Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

Além Guadiana - Os blogues que preferimos

Seguindo as regras da nomeação para o «Blog de ouro 2010», tendo nós sido nomeados (pelo "Todos Somos Portugal", tivemos de nomear três blogues da nossa preferência». Um deles foi o "Além Guadiana", de Olivença. Transcrevemos o seu texto de apresentação.

Além Guadiana. Ponto de encontro.


Em Portugal, “Além Guadiana” encontra-se Olivença, “A Vila”, com as suas igrejas abraçadas por muralhas, a sua planície salpicada de olivais, quintas e aldeias.

Em Olivença, “Além Guadiana” estende-se Portugal, o país que cresceu a olhar para o mar, o horizonte dos entardeceres oliventinos.

Há muito que Olivença perdeu o seu cordão umbilical com Portugal, mas o tempo ainda não apagou a pegada de séculos nos monumentos, na história, nos costumes, nas palavras, nas cantigas.

Portugal… Luís de Camões, Zeca Afonso, Sintra, Dom Dinis, Fernando Pessoa, Alentejo, Porto, Vasco da Gama, Fátima, Mosteiro de Batalha, Fado, Brasil, Sericaia, Lisboa, Oceano Atlântico, Saudade…

Olivença… Luís Marçal, Frei Henrique de Coimbra, Senhor dos Passos, Misericórdia, Aires Tinoco, Igreja da Madalena, Vicente Lusitano, Caetano da Silva Souto-Maior, Quinta de São João, Bolo Podre, Corridinho, as Maias, Maria da Cruz, Manuelino, Oliveiras, Saudade…

“Além Guadiana” deseja ser um olhar mútuo entre ambos lados do rio, com a cultura como nexo comum. Há muitas histórias por escutar, muito da nossa história partilhada por conhecer. Há um desejo de re-encontrar Portugal a olhar para o outro lado do Guadiana, descobrindo a sua herança do outro lado do mar… mas sobretudo reconhecendo-o na nossa própria terra, em Olivença, através das suas diferentes formas de expressão, muitas vezes quotidianas e amiúde desapercebidas, nas coisas pequenas e grandes que fazem parte do seu legado português. Há una sensação de compromisso para evitar que a memória se perca na noite dos tempos.
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Domingo, 8 de Agosto de 2010

Olivença Espezinhada

Carlos Consiglieri*

 1. Foi preciso chegar aos dias de hoje para se verificar (se assim pudemos afirmar) que em Olivença, apareceram vozes, por ora, ainda, pouco assumidas a defender ideias de autonomia, dentro do quadro legal permitido em Espanha. A verdade é que Portugal (entenda-se por Governo português) não contribuiu, de forma muito visível, para a criação de posições reivindicativas do território ao longo destes dois séculos.  Sabemos que o deveria ter feito, face às responsabilidades nacionais e que ocasiões não faltaram para tal. Nas ausências de tomadas de posição não podemos lamentar que se esbocem, agora, no seio da sociedade oliventina, movimentações no sentido autonómico quando a Espanha revela sinais de desagregação política. Não temos dúvidas que o aparecimento destes sintomas (que se revelarão incómodos para ambos os Governos) resultam do lento processo que fervilha em sectores da população oliventina em resultado das contradições políticas, económicas, sociais e culturais, com maior evidência entre as camadas jovens. Estas, perante a falta de perspectivas locais (em relação as regionais e nacionais) desejam dar um passo em fiente, perante as dificuldades e os bloqueamentos que os isolam no contexto geral. Verificam, que aquele tipo de democracia pouco mais lhe dá que a liberdade em abstracto, que apesar de parecer um dom precioso, não lhes chegam dentro dos conceitos neo-liberais impostos. Desejam mudanças do sistema, com novas e actuais oportunidades de participação na sociedade.


O desemprego, evidencia o carácter desarmonioso do tipo de crescimento que a Espanha tem, com a agravante que todos os aspectos negativos do tipo de desenvolvimento, se reflectem de forma mais negativa, como mal revelam os “números” e os índices “embastelados” nos da denominada Comarca de Olivença – unidade territorial administrativa que integra vários “concelhos” da Extremadura. Talvez, possamos interpretar estas atitudes autonómicas como uma “fuga para a frente”, com dois sentidos: mostrar descontentamento às autoridades centrais e regionais de Espanha; ou recordar o passado (que eles não conhecem bem) como ameaça ou como pronúncia de algo cujo sucesso não alcançamos neste momento. Também sabem que do lado de cá, não poderão contar quase com nada, para além de algum companheirismo e esperança fraterna, pois o Governo de Portugal está enleado numa teia de compromissos e de dependências económicas que entravam a lucidez e as vontades de se encetar seja o que for de aproximação com Olivença e o seu povo.

Convirá, porém, reflectirmos um pouco sobre estas ideias “autonómicas” que parecem a muitos caídas de repente dos céus. Tanto quanto se consegue saber outras ideias estão a surgir, em simultâneo, a militantes de duas estruturas políticas locais – de oposição ao partido que tem gerido o território. É necessário dizer que estamos em cima de eleições autárquicas. Muitos daqueles que ainda “arranham” o português alentejano, por tradição familiar, com apelidos ou alcunhas bem nossos, apesar da aculturação forçada, estão desiludidos, diríamos mesmo amargamente desiludidos. Como reagirão perante este “rebuçado” autonómico? É uma incógnita que convém acompanhar. Há sinais visíveis que pelo menos estas duas forças políticas estão a movimentar-se e a seguir o exemplo do actual presidente de Câmara que tem vindo a Lisboa para se incorporar no desfile do 25 de Abril. Voltaremos nós mais uma vez, a encolher os ombros e a pensar que “essas coisas” nada têm a ver connosco?  A questão de Olivença não deixou, ainda, de ser uma causa transversal na nossa sociedade e na nossa consciência nacional, apesar de ser assumida por minorias de várias ideologias. O exemplo de TIMOR poderá ser evocado.  É que se trata de defender a nossa honra, o nosso património cultural (algum dele defendido pela legislação portuguesa), a língua e as nossas tradições e, ir assim ao encontro do que muitos oliventinos pensam.  2. Há dois séculos que Olivença é espezinhada e Portugal também. Há quem afirme que é tempo suficiente para abandonarmos esta causa.

Se houvesse espanhóis que fizessem o mesmo em relação a Gibraltar, muitas vozes se levantariam no país vizinho – e, quanto a nós com razão, pois apenas passaram três séculos sobre a cedência do rochedo mediterrânico.  Não queremos aqui discutir questões que não nos dizem respeito, mas se a evocamos é para acrescentar a flagrante incoerência de Espanha – num caso diz sim, noutro diz não!  E Olivença está espezinhada porquê? Vejamos. Se em 1801, Olivença era tão importante como Badajoz, um século depois registava menos residentes que à data da ocupação. E, ainda, hoje a população revela índices de crescimento tão lentos que, praticamente, se mantém, em termos absolutos, no mesmo patamar demográfico.  Grande parte da fuga da população para os concelhos limítrofes do Alentejo, no século XIX, está na explicação desta estagnação. Porém, no século XX, registou-se outra fuga em massa, devido à guerra civil e à miséria que assolou a “Província” em que inseriram administrativamente Olivença, o que forçou a uma forte corrente de imigração.


Muitos oliventinos, nessas ocasiões, optaram pelos concelhos limítrofes, particularmente, Vila Viçosa e Elvas, enquanto outros imigraram para a Catalunha e Madrid, ocultando, em muitos casos, a sua naturalidade.  Mas, o abandono no século XIX, não se deu só por parte dos trabalhadores rurais, mas também dos proprietários da terra, sobre os quais foram desencadeadas ameaças e pressões de toda a ordem.  Bastará ler uma história da Estremadura para conhecermos as violências cometidas pelas Leis de Desamortização, os roubos e as pilhagens da propriedade – a apropriação dos baldios, dos bens da Coroa e da Casa do Cadaval, da Misericórdia e a ocupação das quintas das famílias seculares, bem como dos bens dos burgueses que através do comércio começavam a desenvolver a Vila de Olivença.  A par da pilhagem económica, assistia-se a proibição do português como língua e as escolas – públicas e privadas - foram encerradas. A campanha contra a língua portuguesa chega a utilizar exemplos de profundo racismo – “a língua portuguesa é falares de preto”! A Igreja, sob a orientação do Bispo de Badajoz, assume a repressão proibindo o português nos actos religiosos. Também o ensino de história de Espanha irá provocar o desconhecimento de todo o passado oliventino, a par da falsificação de dados históricos, como hoje é corrente e premeditado. E a repressão sobre a identidade? Com a destruição de Cartórios e Arquivos, verificou-se a adulteração de nomes e apelidos portugueses. Hoje há nomes irreconhecíveis, que não são nem portugueses nem espanhóis. E quanto a memória colectiva? A toponímia foi modificada, os epitáfios do Cemitério de Olivença foram ultrajados, grande parte da heráldica destruída. Quem tenha dúvidas – investigue. Vá e veja. Indague como se processou a repressão e quantos enforcamentos houve em Olivença a culminar a diversas formas de violência. Tudo foi feito para amordaçar a consciência, espezinhando-se a liberdade e a memória do povo oliventino.

