Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Neoliberalismo ou Democracia: O Debate Está Aberto – Júlio Marques Mota - 8

(Continuação)

  1. 1. Os CDS, os Hedge funds e a autonomia das políticas nacionais: a democracia em perigo

The Ever Increasing Parallels Between AIG And Greece... And The CDS Puppetmaster Behind It All

Tyler Durden

A) Estranho paralelo

David Fiderer na peça que se segue, publicada originalmente no site Huffington, continua a questionar a relação entre Goldman Sachs e AIG. Para todos os efeitos, o debate foi elegantemente considerado encerrado e se estivéssemos num sistema legal a funcionar como devia a Goldman Sachs seria forçado desde há muito tempo a devolver o dinheiro que recebeu e a desfazer a operação; e agora com a AIG solvente devido ao apoio prestado pelo Estado, as suas contrapartidas podiam continuar a sentir algum risco, embora marginal, em vez de estarem simplesmente a usufruirem somente a posse do dinheiro. E, oh! Tim Geithner teria que enfrentar acusações na base dos códigos civil e penal,

Actualmente, enquanto olhamos para a situação que se está a passar, gostaríamos de saber quem é que determina agora o preço dos CDS sobre títulos da dívida pública da Grécia (bem como de Portugal, do Dubai,da Espanha, do Japão e dos Estados Unidos) qual a taxa de recuperação considerada para a determinação desse preço e do valor do colateral exigido pelos pelos vendedores de CDS sobre os títulos da dívida grega? Se são os bancos gregos, como os boatos parecem indicar, estes vendem a protecção sobre a dívida grega, os CDS, e na mesma linha de rumores também, será Goldman Sachs o seu maior comprador, quer em termos de valores globais quer em termos de capacidade de fluxos e, neste caso, será precisamente Goldman, da mesma maneira como no exemplo de AIG, que pode agora ditar o valor do colateral dos CDS sobre a dívida s grega, Digamos, se Goldman pensa que a taxa de recuperação da dívida grega é de 75 centavos e que os CDS se devem negociar a 700 pontos de base, em vez do consenso “prevalecente” de uma recuperação a 90 cêntimos e de 450 pontos de base, então é muito provável que venha a ser assim, quando se quiser capital adicional para cobrir eventuais necessidades, uma vez que o próprio Goldman Sachs tem sido o meio ou instrumento fundamental para encobrir a situação financeira catastrófica da Grécia e continua a ser um factor crítico nos esforços para os futuros refinanciamentos deste mesmo país. Obviamente estas variações adicionais, que será somente Goldman sempre a ver, mesmo se os CDS forem comprados numa base dos seus fluxos, nunca serão reduzidas para os seus clientes e, em vez disso, serão usadas preferivelmente para preparar os bónus de 2011.

Em suma, dada a situação de conflito de interesses, de sua posição negocial dominante e da sua facilidade em determinar o valor dos colaterais exigidos na venda dos CDS, Goldman Sachs pode expandir a sua posição de força acabada de expor e pura e simplesmente impor a decisão tomada pelo Federal Reserve sobre a AIG a quem tem a obrigação de estabelecer a política nacional! Isto é, uma loucura absoluta e uma base para o colapso financeiro ao nível global.

Há aqui ainda uma outra AIG na fornalha, com Goldman desta vez provavelmente a ameaçar acelerar o colapso não somente do sistema financeiro dos Estados Unidos mas também do sistema financeiro global, a tentar conseguir alcançar uma posição negocial de força virtualmente infinita. Naturalmente, o mundo não permitirá que se desencadeie e uma situação de dominó a partir da Grécia, permitindo que Goldman os engane a todos uma vez mais.

Como a quantidade de CDS em termos de valores absolutos e em termos líquidos está constantemente a aumentar com mais e mais hedge funds a juntarem-se ao Goldman Sachs como o intermediário nesta batalha (exactamente como com a AIG), cabe a todas as entidades reguladoras e para toda e qualquer sensibilidade no Federal Reserve supervisionarem precisamente o que são para o Goldman Sachs as margens de garantia e quais são os diversos vendedores das coberturas sobre a dívida soberana especialmente quando se referem a CDS em dificuldades crescentes, quando há dificuldades de liquidez e que, mais uma vez como aconteceu com a AIG, teria consequências adversas tremendas sobre a actividade económica. Se as contrapartidas de Goldman forem os bancos dos países respectivos, é então certo que o paralelo com AIG está praticamente completo. E nós todos sabemos o que aconteceu então.

Além disso, estamos agora convencidos que Goldman Sachs apoiará o Governo em dinamizar um mercado profundamente doente mas com uma outra finalidade: enquanto o Tesouro obterá vantagems na venda de títulos do Tesouro tanto quanto puder como uma questão de segurança Goldman Sachs procurará vender a sua carteira de títulos a fim de sozinho dominar face a um mundo crescentemente hostil.

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira em 14/02/2011 às 01:39
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Uma crise planetária da educação - Martha Nussbaum

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

Hoje Falamos de...Educação, Humanidades e Artes

Martha Nussbaum

Um dos grandes nomes da filosofia norte-americana contemporânea. Professora de Direito e Ética na Universidade de Chicago, é conhecida pelos seus trabalhos sobre questões do desenvolvimento.
Martha Nussbaum e Amartya Sen [economista, Prémio Nobel em 1998], na década de 80, criaram o conceito de The Capability Approach que permite medir o desenvolvimento de um país, não em termos de PIB mas em função da liberdade dos indivíduos, culminando no trabalho The Quality of Life (1993).

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(Mirando el Cielo - Pastor Outeiral, Ourense)

 

 

 

Martha Nussbaum  Uma crise planetária da educação


Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais pre­judicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Estão a produzir-se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe afe­rimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educati­vos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Considera­das pelos políticos acessórios inúteis, nu­ma época em que os países têm de desfazer – se do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande ve­locidade dos programas lectivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças Aquilo a que poderíamos chamar os aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, preferindo os países o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objectivo.

Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam — aquilo a que [o escritor c pensador indiano] Rabindranath Tagore chamava o nosso «invólucro» material. Mas parecemos esquecer as faculdades de pensamento e imaginação que fazem de nós humanos e das nossas interacções relações empáticas e não simplesmente utilitárias Quando estabelecemos contactos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nós, imagi­nando-lhe faculdades internas de pensa­mento e emoção, então a democracia é vo­tada ao malogro, porque assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objectos.

Hoje mais que nunca, dependemos todos de pessoas que nunca vimos. Os pro­blemas que temos de resolver – sejam de ordem económica, ecológica, religiosa ou política – têm envergadura planetária. Nenhum de nós escapa a esta interdependência mundial. As escolas e as universidades do mundo inteiro têm, por conseguinte, uma tarefa imensa e urgente: culti­var nos estudantes a capacidade de se considerarem membros de uma nação heterogénea (todas as nações modernas o são) e de um mundo ainda mais heterogéneo, bem como uma noção da história dos dife­rentes grupos que o povoam.

Capacidade de referenciar culturas

Se o saber não é a uma garantia de boa conduta, a ignorância é quase infalivelmente uma garantia de maus procedimentos. A cidadania mundial implica realmente o conhecimento das humanidades? 0 indivíduo necessita certamente de muitos co­nhecimentos factuais que os estudantes podem adquirir sem formação humanista – memorizando, nomeadamente, os factos em manuais padronizados (supondo que não contêm erros). Contudo, para ser um cidadão responsável necessita de algo mais: de ser capaz de avaliar os dados históricos, de manipular os princípios económicos e exercer o seu espírito crítico, de comparar diferentes concepções de justiça social, de falar pelo menos uma língua estrangeira, de avaliar os mistérios das grandes religiões do mundo. Dispor de uma série de factos sem ser capaz de os avaliar, pouco mais é que ignorância. Ser capaz de se referenciar em relação a um vasto leque de culturas, de grupos e de nações e à história das suas interacções, isso é que permite às democracias abordar de forma responsável os problemas com os quais se vêem actualmente confrontadas. A capacidade – que quase todos os seres humanos têm, em maior ou menor grau – de imaginar as vivências e as necessidades dos outros deve ser amplamente desenvolvida e estimulada, se queremos ter alguma esperança de conservar instituições satisfatórias, ultrapassando as múltiplas clivagens que existem em todas as sociedades modernas.

«Uma vida que não se questiona não vale a pena ser vivida», afirmava Sócrates. Céptico em relação à argumentação sofista e aos discursos inflamados, pagou com a vida a sua fixação neste ideal de questionamento crítico.

Hoje, o seu exemplo é o fulcro da teo­ria e prática do ensino da cultura geral da tradição ocidental, e ideias similares estão na base do mesmo ensino na Índia e noutras culturas. Se insistirmos em dispensar a todos os estudantes do primeiro ciclo uma série de ensinamentos da área das Humanidades, é porque pensamos que es­sas matérias os estimularão a pensar e a argumentar por eles mesmos, em vez de se resumirem simplesmente à tradição e à autoridade; e porque consideramos que, como proclamava Sócrates, a capacidade de raciocinar é importante em qualquer sociedade democrática. É-o particularmente nas sociedades multiétnicas e multiconfessionais. A ideia de que cada um possa pensar por si próprio e relacio­nar-se com os outros num espírito de respeito mútuo é essencial à resolução pacífica das diferenças, tanto no seio de uma nação como num mundo cada vez mais dividido por conflitos étnicos e religiosos.

