Domingo, 8 de Maio de 2011
E VAI UM... Fotografias da Mente - Diana Krall - Luís Rocha

 

Luís Rocha  Fotografias da Mente - Diana Krall

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

Campo Pequeno/Lisboa (10.10.2009)

Logo que se anunciou a vinda de Diana Krall para um concerto em Lisboa, tomei de imediato a decisão de ver ao vivo uma interprete que, pela harmonia da sua voz com o piano associei, desde o inicio da sua carreira, ao grande Ray Charles.

Comprei o bilhete logo em Março.

 

Chegado o dia do espectáculo aí vou eu munido de binóculos para poder ver, em pormenor, detalhes que só são visíveis e sentidos ao vivo.

Entrei no recinto onde, pela primeira vez, ia a assistir a um espectáculo musical. Procurei o meu lugar e dei comigo sentado na bancada central, com uma plateia que nos separava do palco que se encontrava no lado oposto.

A cadeira era desconfortável e quase não havia espaço para as pernas.

No palco sobressaía, entre os instrumentos que já lá estavam, o piano de cauda preto.

O espectáculo começou com a entrada de Diana Krall e acompanhantes. Trazia um longo vestido preto, ajustado às formas do seu corpo e a condizer com o piano. A pele branca do rosto e braços, bem como os cabelos louros e compridos, realçavam a sua beleza naquele vestido preto.

Recebeu os primeiros aplausos e dirigiu-se para o piano, onde os seus dedos começaram a acariciar as teclas, fazendo sair um som em harmonia com a sua figura e, logo em seguida, com a sua voz.

De imediato me apercebi que aquele recinto não tinha as condições acústicas adequadas, para uma interpretação onde sobressaem a voz e o piano. Senti-me frustrado nas minhas expectativas.

Queria sentir-me em comunhão com a sua voz e os acordes do piano mas, com a qualidade daquele som, não era possível.

Tendo de me sujeitar às más condições acústicas, apurei os sentidos nos pormenores.

Ainda bem que tinha levado os binóculos, pois foi através deles que consegui viver uma parte do que esperava, daquela oportunidade de ver Diana Krall ao vivo.

Foquei a visão sobre a sua figura. Primeiro as expressões do rosto e em particular dos lábios de onde saía aquela voz cuja sonoridade, na minha opinião, parece irmã gémea da sonoridade que os seus dedos vão tirando do piano.

Depois começo a percorrer a imagem do seu corpo, onde sobressai um peito que se adivinha lindo. A seguir aos ombros e braços longos as mãos. Aí foco os dedos e deixo-me ficar um bocado a deliciar-me com a sua movimentação. Parecem bailarinos de ballet, quando tocam apenas com a ponta dos pés no chão.

No caso dos seus dedos estes tocam as teclas do piano, numa carícia de amor e cumplicidade.

Continuei a visualização percorrendo o resto do seu corpo, até chegar aos pés. Aí, um pouco do branco do peito dos pés sobressaía dos sapatos pretos que os envolvia.

Para além dos movimentos de pé nos pedais do piano, o pé direito ia marcando o ritmo com pequenos toques no chão.

A delícia daqueles movimentos, tão naturais e em total harmonia com a sua voz, o som do piano e da volúpia do seu corpo, davam a imagem perfeita do chamado “amor tantrico”.

Aquela visão binocular, isolou-me do meio envolvente e foi como se ela estivesse a tocar só para mim. Senti-me também parte daquela relação “tantrica”.

O espectáculo terminou e, ainda hoje, tenho na mente as imagens que vi e vivi e jamais vou esquecer.

PS: O texto que escrevi é apenas um “flash” da mente e não consegue reflectir a profundidade da imagem que tenho comigo.

Deixo à vossa imaginação o vídeo que junto



publicado por Carlos Loures às 11:00
editado por Augusta Clara em 07/05/2011 às 21:44
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E VAI UM... Canela - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Canela

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Canela está saudosa das mãos que se encontravam simplesmente para dar um passeio. Agora, os tempos são outros, sua mão direita só encontra a esquerda. Em criança. levantava o braço e havia sempre uma mão a indicar um caminho. Mesmo nos passeios conhecidos da sala para o quarto de dormir. Deitada, antes que o sono fosse senhor e dono do seu corpo, uma mão embalava seus dedos pequenos. Mais tarde, eram mãos agitadas que descobriam com as suas o suor de cada passo.

 

- A menina dança?

 

Timidamente, entregava sua mão direita antes que o abraço rodopiasse na sala. Antes do amor, as mãos davam as mãos prometendo uma aventura sem fim.

 

Hoje, Canela tem suas mãos solitárias. Cansada da saudade já tentou matar a memória de um tempo que nem ela sabe se é mesmo verdade.

 

Francisca almoça todos os dias com ela. Ao meio-dia, pontualmente, Francisca beija a face de Canela

 

- Olá mamã, boa tarde. Estás melhor hoje? Podemos almoçar já? Desculpa mas estou atrasada…

 

Canela esboça um sorriso esperado. Francisca de dia para dia se atrasa cada vez mais. Há-de chegar o dia em que Francisca vai telefonar avisando que já não pode vir tal é o atraso. Até lá Canela faz-lhe o almoço da praxe.

 

- Hoje pareces melhor mamã Até já adivinho um sorriso no teu rosto. O que houve? A dona Felícia morreu?

 

Canela volta a sorrir. Francisca fez da ironia sua fiel companheira

 

- Vá lá mamã, conta-me. Eu te conheço e nunca te vi essa cara

 

- Vi na televisão um anúncio de mãos

 

- ?

 

- Francisca, hoje já se vendem mãos lá na cidade

 

- Oh mamã, são próteses. É de uma empresa de próteses esse anúncio.

 

- Mas já há lojas para quem queira comprar. Lojas de rua. Eu vi no anúncio. Até tem uma loja ao pé da casa da Tia Josefa, na rua de São Paulo quase na esquina da Rua Aprazível.

 

- Mamã, mamã… Cada vez percebo menos a tua fraca cabeça. Olha a massa está muito cozida, o ovo está salgado, o feijão tem chouriço e tu estás farta de saber que não como carne! Gaita, até parece que não me queres cá. E eu ameaço ouvir um sermão do meu chefe e tu te distrais sempre! Cada vez mais! Olha vou-me embora. Quando colocares a cabeça no seu devido lugar apareço. Meu Deus, mamã! O que faço contigo?

