análise Neoclássica, Coimbra: FEUC, 2007; Preços Relativos e Evolução das Remunerações Reais dos Factores, Coimbra, FEUC, 2007; Complementos de Ricardo e a Contribuição de Stuart Mill, Coimbra, FEUC, 2007.


Com colaboração de Luís Peres Lopes e Margarida Antunes, publicou: Crise do Sistema Monetário Internacional e a Criação de um Sistema Monetário Regionalizado: O Caso Europeu, FEUC, Coimbra, 2006;

Em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou A Crise da Economia Global: Alguns Elementos de Análise, Lisboa, LIVRE, 2009. Também em co-autoria com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou os seguintes artigos: “A Economia Global e a Crise da Dívida Soberana na União Europeia: A Situação de Portugal e Espanha”, Indicadores Econômicos FEE, vol. 38, nº 2, 2010; “Vom Stabilitäts - und Wachstumspakt zu den Finanzmärkten: der Fall Portugals und Spaniens” (“Do Pacto de Estabilidade e Crescimento aos Mercados Financeiros: Os Casos de Portugal e Espanha”), Kurswechsel, vol. 3, 2010, pp. 101-108; “História de um Ciclo de Cinema, de uma Visão do Ensino Superior”, Rua Larga, Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra, n.º 28, Abril, 2010, pp. 51-55. Em co-coordenação com Luís Peres Lopes e Margarida Antunes publicou o seguinte livro, Financeirização da Economia: A Última Fase do Neoliberalismo, Lisboa, LIVRE, 2010.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Uma aula prática de Economia no reino do neoliberalismo - 3

3. Editis, proximamente será espanhola

Salvo golpe de teatro, o segundo editor francês, Editis, será espanhol a partir de Junho de 2008. Ontem, o seu proprietário, Wendel Investimentos, anunciou ter entrado “em negociação exclusiva” com Planeta, o líder da edição hispânica, para revender um conjunto prestigioso e muito rentável (Nathan, Plon, Robert Laffont, Découverte…). Em seis anos, Editis terá assim conhecido quatro proprietários-accionistas diferentes. Vendido por Vivendi a Lagardère em 2002, seguidamente vendida, dois anos mais tarde, à família Wendel sobre injunção de Bruxelas — em nome do respeito da concorrência —, e agora revendida aos espanhóis de Planeta. Recorde-se, no entanto, que o barão Ernest-Antoine Seillière tinha assegurado a todos os editores da casa que Wendel seria pelo menos accionista de Editis “por quinze anos”. Cruz de madeiras, cruzes de ferro.

Máquina de dinheiro à vista.

Porquê revender assim tão rapidamente? Primeiro, porque Editis se transformou numa temível máquina de fazer dinheiro à vista e mais rapidamente que o previsto. Em quatro anos, o seu resultado de exploração passou de 50 para 90 milhões de euros. E a sua taxa de margem (lucro sobre o volume de negócios) passou de 7,5% para 12%. Resumidamente, Editis ganha efectivamente muito bem a sua vida. E vale por conseguinte muito dinheiro. Daí a tentação do salto em Wendel. “Há ainda alguns meses não se tinha, de forma alguma, a intenção de vender”, reconhece um porta-voz do grupo. Comprada por 660 milhões de euros, Editis é revendida por 1,026 mil milhões de euros aos espanhóis. Belo golpe que satisfaz primeiro os accionistas de Wendel. A outra razão não tem nada a ver com os livros, mas com Saint-Gobain, o líder mundial dos materiais de construção. Porque desde o fim do Verão de 2007, Wendel partiu ao assalto do grupo francês (detém hoje 21% do capital) no momento preciso em que os mercados financeiros se punham em queda, todos eles. Daí a necessidade para Wendel de dar-se um pouco de ar revendendo a sua pepita Editis.


“No comment”.

O efeito colateral deste pequeno jogo de dinheiro é que as memórias do general de Gaulle (editados na Plon) serão doravante espanholas. Recorda-se que nesta perspectiva, em 2004, tinha feito o governo aparecer no mercado com Raffarin a defender uma certa “excepção francesa”. Hoje, a paranóia parece ter reaparecido. “Mesmo no Elysée, é um ‘no comment’”, assegura um profissional. “É que o livro, é também um negócio, uma indústria”, diz-se em Wendel. Tê-lo-emos compreendido.

Grégoire Biseau, “Editis en passe de devenir espagnol”, Libération, 22.04.2008



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4. O dinheiro embolsado com a venda de Editis

Só os líderes do grupo e o seu proprietário, Wendel, tiveram proveito com a cessação do número 2 francês da edição, Editis. Revoltados, os assalariados apresentaram uma petição. Falar de situação grave seria talvez excessivo. Mas num meio tão elevado como o é o mundo da edição em França, não se tinha visto similar agitação desde há muito tempo. “Nos corredores, todos falam deste tema, com a mesma náusea”, suspira uma assalariada. Isto? São as condições da venda do grupo Editis, propriedade de Wendel Investimento, ao espanhol Planeta. Daqui resulta que uma muito pequena minoria de quadros dirigentes de Editis e de Wendel vai compartilhar com toda a impunidade um pacote calculado à volta de 35 milhões de euros. Ou seja, 10% da mais-valia total realizada por Wendel revendendo o segundo grupo de edição francês (Plon, Nathan, Robert Laffont, Fixot, La Découverte…) ao seu concorrente espanhol. É o mesmo que dizer que a refinaria de açúcar permanece atravessada na garganta de muitos assalariados. Ontem, a quatro dias da oficialização da venda de Editis à Planeta, Robert Laffont, uma das 44 casas de edição de Editis, apresentou uma primeira petição, assinada por mais de 90% dos assalariados, pedindo a Alain Kouck, o proprietário de Editis, “um encontro entre os parceiros sociais e a Direcção-Geral de Wendel a fim de determinar o montante e as modalidades de pagamento desta mais-valia a cada um dos assalariados do grupo”. Outras petições circulam no grupo com a mesma palavra de ordem: “Nós também queremos a nossa parte do bolo.” “Quando se sabe os esforços que nos têm pedido em termos de rigor salarial neste ano e se descobre na imprensa estes montantes, é pura e simplesmente escandaloso”, declara um assalariado da holding, que antes de nos separarmos pede-nos para não mencionar o seu nome, “porque a direcção pediu-nos que não se falasse à imprensa”.

“Uma forma de ética”.


Aqui é que a questão assume todo o seu sal político, pois, muito em cima, na parte superior da pirâmide, reencontra-se o barão Ernest-Antoine Seillière, presidente do conselho fiscal de Wendel, antigo big boss do Medef, mas sempre patrão da UNICE, a federação das empresas europeias. Conhecia-se o homenzinho pelas suas boas palavras, as suas projecções políticas e as suas lições de moral sobre “a responsabilidade dos proprietários”, mas aí está ele apanhado em flagrante delito de dissimulação. Porque toda esta montagem foi realizada no maior segredo. Apesar dos repetidos pedidos de informações dos representantes do pessoal, a direcção de Editis e de Wendel recusam sempre fazer a mais pequena luz sobre este tipo de construção. Quantos dirigentes estão metidos neste negócio? Por qual mecanismo? Por qual montante? Nada, os sindicatos não saberão nada. A priori não se é contra a hipótese de se poder oferecer acções aos assalariados, ainda é necessário que se saiba e que isto seja proposto a todos”, indigna-se um eleito. “Isto não é uma questão de camaradagem, responde a directriz da comunicação de Editis, nem todos têm vocação a criar valor. Este sistema de motivação foi concebido como uma forma de incentivo aos que assumem um risco estratégico. Há uma certa forma de ética.” E precisa, evidentemente, não faz parte dos felizes eleitos.

Sorte

Os assalariados de Editis lembraram-se então muito rapidamente das somas loucas que os dirigentes de Wendel meteram ao bolso algumas semanas antes. Mas desta vez, sem nenhuma relação com a venda de Editis. No mês de Maio, o jornal Le Monde revela a inverosímil (mas legal) montagem financeira, que permitiu à Ernest-Antoine Seillière e a uma dezena de quadros dirigentes do grupo Wendel deitarem a mão a 5% do capital do grupo e a compartilharem 324 milhões de euros…

Editis foi comprada a Lagardère em 2004 por 650 milhões de euros, este grupo é revendido, quatro anos mais tarde, por um pouco mais de mil milhões de euros. E tanto pior se Seillière jurara que Wendel estaria no capital da Editis por “pelo menos quinze anos”.

