Sábado, 22 de Janeiro de 2011

A luta armada contra a ditadura (6) -Os 50 anos da “Operação Dulcineia” – 22 de Janeiro de 1961 – por Carlos Loures

1961 foi, como referi num outro texto, um «annus horribilis» para o regime de Salazar. Na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, começava a longa sucessão de acontecimentos que iria culminar, no último dia do ano, com o ataque ao quartel de Infantaria 3, em Beja. Pelo meio, ficava o desencadear da guerra colonial, o golpe de Estado do general Botelho Moniz, a perda do Forte de São João Baptista de Ajudá, encravado no território do Daomé, o desvio de um avião da TAP, realizado por Palma Inácio, que lançou depois panfletos sobre diversos pontos do País, a União Indiana invadiu Goa, Damão e Diu, pondo fim á secular presença portuguesa no subcontinente …

 

O que se passou no dia 22 de Janeiro de há 49 anos? Um comando do DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação), composto por portugueses e por galegos ex-combatentes da Guerra Civil, dirigido por Henrique Galvão e Jorge Sottomayor, pôs em marcha a «Operação Dulcineia», tomando de assalto o paquete Santa Maria, ao  largo do mar das Caraíbas e crismando-o de «Santa Liberdade». Antes de vos falar da «Operação Dulcineia», vou apresentar o seu comandante: Henrique Galvão.

 

Militar de carreira, Henrique Galvão (1895-1970) foi um dos apoiantes de Sidónio Pais e participou no golpe  militar de 28 de Maio de 1926. Salazarista convicto, foi, em 1934, o primeiro director da Emissora Nacional. Esteve em África, onde organizou acções de propaganda do regime. Nomeado governador de Huíla. Angola, escreveu uma livros brilhantes sobre a antropologia e a zoologia vida das colónias de África.

 

O ter vivido o regime por dentro levou-o à desilusão. Esteve envolvido numa conspiração em 1952. Foi preso e expulso das Forças Armadas. Em 1959, durante uma consulta médica no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fugiu e refugiou-se na embaixada da Argentina, vindo a conseguir, tal como o general Humberto Delgado, exílio político na Venezuela.

 

Foi durante o exílio que começou a preparar uma acção mais espectacular, mediática: o desvio do paquete de luxo “Santa Maria” cheio de passageiros. A operação que parecia megalómana, de difícil concretização, preparou-a de colaboração com Delgado, exilado no Brasil.

O “Santa Maria", com mais de seis centenas de passageiros e 350 tripulantes a bordo, largara em 9 de Janeiro de La Guaira, Venezuela, numa viagem para Miami. Galvão embarcou clandestinamente em Curaçao, nas Antilhas Holandesas. A bordo já se encontravam os 20 elementos do DRIL, encarregados de executar a operação.

 

Cumprindo uma ordem de operações cuidadosamente elaborada por Galvão, a acção foi desencadeada na madrugada de 22 de Janeiro - a ponte de comando foi tomada. Um dos oficiais, um ex-graduado da Mocidade Portuguesa, ofereceu resistência e foi morto a tiro. Os restantes, segundo Galvão, apressaram-se a render-se. Vergonhosa e cobardemente, comentaria depois Galvão.

 

O navio mudou o seu rumo e dirigiu-se a África. Galvão pretendia atingir a de Fernando Pó, no golfo da Guiné,  na época, colónia espanhola,  partindo daí para atacar Luanda: Este seria o início de uma operação mais vasta destinada a derrubar as duas ditaduras peninsulares.

No entanto o paquete, do qual nada se sabia, com natural apreensão dos familiares de passageiros e tripulantes, foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que imediatamente avisou a guarda costeira americana. Começaram a chegar navios de guerra, inclusivamente uma fragata britânica.

Não sendo possível prosseguir com o plano traçado, que exigia o factor surpresa, Galvão e Sottomayor decidiram dirigir-se ao Brasil e render-se às autoridades brasileiras. O novo presidente,  Jânio Quadros (19171992) , um homem de esquerda, foi empossado em 31 de Janeiro de 1961, vindo a renunciar em 25 de Agosto desse mesmo ano (declarando que "forças terríveis" o obrigavam a esse acto).

 

Rumaram então ao Recife onde pediram asilo político, o qual foi prontamente concedido. Desembarcaram no Rio de Janeiro os passageiros. O presidente Jânio Quadros recusou-se a entregar os revoltosos às autoridades portuguesas. O navio esteve em poder dos revolucionários até 2 de Fevereiro, dia em que uma força de fuzileiros da Marinha Brasileira assumiu o seu controlo.

 

O assalto ao Santa Maria, que forneceu tema para um filme de Joaquim Manso, foi naquele Janeiro de 1961 um assunto de grande exposição mediática internacional – jornais de actualidades, canais de televisão, jornais, magazines, dedicaram-lhe grande atenção. Foi o primeiro golpe daquele ano que Salazar iria abominar, o ano de todos os prodígios em que os oposicionistas tiveram motivos para ter esperança na queda da (aparentemente inabalável) ditadura a qual, no entanto, ainda se aguentaria por treze anos mais.

 

http://bp2.blogger.com/_67BHDDKqaNg/SJXRHeUe0II/AAAAAAAAIHc/imsgkQoZFOo/s400/F+008+%5B1024x768%5D.jpg

http://bp3.blogger.com/_67BHDDKqaNg/SJXS6gKm2_I/AAAAAAAAIIU/wRfM1lO3CiM/s400/F+017+%5B1024x768%5D.jpg

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 5 – por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

 

Brasil, Meu Irmão!

