Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República –16

Carlos Leça da Veiga

Como vamos de exemplos Se dum desses Homens de Estado, dentro quantos pululam entre nós, um chefe político, um Homem inteligente, muito lido mas não tanto quanto faz crer, muitíssimo comprometido, educado, melhor dito, instruído para a política, nada habituado a cumprir, vaidoso ao máximo, egoísta como poucos, nada dado ao trabalho, sem projecção profissional significativa, matreiro em excesso e, como raros, sujeito de amparos poderosíssimos e de poderes internacionais muito para além do imaginável, desse mesmo, já só resta ter de ouvir-se o discurso requentado que se, muitos anos atrás, até já não tinha sentido pleno, nos nossos dias, dentro ou fora da gaveta, todos o podem verificar, a muito pouco consegue chegar. Seja como for – é uma convicção muito forte – continua a ser quem pontifica na respectiva área política onde, apesar das aparências em contrário, tudo quanto seja mais importante decorre do seu magistério e nunca, senão formalmente, de qualquer dos seus descendentes políticos que formalizam o cargo de seus herdeiros na direcção partidária. Neste 2009, a avaliar-se pelos seus escritos e entrevistas mas, também, por comentários dos seus mais fieis seguidores partidários, ainda parece poder esperar-se que prepare um enredo para, dalgum modo, com o populismo bastante, tentar dulcificar o neoliberalismo deslizante, haja, para tanto, alguém com méritos políticos reconhecidos e capaz dar a cara a uma alternativa não socratina, o que, note-se, na prata daquela casa partidária, ao que parece, já é coisa difícil de encontrar.

O outro Homem de Estado, que continua a marcar decididamente a outra vertente das que integram o bloco direitista, é um universitário com parca publicação científica, um farol doutrinário, embora sem estofo, dos direitistas portugueses, uma figura em concorrência constante, embora um tanto tosca, com o velho autoritarismo ditatorial, uma personalidade política acoitada, por regra, no refúgio dos tabus, um homem desagradado da controvérsia, um político que – di-lo – nunca tem dúvidas e é raro enganar-se, um académico abrigado num discursar sem um ideário político bem definido mas todo sustentado – mal sustentado – numa veneração profunda dedicada às virtudes absolutas que atribuí à chamada economia de mercado. Faz ouvir-se por força duma antiga autoridade partidária que o acaso da vida política proporcionou e, hoje em dia, apesar do papel interveniente reservado pela Constituição – muito maior de quanto tem sido usado – limita-se a contemplar visões circunstanciais, momentos políticos efémeros, umas e outros, defendidas, quantas vezes, pela barreira do hermetismo técnico, por quaisquer constrangimentos menos esclarecidos, pela invocação moralista do que julga virtudes ancestrais e, também, não poderá esquecer-se, pelo discursar ressumbrante dum linguarejar em que não estão ausentes estigmas “pimba”. Enfim, um produto duma ascensão social inesperada, um tanto à moda bonapartista, como a que tem fertilizado as colunas sociais portuguesas.


Dois Homens de Estado que mesmo ausentes das lides políticas parlamentares directas, apesar disso, tal como pode deduzir-se, prosseguem na orientação dos dois maiores conjuntos político-partidários que, ainda agora, dominam a cena política portuguesa. Os seus comportamentos, intenções, avaliações, conselhos e influências – quais padrinhos – continuam a influenciar as opções daqueles seus sucessores nas chefias partidárias cujos esgares denunciam as paternidades respectivas sejam aqueles de troça, sobranceria e desdém tão óbvios num dos ascendentes como os de suposta circunspecção, reserva e solenidade acaciana a adornarem o outro.


Agora, todos esses trejeitos, como reproduções artesanais muito descoloridas, aparecem reproduzidos nas figuras um tanto pindéricas, populistas e toscas dos seus continuadores.

Com efeito, num e noutro dos discursos dos chefes de fila operacionais da continuidade político-partidária nacional – uns continuadores com pouca fibra – por força dos seus idealismos e das suas ilustrações mínimas não consegue vislumbrar-se-lhes uma qualquer aposta consistente e insistente num devir auto dinâmico para as transformações que cada qual, a modos bem diversos anuncia com constância. Nada do que analisam, sem que possa ignorar-se a superficialidade manifesta das suas predisposições, intenções, previsões e prédicas, não passa dum enviesar inevitável e mal acabado das justaposições consideradas.

Nada de quanto e daquilo que deduzem, ou sugerem, consegue aparecer integrado no todo universal – estratégico, político, cultural, económico, ecológico e social – do qual, por óbvio, terão de ser inseparáveis. Assim, tudo quanto anunciam desejar poder concretizar surge fechado sobre si mesmo, derrotado à partida e nunca projectado na espiral que anuncia novos panoramas. Matam toda a esperança ao ficarem presos nas conclusões erradas que acabam por perfilhar, presos com estão aos seus «ídolos de teatro», isto é, nada mais e nada menos que os seus compromissos menos justificados e as suas tergiversações pouco recomendáveis que, note-se, por seu turno, com habilidade e subterfúgios, têm o cuidado de nunca deixar vir à luz do dia. No mais essencial bem poderá dizer-se que a qualquer dos chefes nacionais – em acção, em projecto ou na retaguarda táctica – por força da sua formação idealista, falta terem os alicerces duma dialéctica capaz de possibilitar-lhes um pensamento analítico objectivo. Por muito que nas suas discorrências políticas queiram anunciar-se como obreiros duma intervenção sociopolítica de feição humanizante será obrigatório dizer-se que nunca, por nunca, ela foi vista aparecer relacionada com qualquer prática de coisa feita. Dos desígnios políticos que realizaram, desses, bem poderá dizer-se terem sido exemplos flagrantes de retrocesso político, cultural e social – os indicadores socioeconómicos não o desmentem – e, sobretudo, de como pode estar-se ao serviço dos interesses económicos dos possidentes, os de cá e de fora. Ao aceitarem fazê-lo, tal a desfaçatez empregue, que não acautelaram, com o cuidado devido, a preocupação de não quererem mostrar-se como sendo alguns dos seus melhores servidores. Se dalguns arrufos políticos já deram mostra, a experiência tem comprovado tratarem-se, tão-somente, de encenações populistas para conseguir votos.