O ideal socrático está hoje submetido a uma rude prova, porque queremos promover a qualquer custo o crescimento económico. A capacidade de pensar e ar­gumentar por si não parece indispensável para os que visam resultados quantificáveis.

(…)

Para compreenderem efectivamente o mundo complexo que os cerca, os cidadãos não têm suficientes conhecimentos factuais nem de lógica. Necessitam de um terceiro elemento, estreitamente ligado a esses dois, a que poderia chamar-se imaginação narrativa. Noutros termos, a capacidade de se pôr no lugar do outro, de ser um leitor inteligente da história dessa pessoa, de compreender as emoções, os dese­jos e os sentimentos que ela pode sentir. Essa cultura da empatia está no centro das melhores concepções modernas de educação democrática, tanto nos países ociden­tais como nos demais. Isso deve fazer-se em grande parte no seio familiar, nas escolas, e mesmo as universidades desempenham também um papel importan­te. Para preenchê-lo correctamente, de­vem atribuir um espaço nos seus programas para as Humanidades e as Artes, visto que melhoram a capacidade de ver o mundo através dos olhos do outro – capa­cidade que as crianças desenvolvem por meio de jogos de imaginação.

(…)

Devemos cultivar os «olhares interio­res» dos estudantes. As artes têm um du­plo papel na escola e na universidade: enriquecer a capacidade de jogo e de empatia, de uma maneira geral, e agir sobre os pontos cegos, em especial.

Esta cultura da imaginação está estrei­tamente ligada à capacidade socrática de criticar as tradições mortas ou inadaptadas, e fornece-lhe um apoio essencial. Não se pode tratar a posição intelectual do outro com respeito sem ter pelo menos tentado compreender a concepção de vida e as experiências que lhe estão subjacentes. Mas as artes contribuem também para outra coisa. Gerando o prazer associado a actos de compreensão, subversão e reflexão, as Artes produzem um diálogo suportável e até atraente com os preconceitos do passado, e não um diálogo caracte­rizado pelo medo e pela desconfiança. Era o que Ellison queria dizer quando qualifi­cava o seu Homem invisível como «janga­da de sensibilidade, de esperança e de di­vertimento».

(…)

As Artes, diz-se, custam demasiado di­nheiro. Não temos meios, em período de dificuldades económicas. E, no entanto, as Artes não são necessariamente tão caras como se diz. A literatura, a música e a dança, o desenho e o teatro são poderosos vectores de prazer e de expressão para todos, e não requerem muito dinheiro para os fa­vorecer. Diria mesmo que um tipo de educação que solicita a reflexão e a imaginação dos estudantes e dos professores reduz efectivamente os custos, reduzindo a delinquência e a perda de tempo induzidas pela ausência de investimento pessoal.

Como se apresenta a educação para a ci­dadania democrática no mundo actual? Bas­tante mal, temo eu. Ainda se porta relativamente bem no lugar onde a estudei, nomea­damente nas disciplinas de cultura geral dos currículos universitários norte-ameri­canos. Esta faixa curricular, em estabeleci­mentos coma o meu [a Universidade de Chicago], beneficia ainda de um apoio ge­neroso de filantropos. Pode-se mesmo dizer que é uma faixa curricular que trabalha melhor hoje para a cidadania democrática do que há 50 anos, época em que os estu­dantes não aprendiam muito sobre o mun­do fora da Europa e da América do Norte, ou sobre as minorias do seu próprio país. Os novos domínios de estudo integrados no tronco comum aumentaram a sua compreensão de países não ocidentais, de eco­nomia mundial, de relações intracomunitárias, de dinâmica de género, de história das migrações e de combates de novos gru­pos para o reconhecimento e a igualdade. Após um primeiro ciclo universitário, os jovens de hoje são, no seu conjunto, menos ignorantes do mundo não ocidental que os estudantes da minha geração. O ensino da literatura e das artes conheceu uma evolução similar: os estudantes são confronta­dos com um leque de textos claramente mais vasto.

Não podemos, contudo, afrouxar a vigilância A crise económica levou numero­sas universidades a cortar nas Humanida­des e nas Artes. Não são, certamente as únicas disciplinas abrangidas pelos cortes. Mas sendo as Humanidades consideradas supérfluas por muitos, não se vê inconve­nientes em amputá-las ou em suprimir to­talmente certos departamentos. Na Euro­pa, a situação é ainda mais grave. A pressão do crescimento económico levou mui­tos dirigentes políticos a reorientarem todo o sistema universitário – o ensino e a investigação, em simultâneo — numa óptica de crescimento.

(…)

Numa época em que as pessoas começaram a reclamar democracia, a educação foi repensada no mundo inteiro, para produzir o tipo de estudante que corresponde a essa forma de governação exigente: não se pretendia um gentleman culto, impregnado da sabedoria dos tempos, mas um membro activo, critico, ponderado e empático numa comunidade de iguais, ca­paz de trocar ideias, respeitando e compreendendo as pessoas procedentes dos mais diversos azimutes. Hoje continuamos a afirmar que queremos a democracia e também a liberdade de expressão, o respeito pela diferença e a compreensão dos outros. Pronunciamo-nos a favor destes valores, mas não nos detemos a reflectir no que temos de fazer para os transmitir à geração seguinte e assegurar a sua sobrevivência.

Excertos do texto publicado no Courrier Internacional, n.º 175,
Setembro de 2010 (ed. portuguesa), com Trad. de Ana Cardoso Pires
[o texto publicado no Courrier Internacional, é uma versão condensada do primeiro capítulo do livro Not for Profit: Why Democracy Needs Humanities]

 

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira em 14/02/2011 às 23:42
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

ANDAM FANTASMAS NA BRUMA PORTUGUESA - por José Magalhães

É um Portugal nebuloso o que temos hoje em dia, cheio de secretas esperanças e de cada vez menos valores. Com a revolução, já lá vão uma quantidade de anos, chegou a democracia nas palavras que depressa desapareceu nos actos (se alguma vez chegou a existir neles), chegou alguma modernidade e um moderado desenvolvimento, subiu temporariamente o nível de vida de uns quantos, com todos a passaram a considerar-se aristocratas e, fruto de inúmeros erros, os critérios das escolhas das chefias baseados na competência foram desaparecendo como que por encanto, substituídos pelo laxismo, facilitismo, pelo grupo político predominante e pelo favorecimento económico.

 

Desde o tempo do poeta Pessoa que os fantasmas povoam o nosso imaginário, se bem que mesmo antes do primeiro quarto do século passado, seja certo que também eles por cá tenham andado.

Nessa altura quase só se falava do saudoso Rei, Sebastião fedelho imberbe e esperança de um povo, falecido ou não às mãos calejadas dos mouros infiéis, ou do outro, Rei assassinado às mãos dos da nova situação.

Se nessas alturas vivíamos sebastianicamente no desejo intenso do seu regresso, numa nevoenta manhã e expoente máximo que viria a ser na vida Portuguesa, hoje em dia em nada é diferente, excepto nos objectos da esperança.

Hoje suspira-se pelo regresso de  Salazar ou de Sá Carneiro, pelos ideais do 25 de Abril ou pela democracia, pelas ajudas europeias ou pela moeda chinesa, pelas novas oportunidades ou pelo rendimento mínimo, por não pagar impostos ou por comprar bom e barato mesmo que roubado, pelo petróleo que não temos ou pelas energias alternativas, pelo FMI ou por novo e competente governo, mas sempre na secreta esperança de poder viver em grande e trabalhar moderadamente.

Nos dias de hoje sentimo-nos roubados, injustiçados e mal geridos, mas vivemos a expensas do Estado e da sua caridade, dizemos como sempre se disse, mal de tudo e de todos, temos fome de democracia e sede de justiça (desde que se não aplique a nós) e, mais uma vez estamos sem estaleca para nos rebelarmos, deixando tudo para que os outros façam por nós o que deve ser feito, mesmo sabendo que nunca o farão.

 

Para só falar de uma das bases da vida de um povo, a par da saúde e do trabalho, a reforma das reformas das reformas do ensino que se têm vindo a efectuar nos últimos trinta anos, feitas em especial para os primeiros ciclos de aprendizagem (primário e secundário), colocaram o nível da educação em Portugal numa plataforma muito baixa. A falta de autoridade dos professores e a falta de qualidade de muitos deles (como em todas as profissões), em conjunto com o aumento exagerado do protagonismo dos encarregados de educação, que entretanto se esqueceram que o trabalho de educar começa em casa, e com a arrogância e rebeldia não controladas dos alunos, e ainda com a política instalada do ‘politicamente correcto’ e com a caça aos votos, também ajudam a este estado de coisas.

A nossa falta de capacidade para nos bastarmos a nós próprios, vivendo anos a fio acima das nossas possibilidades, conjuntamente com o cada vez maior grupo de cidadãos egoístas e convencidos da sua superioridade (que copiam de alguma forma o que de mau existe por essa Europa fora e têm poiso perene nas cadeiras do poder), uma elite oca fútil e caduca que não aceita os de classe economicamente mais desfavorecida como seus pares ou até, tão pouco como seres humanos, revelando-se no fim pouco menos que miseráveis e donos de uma mentalidade senhorial e colonial, começam a ser olhados de maneira pouco simpática pelos detentores dos votos a dar, e fazem já parte do anedotário universal.