Mas desde o Verão de 2007, a sorte parece ter abandonado o duo Ernest-Antoine Seillière-Jean Bernard Lafonta. No início da crise de subprimes lançam-se ao assalto à Saint-Gobain. Atingem os 21% do capital. E à medida que a sua participação aumentava, a acção de Saint-Gobain caía, provocada pelo mergulho das Bolsas. A cotação de Wendel cai a fundo (- 33% desde há um ano) e precipita a venda da Editis. Para maior alegria da sua gestão. Ontem, ninguém na Wendel desejava responder às nossas perguntas. Com toda a transparência, é claro.

Grégoire Biseau, “Le pactole confisqué de la vente d'Editis”, Libération, 22.05.08
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Uma aula prática de Economia no reino do neoliberalismo

O artigo A boa sorte do barão de Seillière, publicado no jornal Le Monde e textos restantes, complementares, constituem um verdadeiro conto de costumes do século XXI. Se necessárias referências, podíamos falar de Zola ou sobretudo de Balzac. Trata-se da grande arte, estejam certos. Não percam. Nem que tenham que pegar num papel e caneta para não perderem o fio do imbróglio, que pode também ser visto com uma comédia em três actos, a representar a farsa que o modelo neoliberal tanto em voga na Europa nos tende cada vez mais a impor. Sinceramente, vale o esforço de leitura.


Trata-se também de uma lição sobre o capitalismo actual e da forma como este se exerce, dada não por um aluno qualquer, de uma faculdade qualquer e de um país qualquer, mas sim pelo que foi o presidente da Confederação do Patronato Francês, agora Medef, e é, desde 2005, o presidente de UNICE, agora Business Europa, a Federação das Empresas Europeias. com sede em Bruxelas. Boa leitura, então!


Os tempos são difíceis, a crise aperta e face a ela estamos com o problema de não vermos saídas. Aqui vos deixo, então, uma grande lição de economia, de economia financeira aplicada, uma lição de sucesso, uma lição magistral, dada por um grande expert, a mostrar como se sai da crise ou como se pode nunca estar em crise quando assim se age com toda a impunidade.


Mas já agora, uma pergunta vos deixo eu no ar: se entrassem neste país dois ou três mestres deste quilate, a concretizarem aulas magistrais como a que vão ler, que restaria do nosso património? Mas o que é que nos está a restar exactamente deste nosso património, desta nossa forma de estar na vida e de reinventar o próprio futuro que nos tem caracterizado até agora ? Já muito pouco e portanto é de concluir que professores deste quilate mas por outros canais nos começam a invadir o nosso quotidiano procurando destrui-lo. Descubramo-los, desmistifiquemo-los a tempo se não quisermos ficar mesmo sem nada. Eles vêm na calada da noite, mesmo que à luz do dia, protegidos pela opacidade dos mercados, deixando-nos surdos com o matraquear dos teclados dos computadores, deixando-nos cegos com os sinais luminosos das cotações espelhadas nos ecrãs gigantes das bolsas, deixando-nos tontos com os cálculos matemáticos sofisticados a mostrar que tudo isto é a mais pura da eficiência e esta exige que os mercados sejam auto-regulados e os Estados relativamente anulados e insistem, e insistem até à exaustão que isto é transparência e transparência há uma só, a certeza de que se trata agora, como o assinalou outrora Proudhon num outro contexto, que se trata de um roubo que sobre nós estão a realizar e com os nossos Estados a tudo isso, e na maior cumplicidade, a legalizar.


Júlio Marques Mota





1.A boa sorte do barão Ernest-Antoine Seillière


“La société française est divisée en riscophiles et riscophobes”, Ernest-Antoine Seillière
O dia 29 de Maio de 2007 permanecerá marcado por uma pedra branca para o “management”, a equipa da direcção de Wendel. Neste dia, os accionistas ofereceram a alguns dos seus quadros a possibilidade de comprarem quase 5% do capital do grupo, o que representa uma soma colossal, 324 milhões de euros em acções, a repartir por quinze elementos. O preço a pagar era modesto: para adquirir estes 5%, só tinham que desembolsar unicamente 83 milhões. Os quinze gestores beneficiados conseguiram mesmo desembolsarem menos de metade deste montante.

Tudo isto graças a uma montagem jurídica e fiscal infinitamente complexa, pensada e concebida com as mais importantes firmas de consultoria, e foi assim que a equipa dirigente de Wendel, que passa por ser uma das melhores da praça de Paris, teve êxito na obtenção destes 324 milhões de euros. Este mecanismo, ei-lo pois aqui exposto.

Quase todos os elementos do dispositivo utilizado estão legalmente acessíveis junto do tribunal de comércio, mas a compreensão da montagem, de um formalismo perfeito, é difícil, e não nos perdermos é uma verdadeira aventura, financeira e fiscal. Cada etapa está inscrita num quadro legal, mas o conjunto levanta, pelo menos, algumas questões éticas.

Três altos dirigentes repartiram a parte de leão. Ernest-Antoine Seillière, o primeiro, presidente da conselho fiscal de Wendel, recebeu cerca de 79 milhões de euros em títulos. Bernard Gautier, o segundo, membro do directório, ficou com 36 milhões, e enfim Jean-Bernard Lafonta, por último, presidente do directório, atribuiu a si mesmo um pouco mais de 83 milhões de euros. Doze outros quadros repartiram entre si os 85 milhões que restavam, após terem regulado o essencial dos 41 milhões em encargos e em empréstimos.

A instrução da Direcção-Geral dos impostos (DG I), a 12 de Maio de 1995, dita “instrução Taly”, avisa os grupos contra “os mecanismos” que permitem aos dirigentes “obterem vantagens financeiras importantes”, nomeadamente com as opções de compra sobre títulos, que é precisamente o objecto desta montagem. “Na maioria dos casos, constatou-se que as sociedades em causa privaram-se de um lucro importante para benefício dos interessados", sublinha a DG I. Os dirigentes serão então tributados sobre o rendimento se “a vantagem realizada é oculta, ou resulta de um acto de gestão anormal da sociedade, ou se tem por efeito levar a remuneração total do beneficiário para um montante exagerado”.

O grupo defende-se argumentando que nunca, no quer que fosse, ultrapassou a lei. “As operações realizadas pela equipa de direcção, diz Arnaud Desclèves, o director dos negócios jurídicos de Wendel, numa carta registada enviada ao Le Monde, está em conformidade com a legislação fiscal e com a doutrina administrativa em vigor.” Desclèves, que recebeu nestas operações um pouco mais de 11 milhões, apresenta um certificado do gabinete de consultoria Debevoise & Plimpton que confirma a perfeita legalidade do dispositivo.

A aventura começa a 25 de Outubro de 2004, quando a direcção obtém uma opção de compra sobre títulos detidos por uma obscura sociedade, Solfur, uma empresa outrora especializada na distribuição de energia. Esta já não passa de uma casca vazia, uma migalha esquecida do antigo império industrial. Isto porque o grupo se transformou profundamente. Tem sido sempre controlado pela família Wendel, 950 pessoas descendentes de François de Wendel, fundador da dinastia, agrupados na SLPS, a Sociedade lorena de participações siderúrgicas, mas que já não tem mais nada a ver nem com a Lorena nem com a siderurgia.

Jean-Bernard Lafonta, com a idade de 41 anos, em 2001, numa holding familiar a envelhecer, arejou o grupo, para dele fazer uma sociedade de participações extremamente rentável, que investe nas empresas mais diversas e acumula copiosos dividendos. A cotação da acção até 2007 progrediu 50% ao ano e Wendel distribuiu em 2007 dividendos de 2 euros por acção. Jean-Bernard Lafonta tinha em 2006 uma ambição simples: duplicar o valor do grupo nos cinco próximos anos. Mas o organigrama é então ainda muito complexo. A família, na SLPS, controla 86,5% do capital de Wendel-Participações, que detém por sua vez 35% de Wendel Investimentos, que possui 100% da famosa Solfur… Solfur não valeria nada, se não detivesse 13,5% dos títulos de Wendel-Participações. O grupo decide logicamente suprimir “a tampa de autocontrolo” que é a Solfur, esta sociedade que é, pois, um dos accionistas de Wendel-Participações. Aproveita-se a ocasião para fundir a SLPS e a Wendel-Participações. Para a família, o negócio tem um interesse: suprimindo “um andar” do grupo, pode beneficiar da lei Dutreil, votada em 2003, que permite uma redução do ISF, o imposto de solidariedade sobre a fortuna. Para os gestores, será a ocasião de compartilharem-se 324 milhões de euros. Cada etapa da montagem é inscrita num quadro legal, mas no total, os accionistas familiares pagaram mais de 300 milhões de euros a um punhado de quadros.
Na Solfur dormem com efeito 569.333 títulos Wendel-Participações. Trata-se de acções que não estão cotadas na Bolsa, e que só se podem comprar ou vender com o acordo dos accionistas familiares. Valem em contrapartida cada uma delas 4,4 acções Wendel Investimento, que estão cotadas, e em pleno crescimento. Todo o problema vai pois consistir, para a gestão, em trocar umas contra as outras. Evitando o que os fiscalistas chamam, com alguma piada, “as fricções fiscais”.