 

 

Longe, pegando o sol de outra bandeja, são ecos as notícias chegadas de Portugal. Mas sempre te interessa saber que o João Gaspar Simões publicou o primeiro livro de fôlego sobre o Fernando Pessoa (Vida e Obra de Fernando Pessoa) e nele recolheu o teu nome de passagem. O António José Saraiva deixa marca com a História da Literatura Portuguesa e o maestro Lopes Graça lançou a Gazeta Musical e de Todas as Artes. Salazar despachou o António Ferro para o exílio dourado nomeando-o ministro plenipotenciário em Roma. Ao Carmona foi a natureza que se encarregou de o despachar, com 81 anos, para o exílio eterno depois de 23 anos na presidência da república agora ocupada pelo general Craveiro Lopes. Ah, infausta nova! Morreu o teu amigo Cotinelli Telmo (1897-1948), dos grandes arquitectos portugueses no seu tempo, artista plástico e cineasta realizador do filme A Canção de Lisboa; seguiram-lhe o percurso do infinito o pintor modernista Mário Elói (1904-1951) e o mestre Viana da Mota (1868-1948) a quem a música muito ficará a dever. Os surrealistas andam encadeados com as luzes do desentendimento e os neo-realistas tomam o lugar de um movimento de arte inovador no seu retrato duro e dramático da sociedade portuguesa. Se por cá andasses havias de perceber (se a vaidade te deixasse) o firme propósito desta nova geração: Alves Redol (Horizonte Cerrado), Manuel da Fonseca (O Fogo e as Cinzas), Fernando Namora (Retalhos da Vida de um Médico), José Cardoso Pires (Os Caminheiros e Outros Contos – que a censura retirou), Carlos de Oliveira (Pequenos Burgueses) e um tipo rebelde chamado Urbano Tavares Rodrigues. O teatro português renova os palcos com A Forja do Alves Redol e O Mundo Começou às 5.47 do Luís Francisco Rebello. Apesar da censura prévia e da PIDE a hora é outra. Na tradição do êxito fácil José Buchs apresentou o filme Sol e Touros e Leitão de Barros o Vendaval Maravilhoso, mas o quem sacudiu a sonolência do cinema português foi um tal Manuel Guimarães, que não conheces, com o filme Saltimbancos. Ah, recordas-te do Eugénio de Andrade, aquele rapazinho com quem falavas no Governo Civil contando histórias da tua poesia “genial” e que diz de ti e da tua poesia coisas bárbaras?, publicou As Mãos e os Frutos.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre convites diversos e frequentes manifestações de amizade semeia a distinção do seu valor intelectual. António Botto movimenta-se no seu jeito mundano, recolhe brisas e tempestades contribuindo para ser amado ou rejeitado. Em Novembro de 1950 ainda reside em São Paulo pois aí regista na Junta Oficial de Propriedade Industrial, através da empresa A Serviçal, Lda., a marca António Botto, pelo que paga 500 cruzeiros. Nesse mesmo mês realiza em Campinas a sua exposição de desenhos e versos inéditos, na Galeria Salvador Rosa. Uma récita marcada para o Teatro Municipal acaba numa inesperada manifestação, em plena Praça da República, prestada por alunos da Escola Caetano de Campos. Mas o poeta não consegue evitar um clima nebuloso à sua volta que acentua desfalecimentos e angústias numa saúde debilitada. «Afectos, sacrifícios, lealdade! / Tudo se apaga ou fica na memória / Se a ilusão dá lugar à realidade» (Um soneto por António Botto – Diário de Lisboa – Lisboa 12.08.1938). O relacionamento urbano de António Botto torna-se sufocante pelo esmagamento da metrópole paulista. As amizades começam a sofrer a instabilidade de outrora erguendo barreiras profundas. Ai, Botto porque te foste se guardada estava em ti a chave do problema? Sem se incomodar sequer com o lançamento e expansão de Regressos (Novelas Inéditas - Edição do Clube do Livro, S. Paulo, Brasil, 1949)), colectânea publicada em S. Paulo, o poeta faz as malas e demanda o Rio de Janeiro. Leva consigo uma mágoa infinita por terem sido traídas as suas expectativas. Distanciado de uma realidade que lhe penhora a ilusão daquilo que possuía no quarto de hotel onde vivia com sua mulher, Botto tem 55 anos e alimenta sonhos e fantasias Parte, vai para o Norte em busca de outra estrela polar capaz de lhe desfazer o desgosto e iluminar o coração. Vamos Carminda! Vamos amiga à procura doutra sorte nos mares da vida que nos resta. Eu sou Botto! o António, poeta universal que eterniza nos seus versos a memória do seu nome e do seu país. Sou gente! Terei todos os defeitos, mas sou gente! Mais que gente, sou poeta!

(Continua)

 

__________________

 


Hoje vamos ouvir João Braga numa "Canção" de António Botto

 

 

 

.

publicado por João Machado às 23:55

editado por Luis Moreira às 22:05
link | favorito
Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 3 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 3 – por António Sales

(Continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Brasil, Meu Irmão!

 

Ilumina-se a manhã sobre a vaga de betão.

 

Já correram os mares de Pedro Álvares e viram-se ao longe as terras de Vera Cruz que o padrão dos portugueses marcou como sua e a missa de chegada cristianizou para sempre.

 

 

 

 

 

O navio atracou ontem, pela noite, ao cais de Guanabara, ainda a tempo de assinalar os 50 anos de António Botto nesse dia 17 de Agosto de 1947. Hoje, no desembarque, o poeta toma em si a plenitude da nova luz de esperança que lhe corre nos olhos irrequietos na observação do movimentado cais. A vibração tropical e cadenciada dos corpos abre espaço ao descarregar das malas. Senhor ou servo, dona ou cabocla, preto ou branco, homem de estiva ou de negócio, todos cumprem as regras de um ritmo de vida que arranca de cada passo ou de cada ginga uma alegria exclusiva, um cântico agradecido pela dádiva de existir, de respirar as cores do mundo sentindo o cheiro do dia. Do ruído salta a alegria salutar de quem vive segundo a ordem da natureza dos corpos submetidos à vibração de uma sensualidade eivada de languidez. A cor da alva renasce incendiada pelo fogo da energia que transforma um cenário sem idade. Com o coração exultante impõe-se retribuir ao santo a generosidade da sua protecção. Oh, alma da cidade vem ao encontro do poeta e entrega-te! Aqui está o futuro! Aqui está a recuperação da glória com a fé de quem se encontra habituado ao triunfo!

