Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

O Mistério da Camioneta Fantasma - IV

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasmapeça de Hélder Costa - 2

 

Cena 2

 

 

Pesadelo

 

(Percurso da camioneta fantasma. Som da viatura misturado com derrapagens e música. Pausa. Passos. Pancadas numa porta com aldraba).

 

Berta Maia (jovem, cabelos soltos, camisa de dormir) - Quem é?

 

Abel Olímpio - O Sr. comandante Carlos da Maia.

 

Berta Maia - quem?

 

Abel Olímpio - O Sr. Coronel Manuel Maria Coelho quer falar com o Sr. Comandante.

 

Carlos Maia (em camisa) - Mandem-me um oficial da minha patente para me acompanhar.

 

Abel Olímpio - Tem de vir já. São ordens.

 

Berta Maia (de joelhos) – Larguem o meu marido, deixem-no. Ele nunca fez mal nenhum. Sempre protegeu os marinheiros. Deixem-no!

 

Carlos da Maia – Levanta-te Berta, uma senhora não suplica a esta gente!

 

(Abel Olímpio empurra Carlos da Maia. Choro de bébé. Som e saída da camioneta).

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasmapeça de Hélder Costa – 3

 

Cena 3

 

 

Julgamento

 

Carmona – Eu, Oscar Fragoso Carmona, acusador público, declaro que estou aqui para cumprir o meu dever, como militar que sou, e só à lei e ao dever obedeço no exercício deste espinhoso cargo.

 

Berta Maia - Sr. Dr. Juiz, a minha dor é imensa e a minha revolta não tem nome. Sei que não me podem dar outra vez o meu querido marido, sei que nunca deixarei de sofrer pelo seu desaparecimento. Quero que este tribunal faça justiça, que liberte a memória de Carlos da Maia de qualquer mancha ou calúnia e que faça luz sobre o mistério desta noite e destas mortes que enlutaram tanta gente de bem.

 

É a minha esperança para que o ódio – que Deus me perdoe – adormeça no meu coração.

 

Dente D’Ouro - Vou perguntar eu, réu e criminoso, porque não soube o Governo guardar as moradias dos cidadãos ameaçados por facínoras que poderiam andar toda a noite a cometer crimes que ninguém surgiria para os evitar. Disso os acusarei; juro!

 

Carmona - Os acusados, os oficiais que realizaram o 19 de Outubro, não tiveram ligações com os assassinos, mas a verdade é que não tomaram as providências necessárias para que se evitassem, se não todos, pelo menos alguns dos crimes.

 

Berta Maia - Tu falarás, não hoje, neste Tribunal, mas mais tarde, tu falarás.

 

Carmona – Finalmente, em Fevereiro de 1923, acabámos o julgamento dos bárbaros crimes do 19 de Outubro de 1921. Abel Olímpio (o Dente de Ouro) Heitor Gilman e José Carlos, 10 anos de prisão maior e 20 de degredo, Mário de Sousa, Acácio Cardoso, Matías Carvalho, Palmela Arrebenta, José Maria Felix, Acácio Ferreira, 8 anos de prisão maior seguidos de 20 de degredo (redução de voz). Benjamim Pereira, Manuel Aprígio, Baltazar de Freitas...

 

Jaime Cortesão - (com um exemplar da Seara Nova) – O que vai sair daqui? Quem esperará ver nos ministérios que se seguirem outra coisa que não seja ministérios de simples expediente administrativo?

 

E isto quando a força das coisas e a própria lógica nos não levarem para uma ditadura militar, com toda a opressão do sistema militar e o predomínio dos interesses militares.

 

Nós, que fizemos o voto de dizer toda a verdade, levantamos a nossa voz de protesto e acusação. Fundámos a revista “Seara Nova” e acusamos os de ontem e os de hoje.

 

Os que já fizeram o mesmo e agora condenam os outros, e os que, para corrigir os erros passados, começam por seguir os métodos do passado. Acusamos os partidos da oposição, que conheciam o que se ia passar e nada fizeram para evitar a catástrofe.

 

Raul Proença – (c/ ex. Seara Nova) Na “ Seara Nova” acusamos os que fomentaram todas as desordens, os que fizeram silêncio sobre todos os desvarios demagógicos, que não tiveram uma palavra de condenação e de proscrição para os miseráveis que, dizendo-se seus partidários desmentiam todos os sentimentos de humanidade. Acusamos os potentados da finança (exploradores, especuladores, açambarcadores, falsificadores, inimigos do povo) que vivem de sugar todo o sangue da Nação pelas ventosas da sua ambição desmedida.

 

Jaime Cortesão e Raul Proença - Acusamo-nos a nós próprios, Jaime Cortesão e Raul Proença, por só agora termos tido este grito.

 

(Continua)


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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

O Mistério da Camioneta Fantasma - III

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasmapeça de Hélder Costa - 1

 

Introdução

 

Na manhã do dia 19 de Outubro de 1921 deu-se mais um golpe militar contra um governo republicano. Demissão do Ministério e nem soou um tiro.

 

O golpe nascera na Armada e tinha a chefiá-lo um dos heróis do 31 de Janeiro, o Tenente – Coronel Manuel Maria Coelho. Tratava-se, portanto, de um golpe de esquerda contra o governo de António Granjo, prestigiado combatente transmontano nas forças republicanas que se opusera a Paiva Couceiro. Este governo imprimia medidas impopulares para tentar equilibrar a bancarrota e combater o desemprego e a miséria do pós-Guerra.

 

Entretanto, na parte da tarde e à noite, uma camioneta começou a percorrer a cidade raptando e assassinando figuras importantes da República: o primeiro ministro António Granjo, Machado Santos, o herói da Rotunda, Carlos da Maia, ex-governador de Macau e chefe da abordagem ao cruzador “D. Carlos”, o Almirante Botelho de Vasconcelos e Freitas da Silva.

 

Conduzida por marinheiros essa camioneta de morte provocou um enorme choque emocional na sociedade que se dispôs a castigar os autores desses assassinatos de lesa-Pátria e lesa-República.

 

Os autores foram presos e vários oficiais absolvidos, num processo que também se quis julgador da esquerda republicana.

 

Parecia que tudo estava resolvido, mas para várias pessoas o processo tinha várias zonas escuras.

 

E Berta Maia, a viúva de Carlos da Maia, dispôs-se a investigar quem poderiam ser os instigadores e autores morais desses crimes. Depois de vários encontros com o marinheiro que chefiava a carrinha, Abel Olímpio , o Dente de Ouro, este confessou que tudo tinha sido uma conspiração monárquica destinada a eliminar os autores do 5 de Outubro, e que a táctica seguida era a de “infiltrar e depois empalmar os movimentos revolucionários”.

 

O que foi feito com sucesso. Perante estes novos dados, que se passou? Nada.

 

Entretanto, dera-se o golpe do 28 de Maio precursor da Ditadura Salazarista e foi decretado silêncio absoluto sobre os acontecimentos da “Noite Sangrenta”.

 

Personagens principais

 

Berta Maia

Carlos da Maia

Abel Olímpio, o Dente de Ouro

Padre Lima

D. Afonso XIII

D. Fonseca, exilado português

Millán Astray

Gastão Melo Matos

Alfredo da Silva

Carlos Pereira

Augusto Gomes

Condessa de Tarouca

Condessa de Ficalho

Raul Leal

Fernandinha, poetisa

Mimoso Ruiz, director de “Imprensa da Manhã”

jornalista

Virgílio Pinhão

Barbosa Viana

Salazar

Senhora Maria

 

Camponeses

Marinheiros

Coristas

 

1º Acto

 

 

1. Berta Maia encontra o Dente de Ouro

 

2. Pesadelo – prisão de Carlos da Maia

 

3. Julgamento

 

4. Ódios e necessidades

 

5. Primeira reunião dos conspiradores

 

6. Padre Lima e Dente de Ouro com os marinheiros

 

7. Memórias de Carlos da Maia

 

8. O Dente de Ouro começa a falar

 

9. Pesadelo – Morte de Machado Santos

 

10. D. Afonso XIII com D. Fonseca, exilado português

 

11. A conspiração com Espanha

 

12. Carnaval no Teatro Nacional

 

 

“O Mistério da Camioneta Fantasma” estreou pelo grupo A BARRACA no teatro CINEARTE no dia 19 de Outubro de 2005.

 

A Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa de 5 de Outubro de 1910 convidou A BARRACA a integrar esse espectáculo na programação dos vários eventos previstos para 2010 e 2011.

 

Esta reposição corresponde a esse convite com a seguinte

 

FICHA TECNICA E ARTISTICA

 

HÉLDER COSTA – texto, encenação, espaço cénico, luz, programa

 

PEDRO MASSANO – animação gráfica

 

MARIA DO CÉU GUERRA – figurinos

 

BRUNO COCHAT – coreografia

 

ALEXANDRE DELGADO – selecção musical de Luís Freitas Branco, Frederico de Freitas, Stravinsky

 

JOSÉ CARLOS PONTES – adereços e apoio técnico

 

FERNANDO BELO – luminotecnia

 

RICARDO SANTOS - sonoplastia

 

 

RITA FERNANDES ---- Berta Maia

CÉLIA ALTURAS - Condessa de Ficalho, Millán Astray, corista, marinheiro

VÂNIA NAIA - Condessa de Tarouca, corista, marinheiro, poetisa Fernandinha, jornalista, Sra Maria

LUIS THOMAR - Abel Olímpio, o Dente de Ouro

ADÉRITO LOPES - Carlos da Maia, marinheiro, D. Fonseca, Almada Negreiros

JOÃO D’AVILA – Rudolph, Alfredo da Silva, Barbosa Viana

PEDRO BORGES - Gastão Melo Matos, marinheiro, Salazar

RUBEN GARCIA – Raul Proença, Augusto Gomes, Raul Leal , D. Afonso XIII,

SERGIO MORAS - Padre Lima, António Ferro, Virgílio Pinhão

SERGIO MOURA AFONSO – Jaime Cortesão, Carlos Pereira, corneteiro, Mimoso Ruiz

 

Relações Pública e produção : Inês Costa ; Secretariado – Maria Navarro

 

Costureira : Inna Siryk ; Montagem : Mário Dias

 

1º ---Slide/Texto e Voz

 

 

No dia 19 de Outubro de 1921 abateu – se uma enorme tragédia sobre a vida portuguesa. Nessa noite um grupo de marinheiros assassinou figuras ímpares da Republica: António Granjo, o vencedor das invasões de Paiva Couceiro, Machado Santos, o herói da Rotunda e Carlos da Maia, comandante do navio D. Carlos.

