Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Depois da crise, que revoluções - por Jean-Claude Milner

 

Este texto é um excerto da "palestra inaugural" que Jean-Claude Milner proferiu segunda-feira, 20 Julho, em Montpellier, na abertura dos Encontros de Petrarca, organizados pela France Culture e o jornal Le Monde, no quadro do Festival de Radio France.

A observar sem paixão o capitalismo financeiro, mede-se a inutilidade das condenações morais. Para que este tenha imposto o seu domínio durante quase um quarto de século, é porque correspondeu, e em muito, a alguma necessidade objectiva. O que é que correu mal durante os últimos trinta anos, de onde acabámos de sair?

Júlio Marques Mota

Três coisas, sem precedentes na história do capitalismo. Em primeiro lugar, o mercado tornou-se verdadeiramente global, por outras palavras, ilimitado; uma vez que o antigo bloco de Leste e a China adoptaram as suas regras, este estendeu-se a todos os territórios e, nestes territórios, nada nem ninguém escapou ao seu domínio. Em segundo lugar, neste momento de uma globalização extrema, as nações herdeiras do capitalismo clássico terão perdido definitivamente o controlo directo ou indirecto dos recursos energéticos. O petróleo britânico suaviza um pouco este quadro, mas não o altera. Em terceiro lugar, um recurso natural chamou bem à atenção.

Através das técnicas de terror ou de necessidade, este pode ser mesmo muito barato; é renovável e é extremamente produtivo. Refiro-me à força de trabalho. Este é o principal recurso natural de que a China dispõe e ela explora-o intensivamente, sem problemas de consciência.

Resultado: as nações herdeiras viram desaparecer as suas vantagens, os seus lucros excessivos passaram para as mãos dos recém-chegados, alguns dos quais (a Rússia, a China, a Índia) ainda se atrevem a anunciar pretensões ao poder militar. Desde o tempo do ouro espanhol, o fluxo de dinheiro nunca tinha aumentado tão rapidamente e em tais proporções, mas estes fluxos desviam-se dos antigos santuários.

Uma invenção permitiu evitar o perigo: o novo capitalismo financeiro. Este concentra-se basicamente, em Wall Street e na City. São os lugares mais clássicos do capitalismo mais clássico. Dos lucros excessivos obtidos pelos proprietários de recursos naturais, uma parte investe-se em despesas de equipamento ou de puro prestígio; o resto volta para os antigos países da finança. Os lucros excessivos, uma vez aplicados, geram novos lucros excessivos; estes últimos são de novo aplicados, reinjectados, na máquina para novos lucros excessivos. Entre Nova Iorque, Londres e o Velho Continente, o lago Atlântico Norte torna-se no mare nostrum da riqueza. Roma está sempre em Roma.

Desde então, uma ilusão necessariamente se impõe como quase inevitável. Uma aplicação financeira traduz-se sempre numa transferência de dinheiro; se o investimento é benéfico, o movimento parece em si mesmo gerador de lucro. Desta ilusão, tira-se uma conclusão ao mesmo tempo perfeitamente lógica e perfeitamente ilusória, ela também: uma vez que o deslocamento do valor cria por si só valor, é então suficiente multiplicar as deslocações de dinheiro. Quanto mais sinuoso for o percurso de cada produto financeiro mais os lucros crescerão. Eles crescem, na realidade, a cada passo, a cada movimento. Labirintos e rizomas produzem, por si mesmos, um ouro sempre a jorrar. Os modelos matemáticos utilizados pelos operadores financeiros servem para os construir.

O dispositivo explodiu. Isto não significa que o problema que devia resolver tenha deixado de existir. Os grandes e pequenos barões do mare nostrum estão preocupados embora escondam essa preocupação. Alguns procuram novas soluções, outros pretendem reparar o que pode ser feito. Reduzir o consumo de energia, reduzir o custo da força de trabalho, consolidar os bancos, condenar a ganância, dialogar para nos embalarem, etc. As formas para o fazer são muitas; fazem pensar que há desacordo entre eles, mas deixam-se facilmente envaidecer. Vislumbra-se desde já que, no fim de contas, tudo será concluído com um acordo de conveniência e pode-se igualmente esperar que não passará por massacres, como aconteceu durante 10 anos após 1929.