 


 

 

 

 

 

 

 

 

António Botto pisa o cais recebido entre abraços e saudações, pessoal das rádios e jornais recolhendo notas sobre este inventor de ritmos poéticos. Amigos intelectuais que o acarinham: Pompeu de Souza, Olavo Bilac, Macedo Soares, Horácio de Carvalho, Vinícius de Morais, Dantom Jobim. Devido à exoneração da função pública de que fora vítima em Portugal, chega precedido de uma certa imagem contestatária, que não alimenta mas não desmente, de perseguido pela censura e pelo regime de Salazar. Será saudado com todas as honras na Academia de Letras do Rio de Janeiro (Jornal “Correio da Manhã”- 03.02.1956 – Rio de Janeiro) com discursos de boas vindas de João Neves Fontoura e de Manuel Bandeira. Os jornais do Rio, São Paulo, Recife, Ceará, Baía, falarão dele dedicando-lhe entusiásticos louvores, chamando-lhe mesmo o maior poeta português em notícias de primeira página e publicando artigos sobre a sua obra assinados por grandes nomes da literatura brasileira. É convidado para banquetes, recepções e homenagens de afectuosa admiração que ultrapassa tudo quanto se tinha feito em idênticas circunstâncias. Não foi um desconhecido que desembarcou, um emigrante de Trás-os-Montes à procura da fortuna, mas um poeta português que o Brasil conhece e recebe com todas as honras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hotel Copacabana em 1950

 

 

Segundo alguns registos da imprensa o casal Botto começa por instalar-se no Hotel Copacabana, segundo outros no Hotel Atlântico certamente mais modesto pois um jornalista relata que o escritor iria mudar-se «talvez para o Internacional onde se hospedou o meu amigo Nijinski» (Vaslav Nijinsky -1890/1952- célebre bailarino russo), já que nestas coisas Botto não o fazia por menos. Na realidade, pouco importa onde se fixou visto ser breve esta primeira estadia no Rio de Janeiro, contudo suficiente para deixar marcas a propósito de artigos e entrevistas em que o poeta teria dito mal do seu país e da forma como fora tratado, considerações que ditaram a intervenção de Erico Braga numa carta datada de Lisboa (27 de Outubro de 1947- BNL espólio AB). O amigo não lhas perdoa chamando a atenção num tom severo: «Meu caro António. Estou tristíssimo contigo! Tu não fazes uma ideia do mal que tens feito a ti próprio. (…) Então que loucura é essa, António de andares a pôr Portugal pelas ruas da amargura. (…)» Braga informava que em Lisboa distribuíam-se panfletos insultando Botto e os jornais tratavam-no «impiedosamente». A carta não era menos impiedosa e acabava com uma interrogação onde se expressava simultaneamente a crítica e a incredulidade: «Que onda de loucura te passa pela cabeça, rapaz?».

 

 

 

 

 

 

 

Na emoção da sua indefectível amizade Erico Braga (foto à direita)não terá cuidado de indagar sobre o eco que aqui chegava das “diatribes” de António Botto lá pelo Brasil e que os inimigos (ou invejosos), por cá deixados, tratavam de ampliar embora, penso eu, com repercussões limitadas aos meios artístico e intelectual. O autor de Canções sempre proclamou que o caso foi uma cabala com peças forjadas para o desprestigiar. Sob a designação de Difamação Escandalosa existe no seu espólio a explicação dos factos que terão começado num encontro fortuito com Jorge Amado na Avenida Rio Branco. Nessa tarde, a convite do romancista, combinam encontrar-se no apartamento da actriz Maria de la Costa e de Fernando Barros, português e jornalista. Jorge Amado foi buscar o casal Botto e o suposto serão íntimo transforma-se num acto de convívio mundano onde comparecem Viegas Neto, Joseph Guerreiro, Chianca de Garcia, Abílio de Carvalho e um fotógrafo do jornal Directrizes. A conversa foi suficiente animada para António Botto, de modo informal (como mais tarde Viegas Neto viria a reconhecer) e no seu estilo de grande senhor, produzir considerações desagradáveis sobre intelectuais e escritores portugueses e mesmo sobre Portugal. Cansado das mundanices dos últimos tempos o casal convidado retirou-se cedo não sem, no entanto, ter-se deixado fotografar.

 

No dia seguinte Viegas Neto, ao tempo director do jornal, telefona ao poeta a convidá-lo para uma festa em sua casa com gente importante. Possivelmente fatigado pela intensa vida social dos últimos tempos Botto justifica-se e pede escusa. Neto insiste, Botto recusa. Como nessa altura a presença do lírico lusitano era motivo de atracção e mais valia Viegas Neto não lhe perdoa a desfeita e com Fernando Barros cozinham uma entrevista, que Botto nunca deu, e publicam no Directrizes, tablóide semanal de carácter cultural, fundado em 1938, que na origem fora antifascista pelo que lutou contra os integralistas, sobretudo no período da Grande Guerra e da ditadura de Getúlio Vargas. Este acontecimento relevante acabou por chegar a Portugal dando origem à campanha de desprestígio a António Botto e à carta de Erico Braga. O poeta sempre invocou o seu patriotismo e acabou por apresentar queixa sobre a citada entrevista. Comprovada que foi a falsidade jornalística o semanário foi punido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Provas tipográficas de Canções revistas por Botto.

 

Começa assim, de forma complicada, embora entusiástica, a entrada de Botto no Brasil com roteiro marcado para São Paulo onde o aguarda a Rádio Bandeirantes com quem tem contrato para trabalhar em programas sobre a sua poesia e um Portugal que jamais arrancará do coração, contanto o reconheça ingrato e mesquinho. Tempos de glória estes! Continuava a colaborar na imprensa lisboeta e inscrevia o seu nome em importantes diários do Rio de Janeiro, São Paulo e Belém do Pará. O regresso da esperança entrava-lhe na alma e aquecia-a qual lume cheiroso de uma lareira beirã.

 

Aproveita-os, António, aproveita-os!