 

Os assassinos foram presos e condenados, mas ficaram sempre impunes os autores morais desses crimes.

 

A quem interessava a morte dos heróis Republicanos ?

 

E assim se criou…..

 

2º Slide ---- O mistério da camioneta fantasma

 

Fim do som da camioneta

 

Cena 1

 

 

 

 

Berta Maia encontra o Dente de Ouro

 

Berta Maia - Estás a conhecer-me? Olha bem para mim. Não me deste tiros, mas fizeste de mim um cadáver! Nunca esquecerei esse dia, esse 19 de Outubro...

 

Abel Olímpio - A senhora é a única pessoa que me pode acusar.

 

Berta Maia - Bandido, roubaste-me a minha felicidade, fizeste órfão o fruto do nosso amor, mataste um homem honrado e sério. Porquê? Quem te mandou? Porque disseste mentiras? Os outros marinheiros estavam a desistir de levar o meu marido, e tu foste o mais duro, o mais cruel, foste tu que o levaste... Porquê? Quem te mandou? Diz, Dente de Ouro! Diz, maldito!

 

Abel Olímpio - Dê-me dois tiros, minha senhora.

 

Berta Maia - Mais que o castigo, o que eu quero é saber o porquê da morte do meu marido. Fala, Dente de Ouro! Fala! Alguém conseguiu os seus fins, dentro ou fora do movimento. Fala! Quem foi o cobarde que te deu essas ordens e que se esconde?

 

(abeira-se dele) – Quem te mandou?

 

Abel Olímpio - Ninguém.

 

Berta Maia - Mas tu tens conspirado, andaste com integralistas, estiveste preso por isso, andaste com o

 

Padre Lima... Porquê? Para quê?

 

Abel Olímpio - Eu sou republicano. Meti-me nessas conspirações para saber o que se passava e contar aos republicanos.

 

 

Berta Maia - Ai sim? Então conta tudo o que sabes. Aqui somos todos republicanos, não tens problema.

 

Abel Olímpio - Tratava-se de um movimento nacional comandado por um capitão de fragata.

 

Berta Maia - Até que enfim! Eu disse que tu falarias! Quem é esse capitão de fragata?

 

Abel Olímpio - Não sei, não digo, não me façam mais perguntas, não digo.

 

Berta Maia - Em que fragata é que está esse oficial?

 

Abel Olímpio – não sei, não sei.

 

Berta Maia - E outros que estiveram no movimento?

 

Abel Olímpio - Havia o Padre Lima.

 

Berta Maia - Esse já sabemos. O Padre já confessou que andava em conspirações contigo.

 

Abel Olímpio - Como vêem, eu falo verdade. Só falo do que sei. (sai)

 

Berta Maia - Tu escondes a verdade, marinheiro. Tu escondes a verdade, maldito! Mas eu hei-de descobrir tudo, eu hei-de limpar a honra do meu querido marido.

________________

 

(Continua)

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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

O Mistério da Camioneta Fantasma - I

 

 

 

 

 

 

 

 

O MISTÉRIO DA CAMIONETA FANTASMA

 

A BARRACA volta a debruçar-se sobre um tema da História de Portugal. Desta vez, da nossa História recente: os crimes da “Noite Sangrenta”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

 

 

1. No dia 19 de Outubro de 1921,desabou sobre Portugal uma horrível tragédia desmistificadora dos nossos tão celebrados brandos costumes.

 

Sendo presidente António José de Almeida, o governo presidido por António Granjo, heróico Republicano reconhecido “ Homem Bom “ respeitado por correligionários e adversários políticos.

 

A insatisfação provocada por algumas medidas necessárias e não demagógicas, era sistematicamente acirrada pela oposição monárquica e integrista através de vários órgãos de imprensa de que é essencial destacar “A Voz”, e a “Imprensa da Manhã”, propriedade de Alfredo da Silva, antigo deputado da ditadura de João Franco, industrial do Barreiro, e que se referia ao jornal como sendo “a sua amante mais cara”.

 

Foi por isso, com naturalidade, que os rumores de revoltas militares se concretizaram na manhã do 19 de Outubro, num putsh dirigido por Manuel Maria Coelho, antigo herói do 31 de Janeiro de 1891, primeira revolta Republicana, na cidade do Porto.

 

E foi ainda mais natural que o Presidente tenha acedido às exigências dos revolucionários, demitindo o governo e entregando-o aos revoltosos. António Granjo encarou também com naturalidade a sua demissão, retirando-se tranquilamente para casa.

 

Ao fim da manhã o golpe estava consumado e nem se tinha disparado um tiro.

 

3. Parecia chegado ao fim um período particularmente agitado da jovem Republica portuguesa.

 

Na verdade, o 5 de Outubro de 1910 não tinha significado a pacificação da sociedade portuguesa. Seguiram-se lutas e greves operárias e camponesas, golpes e invasões monárquicas, cisões no bloco republicano, sabiamente aproveitadas pelas forças mais reaccionárias, a ditadura de Pimenta de Castro recheada de revanchismo monárquico absolutista, a grande guerra de 14/18, a ditadura de Sidónio Pais e seu assassinato em Dezembro de l918, e mais pequenos golpes e intrigas.

 

Tudo isto convenientemente acompanhado por crise económica, bancarrota, corrupção, nepotismo e alienação progressiva da independência económica e financeira.

 

Parecia chegado o momento da pacificação, dado o prestígio ético e militar dos chefes da revolta.

 

Mas os Deuses tinham outros projectos

 

O DEZANOVE DE OUTUBRO

 

1. E, de repente, outra estória deu a volta à História.

 

Um grupo de marinheiros começou a percorrer a pacata e tranquila Lisboa com uma camioneta. A tradição anarquista e republicana da marinha permite-nos visualizar um grupo eufórico, gritando morras aos exploradores, talvez agitando bandeiras, e possivelmente com um pouco de álcool a mais. Nada de estranho, porque a revolução é uma festa e está longe dos cerimoniais académicos e professorais. É até de supor que tenham sido apoiados e vitoriados no seu épico percurso de triunfadores.

 

2. Para onde foram esses marinheiros, ao cair da noite?

 

Continuar a revolução, que tinha possivelmente ficado em águas mornas para os seus gostos?

 

São interrogações legítimas que permitem compreender o apoio ou a passividade com que o povo de Lisboa assistiu ao percurso dessa camioneta.

 

A primeira paragem foi na casa de António Granjo, na rua João Crisóstomo. Os gritos de vingança e de linchamento faziam-se ouvir e o primeiro-ministro deposto procurou refúgio, pelas traseiras, em casa do seu adversário político e vizinho, Cunha Leal, que vivia na avenida Miguel Bombarda.

 

Uma porteira, que teria ido buscar cebola e hortaliça à sua rica hortinha, avisou os marinheiros da fuga de António Granjo pelos quintais.

 

O cerco continuou à porta de Cunha Leal, e depois de telefonemas e insistências várias, a teimosia deu resultado, pois foram os dois para o Arsenal

 

À entrada quiseram matar António Granjo, Cunha Leal opôs-se, foi ferido com um tiro no pescoço, António Granjo fugiu, foi encurralado numa escada, abatido.com dezenas de tiros e trespassado pela espada de um “ corajoso” corneteiro da Guarda republicana.

 

O sangue espirrou à altura de metro e meio, e assim se silenciou para sempre um dos mais corajosos combatentes de Trás-os-Montes contra a invasão de Paiva Couceiro.

 

3.Os “bravos marinheiros” tinham começado a fazer justiça.

 

Chefiados por Abel Olímpio, cabo, conhecido por “Dente de Ouro”, retomam o percurso da vingança.

 

O próximo alvo chamava-se José Carlos da Maia, oficial da Marinha que tinha tomado o cruzador D. Carlos no 5 de Outubro , antigo ministro de Sidónio Pais em l917 e 1918, e de José Relvas em 1919.

 

Com informações de antigas vizinhas, chegam à sua nova residência na rua dos Açores.

 

São 11 horas da noite, e o casal, depois de beijar o filho de poucos meses, é assustado com fortes pancadas na porta.

Apesar dos esforços de Berta Maia, é arrastado e será assassinado à entrada do Arsenal.

Mas a “noite sangrenta”, nome por que ficaram conhecidas essas terríveis horas, tinha mais mortes a executar.

Seguiram-se Freitas da Silva, capitão de fragata, ex - chefe de gabinete do ministro da Marinha do Governo cessante de António Granjo, e o coronel de Cavalaria Botelho de Vasconcelos.

Os crimes continuavam, mas para os assassinos ainda faltava a chave de ouro.

4.São duas horas da madrugada, e a camioneta fantasma arranca do nº 14 da rua José Estêvão, no bairro da Estefânia, depois de arrancar Machado Santos, o herói da Rotunda, do sossego do lar.

No largo do Intendente, param a camioneta e fuzilam-no, sem dó nem piedade.

No mistério dessa noite surge um nebuloso empresário teatral, Augusto Gomes, que cede o seu táxi para que se leve o corpo à morgue.

Estes são os dados essenciais do que se passou no tristemente célebre 19 de Outubro.

 

O MISTÉRIO E AS DÚVIDAS

 

Tanta barbárie, levantou suspeitas.

Claro que a imprensa reaccionária e monárquica imputava os crimes à Republica, à desordem, e à falta de autoridade e anarquia do Governo.

 

Mas...a quem interessavam esses crimes?

 

Era possível que os marinheiros tivessem actuado em plena impunidade e a seu belo prazer?

 

Foram estas dúvidas que persistiram na mente dos familiares das vítimas e na convicção da opinião pública.

 

A 1 de Junho de 1923,o Tribunal Militar Extraordinário de Santa Clara condena o bando assassino a pesadas penas e iliba os oficiais revolucionários.