A direcção explica aos accionistas que este dispositivo “é destinado aos quadros dirigentes que têm desejado assumir um risco de capital no Grupo e sobre a evolução do seu valor”. Trata-se de reduzir “a dimensão do programa de stock-options”, anteriormente distribuídos à gestão, e de permitir “sair do balanço de Wendel os títulos Wendel-Participações, muito dificilmente cedíveis, tendo em conta o seu carácter ilíquido”.

É necessário portanto para a gestão a aquisição da Solfur. Estes obtêm em Outubro de 2004 uma opção de compra, “a prazo de Outubro 2010”. Isto não é de graça, o preço da opção é avaliada, naquela época, em 4 milhões de euros. A equipa dirigente apenas avança com um sinal de 1.6 milhões de euros. Três dias antes, Jean Bernard Lafonta e Ernest-Antoine Seillière criaram uma sociedade quase homónima, a Companhia de Solfur, situada no n,º 89, rue Taitbout, no 9.º bairro de Paris — a sede de Wendel.
Ao longo dos meses, quinze membros da gestão compram acções desta nova Companhia de Solfur, a 1 euro a unidade. Cada um investe aí até um montante médio de 20.000 euros. Com uma condição: se um deles deixar o grupo, é reembolsado do valor da sua aplicação de fundos e nada mais. Um meio para unir a equipa sobre a promessa de lucros próximos. A sede é transferida seguidamente para uma caixa de correio - Boulevard des Italiens, e, depois, em Julho de 2006, para melhor complicar as coisas, a Companhia de Solfur transforma-se em Companhia de Audon.

Tudo está pronto em 2007 para desencadear a operação, isto é, para a gestão comprar as acções de Solfur. Contrariamente ao que possam ter compreendido os accionistas de Wendel, a opção de compra pode ser utilizada em qualquer momento — mas antes de Outubro de 2010. Os especialistas em engenharia financeira desenvolveram um dispositivo sofisticado, a acção do grupo está na cotação mais elevada, o barão Seillière está a manobrar.

No início de 2007, Ernest-Antoine Seillière, presidente de Wendel-Participações, escreve a… Ernest-Antoine Seillière, presidente de SLPS, para lhe propor que compre as famosas acções detidas na Solfur. SLPS não está interessada. A família, no entanto, que detinha 55% do capital do grupo em 2002, só controlará agora 36,3% após a simplificação das estruturas. Os 5% de capital suplementar não teriam sido negligenciáveis. Ernest-Antoine Seillière escreve então à Companhia de Audon, de que é precisamente o fundador, que aceite comprar.

O preço de resgate é fixado por um perito independente em 79 milhões de euros — a que se acrescentam por conseguinte os 4 milhões da opção de compra. É pouco. O preço foi calculado sobre a cotação da acção Wendel Investimento em 2004 (40 euros), e vale 127 euros em Maio de 2007, mas trata-se de títulos Wendel-Participações, não cotados, por conseguinte pouco vendáveis. Um “desconto” , um abatimento sobre o preço, é por conseguinte normal, mas os peritos consultados pelo Le Monde estão um pouco surpreendidos pela sua amplitude. No mercado, os activos de Solfur valem com efeito 283,4 milhões de euros, e não 79. Para a gestão, mais que nunca mobilizada para o resgate de Solfur, urge encontrar estes 79 milhões. Esta equipa de direcção tem certamente economias numa outra estrutura, a Companhia de Aurette, uma sociedade que não tem “nenhum assalariado e nenhuma actividade operacional”, onde os quadros colocaram os seus proveitos originados por Legrand, outra sociedade do grupo. Esta Companhia de Aurette detém em carteira de títulos 31 milhões de euros. A Companhia de Audon absorve-a em Janeiro de 2007 e pode, enfim, pagar o saldo dos 4 milhões de euros acordados em 2004 — os gestores apenas tinham avançado com 1,6 milhões. Para concluir a montagem, o banco JP Morgan empresta 38 milhões de euros à Companhia de Audon, Jean-Bernard Lafonta avança por sua vez durante um mês com uma parte das suas próprias stock-opções, 100.000 títulos Wendel investimento (11,3 milhões de euros), Wendel investimento empresta, por último, 75.000 das suas acções (9,5 milhões). No total, a gestão só desembolsou os 31 milhões da Companhia de Aurette e os 1,6 milhões adiantados em 2004, ou seja 32,6 milhões. O resto foi financiado com os dinheiros dos títulos detidos por Solfur, e por empréstimo. “ Tudo se passa como se comprasse um automóvel e que metade do dinheiro estivesse no porta-luvas” , ironiza um analista. Última delicadeza, Wendel Investimento, a casa mãe de Solfur, deixou 12,4 milhões de euros em tesouraria na sociedade Solfur, que foram arrecadados pelos novos proprietários.

Este grupo de gestores ultrapassou a primeira etapa, possui Solfur. Ainda falta a segunda etapa, a mais difícil: tornar líquidos estes famosos “títulos dificilmente transferíveis”. Os gestores, aqui, organizam um golpe de mestre: renunciam à sua opção de compra sobre os títulos de Solfur adquirida em 2004. A Companhia de Audon, inteiramente controlada pela gestão, encontra-se embaraçada com as 569.333 acções Wendel-Participações que acabava de comprar. Vende-as ao grupo Wendel, que as troca a 29 de Maio de 2007 contra uma fortuna, 2.536.700 títulos Wendel Investimento, que valem, eles, 324 milhões de euros.

Wendel-Participações resgatou assim 13,5% do seu capital e pagou 324 milhões de euros pelo que tinha sido adquirido pela gestão por quatro vezes menos. Wendel-Participações não tinha evidentemente nenhum interesse nisso. Habitualmente, aplica-se para o resgate de uma participação minoritária numa sociedade “fechada” um abatimento importante. Mas não foi nada disso. O “presente” aos líderes está lá todo.
Estes gestores possuem doravante uma pequena fortuna na Companhia de Audon, e podem consagrar-se à terceira etapa: distribuir sólidas acções Wendel Investimento aos seus quadros. A técnica, clássica, é elegante e quase líquida de impostos. A Companhia de Audon decide-se de repente a reduzir o seu capital. Isto é, a resgatar aos gerentes de Wendel 10 dos 17 milhões dos seus próprios títulos, as acções da Companhia da Audon. Paga-os com o que tem no seu activo: títulos Wendel Investimento, a 127,89 euros por título em Maio de 2007.


PARTICIPAÇÃO E FILIAIS (30 de Maio de 2008)


Os membros da gestão prepararam o terreno. Criaram, com um belo conjunto, durante a segunda quinzena de Abril, uma ou duas sociedades civis, frequentemente domiciliadas na mesma caixa do correio. A 3 de Maio, onze quadros entregam uma parte das suas acções Companhia de Audon a uma das suas sociedades pessoais. A um preço que desafia qualquer concorrência (7 cêntimos em média por acção), o que reduz na mesma proporção o imposto a pagar sobre as cessações. Levam-nas no mesmo dia para a sua segunda sociedade civil a um preço razoável (19,17 euros por acção), com suspensões de imposição fiscal: pagarão mais tarde os impostos, quando a sociedade civil se dissolver, ou for revendida, ou se lhes distribuir dividendos. Quando, a 29 de Maio de 2007, a Companhia de Audon resgata os seus próprios títulos, fá-lo a 19,17 euros a unidade. Como os tinha vendido ao mesmo preço, não há mais-valia, por conseguinte, não há impostos. E não pagam nada em líquido, em cash, mas em títulos Wendel Investimento. Cada um recupera assim na sua pequena sociedade estas acções, que valem 127 euros por unidade. O barão Seillière recupera 79.795.847 euros, Bernard Gautier recupera 36.247.684 euros, os outros, entre 1 e 11 milhões.
Só Jean-Bernard Lafonta deixou a sua participação, quase 83 milhões de euros, na Companhia de Audon, da qual possui 92% do capital. A companhia não se ressentiu demasiado destes movimentos. Esta pagou apenas 6. 427,96 euros de direitos de registo e zero imposto sobre as sociedades. O barão Seillière, Lafonta e Gautier, que são mandatários sociais de Wendel, declaram estes títulos à AMF, a Autoridade dos mercados financeiros, de que guardam a metade enquanto estão na direcção do grupo. Os três mais elevados dirigentes de Wendel recebem além disso remunerações confortáveis, 1.563.790 euros em 2006 para Lafonta (62% a mais que em 2005), 870.000 euros para Gautier (+150%) e 507.694 euros para Seillière, em fichas de presença.

