Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Dedicatórias – Livros dedicados por poetas brasileiros / 5, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 


 

 

                        3.2 – Geração de 56 (Parte II)

 

                      O grande número de poetas componentes da terceira geração da poesia brasileira moderna nos obrigou a dividir a nossa exposição sobre os poetas de 56 em duas partes. Se a primeira parte já ocupou a quantidade de páginas que vimos, a segunda certamente a superará. Por essa razão e tendo em vista as exigências de limites de espaço a que o meu atual texto se destina devo realizar o meu trabalho sob o comando da síntese.

 

                   Uma das características fundamentais da Geração de 56 é aquela que a vê como a mais rica concretamente quanto ao número de suas poetisas, ou melhor dito poetas-mulheres. São muitas as escritoras brasileiras da Geração que operam no setor da poesia e muitas delas se apresentam com obras de absoluta importância no inteiro âmbito da poesia moderna nacional. Dentre as muitas criadoras líricas da Geração de 56, cinco delas entram no quadro dos autores que me enviaram livros com dedicatórias autógrafas. Elas são: Marly de Oliveira, Lélia Coelho Frota, Astrid Cabral, Olga Savary, Sonia Sales.~

 

                      Marly de Oliveira possui a força poética de transformar sentimentos absolutamente pessoais em valores da sensibilidade feminina universal. Seus poemas atingem a matéria do feminino mais profundo, confundindo-se com ele num intenso sentimento do mundo e das coisas vividas. Artista da linguagem e da força da imagem, ela faz parte também da minha curta experiência profissional como editor, com a história das Edições do Anuário da Literatura Brasileira, de 1959 a1964. O volume de poemas de Marly, A Suave Pantera, de 1962, faz parte saliente de uma tal história. De A Suave Pantera, livro premiado pela Academia Brasileira de Letras e considerado pelos especialistas como o melhor exemplo gráfico de uma edição do ano de 1962 no Brasil,  deste livro, ela me dedica um exemplar com as seguintes palavras que se ligam à minha partida para a Itália poucos dias depois do lançamento festivo do livro:

 

                                                                                  “A Sílvio,

na véspera de sua partida,

com o carinhoso abraço

e os melhores votos, de

 

Marly

          Rio, 13 / XI / 1962“

 

Além desse volume de poesia, de Marly de Oliveira tenho: Canção da ternura inútil, Liv. Leonardo da Vinci, Rio de Janeiro, 1961; Invocação de Orpheu, Massao Ohno, São Paulo, 1979: na dedicatória deste volume, ela me diz: “Sílvio    esta edição da Massao,     como a Obra Poética Reunida,      não existe mais, por  isso     dou-lhe esta.     De sua editada,       Marly     Rio,  1999“. E mais os volumes de poemas Obra Poética Reunida, Massao Ohno Editor, São Paulo, 1989:

 

                                                                                  “Para Sílvio Castro,

                                                                                  com a alegria de revê-lo,

                                                                                  a admiração

                                                                                  de sua

 

                                                                                  Marly de Oliveira

                                                                                                                      Rio,1999”

Completa o rol dos belos livros a mim dedicados pelo poeta que foi e que continua presente a todos os amantes da poesia brasileira moderna, a capixaba de nascimento, fluminense de formação e universal de natureza, Marly de Oliveira, o volume O mar de permeio (1991-1994), Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.

 

                       

 

publicado por João Machado às 10:00

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Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Dedicatórias - Livros dedicados por poetas brasileiros / 4, a Sílvio Castro

 

 

 

 

 


 


 

 

3.1 - Geração de 56  (Parte I)

 

                        Ampla foi a contribuição trazida pela “Geração de 45“ na sua ação revisora e ao mesmo tempo continuadora da mensagem dos poetas e narradores da Geração fundadora de 22-30. Porém, em determinado momento os novos escritores brasileiros, admiradores de quanto haviam criado até ali os autores de 45, sentem a necessidade de acrescentar algo mais a tal contribuição sempre em um processo vivo, isto para levar a revolução modernista às suas máximas consequências, ainda não expressas. Essa ultimação da modernidade brasileira se verifica com base na conquista de um máximo valor de linguagem há muito perseguido, mas somente agora verdadeiramente concretizado. Verifica-se a superação de qualquer limite de compatibilidade entre prosa e poesia, com a evidenciação definitiva da dimensão da metalinguagem de que é feita a criação literária. A literatura brasileira partia com esta tomada definitiva de sua linguagem para a afirmação máxima da revolução modernista e objetivação indiscutível da modernidade literária. Todas estas conquistas encontram na obra de João Guimarães Rosa a central produtora, principalmente na obra-prima que é Grande Sertão: Veredas, de1956. A genial criação rosiana publicada em 1956 fornece assim um dos dados definidores daquela que denominamos, também por outros fatores, “Geração de 56“.

 

                     O século XX da literatura brasileira se completa com a plena afirmação dos escritores de 56 enquanto uma específica Geração literária , bem como o início do novo século se caracteriza pela sua continuação, naturalmente com os muitos matizes que tantas vezes são definidos como manifestações do Pós-moderno.

 

                          Na minha História da Literatura Brasileira, 1999-2000, já na presente série de artigos citada com abundância talvez excessiva, mas necessária sempre, defini no vol. III, cap. 45, “O Modernismo em poesia“, pp.183-304, as características principais do movimento da Geração de 56, encontrando nela três linhas predominantes. Dessas linhas, pude classificar os poetas da Geração em três grupos: I) A poesia experimental; II) A poesia da revolução da palavra e da imagem; III) A poesia da consciência social e do empenho político. Os poetas que passo em seguida a expor neste trabalho, reproduzindo as suas dedicatórias nos volumes que me destinaram, naturalmente limitando-me a transcrever um máximo de três dedicatórias para todos aqueles que comparecem com uma doação superior a três obras, participam de uma ou mais linhas que traduzem o critério crítico por mim adotado. Quase todos eles de duas; alguns de todas as três.