 

Mas as dúvidas continuam, e Rocha Martins publica as grandes questões:

- Quem preparou a aura do terror?

- Trabalharam por sua conta estes carrascos?

- Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis?

 

BERTA MAIA


A viúva de Carlos da Maia desenvolve uma actividade incessante tentando desvendar o mistério dos mandantes desse massacre.

 

A insistência com o Dente de Ouro acabou por dar resultado. Ele acabou por confessar a ligação com o padre Lima, o dinheiro que iam receber ao jornal “A Voz”, e que o plano da conspiração monárquica consistia muito simplesmente em “infiltrar um movimento revolucionário, e depois empalmá-lo”.

 

Táctica, como se sabe, de ampla e profícua aplicação histórica.

 

Confissão adquirida, nomes denunciados, e a justiça parou.

 

Entretanto, tinha-se dado o 28 de Maio, o tal “movimento purificador”, e para uma paz tranquila não há como calar assuntos incómodos.

 

A peça “O mistério da camioneta fantasma”(x)

 

O trabalho dramatúrgico consistiu em desenhar o enquadramento do 19 de Outubro, focando a oposição monárquica, o importantíssimo papel da imprensa -principalmente os jornais “ A Época” e “A Imprensa da Manhã” do industrial Alfredo da Silva - na formação de um clima anti-regime através de boatos e intrigas, a conspiração dos exilados e o seu apoio por parte do Rei de Espanha, a acção determinante –no terreno e na confissão do Dente de Ouro -, dessa figura sinistra ,o empresário teatral Augusto Gomes, e a incapacidade ou total impossibilidade de os Republicanos terem conseguido a total clarificação deste “mistério”perante a opinião publica.

 

Será talvez essa a razão de se continuar a intitular de “mistério”um golpe reaccionário suficientemente clarificado nos seus propósitos e objectivos.

 

E se todos esses dados ainda são considerados insuficientes, pois que se faça luz definitiva sobre um dos mais bárbaros e repugnantes acontecimentos que manchou a vida politica nacional.

 

A História e o futuro vivem de saber ler o passado.

 

Não será despiciendo saber toda a verdade sobre os crimes que se abateram sobre os dirigentes do 5 de Outubro, onze anos depois de terem conquistado a liberdade para o povo português.

 

 

Hélder Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hélder Costa nasceu em Grândola. Estudou Direito nas universidades de Coimbra e de Lisboa. Em Coimbra fez parte do CITAC. Em Paris, onde estudou Teatro, fundou o "Teatro Operário de Paris". Regressou a Portugal em 1974 Actor, dramaturgo e encenador, dirigiu cursos de Arte Dramática. É o director do Grupo de Teatro " A Barraca".

 

Principais obras: : Liberdade, Liberdade, Lisboa, 1974; O Congresso dos Pides e Um Inquérito, in "Ao Qu'isto chegou", 1977; A Camisa Vermelha, Coimbra, 1977; Três Histórias do Dia-a-Dia (O Jogo da Bola, A Sorte Grande, A Vaca Prometida), 1977; Histórias de fidalgotes e alcoviteiras, pastores e judeus, mareantes e outros tratantes, sem esquecer suas mulheres e amantes: sobre textos de Gil Vicente e Angelo Beolco, o Ruzante, Lisboa, 1977; Zé do Telhado, Coimbra, 1978; D. João VI, Coimbra, 1979; Teatro Operário: 18 de Janeiro de 1934, Coimbra, 1980; É Menino ou Menina (dramaturgia composta a partir de textos de Gil Vicente), Lisboa, 1981; Um Homem é um Homem - Damião de Góis, teatro, Coimbra, 1981; O Príncipe de Spandau, Lisboa, 1997; Marilyn, meu amor, drama original em dois actos, Lisboa, 1997;

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasma, Lisboa, 2001.O Incorruptivel, Fernão, mentes?, Bushlandia, Obviamente demito-o!, O Professor de Darwin, A Balada da Margem Sul, As peugas de Einstein (estreada no Brasil, inédita em Portugal)

 

(x) O texto de "O Mistério da Camioneta Fantasma" foi o produto de um concurso de bolsas de criação literária do Ministério da Cultura ganho pelo autor;

 

A peça teve uma 1ª edição (esgotada) pela “Colibri” com patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas

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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

“A Noite Sangrenta” de 19 de Outubro de 1921

Carlos Loures

Este episódio da nossa história recente já aqui foi contado pelo José Brandão e pelo Hélder Costa, na sua peça «O Mistério da Camioneta Fantasma».. Por fazer hoje 89 anos, voltamos a recordá-la. Imaginam o que seria se acontecesse hoje uma tragédia semelhante – no mesmo dia, foram barbaramente assassinados o chefe do governo e outras personalidades de relevo na vida política do País.

.Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo. Monárquicos e elementos ligados á Igreja Católica, com o apoio de terra-tenentes e grandes industriais, conspiravam. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas.


A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, ganhavam peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo num caldo de incontida raiva.

Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros. O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional».

Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático. Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam.

Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens.

Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou. Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava.

A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.

A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço. José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: - Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano!

Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: - Venham ver de que cor é o sangue do porco!»

Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais. A luta de classes tem as costas largas – mas ninguém acredita que por detrás dos executores, não tenho havido forças poderosas..

O livro de que já falei - «A Noite Sangrenta», do nosso colaborador historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na explicação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas. A peça de Hélder Costa, sendo um ficção, apresenta uma versão verosímil do que se terá passado. Aconselhamos a leitura dos dois livros.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sábado, 9 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -22 (última parte)

ANEXO 1


O MISTERIO DA CAMIONETA FANTASMA

A BARRACA volta a debruçar-se sobre um tema da História de Portugal. Desta vez, da nossa História recente: os crimes da “Noite Sangrenta”.




O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

1. No dia 19 de Outubro de 1921,desabou sobre Portugal uma horrível tragédia desmistificadora dos nossos tão celebrados brandos costumes.

Sendo presidente António José de Almeida, o governo presidido por António Granjo, heróico Republicano reconhecido “ Homem Bom “ respeitado por correligionários e adversários políticos.

A insatisfação provocada por algumas medidas necessárias e não demagógicas, era sistematicamente acirrada pela oposição monárquica e integrista através de vários órgãos de imprensa de que é essencial destacar “A Voz”, e a “Imprensa da Manhã”, propriedade de Alfredo da Silva, antigo deputado da ditadura de João Franco, industrial do Barreiro, e que se referia ao jornal como sendo “a sua amante mais cara”.

2. Foi por isso, com naturalidade, que os rumores de revoltas militares se concretizaram na manhã do 19 de Outubro, num putsh dirigido por Manuel Maria Coelho, antigo herói do 31 de Janeiro de 1891, primeira revolta Republicana, na cidade do Porto.

E foi ainda mais natural que o Presidente tenha acedido às exigências dos revolucionários, demitindo o governo e entregando-o aos revoltosos. António Granjo encarou também com naturalidade a sua demissão, retirando-se tranquilamente para casa.

Ao fim da manhã o golpe estava consumado e nem se tinha disparado um tiro.

3. Parecia chegado ao fim um período particularmente agitado da jovem Republica portuguesa.

Na verdade, o 5 de Outubro de 1910 não tinha significado a pacificação da sociedade portuguesa. Seguiram-se lutas e greves operárias e camponesas, golpes e invasões monárquicas, cisões no bloco republicano, sabiamente aproveitadas pelas forças mais reaccionárias, a ditadura de Pimenta de Castro recheada de revanchismo monárquico absolutista, a grande guerra de 14/18, a ditadura de Sidónio Pais e seu assassinato em Dezembro de l918, e mais pequenos golpes e intrigas.

Tudo isto convenientemente acompanhado por crise económica, bancarrota, corrupção, nepotismo e alienação progressiva da independência económica e financeira.

Parecia chegado o momento da pacificação, dado o prestígio ético e militar dos chefes da revolta.

Mas os Deuses tinham outros projectos


O DEZANOVE DE OUTUBRO

1. E, de repente, outra estória deu a volta à História.

Um grupo de marinheiros começou a percorrer a pacata e tranquila Lisboa com uma camioneta. A tradição anarquista e republicana da marinha permite-nos visualizar um grupo eufórico, gritando morras aos exploradores, talvez agitando bandeiras, e possivelmente com um pouco de álcool a mais. Nada de estranho, porque a revolução é uma festa e está longe dos cerimoniais académicos e professorais. É até de supor que tenham sido apoiados e vitoriados no seu épico percurso de triunfadores.

2.Para onde foram esses marinheiros, ao cair da noite?

Continuar a revolução, que tinha possivelmente ficado em águas mornas para os seus gostos?

São interrogações legítimas que permitem compreender o apoio ou a passividade com que o povo de Lisboa assistiu ao percurso dessa camioneta.

A primeira paragem foi na casa de António Granjo, na rua João Crisóstomo. Os gritos de vingança e de linchamento faziam-se ouvir e o primeiro-ministro deposto procurou refúgio, pelas traseiras, em casa do seu adversário político e vizinho, Cunha Leal, que vivia na avenida Miguel Bombarda.

Uma porteira, que teria ido buscar cebola e hortaliça à sua rica hortinha, avisou os marinheiros da fuga de António Granjo pelos quintais.

O cerco continuou à porta de Cunha Leal, e depois de telefonemas e insistências várias, a teimosia deu resultado, pois foram os dois para o Arsenal

À entrada quiseram matar António Granjo, Cunha Leal opôs-se, foi ferido com um tiro no pescoço, António Granjo fugiu, foi encurralado numa escada, abatido.com dezenas de tiros e trespassado pela espada de um “ corajoso” corneteiro da Guarda republicana.

O sangue espirrou à altura de metro e meio, e assim se silenciou para sempre um dos mais corajosos combatentes de Trás-os-Montes contra a invasão de Paiva Couceiro.

3.Os “bravos marinheiros” tinham começado a fazer justiça.

Chefiados por Abel Olímpio, cabo, conhecido por “Dente de Ouro”, retomam o percurso da vingança.

O próximo alvo chamava-se José Carlos da Maia, oficial da Marinha que tinha tomado o cruzador D. Carlos no 5 de Outubro , antigo ministro de Sidónio Pais em l917 e 1918, e de José Relvas em 1919.