Atentemos num exemplo. Quando se aguardava que Franco cumprisse a palavra dada a Salazar, Olivença içou a bandeira portuguesa no alto da Torre de Menagem. O incumprimento do “trato” levou ao fuzilamento de “uns tantos” oliventinos .3. “Olivença é um caso que se resolve no próximo ano” – disse Aznar em Lisboa, aos órgãos de comunicação social portuguesa. Foi com este cinismo político que o antigo primeiro-ministro de Espanha respondeu. Mas, do lado de cá, o cinismo é maior porque nem respostas ambíguas ouvimos. De facto, o Tratado de Badajoz de 1801, que concedia o território a Espanha foi denunciado (declarado “nulo e de nenhum vigor”), pelo Manifesto de 1 de Maio de 1808. Por este acto legislativo, jamais revogado e, ainda, legalmente em vigor, a assunção da nossa soberania sobre o território passou a constituir Direito interno, enquanto tal, vinculativo.  O que, no devir histórico, encontrou sempre consagração nas constituições portuguesas, (na de 1911) e nomeadamente na actual que, absolutamente, atendeu a essa assunção, indicando que “Portugal abrange o território historicamente definido no continente europeu” – art.º 5.º - n.º 1, aspecto assinalado por vários dos nossos constitucionalistas: Jorge Miranda, Gomes Canotilho e Vital Moreira.  Proclama-se, ainda, que “O Estado não aliena qualquer parte do território português” (art.º 5.º - n.º 3) e estabelece-se que é “tarefa fundamental do Estado garantir a independência nacional” ( art.º 9), e “assegurar a defesa nacional” bem como, “a integridade do território” ( art.º 273). Então em que ficamos? A quem cabe defender a Constituição? Ao Chefe de Estado? Aos que governam? Ou àqueles que os elegeram para nos representar?

   * Economista e Professor Universitário

Transcrito, com a devida vénia deALAMEDA DIGITAL Nº 10, Novembro/Dezembro de 2007  (Publicado originalmente no Jornal de Coruche) 

Nota da redacção do Jornal de Coruche:

Consultados alguns historiadores especialistas nos anos 30, não nos foi possível encontrar a mínima evidência da combinação de Salazar com Franco sobre Olivença, citada neste excelente artigo do Prof. Consiglieri. O Autor afirma ter recorrido às Memórias de Freitas do Amaral como fonte do facto. 
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

A usurpação

No dia 20 de Maio de 1801, o exército espanhol, num acto de pura traição, toma o concelho de Olivença, usurpando 750 km2 do território de Portugal, incluindo uma das suas vilas mais importantes.  A Vila de Olivença foi conquista pelos portugueses aos mouros, pela primeira vez em 1166. A sua posse definitiva foi reconhecida em 1297, no Tratado de Alcanises, quando foram fixadas as fronteiras entre Portugal e Castela. Durante mais de 600 Anos a sua população bateu-se contra a investidas de Castela e depois da Espanha (a partir de 1492) para preservar a sua identidade nacional Esta usurpação ocorre num momento particularmente dramático para Portugal, dado que vivia sob a ameaça de uma invasão pelo exercito francês. A Espanha aproveita-se desta fragilidade de Portugal, e declara-lhe guerra e num acto de traição, pela força das armas, usurpa um território que não lhe pertencia subjugando uma população indefesa.

Em 1815, após inúmeras manobras negociais, a Espanha compromete-se a devolver aquilo que havia roubado a Portugal, mas acabou por nunca o fazer. Pelo contrário, iniciaram uma sistemática política de genocídio cultural de uma parte do povo português e de ocultação das marcas de um crime.

Apropriaram-se de terras portuguesas Usurparam património português Procuram extinguir lentamente as famílias portuguesas Negaram a identidade cultural aos seus descendentes Ocultaram nomes e referências históricas de modo a esconderam a usurpação. Fizeram tudo isto, também com a conivência de alguns traidores portugueses.   Não era a primeira vez que a Espanha fazia um genocídio cultural semelhante. Fê-lo quando obrigou à conversão forçada ao cristianismo de centenas de milhares de judeus e muçulmanos. Os que resistiram foram mortos ou fugiram espoliados dos seus bens.Na América Latina, os espanhóis exterminaram de uma forma sistemática e esvaziaram da sua identidade cultural cerca de 70 milhões pessoas das Caraíbas, Astecas, Maias, Incas e de tantos outros povos. Os que hoje ai encontramos perderam o sentido primitivo da terra que habitam e dos monumentos que os cercam. Algo semelhante podemos encontrar também em Olivença. Andado pelas ruas desta cidade e pelas antigas aldeias portuguesas que a cercam, o que encontramos são pessoas que reclamam a propriedade de casas, igrejas, monumentos, ruas que foram erigidos por um outro povo com uma outra cultura, a quem carinhosamente tratam por "hermanos".

Esvaziados da sua identidade cultural, a que hoje ostentam e se reclamam são as tradições e a fidelidade à cultura do invasor.  Apenas na Alemanha Nazi e na Ex-União Soviética e na China, no século XX, ocorreram casos semelhantes. É por tudo isto que o caso de Olivença é importante, nomeadamente para compreendermos a forma como se pode exterminar um povo. Olivença pode ser considerado o primeiro caso de genocídio cultural empreendido na História Contemporânea da Europa.

Uma das novidades do crime que ocorreu em Olivença reside na forma quase silenciosa como o mesmo foi perpetrado e ainda hoje é ocultado, o que pode justificar a forma naturalizada como a questão é encarada. Nenhum remorso ou alusão aos milhares e milhares de homens, mulheres e crianças a quem lhes foi negado o direito a uma identidade, à história das suas raízes, sendo que a única que lhes concediam era a do invasor.  

Transcrito, com a devida vénia de


IImigrantes Somos Todos!
Director: Carlos Fontes




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Sábado, 31 de Julho de 2010

Uma pergunta urgente: Para quando a devolução da nossa Olivença, ocupada por Espanha?

Ana Maria Aguiar Macedo*

Durante os meus já longos anos de vida, tenho aguardado ansiosamente (eu e quantos mais?), o fim da pérfida ocupação Oliventina pela nossa vizinha Espanha, que simula ter-se esquecido de sobre tal assunto ter aposto a sua assinatura no Tratado de Viena de 1815, que ela própria ratificou em 1817.

Os anos passam e Olivença continua ocupada pelos Espanhóis.

Amnésia geral ou deliberada violação do Código de Honra que, desde sempre, obriga ao cumprimento da palavra dada, a qual, para mais, consta de um documento de tão soberana importância como é um Tratado? Será que para os Códigos Espanhóis o roubo é meritório? Tal é impossível! O que também me espanta, é a aparente apatia dos nossos governantes perante este atentado à nossa soberania.

Será que já não se estuda História? É que, no meu tempo, quem pretendesse ingressar na Diplomacia, tinha de conhecer e de estudar as razões de desentendimento que porventura existissem entre países soberanos. Pelo menos quando eu me licenciei em Direito, este era um ónus obrigatório daquela carreira. Não acredito que tal prática tenha caído em desuso.

Mas se tal tiver sucedido, eu e centenas, milhares de portugueses, exigiremos o seu regresso.

*(Transcrito de Olivença é Portuguesa)
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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Poesia de Carlos Luna lida em voz alta em Olivença em 12 de Junho de 2010

OLIVENÇA É POESIA (ou "A POESIA DE OLIVENÇA")

Olivença, fonte de tanta poesia,
cidade tão cheia de encantos,
de variadas belezas elegia,
de memórias de heróis e santos.

Em tuas casas, em cada frontaria,
se vêem motivos para cantos,
seja em palácios de fidalguia,
seja em mais humildes recantos.


Diante de cada Igreja, um poema!
Olhando as muralhas, uma rima!
Em cada rua, "sente-se" um tema!

Nas aldeias, com o Sol por cima,
e no meio da brancura extrema,
surge inspiração que te sublima!


(Estremoz, 06 de Outubro de 2008)

TRAINDO PESSOA?(EM DEFESA DO PORTUGUÊS DE OLIVENÇA)


«A minha Pátria é a Língua Portuguesa»,/ disse o imortal Fernando Pessoa./ Esta frase de suprema delicadeza/ tornou-se mote no Brasil e em Lisboa.//


Em Português se exprime uma certeza,
ou uma emoção, no Maputo ou em Lisboa;
na mesma língua se elogia a beleza
de um samba, de um fado na Madragoa!


O Português fala-se com dedicação,
a Língua usa-se até para uma ofensa;
nela se exprime ódio, dúvida, e paixão.
Mas... pouca gente, ao falá-la, pensa
acudir, como seria sua obrigação
ao Português que se fala em Olivença !