A eles, desde o 25 de Abril, como a mais ninguém, no decurso das suas passagens pelos executivos nacionais, sem excepção, fica a dever-se a colocação acentuadíssima dos Homens e das Mulheres portuguesas numa dependência servil do exterior e ao inteiro serviço da economia – a dos maiores possidentes – tudo feito à revelia dos interesses socioeconómicos reais e mais sentidos da maioria da população nacional que, esses, na realidade, é que são, ou representam, os interesses nacionais mais verdadeiros.
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 15

Carlos Leça da Veiga

A educação e a cultura, por força das exigências orçamentais exógenas já nem sequer conseguem satisfazer a modéstia dos objectivos constitucionais portugueses. Na realidade, a Constituição da República Portuguesa, nos números 2 e 3 do seu Artigo 73º, mostra a sua indigência ao bastar-se em só falar que “O Estado promove a democratização da educação …..” e, também, que “O Estado promove a democratização da cultura….”. Assim com a pobreza duma simples promoção, para mais a cargo de incertos, a Lei Fundamental, lamente-se, não vai, como devia, ao ponto de apresentar-se com a determinação estratégica declarada, firme, resoluta, prioritária e impositiva de obrigar-se a provocar, incentivar e ampliar as políticas públicas de educação e de cultura que essas sim, mais que quaisquer outras, estão aptas a suscitar os melhores ímpetos democráticos da população e uma predisposição adquirida para a inovação, logo para o desenvolvimento. Estar-se-á a viver melhor?

Outro aspecto, impossível de deixar de acrescentar-se á lista das más consequências sociais das políticas parlamentares e governativas em curso corrente é o da fragilização dos serviços públicos de saúde. Como os seus tradicionais mas, ressalve-se, inevitáveis défices financeiros teriam de ter repercussão muito negativa, com significado amplo no aumento do orçamento das contas públicas, o que a União Europeia não autoriza, a solução é a de entregar instituições de acção médica, tanto hospitalares como ambulatórias, aos interesses dos grupos económicos privados e, deste modo, o Governo não só alivia o défice das contas públicas como considera ter realizado mais uma das suas tão exaltantes e exaltadas reformas sociais. Abandonar as suas responsabilidades, como está a acontecer, é querer regressar a tempos político-sociais já imemoriais. A doença, como é bem sabido, para além do sofrimento causado, nunca deixou de ser um indesejável dispêndio financeiro a tal ponto que, na gíria popular portuguesa, sempre foi dito que em caso de doença vão-se os anéis mas ficam os dedos. É uma sentença que nada significa para quem dirige a tutela nacional da Saúde e um desrespeito pela tradição cultural nacional, muito mais solidária com o sofrimento que quanto qualquer Governo exibe. Muito mais que impedir-se a satisfação imensamente necessária duma exigência básica da população, tem sido manifesta a insensibilidade governamental e legislativa para, por um lado, impedir que as instituições públicas de saúde, nos seus vários níveis de intervenção, deixem de estar habilitadas a dar respostas, cabais e atempadas, à generalidade dos cidadãos que, assim, têm de fugir para os serviços privados como, por outro lado, permitem dar azo a que essas instituições públicas – na sua generalidade – não alcancem um bom nível de aperfeiçoamento na prestação das suas actividades de assistência, de docência e de investigação, designadamente, aquelas indispensáveis nos hospitais públicos nacionais tornados, por fim e por consequência da má política, em organismos cientificamente muito menos diferenciados de quanto, indubitavelmente, podem sê-lo. Deste modo, por força da redução obsessiva da despesa do estado, que a Europa de Bruxelas não deixa de exigir, as carências do sector evidenciam-se, as suas equipas de gerência exorbitam numa tecnocracia despropositada e desumanizada, há uma desorganização profissional consentida, há uma insatisfação laboral sentida e, como assim, não só ficam abertas as portas aos negócios rendíveis dos hospícios privados como, também, as instituições públicas de saúde ficam impedidas de desempenhar, com a diferenciação sucessivamente mais exigível, o seu exercício nas áreas das educações técnica, científica e humanista do pessoal das várias profissões que integram o sector público da saúde. Estar-se-á a viver melhor?

Outro problema de gravidade extrema e, também, conexo com os anteriores, é o da sobrevivência dum sistema judicial muito mais lento do que quanto a imaginação possa conceber e, regra geral, processualmente incapacitado ou deformado para possibilitar a apresentação, em tempo oportuno, de resultados animadores sobre a sua qualidade. Sem Justiça célere e sem o resguardo convincente da boa qualidade das garantias processuais, nenhum Estado consegue vingar. A Justiça tem de deixar de estar conspurcada, como está, pelo imiscuir impróprio, das outras funções do Poder do Estado, as Legislativa, Executiva e Presidencial que, ao arrepio do mais exigível, a Constituição continua a permitir. Entre nós, a sombra da justiça está tornada tão escura que nela a população tem visto esconderem-se com facilidade, sob pretextos processuais, uma variedade de irregularidades em cujos envolvimentos figuram demasiadas personalidades, regra comum, apontadas como, diz-se, serem peças preponderantes da organização económica, financeira e política nacional. Assim, como as coisas estão, estar-se-á a viver-se melhor?


Quanto ao funcionamento do aparelho estatal só pode dizer-se ser reconhecido como muito deficiente, claramente serôdio e, também, bem pode acusar-se de estar bem armadilhado seja por interesses inconfessáveis, seja por uma burocracia tornada muito conveniente para as facilidades a quem, bem colocado, espera poder contar com elas e fazê-lo tanto em seu favor como, por igual, para prejuízo de eventuais concorrências. É uma máquina complicada, pesada, dispendiosa e morosa que emperra, desmotiva ou liquida iniciativas produtivas, porquanto, na prática, com satisfação para os maiorais do capital de fora e de dentro, acaba por ajudar a desempenhar-lhes, sem sujarem as mãos, o papel interesseiro e discriminatório que, no salazarismo, cabia ao ferrolho do condicionamento industrial. À medida que a doutrina neoliberal de “menos estado” vai avassalando a sociedade, o estado abandona, por negócio – mau negócio – os seus empreendimentos e os seus consequentes resultados de exploração. O aparelho estatal perde o que restar-lhe-ia de serviço público com utilidade reconhecida para cingir-se a ser um mero aparelho burocrático substancialmente virado, directa ou indirectamente, como convêm ao neoliberalismo, para a prática dos labirintos escuros da burocracia e, sobretudo, das exacções fiscais sobre as pessoas singulares e colectivas. A burocracia, na senda das malfeitorias asfixiantes e omnipresentes impostas por Bruxelas, passa a ter, como nunca, apenas, o valor duma arma repressiva face aos cidadãos aos quais já só sabe impor-lhes alcavalas para salvaguarda do estado, já que a decrepitude da economia e dos seus correspondentes contributos fiscais, para encontrar alguma compensação, necessita de recursos financeiros que, qual xerife de Nothingam, sob a permissão do parlamento, a fiscalidade governativa extorque ao cidadão contribuinte. Viver-se-á melhor?

