Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Egipto e o medo do integrismo islâmico. - por Carlos Mesquita

Após a contestação popular na Tunísia, que derrubou o chefe do Estado Ben Ali, uma onda de revolta atravessa o mundo islâmico. Cada país é um caso, mas a estabilidade regional tal como era anunciada está em risco.

 

Em nome dos equilíbrios regionais estes povos têm sido governados por ditaduras, com a aprovação ou o fechar de olhos cúmplice do “ocidente”.

 

O receio de governos islâmicos radicais, que pusessem em perigo a segurança de Israel, tem levado as democracias ocidentais a apoiarem governos que condenam os seus povos à repressão e a uma existência sem as básicas liberdades cívicas, e chamam a isso ocidentalização – como se em algum país do ocidente, os seus povos ou a comunidade internacional admitissem um tipo de governo semelhante. O que tem sido exportado para o Magreb e Médio Oriente não é nenhuma forma de democracia ocidental, é o direito do exercício da ditadura repressiva sobre o conjunto dos seus povos, com a justificação de estarem a impedir o caos do integrismo islâmico.

 

As pátrias dos direitos humanos e do progresso civilizacional, o nosso ocidente que quer ser exemplo de paz concórdia e democracia, nem reagiu ao assassinato da oposição argelina, suportou Saddam Hussein porque neutralizava o Irão (se não quisesse o petróleo do Koweit ainda hoje reinava) e apoiou até há oito dias, Mubarak no Egipto, como continua hipocritamente a proteger todos os tiranetes dos países islâmicos e o sionismo de Israel; em nome da estabilidade e segurança da região.

 

A revolta das populações é contra os seus opressores e também contra a comunidade internacional. É evidente nas manifestações no Egipto que a mudança desejada não é para uma revolução fundamentalista; teve o seu início na convocatória do Movimento 6 de Abril através das redes sociais, participam todos os sectores da oposição e todas as classes sociais, reivindicam as liberdades individuais e o derrube do símbolo do actual poder.

 

Querem decidir sobre o seu futuro, querem poder manifestar-se sem serem presos, querem poder opor-se a quem decide sobre as suas vidas sem serem torturados, querem eleger os seus dirigentes políticos. Com que direito o ocidente que ataca noutras regiões os regimes de partido único quer impedir a democratização do mundo árabe? Há o receio que os extremistas ganhem eleições. Como por cá se diz, só onde há eleições livres há democracia, mas pelos vistos esse principio só se aplica onde as eleições garantam que ganham os partidos pró ocidentais. O ocidente não se importa que não haja eleições, nem que se faça batota como tem acontecido, nem que simplesmente se elimine fisicamente os opositores; esse ocidente não se pode intitular dos princípios democráticos, nem pode continuar a ser determinante numa região que tem como direito inalienável decidir sobre o seu destino.

Os extremistas islâmicos têm apoio das populações porque foram eles que substituíram os governos no apoio social aos mais pobres, e não pela razão religiosa; foi assim com o Hamas na Palestina durante o poder acusado de corrupção da OLP, com o Hezbollah no Líbano e com as várias facções dos Irmãos Muçulmanos. Se as ditaduras pró ocidentais do mundo árabe tivessem cuidado dos deveres da governação, dividindo os auxílios recebidos pelas populações em vez de pelos militantes, ou os lucros do petróleo não fossem para os primos, não teriam receio de eleições. A história não recua no tempo, a revolução islâmica no Irão fruto da ditadura de Reza Palevi tem opositores, como terá qualquer outra que se ensaie noutro país da região. E essa oposição não quer a outra ditadura “tipo ocidental”.

 

Os povos dos países de influência islâmica têm hoje mais escolaridade, mais contacto com o mundo, são mais e mais jovens e conhecem outras realidades; para o mal e para o bem também eles são filhos da globalização, da internet, estudam no exterior, recebem ocidentais, tem uma mundivivência que já não se compagina com a imagem medieval com que o ocidente os humilha. A revolta actual nem é popular nem islâmica, é democrática e teve já no Egipto uma grande vitória, o direito à manifestação. Falta o resto que é o futuro.