 

Canela leva as mãos à cabeça numa tentativa frustrada de encaixar o crânio sem deslocar os olhos. Num sorriso, agora patético, desculpa-se da indelicadeza da sua distracção.

 

Com um beijo irritado, Francisca apressa a despedida.

 

Canela levanta a mesa ritmadamente. Com mãos firmes lava a louça, arruma a cozinha, belisca o ovo salgado, o chouriço proibido, em vez de deitar a comida da filha para o lixo.

 

Canela não sabe bem porquê mas está quase feliz. Despe a roupa suada e como sempre prepara-se para a sesta. Todos os dias sempre dias tão parecidos que podia jurar que eram sempre os mesmos de todos os dias.

 

Deitada na cama entrega seu corpo ao descanso. O anúncio da TV visita o desejo. Canela não dorme, mas sonha.

 

- E se eu fosse ver essas mãos? Um arrepio percorre seu corpo ansioso.

 

Apressadamente abre as gavetas de uma cómoda mofada. Sem fôlego procura seu uniforme de enfermeira-chefe.

 

- Será que preciso do chapéu? E do casaco azul? Mas está tanto calor! Mas não me esqueço dos óculos, ah isso não! Se Francisca me visse agora? Falta meu baton vermelho…

 

Canela está pronta! Um ameaço do que foi outrora. Delicadamente, pacientemente atravessa a rua. Acena para um táxi e pede:

 

- Leve-me à Rua de São Paulo na esquina com a Rua Aprazível, por favor.

 

Canela disfarça seu nervosismo sorrindo, falando do tempo, que lhe tem passado ao lado há tantos anos.

 

A cidade fica distante, bem uma hora de caminho - o tempo de uma vida, de um ameaço de morte. O tempo de um coração agora acelerado. No caminho adormece embalada pelos buracos da estrada. Uma mão, nem bonita nem feia, convida Canela. Aponta o mar que contorna o passeio, agitada se esconde do sol, marota dança em cada esquina, Canela sabe agora que está mesmo feliz.

 

- Senhora? Dona? Acorde que chegámos!

 

Envergonhada essa mulher de mãos solitárias desculpa-se mais uma vez da sua distracção. Afinal deixou-se dormir, não impediu o sonho no banco do carro público.

 

Bem em frente, no outro lado da rua uma vitrine repleta de mãos! Amarelas, azuis, cor da pele, com luvas rendadas, outras rugas. Mãos, mãos, mãos!

 

Num passo apressado atravessa a rua. Em frente da loja para. Respira, inspira. Sem sucesso tenta o encontro do eixo. Leva as mãos à cabeça, desloca o pescoço num gesto firme e rápido para a direita e esquerda. Por fim o crânio encaixa, os olhos focam e a face encontra a paz desejada. Abre uma porta elegante num gesto fresco, feliz de quem sempre soube como é bom existir.

 

Pernas, pés, braços e .. Mãos! Uma loja que promete um membro a quem o tem amputado.

 

Canela encontra sem dificuldade o que precisa. Bem no centro de uma enorme sala um cilindro de acrílico expõe mãos. De todos os tipos, para todos os gostos. Se você nasceu para a música e por desgraça teve a mão amputada aqui encontra a mão substituta que trará de novo o som da sua alma.

 

Canela decidida pergunta ao jovem vestido com o logótipo da marca:

 

- Boa tarde procuro uma mão, não importa o tamanho.

 

- Só vendemos com receita.

 

- Não vê que sou enfermeira? Venho de uma urgência hospitalar.

 

- É necessário o tamanho entende? Não podemos vender uma mão de um anão para ser colocada num terminal de um gigante! E depois há os velhos - esses não se adaptam a uma mão de um adolescente. O inverso continua sendo verdadeiro. E as nossas mãos além do mais são articuladas!

 

- Ah, sim? Para quê a compatibilidade se elas já se mexem? Não basta?

 

- Percebo que não está familiarizada. Uma mão de um velho nervoso fará muito mal a um jovem estudante. Todas nossas mãos são feitas de varias memórias. Assim o ritmo varia. É complexo. Isto não é um hipermercado.

 

- Sou enfermeira. Sei do que falo. Tenho aqui a receita. Basta-me uma mão, seja qual for. A única preferência é que saiba dar um bom aperto de mão. O paciente é caloroso. Tinha uma mão que em tudo tocava. Um tacto apurado. Uma vontade de ser..

 

- Vou perguntar ao meu gerente, senhora?

 

- Canela.

 

- Um momento, por favor.

 

O jovem volta as costas, vira à esquerda e se esconde num canto onde a luz deixa de existir. Cansado se agacha e chora baixinho. Miguel já não suporta tantos pedidos sem nexo. Diariamente aparecem dezenas deles ,supostos bombeiros, enfermeiros ou médicos. Ninguém quer ver o catálogo. Ninguém pede uma mão definida. Que epidemia é esta? O gerente não reclama. Sorri sempre e diz:

 

- Faz de conta que percebeste e vende! É para isso que estás aqui!

 

- Mas e a ética?

 

- A nossa, é satisfazer o cliente.

 

- E se as receitas forem falsas?

 

- Não sou polícia Miguel. E que mal há em vender uma mão a quem quiser comprar? És dono da mão alheia?

 

Miguel desistiu de entender. Desde há um tempo que sua mão direita sofre de dormência. Foi perdendo a força lentamente. Nada em casa restitui a alegria que tinha. À noite, quando adormece ,sonha com os membros desmembrados. Miguel quer fugir, queimar todos os catálogos que não explicam que mãos ele deve vender.

 

Mais calmo regressa ao centro da sala.

 

- Senhora Canela...

 

- Diga...

 

- Quer ver o nosso catálogo?

 

- Jovem, preste atenção: a mão que preciso já lhe expliquei. Se é grande ou pequena, jovem ou velha, pele amarela ou negra não me interessa. Basta simplesmente saber dar um aperto de mão...

 

Miguel ainda ameaça um ‘mas’ enquanto Canela lhe sorri carinhosamente. Abre o expositor, tira uma mão de um rosa desmaiado – sem vida.

 

Canela se assusta – que mão era aquela? Com tantas outras coloridas e ele lhe oferece a mão mais morta da loja!

 

Miguel segura então o que deveria ser o cotovelo e num gesto educado cumprimenta Canela.

 

- Muito prazer…

 

Um arrepio percorre o dorso da enfermeira-chefe. A memória de um calor tantas vezes vivido vai acordando os sentidos. Mamilos erectos, a boca alagada, um estremecer esquecido no baixo ventre e de repente um grito:

 

- FICO COM ESTA!