Os outros quadros estão hoje teoricamente livres de vender as suas acções. Mas sem dúvida para confortar a sua lealdade à Wendel, as sociedades pessoais dos dirigentes tiveram, neste mesmo 29 de Maio de 2007, que entregar por alguns euros uma parte a uma misteriosa sociedade luxemburguesa, Phylahe. Mas isto não é simbólico: as cessações de acções fazem-se, nas sociedades civis, por unanimidade. Sem o acordo de Phylahe, que se tornou accionista destas sociedades pessoais, a gestão nada pode vender.

De quem é Phylahe? Não é legalmente possível sabê-lo. A pequena SARL foi fundada para a ocasião, a 24 de Maio de 2007, por uma grande companhia fiduciária luxemburguesas, Experta Luxemburgo, que delegou a gestão a uma das suas sucursais, Lannage SA. A gestão está representada por um quadro parisiense do banco JP Morgan, que se recusa evidentemente a qualquer comentário. “Os nossos factos e números falam por si mesmos”, indica Experta sobre o seu sítio Internet. Certamente: esta sucursal de Dexia Privatbank, na Suíça (grupo Dexia), tem estabelecimentos no Luxemburgo, nas Baamas, em Jersey e em Montevideu.
“Não há rigorosamente nada de escondido nesta montagem, sorri Ernest-Antoine Seillière, estou extraordinariamente à vontade para falar disso. Estamos numa sociedade que não pode absolutamente permitir-se fazer seja o que for que não seja conforme com a lei.” Com a crise financeira as acções aliás baixaram, os 324 milhões de Maio de 2007 não valem mais, no fim de Abril de 2008, que 220 milhões.

O barão fez os seus cálculos: estava previsto que o valor do grupo duplicaria em cinco anos. Pois bem, os rendimentos dos gestores também eles duplicaram: compraram acções a 40 euros, valem hoje 87 euros. “Evidentemente, quando apareceu a diferença entre 40 euros e 127 em Maio de 2007, os gestores e os accionistas ficaram um pouco estonteados admitiu Seillière, isto estava muito para além do que tinham imaginado”, mas, depois, tudo voltou à ordem.
Um dos accionistas familiares do grupo Wendel várias vezes se alarmou com esta montagem e dirigiu, em vão, várias cartas a Ernest-Antoine Seillière, aos dezassete outros administradores e aos revisores de contas. Sophie Boegner aí sublinhava que estava como outros membros do conselho de administração “penal e pessoalmente responsável” sobre os seus bens “por eventuais falhas” na gestão da sociedade.
O resto da família Wendel, no conselho de administração de SLPS, terminou por se comover, um pouco mais tarde, em Julho de 2007. Humbert de Wendel referenciou que a aliança de um terço com a gestão poderia fazer perder o controlo a família. Outro membro do conselho, François de Montfort, preocupou-se que “os gestores possam servir-se de uma aparente união com a família para prosseguir objectivos de enriquecimento rápido”. O barão Seillière, antigo presidente do Medef e sempre, aos 71 anos, o presidente do patronato europeu, tranquilizou-os. Só Boegner recusou votar, a 3 de Abril de 2008, a aprovação das contas de 2007. Recusa-se hoje a qualquer comentário, mas encarregou a advogada Patrick Maisonneuve de examinar os meios para dar início um procedimento judicial.

Claire Gatinois e Franck Johannês, “La bonne fortune du baron Seillière”, Le Monde, 2.05.08

publicado por Carlos Loures às 21:00
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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Vejam este vídeo...o direito à indignação.

Luis Moreira

El pueblo de EEUU se organiza para resisitir a los desahucios!


Neste video vê-se a resistencia que opõe o povo americano a ser desalojado das suas casas pelos bancos. Um exemplo de luta, força e tenacidade. No mesmíssimo berço do neoliberalismo as pessoas estão-se organizando para combater o sistema capitalista. Igualmente exemplar é a atitude do sheriff, que declara o seu Condado livre de despejos assim como a veemência de uma congressista que apela à desobediência civil, à resistência e à oKupacão das casas desalojadas para defender o legítimo direito que temos todos a viver sob um tecto.

Talvez desta tenham abusado e as pessoas estejam fartas de malfeitores que não se importam de mandar os outros para a rua e para a miséria. O que temos nós a perder? Já levaram o nosso dinheiro, preparam-se para levar o resto, os nossos filhos não têm trabalho e "eles" ameaçam que se vão embora? Para onde ? É que nós num último esforço podemos alugar aviões para os levar ao destino.

Já viram como seria boa a vida sem estes tratantes que roubam por tudo quanto é sítio? Se isto está no fundo com eles, sem eles poderá ser pior? Claro que não! O ambiente desanuviava de um dia para o outro, vamos buscar assessores séniores a França, Inglaterra, Países Nórdicos que a troco de uma vivenda no Algarve, nos ensinam como fizeram lá na terra deles.

Nos US o povo começa a levantar a cabeça !

El pueblo de EEUU se organiza para resisitir a los desahucios! from Afectadosporlahipoteca on Vimeo.

publicado por Luis Moreira às 23:50
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

Semana da Economia - A senhora Merkel está errada

Rolf Damher

Nunca cheguei a acreditar na alegada arte de governar dessa mulher alegadamente “mais poderosa do mundo”, porque tinha e continuo a ter a certeza: a estratégia dela está errada, tanto em relação à própria Alemanha como em relação à União Europeia.

Rolf Damher

SPIEGEL ONLINE, 11/26/2010

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Debt Crisis Woes: Merkel's Reputation on the Decline in Europe

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Everyone is talking about German Chancellor Angela Merkel these days -- and most of what they have to say isn't complimentary. Her plan to create a bankruptcy mechanism for euro-zone countries, they say, has worsened the debt crisis in Ireland and elsewhere. Merkel's name, once widely respected, is now mud.


By Severin Weiland

You can download the complete article over the Internet at the following

URL:

http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,731350,00.html

PS: há quem proponha que a Alemanha, com superavites, com a economia a crescer a 4% devia abrir os cordões à bolsa e aumentar os vencimentos dos trabalhadores acima do índice de produtividade e, assim, aumentar a procura interna de produtos exportados por outros países europeus.Acontece que o que em Portugal é feito, tolamente, todos os anos ( aumentos salariais acima da produtividade, ) é um caso muito sério para Alemães habituados a serem rigorosos e a não brincarem com o futuro.

A senhora Merkel ao avançar com a constituição do Fundo de Emergência está a resguardar a Alemanha de crises (dos outros) que podem colocar todos em má situação, mesmo que isso constitua, uma prova que não acredita nem um bocadinho nos políticos dos países periféricos do Sul e abale ainda mais a sua credibilidade.(Luis Moreira)
publicado por Luis Moreira às 22:30
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Economia - Contra o estado Neo-Liberal que sustentamos

Luis Moreira

Há 20 anos que os "gurus" mundiais da economia vieram a Portugal fazer estudos que nos custaram milhões. Nenhum preconizou um Estado interventor e gastador, um país com o maior número de kms de autoestradas por m2, nem as maiores pontes e mais caras, nem novos aeroportos, nem hospitais ao virar da esquina, nem parcerias-público/privadas,nem o TGV, nem empresas públicas que operam num meio sem competição, com preços superiores aos dos outros países e com uma retribuição ao capital accionista muito acima da remuneração obtida no mercado de capitais, com gestores que ganham mais que os congéneres de países ricos, com quadros e trabalhadores a gozarem mordomias muito acima dos restantes trabalhadores...