(Continua)

_____________

 

 

 

 

 

"Palavras De Um Rouxinol", de António Botto, in Poemas de Bibe, por Mário Viegas e Manuela de Freitas. Escutemos:

 

 

 

publicado por João Machado às 23:55

editado por Luis Moreira às 22:20
link | favorito
Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

A mitologia grega transplantada nos trópicos

 

A mitologia grega transplantada nos trópicos

publicado por João Machado às 08:00
link | favorito
Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Cidade Maravilhosa – 3 – Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Retrato  ¾  de  um  jovem  professor  de  filosofia  na  “Cidade Maravilhosa”

Tudo começa concretamente antes do início verdadeiro. E começa em ritmo de valsa, no  grande baile de gala no Clube Municipal pela turma de bachareis da Faculdade de   Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Distrito Federal, do ano 1954. Impecável, mas quase tonto no meu magnífico smoking, danço em viravoltas com Nadyr, muito bela no seu vestido longo. Tenho grande receio de pisar na grande roda do vestido de gala de Nadyr, o que fatalmente acontece depois da meia-noite e de tantos rodopios.

 

Aquela era a festa pelo fim de uma atividade formativa, desejada desde sempre por mim, e que me ocupara quase completamente nos últimos quatro anos. Meu curso de Filosofia foi um decorrer de fortes descobertas. Principalmente nos três anos do bacharelado, quando me confrontei com o desconhecido desejado, guiado por professores de alta professionalidade e cultura. Entre eles, destaco o professor de História da Filosofia, Tarcísio Padilha, pouco mais velho do que o seu aluno, mas que já demonstrava a profundidade de saber e de interesses que o iriam acompanhar nos anos; o professor de Lógica, Júlio Barata, espírito universal, de grande versatilidade cultural, que me desvendava os mistérios de um setor do conhecimento filosófico a que eu dava particular atenção, e que muito me ajudou nos meus estudos jurídicos, começados um ano depois do início daquele de Filosofia. Júlio Barata ocupava igualmente o ensino de Literatura Latina na nossa Faculdade. Quase sempre eu seguia também as suas aulas de literatura, assim como o fazia para com aquelas de Afrânio Coutinho, de Teoria Literária. Uma vez, escutando eu uma das lições sempre brilhantes do Prof. Júlio Barata, e tendo eu interropido o docente para lhe fazer uma pergunta, diante da amplidão, segundo ele, da mesma pergunta, o Professor Barata me disse diante de toda a turma: “Sílvio, porque é que você segue o curso de Filosofia e não o de Literatura?“ Respondi-lhe, talvez com a presunção de todo o jovem de 22 anos: “Porque literatura eu já sei.” A aparente irresponsabilidade da resposta podia ser amenizada porque eu queria dizer, em verdade, que da literatura eu já me sentia de posse do significado mais amplo, enquanto que tudo me faltava da filosofia.

publicado por Carlos Loures às 20:00

editado por Luis Moreira às 20:32
link | favorito
Domingo, 2 de Janeiro de 2011

A Guerra da Cisplatina


Bandeira da Província Oriental
Carlos Loures

Em dois de Janeiro de 1825, eclodiu a guerra da Cisplatina. Foi um conflito armado entre o e a Províncias Unidas do Rio da Prata, de 1825 a 1828, pela posse da Província Cisplatina, a região do actual Uruguai. A região fora já disputada disputada por Portugal e Espanha desde a fundação pelos portugueses da Colónia do Santíssimo Sacramento em 1680. Foi objecto de tratados territoriais - o Tratado de Madrid, em 1750, o Tratado de Santo Ildefonso ou Tratado dos Limites, em 1777) e o Tratado de Badajoz, em 1801.


Em 1816, tropas portuguesas comandadas pelo general Carlos Frederico Lecor, invadiram o território que, em 1821, foi integrado no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Quando no ano seguinte o Brasil proclamou a independência manteve o território e, acirrados e apoiados pela Argentina, patriotas uruguaios, comandados por Juan Antonio Lavalleja, ergueram-se em armas contra o domínio brasileiro. Os insurrectos uruguaios, em 1825, proclamaram unilateralmente a independência. Em resposta, o Brasil declarou guerra às Províncias Unidas.

A guerra desenvolveu-se em terra e no mar. O Brasil, com um exército e uma armada mais poderosos, embora com uma ou outra derrota, teve vantagem no confronto com os argentinos. Porém, as duas principais potências mundiais da época, a França e a Grã-Bretanha que mediavam o conflito obrigaram ambos os beligerantes a assinar a Paz e a reconhecer o novo estado independente que ostentaria o nome de República Oriental do Uruguai.









.
publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Alberto Santos-Dumont (1873-1932) - 2



Carlos Loures

(Conclusão)



O Brasil nos céus de Paris


Em 4 de Julho de 1898 o balãozinho eleva-se nos ares e, passados alguns meses, atravessa Paris, leve e transparente como uma bola de sabão. Os parisienses assistem surpreendidos e maravilhados ao espectáculo. Santos-Dumont torna-se famoso, tema de todas as conversas. Aquele brasileiro pequeno e franzino, com o seu chapeirão desabado, voa sobre o céu de Paris. O seu chapéu, a sua maneira de vestir, transformam-se em moda e os prémios que ele institui atraem multidões.


É agora altura de passar à fase seguinte: vai combinar um balão com um motor de explosão. Nasce assim o Santos-Dumont nº.1. Em Setembro de 1898 leva o seu balão para o Jardin de l'Acclimatation. O balão eleva-se, mas vai colidir com as árvores do jardim. O inventor não desanima e dias depois tenta novamente. Desta vez, o balão sobe e tudo corre bem, menos a descida: o invólucro está em perigo de ser destruído. A «guide rope» roça já o solo e lembrando-se das brincadeiras com os amigos em Ribeirão Preto, Alberto grita para uns meninos que assistem para que puxem a corda como se quisessem fazer erguer um papagaio. O balão evita no último momento as árvores e vem pousar suavemente. Em 1900, subindo numa praça de Nice, apercebe-se de que as correntes aéreas o estão a arrastar na direcção do mar; solta lastro, tentando ganhar altura e apanhar outra corrente, e larga gás do invólucro para descer. Porém, o balão perde volume, mas não desce, pois foi ido parar ao centro de uma forte corrente ascendente. Sobe a mais de 3000 metros e a corrente dissipa-se, mas entra numa área de tempestade. As árvores parecem correr vertiginosamente e a barquinha bate nos ramos. Por fim, a corda prende-se numa árvore e o balão cai. Projectado para o solo, Alberto desmaia. Outra vez ainda, no norte de França, sobe ao entardecer e depressa se vê perdido no meio de uma tempestade. A noite caiu já e a escuridão só é interrompida pelos relâmpagos. Se algum deles atinge o balão é o fim. Navega toda a noite na escuridão, tansportado a grande velocidade pela força do vento. De madrugada, a tempestade amaina e ele pode pousar. Está na Bélgica.