 

                        Sobre a Geração de 56, que é também a minha, estou trabalhando com continuidade desde há muito, para dar um quadro o mais possível correspondente à importância que os poetas da mesma têm na poesia brasileira moderna e contemporânea. Para tal empresa, levantei uma escolha de mais de 120 volumes, correspondentes a mais de 40 autores. Muitos deles estão na lista de dedicatórias que segue.

 

                         Começa aqui a análise da minha cordial relação de amizade e de cooperação, enquanto membros de uma mesma geração, com aqueles poetas de 56. E o faço a partir de poetas  ligados à linha possivelmente mais saliente entre as três que indico como centrais da última Geração da moderna poesia brasileira, a linha I) A poesia experimental.

 

 

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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

Dedicatórias – Livros dedicados por poetas brasileiros / 3, por Sílvio Castro

 

 

 


 


 

 

                        2 –“ Geração de 45”


                        Nas minhas já longas elaborações historiográficas sobre a literatura brasileira, sempre defendi a tese que o Modernismo brasileiro, ao contrário de quantos outros meus ilustres confrades afirmam, não termina com o aparecimento da Geração de poetas de 1945 mas, muito pelo contrário, se renova com ela e toma decididamente novos percursos. Percursos esses que vão desde os mais complexos aspectos formais, o sempre cultivado problema da linguagem poética, para chegar até mesmo aquele complementar do espírito da modernidade da poesia brasileira, a questão do empenho social na obra do artista em contacto com a sua contemporaneidade.

 

                        Naturalmente, determinados aspectos próprios dos poetas dessa Geração, em modo especial aquele do retorno à tradição formal da poesia de língua portuguesa, com destino a uma sua valorização epocal, provocou o aparecimento de alguns exemplos de autores que não conseguiram superar a dimensão tradicional de tal questão. Mas esses autores são poucos em relação aos muitos outros poetas de 45 que souberam retirar das lições formais da poesia tradicional as melhores razões de um novo e moderno ritmo poético.

 

                        Desta Geração, que é anterior à minha, mas com a qual convivi e convivo pessoalmente nas pessoas de muitos de seus melhores representantes, tenho muitos livros dedicados pelos autores. Alguns deles me tomam como ponto marcante de referimento, como demonstram os muitos livros que me dedicam no correr dos anos e no consequente desenvolvimento de suas obras.

 

                        Daquele que para muitos representa o mais profundo espírito da Geração de 45, João Cabral de Melo Neto, por diversas razões puramente contigentes de nossas vidas, não tenho livro de seus poemas a mim dedicado diretamente. Porém possuo um livro cabralino, ainda de um João Cabral organizador e prefaciador de um outro autor. Este autor é alguém que, sendo um importante poeta, também é de importância significativa para a vida do autor de Vida e Morte Severina: Marly de Oliveira. Trata-se de uma antologia de poemas de Marly, segunda esposa do organizador e prefaciador; justamente ela igualmente esposa em segundas núpcias. O casal de poetas mais importante tido pela poesia moderna brasileira dedica o volume da Antologia Poética de Marly de Oliveira, 2ª. impressão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997, conjuntamente a mim e a Anna Rosa, minha mulher italiana, com uma dedicatória não datada, mas do mesmo ano da edição:

 

                                               “Para Sílvio e Anna Rosa,

esta

Antologia

Poética

com nosso abraço afetuoso.

 

João  e Marly“

 

                        Rica e copiosa em números de poetas e de volumes é a presença das dedicatórias da Geração, agora selecionados entre os volumes das estantes de minha biblioteca. Por muitas razões, entre eles, começo por Ledo Ivo. A ele estou ligado por uma grande amizade e igualmente por muitas razões derivadas da sua prodigiosa atividade literária. Entre essas razões coloco em posição de relevo o fato de ter sido Lêdo Ivo um dos resenhistas de meu primeiro livro de poesia, Infinito Sul, de 1956. Uma sua pequena, mas muito significativa, nota crítica saiu então nas páginas de Tribuna da Imprensa. Com o passar dos anos, entre mim e o Poeta estabeleceu-se um denso processo de encontros, tanto no Brasil, quanto na Itália (nas duas oportunidades de viagens de Ledo e de Leda em Veneza e em Pádua, onde ele pronunciou uma conferência para os meus estudantes italianos de Literatura Brasileira). Nos meus retornos ao Brasil sempre nos encontramos, de preferência na Academia Brasileira de Letras, mas igualmente em outros lugares, um dos quais fixei num dos meus poemas do volume de 2003, Gira Mu(o)ndo:

 

                                   “Em Teresópolis, no sítio do poeta Ledo Ivo“

 

                                               Eu penso agora, caro Ledo,

                                               quanto gostaria de recompor

                                               aquele dia de primavera

                                               no teu sítio em Teresópolis

                                               e retomar a gentil presença

                                               de Leda e o amigável falar

                                               de Venâncio,

                                               tudo na calma intensa

                                               da luz polifônica que me induzia

                                               a sentir aqueles verdes

                                               das colinas de tua casa

                                               como passagens do laranja

                                               ao amarelo apaziguado nos sons

                                               iluminados daquela tarde.

                                               Então, caro Ledo, eu saberia

                                               roubar alguma das figurações

                                               de teus poemas vindos desses ares –

                                               e logo o diria

                                               a Leda e a Venâncio,

                                               os três a contemplar teu rosto plácido

                                               naqueles verdes

                                               daquela tarde.