(30-Março-2008)
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Olivença - 73 ruas recuperam o antigo nome em português

Mais de 70 placas com os nomes das ruas em português foram recuperadas na cidade espanhola de Olivença, com o objectivo de dar a conhecer a história e a cultura portuguesa aos habitantes daquela cidade fronteiriça.

«Este passo que foi dado em Olivença mostra a união que existe entre os dois países (Portugal e Espanha)», disse Manuel Rodriguez, presidente do Ayuntamiento de Olivenza.

«E simboliza também o aniversário da adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia (CEE)», acrescentou.

A iniciativa que contemplou a adição dos antigos nomes das ruas aos actuais, mantendo a mesma tipologia e estética nas placas foi um dos pontos alto da primeira edição do certame «Lusofonias». Este decorreu a 12 de Junho na cidade espanhola e contou com a organização da associação «Além Guadiana».

De acordo com a organização, o certame visou promover a língua portuguesa e a cultura dos países lusófonos naquela cidade fronteiriça.

«Esta iniciativa é uma janela para mostrar o passado de Olivença aos seus habitantes e visitantes», disse Joaquín Fuentes Becerra, presidente da associação «Além Guadiana».

Para José Martinez, habitante em Olivença há mais de 50 anos, esta iniciativa é encarada com «bastante naturalidade».

«Parece-me bem, é uma recordação bonita, uma vez que há uma enorme presença portuguesa nesta cidade, tanto a nível cultural como histórico», disse o sexagenário.

«Eu vejo esta iniciativa com bons olhos», sublinhou por sua vez Narciso Martinez Ramalho que, acompanhado por José Martinez, circulavam pelas ruas daquela cidade espanhola.

No sentido de promover a cultura e a língua portuguesa, a organização das «Lusofonias» elegeu como imagens promocionais da iniciativa Amália Rodrigues, Fernando Pessoa e Vasco da Gama.

A iniciativa cultural contou com a colaboração do Ayuntamiento de Olivença, da Associação para o Desenvolvimento Rural da Comarca de Olivença e da Junta da Estremadura.
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Terça-feira, 27 de Julho de 2010

O tempo em Olivença


Carlos Luna


Em Olivença sinto o peso do tempo,
sinto a sua força onde ela mais dói.
Sinto o seu peso como contratempo
na morte da evocação de cada herói

Em Olivença vejo o efeito do tempo,
vejo-o em cada mentira que ele condtrói,
em cada casa caída, em cada "passatempo"
oco, falso, qu´as páginas do passado destrói.


Em Olivença cala-se do povo a memória
em cada imperativo, diz-se, de mudança,
de cada vez que se oculta uma velha glória.


Em Olivença, só não morreu a esperança
de um dia, em liberdade, se contar a História
do passado, dos teus avós, a qualquer criança!

Estremoz, Março de 2007
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Oliventino - As idades de um idioma à beira da extinção

                                                                                                      Publicado hoje em Café Portugal. Enviado por Além Guadiana.

Manuel, Martina, Francisco, Raquel. São histórias de vidas na raia espanhola. Oliventinos que representam diferentes gerações de falantes de um idioma à beira de um precipício, o da extinção. O oliventino, subdialecto português, falado há séculos em Olivença, é actualmente uma quase memória, agarrado às palavras dos mais velhos. Recordam tempos em que o dialecto era sinónimo de conversas soltas, em casa, nas ruas. Palavras que, entretanto, por meados do século XX, se esconderam entre paredes. Há décadas que o oliventino mingua, com redutos sobreviventes nas aldeias e com esperança nos bancos das escolas onde é reabilitado como língua estrangeira.

O calor oprime a meia tarde da aldeia histórica de São Bento da Contenda. Um estio na Estremadura espanhola, encostada à fronteira com Portugal, que parece impor-se como muro a qualquer ideia de frescor. Um calor que ondula os campos, pesa sobre as copas dos sobreiros espaçados, esbate os contornos da Serra de Alor. A sete quilómetros, escondido, corre um sopro de água. O rio Guadiana avolumou-se nos últimos anos com a barragem de Alqueva. «Embalse de Alqueva» na banda de cá, como é dito, aqui, no município de Olivença. Desafiar o calor estremenho de Julho não é fácil, para mais quando implica destruir o deleite cénico montado nos últimos minutos: uma esplanada corrida pela sombra, um horizonte largo, uma bebida fresca em primeiro plano e o voo dos andorinhões, único empecilho a um céu fixo em azul.

Um guião onde há, porém, que encaixar uma incursão por vias de casario alvo, de portadas e janelas debruadas a faixa torrada, chaminés largas e altas; uma arquitectura urbana que desafia a associações a paisagens do outro lado da fronteira, no concelho do Alandroal. O silêncio de «siesta» reinante vê-se surpreendido pelo rebuliço de festa popular. Pau ensebado com um «jimão», ou seja, um presunto gordo lá no alto; espuma a rodos sobre um alcatrão fervente e um rodeio com touro mecânico.

Numa multidão em delírio de palavras gritadas em castelhano o objectivo é encontrar, depois de sucessivas curvas do tempo, palavras ditas e contadas em português. Nas ruas, nos cafés, nos largos da comarca de Olivença na província de Badajoz (de onde dista 22 quilómetros), feita espanhola por Tratado de 1801, ainda se ouve, hoje, o português oliventino, um subdialecto, próximo do dialecto alentejano.

A pouco mais de 15 quilómetros da fronteira com Portugal calcorreando as ruas de São Bento procura-se uma «boa tarde», com retoques de Alentejo, soprada pelos naturais. Isto sob bandeiras listadas de amarelo e vermelho pendendo de janelas, numa suspensão de final de Campeonato do Mundo de Futebol. Um jogo entre Espanha e Holanda, sabemos hoje, gritado e dançado, na vitória, na pátria de Cervantes.

Quando «Pepe» era «Zé»

Hoje há esforços para preservar o oliventino e para recordar que «Pepe» já foi «Zé» e «Paco» foi «Chico». Nas escolas, o ensino do português aparece como língua estrangeira. Estudam-na, como língua obrigatória na primária (embora não conte para a nota final), 110 alunos. No ensino secundário o português também é disciplina curricular embora opcional. Por sua vez a Universidade Popular, em Olivença, tem dois cursos de português, com um total de 60 alunos. Nos bancos das escolas de Olivença acrescenta-se à língua toda a gramática de prontuário. Retira-se o deleite de escutar um gerúndio, a esticar o extremo final da palavra. Para além das escolas, nas ruas, procura-se reabilitar o oliventino como sucedeu durante todo um dia em Junho de 2010. As jornadas «Lusofonias» promovidas pela Associação Além Guadiana (criada em Março de 2008) com apoio da câmara local reabilitaram leituras de excertos de obras de autores portugueses. Trouxeram mais: no século XXI, perto de 70 artérias do «casco antiguo», encostadas à velhinha muralha do século XIII, ganharam a dupla designação e contam nomes a duas línguas: «Diaz Brito», «antiga Rua dos Oleiros»; «Cervantes», «antiga Rua da Pedra»; «Bravo Murillo», «antiga Rua dos Saboeiros», «Reys Católicos», «antiga rua D. Manuel I». Nomes desaparecidos do mapa mas que a população continuou a usar e, agora, tornados motivo de rota.

Um bilinguismo na toponímia e nas bocas e ouvidos dos mais velhos que a Associação Além Guadiana quer transpor para as brincadeiras das crianças. Hoje, poucos oliventinos com menos de 60 anos trocam um «olá, buenas» por uma «boa tarde» como a que ouvimos a Martina Antónia, septuagenária, nascida e criada em São Bento. Senta-se à soleira da porta, à margem da festa. Saia cingida às pernas esticadas. Um leque para afastar o calor. Palavras que começam por correr tímidas, que acabam por se adensar num português fluente, a exigir ouvido treinado para distinguir o pulo de fronteira: «Os meninos de agora não falam português. Antigamente era diferente. Os meus pais falavam à portuguesa, os meus irmãos e tudo. Agora, em casa, fala-se as duas coisas». Martina Antónia nunca passou a fronteira. Portugal é uma imagem construída pelas palavras de outros. O rio Guadiana uma linha de água avistada à distância.



Mais acima, na mesma rua, outra «boa tarde». Maria do Nascimento em andar desembaraçado desenrola histórias: «A minha filha de 50 anos já fala espanhol. Daí para cá todos os quatro filhos falam espanhol. Dois, andam nos autocarros em Portugal e fazem um esforço para falar português. Eu, com os meus filhos, em casa, falava sempre espanhol. Com o meu marido é diferente, falamos em português. Aprendi a língua com os meus pais».