 

- Vou embrulha-la então…

 

- Não, não é preciso eu levo assim mesmo. Vou pagar e já volto. Não fuja daqui Miguel.

 

O jovem cansado sorri e promete que dali não sairá nunca. Os jovens são mesmo dramáticos.

 

Canela volta do caixa ansiosa. Pega na mão que não sabe se é Maria ou João. Discretamente a agarra em sua mão. E de novo a vida volta a ter sentido.

 

De mãos dadas sai da loja. Com a mão esquerda que está livre chama um táxi. Com a direita vive.

 

Perto de chegar a casa pede ao táxi que pare. Está um lindo pôr-do-sol e Canela quer mostrar à mão amiga a paisagem na praia. De mãos dadas passeia na areia, arrojada, mergulha na água salgada - sempre com a mão direita bem apertada à mão companheira.

 

- Hoje é noite de lua cheia, amiga. Vou te mostrar como é bonita a vida longe do expositor.

 

No caminho para casa a enfermeira-chefe joga fora o chapéu. Mais leve despe o casaco. E se tirasse a roupa? Despida do uniforme que pautou sua vida? Não seria isso a liberdade?

 

Canela tem vontade mas não se atreve. Deixa-se estar com a saia branca mofada. Quando chega à casa leva a mão companheira ao peito e pede carinhosamente que a ajude a despir-se. Sem vergonha Canela explica que na sua idade o corpo não tem idade. A mão amiga então abre botão a botão da camisa. Devagar empurra a gola - o busto de Canela descobre-se. Sem cerimonia a mão – sempre agarrada à mão de Canela – acaricia-lhe a nuca. Como se conhecesse a viagem desce aos seios da mulher sem idade. Mamilos erectos, baixo ventre molhado. Canela mulher. Canela a folgar de prazer. Chega a noite e Canela se deita. Na sua mão direita uma mão por companheira. Não interessa se é Maria ou João. Certamente importa que sabe dar um aperto de mão.

 

Canela, minha amiga, me diga o que vai fazer quando a mão sentir a falta do braço para te dar um abraço?

 



publicado por Augusta Clara às 10:00
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E VAI UM... Escrever - António Sales

António Sales Escrever

 

(ilustração de José de Magalhães)

 

Porque escrevo?

 

Não sei da mesma maneira que não sei porque fui sempre um amante da leitura e de jovem comecei a minha biblioteca. Em minha casa não existia um livro. Bom, existia a bíblia, missais de minha mãe, John Chauffeur Russo, Sou Maria, Saber Viver e o Coliseu Infantil. Felizmente ainda conservo todos.

 

Sem grandes delongas direi simplesmente que escrevo porque me apetece. Muitas vezes estou com a caixa craniana avariada e vai disto, ponho-me a escrever. É mais barato que ir ao médico e não tem despesa de farmácia para medicamentos. Dá-me prazer, digo, criar vidas ou tão prosaicamente desabafar comigo mesmo através da escrita que é uma espécie de confissão. Como jamais admiti sequer poder-me confessar ao padre, provavelmente mais por uma questão de fé que de pudor, prefiro confessar-me à escrita, ou seja, a um outro eu que não a mim próprio. Muito embora pareça que escrevemos para nós, isso não é verdade porque fazemo-lo para um outro personagem em abstracto.

 

Escrever é assim uma espécie de loucura de um sujeito criador de universos onde existe sem existir, ama sem amar, sofre sem sofrer, ataca sem matar. Escrever é uma rota que isola mente e espírito transportando-os a um planeta imaginário suficientemente absorvente para eu me isolar do planeta real. Mas também é recordar, registar a vida em que participo com outros colegas interpretes desta gigantesca comédia humana (vai um chavão!) Escrever é um acto de inconfessáveis intimidades e reflexões que normalmente conduzem quem escreve ao desespero de transmitir, através dos olhos críticos da alma, as tristezas do mundo.

 

Quando escrevo salto o meu rio sem ponte para a outra margem. Aí me deixo ficar com um sorriso nos olhos a perscrutarem a pequenez de tudo quanto existe nesta margem onde realmente existo.

 

Nessa outra está o meu sol e a minha lua que iluminam uma ilha de solidão onde me divirto escrevendo.

 

Luís Represas canta Florbela Espanca



publicado por Augusta Clara às 09:00
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E VAI UM... A Vamp - João Machado

João Machado  A Vamp

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Era uma vez, sozinho, numa noite

Escura, cerrada, sem luar

Daquelas em que não há quem se afoite

A sair à rua, nem para ver o mar

 

Na varanda a fumar um cigarro

Cosido à parede, bem abrigado

Ao ver passar, lentamente, um carro

Ao volante uma vamp com ar chateado

 

Pensei que talvez procurasse alguém

Desci a minha escada a correr

E disse-lhe que procurava eu também

 

Deu uma gargalhada e respondeu

Que até preferia já ali morrer

Do que aturar um teso como eu



publicado por Augusta Clara às 08:00
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E VAI UM... O intervalo do teu sonho - Maria Inês Aguiar

 

Maria Inês Aguiar  O intervalo do teu sonho

 

(ilustração de José Magalhães)

 

 Para o Adão, meu amigo

Mais uma estrela se apagou numa noite acontecida e quando a cidade
acordou ...já estavas de partida!

Levaste contigo regras, conceitos,
a morte lenta dos que ao evitarem a morte
convergem em múltiplas vidas submersas num estado de dormência...
Libertaste verdades trancadas em escafandros prateados,
desnudaste mentiras sem sombra do mundo dos santificados

De ti,
deixaste sulcos de ternuras salgadas
a continuação do teu ser em cada ideal que abraçavas
o luar que o sonho promete em brumas de fogo agitado
o desejo anoitecido de um beijo murmurado
o som do silêncio do teu olhar parado
arrastado pela vertigem da entrega...

E, quando a cidade acordou, tu já estavas de partida
 

 



publicado por Augusta Clara às 07:00
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E VAI UM... Que nos resta? Apenas a indignação? - António Gomes Marques

 

António Gomes Marques  Que nos resta? Apenas a indignação?