Finalmente, o sucesso

As aventuras e desventuras do «brasileiro voador» tornam-no numa figura conhecida de Paris. Mas ele não se deixa embriagar pelo sucesso, e vai aperfeiçoando as suas máquinas. O Santos-Dumont nº.2 é maior, tem a forma de um charuto e dispõe de um ventilador de alumínio que mantém inalterável a forma do invólucro. Acaba destruído por ter chocado contra árvores. O nº3 tem uma forma cilíndrica e nele o hidrogénio é substituído por gás de iluminação. É com ele que Santos-Dumont realiza aquela que iria descrever como a sua «mais feliz ascensão». Partindo de Vaugirard rumo ao Campo de Marte consegue um controlo absoluto da aeronave, subindo, descendo, descrevendo curvas... Sente que a vitória está próxima. O Santos-Dumont nº.4 nasce em Saint-Cloud, no hangar e oficina que Alberto ali contruíra. Tem um selim e um guiador de bicicleta. O inventor faz nele diversas ascensões em 1900.


Um grande desafio


Entretanto, constituira-se um Aeroclube em Paris e, numa das suas reuniões, o Sr. Deutsch de la Meurthe, institui um prémio de 100 000 francos a quem for capaz de, dentro dos cinco anos seguintes, partir de Saint-Cloud, dar uma volta completa à Torre Eiffell e voltar ao ponto de partida em menos de 30 minutos. A todos parece impossível tal façanha. A todos não. A quase todos: Santos-Dumont considera a partir de então um ponto de honra ganhar aquele prémio. Porém, os contratempos sucedem-se. Alberto constói o nº. 4, mas este esmaga-se contra as árvores. Outro acidente destrói o nº.5. Mas Alberto não desanima e começa a construir o nº.6. E, a 12 de Outubro de 1901 sobe no nº.6, dá uma volta completa à Torre Eiffel e regressa a Saint-Cloud. Demorou 31 minutos, mais um do que o regulamento do prémio estabelece como limite. Ovações da multidão e hesitações do júri. Finalmente, o prémio é-lhe entregue pois, embora ainda no ar, atravessou a linha de chegada dentro do tempo. Santos-Dumont reparte o valor do prémio com técnicos e auxiliares e o que resta é distribuído por operários desempregados.


O êxito internacional chega por fim. É homenageado em Londres num banquete do Royal Aero Club. O príncipe do Mónaco convida-o a construir um hangar e uma oficina no principado. Eugénia de Montijo, a viúva de Napoleão III visita-o. O governo francês contrata-o para construir o primeiro aeródromo do mundo em Neuillly. O inventor concebe o Santos-Dumont nº.7 e, a seguir, o nº.9 (detesta o número oito e, por isso, salta-o). O nº.9, a Balladeuse, fica famoso. É o meio de transporte pessoal de Santos-Dumont - nele, desloca-se em Paris, visita amigos, vai a almoços e a reuniões... Torna-se familiar nos céus de Paris. Uma vez, os parisienses vêem, preocupados, a aeronave perder altura. Será que vai estatelar-se? Não. Pousa suavemente na rua. Alberto sai, impecavelmente vestido, entra num bar e pede um café. E os modelos sucedem-se, cada vez mais perfeitos. Em 1905 nasce o nº.14. E, logo após, o célebre 14-Bis. O 14-Bis é já um aeroplano, dotado de um motor a gasolina. A princípio eleva-se rebocado pelo nº.14 e daí o seu nome. Depois, Dumont atrela-o a um burro que, fustigado, corre pela pista, até que o aeroplano sobe. Mais uma vez, recorre à sua experiência infantil dos papagaios de papel. Em 1906, ainda no 14-Bis, ganha os prémios do Aeroclube e Archdeacon. É considerado o pai da aviação, embora outros, tais como os americanos irmãos Wright, reivindiquem também essa glória.


A fase dos balões passou. Agora já só constrói aviões. Depois do pioneiro 14-Bis, o Demoiselle, leve e elegante, encanta os parisienses com as suas acobracias e atinge a «inconcebível» velocidade 77 km horários. O exemplo de Santos-Dumont frutifica: em 1909, Blériot atravessa o canal da mancha. Em todos os países civilizados se constroem fábricas, hangares pistas. Estabelecem-se linhas postais e de passageiros. E os militares não dormem...

A morte passa a ter asas


Quando, em 1914, se desencadeia a Primeira Grande Guerra uma nova panóplia de armas vai surgindo: submarinos, gases tóxicos, carros blindados, balas explosivas e aviões. As potências deitam mão de todos os meios de destruição que têm ao alcance das mentes perversas dos dirigentes políticos e militares. Invenções concebidas para fins pacíficos, são convertidas em máquinas de morte. Quando a guerra acaba, há dez milhões de soldados mortos, cidades destruídas, milhões de civis mortos ou sem lar.


Entretanto, Santos-Dumont, devido a doença, é obrigado, desde 1910, a abdicar dos seus voos, sem, no entanto, se desligar da aviação. Assiste horrorizado à transformação do seu invento em mais um recurso do Apocalipse. Lança um apelo às potências beligerantes para que seja proibido o armamento aéreo. Sem qualquer resultado. Sempre que tem conhecimento de um bombardeamento aéreo, de um combate entre aviões ou mesmo de um acidente, cai em depressão profunda. A sua ideia não era esta...


Compra então um terreno em Petrópolis, perto do Rio, e aí constrói uma casa provida de diversas comodidades que antecipam alguns dos electrodomésticos actuais. Chama-lhe Encantada. Aí escreve um livro, O Que Eu Vi, o Que Nós Veremos. Procura dar uma ajuda ao governo brasileiro, dando conselhos sobre a construção de aeroportos, a formação de pilotos e a construção de aviões.


