Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Contra a cegueira voluntária - por Max Dorra

Para lá da crise, pontos de vista de  Max Dorra em que se sublinha que  para  sair da crise se exige que “Toda a gente, principalmente  os intelectuais, tinham participado neste trabalho obscuro, obstinado, inflexível, de desbloquear o pensamento. O indispensável preliminar”. Desbloquear o pensamento é então este o caminho a fazer, o caminho por todos nós a termos de percorrer. Preliminar para a saída da crise.

Júlio Marques Mota

Nesse tempo - nas primeiras décadas do século XXI - o absurdo disputava-se contra a barbárie. Em França, nas escolas, as turmas de mais de trinta alunos tornavam o ensino quase impossível, excepto para um pequeno número de privilegiados. Os trabalhadores viviam sete anos a menos do que os executivos e, quando veio uma onda de calor no Verão, 15 000 velhos, entre os mais pobres, morreram porque ninguém estava lá para lhes dar de beber; isto foi rapidamente esquecido.



Poucos dias se passavam sem que não houvesse a informação de um suicídio entre os prisioneiros (e por vezes entre os seus supervisores) nas prisões superlotadas. Hospitais a funcionarem como empresas, e uma vez que tinham que ser "rentáveis", foram sujeitos a avaliações, classificações, cujo efeito perverso não se fez esperar: os "melhores" serviços foram aqueles em que a duração de estada era a mais curta, o que incitava a uma selecção de pacientes.


Ao mesmo tempo, os africanos viviam trinta anos a menos do que os europeus, 200 milhões de crianças em todo o mundo estavam a trabalhar como escravos, 6 milhões delas morrem anualmente de desnutrição. De tudo isto, muitas pessoas se indignavam, mas a maioria, certamente, por uma espécie de cegueira voluntária preferia - como os biólogos soviéticos que anteriormente tinham negado os dados da genética - viver na ignorância dos factos que os podiam perturbar.


No que diz respeito à "negação da realidade", é agora, como sabemos, uma questão frequentemente levantada nos exames nacionais do final do secundário : "comente as frases históricas proferidas pelo Ministro da Economia, das Finanças e do Emprego, Christine Lagarde, em 10 de Julho de 2007 na Assembleia Nacional: "Entre a igualdade de todos na linha de partida e os resultados de cada um à chegada, o trabalho faz do indivíduo o único responsável pelo seu próprio caminho (... ). Deixemos de opor  os ricos aos pobres (...). A luta de classes, esta ideia já não tem nenhuma utilidade para compreender a nossa sociedade”.

As pessoas vivem assim numa espécie de anestesia sustentada pelas quatro horas gastas diariamente com os grandes media. Na televisão, em particular, "a grande arma absoluta ", disse Georges Pompidou. Está em todos os lugares, oferecendo - e não apenas aos solitários - um grupo imaginário, uma família à qual se pertenceria com a condição de respeitar as suas regras, o seu tom. Nos estúdios, um sorriso permanente é de rigor, o tempo da palavra é curto, envolvendo uma simplificação empobrecedora dos temas mais complexos.


Uma debilidade urde, em suma, durante a maior parte do tempo, o que poderá resultar a longo prazo e que se descobriu após uma investigação médica: um risco acrescido de desenvolver a doença de Alzheimer. Nestes media, a informação essencial é feita de modo quase imperceptível, porque é precedida por uma história muito movimentada e seguida pelos resultados desportivos , mais excitantes e tanto mais que por todo o lado reina a ideologia dominante do ganhador".


É de tudo isto que a personalização da política também está encharcada. A face, a expressão facial dos apresentadores completam o desviar da atenção necessário para este prática de escamotear as situações. Um processo muito semelhante a este que Eisenstein chamava "montagem patética". E é em uma espécie de montagem em que cada um está cercado, ou em que os afectos desempenham entre os planos, o papel de drogas leves, de ligações inumeráveis e discretas.


São todos estes isolamentos que asseguram o sequestro numa armadilha em que mesmo os mais inteligentes são apanhados. Porque a ideologia dominante é uma montagem subtil, insidiosa, ao mesmo tempo objectiva e produtora de subjectividade. Uma prisão sem paredes visíveis que se assume como insuperável. Mas disto, alguns tinham tão pouca consciência que se falava na altura do "fim da história", quando ainda não se tinha saído da pré-história. Os conservadores tratavam pois os progressistas de idealistas, sonhadores, utópicos, digamos mesmo de utópicos perigosos, uma vez que muitas revoluções tinham até agora falhadas. Para se livrarem do fardo que os incomodava há quase um século - o estalinismo, o maoísmo - os líderes da esquerda decidiram fazer uma profunda análise de diagnóstico para que nunca mais se repitam estas derrapagens mortíferas.


