Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Manuela Degerine, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

Poema Vermelho

 

 

Vermelho é o sol.

Vermelhas são as papoulas no quadro de Claude Monet e na tijela onde, todas as manhãs, bebo o chá. (Escolho às vezes chá vermelho.)

Vermelhas são as bocas.

Vermelhos são – às vezes – os narizes, vermelhas podem tornar-se as mãos...

Vermelhas são a febre, a cólera, o prazer e a vergonha.

Vermelha e verde é a bandeira portuguesa.

Vermelho é o sangue.

Vermelha é muitas vezes a terra.

Vermelho é o Mar.

Vermelho é o nariz do palhaço.

Vermelho é o último: o lanterna vermelha.

O Vermelho e o Preto é um romance.

Vermelho é Rackham, o pirata de Hergé, no título francês: Le Trésor de Rackham le Rouge; em português foi traduzido por  Rackham o Terrível. O vermelho é portanto terrível.

Vermelho é o Capuchinho. (O lobo é preto.)

Vermelho é o inferno. Vermelhos são os anjos do fogo: os bombeiros. (Que muitas vezes são bombeiras – os anjos têm sexo e o inferno tem anjos.)

Vermelhas são (na praia) as peles mas as caras são pálidas.

Vermelha é a vinha no Outono.

Vermelhos são os frutos: romãs, cerejas, groselhas, morangos, framboesas... (O sabor e o perfume das palavras vermelhas!)

Vermelha é a salada de beterraba.

Vermelho é o pau brasil.

Vermelhas são as figuras nos vasos gregos.

Vermelho é o stop, vermelho o sinal (a proibição é vermelha). Vermelha é a caneta da professora...

Vermelho o botão, vermelha a luz, vermelho o telefone...Vermelha a situação, antes de chegar a negra. Vermelhas são as estradas portuguesas.

Vermelhos são os Correios de Portugal.

Vermelho é o vinho.

Vermelha é a carne nos supermercados: vermelho é o sangue-de-boi.

Vermelho é o ouriço Strongylocentrotus franciscanus.

Vermelho é o peixe do aquário.

Vermelha é a joaninha.

Vermelha é a cochonilha.

Vermelhos são os telhados em Lisboa (em Paris são cinzentos).

Vermelha é a cíclica flor feminina.

Vermelhas são as brasas: o renascer.

Vermelho é o fogo que arde sem se ver: vermelha a paixão.

Vermelho é o rubi.

Vermelho é o carmim.

(Vermelhas são as minhas luvas, vermelhas as minhas botas.)

Vermelho é o pintassilgo.

Vermelho é o luxo: o tapete vermelho.

Vermelho-púrpura são os generais, os patrícios, os cardeais, os imperadores...

Vermelho é o goles heráldico. (Vem do francês gueules.)

Vermelha é a Cruz, vermelho é o laço.

Vermelha é a água quente.

Vermelha era a revolução. (Há-as agora de outras cores.)

Vermelho era o Exército, Vermelhos eram os Coros do Exército. Vermelha é ainda a Praça.

Vermelho era O Livro, vermelhos os guardas de Mao Tsé-Tung...

Vermelho é o cravo.

Vermelho é Abril em 1974.

(Vermelha é a transgressão: pisamos um risco vermelho.)

Vermelho é o verbo.

 

Nota Bene: Os vermelhos não são encarnados – embora possam igualmente sê-lo. A festa do Avante é vermelha mas a do Colete é encarnada – tal como a do Benfica. (O alerta, o feijão e a águia também são encarnados.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 16/01/2011 às 02:22
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Augusta Clara de Matos, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Física do Quadro


 

 

 

 

 

 

 


Tu, quadro, poema à procura das palavras, que me aconteceste quando eu menos te esperava e me provocaste um turbilhão maior que o big bang. Entraste-me por aqui dentro, agora, o que queres que eu faça? Viver-te, o que há-de ser? Tens a beleza do que só se sente e não precisa de ser “entendido”. Também, pudera, já és eu…Como não havia de te saber? Vive-me tu agora para me ajudares a definir-te. Não te chamei, nem te queria especialmente mas já sou das tuas cores: do púrpura do sangue, do azul do beijo, do amarelo que destoa, como a vida. Já sabia, quadro, nalgum recanto de ti havias de destoar. Mas que importa, se o prisma retroceder e só ficar a luz, o seu fulgor, sem nome nem cor?!

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 16/01/2011 às 02:19
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Domingo, 16 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Raúl Iturra, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Tenho observado com atenção a arte que pratica Adão Cruz. Há a poesia, há a literatura, há a pintura. Nota-se não apenas neste pastel um profundo sentido de tristeza, salvo pelo amor do casal à direita do quadro. Pelas suas palavras trocadas comigo, ele tem admirado a minha teoria dos sentimentos na literatura, como eu tenho trocado com ele palavras sobre esse sentimento denominado amor. A sua outra arte, a de curar, faz das suas pinturas um desenho obscuro, excepto no sítio do amor, do casal que aparece nas partes claras da pintura. Após ter observado as suas palavras que falam pelas cores, tenho sido capaz de apreciar a profundidade do seu afecto pela humanidade. Como faz com a sua arte de curar, melhora as nossas almas,  como Kandinski e a sua arte figurativa, ou Van Emden, da escola abstracta, não têm sido capazes de limpar em nós. A pintura que comento é de 2002, época de começos, esmaecidos nas suas pinturas mais recentes.

 

Confesso que fazer arte com palavras sobre a arte de Adão Cruz, não é tarefa simples, mas ilumina o nosso olhar sobre a humanidade e ficamos mais contentes, no meio da tristeza representada como figurativa.