Não menos importante que as acusações anteriores há, também, a permanente insuficiência do investimento na investigação científica, uma actividade estratégica nacional que não pode compaginar-se com aumentos tímidos com cujos, não haverá qualquer progresso sustentável. As restrições financeiras estatais que as determinações alienígenas de Bruxelas não dispensam sejam feitas, antes forçam, tomam a dianteira e emperram o sector da investigação pelo que este bastião do desenvolvimento fica muito limitado na sua manutenção e, sobretudo, no crescimento do capital mais precioso de que o país necessita que é, bem sabido, a sua massa crítica. A teoria que determina a sujeição da investigação científica às supostas necessidades da economia é mais outra evidência da ingerência das forças do mercado, das internas mas, sobretudo, das externas, em desfavor duma investigação científica praticada, no mais essencial, ao sabor das necessidades inerentes do saber que este só por si, permite proporcionar. Estar-se-á a viver melhor?

Também, mais outro aspecto concreto da vida portuguesa e que merece reprovação sentida é a aceitação pelas autoridades da farsa e do negócio vergonhoso das formações profissionais, vulgo novas oportunidades, sem mérito técnico-científico que a própria União Europeia, sempre ela, não só promoveu – o prato das lentilhas tinha de ser grande e alargado – mas a que, por igual, soube fechar os olhos. Basta-lhe alimentar uma multidão de formadores, quantos sem formação – mais outros rapazes de Bruxelas – e, também, como expediente pouco abonatório, conseguir disfarçar o volume do contingente dos desempregados. Os resultados conhecidos e sentidos da formação profissional, em conjunto com os das demais deficiências e insuficiências nacionais não são nada animadores. Viver-se-á melhor?

Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril, servindo-se das portas abertas por esta data ilustre da História nacional, só quem, desde então, tem imposto o percurso histórico dos portugueses é que, pelo certo, pode vislumbrar e proclamar que o viver dos portugueses tem melhorado. Para encostar à parede essa legião de energúmenos ter-se-á de perguntar-lhes se, alguma vez, o país já esteve tão próximo do precipício. Estar-se-á a viver melhor?

Por fim, como mais um exemplo obrigatório de condenação veemente, é a manifesta e permanente impossibilidade de não conseguirem ser detectadas, impedidas e punidas as negociatas chorudas e escuras, sucessivamente trazidas a público que, para mais e por fim, quantas das vezes, cúmulo dos cúmulos, os prejuízos financeiros causados pelas suas tratantadas acabam ressarcidos, por ordem do Executivo Nacional, forte descaramento, à custa do dinheiro dos contribuintes. Estar-se-á a viver melhor?

É bem conhecido que há quem queira tentar tapar o Sol com uma peneira e, como assim, mercê da alienação semeada, tente abrir caminho para que a população portuguesa aceite a adopção passiva, pacifica, sem sobressaltos, sem reclamação, com indiferença plena e sem qualquer referendo a aceitação dum estatuto constitucional europeu destinado a roubar o pouco que já resta da Independência e da Soberania Nacionais. Ficar-se-á a viver melhor?

Se desde a chegada ao governo do cavaquismo que o retrocesso económico, cultural e social dos portugueses, paulatinamente, não parou de avolumar-se – a fachada não basta para fazer o edifício – o socratismo, com a sua pequenez cultural, a sua pobreza intelectual, a sua pesporrência incontida e uma subserviência evidente aos ditames do capitalismo burocrático neoliberal, limita-se a reforçar as malfeitorias herdadas, uma coisa feita à custa da encenação saloia do seu triunfalismo bacoco que, a todo o instante, perante o espanto generalizado, tal o desaforo, anuncia vencer todas e quaisquer deficiências das muitas sentidas pela população. De vitória em vitória, até à derrota final. De promessa em promessa ate à mentira final! Um desemprego como nunca houve é toda a resposta que os próceres do regime podem dar.

Viver-se-á melhor?
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 14

Carlos Leça da Veiga

A União Europeia é um autêntico logro político e económico para os portugueses, porém, um negócio notável para quem, na falta dos lucros oriundos das velhas colónias africanas, agora, entre nós, recebe o favor dos subsídios europeus e, traição verdadeira, sob os pretextos de obediência neoliberal às regras de mercado, não só tudo faz para impedir a produção nacional como, em simultâneo, incrementa a importação. Enfim, transformaram Portugal numa colónia. Viver-se-á melhor?

Contra toda a lógica, aliás bem evidente, da evolução duma economia mundial balanceada entre o retrocesso da dos ocidentais e a presença fortíssima, em crescendo, da dos emergentes – muito mais que emergentes – os dirigentes da política portuguesa, sem tino nem senso, pela necessidade de conseguirem apresentar algum serviço e, sobretudo, pela ânsia tradicional de copiar os estados europeus, de preferência os continentais e, por igual, satisfazer-lhes os interesses estratégicos, correram a aceitar-lhes uma aliança multilateral, a União Europeia, sabendo – deviam saber – que estavam a fazê-lo com estados que, como a História no-lo conta, sempre pretenderam prejudicar Portugal e que, nos últimos anos, como está à vista, até deixaram de ter interesse económico e político significativo por estarem em perda económica muito sensível e, pelo certo, irreparável. Estar-se-á a viver melhor?

Mais uma vez, na História de Portugal, os seus dirigentes, foram procurar, na aliança com os potentados do ocidente europeu, em retrocesso económico, as fontes do auxilio para, como imaginaram e imaginam – mas mal – conseguirem que a grandeza desses potentados, se o foi, ou se o é, extravasasse para Portugal. Procederam desse modo por causa não só das tradicionais mimética e submissão face a tudo quanto é feito na Europa – uma crença com séculos – mas, também, não pode ignorar-se, por força das manobras políticas dos interesses muito próprios dos possidentes nacionais e da sua aliança estreita com um lote influente de personalidades políticas portuguesas interessado na satisfação duma sua velha mas desastrosa perspectiva maçónica que a leva a imaginar-se, mais outra vez, como fundadora dum sonhado mas serôdio federalismo europeu. Viver-se-á melhor?

