Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL . 16 – por António Augusto Sales

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Percurso Esgotado

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mês e meio separa-o da morte, um tempo que não posso reconstituir por ausência de acontecimentos relevantes para António Botto. Tudo vulgar, tudo normal, como se um vazio se tivesse abatido sobre o poeta durante esse curto período. Modesta a vida do casal, sem aquelas peripécias de incumprimento de dívidas e até a saúde tinha estabilizado na sua fragilidade. Estava sereno como raras vezes estivera nos últimos anos pois não andava aos tombos, mais por mercê dos amigos que visitava, diga-se em abono da verdade, que por sua iniciativa de trabalho. Paulo Rabello era assíduo mártir das suas investidas, Pedro Bloch – seu médico dedicado – dava-lhe consultas graciosas, Danton Jobim e Saldanha Coelho ajudavam-no muitas vezes segundo o diz Alberto da Costa e Silva no seu livro Invenção do Desenho. As noites, senão todas muitas delas, eram ocupadas no restaurante “O Corridinho”, casa típica portuguesa onde costumava dizer poesia para ganhar uns cobres. Dias antes de ser atropelado concede uma entrevista que virá a ser publicada já depois da sua morte no jornal A Voz de Portugal, na página de espectáculo Esta Semana Aconteceu, dirigida por José Maria Rodrigues também correspondente da revista portuguesa O Século Ilustrado. A entrevista acompanha uma emocionada e comovedora reportagem sobre a morte do poeta e terá sido a última que ele deu antes de falecer. Ocupa meia página com duas fotos onde podemos ver além de António Botto, o proprietário António Mestre e Ivone Ruth, o cronista Marcos André, o editor António Pedro Rodrigues e o citado jornalista a quem o escritor responde que vão aparecer novas obras suas as quais «foram batizadas com estes nomes que [lhe] parecem bastante sugestivos: Ainda não se escreveu, primeiro volume de 500 páginas [tinha que ser coisa em grande], Os Mastros do meu Navio, O Livro da Revolta Mundial» e vai por aí fora com mais cinco títulos e um estudo sobre Fernando Pessoa. Longe das tais quinhentas páginas só apareceu postumamente o primeiro título, os outros correspondem a projectos ou trabalhos em esboço como seria o caso de O Verdadeiro Fernando Pessoa (BNL – espólio de AB – cota E12/198) em que Botto evoca a sua amizade com o poeta de Ode Marítima, as conversas no Martinho da Arcada e os conselhos que lhe dava como se fosse o seu guia. «A sua obra não era obra, não nos deixou obra alguma; deixou dispersos desarrumados em prosa e verso», escreve sobre o homem que morre, efectivamente, com os «dispersos desarrumados» e quase desconhecido, mesmo no seu país, classificando as Odes de Ricardo Reis um «jogo gongórico» em que teria procurado imitar-lhe as Canções. Mesmo sendo um texto que não teve publicação a indesmentível amizade de Fernando Pessoa, este sim verdadeiro amigo e impulsionador da sua obra, merecia mais sensatez.

 

Deambulava na noite do Rio, escrevi na primeira edição (António Botto, Real e Imaginário – edição Livros do Brasil - Lisboa 1997) quando foi atropelado na Avenida Copacabana, em frente ao Lido, em 4 de Março de 1959. O verbo deambular transmite a ideia de que António Botto andaria por ali à deriva o que não era o caso. Hoje sabe-se que teria decidido ir ter com o seu amigo Paulo Rabello pelo que saiu de casa (ali perto), com vestimenta ligeira e sem documentação. Nessa altura já bastante surdo, ao atravessar a movimentada avenida o poeta é atropelado por um veículo do governo brasileiro (automóvel da aeronáutica informam uns jornais, um camião noticia outro), cujo motorista põe-se em fuga mas sendo a matrícula registada por transeuntes é depois participado às autoridades. Entretanto, Botto fica imobilizado no asfalto com fractura de crânio até ser posteriormente conduzido para um hospital. A ausência do poeta ao encontro com Rabello leva o advogado e D. Carminda a contactarem amigos, polícia e hospitais onde será localizado na madrugada do dia cinco em estado de coma.

 

Quando a imprensa começa a noticiar o acidente damos conta de várias versões sobre o hospital em que a vitima terá dado entrada, seja no Hospital do Pronto-Socorro, no Miguel do Couto ou no Sousa Aguiar, onde na verdade veio a falecer. A questão da transferência para outro hospital enquanto vivo (também falada para o Gomes Lopes), não se terá verificado por oposição dos médicos Guilherme Romano e Herbert Moses, que o assistiam, dada a gravidade do seu estado (Voz de Portugal, 22.03.1959). Transferência houve, sim, mas para um quarto particular por ordem do secretário da saúde do Rio de Janeiro.

 

Logo que o poeta foi identificado apresentaram-se no hospital representantes da prefeitura da cidade, das associações portuguesa e brasileira de imprensa e da brasileira de escritores. O embaixador português, Dr. Manuel Rocheta, que se encontrava fora da embaixada, providenciou para que o cônsul geral visitasse o sinistrado e providenciasse no que fosse preciso. Em Portugal a imprensa escreve que António Botto deu entrada no hospital como indigente, fazendo assim acreditar que ele encontrava-se num estado de extrema pobreza. De facto, como indigente o registaram por ser um sinistrado desconhecido e indocumentado que após ter sido identificado nada lhe faltou.

 

Apesar do comportamento muitas vezes criticável, das frequentes confusões em que se metia, dos permanentes empréstimos que pedia, das mentiras com que alimentava a sua personalidade, Botto jamais foi escorraçado ou abandonado nos piores momentos. O Brasil que o acolheu em glória também o respeitou na modéstia da sua condição de escritor em decadência não deixando sequer de dar uma larga cobertura jornalística aos acontecimentos dos seus últimos dias.

 

(continua)

________________

 

As Canções de António Botto

 

 

Toda a Vida – poema 1

 

Pág. 319 – ed. Livraria Bertrand – Lx. 1956

 

 

Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo, - a luz do dia.

Bendito seja o teu sorriso

Que desata a inspiração da minha fantasia.

Se fosses flor

Serias o perfume, concentrado e divino,

Que perturba o sentir de que nasce para amar.

Se desejo o teu corpo

Para nele poder todas as noites pernoitar

É porque tenho, dentro de mim, -

A sede e a vibração de te abraçar,

Sabendo, de antemão, que vais gostar

De eu o saber atravessar, nessa nudez

Em que podemos, ambos, tudo sentir

Sem nos cansar, -

E adormecer, E repetir.

 

Se fosses água, música da terra,

Serias água pura e sempre calma.

 

Mas de tudo que possas, ainda, ser na vida,

Só quero, meu amor, que sejas alma.

publicado por João Machado às 23:55
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