Sabe-se da boca de Maria que um dos filhos, de 40 anos, está nos festejos. Há que correr rumo à música, mergulhar no caos de gente. Já na festa, Maria troca o seu quase alentejano, perceptível, por um castelhano de palavras apertadas, reunidas em resmas de frases rápidas. Pergunta pelo filho. Está próximo e a conversa pula de Maria para Francisco. Olhar claro, pele escura, trabalhada pelo Sol. «Falo português, mais ou menos. Aprendi ouvindo português. A minha filha entende mas nunca quis falar porque nunca lhe despertou muito a atenção».

Francisco vive num limite de idade que é também uma fronteira para o estar dentro ou fora de uma língua falada na região desde o século XIII e que viria a contar uma história de progressivo esquecimento. Dois séculos, tempo suficiente para desgastar pedras, também corrói matéria mais porosa: a memória dos homens. Em Talega, localidade 18 quilómetros a Sul de Olivença (de onde se tornou concelho autónomo em 1850), já não correm palavras em oliventino.

Recorde-se que em 1898, o linguista e filólogo português, Leite de Vasconcelos no levantamento feito na região ainda encontrou em Talega uma localidade de fala única portuguesa.

Reguadas no oliventino

Até meados do século XX o oliventino foi língua franca para esta gente da raia espanhola. Falado em casa, nas mercearias, nas tascas, nas soleiras das portas das noites de verão, encostado ao borralho das noites de inverno. «Com a ditadura as coisas mudaram». São palavras de Ricardo Farinha, 64 anos, baixa estatura, tido e dito poeta popular, enérgico nas palavras. Conta vidas: a da avó que «morreu com 122 anos», a do pai «um comunista que fugiu sob a ditadura de Franco para o País Basco», a dele próprio e dos 37 anos que passou como emigrante no outro extremo da Península Ibérica. Ricardo voltou e, agora, é membro da Além Guadiana. Com ele enceta-se uma viagem de circum-navegação à primeira muralha de Olivença, do reinado de D. Dinis. A promessa é de visitar património português: a Igreja da Madalena, a Igreja de Santa Maria do Castelo, a Porta do Calvário e as ruas e praças de Olivença. De premeio, uma permuta de palavras portuguesas e oliventinas que viaja no tempo, mergulha no franquismo (1939-1976): «com o regime deixámos de falar o oliventino nas ruas. As escolas reprimiam. Quando nos saía uma palavra em português levávamos, da primeira vez, seis reguadas. À segunda vez, eram 12 reguadas. É claro que temíamos e deixávamos de falar. Do outro lado da fronteira havia o regime de Salazar que esqueceu completamente a cultura portuguesa em Olivença». Ricardo repete amiúde o termo «cultura», não quer falar de «política». O território torna-se movediço, entra em questões de reivindicação, a Associação Além Guadiana detém-se exclusivamente na reivindicação dos espaços de encontro cultural, com marcas materiais e imateriais.

Uma delas, o oliventino e a sua erosão, acompanhou uma demografia de desertificação em meados do século XX. A emigração deixou poucos jovens nas aldeias. «A penetração da língua oficial [o castelhano] foi muito mais rápida e mais profunda nas localidades maiores, onde foi determinante a presença de instituições da administração e da educação, bem como o facto de serem centros de atracção para numerosa população vizinha de fala castelhana», alerta Juan Carrasco Gonzaléz no documento «Falantes de Dialectos Fronteiriços na Extremadura Espanhola no Último Século» (2001).

As três idades da língua

Batem as cartas sobre a meia dúzia de mesas. Em cada uma cinco ou seis oliventinos. Idades entre os 60 e os 90. O bar do antigo Quartel português, em Olivença, hoje transformado em Centro de Dia, enche-se. Há idades para contar boas histórias. Joaquín, 87 anos de voz já trémula mas ainda fixa no oliventino. É assim que fala com alguns dos companheiros de «cartada», embora o fervor de uma jogada menos consensual empurre as palavras para o castelhano. Joaquín emigrou para o País Basco, para depois voltar. Em Olivença trabalhou sempre no campo. Recorda tempos de ralhetes dos pais em português. Os filhos, porém, já pouco falam o oliventino. Os netos tornaram-se falantes do castelhano. Um percurso de língua semelhante ao que se encontra mais tarde em São Jorge de Alor. Cinco quilómetros de estrada tórrida desde Olivença que se faz com o fito de uma visita às chaminés de fisionomia alentejana. Depois das ruas, almoço no restaurante «Cambio de Tercio» com sabores a Estremadura espanhola, embora sem desfazer os costados alentejanos: um gaspacho forte, carnes de alguidar crepitantes de fritura, uns pezinhos de chibo de tempero intenso. Refeição a pedir um vinho tinto com corpo a acompanhar e que acaba por soltar as palavras. Ouve-se, então, oliventino e repete-se histórias de gerações já contada em Olivença. Três idades: Manuel Sanchez Hernandez, com 73 anos e um oliventino perfeito; o filho na casa dos cinquenta, com as palavras a cair para o castelhano. Uma linha familiar que termina em Maria del Mar. 16 anos encorpados, falante do castelhano.

Manuel fala suave, acompanha com gestos de mãos que sempre trabalharam na agricultura. Recorda tempos antigos, quando «passávamos muitas dificuldades mas a vida era mais bonita. Não havia tantos rancores». O ancião lembra os avós, de Borba, «onde há bom vinho. Falo português, aprendi com os meus pais. Ensino às netas, o que sei, porque não sei muito. Há algumas crianças a aprenderem. Tenho ido com muita gente da vila a Campo Maior para traduzir a conversa da banda de lá para a de cá». A conversa vira para Maria. Olhos que voam para fotografias expostas numa parede quando espicaçados pelas perguntas. Maria é «Matadora», já enfrentou os cornos das bestas nas praças de Badajoz, de Olivença. Um feito que a obriga a muitas horas de trabalho. «É muito mais difícil para uma mulher. Tem de ser muito melhor que os homens», confessa Maria del Mar em castelhano.

Fecha-se o bloco. Encerram as conversas. Ficam entre as notas muitas mais histórias e memórias de falantes de oliventino. A voz acanhada de Miguel Ribeiro Lopes, 83 anos, habitante de São Jorge, recordando que os mais velhos falam todos em português. Os pais ensinaram-nos. Hoje, para aprender só as escolas. Rememora-se o par de horas com as palavras de Servando Rodríguez Franco, do Turismo de Olivença. Um percurso pelas ruas da cidade estremenha. Património deixado pelos portugueses, explicado numa língua lusa irrepreensível.

Finalmente a voz cristalina de Raquel Sandes, durante 15 anos vocalista do grupo de música folk de Olivença, os Acetre (criado em 1976). Durante anos cantou em português, compreendendo as palavras, sabendo o que dizia, «praticando o sotaque», como nos disse. Hoje Raquel, aos 35 anos, aprende português em Badajoz, na escola de línguas. A vocalista deu o passo seguinte: Lança para as conversas futuras o idioma que ouviu aos avós, depois aos pais. Não sendo o oliventino de outros tempos, para Raquel é, de qualquer forma, um perpetuar de memórias linguísticas. Raquel corrobora aquilo que diz o jovem presidente da Associação Além Guadiana, Joaquín Fuentes Becerra, «Não podemos ter duas culturas se uma delas não se pode expressar através das palavras, só das pedras mudas».

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Domingo, 25 de Julho de 2010

O general Ferreira Martins e a causa de Olivença


Luís Augusto Ferreira Martins, Nasceu em Lisboa, a 7 de Abril de 1875 e morreu em Algés em 26 de Junho de 1967.

Frequentou o Colégio Militar, ingressando na Escola Politécnica de Lisboa, onde preparou a admissão à Escola do Exército, tendo concluído o curso de Artilharia e o de Estado-Maior. Em 1897 participou na campanha de Moçambique, regressando a Portugal em 1898. Em 1906 passou para o Estado-Maior do Exército.

Foi nomeado Sub - comandante do estado-maior do Corpo Expedicionário Português enviado para a Flandres, no Norte de França, em 1917 durante a Primeira Grande Guerra. Terminado o conflito foi nomeado chefe do estado-maior do Campo Entrincheirado de Lisboa. Comandou o regimento de infantaria n.º 5, e a (1929-1933), a Escola Central de Oficiais. Foi a partir de 1938 vogal do Conselho Superior do Exército.

Entre a sua vasta obra, destacam-se os livros: Jogo de Guerra simplificado, em 1911; Portugal na Grande Guerra, em 1935, obra colectiva que dirigiu; O poder militar da Grã-Bretanha e a aliança anglo - lusa, em 1939.


A causa de Olivença sempre lhe foi cara, como se pode ver pelo artigo que publicou no Boletim da Casa do Alentejo.