Nos anos oitenta do século transacto tornou-se evidente que as correntes político-partidárias com peso eleitoral, na impossibilidade, aliás confirmada, de saberem como ter e como obter o saber político suficiente para enfrentar as perspectivas estratégicas, por evento dolorosas, dum Portugal independente e, também, para conseguirem dar uma resposta populista às consideradas necessidades imediatas da população portuguesa, a troco dum prato de lentilhas, foram buscar protecção fora de portas, entre os potentados continentais europeus, dispensando-se de acautelar o futuro nacional. Em compensação, o futuro dos seus interesses pessoais, esse, passaria – passou – a estar bem encaminhado e melhor resolvido! Viver-se-á melhor?

De novo, na História nacional e numa repetição lastimável, as classes sociais dominantes a troco da protecção dos seus interesses próprios – anunciados como sendo os nacionais – aceitaram vender às potências europeias, sem quaisquer escrúpulos, a particular e importante posição estratégica portuguesa designadamente a que deriva tanto da sua magnifica fachada atlântica como, por igual, da sua imensa área marítima submarina. Mais outra vez na História nacional, as classes sociais dominantes, sem mostrarem qualquer sentimento de culpa, não hesitaram em ter tornado os dez milhões de portugueses em meros compradores líquidos da produção agrícola, comercial e industrial europeia, sobretudo daquela continental e, para tanto e tal, aceitaram as condições ditatoriais impostas pela União Europeia. Com efeito, esta UE, para assegurar-se duma legião de portugueses tornados importadores obrigados das suas produções, determinou levar à liquidação a generalidade das actividades produtivas nacionais, estatais e privadas para, desta maneira, tudo passar a ter de ser comprado por essa Europa fora. Nestas condições lamentáveis, poder-se-á dizer que está a viver-se-á melhor?

Os possidentes nacionais e os seus caudatários de serviço, na repetição dum passado triste, já desejado como morto, ao invés da defesa dos interesses nacionais mas, tão-somente, para salvaguarda das suas vantagens muito próprias, foram entregar-se nos braços dos potentados europeus que, de Portugal, ontem como hoje – isso nunca deveria esquecer-se – sempre pretenderam tirar vantagens sem nada respeitar. Esses farroupilhas nacionais acreditaram, contra toda a evidência da evolução mundial, que o padrão de vida em curso no centro da Europa e no norte do Continente americano era imutável e, como assim, haveriam de beneficiar com as esmolas suficientes para garantir-lhes uma situação socioeconómica estável e tranquila. Estar-se-á a viver melhor?

Como Portugal tinha deixado de ter colónias e de fazê-lo sem deixar vestígios de neocolonialismo, logo desprovido das tradicionais fontes de rendimento – que, essas, não eram poucas – então, segundo a bestialidade dos próceres nacionais, era preciso ligarem-se a quem lhas facultasse mesmo que à custa do delito de empenhorar a Soberania Nacional portuguesa. Quiseram ombrear com um padrão de crescimento alienígena esquecendo-se – ignorando – que o salto em frente era demasiado grande face ao passado histórico da evolução tradicional portuguesa – cada qual tem a sua História – e que os Países cuja cópia desejaram fazer já estavam, de sobremaneira, em decadência franca tal como, nos últimos anos, acabou por tornar-se completamente patente. Viver-se-á melhor?

Para além de toda a encenação que os Governos sucessivos têm apresentado como sendo a dum desenvolvimento acertado – mais outra das muitas falsidades anunciadas – também está montada a versão sempre repetida (para, deste modo, conseguir ganhar foros de veracidade e a população ser levada a acreditar) que, hoje em dia, em Portugal, fruto da sua inclusão na União Europeia ou, na versão trocista do saudoso Eng.º Cunha Leal “graças à sábia governação que felizmente nos rege” está a viver-se melhor. Como será possível? Nem por milagre.

Onde já vão os benefícios alcançados nos anos seguintes ao 25 de Abril?

Viver-se-á melhor?

Com mais de seiscentos mil desempregados, poder-se-á pensar assim?

Quantos milhares, dentro de um a dois anos vão ficar sem qualquer subsídio de desemprego?

Pensem-se nos mais de oitenta mil portugueses que, em 2009, já nem tentavam procurar qualquer emprego e, como é sabido, a procissão, ainda, vai no adro. Quantos serão em 2010, 2011 e assim, sucessivamente?

Que recuperação económica conseguirá sobrevir para conseguir absorver tantos milhares de desempregados?

Como é possível que com tantos economistas, não tenha sido antevista a evolução do capitalismo – um apátrida – cuja missão, na sua essência verdadeira, digam o que disserem, é reduzida, apenas, a extorquir mais valias e, caso necessário, sem olhar às vítimas provocadas.

A União Europeia, mau grado o avolumar constante duma crise económica – uma inevitabilidade do sistema capitalista, para mais evoluído do nível financeiro para o mafioso – prosseguiu, anos a fio, no erro de não atacar o sistema económico da troca, nem tão pouco, ao menos, de querer regulamentá-lo. Então o que tem feito? Tem insistido em exaltar-lhe o seu sentido neoliberal, em esforçar-se, sem sucesso, por querer salvar-lhe a sua inexistente face humanista e, imagine-se, última decisão, a apresentar-se a protegê-lo à custa das receitas do orçamento estatal pago, obviamente, com o dinheiro dos contribuintes. Afinal, o mesmo estado cuja intervenção, por sistema, é considerada intempestiva, nociva e pecaminosa para o curso livre das leis do mercado e das liberdades individuais é quem, por fim, acaba por ter de socorrer a banca mafiosa ante uma morte anunciada, porém, hipocrisia das hipocrisias, tudo explicado à população como tendo sido uma deliberação pensada em favor do interesse nacional para quem, como dizem, a manutenção indemne das virtudes sacrossantas do mercado e da banca – mafiosa que seja – é entendida como uma necessidade básica, sine qua non.

O que mais interessa aos possidentes – e para isso têm uma comunicação social bem dominada e domesticada – é que a população não vá passar a concluir que razão tinham os que, desde sempre, foram adversários da chamada economia de mercado quando entregue, por inteiro, na mãos do capital privado, para mais, desde há uns bons anos – nunca é demais repetir – tornado mafioso.