A isto chama-se um Estado Neo-liberal (leiam com cuidado os textos dos Professores da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra).Um Estado que não regula os mercados, que enterra milhões em bancos criminosos, que anda de braço dado com grandes capitalistas em negócios "finos" na Caixa Geral de Depósitos e no BCP, na PT...que isenta os milionários de pagamentos de impostos sobre mais-valias,que isenta das medidas de austeridade os que mais ganham...é isto que os Estatistas defendem? Há Estados mais neo- liberais do que isto?

Então aqui estão as alternativas ( do livro - entre muitos - Reformar Portugal - 17 Estratégias de Mudança - 2002): Aqui podemos encontrar proposta concretas para as grandes áreas da política e da sociedade, mas hoje fiquemo-nos pela economia:

- O crescimento económico terá que passar, essencialmente, pelo aumento sustentado e diferenciado da produtividade face à média comunitária.Isso implica capacidade de inovar.Os rápidos progressos em tecnologias de informação, são elas mesmas factores de competitividade e de inovação, mas mais do que isso, são "os drivers" das novas vagas de desenvolvimento tecnológico noutros sectores, como as ciências da vida, a gestão dos recursos naturais, o ambiente, os transportes e a gestão industrial.

O problema é que a UE, em matéria de inovação, coloca Portugal no último lugar.É, pois, preciso:

- Criar um ambiente propício à inovação
- Mudar o papel do governo
- inovação pelas e nas empresas
-incentivar o espírito empreendedor
- inovar nas Pequenas e Médias Empresas ( são as máquinas de criar emprego num país!)
-Desenhar estratégias de inovação regionais
-Incentivar o capital de Risco ( papel que devia estar atribuído à CGD mas que em vez disso anda nos negócios das empresas do regime)
-Criar uma dinâmica auto-sustentada de financiammento
-O contributo da Agência de Inovação e das Universidades
- A Intervenção do ProInove - Programa Integrado para a Inovação
-promover a participação Portuguesa no 6º Programa-quadro (onde ele já irá!)

(as prioridades deste programa eram: 1 - ciências da vida, Genómica, e Biotecnologia para a saúde. 2-tecnologias da sociedade de Informação 3 - nanotecnologia e nanociẽncias e novos processoas produtivos,4 - Aeronáutica e espaço,5 -Qualidade alimentar,6 - Desenvolvimento sustentado, mudança global e ecossistemas,7 - Cidadãos e governos na sociedade do conhecimento,8 - Actividades específicas noutros domínios( antecipação de necessidades científicas e tecnológicas; políticas horizontais de PME; medidas de suporte à cooperação internacional)

-Pugnar por uma política de Inovação na UE - Fazer de Portugal um país Inovador deve ser o grande designio nacional, o que obriga a sermos um país aberto, a escolher os investimentos inovadores prioritários e manter esses investimentos mesmo em recessão económica.Os países inovadores apostam numa classe empresarial com profundos conhecimentos académicos, cientificos, tecnológicos, virados para os negócios de base tecnológica e com uma crescente componente de informação e conhecimento.

Os países com a dimensão do nosso, têm vindo a assumir importância crescente. Estes países assentam a sua estratégia de desenvolvimento na excelência dos seus recursos humanos ( os nossos ou fugiram para o estrangeiro ou estão nas grandes empresas públicas a entrarem às nove e a sair às seis...), na renovação da sua classe empresarial, na capacidade de criarem empresas, de atraírem investimento externo e de promoverem a internacionalização das suas empresas.

Claro, que o grosso das suas 456 páginas é dizer como tudo isto se faz! Quem quizer saber como os países inovadores e ricos fazem, como a Holanda, Noruega,Dinamarca,Finlândia, e Áustria é só ler com cuidado este livro ou outro que trate, seriamente, destes temas. Também propõe medidas para a Educação, Saúde,Justiça, Administração Pública...

Nada que se pareça com as políticas que os diversos governos têm implementado, dar à manivela das betoneiras é bem mais fácil.Incluindo o actual, bem entendido!
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Economia - a Insurreição que vem ?

Rolf Damher

“O futuro não depende totalmente da nossa vontade, nem é totalmente alheio a ela; não o esqueças, para que não tomes como uma fatalidade o que ainda não aconteceu, nem como impossível de concretizar aquilo que mais desejas.” Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Carta a Meneceu

Serve este texto para melhor compreensão dos “mecanismos cibernéticos de correcção” dos quais frequentemente escrevo e a que as nossas sociedades se encontram sujeitas permanentemente, sobretudo nos tempos actuais.

Descobri agora, na rúbrica “Cultura” do magazine alemão DER SPIEGEL, excertos do livro Der kommende Aufstand ("A INSURREICÇÃO QUE VEM" - COMITÉ INVISÍVEL (EDIÇÕES ANTIPÁTICAS) escrito por autores franceses anónimos que se auto-designam “Comité Invisível”. Achei muito interessante, pois a nossa actual situação é aqui descrita com toda aquela redundância que os meus textos nem sempre apresentam. (Quem procura causas e soluções é obrigado a saír da redundância e entrar na redução).

Entretanto encontrei o livro completo em língua portuguesa na net – link abaixo – e passo a copiar os excertos acima referidos, como segue:

Qualquer que seja o ponto de vista que adoptarmos, o presente é um beco sem saída. Não é essa a menor das suas virtudes. Aqueles que desejariam acima de tudo esperar, vêem ser-lhes retirado qualquer tipo de sustentação. Os que pretendem ter soluções vêem-se imediatamente desmentidos. Toda a gente sabe que as coisas só podem ir de mal a pior. «O futuro já não tem futuro» constitui a sabedoria de uma época que atingiu, sob a sua aparência de extrema normalidade, o nível de consciência dos primeiros punks.

A esfera da representação política fecha-se. Da esquerda à direita, é o mesmo vazio que toma, alternadamente, a forma de cão de guarda ou ares de virgem, os mesmos técnicos de vendas que mudam de discurso conforme as últimas descobertas do departamento de comunicação. Aqueles que ainda votam parecem ter como única intenção rebentar com as urnas, à força de votarem como puro acto de protesto. Começamos a pensar que é efectivamente contra o próprio voto que as pessoas continuam a votar. Nada daquilo que se apresenta está à altura da situação, nem de longe nem de perto. Até no seu silêncio, a população parece infinitamente mais adulta do que todos os fantoches que se atropelam para a governar. Há mais sabedoria nas palavras de qualquer chibani1 de Belleville do que em todas as declarações juntas dos nossos auto-denominados dirigentes. A tampa da panela de pressão foi fechada com três voltas, mas lá dentro as tensões sociais não param de aumentar. Vindo da Argentina, o espectro do «Que se vayan todos!» começa seriamente a assombrar as cabeças dirigentes.

Não há que participar neste ou naquele colectivo cidadão, neste ou naquele impasse de extrema-esquerda, na última farsa associativa. Todas as organizações que pretendem contestar a ordem presente têm elas mesmas, um pouco mais folcloricamente, a forma, os costumes e a linguagem de Estados em miniatura. Todas as intenções de «fazer a política de outra forma» nunca contribuíram, até hoje, senão para a extensão indefinida dos pseudópodos 20 estatais.

20 - Os pseudópodes são deformações da membrana plásmica que permitem a um célula alimentar-se e deslocar-se numa determinada direcção. (NT)

Não há que reagir às novidades do dia, mas compreender cada informação como uma operação a decifrar num campo de estratégias hostil, operação que visa justamente suscitar, neste ou naquele, este ou aquele tipo de reacção; e a reter desta operação a informação verdadeira que está contida na informação aparente.

Não há que esperar – um clarão, a revolução, o apocalipse nuclear ou um movimento social. Continuar à espera é uma brincadeira. A catástrofe não é o que aí vem, mas o que já se apresenta. Nós situamo-nos desde já no movimento de desabamento de uma civilização. É aí que é preciso tomar partido.

Não mais esperar é, de uma maneira ou de outra, entrar na lógica insurreccional. É escutar de novo, nas vozes dos nossos governantes, o ligeiro tremer de terror que nunca os abandona. Porque governar nunca foi outra coisa senão repelir por mil subterfúgios o momento em que a multidão se revoltará e todo o acto de governação nada mais que uma forma de não perder o controle da população.