A dificuldade foi que os Partidos Progressistas para quem o sufrágio universal tinha dado, tendo em conta a realidade social, legítimas vitórias eleitorais estavam estupidamente divididos. Uma certa visão do mundo, no entanto, um discurso claro, poderia tê-los levado a reunir-se para além das suas querelas fúteis. Como, por exemplo, entre os "revolucionários" e  os "reformistas", o primeiro destes termos, a lembrar inevitavelmente a imagem de sangrentos tumultos, enquanto o último é sinónimo de fraqueza e até mesmo de traição, o que suscitava imediatamente o desprezo.

A realidade diz-nos porém que qualquer mudança real é radical, e que esta radicalidade não exige de modo algum a violência, mas certamente uma forte crença, rigorosamente bem fundamentada, convincente. Ou seja, motivadora. Alcançadas assim, e com um forte movimento social, as conquistas sociais da Frente Popular em 1936, a Segurança Social em 1945, tinham gerado uma verdadeira mudança da própria vida, o que poderia ter sido apenas um primeiro passo.


A saída deste mau filme em que a esquerda, contra vontade, tinha sido encarcerada, iniciou-se  quando a esquerda, tornando-se esquerda e simultaneamente combativa e imaginativa levou a que os pobres tenham deixado de votar à direita ou de abster.  Marx, póstumo Prémio Nobel da Economia em 2012, tinha razão em relação ao capitalismo e às suas crises: não se moraliza uma lógica, a lógica dos abutres. Por outro lado, ele provavelmente tinha sido enganado principalmente quando, invocando o papel das infra-estruturas económicas, parecia subestimar o poder das palavras (e por exemplo das suas próprias...).


Agnès Guillemot, que faz a montagem dos filmes de Godard, quando chamada para recuperar um filme estragado por uma medíocre montagem e em que tentava encontrar um sentido perdido, visionava com atenção todas as cenas e recuperava, por vezes, mesmo, as que tinham sido consideradas inúteis. O trabalho do sonho, igualmente, inventa novos jogos de possíveis antes destes serem mesmo perceptíveis. Descobrimos assim que o pesadelo vivido pelo homem nas primeiras décadas do século XXI, foi causado por uma doença ainda não diagnosticada.


A doença do valor venal, a partir das mercadorias tornadas loucas, tinha contaminado os humanos invadindo os seus pensamentos, os seus desejos e até a imagem que tinham de si mesmos, e tudo isto num universo de casino e de batota dedicado exclusivamente ao lucro  e regido pelo dinheiro, onde reinava, portanto, fortemente e de modo insolente a desigualdade. Tudo e todos era aí  avaliado, classificado e classificante o que resumia o próprio sentido, de tão pobre que até fazia chorar, desta delirante montagem. Nós não compreendemos realmente bem, retrospectivamente, como é que esta aberração pode ter deixado de existir. A única coisa de que se poder estar certo é que a educação e os meios de comunicação se tornaram decididamente o objectivo prioritário. O objectivo de um projecto educacional de que aqui apenas podemos delinear as suas bases é de que a escola já não seja uma máquina deprimente e que deprima, mas que em vez disso aí se passa a encontrar os conceitos e as palavras que podem resistir à violência simbólica, à manipulação.


Em suma, libertar-se da ansiedade pela desmontagem do seu mecanismo. Convém igualmente ensinar a história do progresso científico e artístico, ilustrando cada um à sua maneira a coragem necessária quando, oposição minoritária, se enfrentou o pensamento de um grupo. Quanto aos meios de comunicação social, os seus ritmos, as suas montagem ilusionistas finamente analisados pelo cineasta inglês Peter Watkins, foi decidido não deixar que nenhum plano, nenhuma ligação se perca. As informações, muitas vezes erradas, mas, muitas vezes também envoltas numa linguagem de intimidação, bombardeadas com altivez pelos "peritos" conservadores deviam ser submetidas ao crivo de uma rigorosa análise feita pelos próprios jornalistas, o que alguns " observatórios dos media " começaram já a fazer.


Esta desmontagem paciente, talvez tenha sido essencial para combater a manipulação da opinião pública através dos meios de comunicação, meios de comunicação social que foi acordado por unanimidade - a fim de acabar com a auto-censura provocada pelo medo - defender com unhas e dentes, a independência, relativamente a qualquer poder político ou financeiro. Só então ganha sentido a passagem pelas diferentes situações de isolamento: não se tratará mais de caucionar, por um voto aparentemente livre ideias impostas ao longo de uma extensa formatação mantida durante anos.
Toda a gente, principalmente  os intelectuais, tinham participado neste trabalho obscuro, obstinado, inflexível, de desbloquear o pensamento. O indispensável preliminar.

Max Dorra, Contre La cecité volontaire, Le Monde, 27 de Junho de 2009.

publicado por Carlos Loures às 20:00

editado por Luis Moreira às 01:34
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