Com informações de antigas vizinhas, chegam à sua nova residência na rua dos Açores.

São 11 horas da noite, e o casal, depois de beijar o filho de poucos meses, é assustado com fortes pancadas na porta.

Apesar dos esforços de Berta Maia, é arrastado e será assassinado à entrada do Arsenal.

Mas a “noite sangrenta”, nome por que ficaram conhecidas essas terríveis horas, tinha mais mortes a executar.


Seguiram-se Freitas da Silva, capitão de fragata, ex - chefe de gabinete do ministro da Marinha do Governo cessante de António Granjo, e o coronel de Cavalaria Botelho de Vasconcelos.

Os crimes continuavam, mas para os assassinos ainda faltava a chave de ouro.

4.São duas horas da madrugada, e a camioneta fantasma arranca do nº 14 da rua José Estêvão, no bairro da Estefânia, depois de arrancar Machado Santos, o herói da Rotunda, do sossego do lar.

No largo do Intendente, param a camioneta e fuzilam-no, sem dó nem piedade.

No mistério dessa noite surge um nebuloso empresário teatral, Augusto Gomes, que cede o seu táxi para que se leve o corpo à morgue.

Estes são os dados essenciais do que se passou no tristemente célebre 19 de Outubro.

O MISTÉRIO E AS DUVIDAS

Tanta barbárie, levantou suspeitas.

Claro que a imprensa reaccionária e monárquica imputava os crimes à Republica, à desordem, e à falta de autoridade e anarquia do Governo.

Mas...a quem interessavam esses crimes?

Era possível que os marinheiros tivessem actuado em plena impunidade e a seu belo prazer?

Foram estas dúvidas que persistiram na mente dos familiares das vítimas e na convicção da opinião pública.

A 1 de Junho de 1923,o Tribunal Militar Extraordinário de Santa Clara condena o bando assassino a adas penas e iliba os oficiais revolucionários.

Mas as dúvidas continuam, e Rocha Martins publica as grandes questões:

- Quem preparou a aura do terror?

- Trabalharam por sua conta estes carrascos?

- Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis?


BERTA MAIA

A viúva de Carlos da Maia desenvolve uma actividade incessante tentando desvendar o mistério dos mandantes desse massacre.

A insistência com o Dente de Ouro acabou por dar resultado. Ele acabou por confessar a ligação com o padre Lima, o dinheiro que iam receber ao jornal “A Voz”, e que o plano da conspiração monárquica consistia muito simplesmente em “infiltrar um movimento revolucionário, e depois empalmá-lo”.

Táctica, como se sabe, de ampla e profícua aplicação histórica.

Confissão adquirida, nomes denunciados, e a justiça parou.

Entretanto, tinha-se dado o 28 de Maio, o tal “movimento purificador”, e para uma paz tranquila não há como calar assuntos incómodos.


A peça “O mistério da camioneta fantasma”(x)

O trabalho dramaturgico consistiu em desenhar o enquadramento do 19 de Outubro, focando a oposição monárquica, o importantissimo papel da imprensa -principalmente os jornais “ A Época” e “A Imprensa da Manhã” do industrial Alfredo da Silva - na formação de um clima anti-regime através de boatos e intrigas, a conspiração dos exilados e o seu apoio por parte do Rei de Espanha, a acção determinante –no terreno e na confissão do Dente de Ouro -, dessa figura sinistra ,o empresário teatral Augusto Gomes, e a incapacidade ou total impossibilidade de os Republicanos terem conseguido a total clarificação deste “mistério”perante a opinião publica.

Será talvez essa a razão de se continuar a intitular de “mistério”um golpe reaccionário suficientemente clarificado nos seus propósitos e objectivos.

E se todos esses dados ainda são considerados insuficientes, pois que se faça luz definitiva sobre um dos mais bárbaros e repugnantes acontecimentos que manchou a vida politica nacional.

A História e o futuro vivem de saber ler o passado.

Não será despiciendo saber toda a verdade sobre os crimes que se abateram sobre os dirigentes do 5 de Outubro, onze anos depois de terem conquistado a liberdade para o povo português.

Hélder Costa


Hélder Costa nasceu em Grândola. Estudou Direito nas universidades de Coimbra e de Lisboa. Em Coimbra fez parte do CITAC. Em Paris, onde estudou Teatro, fundou o "Teatro Operário de Paris". Regressou a Portugal em 1974 Actor, dramaturgo e encenador, dirigiu cursos de Arte Dramática. É o director do Grupo de Teatro " A Barraca".


Principais obras: : Liberdade, Liberdade, Lisboa, 1974; O Congresso dos Pides e Um Inquérito, in "Ao Qu'isto chegou", 1977; A Camisa Vermelha, Coimbra, 1977; Três Histórias do Dia-a-Dia (O Jogo da Bola, A Sorte Grande, A Vaca Prometida), 1977; Histórias de fidalgotes e alcoviteiras, pastores e judeus, mareantes e outros tratantes, sem esquecer suas mulheres e amantes: sobre textos de Gil Vicente e Angelo Beolco, o Ruzante, Lisboa, 1977; Zé do Telhado, Coimbra, 1978; D. João VI, Coimbra, 1979; Teatro Operário: 18 de Janeiro de 1934, Coimbra, 1980; É Menino ou Menina (dramaturgia composta a partir de textos de Gil Vicente), Lisboa, 1981; Um Homem é um Homem - Damião de Góis, teatro, Coimbra, 1981; O Príncipe de Spandau, Lisboa, 1997; Marilyn, meu amor, drama original em dois actos, Lisboa, 1997;

 O Mistério da Camioneta Fantasma, Lisboa, 2001.O Incorruptivel, Fernão, mentes?, Bushlandia, Obviamente demito-o!, O Professor de Darwin, A Balada da Margem Sul, As peugas de Einstein (estreada no Brasil, inédita em Portugal)


(x) O texto de "O Mistério da Camioneta Fantasma" foi o produto de um concurso de bolsas de criação literária do Ministério da Cultura ganho pelo autor;


A peça teve uma 1ª edição (esgotada) pela “Colibri” com patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas

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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -20 e 21

(Continuação)

Cena 20

Pesadelo e melancolia

(Musica e luz intermitente)

Berta Maia – Diz-me Dente de Ouro: quem te mandou matar o meu marido?

(esta fala é repetida por outras vozes a seguir a cada fala de BM ou de AO)


Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.

Berta Maia – Tu hás-de falar. Tu falarás.

Abel Olímpio – Padre Lima, ... ia receber dinheiro ao jornal “A Época”...

Berta Maia – Eles vão-te matar. Não morras sem me dizeres a verdade.

Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam.

Berta Maia – Fala, Dente de Ouro... fala!

Abel Olímpio – Eu fui aliciado pelo Padre Lima, residente na Rua da Assunção, 56 – Direito.

Sou o cabo de artilharia da Armada, nº 2170, e estou a prestar declarações sem coacção, nem dádivas ou promessas, para efeitos de justiça e revisão do processo das vítimas de 19 de Outubro.

O Padre Lima dizia nas reuniões: “no próximo movimento revolucionário, depois de tudo organizado, como devia ser, lançavam-se no movimento para o empalmar, e donos da situação liquidavam-se os republicanos, em especial os do 5 de Outubro, e vingava-se a morte de el-rei D. Carlos”.

Berta Maia (com o filho nos braços) – Ninguém me pode dar o meu marido. Mas limpei a sua honra e o ideal dos republicanos honestos.

(Slide—morte de Carlos da Maia e reprodução ao vivo—Dente de Ouro dá tiro na nuca a Carlos da Maia)

Cena 21

O silêncio

(Salazar sentado numa cadeira É novo, entra senhora Maria. Mimam cálices de porto).

Senhora Maria – Aqui está o biscoitinho e o portinho, senhor doutor.

Salazar – Muito obrigado, senhora Maria. Olhe, não quer um cálicezinho?

Senhora Maria – Não vale a pena, muito obrigada, senhor doutor.

Salazar - Vá lá, tome lá um golinho... que é para não dizer que o Salazar é um sovina.

Senhora Maria – Valha-me Deus, se alguma vez eu era capaz de uma coisa dessas!

Salazar - É que eu estou satisfeito com umas coisas, quero comemorar, e também quero saber a sua opinião

Senhora Maria - Se eu souber dizer alguma coisa que se aproveite...

Salazar – O que é que pensa daquele caso do Dente de Ouro?

Senhora Maria – Olhe, senhor doutor, vê-se que Deus não dorme. Quem é que havia de dizer que passados tantos anos, aquele monstro ia começar a falar... grande mulher, aquela senhora...

Salazar – Pois olhe, eu acho que isto já deu conversa a mais e vou proibir que os jornais falem do assunto.

Senhora Maria – O senhor doutor é que sabe, mas olhe que agora, anda toda a gente a querer saber o que se passou... e parece que aquele bandido que matou a Maria Alves também estava metido nisso...

Salazar – O perigo disto é que há amigos nossos que estiveram metidos no caso, e se isso se sabe é uma carga de trabalhos.

Senhora Maria – Parece impossível. Então não foram esses republicanos, ou lá o que é, que mataram aqueles senhores?

Salazar – Está a ver... a coisa estava tão bem feita, que até a senhora acreditou... está-se a descobrir que foi a nossa gente quem organizou tudo; é por isso que tem de se pôr uma pedra sobre o assunto.

Senhora Maria – O que vai haver pr’aí de barulho...

Salazar – Está enganada. Esses republicanos, democratas e revolucionários e outros nomes que lhes quiser chamar, calam-se todos.

Senhora Maria – Oh senhor doutor!

Salazar – Mataram o Machado Santos e quem é que quer saber disso? O Carlos da Maia, com a mania da seriedade... e o Granjo...

Senhora Maria – O senhor Granjo parece que até estava a governar menos mal...

Salazar – Estava, estava. Estava a cortar no que a populaça exigia. Era para ficar bem visto pelos capitalistas. Esse ainda está pior. Primeiro, porque os seus antigos companheiros aproveitaram isso para dizer que ele tinha mudado, que já não merecia confiança, e que foi muito bem feito ter morrido como morreu. Os capitalistas e os monárquicos também não irão mexer uma palha, porque esse tipo de política é para ser feita por nós, e não por eles.