É uma realidade nebulosa a que se vive em Portugal, com o comum dos cidadãos continuadamente à espera daquele salvador que há-de vir numa manhã de nevoeiro, mas que enquanto tal desiderato não acontece vai vivendo sonolentamente na dependência de subsídios de toda e qualquer espécie fornecidos pelo Estado convencido do direito que lhe assiste em viver assim.

Triste Portugal, por onde e para onde estas gentes mandantes te estão a levar, cantando e rindo.

publicado por Carlos Loures às 19:00

editado por Luis Moreira às 17:43
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

A revolta no mundo árabe e a situação internacional - por João Machado

Será motivo para espanto a agitação existente?

Nos últimos dias têm avultado na comunicação social notícias sobre a agitação em países árabes contra os governos constituídos. Primeiro foi a Tunísia, a seguir o Egipto, também têm ocorrido problemas (e alterações) no Iémen e na Jordânia. Possivelmente vão alastrar a outros países. Há notícias de espanto e surpresa, sentidos não só na própria comunicação social, mas também nos países da Europa, nos EUA, na China, perante estes acontecimentos. Mesmo Israel, com todo o seu poderio e sofisticados meios de intervenção, que procura manter os países vizinhos (e não só) sob permanente vigilância, sempre à procura de eventuais ameaças, parece ter sido apanhado desprevenido.

Permitam-me que manifeste, por minha vez, o meu espanto por estes espanto e surpresa tão generalizados. Acho realmente espantoso (perdoem a insistência) que não tenha sido prevista toda esta agitação. E penso que se vai estender a outros países. Porquê? Há realmente vários factores que contribuem para essa agitação, e que ao fim e ao cabo são do conhecimento geral. Vou tentar explicar.

Estamos numa época em que, apesar das grandes restrições impostas, o isolamento das pessoas diminuiu drasticamente, pelo menos no que respeita à informação. Esta muitas vezes é inexacta, e quase sempre manipulada para se adequar aos interesses dos proprietários dos vários órgãos que a transmitem, sejam organismos públicos ou os grandes grupos económicos. Contudo, não se pode negar que é abundante, e que chega a todas as partes do mundo, mesmo a zonas onde a população vive com grandes carências em muitos aspectos da sua vida diária. Se por vezes contraditória, dela ressaltam inequivocamente alguns factos, como a existência de diferentes modos de viver entre os vários países, zonas geográficas e classes sociais. Muito relacionado com este, é a exaltação de casos de sucesso individuais, nos diferentes campos de actividade, sem obviamente se referirem aos aspectos sombrios das vidas das pessoas em questão. Em todas as épocas houve desejo de mudança, nomeadamente dos mais jovens. Hoje em dia esse desejo é muito generalizado.

Outra razão é a situação social e política dominante em muitos países. Nos chamados países árabes a percentagem de jovens na população total é elevada, e estes não vêem possibilidades de ver satisfeitas as suas ambições, mesmo as mais básicas, mesmo quando conseguem qualificações de bom nível. As classes médias estão a ser afectadas terrivelmente pela crise financeira. O problema do desemprego é premente e o desejo de emigrar enorme, como comprovam os dramas da emigração, clandestina ou não. As mulheres continuam a ser oprimidas, mas o grau das suas aspirações é cada vez maior. A existência de muitos emigrantes no estrangeiro favorece a entrada de ideias novas. Mas por seu lado, as camadas governantes são cada vez mais elitistas e fechadas, e os governos escolhidos por processos pouco democráticos (ou nada democráticos), com grande influência de potências exteriores, nomeadamente dos EUA e aliados, com relevo para Israel.

A questão religiosa identifica-se cada vez mais com os problemas globais, a nível nacional ou regional. Deste modo, crescem o fanatismo e o desejo de alcançar rapidamente mudanças drásticas no estado de coisas vigente. Mas ao mesmo tempo parece aumentar também o número de movimentos laicos desejosos de uma mudança. A história recente desta parte do mundo explica claramente porque é que estes movimentos, embora de natureza variada, aspiram a mais democracia, a melhorias na situação do povo, e a uma presença mais forte na cena internacional.

Repito: é espantoso que não se tenha previsto esta agitação. Essa falta de previsão tem contudo uma explicação óbvia: o enorme desdém do Ocidente (este nome ainda tem razão de ser?) e de todos os países desenvolvidos (incluindo a China e a Índia) pela vontade e pela situação em que vivem a maioria das populações árabes (e não só). Esse desdém está claramente na origem do esquecimento do facto elementar de que todos nós temos aspirações, e as populações árabes também. Até pelo seu passado histórico, estas desejam desempenhar outro papel no mundo. E, claro, ter uma vida com outra qualidade.

As perspectivas para o futuro estão cada vez mais complicadas. Os EUA, Israel, a União Europeia já mandaram recados sobre as fórmulas políticas que desejam ver implantadas nos países onde reina a agitação. Não notei se a China também o fez, mas é provável que sim. A conclusão que se impõe é a de que é tempo de os governantes do Egipto, da Tunísia, dos outros países, passarem a ser escolhidos pelos cidadãos dos respectivos países, sem restrições impostas pelas grandes potências, pelos negócios de petróleo ou pelo fanatismo religioso (islâmico, ou outro). Só se vai poder caminhar para um equilíbrio maior e melhor, ao nível regional e mundial. E ver as populações árabes (e não só) melhorarem o seu nível de vida, e ter mais participação na condução dos seus países.

 

 

publicado por Carlos Loures às 11:00

editado por Luis Moreira às 12:05
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

As obras em curso em alguns países...

publicado por Carlos Loures às 11:30

editado por Luis Moreira às 11:42
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Futebol, cultura e democracia

 


 

 

 

 

 

Carlos Loures

Estas três palavras andam por vezes tão separadas que mais parecem pertencer a três diferentes idiomas. Quando ouvimos as claques insultar os adversários em linguagem rasteira ou quando tomamos conhecimento de actos de corrupção ou de deturpação da verdade desportiva, é difícil associar ao futebol os conceitos de cultura e de democracia. No entanto, ao longo da minha vida profissional, grande parte dela passada no mundo da edição, por diversas vezes me cruzei com o futebol. Vou referir dois desses fortuitos encontros. 


Anos atrás, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos indigitados crónicos para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi trabalho fácil, pois tendo estudado o castelhano europeu, deparei com um texto cheio de argot porteño que só vim a decifrar com a ajuda de Sábato. - tendo-lhe confiado os problemas, mandou-me um glossário com termos que os dicionários de que dispunha  não registavam. 

Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol, descrevendo jogadas de confrontos históricos entre o Boca e o River Plate, evocando grandes jogadores... Vim depois a saber que Sábato, hoje quase centenário, pois nasceu em Junho de 1911, é um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Hei-de voltar a falar de Ernesto Sábato e oxalá que seja a propósito da atribuição do Nobel – poucos escritores houve e há que tanto justifiquem esse galardão. 


Num almoço que, há muitos anos tive com o grande musicólogo João de Freitas Branco e com o maestro Ivo Cruz no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos, Freitas Branco contou-me um episódio muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo. 


Logo após a chegada e a recepção protocolar, Oistrakh chamou Freitas Branco de parte e pediu-lhe para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora surpreendido pelo inusitado pedido, o maestro contactou o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista não agradeceu pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo, em que Eusébio marcou um golo magnífico, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador.

Sobre o concerto em São Carlos, o grande escritor José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume de Poeta Militante (Não, não deixes secar/este fio de água de violino/que nas manhãs de ouro/completa as nossas sombras com flores -/ enquanto os pássaros de sementes nos olhos/procuram na espiral dos voos/outro cárcere de recomeço.). A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira, leva-nos até a Fernando Namora e a Manuel Alegre. O primeiro, no seu poema «Marketing», alude aos 5-3 do Eusébio à Coreia. Manuel Alegre, sobre o «Pantera Negra» diz:

Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Futebol, democracia e cultura – palavras de idiomas diferentes e de distintos mundos conceptuais? Não necessariamente. Figuras míticas como Pinga, Pepe, Peyroteo, Eusébio fazem parte da face luminosa do futebol. Bem sei que há a face oculta, aquela a que a resplandecente luz solar da verdade nunca chega – claques, subornos, tráficos diversos… Hoje quis falar da sua face positiva, luminosamente inspiradora.

Aquela em que o futebol nos reconcilia com a beleza da vida, dela fazendo parte. O futebol não tem de estar sempre nos antípodas da cultura e da democracia. 

Nota: Publiquei este texto no "Todos Somos Portugal", um blogue do nosso colaborador Carlos Godinho. É um blogue ligado às coisas do futebol em particular, nomeadamente da actividade das selecções, e do desporto em geral. Por serem estes dias dominados pelo futebol, pareceu-me oportuno publicá.lo aqui .

publicado por João Machado às 16:20
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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Comunicação social e democracia – VI - a separação de poderes, base essencial da democracia e do progresso, está a ser posta em causa.