 

Agradeço esta oportunidade de falar da pintura de Adão Cruz

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 15/01/2011 às 18:24
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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Luís Rocha, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

“Amor Intemporal”

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

O nome que lhe atribuo reflecte o que sinto com a visão e sensibilidade que a pintura me transmite. As cores e imagens, num ambiente sombrio com um pequeno rasgo de luz, da casa difusa, da presença da natureza e dos corpos despidos que se confortam com o seu calor, reflectem a sensibilidade do autor à intemporalidade do amor.

publicado por João Machado às 08:00
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Fernando Correia da Silva, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Adão conduz a luta contra o Nada (a Cor Lisa) e vários corpos surgem no Arco-Íris que nasce numa cruz.

Por isso lhe dão o cognome d'El-rei Povoador. Também há quem lhe chame Adão Cruz.

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 11/01/2011 às 22:06
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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Paulo Rato, quadro de Adão Cruz

 

 

O Novelo de Penélope


 

 

 

 

O pintor tece forma e cor em seu tear interior. A tela ─ com sua tessitura ─ espera, nua. E interpela. O pintor constrói o gesto que em si germina, lança o traço, a mancha, o rasto que a mão recolhe do que lhe viajou o corpo ─ cada poro, fibra, veia, osso. A tela vibra, teme ─ ou deseja? ─ a fortuita irrupção das nocturnas mãos daquela mulher de Ítaca, não nela, mas na trama do pintor, suspenso em seu desígnio. Sabe (a tela) que Odisseus decidirá o derradeiro laço. Conhece o arco, o sangue, o sémen. O selo.

 

De novo a tela espera, com seu vestido, inteiro. Um outro olhar, não já o do pintor, a desvela. Nela verá três mulheres ─ três anjos de sexo azul? ─ e vermelhos vestígios ─ de sangue ou anseio? ─ e véus velas asas voos. É este olhar, alheio, que agora a interpela. E parte, por ela, em

 

busca

 

da memória do novelo de Penélope.

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 12/01/2011 às 22:47
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Júlio Marques Mota, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

Refazer a realidade,  senti-la  na sua falta de precisões, de contornos, de  delimitações,  problemas que não são dela mas  da nossa visão, ou da nossa incapacidade de ver o mundo, parece-me ser a perspectiva deste quadro que nos reenvia, por isso mesmo para a nossa capacidade de imaginação. Olhar para este quadro, hoje, é como se esteja a ver a realidade surda e violenta, violência, não palpável, não delimitável, violência na nossa vida mais íntima à violência nas fábricas, no mundo onde se constrói o mundo!  Salva-nos a beleza de um corpo que não sabe se quer expor, salva-nos a beleza de um outro corpo que se deseja, que se mostra nos seus contornos, mas só contornos,  e  parece que não se tem, não se pode ter ou será que nem sequer se quer dar?. Mesmo aqui, o não à vontade parece uma constante, de quem se quer dar, de quem quer dar, mas também já não se sabe bem  a quem! Os amarelos, confirma-nos esta mesma ideia, os amarelos, a tensão, diremos da nossa incomodidade , e os cinzentos das fábricas, do mundo, tapam-nos um pouco a perspectiva, a dizer que os temos de limpar, de eliminar, se o para além da tristeza daqui queremos na verdade alcançar..  Tudo isto  a lembrar outros pintores, como o não pintor, Michelangelo Antonioni, do Deserto Vermelho,  apenas que aqui, diferentemente de lá, a vida não parece um plano inclinado ao fundo do qual não está ninguém. Cito de cor Monica Viti. E um último olhar para a ternura da relação naquele  casal, símbolo dos tempos que correm em que o que resta, o que recupera, o que dá vida é  ainda e apenas  o amor.. , Pinta-se a vida, dá-se cor à alma, dá cor à esperança. E a vida é assim.

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 11/01/2011 às 02:07
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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de Andreia Dias, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

Só mais um beijo! Um só… para que o leve e o conserve… neste meu mundo intermitente. Ficará quentinho e aconchegado no meu peito, na recordação, … até ao nosso reencontro. Aí poderei renová-lo e avivá-lo com um lustre de ternura.

 

Tu tens raízes nos pés que te deixam ficar, mas as minhas asas não me permitem. Mesmo querendo permanecer ao teu lado, voo, voo … para longe … só, mas preenchida. Sempre volto! Mais rica, mais sensível, mais mulher. Sei que estarás à minha espera… sempre!

 

Com o afago do teu último beijo, ultrapasso as tormentas e levanto-me cada vez que tombo. É tão bom saber que estás aí… mesmo que longe… para sempre… à minha espera!

publicado por João Machado às 08:00
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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

Artexto - texto de António Sales, quadro de Adão Cruz

 

 

No contraste pesado das cores os elementos representam-se como sementes do drama e da euforia da paixão.

 

Filhos da tempestade dos sentidos vivem no seio de arrebatadas emoções e os sentidos tanto nos mergulham no negrume nas trevas do arrependimento como na sensualidade carnuda do carmim que alimenta a seiva sexual da natureza dos corpos.

 

Nesta dicotomia é como se existissem um dominado e um dominante ou nenhum deles ou ambos em simultâneo, porque este é o universo em que a realidade existe representada para lá dos componentes pictóricos.

 

Na obra o que cega e explode é a correlação entre escrita plástica e a escrita simbólica; entre o ver e o ler com a sensibilidade de quem procura encontrar-se para além do imediato.

 

Nas dimensões do quadro há uma unidade angustiada, um sofrimento arrebatado porque não chega a explodir para lá dos negros que se sobrepõem ao conjunto como se o amor fosse como um tronco da humanidade capaz de deitar as suas raízes, todavia nem sempre profundas como as da árvore da vida e da morte.

 


publicado por João Machado às 08:00
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