Está a perceber porque é que eles se vão calar?

Senhora Maria – Alguém há-de refilar.

Salazar – Senhora Maria, vai tudo ficar calado, até porque apanharam medo a sério. Já perceberam que a gente não está para brincar, e que as coisas vão mesmo endireitar. O reviralho acabou.
Umas prisões, uns safanões dados a tempo, umas deportações para bem longe... Timor, Cabo Verde, Costa de África... ficam a fazer a revolução com os pretinhos...eles é que gostam dessas algazarras… (ri)... os que nós deixarmos por aqui, a gente já os conhece... não fazem mal a uma mosca e até convém que digam as suas coisas para parecer que o nosso regime respeita a liberdade. Está tudo bem assim, e nem podia ser de outra forma.

Senhora Maria – O Senhor doutor Salazar é muito inteligente.



Salazar (bebe) – Olha traga-me a minha mantinha….

(Senhora. Maria põe-lhe a manta nos joelhos)

É muito bom este vinho do Porto...

(Som de máquina de escrever e voz)

- Condenados só vi, até agora, os executores, aqueles cujas culpas não oferecem dúvidas. Trabalharam por sua conta estes carrascos? Saiu das suas cabeças essa ideia terrível de assassinar gente honrada e deixar com vida tantos miseráveis?

Quem preparou a aura do terror? Das suas revelações é que depende a justiça, não a do tribunal republicano, que só condena marujos e soldados, mas a outra, a que algum dia, tarde ou cedo, se fará em nome da Nação.

Rocha Martins

(Som da camioneta. Faróis no ciclorama .)

Voz off (acompanhando a entrada dos personagens)


Os autores morais dos crimes nunca foram inquiridos.

Alfredo da Silva fugiu para Espanha, voltou a financiar outro golpe – o 28 de Maio – e foi recompensado com A Tabaqueira, o grande negócio dos tabacos.

Gastão de Melo e Matos, monárquico e investigador pertenceu à Comissão de Censura de Espectáculos

Carlos Pereira continuou a dirigir a sua Companhia das Aguas

O Padre Lima voltou para a terra, sendo pároco em Macedo de Cavaleiros e Mogadouro. Morreu em paz .

Augusto Gomes, preso pelo assassinato de Maria Alves

Abel Olímpio, o Dente de Ouro, foi degredado para Àfrica.

O sargento que assassinou Carlos da Maia nunca foi preso.

Tinha-se dado o golpe do 28 de Maio, e estes crimes foram cobertos com um oportuno manto de silêncio.

( 4 Actores (Alfredo da Silva, Gastão de Melo e Matos, Carlos Pereira e Padre Lima) atiram para os projectores que se vão apagando até se atingir o black – out)

FIM

Saída do publico com

One O’clock jump de Duke Elington

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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -19

(Continua)Cena 19

A impunidade

(Gastão Melo Matos com Barbosa Viana)


BV – Senhor Gastão Melo Matos , como sabe foi referenciado como implicado no 19 de Outubro...

GMM – Sim, Sr. agente Belém. Fui referenciado nesse caso e com muito prazer.

BV – Sr. Gastão, não me parece que o caso seja para dar muito prazer. Foram crimes horríveis que se praticaram e a partir das confissões do Dente de Ouro, a acusação dirige-se ao vosso campo, o monárquico.

GMM – Houve um julgamento, criminosos foram condenados, e se há denúncias contra outros, prendam-nos. Não percebo o que é que o Sr. agente pretende investigar...

BV – Eu quero investigar os motivos desses crimes, quem foram os instigadores... é a opinião pública que exige ser esclarecida.

GMM – Mas se é só isso, eu informo-o. É evidente que a nossa táctica consistia em empalmar o movimento revolucionário republicano. Nem podíamos fazer outra coisa, depois das nossas invasões monárquicas de 1911 e 1919 terem falhado, da morte do Sidónio, da derrota em Monsanto (ri) ... era o único caminho que nos restava, e como vocês passavam a vida a dar-nos oportunidades sempre com golpes uns contra os outros... (ri) ... acabou por ser fácil.

BV – Mas para isso, é preciso dinheiro...

GMM – Oh, senhor agente, dinheiro é coisa que não nos falta, graças a Deus. Para esses marujos foram 100 contos dados pelo conde de Tarouca e pelo Carlos Pereira da Companhia das Águas, o palerma do tenente Mergulhão deu a camioneta a troco de trezentos mil réis e houve mais dinheiro que funcionou para outra gente... e quando for preciso mais, arranja-se...

BV – O Sr. Gastão sabe que as suas declarações são graves...

GMM – O que é grave é se o Sr. as quiser utilizar. Não percebeu que o país mudou? Não percebeu que o 28 de Maio foi feito para pôr ordem – de uma vez por todas – neste desgraçado país? O 19 de Outubro foi feito, foi bem executado, foi julgado, o caso está arquivado e acabou. Nunca mais se falará nisso. Daqui por cem anos ainda hão de dizer que foram os Republicanos que fizeram estes crimes. (Riso cínico) A você e aos seus correligionários só resta deixar esses mortos em paz e sossego, e acautelar as vossas vidas.

Porte-se bem, que não lhe acontece nada. Se alguma vez tiver um problema, diga-me. Passe muito bem.

Barbosa Viana - (Sai) Sacana!

(Continua)
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -17 e 18

Continuação)

Cena 17

A hipocrisia




( com as imagens dos assassinatos em fundo, os oradores avançam)

Gastão Melo Matos

É preciso parar esta iniquidade. Os bárbaros crimes do 19 de Outubro não podem sair da nossa memória. A Nação está revoltada e exige justiça. Mas, quem são os culpados? Quem arrastou o nosso país para uma sucessão infindável de tragédias e crimes? Foram estes republicanos, estes maçónicos sempre agitando a revolução.( Apoiado! Apoiado!)

São esses oficiais obscuros e despeitados, chefiados por esse Coelho do 31 de Janeiro, um demagogo que prega a honestidade e deixa os seus homens matarem António Granjo, o chefe do Governo, Machado Santos, Carlos da Maia e outros vultos imperecíveis da República! São eles que têm de enfrentar a lei! É o que este povo reclama, sedento de justiça e de verdade na vida pública!

( aplausos. Bravos)

Carlos Pereira

Que gente é esta que nos envergonha perante as nações civilizadas da Europa? Que republicanos são estes que matam os seus próprios correligionários? Que partidos são estes que só espalham a desordem e mergulham a nação num caos sangrento de que dificilmente se curará?

Levantemo-nos contra esta vergonha. Desarmemos a Guarda Republicana, esta força ilegal que amedronta o Exército, que domina o Presidente da República e o Parlamento, e que serve de capa protectora aos sinistros desmandos anarquistas e bolchevistas

Regeneremos Portugal. É preciso limpar a mancha repugnante que se abateu sobre a Nação! Viva Portugal!

( Aplausos. Viva a Nação! Viva Portugal!)

(Sobe o som do charleston)

Cena 18

Investigação e vontade política

(Na rua, escuro. BV faz sinal com lanterna .Aparece VP)

Virgílio Pinhão – Sr. Dr. Barbosa Viana a que devo a honra desta entrevista?

Barbosa Viana – Sente-se, meu caro director Virgílio Pinhão. A D. Berta Maia tenta encontrar-me para falar do 19 de Outubro. Houve o 28 de Maio, os militares tomaram outra vez conta disto, o Alfredo da Silva está por trás por causa dos negócios do tabaco, é gente com muita força, não me quero meter nisso.

Virgílio Pinhão – Tem toda a razão. O que lá vai, lá vai. Eu, pela minha parte, desfiz as provas que pude. Fiquei de mãos limpas e sem poder cair na rede desses senhores...

Barbosa Viana – aquela lista...

Virgílio Pinhão - sim, sim, esteja descansado.

Barbosa Viana – Faça-me um favor. Vá, por mim, à entrevista com a D. Berta Maia e tente dissuadi-la de continuar com aquela mania de querer descobrir tudo. Só se prejudica a ela e ao nosso movimento republicano, que agora tem de estar cauteloso e de unhas encolhidas à espera de melhores dias.

Virgílio Pinhão – Eu trato disso, fique descansado. Melhores dias virão. E muito rapidamente. A estes golpistas, dou-lhes mais um mês, o máximo.

Barbosa Viana – É o que eu e os meus correligionários pensamos. Na altura, falaremos sobre as suas futuras funções e responsabilidades.

Virgílio Pinhão – Eu estou sempre ao serviço do ideal republicano, senhor doutor.

Barbosa Viana – Muito bem. Vá indo, trate-me desse assunto. Passe muito bem.

*

(Casa de BM com VP)

VP – O Sr. Dr. Barbosa Viana estava adoentado, enviou-me a mim com um cartão...

BM (com o cartão) – “minha senhora, não me sinto bem, mas envio-lhe o Sr. Virgílio Pinhão, que é o mesmo que conversar comigo... (pausa) o quê? O senhor é o Sr Virgílio Pinhão?

VP – Sim, minha senhora.

BM – Ah! Sim, a conversa não será nunca igual à que eu teria com o Dr. Barbosa Viana. Queria elogiá-lo por falar da infiltração de integralistas no 19 de Outubro, e queria censurá-lo por não dizer mais nada, deixando apodrecer na cadeia o Abel Olímpio enquanto os verdadeiros criminosos andam, por aí, à solta.

VP – O Dente de Ouro é uma besta feroz, um animal.

BM – E quem o industriou e convenceu, o que é? O Abel Olímpio contou-me como foi recrutado, como ia receber dinheiro à Época...

VP – A senhora pode possuir todas as provas morais de que a morte do seu marido se deve à acção de monárquicos, mas nunca terá as provas jurídicas.

BM – É verdade, eu não tenho a prova jurídica... e se eu não a tenho é porque alguém a tem!

VP – Mas que prova quer a senhora ter?

BM – Senhor Virgílio Pinhão, o Abel Olímpio falou-me de uma lista com nomes a abater, e disse-me que tinha dado essa lista à polícia...