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

Mão amiga fez-me chegar o pequeno - grande livro (que é apenas uma pequena brochura) de Stéphane Hessel, «INDIGNEZ-VOUS!», de que já existe tradução portuguesa editada pela Objectiva, numa tradução de Paula Centeno e com prefácio de Mário Soares. A edição original, em França, já vendeu mais de 1,3 milhões de exemplares, o que atesta bem o seu grau de receptividade, que incluiu uma entrevista na revista «Philosophie Magazine» do mês de Março em curso.

 

Não fosse o êxito desta sua obra, profundamente ligada ao momento que vivemos, não apenas em Portugal mas também na Europa, e no nosso país poucas pessoas saberiam quem é este velho resistente que, aos 93 anos, reivindica para si o poder de se indignar. Nascido na Alemanha em 1917, emigra com os seus pais para França em 1925, naturalizando-se francês, entra na resistência em 1940 e é deportado para Buchenwald em 1944. No ano seguinte, terminada a guerra, dá início a uma carreira de diplomata, vindo a ser o Secretário da Comissão dos Direitos do Homem que, em 1948, redige a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que hoje todos invocam mas poucos respeitam, terminando a sua carreira diplomática como Embaixador de França. Três anos depois da publicação da sua autobiografia, «Danse avec le siècle», editada pela Seuil em 1997, mostra a sua indignação na referida obra, também já traduzida em inglês (nos EUA e na Grã-Bretanha), em italiano, em grego e não sei se noutras línguas.

 

No prefácio à edição portuguesa, escreve Mário Soares que o êxito de «INDIGNEZ-VOUS!» é «um grito de alarme aos cidadãos – não às armas nem à violência – para que expressem a sua indignação, como é seu direito inalienável, em Democracia. Para que no momento próprio usem, em consciência, a arma do voto de modo a alterar, pacificamente, a feia e intolerável realidade presente. Por outras palavras: trata-se de um pequeno livro que faz um apelo claro à cidadania activa, antes que a revolta dos espíritos dê lugar a tumultos de rua, incontroláveis e destrutivos, como tem recentemente sucedido em alguns Estados da Europa, …». Compreendo a preocupação de Mário Soares, que partilho, lembrando, a propósito, o que se vem passando desde o ano passado na Islândia, um país europeu, em que a cidadania dos islandeses se vem impondo ao neo-liberalismo, ao capital financeiro, que os levou à ruína. Desta revolução pacífica, que por ser pacífica mais perigosa se torna para os neo-liberais que nos governam, de que não excluo o ainda governo de José Sócrates (não é por acaso que não escrevo governo socialista), nada nos é referido na imprensa portuguesa, sempre tão pronta a falar de Cuba e da Venezuela, de que não sou um apoiante incondicional, mas por razões que também não agradariam à União Europeia que nos governa. Em Portugal, como na União Europeia, a solução para os problemas que vivemos passam pelo sacrifício dos que nada têm e dos que vivem do seu trabalho por conta de outrem, o que nada tem a ver com a verdade.

 

Tudo isto me remete para a obra de Cornelius Castoriadis, «O Mundo Fragmentado», publicada pela Campo da Comunicação no nosso país em Dezembro de 2003 mas que em França data de Dezembro de 1989, quando ele afirma (pág.11): «As possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias continuam confinadas a um grupo estreito de jovens especialistas “inteligentes”. A natureza do trabalho não mudou para a massa dos outros assalariados, quer se trate da indústria ou dos serviços. Antes pelo contrário: a “industrialização” à antiga invadiu as grandes empresas dos sectores não industriais, onde o ritmo de trabalho e os índices de rendimento continuam submetidos a um controlo mecânico e impessoal. O emprego na indústria propriamente dita está em declínio desde há decénios; os operários “redundantes”(…) e os jovens só conseguem encontrar emprego nas indústrias dos “serviços” de segunda classe, de baixos salários.» Na verdade, agora em Portugal, nem no sector de serviços os jovens licenciados conseguem emprego, vítimas também dos interesses das Universidades particulares em criarem cursos sem qualquer correspondência com as necessidades do mercado de trabalho e a que os vários Governos não souberam opor-se. (Ou será que não tiveram poder para se oporem?) Quanto ao mercado de emprego, há uma outra realidade que nunca será referida em excesso: os milhares de empregos não qualificados que se vão perdendo nunca serão compensados, em número, pelos empregos que exigem outras qualificações, nem estes desempregados, até pela idade, estão em condições de também se habilitarem a esses empregos com outras exigências de formação.

 

Stéphane Hessel, no pequeno livro, invoca o conjunto de princípios e valores propostos pelo Conselho Nacional de Resistência para a França libertada, escrevendo de seguida:

«Hoje mais do que nunca, precisamos desses princípios e desses valores. Cabe-nos a todos em conjunto zelar para que a nossa sociedade se mantenha uma sociedade da qual nos orgulhemos: não essa sociedade dos imigrantes ilegais, das expulsões, da desconfiança em relação aos imigrantes, não essa sociedade na qual se põem em causa as reformas, os direitos adquiridos da Segurança Social, não essa sociedade na qual os media estão nas mãos dos poderosos, coisas que teríamos recusado aprovar se fôssemos herdeiros genuínos do Conselho Nacional da Resistência.»

 

Tendo em conta esta transcrição, logo penso que também nós, portugueses, temos aprovado coisas e escolhido governantes, sobretudo a partir dos Governos Cavaco Silva, que não nos afirmam como verdadeiros herdeiros do 25 de Abril. Como consequência destas más escolhas, aí temos uma profunda crise de que há ainda muito boa gente a não ter consciência, a começar pelas forças políticas com representação parlamentar.

 

Há quem apresente como solução um Governo PS/PSD/CDS, ou seja, põe-se já de lado uma parte significativa dos portugueses quando só uma verdadeira unidade nacional de todos os portugueses tornará possível a superação dos problemas. Por outro lado, apontam-se caminhos que mais não são do que a repetição dos mesmos erros, como os artigos de Henri Sterdyniak e dos Economistas Aterrados, publicados no blogue graças ao trabalho do Júlio Marques Mota, bem demonstram. A juntar a estes textos, cito o artigo «A crise portuguesa e a política de austeridade», de Paul Krugman, publicado no Jornal i, no passado dia 26 de Março, nomeadamente quando diz: «Cortar no défice com desemprego alto é um erro. Mas se os investidores desconfiam que estão perante uma república das bananas em que os políticos não enfrentam os problemas estruturais, deixam de comprar dívida e o défice dispara com os juros.