Nós partimos de um ponto de extremo isolamento, de extrema impotência. Tudo está por fazer no que respeita a um processo insurreccional. Nada parece menos provável do que uma insurreição, mas nada é mais necessário.

http://www.radioleonor.org/wp-content/uploads/2010/09/insurreicao-que-vem.pdf

De facto, “eles” têm um crescente medo da população e não sabem como saír desta. Concluindo: como existem saídas, não precisamos necessariamente de "A INSURREICÇÃO QUE VEM", apenas políticos fora do baralho que saben olhar para a frente e que ainda conservam o são juízo humano. É tão simples como isto.

Rolf Damher

P.S. Para que não haja mal-entendidos: embora sabendo, intuitivamente, da existência daqueles mecanismos de correcção cibernéticos em curso – basta ver a TV ou ler os jornais – , não estou a desejar que isto vá até às últimas consequências, pois as coisas poderão tornar-se violentas. Gostaria, sim, de interferir nessa espiral negativa, dando a volta às coisas por cima. Isto é possível com minha estratégia proposta: New Deal. A sua aceitação permitiria converter, imediatmente e sem violências, todas aquelas forças potecialmente destruidoras em forças que fomentam uma nova ordem e novo crecimento orgânico.
publicado por Luis Moreira às 22:30
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Austeridade: a Europa a andar em sentido contrário

Michel Aglietta, economista e Lionel Jospin, antigo primeiro-ministro de França (1997-2002).


Depois da reunião do G20, perto de Seul, uma coisa é óbvia: as principais potências económicas do mundo não irão reduzir nem regular o sector financeiro que os estados deixaram constituir na economia mundial ao longo destas três últimas décadas.

Em 2008 e 2009, aquando das cimeiras de Washington e de Londres, foram assumidos compromissos solenes e foram elaboradas áreas de trabalho relevantes. Mas isso levou a muito poucas acções concretas. O sistema financeiro foi salvo e a depressão evitada graças aos planos de retoma económica por parte dos governos, que mostravam a ambição de reformar de uma forma concertada todo o mundo económico e financeiro,. E é esta ambição que entretanto se perdeu.

De onde é que vem esta incapacidade, esta impotência ? Porque é que os estados que salvaram o sistema e tem toda legitimidade para impor regras como representantes do povo, se mostram tão hesitantes em impor aos actores financeiros que assumam o seu lugar normal: o de agentes ao serviço da economia?

As razões são variadas. Muitos governos estão próximos dos mercados financeiros ou são afectados por fortes grupos de pressão. Além disso, alguns dos principais parceiros económicos acomodam-se bem com o status quo. Esta é a situação dos Estados Unidos, em que a atractividade de Wall Street e o papel do dólar como moeda de reserva permitem que se esteja a facilitar o endividamento. O mesmo se aplica à China, que com a subvalorização do yuan ajuda a acumular excedentes comerciais e confortáveis volumes de reservas cambiais. Finalmente, o paradigma da eficiência e da auto-regulação dos mercados continua a ser muito importante. Na mesma altura em que falham os dogmas do neoliberalismo, a análise económica dominante continua a tomá-los como a referência. Se se inicia um novo pensamento este ainda não consegue inspirar os governos.

É necessário não desistir da ambição de reformar o sistema económico e financeiro global. Instaurar uma regulação global da esfera monetária e financeira, pôr em causa as taxas de lucro exorbitantes exigidas às empresas pelos accionistas à custa dos trabalhadores é uma necessidade imperiosa. Também será interessante avaliar se, para além da proclamação de intenções, a presidência francesa do G20 vai unir a Europa em uma torno de uma proposta de reforma do sistema monetário internacional para depois e em seguida, iniciar a negociação entre as diversas áreas de integração económica.

No entanto, mesmo se uma reordenação do sistema económico global se iniciasse isto levaria algum tempo. Enquanto isso, cada um contará com as suas próprias forças e deverá preparar-se para estar na melhor situação possível para futuras negociações entre os diversos conjuntos económicos de países. E é aqui que a Europa está a ir por um caminho errado, que está a andar em sentido contrário. O nosso continente está a passar por uma crise persistente. E isso vai piorar se são mantidas as políticas generalizadas de austeridade decididas pelos governos para 2011 e anos seguintes. Não só essas políticas não são apropriados à situação actual, como também é contestável o diagnóstico que lhes está subjacente .

De facto, os planos de retoma precedentes contam bem pouco para os défices actuais. Os planos de recuperação para 2009 na União Europeia foram calibrados ex ante sobre um acréscimo do défice de 1,1% do produto interno bruto (PIB) em média. Ora o aumento do défice foi de 4,6%, ou seja mais de quatro vezes superior. Isto significa que a timidez dos governos europeus na retoma económica não nos pôde proteger de uma recessão severa. É a recessão, e não as políticas de retoma, que alargou os défices para níveis fora do comum.

Mas hoje, a Europa assenta numa contradição, num contra-senso, ao escolher a política de austeridade. Depois do primeiro erro de uma fraca calibragem da retoma económica em 2009, os governos agravam-no agora, quanto todos ao mesmo tempo invertem a posição e passam a utilizar políticas de austeridade. O prolongamento económico e de modo continuado da crise financeira resulta da falta de dinamismo da procura privada. Muitos actores têm que se desendividar, os bancos estão reticentes em emprestar e a estagnação dos rendimentos e o desemprego auto-alimentam-se. Estamos confrontados com uma situação de uma clara insuficiência da procura. Ora, as elites políticas da Europa fecham-se numa estranha retórica. Estas parecem acreditar que o simples anúncio de austeridade actuará, por todo o lado, como uma varinha mágica sobre esta entidade metafórica que são os mercados. Todas os constrangimentos no sector privado iriam assim desaparecer rapidamente. As famílias iriam começar a consumir e as empresas a investir, como se a crise não tivesse existido. Ora, não é isto o que nos diz o exemplo irlandês.

De facto, trabalhos recentes e muito elaborados do Fundo Monetário Internacional (FMI) varrem completamente essas ilusões. Ao estudar cuidadosamente muitas situações de austeridade fiscal, o FMI mostra que, em média, para um esforço de austeridade, de 1% do PIB, há um efeito de contracção do crescimento do PIB de 0,5%, após dois anos. Infelizmente, o FMI também sublinha que não estamos numa situação média. Na Europa, as consequências da austeridade orçamental podem ser piores, por três razões: todos os países praticam esta austeridade e todos o fazem ao mesmo tempo; as taxas de juros, já baixas, não nos levam muito mais longe; o euro corre o risco de se apreciar em vez de se depreciar, devido à política monetária dos Estados Unidos.

No nosso continente, o impacto da austeridade pode ser de 1% ou mesmo de 2%, dependendo das circunstâncias. Assim, em 2012 e 2013, é provável que o crescimento europeu seja muito baixo. Naturalmente, os défices não serão reduzidos, ou sê-lo-ão muito pouco, por falta de entrada de receitas fiscais, a dívida pública aumentará e o desemprego deverá aumentar novamente. As tensões sociais agravar-se-ão e os movimentos nacionalistas e populistas, que já estão a crescer na Europa, podem muito bem sair assim reforçados.

Para as pessoas de bom senso, esse risco não deve ser tomado. As nossas políticas devem ser mudadas para repor a trajectória do crescimento. Daí poderá mesmo depender a sobrevivência da zona do euro que terá, sem dúvida, muitas dificuldades para ultrapassar uma nova crise simultânea das finanças públicas nos países mais frágeis.

Estabelecer e dirigir uma política de crescimento é vital para a UE. Quer isto dizer que devemos ficar indiferentes aos excessos dos orçamentos e da dívida? Claro que não. Mas, como qualquer grande crise financeira, os seus efeitos estendem-se por uma década. Os governos devem programar o restabelecimento dos equilíbrios orçamentais no final da década e abandonar a ilusão absurda de um retorno rápido da dívida pública a 60% do PIB, quando todas as organizações internacionais têm projectado uma relação dívida / PIB em torno de 110 % a 120% , em média, no conjunto dos países da OCDE. O restabelecimento das finanças públicas não se pode alcançar pela austeridade, mas sim através de um esforço razoável de controle e por um auto-financiamento resultante do crescimento.