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Sábado, 24 de Julho de 2010

Olivença - que o exílio é triste, como duras são as algemas

O jornalista e etnógrafo João Sarabando (1909-1996), colaborador do jornal República, escreveu uma pequena peça sobre Olivença na sua secção Miradoiro. Resultado, o texto foi totalmente cortado pela comisão de censura salazarista. Tão patriota, Salazar, que envolveu o País numa guerra de três frentes para defender a «integridade da Pátria» na Guiné, em Angola e em Moçambique, mas pactuou com a usurpação de Olivença aqui, no Alentejo, em Portugal. Pactuou, reprimiu quem protestava. Aliás, os governos anteriores, da Monarquia, da I República, tal como os posteriores, pós 25 de Abril, com maior ou menor repressão, têm feito o mesmo. Pactuar, ignorar, fingir que o problema não existe.

"Que o exílio é triste, como duras são as algemas", dizia Sarabando a terminar o seu artigo. É bem verdade.



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Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques- IV

 Roteiro da presença portuguesa (Continuação)

Os monumentos constituem um verdadeiro roteiro histórico para os seis séculos de presença portuguesa. Do século XVI, porventura o período em que mais se enriqueceu a arquitectura oliventina, recolhe-se a imagem de Santa Maria do Castelo, a matriz erguida sobre um primitivo templo construído pelos Templários, no tempo em que estes povoavam o território arrancado aos muçulmanos. É um templo de grandes proporções, com três naves suportadas por altas colunas cilíndricas.

Para os amadores de curiosidades históricas, refira-se que aí apadrinhou D. João V o filho de um fidalgo local, Bento de Matos Mexia, dando-lhe o nome de João. O rei subiu depois à Torre de Menagem, contemplou os vastos campos oliventinos e à noite regressou a Elvas. Da visita real lavrou-se um auto, de que ainda hoje existe cópia.

Na Igreja de Santa Maria Madalena tem o período manuelino um dos seus monumentos mais belos e representativos. Trata-se de uma obra magnífica que atesta amplamente os créditos de uma plêiade de artistas que deram à velha terra oliventina um cunho de acentuada originalidade no conjunto da nação em que se integra.

A contrastar com o seu aspecto sóbrio e pesado, o interior surpreende pelaextrema delicadeza, com duas filas de colunas que são triplos feixes torcidos até ao início da curva das abóbadas. No solo, magníficas lajes de mármore policromo, e a seguir ao arco do cruzeiro, do mais puro estilo manuelino, o altar-mor e as paredes laterais revestem-se de painéis de azulejos. Sarcófagos e pedras tumulares ostentam inscrições na nossa língua, constituindo o retrato de uma época. De Lisboa foram os arquitectos e canteiros que ergueram o templo, da nossa vila de Borba saíu todo o mármore generosamente empregue na construção. É das poucas obras que a história posterior a

1801 não abastardou, mantendo por isso intacta a fidelidade às razões históricas e culturais que lhe deram origem.

O mesmo não aconteceu, infelizmente, com certos monumentos fora do âmbito religioso, sujeitos a tropelias de toda a espécie. O que se passou com muitos dos brasões de armas que decoravam casas nobres é

significativo: não os destruíram, mas limparam-lhes as armas, como se quisessem assim apagar a história dos feitos que evocavam.

- Os brasões não foram destruídos - diz-me, com ironia, um dos meus acompanhantes em Olivença -, foram simplesmente "tratados".

Em Olivença não é fácil encontrar quem fale das razões que originaram à perda da nacionalidade, ou do conflito que esse acontecimento provocou entre Portugal e Espanha. Por um lado, isso deve-se ao desconhecimento quase absoluto, no país vizinho, dos factos que precederam a famosa questão oliventina. Por outro lado, explica-se pela sensação de incomodidade que provoca, nos próprios Oliventinos, o tom patrótico e nacionalista da maioria dos escritos portugueses sobre o tema.

Os Oliventinos não gostam de se sentir como praça conquistada ou a conquistar, ou menos ainda como objecto de discussão ou troca entre duas nações. Embora admitam a existência de um problema cuja solução é sempre adiada - haja em vista a definição dos próprios limites fronteiriços na zona de Olivença, que está por acordar -, mostram-se singularmente indiferentes ao que possa ocorrer a nível de Estados.

Não lhes ouvi uma palavra contra ou a favor de um ou outro país(9). Na realidade, continuam a sentir-se simplesmente Oliventinos, detentores de uma realidade cultural e social muito própria, interessando-se ardentemente pelas coisas portuguesas da sua história, à semelhança de qualquer povo que procure no conhecimento do passado a sua própria identidade.

- Os Portugueses - diz-me um dos meus interlocutores oliventinos - quase sempre escreveram sobre nós de uma forma patriótica, alheios ao que somos e sentimos hoje em dia. As questões históricas também nos interessam, e agora mais do que nunca, mas desde que sejam tratadas com frieza e lucidez.

A historiografia portuguesa sobre o problema oliventino raramente considerou esta sensibilidade, o que de certo modo se afigura compreensível se tivermos em conta as circunstâncias em que se verificou a perda de Olivença, assim como o eterno adiamento da solução jurídica para o problema, criado num contexto histórico de que a Espanha não se pode orgulhar. Porém, a comunidade oliventina, há quase dois séculos colocada numa situação de isolamento e defesa, repudia firmemente a posição de joguete em que a pode colocar a falta de entendimento entre os Estados. E quanto mais sentir que o desacordo ou o eventual diálogo se processam à revelia da sua vontade, mais impelida será a fechar-se em si própria, numa situação compreensível de independência moral.

E, no entanto, o problema existe - e persiste- E tenho a impressão segura - colhida nas várias conversas em Olivença - de que os Oliventinos se sentirão progressivamente arrastados para ele, por sua própria e exclusiva vontade, à medida que a identificação com a cultura e tradições portuguesas alargar o campo da sua curiosidade espiritual e afectiva.

Não é casual, aliás - antes corresponde a fortes imperativos da consciência portuguesa dos Oliventinos -, a publicação recente em Olivença, pela primeira vez em muitos anos, de um livro sobre a história do concelho, da autoria de um estudioso local, Alfonso Franco Silva, que desenvolveu a maior parte da sua investigação em Lisboa e Elvas, demonstrando um profundo conhecimento de toda a bibliografia portuguesa sobre a questão.

Embora denuncie o "sentimentalismo reivindicativo" dos respectivos autores, não é sem emoção que refere, entre outras, as obras de Matos Sequeira e Rocha Júnior, Hermano Neves, Estácio da Veiga e, em particular, os inúmeros trabalhos de um oliventino que forcejou - e logrou - por obter em Lisboa um Bilhete de Identidade com a seguinte

inscrição: "Português, natural de Olivença". Eis as palavras que lhe

dedica: "Não resisto a referir aqui a figura pessoal de Ventura Ledesma Abrantes, oliventino emigrado em Portugal, autodidacta, homem de grande cultura, íntimo das mais importantes personagens políticas portuguesas, que dedicou a Olivença o melhor da sua vida e uma boa parte do seu património pessoal. Ledesma escreveu muitos trabalhos sobre Olivença, fundou uma revista e uma livraria sobre temas oliventinos, criou uma associação em Lisboa (10)que agrupava as mais importantes personalidades portuguesas, com o objectivo de recuperar a cidade, e até ao fim dos seus dias mantev e acesa a chama da independência oliventina."

Eis o que, há muito pouco tempo, era impensável em Espanha: que um espanhol, e particularmente um oliventino, pudesse escrever uma obra isenta - embora apaixonada - sobre a questão de Olivença. Tão isenta, aliás, que a sua versão sobre o conflito que originou a perda da nacionalidade não difere, na fidelidade aos factos, da dos nossos próprios estudiosos. Vale a pena transcrever esse trecho:

"A chamada "guerra das laranjas" foi um conflito de pouca envergadura dirigido contra a nação lusitana por Espanha e França.

Napoleão precisava de afastar Portugal da amizade com a Inglaterra para fechar os portos lusitanos aos barcos ingleses. Para isso pressionou Godoy, que ambicinava um principado em Portugal, e obteve com muita facilidade a declaração de guerra ao país vizinho, em 2 de Março de 1801."

E mais adiante:

"Todo o Alentejo português havia caído em mãos luso-espanholas.

Havia que fazer a paz. A 28 de Maio reuniram-se em Badajoz os plenipotenciários para assinar a paz... Impuseram-se a Portugal duríssimas condições: tinha de entregar trita milhões de francos e ceder as praças de Elvas, Campo Maior,Olivença e a fortaleza de Sagres. Não houve acordo em princípio. Finalmente, a 6 de Junho, assinou-se o Tratado de Paz de Badajoz. No seu artigo terceiro, Godoy impôs a conquista de Olivença, apesar de não figurar nas intruções dadas por Carlos IV. O representante português, Luís Pinto de Sousa, para o evitar, chegou a oferecer a Espanha uma indemnização de vários milhões, mas não obteve resultado nenhum. A soberba do valido, que se encontrava no cume do seu poder, tornou impossível todo o diálogo sobre a restituição de Olivença a Portugal."