 

                        De Ledo Ivo tenho dedicados os seguintes volumes de poemas –

Central Poética, Editora Nova Aguiar-INL, Rio de Janeiro-Brasília, 1976:

 

                                               “A Sílvio Castro,

esta lembrança amiga de

Lêdo Ivo

1978“

 

Magias, AGIR, Rio de Janeiro, 1960:

 

                                               “A Sylvio de Castro,

com o grande abraço

do

Lêdo Ivo

Natal de 1960“

 

 

Uma Lira dos Vinte Anos, Livraria São José, Rio de Janeiro, 1962 (com um dado de grande excepcionalidade: O planejamento gráfico é de Antônio Houaiss e João Cabral de Melo Neto)

 

                                               “A Sílvio Castro, esta

lembrança amiga do

Lêdo Ivo

1962“

 

Illuminazioni, edição italiana bilingue, com introdução e tradução de Vera Lúcia de Oliveira, Multimedia Edizioni, Salerno, 2002:

 

                                               “A Sílvio Castro,

seu amigo de sempre

Lêdo Ivo

Padova, 6.5.02“

 

 

                       

 

publicado por João Machado às 10:00

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Domingo, 3 de Abril de 2011

Dedicatórias – Livros dedicados por poetas brasileiros / 2. por Sílvio Castro

 

 

 

 

 



 

                     Na coleção de livros a mim oferecidos e dedicados diretamente pelos autores, ocupa a primeira posição aqueles de poetas brasileiros contemporâneos. Como um elemento de particular alegria para mim, entre esses, além dos mais jovens, aqueles da minha mesma geração, encontram-se igualmente alguns dos grandes nomes históricos da Geração de 1922-30 que introduziu a modernidade na poesia e na literatura geral do Brasil, a partir do Movimento Modernista de 1922, bem como aqueles outros que estão por entrar igualmente na nossa historia, componentes da muito discutida e às mais das vezes não bem compreendida “Geração de45”.

 

                         Diante desta visão da poesia moderna do Brasil, dividirei a exposição dos nomes dos poetas que interessam à minha atual análise colocando-os nas posições históricas por mim propostas na minha História da Literatura Brasileira (3vv., Lisboa, 1999-2000), que é justamente a exposta acima, e mais a “Geração de56”, possivelmente aquela que conclui o ciclo histórico-literário. Tratarei delas e sempre sob a forma de gerações. Na minha atual seleção de dedicatórias, estão poetas da: 1. “Geração de 22-30”; 2. “Geração de 45;  3. “Geração de 56”.

 

 

                        1. “Geração de 22-30”


                        A presença dos poetas históricos da literatura brasileira que ilustram a minha análise do problema quanto a uma possível teoria retórica do tema “Dedicatórias” me permite equacionar uma importante verificação do comportamento dos escritores desta Geração, isto é, a máxima e natural disponibilidade para com os seus jovens confrades, literatos em muitos casos ainda em plena formação. Quando Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Joaquim Cardozo me dedicam seus livros, a Geração fundadora se demonstra sempre aberta ao futuro. Mas, como veremos mais adiante, o mesmo acontecerá com os prosadores.

 

                        Do grupo que forma os doadores históricos, o mais antigo deles é sem dúvidas Manuel Bandeira, porém aquele que mais cedo me concede uma dedicatória é Joaquim Cardozo.

 

                        De Joaquim Cardozo recebo a revelação que estou em plena atividade literária já em agosto de 1954, quando eu ainda estava por completar 23 anos de idade e dava os primeiros passos na divulgação de minhas ambições literárias, a partir das tímidas publicações, não de poemas meus, mas de minhas primeiras resenhas críticas. Joaquim Cardozo, um dos “poetas bissestos”, segundo a famosa definição e análise do fenômento elaboradas por Manuel Bandeira, isto é, aqueles poetas, mesmos os capazes de uma poesia de grande nível criador, eram conhecidos pelos poucos poemas que vez por outra realizavam e publicavam. Em 1947, Joaquim Cardozo decide de sair desta categoria, publicando pela Editora Agir, do Rio de Janeiro, os seus Poemas, com poesias escritas desde1925 a 1947. O livro tem capa e gravura de Santa Rosa e ilustrações de Luís Jardins, dois grandes nomes das artes gráficas brasileiras dos nossos dias. A dedicatória que Joaquim Cardozo me faz na página de rosto de seu belo livro diz:

 

 “A Silvio de Castro

lembrança de

                 Joaquim Cardozo

3/8/954”.

 

                        Manuel Bandeira, eu o frequentava desde praticamente 1956 com boa frequência, mas quase à distância, não por imposição dele, sempre bonário e cordial, mas pela minha respeitosa timidez por um dos grandes monumentos da poesia brasileira. Eu o via particularmente em dois locais privilegiados, na Academia Brasileira de Letras, na tradicional reunião das quinta-feiras,  e na Livraria São José, do livreiro Carlos Ribeiro, catalizador dos escritores residentes no Rio ou de outros de passagem pela capital do país. Manuel Bandeira publicou em 1961 uma nova antologia de seus poemas, Antologia Poética, pela Editora do Autor, para a qual escreveu uma “Advertência“, onde, no primeiro parágrafo, se lê: “Esta é a sétima [antologia] que faço de meus poemas. `[....  ....]; nesta o critério adotado foi colher entre os meus poemas mais bem realizados os mais accessíveis ao leitor estrangeiro, pois eu desejava com ela retribuir a poetas de outras línguas a gentileza de me terem oferecido os seus livros.“ Eis aí mais um novo ponto da rica retórica da “dedicatória”. Aquela que o Poeta me faz é justamente de 1961, ainda que ele não tenha datado a mesma. Naquele 1961 que me via no auge de minhas atividades literárias na Cidade Maravilhosa, principalmente depois do lançamento,no ano anterior, do primeiro número de meu Anuário da Literatura Brasileira, feito com a parceria de Waldir Ribeiro do Val, Anuário que surpreendera todo o ambiente literário brasileiro e que teve o seu lançamento justamente na Livraria São José. Também Manuel Bandeira participou daquela tarde memorável. O segundo número do Anuário estava por sair quando Manuel Bandeira me dedica um exemplar da sua Antologia Poética. A dedicatória, colocada com ênfase na primeira página do volume, é simples e direta:

 

                                               “A Silvio de Castro

cordialmente

                                                               Manuel Bandeira”

 

                        Com uma outra figura histórica da poesia brasileira, Cassiano Ricardo, o ritmo de nossas relações é muito mais intenso. Isto pela natureza aberta do grande analista de O Homem Cordial (estudos brasileiros), de 1959, aquela mesma de que era feito o grande poeta Cassiano Ricardo, o mesmo que recobre magicamente e sempre novo todos os tempos das três Gerações da poesia contemporânea do Brasil. O meu relacionamento com o criador do Martim Cererê, já precedentemente existente pelos nossos encontros nas famosas reuniões das quintas-feiras da ABL, se intensifica a partir de 1959 e em particular depois da entrevista que fiz com o Poeta e publiquei, com o título de “Aqui fala Cassiano Ricardo”, nos Cadernos Brasileiros, n° 3, Rio de Janeiro, outubro-dezembro de 1959, pp. 54-63 (depois reproduzida como apêndice n° 3 no meu Modernização e Modernidade. Poetas Contemporâneos da Academia Brasileira de Letras, Edições Galo Branco, RJ, 2006). Certamente em correspondência com esta entrevista se coloca a expressiva dedicatória-abertura da parte mais significativamente experimental, “Babilônia“, da obra-prima de Cassiano, o volume de poemas Jeremias Sem-chorar, de 1964. quando eu já estava nas minhas atividades italianas desde 1962 e, somente por isso, não mais tinha oportunidade de um colóquio direto com o grande poeta paulista, como muitas vezes antes tínhamos, até mesmo por via telefônica. Cassiano Ricardo me dedicou pessoalmente dois de seu livros de poesia, ambos de 1960:  A Difícel Manhã e Montanha Russa.  No primeiro, ele escreve com a sua bela caligrafia:

 

 

                                               “A Sílvio Castro

                                               - afetuosamente,

                                               e com alto apreço –

                                                           Cassiano Ricardo          1961”

 

Com a mesma intensidade de comunicação ele me dedica o volume de seu genial Montanha Russa:

 

                                               “A Silvio Castro

com a admiração

e o afetuoso abraço

do

Cassiano Ricardo          1961“

 

                        Um pouco diversa, mas igualmente plena de cordialidades  e afeto, é a história de meus relacionamentos com Carlos Drummond de Andrade. A sua cordialidade não teve jamais a expressividade daquela muito mais genericamente brasileira de Cassiano Ricardo. Não era por nada que ele era inteiramente mineiro, de corpo e espírito. Por isso, como já o dissera num dos seus admiráveis poemas, muito do ferro da paisagem de Minas estava incrostrado no seu ser mais profundo. Porém, ainda que assim ferroso, Drummond era pleno de participação com o mundo e com os outros homens. Desta maneira o vi desde a primeira vez, aonde não sei mais, porém certamente num lugar público, possivelmente na generosa Livraria São José, aonde ele estava silencioso entre os livros, vez por outra se distraia com as perguntas muito cautas de Carlos Ribeiro, ou recebia com meio-sorriso os cumprimentos de um admirador. Depois, muitas vezes nos cruzamos quando de sua saída diária do trabalho no Ministério da Educação, debaixo dos pórticos sustentados pelos pilotis da invenção nascida de um modelo de Le Corbusier e realizada pela criatividade de jovens arquitetos brasileiros, como Oscar Niemeyer, em pleno crescimento na direção de muitas outras construções mágicas. Então nos saudávamos mais com a cabeça e leves gestos do que com as palavras. Pois estas, Drummond quase sempre as reservava para os seus poemas encantatórios. Porém, ele estava atento ao jovem que crescia lentamente no movimentado ambiente literário da Cidade Maravilhosa. Assim um dia, já aposentado, mas vivendo uma missão especial no Instituto Nacional do Livro, justamente aquela da programação de uma Enciclopédia Brasileira, ele lembrou-se do jovem prometente e o chamou para colaborar na empresa. Um pouco mais loquaz era possível encontrá-lo nas costumeiras reuniões no apartamento do Leblon, de Plínio Doyle, nas conversações dos muitos sábados sabadolianos, nos quais ainda que presente Drummond escutava mais do que falava. Sempre mineiro. De Carlos Drummond de Andrade, perdida a dedicatória das Obra Poética, tão sorrateiramene substraida-me na remessa do Correio carioca, tenho em mãos uma outra, aquela da 3ª. edição das poesias de Corpo, feita pela Record, Rj, em 1984:

 

                                                           “A Sylvio de Castro,

o abraço cordial de

Carlos Drummond de Andrade

Rio, 5. XII. 84“

 