Sem dúvida, os mercados exercem, pela especulação, uma pressão sobre os países europeus mais vulneráveis. Eles induzem as agências de rating, pela degradação das suas notas de avaliação de risco, a encarecer o custo dos empréstimos. Os agentes financeiros reencontram assim, apesar dos seus graves erros das suas graves incapacidades, das suas graves falhas, a sua função de censores dos governo de que eles gostam tanto. E, contudo, é da responsabilidade dos Estados - que os têm resgatado - não aceitarem os seus diktats. A solidariedade do Banco Central Europeu (BCE) e dos governos europeus face à especulação contra os mais frágeis , até mesmo uma indicação - já dada pela Alemanha - de que em circunstâncias extremas, se deve organizar uma reestruturação da dívida, poderia servir como uma advertência útil relativamente aos mercados.

Na situação actual, o crescimento depende, fundamentalmente, das políticas públicas. È necessário simultaneamente compensar o défice da procura privada, melhorar a competitividade de muitos países dos europeus (entre os quais a França), criar incentivos para que se verifique uma nova vaga de investimentos e encontrar maneiras de o financiar. Temos de agir quer pelo lado dos recursos quer das despesas, ou seja, temos de reformular a estrutura dos orçamentos, como o fizeram os escandinavos, depois da severa crise bancária de 1991-1992.

No entanto, a insuficiência da procura actual é o resultado de uma evolução que vem de longe. É a deformação ao longo de várias décadas de distribuição da riqueza que levaram à corrida para o endividamento, a uma cobrança exorbitante sobre a economia, à enorme perda de receitas fiscais e tudo isto em benefício da riqueza privada e à pressão sistemática sobre os salários.

O aumento da remuneração do trabalho é, por todo o lado, a chave de toda a recuperação do crescimento. É verdade que com o nível de desemprego que prevalece na Europa, especialmente na França, não pode haver - excepto, talvez, na Alemanha - um aumento significativo do salário bruto. Mas poder-se-ia transferir , através de uma alteração da estrutura fiscal, poder de compra para as categorias sociais que são demasiado pobres para estarem endividadas e que consomem 100%, ou quase, dos acréscimos de rendimento por esta via recebidos. A tributação do capital seria reformulada, seria feita a eliminação de benefícios fiscais às famílias com rendimentos elevados, seria feita uma revisão dos impostos sobre as herança, ou seja, uma inversão das medidas que não tiveram nenhuma eficácia económica, mas que serviram clientelas especiais, é hoje uma necessidade para começar a inverter as desigualdades sociais e criar um fluxo adicional da procura.

No entanto, agir sobre a procura a curto prazo não é suficiente. Deve-se ainda ter os meios de actuar no terreno da oferta, de aumentar o crescimento potencial. Isso exige investimentos públicos e incentivos ao sector privado. Dois tipos de recursos, um disponível, o outro a criar, são passíveis de levar a cabo políticas ambiciosas por toda a Europa. Estes são a taxa de IVA e a fiscalidade sobre o carbono .

A UE deve acabar com o dumping fiscal, que lhe é mesmo devastador. Manipular a taxa de IVA, para promover este ou aquele sector específico cria distorções nefastas sobre os preços relativos. O ideal seria uma taxa uniforme do IVA, provavelmente de 19,6%. O efeito regressivo deve ser compensado por um aumento da progressividade do imposto sobre o rendimento . O fundamental é a criação de recursos fiscais para lançar uma ambiciosa política de educação ao longo da vida, um corolário necessário de qualquer reforma que prolongue a vida activa.

No entanto, a reforma na tributação mais significativa e prometedora para o crescimento é o imposto sobre o carbono. Um imposto europeu sobre o carbono, a partir de um nível próximo do preço de mercado dos direitos de poluição e crescente regularmente até 2020, criaria um valor social do carbono que iria mudar o sistema de preços relativos. Isso faria evoluir o consumo e abriria espaço de rentabilidade para os investimentos rentáveis que permitiriam à Europa manter a sua liderança nesta área.

O produto de tal imposto poderia ser dividido em três partes. A primeira parte deve subsidiar famílias de baixo nível de rendimento para compensar o aumento dos custos de consumo. A segunda poderia ser usada para diminuir a folha de cotizações sociais de modo a incentivar a escolha de postos de trabalho ricos em empregos. A terceira seria paga ao orçamento da UE para financiar os investimentos nas inovações ambientais. Esta última parte permitiria capitalizar uma intermediação financeira construída sobre um Fundo Verde Europeu destinado ao apoio à inovação sobre o meio ambiente. Seria possível emitir títulos para financiar os investimentos de longo prazo e arriscados - públicos ou privados - e mobilizar os investidores institucionais. O essencial seria criar um efeito de massa suficiente para suscitar na Europa uma dessas grandes vagas de inovações que sempre apoiaram o desenvolvimento económico.

Não é porém certo de que este tipo de análise e de propostas tenham actualmente possibilidades de serem aceites dado o actual estado de crispação ideológica e de paralisia política que caracteriza a Europa. Da mesma forma que é difícil esperar ver a Europa conduzir uma política cooperativa para o crescimento.

Mas é necessário lançar o debate, e isto bem para além dos círculos governamentais. Deve haver uma palavra a dizer nos partidos políticos, associações, sindicatos e líderes empresariais europeus posicionados sobre as alterações climáticas e as questões ambientais, mesmo por aqueles investidores financeiros que acreditam que o investimento socialmente responsável é portador de rentabilidade a longo prazo. O modelo económico dos últimos 30 anos - embora a França tenha feito algumas excepções, com a esquerda no poder - foi caracterizado pelo domínio da prioridade ao valor para o accionista, pela hipertrofia das finanças especulativas, pelas exigências financeiras incompatíveis com a rentabilidade das empresas, pelo tratamento fiscal favorável aos meios sociais privilegiados, pelas desigualdades crescentes na repartição do rendimento. È todo um outro modelo que deve agora emergir, se quisermos tirar profundas e enriquecedoras lições da crise financeira. Este modelo deve basear-se numa partilha mais equitativa dos rendimentos, sobre uma população activa mobilizada por remunerações decentes e a quem se oferece possibilidades de renovar as suas capacidades durante a sua vida, sobre um crescimento assente no respeito pelos equilíbrios naturais

Para unir as forças da sociedade civil em torno do novo pacto social, precisamos de um pensamento político consagrado nos programas a nível nacional e capaz de fazer abanar a governação da Europa e ter influência a nível internacional. Dar à análise económica do novo período uma expressão política capaz de agregar as pessoas poderá ser a tarefa central de uma social-democracia reformada .

(Aglietta, Michel; Jospin, Lionel, Austerité: l’Europe à contresens, Le Monde, 22.11.2010)

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publicado por Carlos Loures às 19:30
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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Semana da Economia - A terceira Ponte é demasiado cara.

Luis Moreira

Um engenheiro que percebi ser quadro da Brisa, veio à TVI explicar que a Terceira Ponte sobre o Tejo para servir o TGV é demasiado comprida e cara, pelo que a solução é a Ponte 25 de Abril, onde já lá temos comboios a 60 Kms/hora.Mas vamos à matéria:

De alguém que me mandou este texto, onde se colocam interrogações apropriadas.Poderá ser conhecido por alguns dos leitores mas, sendo simples e comparando com países que todos conhecemos, ajuda a compreender as dúvidas acerca da rentabilidade dos investimentos públicos.

· Estádios de futebol, hoje às moscas,
· TGV,
· novo aeroporto,
· nova ponte,
· auto-estradas onde bastavam estradas com bom piso,
· etc. etc.

A quem na verdade serve tudo isto? A quem vai servir o TGV?

1. aos fabricantes de material ferroviário que já não existem em Portugal, por isso há que os comprar lá fora.
2. às construtoras de obras públicas (sempre elas...)
3. e, claro, aos bancos que as financiam

Ao contrário os portugueses ficarão mais endividados!

Experimente ir de Copenhaga a Estocolmo de comboio.Comprado o bilhete, dá consigo num comboio que só se diferencia dos nossos 'Alfa' por não ser tão luxuoso e ter menos serviços de apoio aos passageiros.(é verdade, eu próprio já fiz esta viagem)

A viagem, através de florestas geladas e planícies brancas a perder de vista, demorou cerca de cinco horas. Não fora conhecer a realidade económica e social desses países,daria comigo a pensar que os nórdicos, emblemáticos pelos superavites orçamentais, seriam mesmo uns tontos.