Não há que tirar nem pôr uma vírgula no relato do estudioso oliventino - embora se possa, sim, ampliar a história: para além das disputas entre nações, das guerras perdidas - agora de um lado, mais tarde de outro -, das tibiezas dos políticos portugueses na época, ou do papel mais que suspeito da Inglaterra em todo este caso, Portugal foi assim vítima da ambição de um primeiro-ministro, Godoy - ridícula ou ironicamente apelidado de "príncipe da paz" -, que gozava da confiança íntima da rainha e da complacência do rei. Nos termos em que se levam a cabo as negociações do Tratado de Badajoz, a conquista de Olivença tem apenas o valor de uma extorsão sob a ameaça das baionetas. O que foi, aliás, reconhecido pelas potências reunidas no Congresso de Viena, em 1815, ao decidirem a restituição a Portugal, nunca concretizada pela Espanha.

Da importância da publicação, no país vizinho, do livro de Alfonso Franco Silva, como início de uma tarefa de esclarecimento que nunca houve (11), fala bem este trecho de um livro de Queirós Veloso, o historiador que melhor estudou as questões jurídicas da perda de

Olivença:

"Em Portugal, todos sabem que, ao alvorecer do século XIX, nos foi arrancada Olivença; mas em geral ignora-se como a perdemos, o traiçoeiro papel do Governo Espanhol, que se apoderou dessa vila e do seu termo unicamente para satisfazer a ridícula vaidade dum valido, alçapremado e generalíssimo dos seus exércitos. Mas na própria Espanha se desconhece a iniquidade desse acto. Os compêndios adoptados no ensino primário e secundário não se referem a essa conquista; e o "Dicionário Enciclopédico Hispano-Americano", assim como a "Enciclopédia Espasa", resumem a História de Olivença de tal modo que o leitor pode ficar convencido de que a sua posse vinha sendo disputada entre os dois países a partir de 1640, entregando-a por fim Portugal à Espanha em 1801 (12)."

Estas palavras foram escritas em 1932. Hoje, o desconhecimento sobre a Questão de Olivença, tanto em Espanha como em Portugal, é ainda mais profundo nas camadas jovens, em parte devido a manifestações caricatas que, com finalidades talvez inconfessáveis, exploram uma questão assinalável da nossa História, somente prejudicando as hipóteses de um diálogo amigo e frutuoso com os Oliventinos.

Recorrendo às palavras de Queirós Veloso, devo dizer que não é meu intuito "fazer a história deste calamitoso período, em que fomos arruinados pela França, ludibriados pela Espanha, tratados pela Inglaterra como se fôssemos um domínio da Coroa Britânica". Contudo, o conhecimento desse período é importante, sobretudo à luz de uma perspectiva históricaa que, ainda há poucos anos, nos era vedado recorrer para tentar compreender a política desastrosa que originou a perda de Olivença. Para a Espanha, trata-se de um episódio quase anedótico, que caíu no ridículo logo após o conflito, quando o omnipotente valido, impante da coragem que lhe dava a esperança de vir a ser "Prìncipe dos Algarves", enviou à Rainha Maria Luísa dois ramos de laranjas acompanhados deste saboroso bilhete:"Las tropas, que atacarón al momento de oir mi voz, luego que llegué a la vanguardia, me han regalado de los jardins de Yelbes dos ramos de naranjas, que yo presento a la reina." A comunicação foi public ada na "Gaceta de Madrid", provocando o riso do povo, que de imediato baptizou a campanha com o nome de "guerra das laranjas". E assim entrou na História.

Para Portugal, porém, a pouco honrosa "guerra das laranjas" é a história das tibiezas e ingenuidades dos nossos políticos da época, em princípio aparentando crer que o conflito entre Espanha e Portugal não passava de um simulacro para enganar a França, e depois cedendo a todas as pressões e exigências da Inglaterra, que acabou por ter um

papel determinante na perda de Olivença. E em 1811, quando um

regimento anglo-luso, em guerra com as tropas do marechal Soult, reocupou Olivença, foi ainda a Inglaterra que obrigou as nossas forças a entregarem a praça aos Espanhóis.

Hoje, os oliventinos desconhecem na generalidade este período da sua história, o que é natural. Que ele seja, porém, ignorado ou mal conhecido em Portugal, eis o que parece um triste reflexo, no presente, da vergonhosa actuação que originou a perda de Olivença.

1990 - FIM DO TEXTO

NOTAS À MARGEM DO TEXTO (2006):

(1) este texto, escrito em 1990, não previu o que se passou a partir de 1994, quando se regressou à prática de ignorar o passado português.

(2) a partir de 1994, a atitude do alcaide mudou completamente.

Hoje revela-se bastante anti-português.

(3) principalmente a partir de 2003, tem-se vindo a acentuar a descaracterização da arquitectura portuguesa, mesmo nas ruas antigas e nas aldeias, principalmente na de Vila Real.

(4) as freiras da misericórdia foram afastadas de Olivemnça, de noite, em Junho de 2001.

(5) a pedra referida está hoje exposta no Museu Etnográfico.

(6) 1306 no calendário cristão. A data na pedra refere-se à Era de César.

(7) foi reconstruída, em 2006, a antiga Porta dionisina de São Sebastião.

(8) actualmente, é ultrapassada também pela Torre de Menagem de Estremoz. Todavia, originalmente, era quatro metros mais alta, pelo que terá sido mesmo a maior de todas.

(9) toda esta situação mudou quase radicalmente desde 1994. A população voltou a fechar-se, a falar insistentemente em castelhano quando em público, e a declarar-se espanhola como antes da democracia, salvo depois de se falar com as pessoas, se ganhar confiança... e se prometer que não se diz nada a ninguém. Há quem diga, em surdina: "O medo voltou a Olivença".

(10) entre outros, fundou o Grupo dos Amigos de Olivença.

(11) apesar destes elogios, o livro da Alfonso Franco Silva declara no preâmbulo que Olivença não tem razões para temer que os portugueses tenham razões para reivindicar Olivença, e só reproduz, do Tratado de Badajoz, o artigo 3º. Encontra-se esgatado desde 1991.

(12) hoje, em 2006, a situação piorou. Agora, diz-se que Olivença andou sempre entre os dois países desde o século XIII, e afirma-se que Portugal a ocupou em 1297, constituindo a sua ocupação pela Espanha em

1801 "o regresso à mãe-pátria"!!!
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Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques - III


Recupera-se a toponímia tradicional (Continuação)



Por artérias estreitas que ostentavam outrora nomes bem portugueses - Rua das Atafonas, Rua da Corna, Rua da Barranca, Rua do Juiz -,e hoje têm designações que bem pouco dizem aos Oliventinos, vou dar a uma outra, a Rua dos Duques de Cadaval, que durante muitos anos esteve ausente da toponímia da vila. Em seu ligar encontrava-se o nome de um ministro obscuro, cujo título de glória era o de ter acompanhado o generalíssimo Franco na inauguração de uma albufeira. Instituída, por via da democracia, a liberdade de escolha, os edis oliventinos não

hesitaram: substituíram-na pela velha e tradicional designação, que nunca deixara de ser usada pela maioria do povo. E com o tempo - dizem com convicção - acabarão repondo nas ruas da vila todos os nomes apagados pela tentativa de castelhanização de Olivença.

Aliás, a memória das referências portuguesas nunca desapareceu do espírito das pessoas. Na porta de Castillejos - uma das mais assinaladas na existência de Olivença pelos factos históricos de que foi testemunha -, diz-me uma mulher do povo:

- Quando isto era português chamava-se outra coisa: era a Porta de Alconchel.

A vetusta entrada, que remonta aos princípios do século XIV, formava parte da cerca torrejada que D. Dinis mandou construir logo após a assinatura do Tratado de Alcañices de 1297, pelo qual se definiam as fronteiras entre Portugal e Castela e se decidia a nacionalidade portuguesa de Olivença. O rei concedeu-lhe os usos e costumes da vila próxima de Elvas, autorizou uma feira semanal, às segundas-feiras - que se realizou durante séculos -, e oito anos depois designava Pêro Lourenço do Rego para cercar de muralhas toda a povoação. Uma pedra, ainda hoje embebida num dos arcos da cerca (5), assinala o início das obras: "A primeira pedra deste castelo foi posta em dia de São Miguel, e aqui a pôs Pêro Lourenço do Rego em tempo do Rei D. Dinis, era de mil trezentos e quarenta e quatro anos"(6). Das quatro portas então abertas nas muralhas, restam as de Alconchel e a dos Angeles, ladeadas por torres cilíndricas, e os restos da Porta da Gracia, em parte absorvida pela construção do Palácio dos Cadavais, alcaides-mores da vila(7). E foram estas muralhas, de que ainda se encontram, um pouco por toda Olivença, troços bem definidos, que aguentaram os embates castelhanos nos vários assédios ocorridos logo durante o século XIV, resultado de intentos de expansionismo, quezílias de famílias desavindas, ambições frustradas ou prestígios ofendidos.