VP – Isso é mentira! Nunca houve tal lista!

BM – Senhor Virgílio Pinhão, o julgamento do 19 de Outubro está incompleto. Os oficiais republicanos foram absolvidos, mas há quem continue a considerá-los culpados... se o senhor ou o senhor Dr. Barbosa Viana conseguissem algum documento, era muito importante...

VP – Minha senhora, recordo-lhe que eu e o Dr Barbosa Viana fomos afastados das investigações, que eu propus ao jornal “A Capital” uma campanha jornalística, que essa campanha começou e foi suspensa, que fui preso por ter divulgado documentos que faziam parte da conspiração monárquica, que me apresentei no tribunal com toda a papelada para servir de testemunha, e que dispensaram o meu depoimento...

BM – Se isto não se esclarecer, eu vou publicar as minhas entrevistas com o Abel. Depois, aqueles de quem eu citar os nomes, vão dizer que eu sou doida...

VP – Isso não. Eles hão-de arranjar uma defesa inteligente...

(Beija a mão. Sai)

(Continua)
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Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -16

(Continuação)



Cena 16

O golpe em marcha


(SLIDE ROTATIVA: Redacção “Imprensa da Manhã”)


Jorn. – está aqui o artigo, chefe.

Chefe – Muito bem, óptimo. É preciso publicar que o Machado dos Santos está riquíssimo, e que convinha saber onde arranjou o dinheiro. ( rasga o artigo)

Jorn. – Mas ele está rico?

Chefe - O que é que isso interessa? A gente tem de publicar isto, e mais nada. E poucas perguntas, faça favor.

Jorn. – mas eu não sei o que hei de escrever.

Chefe – não sabe? Se não sabe, invente. Olhe, que ele foi visto a comprar um fato novo nos armazéns do Chiado, que esteve na Brasileira a fumar charuto, que anda com putas e em festas de pederastas na Graça, sei lá...

Jorn. – Mas...

Chefe - E o senhor cala-se. Se não quer trabalhar, vá - se embora. Olhe que há muita gente à procura de um emprego destes...

(Vai ao escritório de Alfredo da Silva)

Alfredo da Silva – Bom dia, chefe. Tudo em ordem?

Chefe – Tudo em ordem, senhor Alfredo da Silva. As tiragens estão a subir, mas é preciso mais dinheiro para propaganda e para pagar a uns informadores.

Alfredo da Silva – Esta “Imprensa da Manhã” é a minha amante mais cara.

Chefe – Mas também vai ser a que lhe vai dar maiores prazeres. Espere, que logo vê.

Alfredo da Silva (dá notas) – chega?

Chefe – Chega e sobra. Abençoado seja o capital.

Alfredo da Silva – Abençoado seja o operariado do Barreiro! .. (ri-se) pelas conversas que tenho ouvido, as pessoas estão a gostar do jornal. Tem muitos escandalos. Muito bem, muito bem.

Chefe – Nós esforçamo-nos o máximo.

Alfredo da Silva – A ideia é não deixar os republicanos respirarem. Eles têm de perceber que não nos vencem com facilidade. Mesmo que estejam a fazer alguma coisa boa, é preciso atacá-la e destruí-la.

Chefe – pois claro. Se estes bolcheviques tomam asas, nunca mais conseguimos virar a situação. Mas dizer mal de uma coisa boa é mais difícil.

Alfredo da Silva – Puxe pela cabeça. É para isso que os revolucionários do Barreiro lhe estão a pagar... puxe pela cabeça... Deus o ajudará.

*

(Num cabaret. Padre Lima, Gastão Melo Matos, Alfredo da Silva)

Gastão Melo Matos – Finalmente, Alfredo! A hora da vingança aproxima-se.

Padre Lima – A revolta está marcada para daqui a dois dias, temos tempo de planificar a nossa acção. O golpe vai ser dado pelo Coronel Manuel Maria Coelho, tem o apoio da Guarda Republicana, da polícia...

Gastão Melo Matos – Esses ainda são piores que estes que estão no Governo.

Alfredo da Silva – Muito piores. O que quer dizer que este é que é o bom movimento para a gente empalmar... (ri)...oh padre, e há gente boa para usar do varapau e moer os ossos a estes bolcheviques?

Padre Lima – Gente do melhor... E até dentro da Guarda Republicana... e há o Dente de Ouro que anda cheio de raiva contra estes republicanos todos, por causa do que aprende com os marinheiros anarquistas... (ri)...é só atiçá-lo e ele aí vai arrastando os outros.

(Entra Augusto Gomes com 2 coristas que entram em dança e jogo com os homens enquanto falam)

Augusto Gomes – Os senhores dão licença? Há aqui umas senhoras que os querem cumprimentar. Artistas de teatro, a Piedade e a Maria Alves...

Alfredo da Silva – Grande Augusto Gomes, o grande empresário teatral da nossa praça! Sempre bem acompanhado

Alfredo da Silva – Muito bem, muito bem. Confirma-se a revolução para o dia 19? E quem é que vai dirigir as operações? Eu não vou , já estou a dar muito dinheiro, é para pagar a essa gente que gosta de brigas e pancadaria. A minha política foi sempre outra.

Gastão – Eu estou um bocado engripado. E se nos acontece alguma coisa? Quem é que dirigia o movimento?

Padre Lima – Com certeza. Os generais nunca vão para a guerra. A cabeça do movimento tem de ficar bem escondida. Não se preocupem, eu trato do assunto... com o sr. Augusto Gomes…

Augusto Gomes – Eu tenho que pertencer aos homens do terreno, até para orientar o que se deve fazer. E como sou um homem da noite, posso andar por todo o lado... vou falar com o Roque, o nosso banheiro de Pedrouços, é dos bons, pode dar uma ajuda.

Padre Lima – Depois combinamos as nossas zonas.

Augusto Gomes - Depois desta festa, padre...


(Padre é empurrado para o chão, coristas caiem em cima dele)

Irrompe dança ocupando toda a frente de cena)

CABARET

Festa.

Charleston

7º Slide / Filme - morte de A. Granjo(desenho)

Charleston

8º Slide - Corneteiro com espada, sangue e frase “Venham ver de que cor é o sangue do porco!”

Charleston

Dança c/ rasgar da bandeira Republicana

Charleston

CHUVA DE NOTAS, notas acendem charutos; faixas azul e branca percorrem o cenário



Charleston, faróis no ciclorama e som da camioneta acompanham os discursos

(Continua)
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -15


(Continação)

Últimas ordens

Padre Lima e Dente de Ouro põem moedas em saquinhos

(Marinheiros com Padre Lima e Dente de Ouro. A imagem sugere a ceia de Cristo)

(Padre Lima prepara beberragem no garrafão que dá aos marinheiros)


Padre Lima – Bebei, meus irmãos, este é o elixir consagrado que vos dará forças e alegrias. A palavra de Deus irá entusiasmar-vos para poderdes conquistar um lugar imperecível na nossa luminosa história.

Vós sois os apóstolos da liberdade. Não queremos Judas entre nós. Sai Satanás !

(mostra o pergaminho). Quem lutar , será recompensado. Está aqui o compromisso de gente honesta.


Abel Olímpio – Viva el-rei D. Carlos! (com o pergaminho) Acabou a nossa miséria! Viva el-rei D. Carlos!

Todos – Viva!

Padre Lima – (agita um saco)

Vocês ganham mal. A República despreza-vos, não vos paga o que vós mereceis. Mas as pessoas que foram perseguidas e injuriadas, respeitam o povo martirizado. Tendes necessidades e alguns de vós tendes responsabilidades familiares...
(risos)

Irmãos, irmãos, não façais chacota. Há, com certeza, quem tem mulher e filhos que necessitarão de maior carinho e conforto.

Tenho a sorte de vos poder oferecer algum dinheiro... dinheiro de almas piedosas que ainda acreditam que este país mudará de rumo... tomai....e multiplicai-vos...

Que Deus vos proteja!

(Distribuição de pequenos sacos, em mistura com nova distribuição de bebidas

*

(Na rua, de noite. Padre Lima com Abel Olímpio e Augusto Gomes)

Padre Lima – O Augusto Gomes ainda não veio?

Abel Olímpio – não, e já estou aqui há um bom bocado.

Padre Lima - Abel, isto está mau. Não podemos falhar. Últimas informações: o Machado Santos tem mesmo de ser abatido.

Abel Olímpio – Mas esta gente gosta dele. É perigoso.

Padre Lima – Tem de ser. Agora está a fazer contra-espionagem para descobrir os nossos negócios com Espanha e com o Rei Afonso XIII.

Abel Olímpio – Essa agora! Mas como é que o senhor padre descobriu isso?

Padre Lima - Como é que havia de ser? Primeiro, porque muitos dos nossos nunca saíram dos ministérios nem das polícias, e depois porque fomos infiltrando a nossa gente no meio desses palermas. Tens aqui a última lista dos que têm que ser abatidos. Quero o serviço bem feito.

(Camioneta, som e faróis. Aparece Augusto Gomes)

Augusto Gomes – Olá, Dente de Ouro. Tudo em ordem?

Abel Olímpio – Sim, senhor Augusto Gomes.

Padre Lima – Já lhe dei a lista. E já lhe disse aquilo do Machado Santos.

Augusto Gomes – isso é que nunca pode falhar. Eu mesmo me encarregarei dessa encomenda ( risos). Não queremos falhanços. O ataque tem de ser rápido e sem piedade. Temos de aproveitar a surpresa.

Abel Olímpio – Esteja descansado.

Augusto Gomes – Se fizerem o que é preciso, vão ter uma vida de lordes. Atenção, o silêncio é essencial para a nossa vitória. Porque se este golpe não for totalmente triunfante, outro estará em marcha e não se podem descobrir pistas. Percebes?

Se algum fôr preso, dentro de pouco tempo será libertado.

E se falar, é considerado traidor e terá de ser morto.

Percebes?

Padre Lima – Vai meu filho, vai. Deus te abençoe.