                        Não o tendo jamais encontrado pessoalmente no Rio antes de sua partida para a Itália como um aparentemente simples leitor brasileiro em missão do Itamaraty, quando em verdade ele ia para a Universidade de Roma para alargar o espaço do ensino da língua portuguesa da capital italiana, bem como aquele das literaturas do Brasil e de Portugal, que Luciana Stegagno Picchio criara e projetara com verdadeiro espírito pioneiro, eu irei conhecer o Poeta quando também eu me desloco para a Itália. Murilo chegou na Universidade de Roma para, ao lado da literatura portuguesa ensinada por Luciana, colocar com ênfase a melhor visão possível da literatura brasileira. Ali vou encontrá-lo, quando em 16 de novembro de 1962 chego a Roma, com um vôo da Panair que bateu então o record de tempo para o percurso Rio-Roma. Chegado na capital italiana, invés de partir diretamente para Veneza, minha meta universitária, eu vindo como viera Murilo como leitor brasileiro, logo resolvi adiar a minha chegada às terras venezianas, ficando por 15 dias para melhor conhecer a Capital, hospedado na casa romana de meu caríssimo amigo Luiz Fernando Nazareth, o jovem 2° secretário que genialmente descobriu que o histórico palácio da Piazza Navona, sede da Embaixada brasileira, jamais fora tombado, depois do que convenceu o nosso embaixador  de então a contratar com os herdeiros Doria Pamphili a compra do belíssimo palácio. Luís Fernando logo criou uma reunião em sua casa no elegante bairro Parioli, na qual me apresentou Luciana Stegagno Picchio, bem como me fez rever o grande poeta, em companhia de sua mulher portuguesa, Maria da Saudade Cortesão. Depois, antes de partir para Veneza, tornei a encontrar Murilo, fato que iria repetir-se em várias ocasiões, em Roma ou em Veneza, antes que o poeta deixasse definitivamente a Itália e partisse para Portugal, onde viria a falecer. Naquele encontro de 1962 foi quando ele me presenteou a edição italiana de uma recolha de seus poemas. O volume encadernado é: Murilo Mendes, Poesie, organização de Ruggero Jacobbi, traduções de Anton Angelo Chiocchio, Ruggero Jacobbi, Luciana Stegagno Picchio e Giuseppe Ungaretti, Nuova Accademia Editrice, Milão,1961. A dedicatória do volume a mim destinado diz com grande visibilidade numa caligrafia em letras de imprensa:

 

                                                           “PARA SILVIO CASTRO,

                                                           COM OS MELHORES

                                                           AUGURI

                                               POR UMA FELIZ ESTADIA NA

                                                           ITÁLIA

                                                           E O ABRAÇO MUITO CORDIAL

                                                           DE

                                                                                  Murilo Mendes.

                                                           ROMA

                                                           21. NOVEMBRO1962.”

 

 

publicado por João Machado às 10:00
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Sábado, 2 de Abril de 2011

A dedicatória – Livros dedicados pelos autores ao crítico / 1, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 

-  Introdução -

 


 

 

                        Muito pouco estudada, a retórica da dedicatória feita a mão no próprio livro e destinada a um outro escritor, predominante um crítico, oferece as mais variadas possibilidades para atenta reflexão sob tantas perspectivas, em especial aquelas referentes à história da literatura e à crônica da vida literária. Mas, além dessas angulações mais tecnicamente ligadas a dois setores que se consideram sérios, quando a retórica da dedicatória vem equacionada, outras talvez menos sérias podem oferecer elementos de enriquecimento para aqueles que participam ativamente a uma tal discussão. Para melhor exemplificar possíveis casos dessa natureza, passo a relatar sobre dois episèodio que me aconteceram e marcaram. Ambos se referem a roubos de livros dedicados ou furtos somente da direta dedicatória. Quanto ao primeiro caso, posso contar aqui o que me aconteceu em 1983, no Rio de Janeiro, e que se refere a um livro de poesia de Carlos Drummond de Andrade. Em síntese, estava sendo lançada naquele ano a magnífica edição da Obra Poética de Carlos Drummond de Andrade (19 livros de poesia), Nova Reunião, em 4 vols, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1983. Estando de férias na minha Cidade Maravilhosa, um certo dia vejo chegar-me um pacote que continha os vols. III e IV da dita obra. Os outros dois iniciais volumes jamais me chegaram às mãos. Quando, dois sábados seguintes a este fato, partecipo da viva e tradicional reunião do “Sabadólio”, isto é, o encontro de escritores na casa no Leblon do bibliófilo Plínio Doyle, ex-diretor da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ali encontrei o grande poeta e logo lhe contei o episódio. Carlos Drummond me confirmou de haver feito uma dedicatória dos quatro volumes na página de rosto do vol. I. Recordava-se igualmente que os livros eram remetidos aos destinatários, com endereço também do remetente, em dois pacotes. Depois de trocarmos muitas idéias sobre o episódio, ficamos convencidos que o pacote com o vol. I fora identificado e retido furtivamente por um funcionário dos Correios cariocas, certamente colecionador de dedicatórias. Era mais uma demonstração de que a antiga instituição dos Correios do Rio de Janeiro, criada em 1817, em pleno período joanino, se fizera uma verdadeira escola de amor pela literatura nacional...