O governo de Portugal caiu a pretexto de uma disputa relacionada com o programa de austeridade. Os juros da dívida pública irlandesa acabam de ultrapassar os 10% pela primeira vez. Já o governo do Reino Unido reviu em baixa as perspectivas económicas e em alta as previsões do défice.

Que têm em comum todos estes acontecimentos? Todos são provas de que a redução da despesa em períodos de desemprego elevado é um erro. Os defensores da austeridade prevêem que esta produza dividendos rápidos sob a forma de aumento da confiança económica, com poucos ou nenhuns efeitos negativos sobre o crescimento e o emprego; o problema é que não têm razão.»

 

A transcrição foi longa, mas torna claro o problema que vivemos. Mas problema é também a necessidade de pagar a dívida e atrevo-me a dizer, mesmo não sendo economista, que não haverá outra solução, tendo em conta todos os erros que vêm sendo cometidos por todos os governos portugueses, a começar nos de Cavaco Silva, a não ser aprovar mais um PEC, provavelmente mais gravoso do que seria o PEC IV.

 

A crise política, que agradará a José Sócrates e a Passos Coelho, vai levar-nos a eleições antecipadas, cujo resultado não trará, o mais provavelmente, qualquer governo maioritário e a construção de um governo com os três citados partidos não será viável com José Sócrates, não me parecendo que Cavaco Silva tenha condições para o impor, o que me leva a reforçar uma ideia que venho mantendo: Cavaco Silva era o menos interessado em ter agora esta crise política, a qual não lhe deu tempo para ver substituído Passos Coelho como Presidente do PSD. Como também não agradou ao «patrão» do país, Ricardo Salgado, cujas críticas devem estar a tirar o sono a Passos Coelho.

 

Mas, venha o governo que vier, iremos ter mais do mesmo, com Portugal a definhar e a ser governado de Bruxelas.

 

Sinto-me europeu, mas a minha esperança na União Europeia é cada vez menor. Talvez seja o momento de pensarmos seriamente nas potencialidades da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem também nos seus objectivos a «promoção do desenvolvimento» e a «promoção da cooperação mutuamente vantajosa».

 

Tudo isto que fica dito me remete para a obra «Como O Estado Gasta O Nosso Dinheiro» (Editora Caderno), de que foi autor o primeiro juiz português a integrar o Tribunal de Contas Europeu e que terminou a sua carreira como Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas de Portugal, Carlos Moreno de seu nome, obra esta que me leva a perguntar ao futuro governo português, só a título de exemplo, se:

  • estará disposto a repensar sobre a necessidade das 14.000 empresas que se sentam à mesa do Orçamento de Estado?
  • estará disposto a repensar sobre a necessidade de «mais de 900 fundações e associações e mais de 1.000 empresas estatais e locais», que comem do mesmo Orçamento?
  • estará disposto a acabar com o regabofe que «Só em remunerações do pessoal dos gabinetes ministeriais (adjuntos, consultores, secretárias, motoristas, etc.) o orçamento prevê para 2010 mais de 49 milhões de euros»?

 

Fico-me por estas perguntas, também na esperança de que, com elas, tenha aguçado o apetite do leitor pelo citado livro do Juiz Jubilado do Tribunal de Contas Carlos Moreno, assim como pela pequena - grande obra de Stéphane Hessel.

 

A terminar, não resisto a mais uma citação, desta vez de um texto, «Exclusão: inclusão ou explosão?», que me foi enviado pelo autor, José de Almeida Serra, antes da sua publicação, que, referindo-se às medidas tomadas para contenção do défice, termina assim: «Com certeza que com estas medidas o (péssimo) panorama que acima ficou descrito vira substantivamente agravado. E, sendo evidentemente de combater, de forma rigorosa e determinada, algumas situações de abuso, que as há, pergunta-se: até quando poderá esta sociedade “aguentar”? Exclusão deve rimar com inclusão, mas pode rimar também com explosão.»

 

Tudo isto me remete para o título deste texto, deixando a pergunta: será que os portugueses se vão manter apenas pela indignação?

 

Portela (de Sacavém), 2011-03-31



publicado por Augusta Clara às 06:00
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E VAI UM... Sonhos - Augusta Clara

 

Augusta Clara  Sonhos

 

(ilustração de José de Magalhães)

 

 

 

E os sonhos que nós sonhamos quando já não estamos a dormir?! Naquela fronteira em que tudo é, ainda, possível.

Insistimos, insistimos e eles continuam. Como os meninos que queriam que os deixassem continuar a acreditar no Pai Natal. Já nem sabemos se temos os olhos fechados ou abertos. Têm um narrador e tudo se desenrola a contento. E, quando não, a história começa a encravar. Repete uma frase, repete, repete, como um velho disco riscado. Damos-lhe um empurrão, ao narrador ou à história? Retoma-se o fio…na parte em que se era feliz. Tudo se recompõe e a felicidade é tão fácil!

E o narrador sabe tudo, de nós, dos outros e do que lhes vai na mente, do nosso destino, do que estava para ser mau mas vai ser bom, de todos os enredos que fazem a delícia de uma boa história. Pode endireitar tudo este narrador dos nos sonhos semi-acordados. É o amola tesouras da nossa alma. Raia o sol e ele toca aquela gaita como as canas dos índios e chama-nos para o sonho a construir. O tempo é muito pouco, temos que o aproveitar bem.

Até que a névoa se rasga. Todas as manhãs. Que crueldade!

E era tudo possível. Mas já não é outra vez.

Que mecanismo me faz isto? Que maquiavélico mestre desenrola a cena toda, me torna feliz, enrola o tapete, cerra o pano, fecha as luzes, acende o dia? Leva-me os actores?

Para que quero eu o dia?

Se eu fosse poeta, era muito fácil contar-te este sonho porque a poesia é o sonho escrito. Tudo faz sentido. E tu mo explicarias.

Um dia vou sonhar que o sonho é verdadeiro e vou acordar de repente. Apanho-o pelos calcanhares. E, então, talvez, tu fiques mesmo comigo.

 

Maria Bethânia canta Vinicius de Moraes



publicado por Augusta Clara às 05:00
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E VAI UM... Socorro, a besta é insaciável - Pedro Godinho

 

(ilustração de Adão Cruz) 

 

 

Desde que surgiu, o Estrolabio publicou mais de 5 mil entradas, teve mais de 85 mil visitas e mais de 250 mil visionamentos de páginas.

E continua... insaciável.

 

Pedro Godinho (8/5/2011)

 

 

 




Primeiro mês, mais de 300 estrolabiadas.