 

João Machado

 

 

 

Há alguns anos atrás, em Inglaterra, um repórter do News of the World foi condenado a uma pena de prisão por, de modo ilegal, ter conseguido aceder a mensagens guardadas no voicemail de um telemóvel. Também foi condenado o detective privado contratado para a execução desta tarefa suja. O Observer do domingo passado, dia 9 de Janeiro, recorda estes factos, mas informa que parece que não se tratou de um caso isolado, ao contrário do que se procurou fazer crer na altura. Existem outras queixas sobre violação de privacidade, eventualmente cometidas por parte do News of the World. Mais: terão ocorrido pressões e mesmos subornos no sentido de as autoridades policiais travarem as investigações relativas a estas queixas, de modo a que não chegassem a tribunal. Outro editor do jornal terá sido suspenso após alegações de cumplicidade em acções de espionagem telefónica, que inclusive terão atingido a família real.

 

Andy Coulson, que na altura em que ocorreu o caso acima referido era editor do News of the World, foi entretanto demitido alegadamente por razões puramente contabilísticas. Actualmente é director de comunicação em Downing Street, depois de ter trabalhado na campanha eleitoral de David Cameron, primeiro-ministro britânico. Este defende energicamente o seu colaborador. Sem dúvida que há que não cair em paranóias persecutórias (uma leitura atenta do Observer deixa claro que a sua posição é de que devem ser evitadas, veja-se o que escreve Henry Porter), mas a cautela requer também que se separem claramente as águas. Nomeadamente quanto à questão do alargamento do império de comunicação social de Rupert Murdoch, proprietário do News of  the World (através da News International e da News Corp), que agora se prepara para adquirir a totalidade do capital da BSkyB, de transmissão por satélite (já detém 39 %). O Observer faz notar que os procedimentos necessários para travar as investigações relativas às queixas contra o jornal só foram possíveis com o envolvimento da poderosa organização que o controla a um nível superior, e requer que  este assunto seja esclarecido antes de ser permitida a tomada da BSkyB pelo império Murdoch. E refere também que o assunto tem de ser levado à Comissão da Competitividade.

 

Recorde-se a este respeito o que se passa noutras paragens: a situação que hoje em dia se vive em Itália resulta em grande parte da promiscuidade existente entre a comunicação social e o poder político. Recorde-se também o que ainda recentemente se passou com Le Monde, com as pressões feitas ao mais alto nível para influenciar a escolha dos novos accionistas. E que métodos ainda mais primitivos estão a ser usados noutros lados. O nosso amigo Júlio Marques Mota publicou no nosso blogue, no passado dia 8 de Janeiro, um post sobre a perigosa situação que se vive na Hungria, onde estão a ser impostas graves restrições à comunicação social, para a impedir de transmitir notícias consideradas hostis pelas forças políticas agora no poder. Entre nós são vários os casos em que se fala de pressões do poder político, e não só, sobre os jornais, rádio e televisão. A propósito do chamado caso Wikileaks, especula-se sobre as penalidades que vão ser infligidas aos mentores da divulgação de documentos, a maioria (para não dizer a totalidade) dos quais devia ter sido divulgada logo na altura em que foram produzidos. Não se ouvem referências a represálias, nem mesmo a simples censuras, aos responsáveis pelos abusos trazidos ao conhecimento do público.

 

Creio não ser exagerado dizer que temo estarmos perante um perigoso retrocesso neste capítulo. É verdade que a análise que o Observer nos apresenta sobre esta situação faz-nos concluir que na Grã-Bretanha ainda se conseguem debater certos assuntos. Simplesmente, há que perguntar: até quando? Será que a maioria das pessoas se apercebem da gravidade desta situação? Ou só uma minoria sente que se está perante uma maneira mais sofisticada de se obter aquilo que antes se impunha através da censura e de um controle feroz?

 

Há que fazer notar que a análise crítica do Observer se estende a todos os participantes nos factos narrados, não poupando colegas de profissão, sem entraves motivados por problemas corporativos. Não creio que, por detrás dessa análise, haja qualquer ideia de prejudicar um competidor, na medida em que se tratam de universos muito diferentes. De qualquer modo, nunca é demais relembrar a necessidade de separar a comunicação social dos estados totalitários, dos grandes grupos económicos que sobrepõem a tudo, incluindo o poder político, das igrejas que desconhecem a separação entre o temporal e o espiritual, etc.. A comunicação social é um poder que tem de servir a todos, e não a interesses particulares.

publicado por João Machado às 16:00

editado por Luis Moreira às 18:04
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010

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Pensamento único: a ameaça do novo dogmatismo


Ignácio Ramonet

Aprisionados. Nas democracias actuais, cada vez mais cidadãos livres se sentem aprisionados, presos por um tipo de doutrina envolvente que, insensivelmente paralisa todos os espíritos rebeldes, inibindo-os, perturbando-os, paralisando-os e acabando por suprimi-los.

Depois da queda do muro de Berlim, a derrocada dos regimes comunistas e a desmoralização do socialismo, a arrogância, a soberba e a insolência deste novo Evangelho atingiu um tal nível que pode-se, sem exagero, qualificar este furor ideológico de moderno dogmatismo.

O que é o pensamento único? Tradução em termos ideológicos com pretensão universal das vantagens de um conjunto de forças económicas, estas, em particular, do capital internacional. Ela foi formulada e definida desde 1944, por ocasião dos acordos de Bretton-Woods. Os seus arautos principais são as grandes instituições económicas e monetárias - Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização de Cooperação do Desenvolvimento Económico, Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio, Comissão Europeia, Banco da França, etc. - que, através dos seus financiamentos, recrutam ao serviço das suas ideias, através de todo o mundo, inúmeros centros de pesquisas, universidades, fundações que, por sua vez, elaboram e divulgam os ensinamentos.

Este discurso anónimo é retomado e reproduzido pelos principais órgãos de informação económica, e nomeadamente pelas "bíblias" dos investidores e dos representantes das bolsas de valores - The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, Far Eastern Economic Review, os Echos, Agência Reuter, etc. -, pertencentes, quase sempre, aos grandes grupos industriais e financeiros. Em todos os lugares, faculdades de ciências económicas, jornalistas, ensaístas, homens políticos, e outros, retomam os novos ensinamentos destas novas tábuas da lei e, por intermédio dos veículos de comunicação de massa, os repetem até a náusea. Sabendo de forma pertinente que, nas nossas sociedades de mídia, a repetição vale pela demonstração.

O primeiro princípio do pensamento único é tão forte que um marxista distraído não o recusaria: o económico prevalece sobre o político. Fundando-se em tal princípio, por exemplo, um instrumento tão importante quanto o Banco da França tornou-se, sem oposição, independente em 1994 e, de alguma maneira, "colocado ao abrigo dos credos políticos". "O Banco da França é independente, apolítico e imparcial" afirma o seu expoente máximo, M. Jean-Claude Trichet, que entretanto acrescenta: "nós pregamos a redução dos déficits públicos" e "nós perseguimos uma estratégia de moeda estável". Como se estes dois objectivos não fossem essencialmente políticos! É em nome do "realismo" e do "pragmatismo" - que M. Alain Minc se expressa da maneira seguinte: "O capitalismo não pode afundar, pois ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado sim". A economia é alçada à posição de comando. Uma economia desligada dos obstáculos do social, cujo peso por decorrência seria a causa da recessão e da crise.

Os outros conceitos-chaves do pensamento único são conhecidos: o mercado, ídolo onde "a mão invisível corrige as asperezas e as deseconomias do capitalismo" e particularmente os mercados financeiros, onde "os sinais orientam e determinam, o movimento geral da economia"; a concorrência e a competitividade, que "estimulam e dinamizam as empresas levando-as a uma permanente e benéfica modernização"; o livre-comércio sem barreiras, "factor de desenvolvimento ininterrupto do comércio e das sociedades", também a mundialização da produção manufactureira e os fluxos financeiros; a divisão internacional do trabalho que "modera as reivindicações sindicais e baixam os custos salariais"; a moeda forte, "factor de estabilidade"; a desregulamentação; a privatização; a liberalização, etc. Sempre "menos Estado", uma arbitragem constante a favor dos lucros do capital em detrimento dos custos do trabalho. E uma indiferença no tocante ao custo ecológico.

A repetição constante, em todas as mídias, deste catecismo por quase todos os homens políticos, tanto de direita quanto de esquerda, confere-lhe uma tal força de intimidação que abafa qualquer tentativa de reflexão livre, e dificulta a resistência contra esse novo obscurantismo.

Poder-se-ia quase considerar que os 17,4 milhões de desempregados europeus, o desastre urbano, a precarização geral, a corrupção, as periferias violentas, o desastre ecológico, o retorno dos racismos, os integralismos e os extremismos religiosos, a massa de excluídos são apenas miragens, resultado de delírios, fortemente discordantes do melhor dos mundos que se edifica para nossas consciências anestesiadas, o pensamento único.

(Traduzido por Jaerson Lucas Bezerra - Publicado no original em francês no Le Monde Diplomatique, Janeiro de 1995)

publicado por Carlos Loures às 16:00
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

VerbArte - A Comunicação Social e a Democracia




Jean Jaurès (1859-1914), líder socialista francês.