( Abel Olímpio ajoelha-se, Padre benze-o e dá-lhe a mão a beijar. Augusto Gomes iluminado pelos faróis faz sinal de cortar o pescoço a AO)

(Continua)
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Domingo, 3 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -14

(Continuação)

Cena 14


Tertúlia no café “LEÃO”

( SLIDE AMADEO.Tertúlia num café. Entre outros, Raul Leal, António Ferro, Fernandinha…. Almada Negreiros desenha Raul Leal)

Ballet….Aplausos

Raul Leal – Nós somos a voz dos novos poetas que se levanta contra a ignorância dos republicanos, maçónicos e bolcheviques.

( No exterior)

Alfredo da Silva – Mas para que é que você me trouxe aqui?

Carlos Pereira – Senhor Alfredo da Silva! Para conhecer os novos adeptos da nossa causa.

Alfredo da Silva – Mas o que é que quer fazer com esta gente?

Carlos Pereira – Eu? Nada. Quero o apoio deles e chega-me.

Alfredo da Silva – Esta gente não presta para nada. O movimento para ir para a frente, precisa de gente firme e determinada. Não é disto. Ao menos os velhos, sei eu quem são.

Carlos Pereira – Senhor Alfredo, não está a ver bem o problema desta gente, os poetas e os artistas têm mais influência do que o senhor julga. Falam de coisas que não devem, dizem-se anarquistas mas gostam da tradição, falam em nome do povo

( risos), se um dia vierem a conhecer o povo vão ter grandes surpresas, são contra a violência...

Alfredo da Silva – Pois claro. É o que eu estava a dizer, oh Carlos Pereira. Eu nem o estou a perceber. Você, dono da Companhia das Águas e do Banco Comercial de Lisboa...

Carlos Pereira – Eles também gostam do dinheiro, e se querem vender as poesias, os quadros e a música, tem de ser aos que têm dinheiro, e não aos miseráveis que nem têm onde cair mortos.

Alfredo da Silva –Eu nem gosto de nada do que eles fazem. E você quer que vá comprar coisas a esses malandros, imorais e inúteis.

Carlos Pereira – Pois quero. Para eles ficarem nossos amigos, nos defenderem e abandonarem essas ideias. Vá lá, por uma vez sacrifique o seu bom gosto. Com uma cajadada matamos dois coelhos.

Alfredo da Silva - Você acha que essa gente cai nisso?

Carlos Pereira (ri) – Por favor! Essa gente só quer andar nos corredores do poder, só quer que a gente lhe estenda a mão... Não conhece aquela “Deixar vir os pequeninos artistas, ao Grupo do Leão, comer sopa de camarão?

(Entram)

Poetisa Fernandinha – olha, o Carlinhos! Está bom ? (beijam – se)

Carlos Pereira (para Alfredo da Silva) – há aqui boa gente. Um dos que está à frente disto é o Raul Leal, filho do Leal que dirigiu o Banco de Portugal …

Alfredo da Silva – isso é gente com muito, muito dinheiro…

Carlos Pereira – parece que o rapaz tem gastado tudo…

(António Ferro (avança) – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

Raul Leal (interrompe – o) – António Ferro, nosso mais brilhante publicista!

António Ferro – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

Senhora( interrompe-o e beija-o) - António, meu querido

António Ferro – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

Almada Negreiros (entra com cavalete) – olá, António…

António Ferro – Não escrevo por vaidade nem pelo orgulho inútil de criar.

(mais interrupções)

eu sou …. (todos em coro)…um trapeiro de cores..

.lá dizia Marinetti (todos em coro)…”a guerra, a única higiene do mundo”…

(Aplausos, Bravos!)

António Ferro – vão-me desculpar, mas tenho de sair… encontro com o Fernando Pessoa…

Protestos.: Vai ter com uma corista! É sempre assim!

Diva – estou farta! Ele não é ferro, é só sucata!

(Cena de teatro)

Raul Leal - Perante a miséria e o desmembramento da nossa identidade nacional, perante o ignóbil projecto da nossa venda em leilão a castelhanos, gauleses, saxónicos e outros que tais, o nosso movimento, o integralismo lusitano, pugna pelos mais lídimos valores da raça e da portugalidade.

Somos contra a República porque eles são os herdeiros dos jacobinos da sinistra revolução francesa, bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade, capa assassina para a decapitação de Luís XVI e milhares de membros das mais nobres classes.

Queremos vingar a morte de Sidónio Pais, seremos uma barreira indestrutível contra o anarquismo e o bolchevismo, lutaremos pelos princípios que, na Idade Média, colocaram Portugal na primeira linha do desenvolvimento da humanidade.

Vozes – Viva a Idade Média ! Viva a Idade Média !

Para esta luta, não bastam militares, sacerdotes, políticos, banqueiros, e povo anónimo, são e generoso.

Necessitamos de artistas, poetas, filósofos, professores, necessitamos de gente capaz de cantar o que fomos e queremos ser, de homens e mulheres que acreditem e sintam, com o maior fervor estético, o nosso desígnio nacional.

Vozes – Bravo! Bravo!

Raul Leal – E agora, oiçamos o nosso grande poeta Fernando Pessoa... alguns excertos “À Memória do Presidente Rei Sidónio Pais...

(Sinal de uma poetisa que Fernando Pessoa deve estar embriagado)

Raul Leal –bem, não estando o nosso Fernando, a menina Fernandinha…

(Poetisa põe chapéu, óculos e bigode e recita)

Se Deus o havia de levar
Para que foi que no-lo trouxe
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?


Quem ele foi sabe-o a sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei
A vida fê-lo herói, e a morte
O sagrou Rei! (Bis – Coro)


Mas a ânsia nossa que encarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará nova forma clara,
Ao tempo e ao espaço.

Tornará feito qualquer outro,
Qualquer cousa de nós com ele;
Porque o nome do herói morto
Inda compele;

Rei-nato, a sua realeza,
Por não podê-la herdar dos seus
Avós, com mística inteireza
A herdou de Deus; (Bis – Coro)


E, por directa consonância
Com a divina intervenção,
Uma hora ergueu-nos alta a ânsia
De salvação.


Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir,


Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!


E no ar de bruma que estremece
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!

( aplausos. Desmaia. Histeria . Gritos)

Raul Leal – A essência das minhas doutrinas está na combinação íntima do hermetismo e do espírito medieval através das formas mais arrojadas dos tempos modernos.

Alfredo da Silva – O que é isto? Você percebe isto? Não tenho confiança nesta gente.

Carlos Pereira – Nem tem o senhor, nem tenho eu. Hoje dizem isto, amanhã viram a casaca, se fôr preciso. Alguns, já foram dos outros. É tudo uma questão de dinheiro. E como dinheiro é coisa que não falta ao Alfredo da Silva...

Alfredo da Silva – Sim, se a questão é só essa... também se arranja dinheiro para putas finas... ( Dá dinheiro a Carlos Pereiral)

Carlos Pereira (entrega dinheiro a Raul Leal) – tome lá, você já gastou muito dinheiro, merece ser ajudado.

(O Grupo sai com a poetisa aos ombros)

(Continua)
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Sábado, 2 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -13

(Continuação)


Cena 13


Sonhos de amor

( Em gravação o fado da “Triste Feia”. Berta, em casa . É jovem e espera por Carlos Deita-se num sofá fingindo dormir .Jogo de sedução entre os dois.)

Berta – meu amor

Carlos – minha mulherzinha

Berta – estás feliz?

Carlos – não.

Berta – não? Já não gostas de mim?

Carlos – não.

Berta – sou feia?

Carlos – és.

Berta – tu és mau.

Carlos – sou.

Berta – vou-me embora

(Ela foge ,ele agarra-a)

Carlos – só se me deres um beijo.

Berta – era o que faltava.

Carlos – então, dou eu.

Berta – não quero.

( Pequena briga. Beijam-se apaixonadamente)

Berta – quero ter um filho teu.

Carlos – não pode ser.

Berta – tem de ser, tem de ser.

Carlos – tu sabes que não pode ser. Não temos dinheiro.

Berta – o Carlos da Maia, sem dinheiro ! O Carlos da Maia, heroi da Republica, ex-governador de Macau!

Carlos – querias que eu tivesse feito o mesmo que os outros que estiveram em Macau?

Berta - não digo isso, mas... e o nosso filho, a nossa vida?

Carlos – tu sabes que nós, os que lutámos pela Republica, temos de ser sempre um exemplo de honestidade. Tu conheces os jornais que intrigam contra nós de manhã à noite, para corromper pessoas, para lançarem calúnias contra a gente.

Berta – toda a gente sabe que é mentira.

Carlos – as pessoas sabem, mas calam-se. Lá no fundo, preferem continuar escravos dos antigos senhores a terem que construír o seu próprio futuro. É por isso, que nós temos de ser sempre um exemplo de verdade e de dignidade.

Berta - eu sei, e é por isso que te amo.

Carlos - a vida não há-de ser sempre tão má para o nosso amor.

( Beijam – se. Criada “fecha” cortina)

(Continua)
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -12

(Continuação)

2o. Acto




A confissão

(Berta Maia - chapéu e véu, agente Barbosa Viana).

Barbosa Viana – D. Berta Maia, o Abel Olímpio está muito perturbado e não mostrou nenhum interesse em voltar a vê-la.

Berta Maia – sr. Barbosa Viana, eu não desisto. Quero vê-lo. Por favor, tragam-mo.

( Barbosa Viana traz Abel Olímpio, muito pálido, com ar de tuberculoso).

Berta Maia – Ai, Abel, como tu estás! Morres e eu fico sem saber nada! O que é que te fizeram?

Berta Maia –Abel, o que ganhas tu com essa situação? O que ganhas tu em esconder os que te atiraram para esta cadeia e que te estão a matar aos poucos? Tu estás doente, Abel, tu estás muito doente. Se calhar andam a envenenar-te aos poucos, com a comida.

Abel Olímpio – Eu já pensei nisso, minha senhora. Sinto-me mal, não tenho apetite, definho a olhos vistos.

Berta Maia – Sim, pareces tuberculoso com essa palidez e essas olheiras. Andam a matar-te, Abel. Tens que te tratar. Eu mando-te um médico. Não morras sem me dizeres a verdade. Não morras com esses remorsos na consciência. Acredita na palavra de Cristo. Ele é piedoso e desculpará os teus crimes na eternidade. Mas tens de ser sincero e corajoso. Diz-me quem te mandou matar o meu marido.

Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.

Berta Maia – Acusa esse meu melhor amigo, acusa! Diz quem é!

Barbosa Viana – D. Berta, calma! Abel Olímpio, os crimes foram praticados e não há solução. Ninguém pode fazer tornar à vida Carlos da Maia, António Granjo, Machado Santos e os outros. Mas pode-se fazer luz sobre todo esse caso que tem perturbado a nossa sociedade. Ninguém acredita que tu tivesses agido sozinho, por tua conta e risco. Essa camioneta fantasma apontou muito alto, foi aos grandes vultos da República. Nunca, em nenhum país, se passou um caso tão cruel e misterioso. Para bem de todos, o assunto deve ser esclarecido. E tu és a pessoa que podes ajudar a que se faça luz sobre este mistério. Falando, limpas o teu nome. Coragem, Abel Olímpio.

Abel Olímpio ( titubeante, com pausas) – Não fiz nada, não sei nada, andei com a camioneta tenente Mergulhão Granjo o país na ruína, jornal a “ Época”, Padre Lima eu sou contra traidores criminosos da República, Época crime morte D. Carlos marinheiros na marinha a luta miséria minha mãe Padre Lima monsanto...

Berta Maia – “ Época”, o que é isso do jornal a “Época”?

Abel Olímpio – Não foi nada de importante.

Berta Maia – Justamente porque não é nada de importante, diz.

Abel Olímpio – Houve uma revolução, vaca e Alguidar, plano em Monsanto, juntávamo-nos, acreditava-mos que íamos ganhar Monsanto, D. Carlos, vacas e porcos, sementeiras de milho, Época, quero ir para o mar, senhor padre, castigo divino, tiros...

Barbosa Viana – Porquê toda essa história que não tem fim e que não nos interessa nada? O que é que ias fazer ao jornal? O que ias fazer à Época?

Abel Olímpio – O Padre Lima levava-me lá para me darem dinheiro. Tínhamos reuniões na Avenida ali por alturas da Rua das Pretas, e no escritório do sr. Moutinho de Carvalho...

Barbosa Viana – Vamos, homem, coragem! Vai até ao fim! Não foste o maior criminoso, fala!

Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam. Quem me deu a camioneta foi o tenente Mergulhão. É monárquico ou republicano? Isso não sei, mas isto é verdade.

Berta Maia – E porque é que foste matar esta gente?

Abel Olímpio – Porque faziam parte de uma lista que o Padre Lima me deu.

Berta Maia – Uma lista? Onde está essa lista?

Abel Olímpio – Essa lista ficou em poder do adjunto da polícia de segurança do Estado senhor Virgílio Pinhão...

Barbosa Viana – Está na polícia?

Abel Olímpio – Foi ele quem ficou com ela. Eu quero dizer uma coisa à senhora.

Eu decidi falar porque o Augusto Gomes está preso por ter assassinado a actriz Maria Alves. Ele jurou que me matava se eu falasse. E eu sei que é verdade, porque já matou o José de Pinho que tinha sido marinheiro como ele, mulheres com quem viveu... é um criminoso sem remorsos, e eu tenho medo.

Barbosa Viana – então, o Augusto Gomes era um dos chefes do golpe...( risos)... afinal, entre os empresários teatrais há grandes artistas...

Berta Maia – Com ele preso, já não tens de ter medo.

Abel Olímpio – Tenho medo, tenho. Ele tem sicários capazes de tudo. Minha senhora, proteja-me, façam a revisão do meu processo. Ajude-me!

(Barbosa Viana leva – o)

Berta Maia – Mataste o meu marido, mas eu vou ajudar-te. Vão saber quem ordenou estes crimes.

(Continuação)
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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -10

(Continuação)

Cena 10

A conspiração com Espanha

( D. Fonseca entra com a mala que Millan Astray lhe deu, abre, tira notas.Som da aldraba,atrapalha-se,abre,entramAlfredodaSilva,CarlosPereira,GastãoMeloMatos)

D. Fonseca – Muy bien, es outra ayuda del reyno de España... Pero D. Afonso XIII esta muy enfadado con la conspiracion portuguesa. En la corte ya decimos por broma que de tanto conspirar, la monarquia está a dormitar.

Alfredo da Silva – quanto é?

D. Fonseca - Queremos accion, unidad de esfuerzos…

Alfredo da Silva – oh homem, fale portugués!

D. Fonseca - energia, bravura... lo esperamos por parte de D. Alfredo da Silva, D. Gaston, señor conde de Tarouca...

Alfredo da Silva – oh Fonseca, diga lá quanto é que sacou ao Rei de Espanha!

D. Fonseca – 700 mil!

Gastão Melo Matos – Muito obrigado pela ajuda de sua majestade, D. Afonso...

Carlos Pereira – esperemos que seja suficiente.

Gastão Melo Matos - tranquilize sua Alteza... temos infiltrado o Exército e a Marinha, feito agitação em diferentes meios sociais, os apoios económicos começam a chegar...

D. Fonseca – Caros amigos, estoy encantado con vuestras palabras y con vuestra voluntad de inversión. Así, creo que podemos mirar al futuro. Un futuro que confirmará el sueño de D. Afonso: crear la Hispania, capital en Madrid y Lisboa su bellissimo puerto de mar. frente al Atlãntico, frente al mar, frente al mundo.

Gastão M. Matos – Com todo o respeito que me merece D. Afonso, penso que é perigoso começar a propor que Portugal perca a independência...

D. Fonseca – La independência? Eso és una question absurda... hablamos de una union... como las antiguas uniones... como si fuera una boda real... y no olvidemos que una union aporta compensasiones para todas las partes...

Alfredo da Silva – Então, sr, Gastão, calma! O que eu percebi foi que essa união, chamemos-lhe assim, iria ter compensações para Portugal... ou seja, lucros para os poderes económicos portugueses...

D. Fonseca - Si, claro...

Alfredo da Silva – Não vejo qual é o problema, se as minhas empresas prosperarem, mais as do sr. conde de Tarouca e outros nossos amigos, se o sr. Gastão fizer progredir a sua casa bancária...

Gastão M. Matos – Mas, a independência...

Alfredo da Silva – Sobre a independência, claro que eu penso que só se pode perdê-la em último recurso, até porque é uma arma de propaganda na mão da maçonaria que pode inflamar o povo.

Carlos Pereira – Também acho.

Alfredo da Silva – Mas também é evidente que, se a situação no país evoluir para o fortalecimento da República, destes ladrões e assassinos, eu lutarei para que Portugal fique debaixo da pata espanhola. Este país, dominado por essa ralé deixa de ser o meu país. Eu não tenho nada a ver com os meus operários, nem com os camponeses, nem com estes agitadores que envenenaram Lisboa.

Carlos Pereira - Os nossos irmãos são os reis de Espanha, da Áustria, da Alemanha, os homens das grandes empresas, a grande finança que está a fazer avançar o mundo.

Alfredo da Silva - O capital não tem pátria, entre nós não há fronteiras, e se Portugal se tornar num buraco sem préstimo, sórdido e repelente para nossa vergonha, que deixe de existir.

( Murmurios de aprovação. Foto frontal)

Gastão M. Matos – Pronto, já me convenceram. E se fossemos comemorar?

Carlos Pereira – (atira serpentina) É Carnaval! O Augusto Gomes está no Teatro Nacional!

Cena 11

Voz – Vamos às putas!



( SLIDE CARNAVAL.Cena de cabaret. Pares e grupos de coristas dançam fox -trot agitando faixas azuis e brancas. Serpentinas, confetti, capitalista acende charuto com uma nota…)

Fim do 1º Acto

Intervalo : Don’t be that way de Benny Goodman

(Continua)
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -8

(Continuação)


Cena 7



O Dente de Ouro começa a falar

(Criada, com uma carta)

Criada – Também chegou correio, minha senhora.

Berta Maia – Uma carta de Coimbra, da penitenciária, do Abel Olímpio!...

(Lê e em simultâneo …)

Abel Olímpio ( escreve) - Senhora Dona Berta Maia.... eu não tenho culpa... (silencio)...eu tenho mais coisas a dizer...

Berta Maia - Ouve, Abel Olímpio, tu és um criminoso, mas o miserável que te mandou fazer aquilo e que se esconde deixando-te aqui, é mil vezes mais criminoso que tu.

Abel Olímpio - Mais glória para mim!

Berta Maia - Mais glória? Quer dizer que estás convencido que fizeste bem quando mataste o meu marido? Quem te mandou? Quem te mandou?

Abel Olímpio – Não conto nada, não sei nada.

Berta Maia – Os que te mandaram desejam a tua morte, porque tu, vivo, és uma ameaça para eles! Eu não, eu quero que tu vivas porque é da tua boca que eu hei-de ouvir a verdade que procuro!

Abel Olímpio – Não me dá novidade nenhuma! Eles hão-de vir aqui matar-me!

Berta Maia – Eles? Quem são eles?

Abel Olímpio – Pergunte ao Tenente Mergulhão, foi ele que me deu a camioneta.

Berta Maia – Abel Olímpio, peço-te por tudo, peço-te pela felicidade dos teus entes mais queridos... tu és um criminoso, mas também tens coração... peço-te, diz-me a verdade, diz-me o que eu preciso de saber...

Abel Olímpio – Não conte comigo para coisa nenhuma; esqueça-se de mim, não me procure mais, não conte comigo!

Berta Maia – Eu não consigo esquecer-te, eu vejo-te a toda a hora, eu estou sempre a ouvir as mentiras que disseste em minha casa antes de me roubares o meu marido...

Abel Olímpio – Quem matou o seu marido foi o sargento Benevides.

Berta Maia – Está bem. Agora, diz tudo. Quem mandou? Porque mentiste em minha casa?

Abel Olímpio – Ninguém mandou! Escusam de estar com isso, eu não sou criança nenhuma! Façam-me a revisão do processo!

Berta Maia – Bandido! Eu sei que tu não passas de um instrumento! Tenho a certeza! Por causa da tua acção violenta e má em minha casa é que eu aqui estou. Estou farta de sofrer!

Abel Olímpio – Ninguém mandou, não sou criança nenhuma!


(Continua)
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