A grande maioria escrita pelos outros, felizmente.

Mas o Carlos a insistir no fornecimento de mais peças:

- Obrigado, manda mais…

Lembrando que a criatura ganhou vida e, agora, é preciso alimentá-la. Insaciável, quer sempre mais.

E o Carlos, criador, persiste:

- Obrigado, manda mais…

Nascituro e faldreira, a criatura insinua-se e entranha-se no dia-a-dia a querer ocupar tanto espaço quanto encontrar disponível.

- Obrigado, manda mais…

Parafraseando o outro, esta vida de blogueiro está a dar cabo de mim, trá lá lá lá lá lá lá.

Por camaradagem e curiosidade (a tal que matou o gato), sinto-me impelido a ler tudo o que o Estrolabio publica.

Para ler as oitadas tenho de me levantar cedo, banhar, vestir e pequeno-almoçar, tudo antes da hora. Leitura da primeira estrolabiada do dia e ala para o trabalho que se faz tarde.

Sem me poder deitar antes do meio-da-noite, à espera da publicação jornaleira da antologia dos contos da meia-noite.

Sete horas de sono são suficientes, dir-me-ão vocês, não tenho razão de queixa.

Assim seria, se não tivesse também que ler o que foi saindo durante o dia. E pensar no próximo escrito, e escrevê-lo.

E enviada a última produção receber na volta do correio electrónico:

- Obrigado, manda mais…

Já não tenho um momento tranquilo nem durmo descansado; sonho com possíveis temas e textos e recrimino-me por a produção não estar à altura da encomenda.

Procuro nas gavetas, nos cadernos, escritos antigos, algo que possa resgatar e, recauchutado ou não, enviar para alimentar e acalmar a criatura por mais algum tempo.

E recebo de resposta:

- Obrigado, manda mais…

Lavo os dentes e penso: talvez um texto sobre a cárie da classe política e a necessidade de não descurar a higiene…

Sento-me a comer e penso: talvez uma nota sobre a fome e o desemprego e o que fazer para os combater…

Neo-realista, naturalista, modernista, existencialista, surrealista, qualquerista, já estou por tudo, o que é preciso é dar-lhe matéria:

- Obrigado, manda mais…

Por mais ridícula que uma ideia seja penso se não servirá para uma estrolabiada. O meu reino por um texto.

E deito mãos à obra que não há tempo a perder e o capataz encarregue de zelar pela criatura não nos dá descanso.

- Obrigado, manda mais…

Este é mais uma fuga para a frente, um pretenso ardil para enganar a besta e a sua voracidade, mas creio que será em vão e que estou condenado, mais uma vez, a “tomar o sol a toda a hora”:

- Obrigado, manda mais…

.



publicado por Augusta Clara às 04:00
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E VAI UM... In Spiritu - Carlos Durão

 

Carlos Durão  In Spiritu

 

(ilustração de José de Magalhães)

 

 

 

 

Contemplo, de longe,
no escuro, sem ver,
com olhos, dormidos,
para comprender.

Espírito amigo,
permite-me estar
contigo, um instante,
por cima do mar.

Tu és como eu,
caminhas num sulco,
à beira do meu,
e buscas o mesmo:
Ensejo de amar.

Desejo-te sorte
no teu caminhar,
ao fim estaremos
juntinhos... na morte.

 

Amália Rodrigues canta Luís de Camões 



publicado por Augusta Clara às 03:00
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E VAI UM... Criança, uma obra em aberto - Clara Castilho

 

Clara Castilho  Criança, uma obra em aberto - Abuso sexual

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

Linhas orientadoras para actuação em casos de indícios de abuso sexual de crianças e jovens

 

Em cerimónia na Casa Pia de Lisboa, foi lançado no dia 14 de Julho de 2010 este livro, distribuído a técnicos que trabalham nestas áreas e resultante do trabalho de vários anos de uma larga equipa multidisciplinar, sob a orientação de Tilman Furniss.

 

Esperemos que possa contribuir para que, atempadamente, se possam evitar situações dramáticas como as que ocorreram há anos.

 

No entanto, é preciso não esquecer que a maioria dos abusos sexuais ocorre dentro de portas, dentro da própria família ou vindos de pessoas que com ela se relacionam muito proximamente !!!

 

Tilman Furniss (professor da Universidade Muster, Alemanha, e Tavistock Clinic, de Londres) tem-se deslocado a Portugal desde há, pelo menos, 10 anos, para levar a cabo acções de formação de 4 dias, duas vezes ao ano. Estou certa que da sua vasta experiência alguma coisa ficou e que estaremos mais atentos aos indícios que poderão apontar para a ocorrência de abusos sexuais.

 

Tudo isto me faz lembrar o menino L., de 8 anos na altura, que segui em apoio psicoterapêutico. Da mãe não se sabia, o pai estava em cura de desintoxicação, uma tia recebia-o ocasionalmente aos fins de semana. L. parecia viver num mundo da lua, as aprendizagens escolares nada lhe diziam. Fazia uns desenhos bonitos e pormenorizados e com bom sentido estético.

 

A certa altura do apoio dado na minha instituição, começámos a juntar vários indicadores e acabámos por suspeitar de um abuso sexual. Feita a denúncia, tal foi confirmado. No apoio comigo, o L. não era capaz de falar do assunto. Não me olhava nos olhos, escondia-se debaixo da camilha da mesa que tenho na minha sala, e aí montava brincadeiras em que havia meninos abandonados e perseguidos. Eu ia falando com ele, inventando novas personagens reparadoras que davam um rumo diferente às suas histórias.

 

O tempo foi passando, fomos a tribunal. Nessa altura tive que falar com ele sobre o que lá ia fazer. O que podemos dizer a uma criança a quem lhe aconteceu tal coisa, que teve que sofrer operações cirúrgicas para que o seu organismo pudesse recuperar e ficar mais equilibrado? Como lhe podemos prometer que o “mau” vai ser castigado?

 

Vai alguma vez esquecer? O que vai fazer da sua revolta ?

 

Os anos passaram. L. procura-me regularmente, aí de 2 em 2 meses, sempre sem avisar. Continua na instituição, pois não se verificaram condições para que alguém da família ficasse com ele. Fala de alguns projectos relacionados com os estudos e da futura profissão. Não é capaz de falar de emoções. Mas a sua ida lá corresponde a uma necessidade de um afecto, de um calor humano, de um mimo. Quer sempre lanchar. Como se encher o estômago fosse encher a alma. Sinto que está tudo antes das palavras, da capacidade de dar nome às coisas. Sei que fui importante na sua vida, terei funcionado como “tutora de resiliência” (Cyrulnuk).