Poder-se-á concluir que, de verdade, em Portugal, está a viver-se melhor? Que a maioria dos portugueses está a viver melhor?

Como será possível tirar-se essa conclusão – os socratinos fazem-no – mesmo quando há uma abundância de circunstâncias da vida nacional portuguesa em franco retrocesso e descaracterização. As aparências sociais em exibição constante – mais mundanas que sociais – não são, de facto, a realidade nacional.

Por ser um factor do retrocesso social provocado pelas exigências economicistas de Bruxelas importa verberar-se a continuada, premeditada e insofismável decadência do sistema público de educação para, na linha do neoliberalismo, o de fora e o de dentro, ter de reduzir-se a despesa pública e ao mesmo tempo, facilitarem-se lucros ao negócio dos privados, isto para não falar na intencionalidade criminosa da descapitalização educativa da população portuguesa, de tal modo – esse é o grande objectivo das centrais da desinformação – passo a passo, possa caminhar-se para a manutenção conveniente dum grau satisfatório de ignorância – o que já é uma realidade – e, a seu par, provoque-se nos mais jovens uma indiferença política com monta bastante para conduzir a população utilizadora do sistema público do ensino, à perda sucessiva de quaisquer sentidos crítico e cívico. Com os resultados escolares que o país vai conhecendo e os socratinos desmentindo, poder-se-á concluir que está a viver-se melhor?

Importa, também, não deixar de denunciar-se a falência marcada duma política cultural pública susceptível de facultar, como é imprescindível, uma complementaridade dinâmica ao sistema educativo e, também, por seu turno, tornada instrumento capaz de ajudar a combater a onda avassaladora e, sempre em curso, da alienação político-social. Nestas circunstâncias tão desfavoráveis poder-se-á concluir-se que está a viver-se melhor?

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Domingo, 30 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 13

Carlos Leça da Veiga

Viver-se-á melhor?

Perante as circunstâncias económicas e políticas, muito pouco recomendáveis que, hoje em dia, em Portugal, estão a ser vividas, só na imaginação doentia dos próceres do situacionismo actual que – como sempre – só vêm, ou só querem ver, as aparências mais convenientes, é que consegue vislumbrar-se um qualquer assomo daquilo que possa considerar-se como estar a viver-se melhor.

Sê-lo-á, sem dúvida, em relação aos tempos da ditadura salazarista, por desígnio, àqueles da sua guerra colonial, da perseguição policial, dos tribunais plenários, da censura instituída, da injustiça social, do marasmo cultural, do analfabetismo desmesurado, do ruralismo transbordante, da Universidade minimamente frequentada ou, mais outro exemplo, o da terrível e continuada emigração de salto. Dessa época tão malquista muito de mau deve continuar a dizer-se e, também, utilizar-se para cotejar o modo de vida actual, porém, em comparação com o período imediatamente posterior ao 25 de Abril – aquele em que o Povo mais ordenou – já as coisas são muito diferentes. A comparação que interessa fazer-se tem de ser cometida entre como passou a viver-se durante os cerca de dez anos posteriores ao 25 de Abril e os dias actuais, jamais com o Portugal anterior.

Dessa época inesquecível da vida portuguesa ficaram os benefícios sociais que as movimentações populares conseguiram fazer vingar e que, ainda, mau grado a sua desvalorização e distorção sucessivas, continuam a fazer sentir-se no quotidiano da vida nacional. Estão neste caso, como exemplos julgados frisantes, porquanto imensamente transformadores da realidade nacional, para além da Liberdade conquistada, a criação do Serviço Nacional de Saúde com reflexos imediatos na melhoria sensível do bem estar social, a institucionalização generalizada da Segurança Social, os aumentos salariais, a escolaridade básica universal, o décimo segundo ano na escolaridade, a corrida inteligente ao ensino superior, a autonomia ganha pela Universidade, o poder efectivo e significativo da força sindical e, como importa frisar-se, um acentuadíssimo crescimento do número e da qualidade indubitável daqueles com pós-graduações ou empenhados na investigação cientifica. É bom não esquecer que se não tem sido a população a dar rumo certo ao 25 de Abril, a Saúde, a Educação, a Segurança Social e a vida Sindical não tinham tido a enorme reviravolta que ainda agora, mesmo contra as suas mais recentes vicissitudes, continuam a assegurar algum bem-estar sensível à população. O que de bom continua a sentir-se, de verdade, foi feito antes do cavaquismo.



Se o socialismo na gaveta foi uma machadada imperdoável que tudo começou a desmoronar no sentido dos maus dias, com a chegada do cavaquismo nasceu a imposição dum retrocesso intencional e inaceitável na redistribuição da riqueza nacional que, deste modo e até hoje, com a ajuda socratina, viu-se tornada, sucessivamente, ainda mais injusta.

O aumento constante do desemprego, as dividas das famílias portuguesas, a falência em crescendo dos vários sectores económicos nacionais, os apoios sociais em rarefacção constante, a precariedade do emprego e as pesadas imposições tributárias, no seu conjunto, são a resposta que melhor retrata o retrocesso nacional, o seu mal-estar socioeconómico e aquela que está mais à mão para confrontar, em termos políticos e éticos, os vários continuadores do socialismo engavetado revestido, nos últimos anos, duma roupagem neoliberal caracteristicamente mafiosa.

Quem são e quantos acharão que está a viver-se melhor? Talvez os tais quinhentos mil que enchem todos os eventos musicais, todos os campos de futebol, todas as praias e todos os demais acontecimentos cor-de-rosa.

Se os ianques exigiram engavetar os parcos vislumbres socialistas que nos espreitaram, os europeístas têm-se esforçado, com denodo manifesto, por conseguir encerrá-los a sete chaves. Estão à vista as consequências da dependência do exterior como são, nos últimos anos, as imensas, porém hipotéticas, vantagens que a população portuguesa tem tido, e terá, por ter sido forçada a sacrificar-se na construção dum estado europeu, afinal nada mais que uma necessidade ideológica – porém patológica – sentida pelo federalismo maçónico em aliança escolhida com o capitalismo internacional mafioso. Estar-se-á a viver melhor?