Uma torre contra Castela


As guerras da Independência transformaram Olivença no cenário constante de pugnas e cavalgadas, em que o povo era comparsa forçado e vítima preferida nos enfrentamentos e traições de fidalgos e alcaides.

Mais do que a rivalidade entre duas nacionalidades, a história de Olivença, nesse período, é a história de guerreiros feudais que, ao serviço de um ou outro soberano, não hesitam ante a violência e a crueldade para fortalecer um poder ainda precário. A torre de meenagem, um dos mais imponentes monumentos da arquitectura militar portuguesa, com 37 metros de altura - só a torre de Beja a deve ultrapassar(8)-, ergue-a D. João II, recorrendo aos melhores arquitectos e mestres pedreiros da época, e resistindo aos sentimentos ofendidos do Rei de Castela, que não compreendia nem admitia obra tão agressiva em tempo de paz.

Cinco séculos depois da sua construção, a torre de menagem de Olivença continua a dominar a paisagem, proporcionando, aos que sobem ao terraço, uma vista de dezenas de quilómetros por campos de Portugal e Espanha. Limpo e desafogado das construções apagadas que o cercavam, o monumento ostenta uma grandeza impressionante, que deriva tanto dos factos históricos de que foi protagonista, como da ousadia de concepção, mesmo numa época em que a iniciativa real estava quase toda voltada para as obras de guerra. O acesso ao cimo é feito não por escadas, mas por dezassete rampas que acompanham interiormente as paredes de três metros de espessura, e que permitiam a subida de cavaleiros e peças de artilharia. A iluminação natural das rampas é proporcionada por seteiras, e o percurso de mais de cem metros apenas é interrompido por uma sala de armas que foi prisão de fidalgos e, mais tarde, local escolhido pela Inquisição para os seus julgamentos.

Com as obras a que foi sujeita, e liberta do cárcere que durante muitas décadas ocupou parte do seu interior, a torre de menagem de Olivença será a partir de agora o local privilegiado de manifestações culturais. As obras, em grande parte resultantes de trabalho voluntário, desaproveitaram, por falta de orientação arqueológica e histórica adequada, o estudo aprofundado da construção. Fizera~-se desaterros, removeram-se ossadas sem preocupação de analisar a sua origem. E perdeu-se assim, porventura, a oportunidade única de um trabalho que eventualmente poderia fazer luz sobre aspectos obscuros da história local. E não se pode deixar de pensar, com alguma decepção, que talvez fossem outros os resultados históricos e culturais desse trabalho, se os especialistas e organismos portugueses não tivessem esquecido a existência, em Olivença de um tesouro indispensável ao conhecimento do nosso próprio passado.

(Continua)
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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

Regresso a Olivença - Mário Ventura Henriques - II


Mudaram as pessoas (Continuação)

Doze anos depois, nada é como antes. Excepto, talvez, a paisagem, em cujo solo continua a praticar-se a mesma agricultura pobre de outrora, extensiva e monótona. Identifico caminhos, pontões, montes idênticos aos do campo alentejano, nomes que despertam a sensibilidade

- Casas Novas, por exemplo -, coutos de caça que se estendem por quilómetros e a mesma estrada sinuosa que, de Badajoz, nos abre caminho para Olivença, quase fronteira à vila portuguesa de Juromenha.

O que é diferente, o que mudou, são as pessoas. Onde, antes, havia silêncios carregados de suspeita e receio, uma clandestinidade às claras, olhares equívocos, fuga ao diálogo e, por cima de tudo, a sugestão de se ter perdido a memória do idioma dos antepassados, existe hoje a cativante simpatia de quem se abre ao contacto para que o conheçam melhor e melhor o compreendam, e, mais emocionante ainda, o desejo irreprimível de demonstrar que se recorda e se mantém viva, no dia-a-dia dos Oliventinos, a língua portuguesa. O viajante sente-se em casa, esquece a fronteira que atravessou há pouco, e cala-se simplesmente, para se dar ao prazer de escutar o acento cantante do português que falam os de Olivença, semelhante ao dos Alentejanos, e mais aliciante pela presença de palavras arcaizantes, esquecidas ou desprezadas entre nós. E logo se entende o desejo que têm os Oliventinos de que se institua na sua terra o ensino do idioma português; se, 180 anos depois do corte dos laços políticos com Portugal, ainda se mantém a prática da Língua Materna é porque a herança dos séculos anteriores foi suficientemente forte para que se queira, no presente, recuperá-la integralmente (1).

- Exactamente, aqui fala-se Português - diz-me Ramon Rocha, o presidente da Câmara que desencadeou o processo de revindicação, junto do Governo de Madrid, do ensino da nossa língua.
-  E porquê esse desejo ?

- Porque defendemos muito as questões culturais. Acreditamos que os povos, com a cultura, se unem e ultrapassam muitos problemas. E, vendo como se corria o risco de perdermos a nossa cultura, que é pouco vulgar, intentamos conservar este legado recebido dos nossos antepassados.

O que, pelos vistos, nada rem a ver com razões históricas ou políticas...

- Nós não entramos nisso. A questão histórica é uma e actualmente a política é outra. Reconhecemos que durante seis séculos Olivença pertenceu a Portugal, mas também sabemos que actualmente somos espanhóis. Mas, entre estas duas realidades, há uma história que permanece: os monumentos, o idioma, todo um passado português.

O espírito centralista, durante muitos anos comum aos dois países peninsulares, fez de Badajoz a única beneficiária do intercâmbio fronteiriço. Enquanto Badajoz crescia e engordava, até ao ponto de se tornar a maior cidade espanhola na fronteira com Portugal, os restantes núcleos urbanos estiolavam, num isolamento que tinha a única vantagem de lhes manter a identidade própria livre de influências alheias. Os povos, quando esquecidos, defendem-se isolando-se mais.

Hoje, desaparecidas as condições políticas que vigoraram na Península durante décadas, instituída a democrecia que veio dar uma voz a anseios e aspirações secretamente alimentados, continua a não ser fácil - lá como cá - vencer a barreira do centralismo, agora reagindo e resistindo por interesses partuculares, económicos ou de prestígio, e secundarizando sempre os núcleos populacionais mais abandonados. Daí que não seja optimista a abertura de uma fronteira entre Olivença e Portugal: os "outros" não deixam...

Mas a actual situação, a persistir, porque assim o querem os interesses regionais ou as razões de Estado, não constitui um óbice a que se mantenham e incrementem as relações de boa vizinhança entre Olivença e o lado de cá. A força que alicerça essa realidade é a unanimidade do povo oliventino a respeito dos laços com os Portugueses: na Câmara, todos os Partidos Políticos, do Partido Comunista à Alianza Popular, votaram pela reivindicação do ensino do nosso idioma em Olivença. E porquê ?...

- Homem, porque todos somos conscientes de que é uma coisa cívica nossa. E temos obrigação de defendê-la. Não me surpreende que o tenham querido prender aqui, há doze anos, porque então existia uma corrente totalmente contrária aos nossos interesses. Mas isso acabou, e hoje nenhum de nós pode negar a sua raiz portuguesa. Está sempre presente, até nos monumentos. Aqui mesmo: o edifício da Câmara era o antigo Palácio dos Duques de Cadaval.

E isto, apesar de se terem perdido quase todas as fontes escritas do passado oliventino, à excepção do Foral de D. Manuel, que permanece na Biblioteca local.

- Temos muito pouca coisa, ficou tudo do lado de lá.

O que explica agora uma verdadeira febre de recolha de livros e documentos, quer provenientes de Portugal, quer da própria Olivença, onde ainda existem obras raras em mãos de particulares. E, para o demonstrar, Ramón Rocha mostra-me as fotocópias - obtidas de um exemplar existente na vila - da raríssima obra de Frei Jerónimo de Belém, editada em Lisboa no século XVIII: "Olivença Ilustrada pela Vida e Obra da Venerável Maria da Cruz, Filha da Terceira Ordem Seráfica, e Natural da Mesma Vila de Olivença".

E é difícil descrever o orgulho com que o "alcalde"(2) exibe esse amontoado de folhas que o tempo acabará por delir mais depressa que o volume setecentista que reproduzem, e que sobreviveu, nas mãos de um ignorado particular, a quase dois séculos de afastamento da pátria de origem.

Mais tarde, procuro nas ruas de Olivença a casa onde viveu a Venerável Maria da Cruz, uma mulher que foi leviana e acabou em cheiro de santidade. Mas já não a encontro: foi destruída, como muitos outros monumentos que atestavam seis séculos de presença portuguesa. Resta, na memória das pessoas, a história dessa figura nebulosa e lendária.

Olivença cala fundo na sensibilidade dos portugueses que percorrem as suas ruas e contemplam os seus monumentos. O tempo ou as malfeitorias destruíram muito do que se ergueu no decurso de seis séculos de nacionalidade portuguesa, mas quase 200 anos de soberania espamhola não conseguiram apagar nem perverter a sua cultura original.