 

Na semana passada veio com um colega, estava eu mesmo a sair. Peguei neles e fomos lanchar à beira rio. Riram-se imenso, encabulados, estranhando a minha companhia. Devoraram dois bolos e uma coca-cola cada um. Tentei conversar de coisas do dia-a-dia, férias à porta (mas que férias as deles?), telemóveis, professores chatos, sei lá! E partiram, pareciam satisfeitos. E eu também, apesar de ter faltado a um compromisso. Mas este compromisso que tenho para com o L. está acima de tudo, nunca vai desaparecer.

 

Carlos do Carmo canta Ary dos Santos

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 02:00
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E VAI UM... Leão que tenho dentro - Fernando Correia da Silva e Carta ao Presidente da República - Júlio Marques Mota

 

Fernando Correia da Silva  Leão que tenho dentro

 

(ilustração de José de Magalhães)

 

       
 
        Retirantes da zona temperada,
        procurámos um sol mais africano
        que desse, em cada tarde, perfumada, 
        a safra que é normal em cada ano.
        Preciso viajar o corpo teu,
        dobrar-te em curvaturas de felino,
        alumiar o anjo que mordeu
        o nosso corpo a corpo em desatino.
        Leão, que tenho dentro, sai da jaula,
        e a pata vai pousar em teu regaço.
        Selvagem o amor em que te faço
        aluna a revidar a minha aula.
        Desnudas as lições que assim consomem
        corpos opostos de mulher e homem.

 

 
 

 
Júlio Marques Mota  Carta ao Presidente da República
 

 

 

Coimbra, 15 de Dezembro de 2010

 

 

Ex.mo Senhor Presidente da República

 

Com conhecimento: ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e aos líderes parlamentares.

 

Senhor Presidente, tomo a liberdade de lhe escrever esta carta porque, enquanto professor e cidadão, estou altamente preocupado com a erosão do tecido social em Portugal, e na Europa também, fruto não só da terrível situação de crise dita financeira pela qual estamos a passar e que é, sobretudo, o resultado do modelo económico, social e político que lhe está subjacente e preocupado igualmente estou, e muito, com a situação de crise que atravessa a Universidade em Portugal, fruto sobretudo de políticas anteriormente seguidas, fruto sobretudo da reforma de Bolonha, fruto portanto do mesmo modelo de referência que nos levou à situação actual. Uma Universidade em profunda crise e tão grande, na minha opinião, que não posso deixar de colocar aqui e de deixar à sua apreciação as razões do meu descontentamento.

 

Senhor Presidente, a crise da dívida soberana portuguesa amainou, o espectáculo oferecido pelos políticos dos dois maiores partidos, esse transitoriamente ao mesmo nível ficou, nos grandes bancos o nosso dinheiro, esse se embolsou, e o povo, esse continua a não perceber o que ninguém nunca lhe explicou: porque está a sofrer cada vez mais, a pagar cada vez mais e a dever cada mais e em nome de quê ou porquê? Que terá ele feito de mal para sofrer esta violência, agora? Num mundo e numa sociedade onde impere a honestidade, a justiça, a transparência, numa sociedade de profunda raiz democrática portanto, cada um deve ser responsável pelos seus erros e deve saber assumi-los; mas então que alguém lhes diga, a eles e a nós também, senhor Presidente, quais os erros que cada trabalhador desempregado neste sistema cometeu para que agora se deva sentir penalizado, quais os erros que levam a que cada criança com fome nele e dele se possa sentir culpada, quais os erros que cada velho que passou a vida a trabalhar duramente deles se possa sentir responsável para que veja os seus direitos de há muito tempo adquiridos agora fortemente anulados? Que haja alguém que lhes explique, pelo menos a eles, aos desempregados, às crianças com fome e com pobreza garantida como futuro, aos velhos que do passado foram bem enganados, para onde foram os vários milhares de milhões de euros que do bolso de cada um deles e de todos eles foram retirados para no BPN serem aplicados sem que nada tenha sido tocado na Sociedade Lusa de Negócios nem em ninguém que deles muito antes os delapidou e então, aqui, foi a favor de quem? Ninguém, nunca ninguém lhes disse nada, senhor Presidente, e todos nós lamentamos que assim tenha sido.

 

Um economista moderado, Thomas Piketty, a lembrar um outro intelectual importante dos tempos de Marx, Proudhon, num recente artigo sobre o salvamento da Irlanda, sobre o resgate dos bancos irlandeses, chama a tudo isto um nome. Passo a citar: “Digamo-lo claramente. Deixar que países que se enriqueceram graças ao comércio intra-europeu absorvam em seguida a base fiscal dos seus vizinhos, isto não tem rigorosamente nada a ver com os princípios da economia de mercado ou com o liberalismo. Isto só tem um nome e chama-se: roubo. E ir emprestar dinheiro às pessoas que nos roubaram, sem nada exigir em troca para que isso não se reproduza, a isto chama-se estupidez”.

 



publicado por Augusta Clara às 01:00
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E VAI UM... A memória do novelo de Penélope - Paulo Rato

 

 Paulo Rato  A memória do novelo de Penélope

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

O pintor tece forma e cor em seu tear interior. A tela ─ com sua tessitura ─ espera, nua. E interpela. O pintor constrói o gesto que em si germina, lança o traço, a mancha, o rasto que a mão recolhe do que lhe viajou o corpo ─ cada poro, fibra, veia, osso. A tela vibra, teme ─ ou deseja? ─ a fortuita irrupção das nocturnas mãos daquela mulher de Ítaca, não nela, mas na trama do pintor, suspenso em seu desígnio. Sabe (a tela) que Odisseus decidirá o derradeiro laço. Conhece o arco, o sangue, o sémen. O selo.

 

De novo a tela espera, com seu vestido, inteiro. Um outro olhar, não já o do pintor, a desvela. Nela verá três mulheres ─ três anjos de sexo azul? ─ e vermelhos vestígios ─ de sangue ou anseio? ─ e véus velas asas voos. É este olhar, alheio, que agora a interpela. E parte, por ela, em busca

 

da memória do novelo de Penélope.

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 00:10
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E VAI UM... O Estrolabio faz hoje um ano

Estamos de Parabéns

 

 

 

Somos muito bons a português e noutras artes mas, em matemática, só vamos na tabuada.