 

                        O segundo episódio ocorre anos antes e em Veneza. Corriao ano de 1965. Eu,  chegado a Veneza em novembro de 1962, com destinação às minhas definitivas (então eu ainda ignorava que assim teria sido no próximo futuro) atividades universitárias italianas, no início de 1964, superando a primeira locação na Casa Universitária, eu alugara um belo, ainda que pequeno, apartamente mobiliado, situado no popular bairro veneziano de Castelo. Em junho de 1965, devendo viajar em férias para o Rio, e era a primeira vez que o fazia desde o início da minha nova vida na Itália, entrei em acordos com os proprietários do apartamento quanto a suspensão momentânea do meu aluguel. Já sabíamos que o mesmo interessava a um jovem casal de bolsistas americanos, apenas chegados diante das águas de Veneza. No acordo que fiz com os proprietários do apartamento constava que eu deixava ali também a minha biblioteca, sempre in progress. Viajei tranquilo e feliz porém, retorno três meses depois a Veneza abatido pela morte de meu pai. Ele faleceu diante do filho tanto esperado, e por uma última vez, como um dom da vida que se ia para sempre. Quando me reinstalo no meu apartamento de Castelo, naturalmente começo logo a retomar em mãos os meus livros. Foi quando, pegando por acaso a bela edição em papel biblia do Decamerão bocacciano de 1960 (Giovanni Boccaccio, Il Decamerone, ottava edizione integrale, pref. e glossario di Angelo Ottolini, Editore Ulrico Hoepli, Milano, 1960), presente do meu querido amigo Luís Fernando Nazareth, diplomata e poeta, então 2º. Secretário da Embaixada brasileira em Roma, mais tarde um dos mais brilhantes embaixadores do Brasil contemporâneo, me surpreendo ao ver que faltava a página de rosto do volume, justamente aquela com a bela e afetuosa dedicatória de meu amigo. Revelava-se assim aos meus olhos sempre curiosos a existência de novos colecionadores de dedicatórias, mas até mesmo daquelas endereçadas a outras pessoas...

 

 A diferença negativa existente entre os larápios estadudinenses e aquele dos Correios carioca é que esse amava também os livros...

 

                    Tratando da retórica da dedicatória, além de qualquer outro elemento apenas de derivação, me vejo interessado a algumas questões teóricas, diversas das já lembradas, referentes à história da literatura e à vida literária, mas essas outras já de direto interesse quanto à compreensão do problema da recepção que me conduzia desde o momento em que decidi a coligir, na minha biblioteca de média dimensão e que não supera os cinco mil volumes, os livros com dedicatórias a mim endereçadas especialmente. Assim agindo, logo constatei que o fazia tão somente em relação aos exemplos de remessas para mim de ofertas manualmente autografadas e que não trataria de outras formas de dedicatórias, a principal das quais consideramos aquela pela qual vem impressa na abertura do livro a dedicatória que o autor faz a um confrade a ser homenajeado. Entre os casos desse último tipo, referidas diretamente a mim, logo encontro entre os livros agora coligidos dois particulares exemplos, o de Eduardo Portella, no seu ensaio Cruz e Sousa, de 1961, em edição do Anuário da Literatura Brasileira, e aquele de Cassiano Ricardo que me dedica o seu livro mais especificamente vanguardista, “Babilônia“, parte de seu genial volume de poemas, Jeremias Sem-chorar, de 1964,em edição José Olympio.

 

                        Tratando de dedicatórias, logo verifico que entro especificamente no campo mais amplo dos gêneros literaterários. Tão amplo que contém até mesmo a auto-biografia e o livro de memórias. Fundindo as duas possíveis práticas literárias,  por enquanto naturalmene em grandes sínteses, tenho desde logo uma grande surpresa: constato como as centenas de dedicatórias, que acabo de coligir,  traduzam em amplas e variadas linhas a minha atividade literária começada nos primeiros anos da década de 1950, atividade sempre em continuação, e como tais dedicatórias me possam dar uma espécie mesma de minha dimensão de literato. Analisando essas centenas de comunicações excepcionais, posso percorrer, procurando não deixar-me tomar pela vaidade, a importância que a literatura sempre teve e tem para mim, bem como o fato de que a minha atividade literária tenha alcançado tão viva recepção entre os meus confrades, não só brasileiros, como veremos mais abaixo. Este capítulo de uma minha possível auto-biografia se me depara de surpreeendente força e dinamicidade. Com ele me reintegro num percurso vivo de interrelações que me fizeram crescer sempre; um crescimento que retomo nestes momentos mais de meu profundo subconsciente, do que habitualmente eu traduza em meus naturais gestos quotidianos.

 

  E rememorando tantos e gratos eventos me se prospecta um livro de memórias que parte da Cidade Maravilhosa e chega até a minha sempre mágica vivência de Veneza.

 

                          O trabalho que começo com as presentes páginas, ainda que sintético, deverá tratar de tantas coisas e gentes. Isto porque, percorrendo em constantes surpresas os meus livros, vejo que os testemunhos de apreço e amizade que me chegaram são tantos e de forte impacto. Eu sempre desejei, desde as minhas primeiras experiências literárias, unir poesia e crítica, ao mesmo tempo que me abria para a narrativa e para o ensaio. As presentes e outras dedicatórias que não aparecerão nessa oportunidade dão um testemunho surpreendente de como esse meu empenho atingia o meio externo. São tantos esses testemunhos que tenho a necessidade de dividir o meu atual trabalho de seleção e análise em várias partes. Esta primeira tem o sentido de uma introdução à questão e de uma derivada elaboração teórica. A ela seguirão outras, interessadas aos diversos gêneros aos quais os livros a mim dedicados pertencem. Começarei com os livros de poesia, seguindo aqueles outros de narrativa em geral (romances, contos), ensaio (de teoria e  crítica literária, crítica de arte, etc), bem como outros gêneros literários.

 

   Para começar, são dezenas e centenas esses livros de poesia com dedicatórias, de autores brasileiros, portugueses, italianos e, bela surpresa, também de outras origens: angolanos, espanhóis, galegos, catalanos. E, mais surpresa ainda, um húngaro e um esloveno. E por fim, um guatemalteco, o poeta Miguel Angel Astúrias, Prêmio Nobel para a literatura, em 1967, conhecido na sua viagem italiana a convite da Universidade Ca’ Foscari, de Veneza.