João Machado


Escrevi este post no início do Estrolábio. Embora tenham decorrido apenas pouco mais de seis meses, o problema da liberdade de expressão está desde então ainda mais agravado. Veja-se o que se está a passar com o Wikileaks. Não conheço os mentores desse projecto, não sei quem são. Mas sei que o que têm feito é da maior importância para a liberdade e a democracia. Ajudará com certeza a compreender e a interpretar muitos dos acontecimentos recentes, que tanto nos têm afectado. E porá à vista de todas algumas das mãos invisíveis que estiveram por detrás desses acontecimentos. Acima acrescentamos um fotografia de Jean Jaurès, líder socialista, defensor de Dreyfus e pacifista, que foi assassinado por um nacionalista fanático.

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.
publicado por Carlos Loures às 16:00
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

Teatro do absurdo - algumas reflexões - 2

Paulo Rato 
                                                                                                                                          
III – A Democracia não é redutível à existência de organizações partidárias, de uma instância de poder legislativo e fiscalizador legitimado pelo voto popular e de instituições representativas de diversos estratos da população, incluindo os sindicatos.
Daí a afirmar, tão peremptoriamente como o Carlos Loures, que "O sistema parlamentar é anacrónico e disfuncional, tal como o são os sindicatos e os partidos" vai uma enorme distância, intransponível sem aniquilar a própria Democracia.

Mesmo os momentos de ruptura histórica têm raízes no passado, inconfundíveis com epifanias. E os avanços científicos e tecnológicos, à excepção de algumas raríssimas e geniais "intuições" (cada vez menos prováveis, mas que, ainda assim, não brotaram de um vazio absoluto, antes da meditação sobre questões concretas) inscrevem-se num movimento contínuo, de tal modo que a constância do progresso científico é uma das poucas certezas que podemos ter, dentro dos limites do pensamento humano. Isto é, o estado da ciência, no tempo do desenvolvimento da informática, não existiria sem o prévio estado científico que permitiu a invenção e desenvolvimento da máquina a vapor (cujos "descendentes" ainda hoje têm aplicação). Foi a Alquimia, que muitos acreditarão ser uma espécie de feitiçaria – com que, de facto, por séculos se misturou -, que permitiu chegar à Química...
Democracia sem sindicatos e partidos, Carlos?! Como?
 
O sistema parlamentar será anacrónico no dia em que se invente outro sistema que prove garantir melhor a subsistência da Democracia. Nunca antes.
Há é que aperfeiçoá-lo, não o limitar exclusivamente a regras de representatividade que, em Portugal, afastam claramente os eleitos dos eleitores, sujeitando-os às direcções partidárias; sendo certo que, noutros países, já foram encontradas algumas soluções melhores?
Sem dúvida.
Há que complementá-lo, com formas mais eficazes de intervenção política - individual ou organizada - dos cidadãos, tornando a democracia cada vez mais "participativa" (Luís)? Com certeza.
Quanto aos trabalhadores, terão sempre necessidade de se organizarem, para enfrentarem uma exploração que só tem aumentado nos últimos anos! Há quem vá dizendo (mas, atenção, que essa é uma argumentação de direita) que os sindicatos não se terão "adaptado" às "novas condições", continuando a reivindicar direitos e regalias "impossíveis", porque "os tempos são outros", etc. Se há inadaptações e anacronismos, não são estes. Então, o que já foi possível deixou de o ser porquê? Quem planeou, organizou e impôs os "tempos outros" e "condições outras"? O desenvolvimento tecnológico não deveria permitir melhores condições de trabalho, melhores remunerações, mais tempos livres, mais prosperidade, melhor distribuição de riqueza? Então, porque tal não aconteceu? Foram os trabalhadores e seus sindicatos que não se "adaptaram"?
O problema não está nos "instrumentos": está na sua adequação às tarefas para que foram criados e, sobretudo, em quem os usa e como.
"Ritornello": os sindicatos (como outras organizações dos trabalhadores) só serão anacrónicos no dia em que se invente outro sistema...
Neste caso, como o "defeito" não está no nome, duvido que essa invenção alguma vez surja...
De facto, como o próprio Carlos acaba por dizer, citando Rousseau, "falta reinventar o Homem"! Ou, como o Luís afirma, logo a seguir, reconhecendo a dificuldade da tarefa, "melhorar o homem".
Com letra maiúscula ou minúscula - tanto faria, se a história das línguas, em sociedades patriarcais, não impusesse a primeira versão como menos incorrecta -, também eu fui sendo obrigado a recuar para esse difícil e incómodo reduto: o maior problema está no ser humano, na predominância do seu instinto predador, que impede que cada indivíduo se guie, voluntariamente e sem constrangimentos alheios, por princípios éticos, procurando que os seus próprios interesses não esmaguem os interesses de outrem e se harmonizem com um mínimo denominador de interesses comuns, nunca decididos arbitrariamente, mas encontrados através de mecanismos que não ponham em causa a área em que a liberdade de cada um é imperativa. Uma equação difícil de resolver!
Quando o Luís alerta para o respeito pela liberdade e pelo "estado de direito", eu, globalmente de acordo, pergunto: que liberdade, para os mais desprotegidos, para um desempregado, um trabalhador precário, ou mesmo um efectivo, sujeito a sobrecargas de trabalho, às pressões constantes das hierarquias (que constam das novas cartilhas de "gestão"), para que não pense, se concentre "só no trabalho" e (acima de tudo!) não se organize, não confraternize, se torne no novo modelo ideal de escravo (mesmo pago)?
Estado de direito? E que direito? Quem idealizou, preparou, organizou, votou as leis que o enformam? Quem aplica essas leis? Como?
Tudo isto, sendo uma trincheira de onde se não deve recuar (não cuidar de defender a liberdade foi um dos erros fatais dos que, mesmo convictamente, tentaram construir sociedades socialistas), sofre das fragilidades intrínsecas a todas construções humanas.

IV – Josep Vidal fala-nos da degradação das palavras, num castelhano sedutor, que nos leva como uma corrente fluvial, ora branda, ora mais vigorosa. Lê-lo é um prazer de "gourmet".
Escrevi sobre essa degradação, há mais de vinte anos (e, decerto, com menos beleza), numa simples carta "colectiva" de despedida a alguém que era como a personificação de "uma" palavra, alguém que, pelas suas qualidades, restituía a essa palavra o seu mais autêntico significado.

Diria que só discordo do primeiro período, como uso discordar de quase todas as generalizações: nem todos os que se abrigam sob a capa do poder são corruptos; e não será casual que os que o não são, como o José Maria Carrilho, que por duas vezes, com sérias razões, se desabrigou dessa capa, se tornem vítimas de uns pseudo-vigilantes dos bons costumes, empoleirados em mediáticos veículos...
Mas tenho para mim que não podemos deixar roubar as palavras sem luta. Elas e os conceitos que transmitem, tudo foi criado pelos homens e pelos homens bem ou mal usado. Mas com palavras e conceitos se há-de lutar, quando de palavras e conceitos se trata.
Espero do Josep um artigo autónomo, em que um maior aprofundamento do tema não engorde o meu congénito pessimismo...

V – Concordo em absoluto com o Carlos, num dos seus comentários (desculpa Adão): os ideais dos comunistas foram traídos; e por muita gente, acrescento. Doem-me os muitos que, incapazes de ultrapassarem a ignorância em que foram criados, se deixaram arrastar pela chusma dos videirinhos.
Mas discordo da sua "recusa das experiências históricas" para "a próxima avançada do ideal", a menos que esteja a interpretar mal o que preconiza no mesmo comentário. Estou convicto de que essa "avançada" terá de resultar do cruzamento de muita coisa, que se vai pensando e fazendo, pelo mundo, apesar da informação sobre todas essas reflexões e propostas ser mantida longe do conhecimento do público. Eu próprio só delas (de parte delas!) me apercebo pelo contacto directo com investigadores especializados, que vou mantendo, em colóquios ou lançamentos de livros. Mas a História tem de estar nessas reflexões: é o conhecimento dos erros que permite não os repetir.
*
Leia-se André Chénier, o grande poeta francês da revolução de 1799, guilhotinado escassos dias antes do fim do Terror, vítima da sua integridade; e confirme-se, nas suas palavras tão actuais, como a pandórica boceta da infâmia sobrevive aos séculos.
Deixo-vos com um excerto do último dos seus "Iambes", escritos no cárcere, no original e numa pobre tradução minha.