Em nome da Democracia, a política nacional tem sido conduzida em detrimento da defesa dos interesses da população e, vergonha das vergonhas, os Órgãos da Soberania aceitaram a integração nacional em espaços políticos multilaterais (OTAN e UE) sem nunca terem perguntado à população se aceitava, ou não, dar o seu acordo directo e imediato. Tudo feito, inclusive, sem dar ouvidos ao expresso na Constituição da República!

Os subsídios europeus, tão glorificados pelos sucessivos governos, na triste realidade das coisas, só têm incentivado tanto a corrupção política, económica, financeira e fiscal como, também, o abandono deliberado, diga-se premeditado, de quase toda a produção nacional que, quando funcionava, não só dava, pelo menos, emprego a milhares de Homens e Mulheres, animava a parca exportação e, também, muitíssimo importante, limitava consideravelmente as importações, cujas, reconheça-se, no médio e no longo prazos, só têm trazido demasiado inconvenientes à maioria da população portuguesa porém, em contrapartida, mau sinal dos tempos – isso não pode esquecer-se – dividendos excelentes aos estados europeus exportadores e aos execráveis intermediários de oportunidade que, às mãos cheias, pululam entre nós. Viver-se-á melhor?

Não é a abundância de “electrodomésticos” que define um qualquer desenvolvimento sócio-económico verdadeiro, muito menos pode preencher a ideia de estar a “viver-se melhor” mas, a sê-lo, mesmo isso, só poderia traduzir-se como coisa positiva se essa abundância não fosse conseguida através dos empréstimos facilitados pela insídia bem trabalhada da indústria bancária e sim, como devia ser, á custa do rendimento alcançado pela remuneração adequada do trabalho produzido.

Para fugir-se a uma redistribuição justa do rendimento nacional e, em simultâneo, criar-se a ideia dum viver confortável, a banca e os governos conluiaram-se numa política nada correcta da concessão fácil de empréstimos bancários que, como está à vista, alguns anos passados, colocam milhares de Homens e de Mulheres numa insolvência antevista como de solução muito mais que difícil.

É bom não confundir certas modalidades de comportamento meramente mundano, nem aqueloutras dum espírito demasiado consumista e, muito menos, algumas tantas demonstrativas dum alardear de sinais de riqueza para daí poder concluir-se que, entre nós – isso é mentir – está a viver-se melhor. Por inferência da espurcícia de Bruxelas nós, portugueses, não temos recebido nem bom vento, nem bom casamento.

Não é verdade que esteja a viver-se melhor ou, então, o actual descalabro económico, social e cultural – para os novos situacionistas – é sinónimo de progresso e bem-estar social. Basta que haja os tais quinhentos mil portugueses a viver bem para que todos os acontecimentos mundanos tenham a florescência bastante para iludir quem vê, porém, sem olhos críticos.

Será um indiciador social de estar a viver-se melhor que haja, entre os portugueses, muito mais que seiscentos mil desempregados cujos, na sua esmagadora maioria, jamais voltarão a obter qualquer emprego? Haverá alguma sustentação económica possível para a própria manutenção do, ainda vigente, trem de vida nacional?

Está, ou não, na linha do horizonte, um regresso a uma ruralidade bem mais pobre que a anterior? Quantos, dentre os desempregados, até dessa mesma solução estão privados por já nem possuírem a velha courela que fornecia o caldo e ajudava ao magro presigo!

Só à margem da União Europeia e, em particular, fora de tudo quanto pertença aquela sua fracção continental, é que Portugal poderá ter hipóteses de alcançar e desenvolver, com sucesso, um comerciar razoável de tal modo, possa olhar para o futuro com alguma confiança se bem que não possa pensar noutra coisa mais que numa vida modesta.

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Carta de Carlos Leça da Veiga a Carlos Matos Gomes

Há dias, no Estrolábio, numa sua mensagem dirigida ao Carlos Loures, fez alguns comentários a propósito dum texto de minha autoria.

Agradeço a atenção que fez o favor de dispensar-me mas, sem querer polemizar sinto-me obrigado a considerá-los, apenas e sobretudo, como subentendidos deduzidos – mas mal – do meu texto sobre a, para mim, muito desejável Independência da Galiza.

No meu escrito não há nenhuma referência a Liberdade, a associação de nacionalismo com liberdade nem, tão pouco, a base religiosa e étnica.

Para quê entrar nesses terrenos. Falei de Independência Nacional, de Direitos Humanos e de Democracia. Há terrenos que não pisei pelo que, para lá, não devo ser empurrado. Se lá tivesse estado – e nunca estive – pelo certo, retirar-me-ia, porém, sem espírito de recuo. São áreas demasiado especulativas para as minhas capacidades.

“Tenho um conceito de Liberdade – escreve o Matos Gomes – que não se sente ameaçada, nem ofendida por a Galiza não ser independente”. Não consigo acompanhá-lo mas o que está em causa é saber se o conceito de Democracia (Democracia e Liberdade não são sinónimos) está ameaçado e ofendido. Para mim está e está definitivamente. Pode haver Liberdade e não haver Democracia. Em Portugal, por exemplo, há Liberdade (isto é, a Constituição reconhece e codifica as Liberdades políticas) mas, em minha opinião – e estou bem acompanhado – não há Democracia. A Constituição não permite chegar a tanto, excepto se o modelo conceptual constitucional, velho de milénios, for julgado como uma boa resposta. Para os possidentes, é.

No caso do estado espanhol até pode haver todas as liberdades políticas mas se há – como há – Nacionalidades oprimidas, então, não há Democracia. E, antes do demais, é isso que está em causa.

Haverá Democracia num Estado – o tal Estado-Nação – em que há Nacionalidades oprimidas? A partir da nossa fronteira terrestre, por essa Europa fora, são imensas.

Para o Matos Gomes há dificuldade em definir o que é uma Nacionalidade o que, em meu entender, só pode decorrer da confusão imposta pelos Estados expansionistas que inventaram o tal conceito de Estado-Nação.

O que é, por exemplo, um espanhol? Um alemão? Um italiano? Um russo?


Os R eis Católicos, Napoleão, Cavour, Bismarck e Ivan III, cada qual na sua modalidade, inventaram os Estados-Nação. Por cá não se chegou a falar dum Portugal do Minho a Timor? A Inglaterra, sob a designação Reino Unido, coloniza a Escócia, a Irlanda do Norte e o País de Gales e, sem propriedade mas astúcia vai ao ponto de chamar-lhes britânicos; rouba-lhes a indicação da nacionalidade em favor daquela da insularidade!