publicado por Carlos Loures às 11:00
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22 comentários:
De adão cruz a 3 de Fevereiro de 2011
Muito bom, Carlos Mesquita. Uma leitura a sério.
De augusta clara a 3 de Fevereiro de 2011
Estou de acordo contigo: falta o resto que é o futuro e, oxalá, seja o melhor para o povo egípcio.
De Carlos Loures a 3 de Fevereiro de 2011
Meu caro Carlos, não sou tão optimista como tu e não sei se esta revolta, que é democrática como eu já disse e, melhor do que eu, o Josep Vidal, irá desembocar na democracia - gostava muito de não ter razão. Tinha um texto para hoje sobre a «linhagem» militar, oriunda dos Oficiais Livres - Nasser , Sadat e Mubarak - mas os últimos desenvolvimentos, os confrontos de ontem sobretudo, levaram-me a rever tudo o que tinha escrito.
O teu texto é muito bom e gostava que fosse também profético, sobretudo o último parágrafo. Temo que apenas reflicta parcialmente a realidade do Egipto.
De augusta clara a 3 de Fevereiro de 2011
Gostava de lembrar que no tempo do Xá, no Irão, muitos jovens estudaram nas universidades dos Estados Unidos mas, mesmo assim, quando o Xá caiu não se evitou o fanatismo islâmico que se lhe seguiu.
De Carlos Mesquita a 3 de Fevereiro de 2011
Cada país é um caso, o Egipto é muito diferente do Irão, ambos têm como oposição mais organizada (o Irão antes, claro) os grupos religiosos. No Irão são Xiitas, mais radicais e com outros objectivos estratégicos, enquanto no Egipto os Irmãos Muçulmanos - Sunitas - falam em frente de oposição a Mubarak.
Nesta fase de derrube do poder para realizar eleições, os "Irmãos" ainda se apresentam mais moderados. Depois se verá, mas se atendermos ao que se passou na Jordânia há esperança. Ontem, Ângelo Correia lembrava que há tempos, na Jordânia, a "Irmandade" obteve 27% dos votos e quis pastas no governo, o rei deu-lhes a Saúde e a Educação (as suas esecialidades) e nas eleições seguintes tiveram 12%. O problema é "apenas" aceitarem o jogo democrático. Os Irmãos Muçulmanos têm aceite, e inclusive têm cristãos na sua Frente Eleitoral. Outra coisa seria se a Jihad Islâmica (de Al-Zawahiris, o médico da Al Qaeda) tivesse outra expressão, mas os atentados, o assassinato de Sadat e os massacres de Luxor, deixa-os de fora. E fora com islâmicos na despota democrática enfraquece-os. Como alternativa à ditadura não pode ser a ditadura dos opositores, quantos mais estiverem dentro da tenda melhor, fora da tenda a mijar lá para dentro é que não dá.
A "Irmandade" na Jordânia anda preocupada com a divida externa, é significativo.
Outra situação a ter em conta é o próximo governo do Líbano ir ter o apoio do Hezbollah. Vai resolver os problemas do Lìbano? Ou demonstrar que o Hezbollah não tem soluções?
Sem dúvida estamos a presenciar mudanças extraordinárias, penso que devemos olhar para elas com confiança. É fundamental para toda a região que a transformação democrática corra bem no grande Egipto.
De augusta clara a 3 de Fevereiro de 2011
Pois, quem dera, quem dera Carlos Mesquita. É caso para dizer: Deus te oiça! O maior país da região para meter Israel nos eixos que, quanto aos palestinianos, a Jordânia não tem poucas culpas no cartório.
De Carlos Loures a 3 de Fevereiro de 2011
In šāʾ Allāh - إن شاء الله
De augusta clara a 3 de Fevereiro de 2011
Procura lá em música :-) Quem cantava? Era o Adamo?
De Luis Moreira a 3 de Fevereiro de 2011
Há muito de esperança mas oxalá que acertes no que dizes, eu também acredito que a democracia ( mesmo não perfeita) esteja no caminho destes países e destes povos martirizados.
De Claudia a 3 de Fevereiro de 2011
"Os povos dos países de influência islâmica têm hoje mais escolaridade, mais contacto com o mundo, são mais e mais jovens e conhecem outras realidades; para o mal e para o bem também eles são filhos da globalização, da internet, estudam no exterior, recebem ocidentais, tem uma mundivivência que já não se compagina com a imagem medieval com que o ocidente os humilha."..não concordo com vc,o seu texto está muito otimista em relação ao futuro do povo islâmico ( o religioso,fiel) pois quando algo está muito enraizado não há crescimento intelectual que consiga afastar alguém de seu foco a naõ ser que este o queira e o povo islâmico mesmo estudando e morando no ocidente ainda conserva suas tradições com fidelidade e tudo é para reforço de sua fé e seu crescimento religioso no mundo inteiro.
De Luis Moreira a 3 de Fevereiro de 2011
Claudia, é bem verdade que a religião é coisa de Deus e que a política é coisa dos homens. Esse é um dos maiores constrangimentos daqueles povos. Obrigado pelo comentário, volte sempre.
De augusta clara a 3 de Fevereiro de 2011
Uma jornalista da TV egípcia demitiu-se por não poder falar livremente e ter sido ameaçada pelo governo, segundo a Aljazeera .

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