IAMBES - IX

Comme un dernier rayon, comme un dernier zéphyre
         Animent la fin d'un beau jour,
Au pied de l'échafaud j'essaye encor ma lyre.
        Peut-être est-ce bientôt mon tour ;
Peut-être avant que l'heure en cercle promenée
         Ait posé sur l'émail brillant,
Dans les soixante pas où sa route est bornée,
         Son pied sonore et vigilant,
Le sommeil du tombeau pressera ma paupière !
         Avant que de ses deux moitiés
Ce vers que je commence ait atteint la dernière,
         Peut-être en ces murs effrayés
Le messager de mort, noir recruteur des ombres,
         Escorté d'infâmes soldats,
Ebranlant de mon nom ces longs corridors sombres,
         Où seul, dans la foule à grands pas
J'erre, aiguisant ces dards persécuteurs du crime,
         Du juste trop faibles soutiens,
Sur mes lèvres soudain va suspendre la rime ;
         Et chargeant mes bras de liens,
Me traîner, amassant en foule à mon passage
         Mes tristes compagnons reclus,
Qui me connaissaient tous avant l'affreux message,
         Mais qui ne me connaissent plus.
(…)

Car l'honnête homme enfin, victime de l'outrage,
         Dans les cachots, près du cercueil,
Relève plus altiers son front et son langage
         Brillants d'un généreux orgueil.
S'il est écrit aux cieux que jamais une épée
         N'étincellera dans mes mains ;
Dans l'encre et l'amertume une autre arme trempée
         Peut encor servir les humains.
Justice, vérité, si ma main, si ma bouche,
         Si mes pensers les plus secrets
Ne froncèrent jamais votre sourcil farouche,
         Et si les infâmes progrès,
Si la risée atroce, ou (plus atroce injure)
         L'encens de hideux scélérats
Ont pénétré vos cœurs d'une longue blessure,
         Sauvez-moi ; conservez un bras
Qui lance votre foudre, un amant qui vous venge.
         Mourir sans vider mon carquois !
Sans percer, sans fouler, sans pétrir dans leur fange
         Ces bourreaux barbouilleurs de lois !
Ces vers cadavéreux de la France asservie,
         Egorgée !… ô mon cher trésor,
O ma plume ! fiel, bile, horreur, dieux de ma vie !
         Par vous seuls je respire encor :
Comme la poix brûlante agitée en ses veines
         Ressuscite un flambeau mourant.
Je souffre ; mais je vis. Par vous, loin de mes peines,
          D'espérance un vaste torrent
Me transporte. Sans vous, comme un poison livide,
         L'invisible dent du chagrin,
Mes amis opprimés, du menteur homicide
         Les succès, le sceptre d'airain,
Des bons proscrits par lui la mort ou la ruine,
         L'opprobre de subir sa loi,
Tout eût tari ma vie, ou contre ma poitrine
         Dirigé mon poignard. Mais quoi ?
Nul ne resterait donc pour attendrir l'histoire
         Sur tant de justes massacrés !
Pour consoler leurs fils, leurs veuves, leur mémoire !
         Pour que des brigands abhorrés
Frémissent aux portraits noirs de leur ressemblance !
         Pour descendre jusqu'aux enfers
Chercher le triple fouet, le fouet de la vengeance
         Déjà levé sur ces pervers !
Pour cracher sur leurs noms, pour chanter leur supplice !
         Allons, étouffe tes clameurs ;
Souffre, ô cœur gros de haine, affamé de justice.
         Toi, Vertu, pleure si je meurs.

                                            André Chénier (1762-1794)


IX

Como uma última aura, um último raio
         Ornam dum bel'dia o declinar,
Ao pé do cadafalso a lira ainda ensaio.
         A minha vez logo irá chegar;
Talvez antes que a hora em círculo percorrida
         Pouse sobre o esmalte brilhante,
Nos sessenta passos que cingem sua estrada,
         Seu pé sonoro e vigilante,
O sono do túmulo minha pálpebra há-de fechar!   
         Antes que, de suas metades,
O verso que inicio à última vá chegar,
         Talvez nos muros assombrados
O arauto da morte, de sombras atro fautor,
         Escoltado de infames soldados,
Com meu nome abale cada escuro corredor,  
         Onde só, na turba, a largos passos
Erro, afiando estes dardos perseguidores do crime,
         Do justo tão frágeis esteios,
Em meus lábios, súbito, vai suspender a rima;
         E de laços cingindo-me os pulsos,
Arrastar-me, em multidão juntando à passagem
         Meus tristes, reclusos parceiros;
Todos me conheciam: a terrível mensagem
         Já de mim os tornou alheios.     
(…)

Porque o homem honesto, enfim, vítima do agravo,
         Nas celas, do féretro já perto,
Reergue mais altiva sua fronte e palavra,
         Brilhantes de orgulho oferto.
Se está escrito nos céus que jamais uma espada
         Em minhas mãos vai refulgir;
Na tinta e na amargura uma outra arma molhada
         Aos homens pode inda servir.
Justiça, verdade, se minha mão, minha boca,
         Meus pensamentos mais secretos
Não franziram jamais vosso severo sobrolho,
         Se a opulência dos abjectos,
E se a gargalhada atroz, ou (mais atroz afronta)
         De gente vil a adulação
Vossos corações rasgaram em ferida extensa;
         Salvai-me; conservai a mão
Que lança vosso raio, um amante que vos vinga.
         Morrer sem esgotar minha aljava!
Sem trespassar, pisar, esmagar em sua lama
         Cada algoz que leis rabiscava!
Esses vermes cadaverosos da França submetida,
         Degolada! … oh meu caro tesouro,
Oh minha pena! fel, bílis, horror, deus da minha vida!
         Por vós somente inda respiro:
Como resina ardente agitada em suas veias
         Reaviva um facho agonizante,
Sofro; mas vivo. Por vós, longe de minhas penas,
         De esperança uma vasta torrente
Me transporta. Sem vós, como lívido veneno,
         Da aflição o invisível dente,
Meus amigos opressos, do falaz homicida
         O êxito, o ceptro brônzeo,                     
Dos bons, por ele proscritos, a morte, a ruína,
         O opróbrio de sofrer seu jugo,
Tudo me esgotaria a vida; ou contra meu peito
         Meu punhal viria! Mas como?
Nada restaria então p'ra comover a história
         Com tantos justos massacrados!
Para consolar seus filhos, suas viúvas, a sua memória!
         P'ra que os bandidos detestados
Tremam nos negros retratos sua semelhança!
         Para descer até aos infernos
Procurar o triplo açoite, açoite da vingança
         Já erguido sobre tais perversos!
Para cuspir nos seus nomes, cantar seu suplício!
         Afoga, pois, teu clamor forte;
Sofre, coração de ódio pleno, ávido de justiça.
         Chora, Virtude, a minha morte.
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

A Democracia em que vivemos - um novo fascismo? (I)

Carlos Loures


Reli recentemente uma nova edição portuguesa de O Contrato Social (Du contrat social ou essai sur la forme de la République), a obra de Jean-Jacques Rousseau, agora com uma interessante introdução de João Lopes Alves. Esta edição não se refere à versão definitiva do texto, publicada em Amesterdão, em 1762, mas sim a uma primeira abordagem do tema, que não é a que melhor conhecemos, por ser a mais divulgada. .Aliás, a edição de Amesterdão tinha um subtítulo diferente – Du contrat social, ou Principes du droit politique. A leitura desta edição conduziu-me à releitura da de Amesterdão que, por sua vez, me levou a uma reflexão sobre a natureza da nossa democracia. O que ressalta da minha leitura de Rousseau são as reservas que ele tinha para com um regime que iria, sobretudo a partir de 1789, nos dois séculos seguintes constituir a principal esperança dos oprimidos.
Talvez pareça um exagero comparar a democracia que temos ao fascismo que tivemos. De certo modo, é-o. É, sobretudo, uma maneira provocatória de exprimir o sentimento de revolta que me assalta ao ver que este sistema democrático, teoricamente emanado da vontade popular, expresso no voto livre dos cidadãos, nos proporciona uma sociedade tão tacanha e uma classe política tão ou mais corrupta do que a do antigo regime salazarista. É um exagero assumido, com o qual procuro chamar a atenção para aquilo que na prática se manteve inalterável – a injustiça social, as grandes assimetrias culturais (embora a iliteracia – quase um eufemismo para analfabetismo - seja agora protegida por diplomas). O poder, o verdadeiro poder, está nas mãos dos grandes grupos económicos, tal como durante o período da ditadura. Mas agora esta situação é sancionada pelo voto livre dos cidadãos ao elegerem os seus representantes no Parlamento e o chefe de Estado. Quanto a mim, é uma diferença pouco mais do que formal.

Há liberdade uma total de expressão, mas a televisão e o marketing político das grandes máquinas partidárias do chamado «bloco central» se encarregam, através de insidiosos opinion makers, de unificar o pensamento. E sem o aparato repressivo dos Goebbels e dos António Ferro, com a disseminação do «politicamente correcto» aí temos o pensamento único, um instrumento fundamental do neo-liberalismo. Porque o pensamento único , apresentado como pedra angular do sistema, impõe como verdade absoluta e indiscutível o primado do económico sobre o sociopolítico. Já vi jovens economistas rindo-se de argumentos de natureza moral e política. O politicamente correcto, que abriu caminho ao pensamento único, impõe uma total independência da economia. A economia tem de ser apolítica, dizem com o ar de quem diz o que é óbvio. Outros pilares do sistema – o realismo (as coisas são como são) e o pragmatismo (para se solucionar um problema de natureza económica, a ideologia política tem de ser erradicada).