Se não os conhecesse bem perguntaria onde gastam eles os abundantes recursos resultantes da substantiva criação de riqueza. A resposta está: . na excelência das suas escolas,
· na qualidade do seu Ensino Superior,
· nos seus museus e escolas de arte,
· nas creches e jardins-de-infância em cada esquina,
· nas políticas pró-activas de apoio à terceira idade.

Percebe-se bem porque não construíram :
· estádios de futebol desnecessários,
· nem optam por ter comboios supersónicos que só agradam a meia dúzia de multinacionais.

O TGV é um transporte adequado a países de dimensão continental, extensos,
onde o comboio rápido é, numa perspectiva de tempo de viagem/custo por passageiro,
competitivo com o transporte aéreo.

É por isso que, para além da já referida pressão de certos grupos que
fornecem essas tecnologias, só existe TGV em França ou Espanha
(com pequenas extensões a países vizinhos).

É por razões de sensatez que não o encontramos
· na Noruega,
· na Suécia,
· na Holanda
· e em muitos outros países ricos.

Tirar 20 ou 30 minutos ao 'Alfa' Lisboa-Porto à custa de um investimento de cerca de 7,5 mil milhões de euros não trará qualquer benefício à economia do País. E quem tem pressa em chegar a Madrid viaja num dos muitos aviões que a todas as horas partem de Lisboa, do Porto ou de Faro.

Para além de que, dado ser um projecto praticamente não financiado pela União Europeia, ser um presente envenenado para várias gerações de portugueses que,
com mais ou menos engenharia financeira, o vão ter de pagar.

Com 7,5 mil milhões de euros podem construir-se:

- 1000 (mil) Escolas Básicas e Secundárias de primeiríssimo mundo
que substituam as mais de cinco mil obsoletas e subdimensionadas existentes ,(a 2,5 milhões de euros cada uma);

- mais 1.000 (mil) creches (a 1 milhão de euros cada uma);

- mais 1.000 (mil) centros de dia para os nossos idosos (a 1milhão de euros cada um).

E ainda sobrariam cerca de 3,5 mil milhões de euros para aplicar em muitas outras carências,como, por exemplo,na urgente reabilitação de toda a degradada rede viária secundária e, também na reabilitação dos centros urbanos.

Cabe ao povo ver que tudo isto é um negocio entre partes, que ninguem sabe quais, tendo a certeza que essas mesmas partes irão tirar os dividentos de tal negócio megalómano endividando as proximas três ou quatro geraçoes deste país. Qualquer pessoa minimamente inteligente e sem interesses directos no negócio vê que Portugal nao necessita de um tgv para nada!!

PS: Soube-se por estes dias que a Terceira Ponte sobre o Tejo é da tal maneira comprida e cara que está fora de questão construí-la, pelo que se procuram alternativas. A mais provável é a Ponte 25 de Abril, a tal que já lá tem os comboios sub-urbanos a andar a 100 Kms/hora.A bitola das linhas é diferente pelo que o comboio ao entrar na linha já existente e que serve a Ponte muda automaticamente de bitola,tudo a 300/hora. Imaginação é o que há mais só é pena andarem-nos a vender a ideia que estava tudo estudado e afinal descobriram agora estes pormenorzitos, sem importância nenhuma.

Estou em crer que sempre se consegue meter 3/4 comboios/dia a 300/hora entre os "pastelões" que em cima da ponte andam a 60Kms/hora. Como se vê está tudo estudado, os concursos seguem o seu caminho, dinheiro não há, ponte também não, alguma coisa se há-de arranjar.

Entretanto, o parque escolar tem já centenas de escolas a serem recuperadas, criando emprego e puxando pelas construtoras e por todas as empresas subempreiteiras, em plena crise que é quando o investimento é necessário.

É esta a diferença entre os investimentos públicos de proximidade e os mega-investimentos que só dão resultados (se derem) daqui a 4/5 anos.
publicado por Luis Moreira às 13:00
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Semana da Economia - Exportações a crescer - a única forma de pagar a dívida

Luis Moreira

São coordenadores Luis Valadares Tavares, Abel Mateus e Francisco Saarsfiel Cabral, economistas que reunem num livro(Reformar Portugal - Estratégias de Mudança) o muito que já se sabe que é preciso fazer mas que os vários governos não realizam. Porquê? Porque o Estado está há séculos amordaçado pelas corporações poderosas que não deixam mexer nada. Mas leiam:

"Passaram séculos e é hoje chocante a verificação do pouco que portugal mudou durante este período, com os mesmos erros serem repetidos vezes sem conta e em que o Poder do Estado é usado para impedir a sociedade, nomeadamente os agentes económicos, de se organizarem de forma sustentada e aproveitarem as novas oportunidades, que os diferentes tempos foram propiciando.

Que melhor exemplo do que o condicionamento industrial de António Salazar? Ou a política nacional de saber ler,escrever e contar, durante o mesmo período? Ou as nacionalizações após o 25 de Abril? Ou as dificuldades criadas à indústria exportadora nacional, pela política de valorização do escudo de Cavaco Silva? Ou o fim de uma longa tradição de artes e ofícios, com a morte do ensino profissional?

Em portugal a existência de um estado central poderoso , por vezes déspota, quase sempre ignorante e indisciplinado, mas suficientemente hábil para se servir a si próprio e para permitir, ao mesmo tempo, a satisfação dos interesses dos grupos sociais mais poderosos, sempre impediu, ao longo dos séculos, a diversificação da economia, da mesma forma que evitou crises necessárias e mudanças renovadoras, no momento em que estas teriam sido úteis. A descolonização feita tarde e a más horas é outro exemplo recente."

E quanto aos nossos empresários, à sua qualidade, à sua renúncia ao risco, sem conhecimentos de gestão, cujas empresas fogem dos impostos e caminham sem estratégia? A verdade é que em Portugal existiam em 1999, 259 641 empresas,logo muitos arriscam, a não ser assim não existiriam aquelas empresas, cheias de problemas burocráticos levantados pelo estado, muitas delas concorrem nos mercados internacionais com sucesso.

A verdade é que representam 60% do PIB, 70% das exportações e 80% do emprego! Já algum de nós deu conta que são uma prioridade para o governo seja ele qual for? E porque é que os portugueses têm sucesso lá fora? E porque é que as empresas estrangeiras passam a vida a queixar-se dos constrangimentos impostos pelo estado, embora tendo capacidades muito diferentes para os tornear porque são empresas multicionais?

Trata-se de criar riqueza, é esse a mãe de todos os problemas! E quem cria riqueza é a iniciativa privada, os cidadãos com coragem para arriscar e prosseguir objectivos, bens e serviços que se vendem na exportação e substituem importações. E, como se vê, pelos últimos dados, é a exportação das PMEs que está a puxar pela economia, com grande júbilo do governo que até há dois meses atrás apostava nas grandes obras públicas.

Enquanto o estado for esta pessoa de "má - fé", incompetente, anafado e gastador o país não sairá da miséria. Um Estado que tem como objectivo encher o país de funcionários!

Não resisto a contar-vos uma história passada comigo em Manchester, no Reino Unido. Numa reunião com empresários Ingleses interessados em vir para Portugal para aproveitar a modernização do nosso parque hospitalar, então em grande força, um dos empresários, pediu a palavra para dizer. Meus senhores, eu já investi em Portugal.Tive um problema empresarial que me obrigou a recorrer aos Tribunais. Meti a acção há cinco anos e, desde então, que estou à espera de uma comunicação do tribunal. Nunca recebi resposta nenhuma.É assim que se trabalha em Portugal. Boa tarde e muito obrigado! Saíu pela porta fora.

As poderosas corporações que mandam no estado, que não reportam a ninguém, que não são avaliadas, em que ganham todos o mesmo sem que se aprecie o mérito, são os inimigos da modernização do nosso país.

O igualitarismo empurra os estados para a mediocridade, nunca se nivela por cima, nivela-se por baixo, chegamos todos ao topo da carreira, como se o trabalho fosse igual e os resultados os mesmos. Não são! E, depois, aparecem uns senhores que ganham mais que o Governador do Banco Central dos Estados Unidos! No meio da bagunça "uns são mais iguais que outros"!

E a questão, quanto à dívida, é a capacidade de a pagar,países que crescem, sistematicamente, a 4% não têm o mesmo problema de outros que, como o nosso, cresce abaixo dos 1% e, nos últimos cinco anos, a taxa de crescimento acumulada foi mesmo negativa..

Pagamos a dívida, empobrecendo.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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