Em 1922 volta a Paris. É convidado para presidir ao banquete de homenagem a Charles Lindbergh que atravessou o Atlântico Norte, mas doença impede-o. Em 1928 volta de novo ao Brasil. Continuam as homenagens: a Legião de Honra francesa, um lugar na Academia Brasileira de Letras (que não ocupa). Indiferente a tudo, Santos-Dumont ignora honrarias e nem sequer regista as patentes das suas múltiplas invenções. A depressão ataca-o cada vez mais. Sente-se responsável por todos os acidentes aéreos, pelo aproveitamento militar do seu esforço científico, por tudo o que de mau a aviação significa. Com menos de sessenta anos é um velho doente e taciturno.




O último papagaio


Desde 1930, seguindo o exemplo da Europa, onde na Alemanha, em Itália, em Portugal, regimes de extrema direita vão tomando o poder, o Brasil é também governado por uma ditadura, o chamado «Estado Novo» de Getúlio Vargas. Em 1931, Santos-Dumont, cada vez mais doente física e psiquicamente, regressa de França e instala-se próximo de São Paulo, rodeado de cuidados pelos familiares. Parece melhorar, faz pequenos passeios, frequenta a Hípica Paulista e o Clube Atlético Paulistano, visita a redacção de O Estado Paulista.



Em 9 de Julho, desencadeia-se um movimento constitucionalista em São Paulo. Diversas forças políticas procuram restabelecer a normalidade democrática sufocada pela ditadura getulista. Santos-Dumont entusiasma-se. Está na praia do Guarujá a convalescer. Redige um manifesto aos mineiros incitando-os a porem-se ao lado dos paulistas. Mas o governo de Getúlio Vargas vai reprimir brutalmente o movimento. Na manhã de 23 Alberto veio até à praia e ajuda um menino a elevar o seu colorido papagaio de papel. Corrigido o peso da cauda, endireitada uma cana da estrutura, o papagaio sobe orgulhoso nos ares. O menino exulta e bate palmas. Dumont sorri ternamente e olha os céus. Nessa altura ouve-se um ruído crescente e na linha de horizonte cresce uma esquadrilha aérea. São aviões federais que vão bombardear um cruzador paulista ancorado em Santos. Brasileiros matam brasileiros servindo-se de uma máquina que ele inventou e foi aperfeiçoando, passo a passo, com tanto amor e ilusão...


Vai para casa e suicida-se nessa noite.

(Excerto da biografia publicada em "Vidas Lusófonas")




________________
publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Alberto Santos-Dumont (1873-1932) - 1

Carlos Loures






Urubu voa? Homem voa?


Nas tardes quentes da fazenda do engenheiro Dumont, em Ribeirão Preto, São Paulo, os meninos brincam. Estamos no princípio dos anos oitenta do século XIX. Na Rússia, o czar Alexandre II foi assassinado, sucedendo-lhe Alexandre III, e Dostoievski escreve Os Irmãos Karamazov. O reino da Sérvia é proclamado e a Itália junta-se à Alemanha e à Áustria na Triplíce Aliança. Wagner compõe o Parsifal, morrendo dois anos depois. Marx morre também. A linotipia é inventada. No Brasil, reina o imperador Pedro II, há ainda feridas e soam os ecos da vitória sobre o Paraguai na última das guerras platinas, os mações e os republicanos conspiram, a abolição da escravatura divide a sociedade brasileira. Já em 1871, a promulgação da Lei do Ventre Livre libertara os filhos de escravos nascidos a partir de então. O caminho-de-ferro vai abrindo novas comunicações, as indústrias surgem pelo país, há conflitos entre o Estado e a Igreja. Tudo isto são coisas que interessam muito ao engenheiro Dumont e aos amigos que aos serões se reúnem na fazenda e discutem estes temas com ar grave, cofiando bigodes, alisando barbas, bebendo um cordial e fumando olorosos charutos. Os jornais de São Paulo todos os dias renovam ou reacendem os assuntos.

Porém, nenhum destes importantes acontecimentos preocupa os meninos que brincam na varanda da fazenda. Estão a jogar ao jogo das prendas. Um deles pergunta: - Voa o gato? Todos gritam: - Não! - Voa o urubu? Levantam os braços: Voa! Voa o carcará? - Voa! - Voa o homem? Todos menos um gritam: - Não! Alberto, um dos filhos do engenheiro, levanta os braços e grita: Voa! Risadas dos irmãos e dos outros meninos. Alberto tem de pagar uma prenda. Ri-se com os outros, mas teima: - Um dia, o homem há-de voar!


O seu mestre Júlio Verne diz-lhe que sim, que o homem voa. Sua irmã Virgínia ensinou-o a ler. Frequenta agora o Colégio, mas todos os tempos livres são passados a devorar as páginas de Cinco Semanas em Balão, de Da Terra à Lua, de Vinte Mil Léguas Submarinas ou daVolta ao Mundo em Oitenta Dias. Phileas Fogg ou o Capitão Nemo são personagens com quem convive no seu dia-a-dia. Nas páginas de Verne, o homem voa já, até mesmo para fora do planeta. Alberto sabe que não faltará muito para que nos céus da realidade o homem voe também.


Na fazenda, Alberto observa as máquinas. As lavadeiras, o descascador, o separador, o ensacador onde o café faz o seu percurso desde a plantação até aos sacos em que seguirá nos vagões do caminho-de-ferro. Vendo as pesadas locomotivas a vapor, conclui que nunca será com máquinas assim que o homem poderá voar. À mente do jovem sonhador acorrem as lendas de Dédalo, Ícaro e Ariel, a história de Olivier de Malmesbury, o monge inglês que, no século XI, construiu um par de asas e com elas se lançou do alto de uma torre, quebrando as pernas, os desenhos de Leonardo da Vinci sobre as estrutura das asas dos pássaros, os músculos que as movem, a função das penas, a tentativa de Bartolomeu de Gusmão que, em 1709, se eleva a 200 pés de altura nos céus de Lisboa, perante a pasmada corte de D. João V, na sua Passarola, ou a «máquina de andar pelos ares», como também lhe chamava, as experiências dos irmãos Montgolfier, a morte de Pilâtre de Rozier ao tentar atravessar a Mancha em balão... Uma das suas brincadeiras favoritas é a de lançar papagaios e de correr, segurando a corda, fazendo-os voar. Nas noites de São João, ele e outros meninos constroem balões de papel. Quando os soltam, fica a vê-los perder-se no céu escuro, uma pequena e luminosa mancha colorida, que o ar quente da mecha faz subir. Em 1888, ano em que a escravatura é abolida no Brasil, visita com a família São Paulo. Numa feira vê, deslumbrado, pela primeira vez um homem voar: um acobrata estrangeiro sobe num balão e lança-se depois em pára-quedas.