 

Ainda somos crianças. Porém, o nosso trabalho já se vê e trabalho de menino pode ser pouco mas quem o perde é louco. Por isso, no dia do nosso primeiro aniversário, vamos apresentar uma amostra da participação dos estrolabianos ao longo do ano que passou.

 

E, como o tempo está bom, viemos festejar no jardim.

 

Nem precisamos porque temos um estrolabio.

 



publicado por Augusta Clara às 00:00
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2011
Vencidos, quem? - Augusta Clara

(em diálogo com a Carla a propósito do artigo dela sobre a morte de Bin Laden)

 

A minha primeira sensação de perplexidade perante o texto da Carla deu-ma o título – “Vencidos”. De imediato se formou na minha cabeça a interrogação: “Vencidos, quem? A quem se referirá ela?” O título não me deu a entender uma sensação de glória vencedora – nem isso dela esperaria, um apoio à vanglória de matar dos EUA, sempre em nome da libertação duma suposta ou verdadeira tirania, mesmo quando esse direito de ingerência não é coisa que se defenda.  Mas, também, nele não intuí qualquer espécie de compungimento perante a vítima, Bin Laden, neste caso.

 

Por isso, antes dos meus olhos terem começado a descer pela página, a minha perplexidade manteve-se, conhecendo eu como conheço as suas posições políticas, a sua inteligência e o modo agudo como consegue apreender aquilo que é mais humano dentro de nós e que tão bem sabe passar ao papel.

 

Depois, li-a a falar da Ilíada sobre a honra no campo de batalha, o respeito pelo adversário, pelo vencido. E, aí, percebi. Percebi o que queria dizer e não posso estar mais de acordo com ela: seja qual for o vencido, há que dar-lhe a dignidade final que ele, muitas vezes, não deu a outros que, por sua vez derrotou.

 

Mas essa digna postura dos adversários na Guerra de Tróia terá existido mesmo ou só estava na cabeça de Homero? Bom, mesmo que tudo assim se tenha passado, nas de hoje certamente que não se passa

 

Os seres humanos evoluíram muito cientificamente. Criaram toda a parafernália de equipamentos de morte, a maior parte dos quais não lhes permite sequer verem-se para se destruírem mutuamente, julgando, assim, terem evoluído para um estadio superior… Só isto daria todo um outro debate sobre a ciência e a responsabilidade dos cientistas que ficará para outra altura.

 

Mas, voltando ao texto da Carla, a palavra “vencidos” continuava às voltas na minha cabeça. Quem são os vencidos? Claro está que a questão que não conseguia resolver não se referia a seres humanos enquanto indivíduos. Esses são vencidos em cada hora, em cada minuto, em cada segundo, por todo o mundo e com uma crueldade em nada diferente da que este acto militar usou.

 

Por isso, a minha atormentada pergunta só podia ter a ver com vencidos políticos.

 

Porque não é preciso ser-se de esquerda para se sentir uma tremenda revolta ao assistir a actos de guerra desta natureza sem a menor preocupação com os que vivem junto do alvo visado, crianças ou não. É só preciso ser-se sensível, o que já não vai sendo pouco nos tempos que correm. E, infelizmente, a nossa sensibilidade, pouco conta para a erradicação do mal humano. Temos que nos socorrer daquilo a que se convencionou chamar política. É, pois, aqui que ser de direita ou de esquerda tem que fazer a diferença.

 

Mas o problema destes vencidos, os vencidos políticos, é mais complicado e por isso a palavra da Carla deu tantas voltas na minha cabeça.

 

Esqueçamos, agora, os EUA, porque todos nós, os que somos de esquerda, mesmo com as nossas divergências, temos, quanto à ambição de expansão imperial que continuam a manifestar, e quanto às configurações que ela assume, uma convergência de opiniões. Eu, pelo menos, acredito nisso.

 

A questão dos vencidos, suscitada pelo assassinato de Bin Laden, refere-se, no meu espírito, à questão do mundo muçulmano porque essa é uma das grandes, das maiores reflexões que temos que fazer se queremos entender o mundo onde vivemos e se tivermos vontade de actuar sobre ele. E a maior parte do mundo muçulmano, mesmo considerando as suas eventuais ideias de expansão, não tem nada a ver com as formas de actuar da AlQaeda.

Os povos muçulmanos não se sentem vencidos. Atacados sim, revoltados, muito, mas acabámos de ver como continuam combativos perante os poderes que os oprimem nos vários países. A sua História não parou. Sofre, apenas, os avanços e recuos da História de todos os povos e de todos os tempos.

 

Mas aqui não incluo os fanatismos que só têm a ver com os recuos, nunca com os avanços.

 

Humanamente, a não ser em quantidade, tanto me aflige ver os tais “efeitos colaterais” dos bombardeamentos das grandes potências, como convencer jovens a fazerem explodir-se ou mulheres a serem desfiguradas com ácido, etc., etc.

 

Claro que Bin Laden e a família foram vencidos humanamente. Claro que me horroriza ver crianças aos bocados. É evidente que a guerra do Iraque, o enforcamento de Sadam Hossein, a Guerra de Gaza, tudo isso me horroriza, como me horrorizou ver vídeos em que pessoas foram decapitadas como carneiros no matadouro, por muito malvados, muito agentes da CIA que fossem. Humanamente é tudo, igualmente, horrível.

 

Ninguém que seja capaz de praticar actos desta natureza, dum lado ou do outro, pode aspirar a ser construtor duma sociedade nova, livre da canga do mal que tem assolado a humanidade.

 

Por isso mantive o silêncio. Porque ou falamos e denunciamos, todos os dias, todas as mortes e atrocidades de que temos conhecimento, ou não vale a pena só falar nas que foram praticadas com mais espectacularidade.

 

E, como isso é impraticável, em termos de saúde mental, só nos resta a luta política.

 

Daí o meu silêncio. Daí aquela palavra – vencidos – ter andado às voltas na minha cabeça. E, ainda, andar.     

 

 

 

                                         



publicado por Augusta Clara às 16:00
editado por Luis Moreira às 19:21
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Rotina - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Rotina

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.

 
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
 
- Aconteceu alguma coisa?
 
- Não - responde-me, sorridente.
 
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
 
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
 
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
 
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
 
- Queres jantar fora, amor?
 
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
 
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
 
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
 
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
 
- O que falta agora?
 
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
 
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.



publicado por Augusta Clara às 19:00
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