Mas o reino do capitalismo financeiro deixou marcas profundas. Que este se restabeleça, intacto ou não, os seus efeitos vão bem para além da finança e da economia. Este tipo de capitalismo organizou uma visão do mundo, e é contra o que dele resta que nós nos confrontamos, sob a forma de lições a aprender. Primeira lição: interrogamo-nos sobre as causas da crise. Mas, no fundo, pouco importam os detalhes. Conhecemos antecipadamente a conclusão; invocar-se-á uma combinação de factores que os peritos consideravam altamente improváveis. Ora, é exactamente aqui que está o centro da questão. Chegamos assim a uma das principais características da gestão moderna; ser perito, consiste em determinar pelo cálculo uma escala indo do mais provável ao mais improvável. Daqui se segue, consequentemente, o conselho dado aos decisores: “não dêem atenção ao mais improvável”. Este conselho foi geralmente aceite e executado. Para o pior, porque este conduziu necessariamente à catástrofe. É que a sociedade moderna vive sob o regime do ilimitado; ora, nos entrecruzamentos ilimitados de séries ilimitadas, o mais improvável acontece obrigatoriamente e, geralmente, de forma muito rápida. Desconfiar da amostragem estatística deverá ser o primeiro mandamento em política. Não me parece que os homens políticos disso estejam conscientes.

Segunda lição: o reinado do capitalismo financeiro confirmou a emergência material de não importa quem. Qualquer pessoa pode tornar-se rica fazendo seja o que for e não são só os operadores na Bolsa que acreditam nisso. Para além do enriquecimento, todo o pensamento, em todos os seus aspectos, mergulhou em não importa em quê desde que indiferenciado. A estatística propôs a matematização. Alguns doutrinários disso fizeram um princípio de ética política. A democracia, proclamam eles, é quem não importa quem decide sobre não importa o quê. Substitua a palavra "decidir" por um outro verbo de sua escolha: "descarregar", "mostrar", "proibir", "ajudar" e ter-se-ão obtido os elementos do consenso reinante. Este “não importa quem” político ou social não é senão o “ não importa quem” do capitalismo financeiro. Os exaltados do participativo fariam bem em pensar nisso; eles apenas sublimam as mais baixas ilusões do mercado. Que eles tenham convencido a maior parte das pessoas honestas para partilhar a sua dependência é uma realidade e é a sua mais grave falha.

Terceira lição: fala-se de regulação. Seja, mas surge uma pergunta: quem estabelece as regras? O capitalismo financeiro reitera a sua resposta: não importa quem. Porque o capitalismo financeiro não existe sem regras: pelo contrário, está cheio delas. Qualquer astuto banqueiro poderia produzi-las à sua vontade. Do mesmo modo, o neodemocrata, perigoso na sua ordem tal como o neoconservador, aceita todas as regras, desde que o seu autor seja no sentido estrito não importa quem. Houve uma idade trágica na Grécia; terá havido, de facto, uma idade da bolsa da sociedade moderna, e que coincide com o que Foucault chamou a sociedade de controlo. Ilimitada multiplicação das regras, ilimitada multiplicação de fontes de regras, as liberdades não sobrevivem a isso. Nós temo-lo suficientemente sentido.

A crise financeira arrancou o véu que cobria uma crise infinitamente muito mais profunda. Se a razão prevalecesse, ninguém deveria continuar a acreditar nos contos de fadas. Não é qualquer regra que é equivalente a qualquer outra; não importa quem não tem legitimidade para as fazer. Isto produz a clássica pergunta: quais são as fontes possíveis das regras e de que regras? Os povos, a representação nacional, os parceiros sociais?

Diante do desastre da sociedade de não importa quem, uma certeza se impõe: mais vale que as fontes sejam pouco numerosas e claramente definidas. Em suma, mais valem as instituições. Nacionais, supranacionais, internacionais, as circunstâncias decidirão. Quer se trate do mercado ou da opinião pública ou da sociedade ou da política, não existe mão invisível.

Jean-Claude Milner, « Après la crise, quelle(s) revolution(s) », Le Monde, 14.07.09

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira em 01/02/2011 às 18:08
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