Subitamente, Paris


1891. Ao percorrer a fazenda, o engenheiro Dumont dá uma terrível queda do cavalo. Fica com as pernas paralisadas. Vende a propriedade e volta a Paris, à cidade de seu pai e onde estudara e se formara na École Centrale des Arts et Métiers. Alberto vai fazer dezoito anos e Paris deslumbra-o. Com o pai vai visitar a Exposição do Palácio das Indústrias. É aí que, pela primeira vez vê um motor de combustão interna. Irá dizer mais tarde: «Qual não foi o meu espanto quando vi pela primeira vez um motor a petróleo, da força de um cavalo, muito compacto e leve, em comparação aos que eu conhecia... funcionando! Parei diante dele, como que pregado pelo destino». Maravilhas como aquela andam já pelas ruas, dentro dos raros automóveis que circulam. Alberto compra um Peugeot. Regressa ao Brasil e o seu carro, percorrendo São Paulo, é um dos primeiros que chegam ao Brasil. Quando passeia nele, o fumo, o ruído desengonçado do motor, o cheiro do combustível queimado, as buzinadelas, causam sensação - tudo pára para ver passar o automóvel. Porém para o jovem Alberto o automóvel é mais do que uma frivola excentricidade de menino rico. Entende que naquele motor, bem mais leve que o das locomotivas a vapor, poderá estar a solução para o problema que lhe ocupa a mente: a criação de uma máquina que permita finalmente ao homem voar. Pede ao pai que o deixe regressar a França. O velho engenheiro não só anui, como resolve doar dois terços da sua fortuna aos filhos. Vai ainda mais longe: concede a emancipação jurídica a Alberto antes mesmo de ele completar os dezoito anos. Diz-lhe: «- Hoje dei-lhe a liberdade. Aqui está mais este capital. Tenho ainda alguns anos de vida: quero ver como você se porta». E faz-lhe as naturais recomendações de prudência, dando-lhe conselhos sobre a maneira de economizar a fortuna que agora recebe. Não vá ele em algumas horas gastar o rendimento que, bem governado, poderá permitir-lhe viver durante um ano.


Alberto promete ser prudente e poupado.






Uma doença chamada aerite




Quando chega a Paris, com a ajuda dos primos franceses, procura um professor. Encontra-o na pessoa do Sr. Garcia, um «respeitável preceptor de origem espanhola que sabia tudo». Com ele, Alberto estuda durante diversos anos. Nos livros encontra o nome dos franceses que se ocupam de temas aeronáuticos. Recorrendo ao Anuário Bottin, vai-os localizando. Alguns desinteressaram-se da matéria e e outros estão assustados com os custos das investigações ou com os perigos das ascensões. Um deles, porém, mantém-se em actividades e pede-lhe 1000 francos para o levar numa subida, com a condição de Dumont se responsabilizar pelos estragos que o balão provoque ao pousar em terra. É uma condição perigosa, pois Alberto sabe que o balonista derrubou já a chaminé de uma fábrica e, de outra vez, desceu em cima da casa de um camponês, incendiando-a quando o gás do balão entrou em contacto com a chaminé. Lembra-se das recomendações do pai sobre sobriedade e economia. Não faz a ascensão. Sente-se desanimado.


Nos anos seguintes estuda e viaja com frequência. Está atento às novidades e é no Rio de Janeiro que recebe um livro onde o engenheiro Lachambre descreve um balão por si construído. Alberto volta a Paris e procura Lachambre. Este mostra-lhe um pequeno balão que concebeu e pede-lhe 250 francos pela ascensão. Garante-lhe que não há perigo e que o aeronauta, um sobrinho seu, é cuidadoso, pois subiu dezenas de vezes e nunca provocou estragos. Alberto sente-se novamente encorajado. Marca a subida para o dia seguinte.


«Fiquei estupefacto diante do panorama de Paris visto de grande altura; nos arredores, campos cobertos de neve... Era Inverno.»...«Durante toda a viagem acompanhei a viagem do piloto; compreendia perfeitamente a razão de tudo quanto ele fazia. Pareceu-me que nasci mesmo para a aeronáutica. Tudo se me apresentava muito simples e muito fácil; não senti nem vertigem, nem medo.» «E tinha subido!». Como ele diz, sofre de aerite, «doença» que nunca mais o deixará.


Vai agora dividir o seu tempo entre subidas em balão (em 1898 sobe mais de trinta vezes) e as corridas de automóvel em que participa. Substituiu já o seu velho Peugeot por um potente De Dion, o mais rápido da altura: chega a dar a velocidade de 30 km à hora. Encomenda um balão a Lechambre inteiramente desenhado por si: seis metros de diâmetro, invólucro em seda envernizada, capacidade para 113 metros cúbicos de gás, com 14 quilos de peso. A rede que nos balões convencionais chega a pesar 50 quilos, pesa neste menos de dois; a barquinha que, normalmente, pesa 20 quilos, pesa seis... É tão pequeno que cabe numa mala de viagem. Por aqui se vê que se trata de um balão revolucionário.

Dumont baptiza-o: Brasil.


(Continua)

(Excerto da biografia publicada em "Vidas Lusófonas")



___________

publicado por Carlos Loures às 12:00
link | favorito
Sábado, 11 de Dezembro de 2010

VerbArte - Dois poetas brasileiros contemporâneos









Sônia Sales

Nasceu no Rio de Janeiro, mas é paulistana há 27 anos. Poeta, ensaísta, autora de livros de literatura infanto-juvenil. Formação em Psicologia e arte, com cursos de extensão no Exterior. Seus poemas são traduzidos para o castelhano, inglês, chinês e russo.Seus dois últimos livros de poesia: Os dedos da morte (2006) e 50 Poemas escolhidos pelo Autor (2007). De 2010 é a sua biografia de Joaquim Nabuco, O Menino de Massangana. Membro da Academia Carioca de Letras. Eis dois poemas de sua autoria:

No Elevador

Neon com reflexos de estrelas
cristal em céu costurado
de espelhos
um quadrado maior que o Universo.