Tentar definir o que é uma Nacionalidade não pode ser feito em função das designações que os Estados-Nação a si mesmo deram mas sim em respeito pelas designações históricas que, sucessivamente, foram submetidas e esbulhadas das suas autonomias políticas. Dever-se-á contemporizar com os crimes de usurpação? Aceita-se a sua prescrição?

Um alsaciano ou um loreno, como exemplos bem frisantes, têm sido, sucessivamente, alemães e franceses, quando, afinal, só devem ser alsacianos e lorenos, estes últimos só incorporados no reino francês, em 1738.

No meu texto sobre a Independência da Galiza não há qualquer sugestão de fazer substituições dos múltiplos invasores que proliferam na Europa por qualquer religião ou qualquer etnia (uma designação sem qualquer sentido) tal como nada de semelhante é preconizado em relação a qualquer Estado doutros continentes. O que haverá no meu texto que justifique haver tais referências, ou inferências? Quem o ler como irá situar-me? Não gosto.

A Ordem Internacional é justa? Não deve ser contrariada?

Só os portugueses é que não podiam ter colónias? Os outros têm outros direitos?

O Matos Gomes fala do grande sucesso dos Estados-Nação porém, se as coisas forem bem medidas e melhor avaliadas, os seus resultados mais influente foram e têm sido muito prejudiciais, tudo por força dos efeitos dos seus vários expansionismos – os seus imperialismos – que vivem em contradição constante com os seus tão apregoados equilíbrios estratégicos.

Um dia conversaremos.

Um abraço do

Carlos Leça da Veiga
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 2

Carlos Leça da Veiga

Então o que é que deles – desses graúdos – pode ler-se?

Vulgaridades despidas de quaisquer conteúdos políticos válidos, concepções economicistas anti-sociais, idealismos ultrapassados embora de grande conveniência, ausência de espírito humanista, tecnocracia avassaladora, retórica pura e lugares comuns que nada ensinam, esclarecem, acrescentam, formam e informam, um ror de obras palidónicas e abjurações, coisas comezinhas quantas delas empoladas com ardil, textos cevatícios dos situacionismos sucessivos, prosas alienígenas de aculturação orientada ou, então, meras controvérsias de pacotilha, máxime arrufos partidários tudo bem embrulhado nos famosos “discursos redondos” e “politicamente correctos”.

Se, entre o muito do quanto pode ler-se, transpareça demasiada presunção e, quanta dela, revestida com o despropósito da pompa e da circunstância, algumas textos há, tem de ser dito, que são obras muito bem acabadas tudo, apenas, por serem escritos num português invejável, razão bastante para, por justiça, pese embora o demérito das seus conteúdos, não ser errado pensar-se vir a vê-los transcritos nas boas antologias literárias.

Por bom augúrio há, também – importa assinalar-se – alguns, raríssimos, comentadores que a espaços tristemente longos, ao que parece por puro amadorismo, escrevem comentários políticos que são feitos, quanto a mim, com inteligência notável, metodologia apropriada, escrita escorreita, conteúdos dalgum modo significativos e, sobretudo, como parece, com o espírito livre dos implacáveis espartilhos doutrinários, sejam os partidários, sejam os alienígenas.

Seja como for, como não há bela sem senão, custa ter de dizer que, bem feitas as contas (oxalá, alguém consiga desmenti-lo) por desgraça mas em boa verdade, muitos desses autores – figuras meritórias – no mais fundamental e em resumo, acabam por não fazer outra coisa mais que não seja, umas vezes, acabar por tecer louvores de aceitação ao poder instituído e, outras, ao invés, com timidez máxima e grande disfarce, a gizarem-se-lhe queixas de contumélia. As próprias divergências, bom grado bem elaboradas e, até mesmo, lançadas com agressividade bastante, por sistema, acabam retidas ou ficam próximas do leque das doutrinas ou das tendências partidárias nacionais ou alienígenas. Nada de heresias; respeite-se a preocupação dominante! Só é aceitável o que já foi dito por um qualquer dos partidos políticos parlamentares, em especial, pelos do bloco central.

Nas conclusões dessas montanhas – dessas sumidades inquestionáveis – só são paridos ratos! O receio, talvez o medo, continua a impor o “politicamente correcto”. Séculos de Santo Ofício com a correlativa Inquisição e, por igual, meio século de salazarismo haveriam de deixar marcas indeléveis e, a seu lado, lamente-se, muitos apaniguados.

Em todo o caso, mesmo até daqueles raros textos cujos méritos interpretativos têm direito a ênfase e aplauso, nem por isso, em boa verdade, é possível dizer-se que qualquer dos seus autores tenha o atrevimento de ir ao ponto de colocar em causa, como é necessário, o regime político que tem sido facilitado – imposto – aos portugueses.

Na mais pura das verdades tem de considerar-se obrigatório, a todo o instante e em todas as circunstâncias, dever reconhecer-se, escrever-se e proclamar-se, que não é um regime democrático.
No panorama vasto dos produtores da opinião pública nacional, a questão da tão necessária apreciação critica da evolução dada à esperança trazida pelo 25 de Abril só tem beneficiado com a excepção do contributo dum intelectual de mérito reafirmado e de autoridade científica indiscutível, o Professor Doutor Vitorino Magalhães Godinho que, como a mais nenhum outro, fica a dever-se a afirmação bem necessária e dita com toda a frontalidade que, a realidade nacional portuguesa, está a viver sem Democracia. Admita-se – não pode perceber-se como é possível – haver dirigentes políticos, comentadores de serviço e alguns daqueles de ocasião que possam estar convencidos que temos uma Democracia o que, quanto a mim, é uma circunstância que, só por si, julgo dar às coisas um cariz de grande gravidade. De facto, uma qualquer insistência na convicção de classificar como Democracia o regime político em curso, no meu entender, só revela ou um oportunismo feroz ou uma ignorância extrema ou, pior, por ser prevalecente, uma desonestidade de grande monta.

Mal vão as coisas quando essa perspectiva política é apresentada e aceite por algumas personalidade que, quantas delas, têm gabarito intelectual firmado e são obreiros constantes da opinião pública nacional. Trata-se, afinal, dalguma intelectualidade nacional que, concluo – é mais uma opinião pessoal irreversível – ou não sabe distinguir liberdade e permissividade do que deverá ser Democracia (a ignorância não anda muito afastada das cabeças chamadas bem pensantes) ou, mais lamentável – e aí está a raiz de muitos males – tem compromissos políticos e éticos muito reprováveis que obrigam a fechar os olhos a todas as perversões, subserviências, abusos, malfeitorias, desonestidades, inconsequências, cedências e, imagine-se, comprovadamente, até a criminalidades.