Os princípios da nossa democracia, mercê do realismo, do pragmatismo e da perspectiva do pensamento único, obedece já não a princípios – obedece às lei e aos interesses do mercado. A verdade é que esta tese do carácter apolítico que as medidas económicas devem ter é aceite por muita gente que se considera de esquerda. «Porque» (já ouvi este argumento) «se a minha vida depende do êxito de uma cirurgia, interessa-me a perícia do cirurgião, não o seu credo político». Naturalmente que esta apoliticidade das medidas económicas são expressão de um credo político – o neoliberalismo.

.Nós, os cidadãos eleitores, aceitamos princípios inaceitáveis e aceitamos anormalidades como coisas normais – as liberdades impedindo a Liberdade de florescer. Pode dizer-se tudo, fazer-se tudo. Um exemplo recente pedófilos, em seguida ao julgamento em que foram considerados culpados e condenados, vieram às televisões dar uma conferência de imprensa. Dirão – é a Liberdade. Pois é – uma liberdade que põe em pé de igualdade criminosos e cidadãos eméritos. O sistema dá liberdade ao povo de escolher porque tem mecanismos que controlam o eleitorado, que induzem o voto. Como alguém que deixa à solta um cão potencialmente perigoso, mas amestrado e, portanto, inofensivo.

Então a democracia foi aviltada, pervertida?

Poderá dizer-se que a democracia começou mal, que já no seu berço da Antiga Grécia continha os estigmas que iria transportar ao longo de dois milénios e meio e que iriam chegar quase intactos até aos nossos dias. Com efeito, a democracia ateniense não abrangia nem os escravos nem as mulheres, não impondo também uma divisão equitativa da riqueza entre os cidadãos. No rescaldo da grande fogueira de 1789, a escravatura foi sendo abolida na maioria dos países europeus, embora quase nunca em obediência a um límpido sentimento de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

As mulheres, ainda que, sobretudo nas últimas décadas, tenham avançado muito na sua luta de libertação, continuam, mesmo quando a letra da lei lhes confere todas os direitos e garantias outorgados aos cidadãos em geral, a ser consideradas cidadãs de segunda. Sobre a divisão da riqueza no ocidental paraíso das democracias parlamentares, é melhor nem falarmos. Democracia – autoridade do povo; de que povo? Nunca, em parte alguma, a não ser no território imaginário das utopias, se ouviu falar de democracia integral – sempre os governos supostamente democráticos se deixaram manchar por desigualdades sociais ou de género, por segregações étnicas, por marginalizações inomináveis. Quando mesmo, não serviram de capa ou ornamento a terríveis tiranias. Será que a verdadeira democracia é inatingível?

Voltemos a Jean-Jacques Rousseau. Será que ele tinha razão quando disse: «Se formos a considerar o termo na acepção mais rigorosa, nunca houve verdadeira democracia, nem nunca existirá.» (…) «Seria inconcebível estar o povo a reunir constantemente para tratar da coisa pública». (…) «Se houvesse um povo de deuses, ele se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos».

Um povo de deuses? A democracia só poderá ser atingida por um povo de deuses?



(Continua)
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Felizmente há luar


Carlos Loures

No lançamento do site «Memoriando», dirigido pela Isabel do Carmo e pelo Carlos Antunes, o Carlos disse - « A história é sempre escrita pelos vencedores; a versão dos vencidos é, geralmente ignorada» e acrescentou, «as novas tecnologias, os sites, os blogues, a internet em geral, permite que mesmo aqueles que não ganharam, mesmo os vencidos, contem a sua versão dos acontecimentos». Isto é uma grande verdade, pelo menos enquanto os vencedores, ou seja. quem está no poder, não descubra uma maneira de silenciar também estas vozes que, na rede, têm oportunidade de fazer passar a sua versão - a versão dos vencidos.

Referia-se o Carlos Antunes, naturalmente, à derrota do Poder Popular em 25 de Novembro de 1975 e à vitória daquilo a que na altura se chamou a "normalidade". A normalidade prevaleceu e aí a temos, a normalidade de 20% de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, a normalidade da pedofilia e do tráfico de seres humanos, a normalidade da violência e do crime organizado, a normalidade da corrupção a todos os níveis da sociedade, a normalidade dos impostos, da especulação bancária, do enriquecimento súbito de alguns políticos – normalidade a rodos e para todos os gostos.


Mas fomos derrotados, nós os que queríamos que as coisas fossem diferentes. Cometemos erros, por certo. Exagerámos por vezes? Sim, também. ´´Eramos anormais. Não queríamos que fossem estrangeiros a mandar em nós, não queríamos que os trabalhadores fossem explorados, não queríamos que os banqueiros nos roubassem, não queríamos pessoas a viver em bairros degradados, não queríamos as nossas crianças abandonadas á sua sorte e sujeitas a todo o tipo de violências, não queríamos os nossos jovens mergulhados na droga, fornecendo efectivos ao exército da marginalidade. Não queríamos «essa» a normalidade que a globalização encontrando terreno fértil na nossa endémica fragilidade económica, facilmente nos trouxe. Perdemos.

E mesmo que ganhássemos em Novembro de 75, os que desejavam a «normalidade» não iriam desistir. Os amigos de Madrid, por exemplo, receberiam uma ordem dos amigos de Washington e viriam aqui, com a divisão Brunete e se ela não chegasse, viriam os camones com a sétima esquadra ou com a sexta, ajudar os amigos portugueses a repor a normalidade. Afinal para que servem os amigos?

Talvez daqui por muito tempo, quando já cá não estiver nenhum de nós, esta democracia antropofágica, que salvaguarda todas as liberdades, mas espezinha a Liberdade, seja erradicada. Torna-se evidente que este conceito de democracia é profundamente antidemocrático - em torno do pensamento colectivo instala-se um círculo de fogo (marketing, opinion makers, a cartilha do politicamente correcto...) onde apenas há saída para esta forma padronizada de ver a realidade. Lembram-se daquela peça do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt - A Visita da Velha Senhora? A  poderosa velha chegava à aldeia e ia conquistando adeptos para sua deletéria causa. Todos os dias o número dos que a combatiam ia diminuindo e engrossando o grupo que a apoiava. A esses, a velha déspota oferecia uns sapatos amarelos. Em cada manhã, os resistentes deparavam com mais amigos que calçavam os malditos sapatos amarelos.

É o que acontece a quem se quer opor a esta forma de pensar que aceita o inaceitável. Mas os sapatos amarelos não cessam de aumentar.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Basileia e as rotas do caos

Carlos Loures

Há meses atrás, publiquei aqui no Estrolabio um texto a que dei o título da obra «A Nave dos Loucos», de Sebastian Brant (1457-1521), um jurista alsaciano de língua alemã, formado na universidade de Basileia.

Foi em 1494 que escreveu Das Narrenschiff ou, em latim Stultifera navis – «nave dos loucos». Nesse artigo dizia, entre outras coisas, como essa obra, considerada menor, influenciou artistas como Bosch ( mostro à direita o seu quadro que tem o nome da obra de Brant), e Dürer, entre muitos outros por essa Europa fora. Coloquei até a hipótese de Gil Vicente se ter nele inspirado para alguns dos seus autos.

Brant metia na Sultifera navis 112 tipos de loucos, representando clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices. A cada louco, dedicava um capítulo e não se esqueceu de si mesmo – "O Louco dos Livros" e "Dos Livros Inúteis", que, como ele, amavam a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhe oferecia, transformando-o em coleccionador de livros, mas não em pessoa sábia (com livros espalhados por toda a casa, a carapuça também me serve).

Portanto, em cada capítulo retratava um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predominava a figura de Frau Venere (Vénus). É um poema moralista, abundando as sentenças bíblicas e os aforismos portadores da sabedoria conceptual da Idade Média. Representava-se ali uma viva angústia pela situação da Igreja, onde sopravam os ventos da Reforma da iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado na época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos era a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», resultantes do Renascimento.

Dizia como a narrativa inspirou o romance Ship of fools de Katherine Anne Porter e baseado nesse livro, um filme de Stanley Kramer – num paquete de luxo, em 1933, pessoas de diversos estratos sociais, viajavam do México para a Alemanha – durante a viagem, a situação mudou na Alemanha, Hitler subiu ao poder. Alguns passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto.

.Passava depois para a actual política partidária portuguesa e classificava-a de repugnante. Não compreendendo como se podem as pessoas preocupar com os políticos do governo e da oposição, quando quem os manipula são grandes empresários, grandes multinacionais, organizações internacionais. Vinha depois a moralidade da história, dizendo como numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota.

Mas vamos elegendo como capitães os servos de poderes afastados da ribalta. Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca, pois não são eles os timoneiros da nave que nos conduz ao caos. São marionetas. Rostos e as bocas da corrupção, mas não o seu coração, os seus pulmões. «Uma nave de loucos conduzida por crápulas». - era assim que concluía o artigo.