O elevador parou entre
o quinto e o sexto andares
sem computador, nem ampulhetas.
Num instante,
centenas, milhares de anos.
O espaço cósmico em branco.
Um homem, uma mulher,
como no início do início.


Sonhos Roubados

Cai a máscara.
Sem horizonte, a solidão
é o oráculo nesta cidade que
não mais reconheço.
O sol esboroa-se refletido nas
vidraças empoeiradas.
Tremulam sombras esculpidas
na geometria do concreto.
Homens armados, carros blindados,
guarda- costas atentos.
Cristos em sangue.
O asfalto repleto de tradições
pactuando com a realidade virtual.
As imagens do computador
mostram corações de vidro
e a ferocidade de suas derrotas.
Criaturas sem face clamam por liberdade.
Crianças reclamam
a devolução de seus sonhos.


Waldir Bennati Ribeiro do Val



Nasceu em Ariranha, Estado de São Paulo, a 1º. de abril de 1928. Depois de começados os seus estudos de formação no Estado do Espírito Santo, na cidade de Castelo, os completa no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II. Bacharel em direito, não tendo jamais exercitado a profissão de advogado; doutor e livre-docente de Teoria da Comunicação pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dedicado inteiramente à literatura, além da poesia, da qual o seu último livro é 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2010), destaca-se igualmente no ensaio literario e na biografia, principalmente com os muitos trabalhos dedicados a Raimundo Correia. Editor, é o condutor-proprietário das Edições Galo Branco. Membro da Academia Carioca de Letras. Dele, apresentamos dois poemas.

O Sllêncio de Diana

O silêncio de Diana penetra os vãos da noite
e se precipita sobre todas as coisas.
Ele é mais comoventea
que os gritos dos desesperados,
que o canto do mar sobre os rochedos.

O silêncio de Diana vem das profundezas do tempo
e de horizontes mais e mais distantes.
No silêncio de Diana há a pungência
da mensagem sem destino.

A solidão, a grande solidão que um dia nos encontrará
já está presente no silêncio de Diana,
um silêncio que envolve seu pequeno vulto
e cobre a eternidade.

O Corredor

Mil vezes passo pelo corredor
escuro, como um túnel que vazio
nos conduzisse à vida, à luz, à cor,
ou ao leito abissal de oculto rio.

Pelo vaivém dos passos, meu temor
em métricas medidas avalio;
a penumbra e o silêncio aterrador
ataram-me as algemas. Tênue fio,

como corda de uma harpa abandonada,
pende do teto, desce do aranhol
e vai prender-se ao corrimão da escada.

Sombra e silêncio. O corredor sem fim.
Só no fio de aranha desce o sol
ao túnel tumular que existe em mim...
tags: ,
publicado por Carlos Loures às 08:00
link | favorito
Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Está qua se a chegar ao fim a Cartilha do Ziraldo - página 19

publicado por CRomualdo às 16:00
link | favorito
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Aí vem a Cartilha do Ziraldo - página 18

publicado por CRomualdo às 16:00
link | favorito
Domingo, 28 de Novembro de 2010

Aí temos mais uma página da Cartilha do Ziraldo, a página 16

publicado por CRomualdo às 16:00
link | favorito

Semana da Economia - temos mesmo que ser pobres?

Luis Moreira

A verdade é que a grande maioria dos países é bem menos abastada que nós. Portugal encontra-se entre os 25% dos países mais ricos do mundo. Mais concretamente, em 2000, entre 207 países, Portugal era o 49º mais rico. De facto, se à grande maioria dos povos fosse dada a oportunidade de emigrar para Portugal, milhões de seres humanos viriam bater-nos à porta.

Então porque pertencemos ao grupo dos PIGS da Europa? Porque na Europa há bem melhor do que nós e não há razão nenhuma de não estarmos ao nível deles. A verdade é que ainda temos bolsas de pobreza que nos envergonham, mas globalmente estamos longe de ser um país pobre.

Mas a história ensina-nos coisas muito curiosas. Nunca tivemos um supéravit na balança comercial (diferença entre exportações e importações)isto é, comemos sempre mais do que produzimos. E como equilibramos nós as contas? Primeiro com as especiarias das índias, depois com o ouro do Brasil, mais tarde com as remessas dos emigrantes, a seguir com os fundos vindos da UE e, agora, com os empréstimos que pedimos lá fora, mas que não há mais.

Como sair daqui? É isso que queremos discutir. São as grandes obras que nos safam? Ou é um tecido empresarial moderno e virado para a produção de bens transaccionáveis? É cortar nos vencimentos dos trabalhadores, reduzindo a procura interna? É piorar a vida aos pensionistas?

A dívida não representa o mesmo para países que crescem a 4% ou para outros, como o nosso, que cresce abaixo dos 1%. É nessa (in)capacidade de criar riqueza e de ter excedentes para pagar a dívida, que Portugal representa para os credores um risco e, claro, aproveitam-se disso para nos fazerem pagar altas taxas de juro.

A verdade, é que desde a entrada dos fundos comunitários que temos tido ciclos sucessivos de obras públicas, de dez em dez anos, construímos infraestruturas que não dão o retorno necessário para a economia crescer.Há que mudar de modelo económico, apostar na produção de bens transaccionáveis, fortalecer a exportação e substituir importações. Este modelo exige perseverança, estratégia, é bem mais dificil do que dar à manivela das betoneiras.
publicado por Luis Moreira às 13:30
link | favorito
Sábado, 27 de Novembro de 2010

´Mais uma página da Cartilha do Ziraldo - página 15

publicado por CRomualdo às 16:00
link | favorito
Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

Chegou a Cartilha do Ziraldo - página 14

publicado por CRomualdo às 16:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links