Se não fossem as grades de ferro existentes em muitas janelas - e mais na própria vila do que nas aldeias circundantes -, dir-se-ia que estávamos numa terra alentejana (3), marcada por uma monumentalidade que não é vulgar nos burgos do Sul do País.

Mantém-se a Misericórdia - a única existente em terras de Espanha -, ainda a funcionar como nos seus primórdios, aquando da fundação, em 1501, pela Rainha D. Leonor. Está entregue à Ordem das Filhas da
Caridade(4) e a sua finalidade principal é a de pensionato destinado a idosos e doentes. Na fachada do edifício, dois brasões ladeiam a porta do hospital: à esquerda, as armas portuguesas, com a data de 1501, e à direita o brasão isabelino, com a data de 1801. Entre ambos, três séculos dwe vida e história portuguesa.

Mas o templo da Misericórdia guarda ainda toda a singeleza primitiva, apesar das pinturas estranhas com que algum pinta-monos de má morte decidiu cobrir o altar de madeira escura. Sobre o sacrário, permanece o pelicano, arrancando do peito a sua carne para dar de comer aos filhos. Sessenta anos depois da visita de Hermano Neves, um dos primeiros jornalistas a demandar Olivença no tempo da República, ainda me contam a história que ele próprio então ouviu, e narrou nas crónicas mais tarde publicadas em livro. Diz assim o meu cicerone:

- As freiras, que não conheciam o verdadeiro significado da ave, temiam-no porque achavam que se tratava de uma representação diabólica. Não o consideravam suficientemente bonito para ser o Espírito Santo.
-  Mas permaneceu ali, apesar disso.

- Nem sempre. Mas os portugueses conseguiram obter do provedor da Casa a promessa de repor o famosíssimo passaroco sobre o sacrário.

E acrescenta, com orgulho:

- Em Espanha, é a única instituição deste tipo, e ainda funciona como quando era portuguesa, cumprindo todas as regras.

Nas paredes do templo, magníficos painéis de azulejos, assinados por um nome bem português, Manuel dos Santos.

- Não existem outros em todo o país - diz-me o meu cicerone.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Sábado, 17 de Julho de 2010

Um poema do século XVII sobre a História de Olivença


Carlos Luna

O latinista espanhol Juan Garcia Gutierrez, de Zafra, publicou um interessante trabalho sobre o que sucedeu em Olivença em 1658, quando a população de Olivença, ocupada pelas tropas de Filipe IV, abandonou a povoação e se refugiou em terras controladas pelo rei português Afonso VI, só regressando quando a praça voltou a mãos portuguesas em 1668.

Foi então escrito um poema em Latim pelo jesuíta P. Jerónimo Petruci, professor de Retórica, que surgiu recentemente publicado no livro "Memórias analíticas da vila de Estremoz", de T. Fonseca...um manuscrito do século XVIII que só foi publicado em 2003, pela Câmara Municipal de Estremoz, sob responsabilidade da historiadora Teresa Fonseca.


O poema revelava-se difícil de traduzir. Impossível, mesmo. O latinista espanhol foi verificar o manuscrito, e, com uma alteração, "descobriu a pólvora". Onde se pensava ler "certarum", deveria ler-se "certatum". Eis o poema em latim:


DE URBE OLIVENTIA CAPTA

Quas tibi Palladias, Alfonse, Philippus olivas
abstulit incolumes has tibi Pallas alit.
Perfidae et fidei CERTATUM est robore, portas
perfidia intravit, corda fides tenuit.

Omnibus in patria manendi est facta potestas:
ullum captivum mansit in orbe caput.
Victrices Aquilas defixit in arce Philipus;
Lusiadum, Alfonse, in pectore fixus ades.

Victor uterque fuit, victoria dividit urbem:
Alfonsus cives; saxa Philippus habet.

O llatinista chama a atenção para o facto de Palas (Minerva) ser a deusa da Guerra defensiva e também a criadora da Oliveira, na Mitologia. Logo, as "oliveiras de Palas são... a cidade de Olivença!

Filipe é Filipe IV de Espanha, e Afonso é Afonso VI de Portugal. A deusa Palas consentiu que Filipe se apoderasse da cidade, mas tambérm ofereceu a Afonso a lealdade dos seus habitantes. Apesar de ter sido dito aos oliventinos que, se ficassem, tudo conservariam, só trinta o aceitaram. Cerca de cinco mil atravessaram o Guadiana. Por isso, embora as insígnias espanholas sejam colocadas em Olivença (as águias), a imagem de Afonso VI "flameja" nos corações dos súbditos de Olivença. Para o Rei de Espanha, ficavam os muros de pedra. O Latinista afirma que "está claro que os oliventinos, naquele momento, se sentiram portugueses de pura cepa, irrenunciavelmente lusitanos".

Refere também o regresso dos habitantes em 1668, ao ser reposta a administração portuguesa.
Trata-se do mesmo autor que prefaciou o livro de 2005 "Olivenza, las razones de España", por mim criticado no artigo "Argumentos pouco sérios". Penso que muitos destes "opinadores" não têm muitas vezes noção do que o seu tipo de comentários ligeiros podem significar. Não o fazem por mal... o que não obsta a que sejam criticados, pois já é altura de procurarem ter uma visão mais universal e abrangente de História. Aqui vai a tradução... em Português e em Castelhano:

A TOMADA DA CIDADE DE OLIVENÇA

As oliveiras de Palas, Afonso, que Filipe te arrebatou,
guarda-as Palas para ti, intactas.
Combateu-se com as forças da traição e da lealdade:
a traição cruzou as portas, mas a lealdade manteve os corações fiéis.
A todos se lhes deu a possibilidade de ficar na pátria (cidade),
mas nenhum permaneceu cativo no recinto urbano.
Filipe cravou no torreão as suas águias vitoriosas;
mas tu, Afonso, estás cravado no peito dos portugueses.
Cada um ficou vencedor, a vitória fez a divisão da cidade:
Afonso obtém os cidadãos, Filipe os muros de pedra.

Finalmente, o texto em castelhano, da autoria do Latinista Juan García Gutiérrez:

LA TOMA DE LA CIUDAD DE OLIVENZA


Las olivas de Palas, Alfonso, que te arrebató Felipe,
Las guarda para ti Palas, intactas.
Se combatió con las fuerzas de la trición y de la lealdad:
la traición cruzó las puertas, pero la lealdad mantuvo fieles los corazones.
A todos se les dio la posibilidad de quedarse en la patria (ciudad),
Pero nadie permaneció cautivo en el recinto urbano.
Felipe clavó en el torreón sus águilas victoriosas;
pero tu, Alfonso, estás clavado en el pecho de los portugueses.
Cada uno resultó vencedor, la victoria hizo el reparto de la ciudad:
Alfonso obtiene los ciudadanos, Felipe los muros de piedra.


Para finalizar, resta-me agradecer, com a máxima sinceridade, este trabalho de recuperação.
Carlos Luna
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Poesia tradicional oliventina - 94 quadras


São 94 quadras da poesia tradicional oliventina, todas elas em português. As 72 primeiras, todas elas já publicasa, foram recolhidas por Ventura Ledesma Abrantes nas décadas de 1930 e 1940. Das últimas 20, recolhidas pelo Prof. Hernâni Cidade nas décadas de 1950 e 1960, publicamos hoje da 83ª à 94ª.

83-
Vamos cantar os Reis
à porta do lavrador,
que tem a mulher bonita
e a filha que é uma flor.


84-
Ao poço da tua rua
fui ontem beber água.
Tinha secado de noite
com pena da minha mágoa.

85-
Vi-te à janela uma noite
chorando penas, aflita.
A Lua batia no rosto
mostrando a tua desdita.


86-
Meu coração chora sempre
as lágrimas de uma santa;
são queixumes portugueses
que se ouvem na barranca.

87-
Canta alegre o coração,
canta bem a despedida;
já não têm luz nem morrão
os olhos da minha vida.


88-
Romeiro dos meus amores,
Deixa cantar a canção;
são tristezas e são flores
que saem do coração.
 Adeus, perfumes e flores,
89-
Azeite da minha candeia,
adeus flores dos meus amores,
adeus casinhas da aldeia.

90-
Dos beijos que me destes
guardo o bafo no coração.
Quando fores ao Guadiana
ouve bem esta canção.
(REPETIDA:)


91-
Saudades, tenho saudades,
saudades das feiticeiras.
Lembrança das amizades
da "Terra das Oliveiras".

92-
Doce Jesus da minha alma,
doce Jesus da minha vida,
quando chegará a hora
da minha doce partida?


93-
Oh, senhores, eu vi-a Coxa
Lá no largo do Rossio,
com uma canastra à cabeça
vendendo o belo safio.

94-
O safio estava podre,
estava podre e não se vendia,
e a pobrezinha da Coxa
em vez de ganhar, perdia
publicado por Carlos Loures às 09:00
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