Decorridos estes três ou quatro meses, o pântano adensou-se – novos escândalos, reais ou não. Temos a sensação de estar a ser governados não pelos poderes constitucionais, mas por entidades ocultas, servidas por jornalistas sem escrúpulos. A nave dos loucos com uma chusma de corruptos aos remos e com crápulas (os do costume e outros) a dar-lhes ordens. Voltemos a Basileia:

Foi ali assinada a Paz de Basileia – conjunto de três tratados de paz celebrados pela França em 1795 com a Prússia, Espanha e o Hessen-Kassel. Os acordos representaram o fim das guerras revolucionárias francesas contra a Primeira Aliança. Mas não foi uma paz duradoura. Foi também em Basileia que, em Agosto de 1897, se reuniram quase 200 representantes de 17 países para participar no Primeiro Congresso Sionista. O escritor judeu Theodor Herzl fez um discurso emocionado e emocionante: “Somos um povo. Todos os povos têm uma pátria. Precisamos de uma pátria nacional para nosso povo. Por isso queremos lançar a pedra fundamental para a casa que um dia vai abrigar a nação judaica”. Pode dizer-se que Israel (e o problema da Palestina) começou em Basileia.

Ainda a propósito de Basileia, lembrei-me de um outro livro, «Os Sinos de Basileia», «Les Cloches de Bâle», de Louis Aragon (1897-1982), o poeta comunista, Aragon foi um dos principais activistas do movimento surrealista que, nos seus primeiros anos, esteve ligado ao marxismo, até que, Breton, figura de proa do movimento abandonou o partido. Aragon ficou no PCF até morrer e, do surrealismo, passou ao realismo-socialista. Resistente destacado durante a ocupação alemã entre 19939 e 1944, além de maravilhosos poemas deixou-nos um ciclo novelístico em seis romances dos quais «Os Sinos de Basileia», é o último. Situado nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial, conta como três mulheres, muito diferentes entre si, interagem numa situação-limite – Diane, Clara Zetkin e Catherine, que vai das concepções burguesas ao anarquismo e daqui chega ao socialismo.

O romance conduz-nos até Basileia, em cuja catedral se realizou, em Novembro de 1912 um congresso socialista para prevenir o perigo de uma guerra imperialista cuja eclosão se temia a todo o momento. Mais de 500 delegados estavam presentes. Os sinos da catedral que tinham soado durante a manhã, calaram-se e ouviram-se os discursos de oradores inspirados, como Jaurés, que seria assassinado no ano seguinte. «Os sinos ouviam os oradores», diz Aragon.

O manifesto sobre a guerra foi aprovado por unanimidade. Prevenia os povos sobre o perigo do conflito mundial que se avizinhava. Mostrava os objectivos espoliadores da confrontação que os imperialistas preparavam e exortava os trabalhadores de todos os países a travar uma luta decidida pela paz, contra o perigo da guerra, a «contrapor ao imperialismo capitalista a força da solidariedade internacional do proletariado».

Quando começasse a guerra imperialista, o manifesto recomendava aos socialistas que utilizassem a crises económica e política provocada pelo conflito para lutar pela revolução socialista. Os dirigentes da II Internacional – Kautsky, Vandervelde e outros – votaram no congresso pela aprovação do manifesto contra a guerra. Porém, quando a guerra eclodiu, o Manifesto de Basileia, bem como outras resoluções dos congressos socialistas internacionais foram esquecidos por muitos dos mais destacados congressistas que lutaram nos exércitos dos seus países. porque se os sinos de Basileia escutaram as vozes do congresso, os poderes internacionais foram surdos e em 1914 eclodia a I Guerra Mundial. O bem-intencionado Manifesto de Basileia foi esquecido até pela maioria dos seus signatários. Os povos parecem gostar de ser conduzidos por loucos e por crápulas.

Este mundo, esta civilização global, está a globalizar a corrupção, a droga, a miséria, o crime. Portugal está a transformar-se num país violento, onde é perigoso sair à noite nas ruas das nossas cidades. No regime democrático, os marginais aterrorizando os cidadãos pacatos e cumpridores, substituem os agentes da polícia política que, durante a ditadura, os ameaçavam. Aos centros de poder, eleitos por nós, vão chegando marginais de outro tipo que não nos assaltam junto ao multibanco de seringa em punho, mas nos retiram o dinheiro dos bolsos pela chamada «via legal». A Igreja contempla esta realidade, contribuindo com os seus marginais, pedófilos e quejandos, para a abençoar. Pobre gente que somos! Nas próximas eleições lá iremos ordeiramente eleger os timoneiros da nave.

E saberemos escolher entre os piores! A nave dos loucos continua a sua viagem rumo ao caos.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - O futuro da democracia


Analisada globalmente a democracia oferece-nos duas imagens muito contrastantes. Por um lado, na forma de democracia representativa, ela é hoje considerada internacionalmente o único regime político legítimo. Investem-se milhões de euros e dólares em programas de promoção da democracia, em missões de fiscalização de processos eleitorais e, quando algum país do chamado Terceiro Mundo manifesta renitência em adoptar o regime democrático, as agências financeiras internacionais têm meios de o pressionar através das condições de concessão de empréstimos. Por outro lado, começam a proliferar os sinais de que os regimes democráticos instaurados nos últimos trinta ou vinte anos traíram as expectativas dos grupos sociais excluídos, dos trabalhadores cada vez mais ameaçados nos seus direitos e das classes médias empobrecidas. Inquéritos recentes feitos na América Latina revelam que em alguns países a maioria da população preferiria uma ditadura desde que lhes garantisse algum bem-estar social.

Acresce que as revelações, cada vez mais frequentes, de corrupção levam à conclusão que os governantes legitimamente eleitos usam o seu mandato para enriquecer à custa do povo e dos contribuintes. Por sua vez, o desrespeito dos partidos, uma vez eleitos, pelos seus programas eleitorais parece nunca ter sido tão grande. De modo que os cidadãos se sentem cada vez menos representados pelos seus representantes e acham que as decisões mais importantes dos seus governos escapam à sua participação democrática.
O contraste entre estas duas imagens oculta um outro, entre as democracias reais e o ideal democrático. Rousseau foi quem melhor definiu este ideal: uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém.

Segundo este critério, estamos ainda longe da democracia. Os desafios que são postos à democracia no nosso tempo são os seguintes. Primeiro, se continuarem a aumentar as desigualdades sociais entre ricos e pobres ao ritmo das três últimas décadas, em breve, a igualdade jurídico-política entre os cidadãos deixará de ser um ideal republicano para se tornar numa hipocrisia social constitucionalizada. Segundo, a democracia actual não está preparada para reconhecer a diversidade cultural, para lutar eficazmente contra o racismo, o colonialismo e o sexismo e as discriminações em que eles se traduzem. Isto é tanto mais grave quanto é certo que as sociedades nacionais são cada vez mais multiculturais e multiétnicas. Terceiro, as imposições económicas e militares dos países dominantes são cada vez mais drásticas e menos democráticas. Assim sucede, em particular, quando vitórias eleitorais legítimas são transformadas pelo chefe da diplomacia norte-americana em ameaças à democracia, sejam elas as vitórias do Hamas, de Hugo Chavez ou de Evo Morales.

Finalmente, o quarto desafio diz respeito às condições da participação democrática dos cidadãos. São três as principais condições: ser garantida a sobrevivência: quem não tem com que alimentar-se e à sua família tem prioridades mais altas que votar; não estar ameaçado: quem vive ameaçado pela violência no espaço público, na empresa ou em casa, não é livre, qualquer que seja o regime político em que vive; estar informado: quem não dispõe da informação necessária a uma participação esclarecida, equivoca-se quer quando participa, quer quando não participa.

Pode dizer-se com segurança que a promoção da democracia não ocorreu de par com a promoção das condições de participação democrática. Se esta tendência continuar, o futuro da democracia, tal como a conhecemos, é problemático.


(Publicado na revista "Visão" em 31 de Agosto de 2006)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

HIV - Nova forma de tratar a sida!

Mais um avanço científico na luta contra essa terrivel doença que, apesar de tantos anos terem passado desde o seu aparecimento, ainda não se conseguiu a cura total, embora os doentes já possam ter uma vida quase normal.

Agora cientistas Israelitas conseguiram destruir células infectadas com HIV sem afectar as células sãs., utilizando o ADN de vírus diversos, parece que na luta para ocuparem a célula hospedeira há vírus que vencem o vírus HIV. O tratamento é à base de péptidos (composto químico formado pela união de aminoácidos). A luta não pára mas a "camisinha ainda é o mais seguro"!

Democracia ..." que não saiba que um sistema em que os cidadãos não se podem candidatar a deputados e onde meia dúzia de pessoas dizem a oito milhões de eleitores em quem é que eles têm licença de votar (e em lista por ordem fixa!) é ditadura em qualquer parte do mundo. Que bizarro conceito de "democracia e das inerentes "eleições livres"...diz e muito bem Miguel Mota de Oeiras.

Casa Pia - Na SIC N em directo, Felícia Cabrita e os ex-alunos da Casa Pia (bem como Catalina Pestana), hoje advogados, a dizerem que Paulo Pedroso é pedofilo a lembrarem o sinal do corpo que as vítimas reconheceram e que foi cirurgicamente removido, que Manuel Alegre, Mário Soares e Sócrates, bem como Miguel Júdice e Marinho Pinto deviam ter a hombridade de pedirem desculpas públicas aos jovens depois de andarem anos a descredibilizá-los.
O pior de tudo, para mim, é que haja gente boa que, por mera solidariedade ideológica e partidária, ainda defendam que há violados mas não há violadores e que as vítimas escolheram aqueles porque sim!
publicado por Luis Moreira às 13:30
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