 

                        Mas, igualmente para a narrativa, ensaio e outros gêneros, a história será quase a mesma. Então retomarei os meus contactos com os romancistas e contistas brasileiros, portugueses, italianos; terei mais uma vez em mãos os ensaístas, de todos os assuntos e de todos os ângulos. Tudo isso num grande diálogo que as dedicatórias autografadas fixaram para sempre.

 

 

 

publicado por João Machado às 10:00
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Domingo, 6 de Março de 2011

A dedicatória – Livros dedicados pelos autores ao crítico / 1, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 


 


 

                        Muito pouco estudada, a retórica da dedicatória feita a mão no próprio livro e destinada a um outro escritor, predominante um crítico, oferece as mais variadas possibilidades para atenta reflexão sob tantas perspectivas, em especial aquelas referentes à história da literatura e à crônica da vida literária. Mas, além dessas angulações mais tecnicamente ligadas a dois setores que se consideram sérios quando a retórica da dedicatória vem equacionada, outras talvez menos sérias podem oferecer elementos de enriquecimento para aqueles que participam ativamente a uma tal discussão. Para melhor exemplificar possíveis casos dessa natureza, passo a relatar sobre dois que me aconteceram e marcaram. Ambos se referem a roubos de livros dedicados ou furtos somente da direta dedicatória. Quanto ao primeiro caso, posso contar aqui o que me aconteceu em 1983, no Rio de Janeiro, e que se refere a um livro de poesia de Carlos Drummond de Andrade. Em síntese, estava sendo lançada naquele ano a magnífica edição da Obra Poética de Carlos Drummond de Andrade (19 livros de poesia), Nova Reunião, em 4 vols, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1983. Estando de férias na minha Cidade Maravilhosa, um certo dia vejo chegar-me um pacote que continha os vols. III e IV da dita obra. Os outros dois iniciais volumes jamais me chegaram às mãos. Quando de dois sábados seguintes partecipo da viva e tradicional reunião do “Sabadólio”, isto é, o encontro de escritores na casa no Leblon do bibliófilo Plínio Doyle, ex-diretor da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ali encontrei o grande poeta e logo lhe contei o episódio. Carlos Drummond me confirmou de haver feito uma dedicatória dos quatro volumes na página de rosto do vol. I. Recordava-se igualmente que os livros eram remetidos aos destinatários, com endereço do remetente, em dois pacotes. Depois de trocarmos muitas idéias sobre o episódio, ficamos convencidos que o pacote com o vol. I fora identificado e retido furtivamente por um funcionário dos Correios cariocas, certamente colecionador de dedicatórias. Era mais uma demonstração de que a antiga instituição dos Correios do Rio de Janeiro, criada em 1817, se fizera uma verdadeira escola de amor pela literatura nacional...

 

                        O segundo episódio ocorre anos antes e em Veneza. Corria o ano de 1965. Eu, desde 1964, chegado a Veneza em novembro de 1962, com destinação às minhas definitivas (então eu ainda ignorava que assim teria sido no próximo futuro) atividades universitárias, no início de 1964 eu alugara um belo, ainda que pequeno, apartamente mobiliado, situado no popular bairro veneziano de Castelo. Em junho de 1965, devendo viajar em férias para o Rio, e era a primeira vez que o fazia desde o início da minha nova vida italiana, entrei em acordos com os proprietários do apartamento quanto a suspensão momentânea do meu aluguel. Já sabíamos que o mesmo interessava a um jovem casal de bolsistas americanos, apenas chegados diante das águas de Veneza. No acordo que fiz com os proprietários do apartamento constava que eu deixava ali também a minha biblioteca, sempre in progress. Viajei tranquilo e feliz, porém retornando três meses depois a Veneza abatido pela morte de meu pai, falecido diante do filho que ele esperava de ver pela última vez, como um dom da vida que se ia para sempre. Quando me reinstalo no meu apartamento de Castelo, naturalmente começo logo a retomar em mãos os meus livros. Foi quando, tomando por acaso a bela edição em papel biblia do Decamerão bocacciano de 1960 (Giovanni Boccaccio, Il Decamerone, ottava edizione integrale, pref. e glossario di Angelo Ottolini, Editore Ulrico Hoepli, Milano, 1960), presente do meu querido amigo Luís Fernando Nazareth, diplomata e poeta, então 2º. Secretário da Embaixada brasileira em Roma, mais tarde um dos mais brilhantes embaixadores do Brasil contemporâneo, me surpreendo ao ver que faltava a página de rosto do volume, justamente aquela com a bela e afetuosa dedicatória de meu amigo. Revelava-se assim aos meus olhos sempre curiosos a existência de novos colecionadores de dedicatórias, mas até mesmo daquelas endereçadas a outras pessoas... A diferença negativa existente entre os larápios estadudinenses e aquele dos Correios carioca, é que esse amava também os livros...

 

                        Tratando da retórica da dedicatória, além de qualquer outro elemento apenas de derivação, me vejo interessado a algumas questões teóricas, diversas das já lembradas referentes à história da literatura e à vida literária, mas já de direto interesse quanto a compreensão do problema da recepção que me conduzia desde o momento em que decidi a coligir, na minha biblioteca de média dimensão e que não supera os três mil volumes, os livros com dedicatórias a mim endereçadas especialmente. Assim agindo, logo constatei que o fazia tão somente em relação aos exemplos de remessas para mim de ofertas manualmente autografadas e que não trataria de outras formas de dedicatórias, a principal das quais consideramos aquela pela qual vem impressa na abertura do livro a dedicatória que o autor faz a um confrade a ser homenajeado. Entre os casos desse último tipo, referidas diretamente a mim, logo encontro entre os livros agora coligidos dois particulares exemplos, o de Eduardo Portella, no seu ensaio Cruz e Sousa, de 1961, em edição do Anuário da Literatura Brasileira, e aquele de Cassiano Ricardo que me dedica o seu livro mais especificamente vanguardista, “Babilônia“, parte de seu genial volume de poemas, Jeremias Sem-chorar, de 1964,em edição José Olympio.