A Constituição da República Portuguesa, como é visível, tem permitido atropelos constantes à Democracia cuja, ao contrário de quanto pensam os bonzos sagrados da politiquice nacional, não fica esgotada nos actos eleitorais que os alcandoram a auferir benefícios escandalosos durante, ou depois, duma passagem pelas lides legislativas e executivas.

Por infelicidade, no nosso País, há muitos incrédulos e muita aculturação e, deste modo, uma parcela imensa de portugueses tem aceite por bom e por certo tudo aquilo que os bonzos sagrados da manobra política dizem ser a Democracia. Mais grave, muito mais grave, bem poderá dizer-se, é não ter sido visto haver a coragem de contestá-los e fazê-lo, de sobremaneira, aos seus devotos mais destacados e mais publicitados. Honra ao Professor Doutor Vitorino Magalhães Godinho – tenho obrigação de insistir na repetição – de, até hoje, ter sido o único português, dentre quantos com gabarito intelectual de grande envergadura que, sem tibiezas, dum modo inigualável e em termos peremptórios, ao condenar o statu quo político – conforme documentado na comunicação social – afirmou, com clareza ímpar, que, entre nós – mas não só – não há Democracia.
publicado por Carlos Loures às 16:27
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Domingo, 9 de Maio de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 1

Carlos Leça da Veiga


O que leio e ouço na comunicação social; a censura só mudou de traje!

Na realidade, no viver cultural, social e político português, são de sobra os escritos estritamente políticos vindos à luz do dia que, quase sem excepção, não passam de meras caixas de ressonância dos vários directórios partidários ou, pressente-se, têm o visto favorável dos grupos económicos decisores.

As suas essência, mira e alcance – permito-mo dizê-lo – nada têm de feliz, bom grado terem a chancela de políticos ditos de nomeada ou, também, a de comentadores considerados de vulto, uns e outros, conhecidos como profissionais do ofício político com emprego destacado tanto no sector institucional público, nele incluso o partidário, como, também, no empresarial privado sem que neste deva esquecer-se e destacar-se, por entre tantos escribas em actividade, aquele grupo imensamente prolifero, o jornalístico, que – salvam-se as excepções honrosas – não prima por impor a sua necessária autonomia e, como assim, dada a sua responsabilidade pública, não é exemplo duma boa cidadania.

Uns e outros, tantos e todos com estatuto de notabilidade mas, salta à vista, com a necessária e manifesta subserviência ideológica, têm de viver – raríssimos não o farão – no resguardo duma mesma sombra de protecção, sombra que, a qualquer instante, poderá faltar-lhes caso as baias impostas por esse poder, o «poder invisível» apontado por Norberto Bobbio, reajam com desagrado bastante – um desagrado temível e terrível – a qualquer temática menos conforme as intenções fundamentais do «Grande Irmão». Quem quer que seja, dentre quantas figuras a comunicação social tenha promovido à categoria de notável, “muito democraticamente” será levada a sair de cena caso possa atribuir-se-lhe o azar dum qualquer deslize doutrinário, a infelicidade duma falha reverencial, o menosprezo por alguma figura cimeira, um panegírico menos encomiástico, uma explicação politica menos conseguida, uma qualquer pouco convincente, seja o que for, porém, quanto baste para, num mínimo, mesmo sem acinte, poder ofuscar, prejudicar ou obstar à manobra do sistema económico-politico reinante.

Acima de tudo exige-se aos fabricantes da opinião pública que nunca deixem de glorificar as virtudes do mercado, do seu fundamento neoliberal e dos seus valores sacrossantos.

A doutrina em curso – oficiosa como terá de ser – manda que todo o procedimento político, nele subentendido qualquer comentário ou opinião, para poder ser rotulado como responsável, credível e recomendável tem de ser realizado conforme os ditames pressupostos pelo tal poder invisível (mas que, como muitos o sabem, não custa a apontar-se) e deverá pautar-se, com obediência plena e com rigor muito cuidadoso, por coisas mínimas como sejam as de estar-se atento aos pressupostos mais recomendados para, de facto, sine qua non, conseguir subir-se na vida.

Entre esses pressuposto, há exemplos a não esquecer, seja na escrita, seja no discorrer e, como assim, torna-se fundamental a inclusão de algumas passagens que são chave decisiva para as bênçãos da situação política em curso. Assim, dentro esses exemplos, para além dum acendrado e bem demonstrado compromisso com discurso ianque do anti terrorismo – recorde-se o “acendrado patriotismo” tão citado nos tempos salazaristas – há outras certas frases absolutamente necessárias, dum escrúpulo respeitoso e que poderão ser, «na União Europeia tem de ser deste modo», «Bruxelas decide e bem», «conforme a civilização ocidental», «de acordo com a democracia representativa» «a administração norte-americana salvaguarda», «firmeza e prioridade no combate antiterrorista», «as virtudes excelsas do mercado», «o alcance histórico do tratado de Lisboa», «os grandes valores da democracia», «nada melhor que a flexisegurança», «bem vindo o tratado constitucional europeu», «a retoma económica não terá grande demora», «a crise económica em Portugal é um reflexo da internacional» e, amiúde, nunca esquecer de referir «os direitos humanos», em particular na sua mais recente interpretação ianque, Guantanamo inclusive.

Como convêm, como muito convêm, para conseguir revelar ter-se um situacionismo indefectível – sejam quais forem os seus próceres – nunca deixar de inquirir-se, sobre quem quer que seja, «se é dos nossos» ou elucidar «que é dos nossos», todo e qualquer que dê nas vistas para, se o não for, de imediato, passarem a encomendar-se e a ouvirem-se os desagrados indispensáveis. Com efeito, disso não deverá haver dúvidas e, também, não parece nada exagerado, é ter de reconhecer-se que, entre nós, nos tempos que correm, todo o poder está nas mãos da hipocrisia, uma coisa malsã alimentada às mãos cheias por obra dos maiorais da alienação política partidocrática, da subserviência aos ditames do exterior e da aculturação alienígena do que, no seu conjunto, são intermediários destacados!
publicado por Carlos Loures às 21:43
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