 

                        Tratando de dedicatórias, logo verifico que entro especificamente no campo mais amplo da literatura. Tão amplo que contém até mesmo a auto-biografia e o livro de memórias. Fundindo as duas possíveis práticas literárias,  por enquanto naturalmente em grandes sínteses, tenho desde logo uma grande surpresa: constato como as centenas de dedicatórias, que acabo de coligir,  traduzam em amplas e variadas linhas a minha atividade literária começada nos primeiros anos da década de 1950, atividade sempre em continuação, e como tais dedicatórias me possam dar uma espécie mesma de minha dimensão de literato. Analisando essas centenas de comunicações excepcionais, posso percorrer, procurando não deixar-me tomar pela vaidade, a importância que a literatura sempre teve e tem para mim, bem como a minha manifestação tenha alcançado tão viva recepção entre os meus confrades, não só brasileiros, como veremos mais abaixo. Este capítulo de uma minha possível auto-biografia se me depara de surpreeendente força e dinamicidade. Com ele me reintegro num percurso vivo de interrelações que me fizeram crescer sempre; um crescimento que retomo mais de meu profundo subconsciente, do que habitualmente eu traduza em meus naturais gestos quotidianos.

 

  E rememorando tantos e gratos eventos me se prospecta um livro de memórias que parte da Cidade Maravilhosa e chega até a minha  sempre mágica vivência de Veneza.

 

                        O trabalho que começo com as presentes páginas, ainda que sintético, deverá tratar de tantas coisas e gentes. Isto porque, percorrendo em constantes surpresas, os meus livros, vejo que os testemunhos de apreço e amizade que me chegaram são tantos e de forte impacto. Eu sempre desejei, desde as minhas primeiras experiências literárias, unir poesia e crítica, ao mesmo tempo que me abria para a narrativa e para o ensaio. As presentes e outras dedicatórias que não aparecerão nessa oportunidade dão um testemunho surpreendente de como esse meu empenho atingia o meio externo. São tantos esses testemunhos que tenho a necessidade de dividir o meu atual trabalho de seleção e análise em várias partes. Esta primeira tem o sentido de uma introdução à questão e de uma derivada elaboração teórica. A ela seguirão outras, interessadas aos diversos gêneros aos quais os livros a mim dedicados pertencem. Começarei com os livros de poesia, seguindo aqueles outros de narrativa, ensaio, bem como outros gêneros literários. São dezenas e centenas esses livros de poesia com dedicatórias, com autores brasileiros, portugueses, italianos e, bela surpresa, também de outras origens: angolanos, espanhóis, galegos, catalanos. E, mais surpresa ainda, um húngaro e um esloveno. E por fim, um guatemalteco, o poeta Miguel Angel Astúrias, Prêmio Nobel para a literatura, em 1967, conhecido na sua viagem italiana a convite da Universidade Ca’ Foscari, de Veneza.

 

                        Mas, igualmente para a narrativa, ensaio e outros gêneros, a história será quase a mesma...

 

 

publicado por João Machado às 15:00

editado por Luis Moreira às 15:26
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Sábado, 22 de Janeiro de 2011

Pequenas traições entre amigos

 

 

 

 

 

 

 

 

Carla Romualdo

 

 

Recentemente veio parar-me às mãos um livro cujo particular interesse consiste na dedicatória do seu autor a um outro escritor, ambos contemporâneos e figuras bem conhecidas das letras portuguesas. O alfarrabista que mo enviou descreveu-mo em traços gerais, eu estava ocupada com outra coisa e respondi-lhe um tanto mecanicamente, disse-lhe que sim, que mo mandasse, e o livro haveria de estar pousado alguns dias aqui na mesa, um inofensivo embrulho castanho, atado com esse cordel que já só os alfarrabistas usam, até eu por fim me decidir a desfazer o embrulho.

 

A dedicatória era muito mais afectuosa do que eu supunha. Não vinha tingida de cortesia hipócrita, parecia genuinamente reveladora de amizade e respeito entre dois colegas de ofício que, de resto, me parecem pertencer à mesma família literária.

 

O livro fora lido. A capa quebrada, as marcas na lombada mostravam-no bem. E vinha anotado, ao que parece por quem o recebera. E apesar de tudo isto, o livro fora despachado e acabara no mercado dos livros em segunda mão, sabe-se lá por que caminhos ou vielas lá foi parar, mas certo é que esse foi o seu destino.

 

Conhecem a história de V.S. Naipaul, o grande romancista laureado com o Nobel em 2001, e do seu discípulo Paul Theroux? Quando Theroux começou a publicar foi oferecendo as suas obras a Naipaul, que o havia encorajado a escrever, enchendo-as de dedicatórias afectuosas e reconhecidas. Anos mais tarde, num desses acasos que parecem saídos da cauda pontiaguda de um demoniozinho travesso, Theroux descobriu que um alfarrabista tinha para venda várias primeiras edições da sua obra, todas elas com uma dedicatória a… isso mesmo. Naipaul – ou, ao que consta, a sua jovem mulher, com quem casara dois meses após a morte da primeira – vira-se livre de todos os livros oferecidos por Theroux.

 

 

publicado por CRomualdo às 16:00

editado por João Machado em 21/01/2011 às 20:02
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